O silêncio dos corredores reais foi quebrado pelo tilintar suave do cristal contra o chão de pedra. Siena caminhava com passos incertos, o olhar nublado pela névoa do vinho. A camisola de seda fina, de um tom verde profundo que lembrava as florestas de Valória, escorregava por seus ombros, mas ela não se importava.

​Sem bater, ela empurrou a pesada porta de carvalho de Arthur. O quarto estava mergulhado em penumbra, iluminado apenas pelas brasas moribundas na lareira. Arthur dormia profundamente, a expressão austera que ele carregava durante o dia finalmente suavizada pelo descanso.

​Siena soltou uma risada abafada e, com a audácia que só a embriaguez proporciona, subiu na cama e se deixou cair pesadamente sobre o peito dele.

​— Acorda, Capitão... — sussurrou ela, aproximando o rosto do dele.

​O movimento súbito e o peso extra fizeram Arthur despertar de um salto. O instinto de guerreiro foi o primeiro a reagir; seus olhos abriram-se abruptamente, as pupilas dilatadas pelo susto. Antes que ele pudesse processar a situação, sentiu a respiração de Siena, com um forte aroma de uvas fermentadas, perigosamente próxima à sua.

​Ela inclinou o rosto, a intenção de um beijo clara em seus olhos nublados, mas Arthur foi mais rápido. Em um reflexo de puro autocontrole, ele virou o rosto para o lado no último segundo. Os lábios de Siena encontraram apenas o ar frio.

​— Siena?! — A voz de Arthur saiu grave, um misto de choque e indignação. — O que você está fazendo? Você está... você está bêbada!

​Ele segurou-a pelos ombros, tentando afastá-la para que pudesse se sentar, mas Siena era como uma trepadeira teimosa. Ela se enrolou nele, rindo da sua desorientação.

​— Eu estou maravilhosa, Arthur — ela rebateu, a voz arrastada. Ela levou a mão ao rosto dele, os dedos traçando a linha da mandíbula com uma lentidão torturante. — Você é tão certinho... até dormindo parece que está pronto para uma inspeção de tropa. Relaxa um pouco...

​— Siena, saia de cima de mim — ele ordenou, a voz soando mais como um súplica desesperada. Ele sentia o calor da pele dela através da seda fina e a proximidade era um teste de resistência que ele não queria enfrentar naquele estado. — Você não sabe o que está fazendo.

​— Eu sei exatamente o que estou fazendo — ela provocou, deslizando o corpo sobre o dele, os olhos em chamas fixos nos dele, que tentavam desesperadamente focar em qualquer outra coisa. — Estou visitando meu primo favorito. Aquele que fica todo vermelho quando eu toco nele.

​Arthur soltou um rosnado de frustração e, em um movimento firme e decidido, segurou os pulsos dela, prendendo-os contra o colchão para impedir que ela continuasse a "exploração". Ele se sentou, forçando-a a deslizar para o seu colo, mas mantendo a distância necessária.

​— Chega — ele disse, a voz agora cortante como gelo. — Você vai para o seu quarto agora. Se o seu pai entra aqui e te vê assim... ou se a Rainha Catarina te encontra nesse estado...

​— Eles não vão entrar — ela murmurou, tentando soltar os pulsos, um sorriso travesso ainda brincando em seus lábios. — Eles acham que você é o santo protetor da família, Arthur. Eles nunca imaginariam que você está aqui... me segurando com tanta força.

​Arthur sentiu o sangue latejar em suas têmporas. Ele a soltou e levantou-se da cama em um movimento único, indo até a mesa para acender uma pequena vela, precisando de luz e distância.

​— Eu vou chamar a sua ama para te levar — ele disse, de costas para ela, os ombros tensos. — Esqueça que isso aconteceu, Siena. Amanhã, quando a sua cabeça estiver latejando, você vai agradecer por eu ter mais juízo que você.

​Siena sentou-se na cama, a camisola desalinhada, observando as costas largas do primo. O riso dela desapareceu, substituído por um olhar de frustração genuína.

​— Você é um covarde, Arthur — ela disse, a voz um pouco mais firme, mas ainda afetada pelo álcool. — Um covarde escondido atrás de um manual de regras.

​— E você é uma inconsequente — ele rebateu, finalmente virando-se, a luz da vela projetando sombras duras em seu rosto. — Agora, saia. Antes que eu perca a pouca paciência que me resta e te carregue até o quarto da sua mãe pessoalmente.

​Siena levantou-se, cambaleando levemente, e pegou sua garrafa de vinho que havia deixado perto da cama. Ela caminhou até a porta, mas parou antes de sair, lançando um último olhar por cima do ombro.

​— A disciplina é uma prisão bonita, Arthur. Mas tome cuidado... paredes de gelo também derretem.

​Ela saiu, deixando o aroma de vinho e provocação pairando no ar. Arthur soprou a vela, mas não voltou a dormir. Ele ficou sentado no escuro, o coração batendo em um ritmo que nenhuma estratégia militar seria capaz de acalmar.