A lua cheia vertia uma luz prateada sobre os jardins de Astúria, transformando as sombras em formas quase sólidas. O silêncio da noite era absoluto, quebrado apenas pelo canto distante dos grilos e pelo som suave e rítmico de passos sobre o cascalho fino.

​Siena caminhava sem pressa, a silhueta esguia envolta em uma capa escura que se abria levemente a cada passo. Em uma das mãos, ela segurava um cacho de uvas roxas, colhendo-as uma a uma e levando-as à boca com um prazer quase infantil. Ocasionalmente, ela soltava um murmúrio melódico, uma canção de ninar antiga que Catarina costumava cantar quando Siena era pequena, a melodia pairando no ar frio da noite.

​Ela não parecia uma princesa; parecia apenas uma jovem aproveitando a própria companhia.

​A poucos metros dali, sob a sombra de uma grande carvalho, Arthur observava. Ele não estava ali por acaso; a insônia o mantinha acordado, e ele decidira revisar as posições de guarda noturna. Ao ouvir a melodia, ele parou, intrigado. Ver a prima — a "loba indomável" — tão calma e vulnerável, cantarolando para si mesma, era uma imagem que não batia com a adolescente que saltava de sacadas.

​Ele saiu da sombra, seus passos firmes e controlados denunciando sua presença antes que ele falasse.

​— A música é bonita, Siena — disse Arthur, a voz um barítono suave que não parecia ter o tom de comando habitual.

​Siena não saltou de susto. Ela apenas parou de cantar e virou-se lentamente, levando outra uva à boca. O olhar que dirigiu a ele foi calmo, quase acolhedor.

​— Você não deveria estar revisando manuais de estratégia militar ou algo assim, Capitão Frio? — ela rebateu, mas o tom era mais curioso do que provocativo. — A noite está bonita demais para disciplina. Quer uma?

​Ela estendeu o cacho de uvas. Arthur hesitou, mas aceitou, surpreso com a oferta. Ele comeu uma uva, o gosto doce-azedo explodindo na boca.

​— Eu não consigo dormir — admitiu ele, caminhando para o lado dela e emparelhando o passo enquanto recomeçavam a andar. — E você?

​— Eu também não. É silencioso demais aqui dentro — Siena olhou para o castelo maciço ao longe. — Quando tudo fica quieto assim, eu sinto que as paredes estão me apertando. Eu prefiro o barulho do Norte, o som do vento nas árvores, as histórias dos guardas em volta da fogueira.

​Eles caminharam em silêncio por um momento, as uvas acabando. Não havia a tensão das brigas infantis ou a provocação do reencontro no pátio. Havia apenas duas pessoas que cresceram juntas e que agora tentavam se entender em novos termos.

​— Siena — Arthur começou, parando e virando-se para ela com uma expressão séria e concentrada. — Eu andei pensando... nas brigas, em como eu reagi quando voltei.

​Siena parou também, o cacho de uvas vazio ainda em sua mão.

— E?

​— Eu passei cinco anos sob uma disciplina férrea, Siena. Eu aprendi que a menor falha pode custar vidas. Quando eu vi você saltar daquela sacada... — ele fez uma pausa, olhando para o chão, e Siena notou que o maxilar dele estava tenso. — Eu não estava com raiva porque você quebrou o protocolo. Eu fiquei apavorado. Se você tivesse caído, se você tivesse se machucado... eu não sei como eu reagiria.

​Siena observou o primo. Ela não esperava aquela confissão. Arthur estava despindo a armadura de oficial e mostrando a vulnerabilidade que ela raramente via.

​— E eu, Arthur — disse Siena, a voz ganhando uma profundidade madura — eu andei pensando no porquê de eu te irritar tanto.

​— E qual é a sua conclusão estratégica?

​— Eu não quero ser a "pequena loba" que quebra tudo, Arthur. E eu não quero ser uma estátua de gelo, como você — Siena suspirou, olhando para a lua. — Eu quero ser a força que este reino precisa. Mas eu não sei como fazer isso sem me perder. Eu tenho o sangue do Norte e a alma de Astúria, e as duas parecem estar sempre em guerra.

​Arthur estendeu a mão, segurando o pulso dela com firmeza, mas com uma doçura que a surpreendeu.

— Você não precisa escolher entre elas, Siena. O Norte tem a sua paixão e Astúria tem a sua estratégia. O problema é que nós dois fomos criados para ver a força como controle absoluto.

​— E não é? — perguntou ela.

​— O controle sem paixão é frio e vazio. A paixão sem controle é perigosa e destrutiva — Arthur apertou a mão dela levemente. — Nós dois estamos tentando encontrar esse equilíbrio. Você quer liberdade, eu quero segurança. Talvez... talvez nós possamos nos ajudar a encontrar esse ponto médio.

​Siena olhou para a mão de Arthur segurando o seu pulso. Ela sentiu uma conexão que não era de infância, mas de dois adultos que reconheciam as lutas um do outro.

​— Eu não prometo que vou usar as escadas o tempo todo, Arthur — disse ela, com um sorriso de canto, libertando o pulso e, em um movimento rápido, segurando a mão dele. — E você... você precisa aprender a rir mais. A disciplina não funciona se você não tiver algo que valha a pena proteger.

​Arthur soltou uma risada baixa, uma risada que Siena não ouvia há anos. Não era um deboche; era um som de puro e maduro alívio.

​— Eu vou tentar, Siena. Eu prometo.

​Eles voltaram a caminhar, de mãos dadas, sob a luz da lua. O silêncio da noite não era mais apertado ou perigoso. Era apenas a pausa necessária para que, pela primeira vez em muito tempo, a Loba e o Falcão falassem a mesma língua: a língua da amizade madura e da compreensão mútua. A dinastia Mackenzie-Valória estava prestes a descobrir que sua verdadeira força não estava apenas em suas espadas ou coroas, mas na capacidade de seus herdeiros de, finalmente, andarem juntos.