Legado de Sangue e Ouro livro 3
27 Compromisso quebrado
O ar no escritório de Caelum estava saturado de uma tensão elétrica. Quando o Rei terminou de falar, as palavras "sacrifício" e "fim do compromisso" pareciam flutuar como cinzas. Arthur não disse uma palavra. Ele apenas prestou uma continência mecânica, tão rígida que seus ossos estalaram, e girou nos calcanhares.
Ele atravessou os corredores do castelo como uma bala de canhão. Criados e guardas se jogavam contra as paredes para evitar o impacto do Capitão de Mármore, cuja aura de fúria era quase palpável.
Ele não bateu na porta de Siena. Ele a escancarou.
Siena estava parada junto à varanda, de costas, os ombros tensos. Ela sabia que ele viria. Ela esperava o fogo, mas não estava preparada para o incêndio que entrou no quarto.
— Olhe para mim — a voz de Arthur não era um grito; era um sibilado baixo, carregado de um veneno que Siena nunca ouvira.
Ela se virou, sustentando o olhar, embora sentisse que sua alma estava sendo estraçalhada.
— Meu pai já deve ter lhe dito. A decisão está tomada, Arthur.
— Decisão? — Arthur riu, um som seco e sem alma enquanto caminhava em direção a ela, encurralando-a contra o parapeito. — Você decide por nós dois? Você decide que o que aconteceu naquele quarto, as promessas que fizemos entre os lençóis, valem menos que a ameaça de um velho em vestes vermelhas?
— Vale o reino, Arthur! — ela gritou, a voz embargada pela primeira vez. — Você viu o que aconteceu! Você mesmo se transformou em gelo assim que ouviu Roma. Você sabe que ele vai destruir meu pai, vai destruir você! Eu não vou ser a causa da sua ruína.
— Você acha que me protege me abandonando? — Arthur golpeou a coluna de mármore ao lado da cabeça dela, os olhos faiscando de uma mágoa profunda. — Eu lutei guerras, Siena! Eu recebi cortes e cicatrizes por um ideal de dever. E agora que eu finalmente encontro algo que me faz sentir vivo, você me joga de volta na escuridão em nome de uma "coroa"?
— Eu estou sendo a Rainha que você me disse para ser! — ela rebateu, as lágrimas finalmente rolando. — Você me disse para ter propósito! Meu propósito é garantir que Astúria não queime! Se eu tiver que viver sem você para que este reino sobreviva, eu viverei.
Arthur recuou um passo, o rosto retorcido em uma careta de desprezo. A máscara de mármore rachou, revelando um homem profundamente ferido.
— Então é isso. O "Falcão" era apenas um acessório para a sua fase rebelde. Agora que o preço ficou caro, você volta para a segurança do seu trono de gelo.
— Não ouse dizer isso! — ela soluçou. — Eu te amo tanto que prefiro te ver me odiando e vivo do que me amando e morto por excomunhão!
— O amor que se acovarda diante de um Cardeal não é o amor que eu quero — sentenciou Arthur, a voz agora fria como um túmulo. — Você quer ser a Rainha de Pedra, Siena? Pois bem. Considere nosso compromisso morto. Considere cada toque, cada beijo e cada palavra como um erro estratégico que não se repetirá.
Ele caminhou até a porta e parou, segurando a maçaneta com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos.
— De hoje em diante, eu sou apenas o seu Capitão. Eu protegerei sua vida porque é o meu dever, mas não espere encontrar nada além de aço quando olhar nos meus olhos. Você queria que eu fosse mármore de novo? Parabéns. Você conseguiu o que queria.
— Arthur, espere! — ela deu um passo, o coração implorando para que ela voltasse atrás.
Ele não olhou para trás.
— Guarde suas ordens para seus súditos, Princesa. O homem que você conhecia morreu nesta sala.
A porta bateu com um som final, um veredito que ecoou pelo quarto agora vazio e frio. Siena caiu de joelhos, cobrindo a boca para abafar o grito de agonia, enquanto, do lado de fora, Arthur marchava para o quartel, enterrando sua alma sob camadas de gelo que, desta vez, nem mesmo o sol de Astúria seria capaz de derreter. O compromisso estava quebrado. O reino estava seguro. Mas eles estavam perdidos.
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