Legado de Sangue e Ouro livro 3
3 Treinamentos
O pátio de treinamento de Astúria, habitualmente um local de disciplina austera e suor silencioso, transformara-se naquela manhã em um anfiteatro vibrante. O sol alto dourava as pedras centenárias e aquecia o ar, mas a verdadeira fonte de calor emanava do centro do pátio, onde o tinir frenético de metal contra metal ecoava ritmicamente.
Arthur e Siena estavam em transe. Não era um duelo de vida ou morte, nem um treinamento formal sob a supervisão de um mestre de armas. Era uma dança selvagem e coreografada, nascida de anos de rivalidade e camaradagem.
Arthur, com sua armadura de couro batido e a espada de treino de lâmina rombuda, movia-se com a precisão de um metrônomo. Cada ataque era calculado, cada defesa, impenetrável. Siena, por outro lado, parecia uma força da natureza. Usando uma túnica leve de couro verde e botas flexíveis, ela girava, esquivava e atacava com uma agilidade que desafiava a gravidade. Sua espada parecia um chicote de metal, buscando as brechas na defesa do primo.
— Você luta como um camponês que acabou de descobrir que a espada não é uma enxada, Arthur! — Siena gritou, desviando de um estocada poderosa e girando para tentar atingir o flanco dele.
Arthur bloqueou o golpe com o escudo, mal se movendo.
— E você, Siena, tem a sutileza de uma avalanche de primavera. Ruidosa, descontrolada e, no final das contas, inofensiva — ele rebateu, usando sua força para empurrá-la de volta.
Ao redor do pátio, a família real e a corte observavam, divertidos e impressionados.
Caelum e Catarina, os Reis, estavam na sacada superior. Caelum mantinha os braços cruzados, observando a técnica de Arthur com aprovação contida. Catarina, ao seu lado, exibia um sorriso de canto, seus olhos brilhando ao ver a filha lutar com tanta paixão.
— O garoto é bom, Catarina. Tem a disciplina que eu nunca tive — comentou Caelum.
— E a menina tem o fogo que você nunca conseguiu apagar em mim, Caelum — ela rebateu, com um olhar cúmplice. — Arthur pode ter a estratégia, mas Siena tem o instinto. É uma combinação perigosa.
Lá embaixo, perto da mureta, Julian e Aria, os Duques, assistiam com orgulho indisfarçável. Julian, com sua barba ruiva agora grisalha, gesticulava animadamente.
— Vamos, Arthur! Mostra pra essa loba do Norte quem manda em Astúria! Usa a força, garoto! — gritou Julian, batendo no peito.
— Deixa ele, Julian. O garoto está ocupado demais tentando não ser decapitado pela própria prima — brincou Aria, rindo ao ver Siena executar um movimento acrobático que fez Arthur recuar dois passos.
Próximo a eles, Gaspar e Claire, os Reis Eméritos, estavam sentados em cadeiras de vime sob a sombra de uma árvore. Gaspar observava com a sabedoria de quem já vira muitas batalhas.
— Eles estão melhores do que nunca, Gaspar — disse Claire, segurando a mão do marido. — A rivalidade deles é a força desse reino.
— Sim, Claire. Arthur aprendeu a controlar o caos de Siena, e ela aprendeu a usar a estrutura dele como alvo — respondeu Gaspar, com um sorriso fraco, mas sincero. — Eles são a prova de que nossa estratégia funcionou.
Perto da entrada das cozinhas, Richard e Katrina faziam seus próprios comentários, Richard segurando uma taça de vinho pela metade.
— Eu aposto duas moedas de ouro que a Siena derruba ele em menos de cinco minutos — disse Richard, rindo.
— Eu aceito a aposta, Richard — rebateu Katrina, sem tirar os olhos do pátio. — Arthur está apenas esperando o momento certo. Ele tem a paciência de um Mackenzie. Siena tem a impaciência de uma Valória. A paciência sempre vence.
No pátio, a luta continuava. Siena tentou um ataque rasteiro, visando as pernas de Arthur. Ele saltou, esquivando-se, e ao aterrissar, desferiu um golpe de escudo que a fez perder o equilíbrio. Por um segundo, ela ficou vulnerável. Arthur parou a lâmina a centímetros do pescoço dela.
O silêncio caiu sobre o pátio. Todos prenderam a respiração.
— Cheque-mate, Siena — disse Arthur, com a voz ofegante, mas com um brilho de triunfo nos olhos. — Parece que a estratégia militar venceu o instinto animal hoje.
Siena olhou para a espada no pescoço, depois para o primo. Ela não parecia com raiva. Ela exibia um sorriso largo, um sorriso de pura e madura satisfação.
— Você me pegou, Capitão — ela admitiu, baixando a espada. — Mas não se acostume. Na próxima vez, eu não vou te avisar que estou com fome antes da luta.
Arthur soltou uma risada ruidosa, uma risada que Siena não ouvia há anos. Ele baixou a espada e estendeu a mão para ajudá-la a se levantar.
— Eu não esperaria nada menos de você, Siena.
Ao redor do pátio, aplausos e risadas explodiram. Richard, o Conde, pagou as duas moedas de ouro para Katrina com um suspiro teatral. Gaspar e Claire sorriram um para o outro, sabendo que o futuro de Astúria estava em boas mãos, mãos que sabiam lutar, rir e, mais importante, mãos que sabiam quando andar juntas.
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