Legado de Sangue e Ouro livro 3
26 Decisões
O eco da porta batendo após a saída de Arthur ainda ressoava nas paredes do salão, mas o silêncio que se instalou foi muito mais ensurdecedor. Siena permanecia parada no centro do cômodo, com os olhos fixos na entrada por onde o homem que amava acabara de passar, transformado novamente em uma estátua de gelo e fúria.
Caelum deixou-se cair na poltrona real, escondendo o rosto nas mãos. Julian e Aria trocaram olhares de puro desespero, enquanto Catarina mantinha a coluna ereta, embora seus dedos apertassem o tecido do vestido com força.
— Ele vai fazer uma loucura — murmurou Julian, a voz trêmula. — Arthur vai marchar contra o Clero e isso será o estopim de uma guerra civil.
Siena respirou fundo. O tremor em suas mãos parou subitamente. Uma clareza fria e dolorosa tomou conta de sua mente. Ela se virou para os adultos, e a expressão em seu rosto não era mais a da princesa rebelde, nem a da jovem apaixonada. Era o semblante de uma monarca que acabara de aceitar o peso de seu sacrifício.
— Ele não vai marchar contra ninguém — disse Siena, sua voz saindo firme, estável e desprovida de lágrimas. — Porque não haverá motivo para isso.
Catarina franziu o cenho, observando a filha com atenção renovada. — O que você quer dizer, Siena?
— Roma está certo em uma coisa, pai — continuou ela, olhando diretamente para Caelum. — Um reino dividido pela fé é um reino condenado. Se para ficarmos juntos, Astúria precisa sangrar, então o preço desse amor é alto demais para o meu povo pagar. Eu sou a herdeira. Meu primeiro dever não é com o meu coração, é com a coroa que um dia será minha.
Aria deu um passo à frente, comovida. — Siena, querida, você não pode estar falando sério... vocês acabaram de se encontrar.
— E é por isso que preciso nos afastar — rebateu Siena, embora seus olhos traíssem a dor profunda que aquela decisão causava. — Arthur é um soldado. Ele sabe lutar contra exércitos, mas ele não sabe lutar contra o vazio. Se eu continuar ao lado dele, eu serei a ruína do homem que eu mais admiro. Eu não vou permitir que ele destrua a própria honra e o reino por minha causa.
Caelum ergueu a cabeça, os olhos marejados de admiração e tristeza. Ele via, pela primeira vez, a força bruta de uma Rainha em sua filha.
— Você está disposta a desistir dele? Por Astúria?
— Eu estou desistindo da minha felicidade para garantir que Astúria tenha um futuro — respondeu ela, a voz subindo um tom. — Falem com ele. Digam que eu mudei de ideia. Digam que o medo da excomunhão foi maior. Deixem que ele me odeie se for preciso, mas mantenham-no focado no exército. Ocupem a mente dele com as fronteiras. Longe de mim.
O silêncio voltou, mas agora era de reverência. Richard, que sempre fizera piadas sobre a irresponsabilidade da sobrinha, estava mudo, impressionado com a fibra moral que Siena demonstrava. Katrina, a avó, assentiu lentamente, reconhecendo o sacrifício que define as grandes dinastias.
— Eu nunca vi tamanha força em uma mulher tão jovem — sussurrou o General Gaspar, fazendo uma breve reverência em direção à princesa. — Majestade, sua filha acaba de provar que é mais digna do trono do que qualquer um de nós ousou imaginar.
— É a decisão mais difícil que um monarca pode tomar — disse Catarina, aproximando-se e segurando as mãos de Siena. Elas estavam geladas, mas firmes como mármore. — Você tem certeza disso, minha filha?
Siena olhou para a porta fechada uma última vez, sentindo o peito rasgar, mas manteve a cabeça erguida.
— Eu tenho. Pelo reino. E por ele. Se o Falcão precisa voar para longe para sobreviver, que assim seja. Eu serei a Loba solitária que guarda o trono, mesmo que isso signifique viver em um inverno eterno.
Naquela noite, os adultos entenderam que a verdadeira sucessão havia ocorrido. Não em uma coroação, mas no momento em que Siena escolheu o peso do ouro sobre o calor do amor. Mas o que ninguém sabia era como o Capitão de Mármore reagiria ao descobrir que, para salvá-lo, sua princesa decidira se tornar sua estranha.
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