O sol de fim de tarde banhava o jardim real em tons de âmbar e ouro, criando uma cena que parecia saída de uma pintura. Afastados da ala principal, sob a sombra de um arco de glicínias, Siena e Arthur conversavam. Eles não estavam se tocando, mas a distância entre seus corpos era mínima, uma zona de gravidade que parecia puxar um para o outro.

​Enquanto isso, na galeria superior, os adultos observavam a cena em um silêncio carregado de descoberta. Caelum, Catarina, Julian, Aria e até o sempre brincalhão Richard estavam parados, protegidos pelas colunas, observando o que as palavras não precisavam mais dizer.

​— Vejam a postura do Arthur — sussurrou Julian, com um misto de espanto e orgulho. — Ele nunca inclina a cabeça para ninguém. Ele é o Capitão da Guarda, está sempre em posição de sentido. Mas olhem para ele agora... ele está inclinado para ela como se ela fosse o único centro do mundo.

​Aria sorriu, limpando uma lágrima discreta no canto do olho.

— Não é só a postura, Julian. Olhe para as mãos dele. Ele está segurando o próprio punho atrás das costas para não tocá-la. É uma luta constante entre o dever e o desejo.

​Lá embaixo, Siena riu de algo que Arthur disse, e o som chegou até eles como música. Arthur não riu alto, mas seu rosto se iluminou com um sorriso que nenhum deles jamais vira em um campo de treinamento. Ele estendeu a mão para tirar uma pétala caída do ombro de Siena, e o movimento foi tão lento, tão carregado de uma intimidade silenciosa, que o ar na galeria pareceu faltar.

​— Eles não estão mais brigando — observou Caelum, a voz grave e pensativa. O Rei apertou o parapeito de pedra. — Aquela energia explosiva que eles tinham... ela não sumiu. Ela apenas mudou de forma. Agora é algo... contido. Como uma fornalha fechada.

​Catarina, que observava tudo com seus olhos de águia, deu um passo à frente. Ela notou como Siena olhava para Arthur — não com o desafio de uma princesa mimada, mas com a adoração de uma mulher que encontrara seu igual.

​— Eles se encontraram — disse a Rainha, sua voz soando como um veredito final. — Nós passamos anos tentando domar a Siena e endurecer o Arthur, sem perceber que eles eram o equilíbrio um do outro.

​— Isso é um escândalo em potencial ou a salvação de Astúria? — perguntou Richard, pela primeira vez com um tom de seriedade na voz, embora o brilho divertido ainda estivesse lá.

​— É a sucessão — respondeu Gaspar, que chegara silenciosamente por trás do grupo. — Um rei precisa de um capitão que morra por ele, e uma rainha precisa de um consorte que a mantenha no chão. Se esses dois se unirem de verdade, ninguém neste continente ousará desafiar a nossa linhagem.

​Lá embaixo, Arthur e Siena começaram a caminhar de volta para o castelo. Ao passarem por uma parte mais densa do jardim, Arthur colocou a mão discretamente na base das costas de Siena, guiando-a. Foi um toque de frações de segundo, mas para os olhos atentos na galeria, foi a confirmação de tudo.

​— O que fazemos? — perguntou Julian.

​Caelum deu um meio sorriso, olhando para a esposa e depois para os amigos de uma vida inteira.

​— Fazemos o que bons estrategistas fazem, Julian — disse o Rei. — Observamos. Protegemos o segredo deles enquanto for necessário. E, acima de tudo, começamos a preparar o reino. Porque, pelo que vi hoje, o destino de Astúria não será decidido em um campo de batalha, mas no que acontece quando esses dois finalmente pararem de lutar contra o que sentem.

​Eles se afastaram da sacada antes que os jovens pudessem vê-los, deixando o jardim para os novos segredos que floresciam ali. A Loba e o Falcão achavam que estavam escondidos, mas os olhos do passado já abençoavam o futuro que eles mal começavam a escrever.