Legado de Sangue e Ouro livro 3
32 Aceitação
O clima de desolação no salão foi subitamente cortado por uma voz firme e carregada de conhecimento histórico. Um dos legados de Roma, um homem de meia-idade com olhos astutos que observava tudo em silêncio, deu um passo à frente antes que o casal cruzasse o limiar da porta.
— Esperem! — clamou o homem, sua voz ecoando nas vigas de madeira do teto. — Estamos prestes a cometer um erro que a história já provou ser desnecessário.
Arthur e Siena pararam, virando-se lentamente. O homem caminhou até o centro, encarando tanto o Cardeal quanto o Parlamento.
— Olhem para as linhagens da Europa e do Norte. Quantos reinos prosperaram e mantiveram seu sangue forte unindo primos com primos? — Ele fez uma pausa, olhando significativamente para o Rei Caelum. — Lembrem-se do Rei Henrique; ele não hesitou em romper com as amarras de Roma quando sentiu que o destino de seu reino e de sua linhagem estava em jogo, e vejam o sucesso que alcançou. É ridículo e um desperdício de potencial acabar com uma dinastia tão brilhante por conta de um laço que nem sequer é de irmãos. São primos, sangue da mesma força, mas vidas independentes!
O silêncio que se seguiu foi diferente do anterior; era um silêncio de reflexão e de recuo. O Cardeal Roma, vendo o apoio do Parlamento oscilar e percebendo que poderia perder toda a influência sobre Astúria se insistisse no exílio, fechou os olhos e respirou fundo, deixando o peso da decisão assentar.
Ele abriu os olhos e encarou o casal, sua expressão suavizando-se apenas o suficiente para a diplomacia.
— Roma... Roma é capaz de ser benevolente quando o futuro da fé e da estabilidade está garantido — declarou o Cardeal, sua voz agora menos cortante. — Aceitaremos o casamento. Daremos a bênção sagrada a esta união sob uma condição inegociável: que vocês entreguem a Astúria um herdeiro homem para garantir a continuidade da linhagem sem questionamentos.
Siena sentiu um choque de adrenalina e alegria percorrer seu corpo. Ela não conseguiu conter o grito contido de felicidade e, esquecendo-se de toda a etiqueta imperial diante dos clérigos, jogou-se nos braços de Arthur.
— Nós conseguimos! — ela sussurrou contra o peito dele, vibrando de emoção.
Arthur a apertou com força, o rosto de mármore finalmente se transformando em uma expressão de puro alívio e triunfo. Ele beijou o topo da cabeça dela enquanto o Rei Caelum, ao fundo, deixava escapar um sorriso de imensa satisfação, sentindo o peso da coroa tornar-se subitamente leve.
O salão, antes um tribunal de julgamento, explodiu em comemorações. Julian e Aria se abraçaram chorando, enquanto os ministros do Parlamento batiam palmas, celebrando a permanência de sua herdeira. O Falcão e a Loba não precisariam mais fugir; eles reinariam juntos, protegidos pela mesma lei que tentou separá-los. A noite de inverno havia finalmente acabado, e o sol de Astúria brilhava mais forte do que nunca.
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