O Baile de Natal de Astúria, que outrora era o ápice da alegria do reino, agora parecia uma encenação fúnebre sob o pretexto de celebração. O Grande Salão estava decorado com guirlandas de pinheiro e velas de cera pura, mas o calor das chamas não alcançava o semblante dos convidados.

​No centro da mesa real, a família estava sentada como estátuas em um banquete de sombras. Caelum e Catarina mantinham as aparências, mas o peso da culpa tornava seus brindes mecânicos.

​Siena usava um vestido de seda branca e prata, tão frio quanto a neve lá fora. Ela não dançava. Seus olhos vagavam pelo salão, encontrando inevitavelmente a figura de Arthur, parado como uma sentinela de pedra perto de uma das colunas. Ele não usava trajes de festa; estava com sua farda de gala preta, a mão sempre no punho da espada.

​O silêncio na mesa foi quebrado por Richard, que não aguentava mais o peso daquela atmosfera.

​— Pelo amor de todos os santos — Richard disse, sua voz saindo mais amarga do que divertida. — Alguém poderia ao menos fingir que o Natal é uma data feliz? Julian, você não toca no seu vinho há uma hora.

​Julian suspirou, olhando para o filho à distância.

— É difícil celebrar a união das famílias quando a nossa parece ter se partido em mil pedaços, Richard. Olhe para eles.

​Siena sentiu o olhar do tio e se empertigou.

— O reino está em paz, tio Richard. Não é isso que o Natal celebra? A segurança de Astúria?

​— A segurança de um cemitério também é absoluta, Siena — rebateu Aria, com os olhos marejados. — Eu preferia as brigas, os gritos e os incêndios de vocês do que este silêncio que corta como faca.

​Arthur aproximou-se da mesa para uma troca de turno da guarda. Seus olhos encontraram os de Siena por um breve segundo. Não houve faísca, apenas um vazio desolador.

​— O perímetro está seguro, Majestade — informou Arthur, a voz monocórdica, ignorando o prato vazio à sua frente. — Com sua licença, voltarei ao pátio.

​— Arthur, sente-se — ordenou Caelum, a voz cansada. — É Natal. Coma com sua família.

​— Minha família é o exército agora, senhor — Arthur respondeu, sem desviar o olhar do nada. — E o exército não faz pausas para sentimentos sazonais.

​Siena levantou-se bruscamente, a cadeira arrastando com um som estridente que fez todos pararem.

— Deixe-o ir, pai. O Capitão tem deveres. E eu... eu perdi o apetite.

​Ela caminhou em direção à varanda, mas Arthur, por obrigação de guarda, teve que segui-la a uma distância regulamentar. Quando chegaram ao balcão de mármore, sob a neve que começava a cair, Siena não aguentou.

​— Você vai fazer isso a noite toda? — ela sussurrou, de costas para ele. — Agir como se eu fosse apenas um posto de guarda?

​— Eu estou fazendo exatamente o que você pediu, Alteza — Arthur respondeu, a voz gélida. — Estou sendo o seu propósito. Estou garantindo que o reino não queime. Não era esse o preço?

​— O preço não era o seu ódio, Arthur.

​— Ódio exige paixão, Siena — ele disse, dando um passo à frente, mas parando antes que pudesse tocá-la. — Eu não sinto nada. O mármore não odeia. Ele apenas suporta o peso.

​Siena virou-se, e por um momento, a máscara de gelo dela rachou, revelando um olhar de infelicidade profunda.

— Olhe para nós... olhe para a nossa família. Destruímos tudo por causa de Roma.

​— Não — corrigiu Arthur, com uma lucidez cruel. — Destruímos tudo porque você teve medo, e eu tive orgulho. Roma apenas nos deu a desculpa. Feliz Natal, Princesa. Que a sua coroa a mantenha aquecida, porque eu não farei mais isso.

​Ele bateu o punho no peito em uma saudação curta e se retirou, deixando Siena sozinha sob a neve. No salão, a música continuava a tocar, mas em Astúria, o Natal não passava de uma lembrança de algo que eles tiveram a coragem de começar, mas não a força de sustentar.