A manhã em Astúria nasceu com uma claridade impiedosa, o tipo de luz que parece feita sob medida para punir quem abusou do vinho na noite anterior. No salão de café, a mesa estava fosta com frutas frescas, pães quentes e o aroma forte de café que, para alguns, era um convite, mas para Siena, era um gatilho para o desastre.

​Quando as portas se abriram, o silêncio da refeição foi interrompido por passos lentos e pesados. Siena entrou no salão com a postura de quem carregava o peso de todo o castelo nos ombros. Seus olhos estavam semicerrados contra o brilho das janelas, os cabelos, embora penteados, careciam do brilho habitual, e sua pele tinha uma palidez que contrastava com as olheiras profundas.

​Richard, que já havia devorado metade de um prato de rabanadas, foi o primeiro a notar. Ele soltou uma risada ruidosa que fez Siena encolher os ombros como se tivesse recebido um golpe físico.

​— Pelos deuses! — exclamou Richard, apontando com o garfo. — Parece que a nossa pequena loba travou uma batalha contra uma barrica de vinho do Porto... e a barrica venceu por nocaute!

​— Richard, tenha modos — repreendeu Katrina, embora o sorriso de canto denunciasse sua diversão. Ela empurrou uma jarra de água gelada na direção da neta quando Siena se sentou. — Beba. Você parece uma alma penada que esqueceu o caminho do cemitério.

​Catarina observava a filha por cima da sua xícara de porcelana. Como Rainha, ela mantinha a compostura, mas como mãe, havia um brilho de advertência em seu olhar.

​— Noite longa, Siena? — perguntou Catarina, a voz suave, mas carregada de subtexto. — Espero que o que quer que tenha buscado no fundo da garrafa tenha valido a dor de cabeça desta manhã.

​Siena soltou um resmungo ininteligível, evitando olhar para qualquer pessoa. Sua mão tremeu levemente ao tentar segurar o copo de água.

​— Foi apenas... o calor — murmurou ela, a voz rouca e falha. — O quarto estava abafado.

​— O calor, claro — debochou Julian, rindo enquanto Aria lhe servia mais café. — O calor que vem em garrafas de safra antiga. Arthur, você não diz nada? Você e ela costumavam ser os mestres das desculpas esfarrapadas.

​O nome dele fez o estômago de Siena dar um solavanco. Pela primeira vez desde que entrou, ela arriscou olhar para o lado oposto da mesa.

​Arthur estava sentado em sua rigidez habitual. Ele não ria, não fazia piadas e, ao contrário dos outros, não oferecia nem mesmo um olhar de reprovação. Ele estava mergulhado em um silêncio absoluto e gélido. Seus olhos estavam fixos em um relatório de patrulha ao lado de seu prato, e ele levava a xícara aos lábios com uma calma mecânica.

​Para Siena, aquele silêncio era pior do que qualquer deboche de Richard. Era o silêncio de quem lembrava de cada detalhe da noite anterior — do peso dela sobre ele, do cheiro de álcool, da tentativa de beijo e da expulsão humilhante.

​— Arthur? — insistiu Julian, estranhando o silêncio do filho. — Nada a declarar sobre o estado da sua prima?

​Arthur finalmente ergueu os olhos. Ele olhou diretamente para Siena. Não havia raiva, mas também não havia cumplicidade. Era o olhar de um estranho avaliando um soldado que falhou em seu posto.

​— O estado de Siena não me diz respeito — disse ele, a voz fria e impessoal como o mármore. — Cada um deve arcar com as consequências de suas próprias escolhas e da sua falta de controle. Com licença, Majestades. Tenho inspeções a fazer.

​Ele se levantou, fez uma reverência impecável para Caelum e Catarina, e saiu do salão sem olhar para trás. O som de suas botas ecoando no piso de pedra parecia martelar o crânio de Siena.

​— Nossa... — murmurou Aria, quebrando o clima tenso. — Alguém acordou de mau humor hoje.

​Siena baixou a cabeça, sentindo o rosto esquentar — e desta vez não era pela bebida. O deboche da família ela podia suportar, mas o desprezo silencioso de Arthur era uma ressaca que nenhuma água ou café seria capaz de curar. Ela entendeu o recado: para ele, a noite passada não fora um jogo de sedução, fora apenas uma prova de que ela ainda era a criança inconsequente que ele não podia respeitar.