O pátio de treinamento de Astúria, habitualmente um local de disciplina austera e suor silencioso, transformara-se naquela manhã em um anfiteatro vibrante. O sol alto dourava as pedras centenárias e aquecia o ar, mas a verdadeira fonte de calor emanava do centro do pátio, onde o tinir frenético de metal contra metal ecoava ritmicamente.

​Arthur e Siena estavam em transe. Não era um duelo de vida ou morte, nem um treinamento formal sob a supervisão de um mestre de armas. Era uma dança selvagem e coreografada, nascida de anos de rivalidade e camaradagem.

​Arthur, com sua armadura de couro batido e a espada de treino de lâmina rombuda, movia-se com a precisão de um metrônomo. Cada ataque era calculado, cada defesa, impenetrável. Siena, por outro lado, parecia uma força da natureza. Usando uma túnica leve de couro verde e botas flexíveis, ela girava, esquivava e atacava com uma agilidade que desafiava a gravidade. Sua espada parecia um chicote de metal, buscando as brechas na defesa do primo.

​— Você luta como um camponês que acabou de descobrir que a espada não é uma enxada, Arthur! — Siena gritou, desviando de um estocada poderosa e girando para tentar atingir o flanco dele.

​Arthur bloqueou o golpe com o escudo, mal se movendo.

— E você, Siena, tem a sutileza de uma avalanche de primavera. Ruidosa, descontrolada e, no final das contas, inofensiva — ele rebateu, usando sua força para empurrá-la de volta.

​Ao redor do pátio, a família real e a corte observavam, divertidos e impressionados.

​Caelum e Catarina, os Reis, estavam na sacada superior. Caelum mantinha os braços cruzados, observando a técnica de Arthur com aprovação contida. Catarina, ao seu lado, exibia um sorriso de canto, seus olhos brilhando ao ver a filha lutar com tanta paixão.

​— O garoto é bom, Catarina. Tem a disciplina que eu nunca tive — comentou Caelum.

​— E a menina tem o fogo que você nunca conseguiu apagar em mim, Caelum — ela rebateu, com um olhar cúmplice. — Arthur pode ter a estratégia, mas Siena tem o instinto. É uma combinação perigosa.

​Lá embaixo, perto da mureta, Julian e Aria, os Duques, assistiam com orgulho indisfarçável. Julian, com sua barba ruiva agora grisalha, gesticulava animadamente.

​— Vamos, Arthur! Mostra pra essa loba do Norte quem manda em Astúria! Usa a força, garoto! — gritou Julian, batendo no peito.

​— Deixa ele, Julian. O garoto está ocupado demais tentando não ser decapitado pela própria prima — brincou Aria, rindo ao ver Siena executar um movimento acrobático que fez Arthur recuar dois passos.

​Próximo a eles, Gaspar e Claire, os Reis Eméritos, estavam sentados em cadeiras de vime sob a sombra de uma árvore. Gaspar observava com a sabedoria de quem já vira muitas batalhas.

​— Eles estão melhores do que nunca, Gaspar — disse Claire, segurando a mão do marido. — A rivalidade deles é a força desse reino.

​— Sim, Claire. Arthur aprendeu a controlar o caos de Siena, e ela aprendeu a usar a estrutura dele como alvo — respondeu Gaspar, com um sorriso fraco, mas sincero. — Eles são a prova de que nossa estratégia funcionou.

​Perto da entrada das cozinhas, Richard e Katrina faziam seus próprios comentários, Richard segurando uma taça de vinho pela metade.

​— Eu aposto duas moedas de ouro que a Siena derruba ele em menos de cinco minutos — disse Richard, rindo.

​— Eu aceito a aposta, Richard — rebateu Katrina, sem tirar os olhos do pátio. — Arthur está apenas esperando o momento certo. Ele tem a paciência de um Mackenzie. Siena tem a impaciência de uma Valória. A paciência sempre vence.

​No pátio, a luta continuava. Siena tentou um ataque rasteiro, visando as pernas de Arthur. Ele saltou, esquivando-se, e ao aterrissar, desferiu um golpe de escudo que a fez perder o equilíbrio. Por um segundo, ela ficou vulnerável. Arthur parou a lâmina a centímetros do pescoço dela.

​O silêncio caiu sobre o pátio. Todos prenderam a respiração.

​— Cheque-mate, Siena — disse Arthur, com a voz ofegante, mas com um brilho de triunfo nos olhos. — Parece que a estratégia militar venceu o instinto animal hoje.

​Siena olhou para a espada no pescoço, depois para o primo. Ela não parecia com raiva. Ela exibia um sorriso largo, um sorriso de pura e madura satisfação.

​— Você me pegou, Capitão — ela admitiu, baixando a espada. — Mas não se acostume. Na próxima vez, eu não vou te avisar que estou com fome antes da luta.

​Arthur soltou uma risada ruidosa, uma risada que Siena não ouvia há anos. Ele baixou a espada e estendeu a mão para ajudá-la a se levantar.

​— Eu não esperaria nada menos de você, Siena.

​Ao redor do pátio, aplausos e risadas explodiram. Richard, o Conde, pagou as duas moedas de ouro para Katrina com um suspiro teatral. Gaspar e Claire sorriram um para o outro, sabendo que o futuro de Astúria estava em boas mãos, mãos que sabiam lutar, rir e, mais importante, mãos que sabiam quando andar juntas.