A manhã seguinte trouxe uma luz suave que atravessava as frestas das cortinas pesadas, mas para Arthur e Siena, o tempo parecia ter congelado naquele quarto. Eles estavam envoltos em um emaranhado de lençóis e braços, o silêncio da alvorada sendo a única testemunha da mudança irrevogável que ocorrera entre eles.

​Siena despertou primeiro, sentindo o calor do corpo de Arthur contra as suas costas. Ela se virou devagar, encontrando-o já acordado, observando-a com uma expressão que não era nem mármore, nem fogo; era uma ternura crua que a deixou sem fôlego.

​— Você está sendo muito silencioso, Capitão — ela sussurrou, a voz ainda rouca de sono, traçando com o dedo o contorno do lábio inferior dele, que ainda guardava o vestígio dos beijos da noite anterior.

​Arthur segurou a mão dela e a beijou suavemente.

— Estou apenas tentando entender como vou conseguir olhar para você durante o conselho de hoje sem que todos percebam que eu sei exatamente como é o som do seu riso quando você perde o fôlego.

​Siena riu baixo, escondendo o rosto no pescoço dele.

— Você é um estrategista, lembra? Finja que estamos discutindo... táticas de cerco.

​— O problema — ele murmurou, puxando-a para mais perto e enterrando o rosto em seus cabelos — é que eu fui completamente invadido. Minhas defesas caíram todas, Siena.

​O Café da Manhã: O Jogo de Máscaras

​Quando eles desceram para o café da manhã, a mesa já estava cheia. O Rei Caelum lia alguns relatórios, enquanto Catarina observava o movimento dos criados. Richard e Julian discutiam alto sobre a qualidade do novo feno.

​Siena entrou primeiro, com uma radiância que nem a melhor noite de sono poderia explicar. Logo atrás, Arthur, impecável em sua farda, mas com um brilho no olhar que fez Aria parar a xícara de chá no meio do caminho.

​— Bom dia, família — disse Siena, sentando-se e pegando uma maçã com uma leveza quase irritante.

​— Bom dia — respondeu Arthur, sua voz um tom mais baixo que o normal. Ele sentou-se à frente dela, e por um segundo, seus pés se tocaram sob a mesa.

​Arthur quase derrubou o café. Siena deu uma mordida na maçã, mantendo o olhar fixo nele com uma inocência fingida que era pura provocação.

​Richard parou de falar e olhou para os dois.

— Alguém mais está sentindo que a primavera chegou mais cedo neste castelo? Ou é só impressão minha que esses dois pararam de tentar se matar e agora parecem... — ele estreitou os olhos — quietos demais?

​— O silêncio é uma virtude, Richard — interveio Catarina, com um sorriso enigmático. Ela olhou de Siena para Arthur, notando o pequeno arranhão quase invisível no pescoço do sobrinho, logo abaixo da gola. — Às vezes, as maiores batalhas são vencidas sem que um único grito seja ouvido.

​Caelum ergueu os olhos do papel, observando a filha.

— Você parece feliz, Siena. O que mudou desde que você se trancou naquele quarto?

​— Eu segui o conselho do Arthur, papai — ela respondeu, lançando um olhar cúmplice para o primo. — Parei de incendiar a casa para ver o fogo brilhar. Descobri que existem formas muito mais... eficientes de se manter aquecida.

​Arthur tossiu, tentando disfarçar o impacto da frase, enquanto Julian ria sem entender o subtexto.

​O jantar e as reuniões que se seguiriam seriam um teste de autocontrole. Cada troca de olhar era um segredo compartilhado; cada toque acidental era uma lembrança da noite anterior. Eles estavam descobrindo que manter um segredo era tão viciante quanto a própria intimidade. Em Astúria, a Loba e o Falcão finalmente haviam parado de lutar um contra o outro para começarem a lutar, juntos, contra o resto do mundo — e contra a vontade de voltarem para aquele quarto o mais rápido possível.