Legado de Sangue e Ouro livro 3
1 O Retorno do Falcão
O pátio principal do castelo estava impecável. O Rei Caelum e a Rainha Catarina encabeçavam a recepção, acompanhados por Julian e Aria, que mal conseguiam conter a ansiedade para ver o filho após tanto tempo. Richard e Katrina, agora com os cabelos prateados, mas o mesmo brilho debochado no olhar, comentavam sobre como o tempo voava.
O som de cascos pesados contra a pedra anunciou a chegada. Uma comitiva de cavaleiros em armaduras polidas entrou no pátio, e à frente deles estava ele. Arthur apeou do cavalo com uma elegância fria. Aos 21 anos, ele era o retrato da disciplina: ombros largos, o queixo erguido e um olhar que parecia analisar cada risco estratégico do ambiente.
— Majestade. Pai. Mãe — ele disse, fazendo uma reverência perfeita, sua voz agora um barítono profundo e seco.
— Pelos deuses, ele engoliu uma estátua de mármore no internato? — cochichou Julian para Aria, chocado com a seriedade do filho.
Mas o silêncio solene da recepção durou pouco. Um grito agudo vindo das ameias do castelo fez todos olharem para cima.
— OLHA A BOMBA, PRIMINHO!
Antes que Arthur pudesse processar o som, um vulto de seda vermelha e botas de couro saltou de uma sacada a três metros de altura. Siena, agora com quase 20 anos e a beleza selvagem de uma loba, caiu exatamente sobre as costas de Arthur, agarrando-o pelo pescoço em um "mata-leão" nada diplomático.
— Ficou sabendo que eu ia chegar e resolveu virar uma estátua de gelo, Arthur?! — ela gritou, rindo e bagunçando o cabelo dele, que estava perfeitamente penteado. — Senti saudades de ter em quem bater!
Arthur, que não se moveu um centímetro com o impacto (sua força agora era real), suspirou pesadamente. Ele a segurou pelos pulsos com uma mão só e a colocou no chão com a facilidade de quem move um móvel leve.
— Siena — ele disse, limpando a poeira invisível de seu ombro e encarando-a com uma expressão gélida. — Eu esperava que, em cinco anos, você tivesse aprendido a usar as escadas. Ou, pelo menos, a se comportar como uma dama da sua posição.
Siena parou, colocou as mãos na cintura e soltou uma gargalhada que ecoou por todo o pátio.
— E eu esperava que você voltasse um guerreiro, não um tutor de etiqueta de 80 anos! — Ela se aproximou, ficando cara a cara com ele, desafiando a nova estatura do primo. — O que foi? O internato arrancou o seu senso de humor ou você só esqueceu como se diverte em Astúria?
Caelum e Catarina trocaram olhares. O Rei parecia querer se esconder atrás do trono, enquanto Catarina tinha um sorriso de "eu avisei" nos lábios.
— Bem-vindo de volta, Arthur — disse Catarina, aproximando-se. — Como pode ver, sua prima passou os últimos anos praticando como ser o seu pior pesadelo.
Arthur olhou para a prima — que agora exibia uma pequena adaga presa à bota e um sorriso de quem ia causar problemas — e sentiu que sua sonhada paz após anos de academia acabara de ser oficialmente destruída.
— Vejo que nada mudou — resmungou Arthur, embora, por um breve segundo, o canto de sua boca tenha ameaçado subir. — Preparem o pátio de treinos para amanhã. Alguém precisa ensinar a essa "loba" o que significa disciplina militar.
— Tente a sorte, Capitão — Siena piscou para ele, já planejando como pintaria o cavalo dele de azul naquela mesma noite. — AstúrCom certeza! O retorno de Arthur não é apenas um reencontro entre primos, é o momento em que todas as peças do tabuleiro de Astúria se juntam sob o mesmo teto. Com a nova hierarquia definida, o castelo está mais cheio de vida (e de confusões) do que nunca.
O pátio ainda ressoava com a gargalhada de Siena, enquanto Arthur tentava manter a sua postura impecável sob o olhar divertido de todos.
— Vejam só — disse uma voz profunda e carregada de autoridade, vinda do topo da escadaria principal.
Gaspar, o Rei Emérito, descia os degraus lentamente ao lado de Claire. Ele não usava mais a coroa pesada, trocada por uma túnica de veludo confortável, mas sua presença ainda comandava o ambiente. Claire, com sua elegância eterna e cabelos agora completamente prateados, apoiava-se levemente no braço do marido.
— O meu neto voltou com a rigidez de um carvalho das Terras Altas — brincou Gaspar, abraçando Arthur com força. — Mas vejo que a sua prima continua sendo o vendaval que vai te derrubar.
— Vovô, eu só estava garantindo que ele não esqueceu como se defende — Siena piscou, abraçando Claire, que retribuiu com um carinho calmo.
— Ele parece um homem feito, Gaspar — comentou Claire, analisando Arthur. — Mas tem os olhos cansados de quem leu manuais de guerra demais. Ele precisa de um pouco do caos de Astúria para recuperar a cor.
Logo atrás, surgiram Richard e Katrina. Richard, agora com uma barba branca que ele ostentava com orgulho, soltou uma de suas famosas gargalhadas ruidosas.
— Olhe para esse rapaz, Katrina! — Richard deu um tapa amigável no ombro de Arthur, que quase o fez cambalear. — Ele está tão sério que parece que vai nos dar um sermão sobre impostos a qualquer momento. Onde está o menino que me ajudava a roubar tortas da cozinha?
— Ele cresceu, Richard. Diferente de você, que continua com a maturidade de um pajem — provocou Katrina, aproximando-se para beijar o rosto do neto. — Bem-vindo, Arthur. Não ligue para eles. Eles só estão com inveja da sua disciplina, algo que nunca existiu neste castelo antes de você partir.
No centro de tudo, Caelum e Catarina, agora ostentando as coroas de Rei e Rainha, observavam a cena. Caelum mantinha as mãos unidas atrás das costas, uma imagem de estabilidade, enquanto Catarina, ao seu lado, tinha aquele brilho indomável nos olhos que Siena herdara perfeitamente.
— Como Rei, eu deveria dar-lhe as boas-vindas oficiais — começou Caelum, com um meio sorriso. — Mas, como tio, eu só quero saber se você trouxe o xadrez. Sinto falta de um oponente que não tente trapacear como o seu pai.
— Ei! — protestou Julian, o Duque de Valória, abraçando a esposa Aria, a Duquesa. — Eu não trapaceio, Caelum. Eu apenas uso táticas não convencionais de diversão!
— Julian, querido, você trocou o bispo por um pedaço de queijo na última vez — lembrou Aria, fazendo todos rirem.
O Jantar de Reencontro
Mais tarde, no grande salão, a mesa estava farta. Era uma cena que remetia aos velhos tempos, mas com uma nova energia. Gaspar e Richard discutiam táticas antigas, enquanto Claire e Katrina trocavam segredos sobre como governar os maridos sem que eles percebessem.
Arthur, sentado entre seus pais, Julian e Aria, tentava se adaptar ao barulho. No internato, as refeições eram feitas em silêncio absoluto. Ali, era um bombardeio de vozes, risadas e provocações.
— Então, Arthur — começou Siena, do outro lado da mesa, apontando com uma faca de frutas — agora que você é o "Capitão Perfeito", vai passar os dias revisando as patrulhas da fronteira ou vai ter coragem de me enfrentar no pátio amanhã cedo?
Arthur largou os talheres com precisão milimétrica. Ele olhou para a prima, cujos olhos desafiadores brilhavam sob a luz das velas.
— Eu pretendo reorganizar a guarda pessoal do Rei, Siena — ele disse, com a voz gélida. — E se isso incluir tirar certas princesas de cima das sacadas para que não quebrem o pescoço, assim será feito.
— Ah, Caelum — Catarina sussurrou para o marido — parece que a paz que tivemos nos últimos cinco anos acaba de ser declarada morta.
— Ela nunca esteve viva, Catarina — Caelum respondeu, brindando em direção aos jovens. — Ela estava apenas esperando o oponente certo voltar.
Siena sorriu, um sorriso que prometia problemas. Arthur manteve a face de mármore. Mas, por baixo da mesa, todos podiam sentir: a verdadeira história de "Legado de Sangue e Ouro" estava apenas começando a sua fase mais explosiva.ia ainda é minha.
Fale com o autor