O castelo de Astúria, outrora vibrante com a eletricidade do desejo proibido, transformou-se em um mausoléu de etiquetas e silêncios cortantes. O sol da primavera continuava a brilhar lá fora, mas dentro das muralhas, o inverno havia se instalado definitivamente nos corações dos herdeiros.

​Arthur não era mais apenas o "Capitão de Mármore"; ele havia se tornado a própria pedra. Ele não frequentava mais os jantares familiares, limitando-se a relatórios técnicos entregues aos pés da mesa do conselho. Seus olhos, que antes brilhavam com uma luz perigosa quando encontravam os de Siena, agora eram opacos, como duas moedas de chumbo. Ele não a olhava como uma mulher, nem como uma prima, mas como um objeto de Estado que precisava de vigilância.

​Siena, por sua vez, ergueu muralhas em torno de sua alma que nenhum exército conseguiria transpor. Ela abandonou os vestidos de cores vivas e as risadas impulsivas. Vestia-se agora em tons de cinza e prata, com o rosto sempre composto em uma expressão de neutralidade imperial. A "Loba" não uivava mais; ela apenas observava, gélida e impenetrável.

​O Encontro no Pátio de Treinamento

​Certa tarde, Siena cruzou o pátio de treinamento enquanto Arthur instruía os novos recrutas. O som do aço batendo contra o aço cessou instantaneamente quando a Princesa passou.

​Arthur não quebrou a formação. Ele apenas bateu o punho contra o peito em uma saudação militar automática, os olhos fixos em um ponto invisível no horizonte, acima da cabeça dela.

​— Capitão Arthur — disse Siena, sua voz saindo tão polida e fria quanto uma lâmina de gelo. — O Rei solicita um relatório sobre as patrulhas da fronteira leste na sala do conselho.

​— Será feito, Vossa Alteza — respondeu ele, a voz desprovida de qualquer inflexão, seca como pergaminho antigo. — Mais alguma ordem?

​Siena parou por um segundo. O ar entre eles era rarefeito. Ela queria perguntar se ele estava dormindo, se a cicatriz no ombro dele ainda doía, ou se ele ainda se lembrava do cheiro de amora. Mas a Rainha em seu interior sufocou a mulher.

​— Apenas eficiência, Capitão. Astúria não tolera falhas.

​— Astúria terá o que exige, Alteza — rebateu ele, e por um breve instante, um brilho de amargura cruzou seu olhar, mas desapareceu antes que ela pudesse ter certeza. — Assim como a senhora teve o que exigiu.

​Ela seguiu caminho sem olhar para trás, sentindo o peso da coroa esmagar seu peito. Arthur voltou ao treino, golpeando o boneco de palha com uma força tão brutal que a madeira de sustentação rachou ao meio.

​A Observação dos Adultos

​Na sacada, Caelum e Catarina observavam a cena em um silêncio melancólico.

​— Nós salvamos o reino, Catarina — sussurrou o Rei, a voz carregada de uma culpa amarga. — Mas veja o que fizemos com eles. Eles são dois estranhos habitando os mesmos corpos.

​— Nós não fizemos isso sozinhos, Caelum — respondeu a Rainha, os olhos fixos na filha que caminhava com uma rigidez antinatural. — Eles escolheram o gelo para não serem consumidos pelo fogo. Mas o gelo, embora proteja, também isola. Eu temo que, quando precisarmos que eles sintam algo novamente, eles tenham esquecido como se faz.

​No castelo de Astúria, o silêncio era a nova lei. O Falcão não voava mais alto; ele apenas guardava. A Loba não caçava mais; ela apenas reinava. E, entre eles, o abismo de gelo tornava-se cada dia mais profundo, transformando o amor que quase incendiou o mundo em uma lenda de inverno que ninguém mais ousava contar.