​O pátio principal do castelo estava impecável. O Rei Caelum e a Rainha Catarina encabeçavam a recepção, acompanhados por Julian e Aria, que mal conseguiam conter a ansiedade para ver o filho após tanto tempo. Richard e Katrina, agora com os cabelos prateados, mas o mesmo brilho debochado no olhar, comentavam sobre como o tempo voava.

​O som de cascos pesados contra a pedra anunciou a chegada. Uma comitiva de cavaleiros em armaduras polidas entrou no pátio, e à frente deles estava ele. Arthur apeou do cavalo com uma elegância fria. Aos 21 anos, ele era o retrato da disciplina: ombros largos, o queixo erguido e um olhar que parecia analisar cada risco estratégico do ambiente.

​— Majestade. Pai. Mãe — ele disse, fazendo uma reverência perfeita, sua voz agora um barítono profundo e seco.

​— Pelos deuses, ele engoliu uma estátua de mármore no internato? — cochichou Julian para Aria, chocado com a seriedade do filho.

​Mas o silêncio solene da recepção durou pouco. Um grito agudo vindo das ameias do castelo fez todos olharem para cima.

​— OLHA A BOMBA, PRIMINHO!

​Antes que Arthur pudesse processar o som, um vulto de seda vermelha e botas de couro saltou de uma sacada a três metros de altura. Siena, agora com quase 20 anos e a beleza selvagem de uma loba, caiu exatamente sobre as costas de Arthur, agarrando-o pelo pescoço em um "mata-leão" nada diplomático.

​— Ficou sabendo que eu ia chegar e resolveu virar uma estátua de gelo, Arthur?! — ela gritou, rindo e bagunçando o cabelo dele, que estava perfeitamente penteado. — Senti saudades de ter em quem bater!

​Arthur, que não se moveu um centímetro com o impacto (sua força agora era real), suspirou pesadamente. Ele a segurou pelos pulsos com uma mão só e a colocou no chão com a facilidade de quem move um móvel leve.

​— Siena — ele disse, limpando a poeira invisível de seu ombro e encarando-a com uma expressão gélida. — Eu esperava que, em cinco anos, você tivesse aprendido a usar as escadas. Ou, pelo menos, a se comportar como uma dama da sua posição.

​Siena parou, colocou as mãos na cintura e soltou uma gargalhada que ecoou por todo o pátio.

​— E eu esperava que você voltasse um guerreiro, não um tutor de etiqueta de 80 anos! — Ela se aproximou, ficando cara a cara com ele, desafiando a nova estatura do primo. — O que foi? O internato arrancou o seu senso de humor ou você só esqueceu como se diverte em Astúria?

​Caelum e Catarina trocaram olhares. O Rei parecia querer se esconder atrás do trono, enquanto Catarina tinha um sorriso de "eu avisei" nos lábios.

​— Bem-vindo de volta, Arthur — disse Catarina, aproximando-se. — Como pode ver, sua prima passou os últimos anos praticando como ser o seu pior pesadelo.

​Arthur olhou para a prima — que agora exibia uma pequena adaga presa à bota e um sorriso de quem ia causar problemas — e sentiu que sua sonhada paz após anos de academia acabara de ser oficialmente destruída.

​— Vejo que nada mudou — resmungou Arthur, embora, por um breve segundo, o canto de sua boca tenha ameaçado subir. — Preparem o pátio de treinos para amanhã. Alguém precisa ensinar a essa "loba" o que significa disciplina militar.

​— Tente a sorte, Capitão — Siena piscou para ele, já planejando como pintaria o cavalo dele de azul naquela mesma noite. — AstúrCom certeza! O retorno de Arthur não é apenas um reencontro entre primos, é o momento em que todas as peças do tabuleiro de Astúria se juntam sob o mesmo teto. Com a nova hierarquia definida, o castelo está mais cheio de vida (e de confusões) do que nunca.

​O pátio ainda ressoava com a gargalhada de Siena, enquanto Arthur tentava manter a sua postura impecável sob o olhar divertido de todos.

​— Vejam só — disse uma voz profunda e carregada de autoridade, vinda do topo da escadaria principal.

​Gaspar, o Rei Emérito, descia os degraus lentamente ao lado de Claire. Ele não usava mais a coroa pesada, trocada por uma túnica de veludo confortável, mas sua presença ainda comandava o ambiente. Claire, com sua elegância eterna e cabelos agora completamente prateados, apoiava-se levemente no braço do marido.

​— O meu neto voltou com a rigidez de um carvalho das Terras Altas — brincou Gaspar, abraçando Arthur com força. — Mas vejo que a sua prima continua sendo o vendaval que vai te derrubar.

​— Vovô, eu só estava garantindo que ele não esqueceu como se defende — Siena piscou, abraçando Claire, que retribuiu com um carinho calmo.

​— Ele parece um homem feito, Gaspar — comentou Claire, analisando Arthur. — Mas tem os olhos cansados de quem leu manuais de guerra demais. Ele precisa de um pouco do caos de Astúria para recuperar a cor.

​Logo atrás, surgiram Richard e Katrina. Richard, agora com uma barba branca que ele ostentava com orgulho, soltou uma de suas famosas gargalhadas ruidosas.

​— Olhe para esse rapaz, Katrina! — Richard deu um tapa amigável no ombro de Arthur, que quase o fez cambalear. — Ele está tão sério que parece que vai nos dar um sermão sobre impostos a qualquer momento. Onde está o menino que me ajudava a roubar tortas da cozinha?

​— Ele cresceu, Richard. Diferente de você, que continua com a maturidade de um pajem — provocou Katrina, aproximando-se para beijar o rosto do neto. — Bem-vindo, Arthur. Não ligue para eles. Eles só estão com inveja da sua disciplina, algo que nunca existiu neste castelo antes de você partir.

​No centro de tudo, Caelum e Catarina, agora ostentando as coroas de Rei e Rainha, observavam a cena. Caelum mantinha as mãos unidas atrás das costas, uma imagem de estabilidade, enquanto Catarina, ao seu lado, tinha aquele brilho indomável nos olhos que Siena herdara perfeitamente.

​— Como Rei, eu deveria dar-lhe as boas-vindas oficiais — começou Caelum, com um meio sorriso. — Mas, como tio, eu só quero saber se você trouxe o xadrez. Sinto falta de um oponente que não tente trapacear como o seu pai.

​— Ei! — protestou Julian, o Duque de Valória, abraçando a esposa Aria, a Duquesa. — Eu não trapaceio, Caelum. Eu apenas uso táticas não convencionais de diversão!

​— Julian, querido, você trocou o bispo por um pedaço de queijo na última vez — lembrou Aria, fazendo todos rirem.

​O Jantar de Reencontro

​Mais tarde, no grande salão, a mesa estava farta. Era uma cena que remetia aos velhos tempos, mas com uma nova energia. Gaspar e Richard discutiam táticas antigas, enquanto Claire e Katrina trocavam segredos sobre como governar os maridos sem que eles percebessem.

​Arthur, sentado entre seus pais, Julian e Aria, tentava se adaptar ao barulho. No internato, as refeições eram feitas em silêncio absoluto. Ali, era um bombardeio de vozes, risadas e provocações.

​— Então, Arthur — começou Siena, do outro lado da mesa, apontando com uma faca de frutas — agora que você é o "Capitão Perfeito", vai passar os dias revisando as patrulhas da fronteira ou vai ter coragem de me enfrentar no pátio amanhã cedo?

​Arthur largou os talheres com precisão milimétrica. Ele olhou para a prima, cujos olhos desafiadores brilhavam sob a luz das velas.

​— Eu pretendo reorganizar a guarda pessoal do Rei, Siena — ele disse, com a voz gélida. — E se isso incluir tirar certas princesas de cima das sacadas para que não quebrem o pescoço, assim será feito.

​— Ah, Caelum — Catarina sussurrou para o marido — parece que a paz que tivemos nos últimos cinco anos acaba de ser declarada morta.

​— Ela nunca esteve viva, Catarina — Caelum respondeu, brindando em direção aos jovens. — Ela estava apenas esperando o oponente certo voltar.

​Siena sorriu, um sorriso que prometia problemas. Arthur manteve a face de mármore. Mas, por baixo da mesa, todos podiam sentir: a verdadeira história de "Legado de Sangue e Ouro" estava apenas começando a sua fase mais explosiva.ia ainda é minha.