Legado Lestrange II - Legacy
88 Virgo
Notas iniciais
Capítulo 88
Draconis estava lendo o projeto de Ementa ao Código de Leis Bruxas. Era o projeto que iria vetar o ensino não formal, isso é, aquele onde os pais contratavam tutores particulares para os filhos, além de proibir a entrada de nascidos trouxas que não fossem capazes de comprovar ancestralidade bruxa. Navi o olhava indignado. Ele tinha surrupiado do escritório para lhe mostrar.
—Está ficando cada mais claro. – murmurou Navi – Nós devemos fazer alguma coisa.
—Nós? Tem muita gente nesse seu nós. Eu sou um Burke, lembra? – perguntou Draconis lhe devolvendo o projeto – Eu não me meto em treta.
—Meus ovos, Drac. Você tem uma irmã vidente, esqueceu? – perguntou Navi – Você acha mesmo que se ninguém se opor a isso aqui... – ele sacudiu os papéis – em breve não vão estar caçando a sua irmã?
Ou me caçando...
—Ainda assim, Navi. Eu sou um Burke.
—Bem mais ou menos, né? – riu Navi e Draconis bufou.
—Não tem graça.
—Essa sua desculpinha também não tem. – ralhou Navi – Draconis... – o loiro sentiu o primo puxá-lo pelo braço, para sussurrar próximo ao seu rosto – Você sabe da resistência do Potter, não sabe?
—Sei. – murmurou simplesmente – Eu tentei ajudar, inclusive, mas e daí?
—Nós precisamos entrar... ser membros efetivos. Ajudar de verdade. – disse Navi. Draconis soltou um suspiro.
—Escute, Navi, eu admiro o seu entusiasmo... mas eu vou ficar na minha. Eu sou um Burke, ninguém mexe comigo e eu não mexo com ninguém.
—Sua mãe era um Burke, também.
—Ela não nasceu um Burke, é diferente. – resmungou Draconis dando de ombros – Você sabe quem é o idiota que está saindo com a Rose? – perguntou indignado.
—Não sei, não ligo, não me interessa. Eu sou um Lestrange e a gente não se mete em romances alheios, sabe?
—Há, há, há... – resmungou Draconis – Mas não sabe mesmo quem é?
—Creed... eu não consigo não te responder.
—Creed?! Jonas Creed?! Ele é um completo babaca! – ralhou, indignado.
—Eu sei! – disse Navi parecendo super aliviado por falar aquilo – O que ela viu naquele mongol?!
—Ela certamente não sabe o tipo de pessoa que ele é. – riu Draconis com desdém, enquanto andavam até o elevador para o horário de almoço.
—E suponho que você sabe. – debochou Navi.
—Sei... sei uns podres dele. – riu Draconis.
—E quais? – perguntou Navi, entre o interessado e o incrédulo.
—Você se lembra daquele negócio que aconteceu em Hogsmeade... que a Carmen acabou morrendo? – sussurrou Draconis e Navi o olhou com censura.
—Que você e seu namorado participaram? Uhum. Lembro.
Draconis corou de leve e olhou para Navi.
—Ele participou.
—Não! – murmurou Navi, em completo choque – Você só está querendo queimar a reputação dele porque ele está tirando as calcinhas da Rose.
—Nop. – riu Draconis – Creed participou e pelo o que Loto me contou, ele era um dos que estava atacando os nascidos trouxas na escola.
—Mas... mas ele era da Grifinória! – disse Navi, confuso – Sempre achei que era o Selwyn e a turma dele, incluindo você e o Loto.
—Não... digo... eu acredito que alguns deles devem até ter feito... mas o Creed atacou dois alunos e... pelo o que o Nott falou pro Loto, que me contou... lembra daquela nascida trouxa que morreu na escola? – Navi o olhou incrédulo – Pergunte pro Loto. Na frente dela, de preferência.
—Eu jurei que não iria me meter nessa suruba de vocês... mas você está com ciúmes, não está?
—Ela tentou me seduzir. – resmungou Draconis, zangado – Ela me seduziu, de propósito. Só pra esfregar na minha cara que conseguiria e me deixou de pau duro, completamente chocado de que eu seria capaz de trair o Loto com ela. – bufou zangado – Espero que ela reprove naquela prova... – resmungou apertando o botão para o Átrio.
—Vocês se pegaram?
—Não. Ela me enrolou e saiu pagando de fodona e então falou que tava com outro. – resmungou Draconis.
—E você contou pro Loto? – perguntou Navi. Draconis o olhou com pouco caso – É claro que não contou... e não pretende, imagino.
—Nop... – resmungou Draconis – Mas tudo bem. Vai ter troco.
—E o que você vai fazer? – perguntou Navi, arqueando as sobrancelhas.
Sorriu um sorriso cruel e a porta se abriu. Encontrou tio Rasalas, tia Pansy e Loto conversando e os esperando para o almoço. Beijou Loto e deu as mãos para ele, sem se envergonhar por isso. Mas Loto ficou corado e sem jeito, arrumando desculpas para soltar sua mão.
—Amor... aqui é nosso trabalho... não podemos.
—Ok, ok... – resmungou contrariado e Pansy deu uma risadinha.
—É tãaaao engraçado ver uma versão gay do Draco, não é, Rasalas?
—Eu nunca tinha parado pra pensar nisso. – riu tio Rasalas e Navi deu uma risadinha – Te trás recordações, Pansy?
—Oh, cale-se! – riu ela ficando sem jeito e Draconis olhou curioso para Loto, que deu de ombros. Os cinco se sentaram num restaurante que tio Rasalas e tia Pansy sempre almoçavam – Como está Alhena?
—Vai bem. Draco a está reensinando a cozinhar. – riu Rasalas.
—E Draco sabe cozinhar? – perguntou Pansy.
—Não. – riu Rasalas – Acho que é mais pela bagunça do que por qualquer outra coisa.
—É uma oportunidade de sujar a Lena de geleia e parecer inocente e... e... e eu esqueci que o filho dela está aqui. – riu tia Pansy com constrangimento – Ops.
—Eu sei que tio Draco é louco pra dar uns cata na minha mãe. Fica tranquila, tia Pansy. – riu Draconis.
—Se ela melhorar, ele vai mesmo.
—Eu não sei. – murmurou Rasalas – Você viu como estava Damian no natal... e agora ele está passando mais tempo com ela. – adicionou ele.
—Pai, você tá sabendo disso? – perguntou Navi estendendo o projeto que ele tinha surrupiado. Rasalas o pegou e passou os olhos, meramente curioso.
—Não... mas isso é sério, agora que está se tornando algo oficial. O Lorde das Trevas fez isso também. – murmurou ele, sombrio – Onde conseguiu isso?
—Na mesa do meu chefe. – resmungou Navi.
—Você está mesmo fazendo um curso pra auror, Navi? – perguntou Pansy – Você sabe que o departamento de Aurores está do outro lado, não sabe?
—Eles não precisam saber do meu caráter. Vou dizer que não aprovo violência, mas se for meu trabalho, eu vou fazer. Assim consigo informações para a Resistência... quem sabe até viro membro oficial, né papai?
—Eu não quero você, ou a sua irmã metidos nisso. – ralhou tio Navi – Você deveria estar se preocupando com o seu casamento, isso sim. – adicionou ele.
—Não quero um casamento espalhafatoso. Quero algo simples. Les também. Só a família mesmo. Mamãe falou que vai ajustar o vestido de casamento dela pra Les usar, Dido disse que iria desenhar o meu traje... não tenho muito com que me preocupar. – disse Navi dando de ombros – E você e Loto, Draconis? Pra quando vai ser o casamento?
Draconis deu um sorrisinho e olhou para Loto, que engoliu em seco.
—Bem... nós não pensamos muito nisso. – disse Loto dando de ombros – Digo... pelo menos não eu.
—Vocês não se imaginam se casando? – perguntou tia Pansy. Draconis sorriu olhando para Loto – Afinal vocês já têm um cachorro. É um grande passo.
—Bem... talvez um dia. – disse Loto, calmamente – Algum dia de Outono, na casa dos meus pais, com as folhas vermelhas das árvores fazendo um belo desenho com o por do sol de Wiltshire... uma cerimônia simples... dançaremos valsa... – Draconis piscou com um sorriso divertido enquanto Loto olhava o nada de maneira sonhadora – Vai ter uma banda, mas eu vou querer que a Lyra cante uma música pra nós, de preferência I’m The Only One, da diva da Melissa Etheridge... – Ele suspirou – Minha música favorita, sabe? – ele suspirou de novo, tamborilando os dedos no queixo – Draconis usará um traje preto e pérola e eu um vermelho ou vinho, cada um usando as cores da família do outro e...
—Ei! O que aconteceu com o vestido vermelho mais sexy e safado do mundo? – perguntou Draconis com um sorriso.
—Eu quero casar na casa do meu pai. Eu vou ter que usar um traje. – disse Loto como se sentisse muito por isso e os dois começaram a rir.
—Pra quem não pensa muito nisso, você já bolou bastante coisa. – riu Pansy, fazendo Loto e Draconis corarem.
—Por que não casam junto comigo? – perguntou Navi com um sorrisinho venenoso – Afinal vocês foram feitos um para o outro, sem restar dúvidas, não é?
Piscou, sabendo que ele se referia a Rose. Deu um sorrisinho, disfarçando seu constrangimento e Loto fechou a cara.
—O que quer dizer com isso? – perguntou ele.
—Garçom! Os cardápios. – pediu tio Rasalas. Draconis fingiu-se de curioso e Navi sorriu.
—Oras. Eu quis dizer o que eu disse. Nós já vamos viajar juntos. Podíamos casar juntos. – disse ele tranquilamente – Ou algum de vocês têm alguma dúvida sobre o relacionamento que estão levando?
—Não tenho dúvida nenhuma se esse seu veneno é dirigido pra mim. – resmungou Draconis – Eu só acho que não temos que ter pressa. – adicionou dando de ombros.
—É porque você é um Burke. – riu Pansy.
—Bem mais ou menos, né, tia Pansy? – riu Navi.
—Navi! Pare de falar essas coisas! – ralhou tio Rasalas.
—Mas é verdade, ué. – riu ele.
—O que quer dizer com isso, Pansy? – perguntou Loto, com curiosidade.
—Oras. Draconis cresceu como um Burke. Como tal, ele nunca precisou se preocupar com guerras, pois os Burke e Borgins são historicamente neutros. Uma família sem nobreza, mas realmente segura em seus assuntos comerciais. Duas famílias relativamente recentes, diga-se de passagem. Os Borgins são a família mais nova do Diretório Puro Sangue. Provavelmente só entraram porque o Nott que criou o Diretório era casado com uma Borgin. – explicou Pansy – Então, o que eu quero dizer é que a sua visão de mundo, Drac, não é a mesma da do Navi, ou a do Loto. Você não tem o sentimento que pode morrer a qualquer segundo, ou que algo ruim pode acontecer com você. Você se acha seguro. Por isso, pensa que não há pressa... mas Loto não é um Burke. Pense nisso. – riu ela lhe mandando uma piscadela.
Draconis engoliu em seco e olhou para Loto, que estava relativamente corado.
—Você... você pensa que pode morrer a qualquer segundo? Você é um Yaxley! – disse para o namorado.
—Bem... – ele suspirou – Sabe... é que... sei lá, né? Talvez a gente seja pressionado a apoiar de alguma maneira. Só porque não precisamos servir se não quisermos, não significa que ficaremos na mordomia para sempre, certo?
—Então você quer se casar comigo? – perguntou surpreso.
—Céus, Draconis. Ao menos fique de joelhos! – riu Navi.
Draconis sentiu um frio na barriga e corou.
—Não foi um pedido de casamento. Foi só uma pergunta!
—É claro que eu quero. – murmurou Loto – Você não pensa nisso?
—Não por agora. – disse Draconis, sentindo-se levemente intimidado com aquela conversa – Eu imaginei que ficaríamos juntos uns... cinco anos... e se estivéssemos bem, então começaríamos a pensar nisso.
—Cinco anos?! – perguntaram Loto e Navi.
—Ele é sensato. – riu Rasalas.
—Ele está te enrolando, Loto. Pula fora desse barco enquanto ainda dá tempo. – riu Pansy e Loto riu sem jeito.
—Loto sabe que eu não estou enrolando. Nós nos amamos e ele sabe disso. – disse convicto – Para de colocar pelo em ovo de dragão, Navi. Você também, tia Pansy! – ralhou Draconis pegando o cardápio.
*
Dois dias para o dia dos namorados. Era dia 12 de Fevereiro. Lyra estava abraçada com Les, já que não conseguia dormir sozinha, graças ao peso da barriga. Ainda estava muito escuro, não eram nem três horas da manhã, mas não conseguia dormir.
Sentia um enorme desconforto com as tais contrações de treinamento. Precisava tomar um banho. Soltou um suspiro e cutucou Les, mas amiga apenas praguejou, sem acordar. Suspirou e se levantou, saindo da cama e indo para o banheiro. Ligou o chuveiro e ficou embaixo da água quente, esperando o corpo relaxar, mas as dores chatas continuaram... cada vez mais fortes e compridas.
Lyra respirou fundo, desistindo do banho e saindo do banheiro. Colocou um roupão, fazendo careta e então decidiu ir para a cama de Scorpius. Saiu do dormitório e foi para o masculino. Olhou a cama de Scorpius e parou, sentindo dor. Respirou fundo e fechou os olhos, engolindo em seco. Depois se virou e abriu a cortina da cama de Albus.
Ele estava dormindo, com a boca aberta, os braços pra cima e desembrulhado. Lyra suspirou e deitou na cama, fechando a cortina. Ficou deitada, abraçada com ele, sem que o garoto acordasse. Sentiu mais uma cólica irritante e dolorida, que a fez mover as pernas com desconforto. Respirou fundo e Albus acordou e a olhou.
—Lyra? – perguntou ele piscando, como se não estivesse com certeza de que a estava vendo mesmo. Concordou com um aceno de cabeça e soluçou de nervoso – O que você está fazendo aqui?
—Você disse que eu poderia contar com você... caso eu precisasse... – murmurou ela.
—Claro. – murmurou ele.
—Eu preciso. – disse ela se abraçando a ele – Eu estou sentindo dor.
—Na barriga? É o bebê?! – perguntou Albus a olhando assustado.
—Eu... eu acho que sim... – murmurou ela – Normalmente o desconforto passa com um banho, mas dessa vez... – ela engoliu em seco – E está doendo mais que o de costume.
—Não deveríamos falar com o Scorpius? Ele quem andou lendo tudo sobre isso. – murmurou Albus.
Lyra concordou com um aceno de cabeça.
—Podemos esperar até amanhã? – perguntou ela – Digo... quando amanhecer.
—Mas e se nascer aqui!? – perguntou ele parecendo assustado com a possibilidade.
—O trabalho de parto demora horas, Albus... ainda mais na primeira vez. – resmungou ela.
Albus concordou com um aceno de cabeça, ainda parecendo nervoso. Ele suspirou e a abraçou também.
—Ok. Feche os olhos e tente dormir. – pediu ele.
Concordou com um aceno de cabeça e se aconchegou nele. Mas dormir se mostrou uma tarefa impossível. As dores não deixavam. Ficou rolando na cama, mexendo as pernas, morrendo de desconforto. Estava suando frio de dor e Albus se sentou a olhando.
—Desculpe. Eu vou falar com o Scorpius.
—Calma. – pediu ele engatinhando até suas pernas, para massageá-las – Deixa ele descansar. – riu Albus – Eu vou tentar te ajudar aqui, ok?
—Ok... – murmurou ela. Albus ficou lhe massageando nas pernas, a olhando com carinho, um carinho que tinha deixado de receber dele. E quando as contrações vinham, fechava os olhos, respirava fundo e escutava palavras de conforto dele – Eu... eu estou fazendo certo, não estou? – perguntou Lyra. Albus a olhou confuso – Sobre dar o bebê? – perguntou ela – Eu... eu não estou pronta pra ser mãe. Eu não quero ser mãe. Nunca...
Albus engoliu em seco.
—Eu não estou pronto pra ser pai... nós não estamos prontos, Lyra. – ele suspirou – Não é certo, eu acho... acho que era nossa responsabilidade... mas eu acho que aqueles russos vão cuidar muito bem dela. Ela vai ser muito feliz. – murmurou ele – Eu acredito nisso.
Lyra engoliu em seco e concordou com um aceno de cabeça.
—Eu sou um monstro por entregar ela? Ela vai me odiar um dia? – perguntou Lyra. Albus suspirou.
—Eu não sei, Lyra. Mas eu não te acho um monstro... você está fazendo o que acha que é o melhor pra ela.
Lyra concordou e engoliu em seco.
—Estou com medo... da hora do parto. – confidenciou. Albus suspirou.
—Quer que eu fique ao seu lado? Ou prefere o Scorpius? – ele a olhou com carinho – Se você quiser que eu fique, eu fico. Sem problemas...
—Eu quero... se Scorpius não se importar. – adicionou ela.
Albus a olhou surpreso e sorriu.
—Ok... ele conquistou o lugar principal ao seu lado. – Albus suspirou – Eu fui terrível nesses meses... eu deveria ter me esforçado para participar e...
—Eu não teria deixado.
—Mas eu deveria ter insistido... eu simplesmente deixei o Scorpius assumir a minha responsabilidade... me perdoe, Lyra.
—Ok. – riu Lyra se sentando, com uma careta no rosto – Eu peço desculpas por toda essa situação... e por ter me metido entre você e Cerce.
—Me desculpa por não ter cumprido com o que eu disse pra você, naquele dia... mas é que...
—Não precisa se explicar. – riu Lyra – De verdade... apenas... apenas vamos voltar a ser amigos, ok?
—Ok. – riu ele.
—Eu... eu vou tentar te esquecer, Albus. – riu ela – Eu vou mesmo. Sem falar que eu pretendo ser mundialmente famosa... com a minha música e todo o mais... não dá pra namorar alguém que está querendo lutar uma guerra e ser uma estrela do rock ao mesmo tempo. – disse com um sorriso triste.
—Acho que não... – murmurou Albus. Os dois suspiraram e Lyra fez outra careta – Dor? – Ela concordou e Albus suspirou se deitando ao seu lado – Segure minha mão. – murmurou ele – Aperte quando doer. Vamos passar por isso juntos.
**
Scorpius acordou com Les o sacudindo.
—Sabe que horas são? – perguntou ela, animada.
—Não. – resmungou voltando a se esconder embaixo do travesseiro.
—É hora de levar Lyra para a Ala Hospitalar! O bebê está chegando! – riu Les e Scorpius levantou num pulo, procurando por suas calças. Os garotos do quarto riram dele.
—Seu filho vai nascer, Scorpius. – riu Joseph – Ou melhor, filha, né?
—Isso. – disse Scorpius sentindo-se nervoso, enquanto fechava o zíper da calça – Cadê a Lyra? Quantas horas?
—Dez. Você perdeu o café. – riu Lance – Parabéns, Scorpius. E boa sorte. – riu ele.
—Albus está com a Lyra, lá no salão. – disse Gale.
Scorpius estava colocando a camisa, enquanto abria seu baú. Tirou de lá uma sacola com roupas de bebê, mudas de roupa para Lyra, uma manta, tocas, luvas e sapatinhos. Depois tirou a placa que tinha feito com o nome Natasha Petrovich. Apesar de toda sua conversa, não estava preparado para uma Virgo Malfoy.
Colocou a placa na bolsa e conferiu se estava tudo ali. Depois foi para o Salão Comunal, onde Dido ajudava Lyra, que fazia caretas de dor.
—E é por isso que eu não quero ter filhos. – riu Dido – Lyra faz sorrindo o que eu não faço chorando e olha como ela está!
—Está doendo muito, Lyra? – perguntou Cerce, que segurava a outra mão dela.
—Imagine espremer uma abóbora por um buraco do tamanho de um limão! – rosnou ela. Albus massageava os ombros dela, completamente pálido.
—Vai dar tudo ce-certo. – disse ele, nervoso.
—O PAPAI CHEGOU! – gritou Gale, passando o braço pelos ombros de Scorpius.
—Uh! Uh! O papai chegou! Uh! Uh! O papai chegou! – cantaram Joseph e Lance, puxando o coro para toda a Sonserina. Scorpius corou de leve, sentindo-se nervoso.
—Vamos, mamãe? – perguntou ele. Lyra fechou os olhos e xingou baixinho, mas pouco depois respirou fundo.
—Vamos. – disse ela. Cerce e Dido ajudaram a prima a levantar. Scorpius tomou o lugar de Cerce, que foi para junto de Albus.
—Albus, você vem? – perguntou Scorpius.
—Vou! – disse ele com convicção.
Dido então foi para junto da irmã e Scorpius, Albus e Lyra deixaram a sala da Sonserina. O trio foi subindo os degraus, lentamente, pois todo o tempo Lyra pedia para parar. Notou que a barriga dela tinha abaixado muito, o que era um sinal de que o parto começaria em breve.
Minutos depois estavam na Ala Hospitalar. O Sr. Fungus, o enfermeiro, fez uns testes em Lyra, enquanto Scorpius e Albus observavam, muito nervosos.
—Sim. Vai nascer. Falta pouco agora. Sua dilatação está muito boa, Srta. Lestrange. – disse o enfermeiro – Eu vou avisar o diretor, para que avise os seus pais. – explicou ele. Lyra concordou com um aceno de cabeça e Scorpius suspirou ao enfermeiro sair.
—E então? – perguntou Scorpius – Estão nervosos? Eu estou bastante nervoso.
—Eu acho que vou desmaiar. – resmungou Albus.
—Seus maricas. Eu quem vou parir. Parem de ficar assim. Estão me deixando com medo. – lamentou Lyra.
Scorpius e Albus olharam um para o outro e se sentaram ao lado dela, cada um de um lado.
—Não precisa ficar nervosa, Lyra. Depois que nascer, se doer muito, você chuta as bolas do Albus por ele ter feito isso com você. – riu Scorpius e Albus o olhou feio.
—Deixe minhas bolas fora disso. – ralhou Albus.
Os três ficaram conversando por alguns minutos e toda vez que uma contração vinha, os dois garotos abraçavam Lyra, que resmungava de dor. Vez ou outra ela xingava. Mais alguns minutos e o Sr. Fungus chegou com um vestido que ela teria que usar. Lyra fechou as cortinas e Scorpius a ajudou a trocar de roupa, já que, graças à enorme barriga e às dores, ela estava com dificuldade.
Depois Scorpius a ajudou a se deitar na cama a olhando preocupado. Albus se juntou a ele e então Scorpius foi até à bolsa pegar a placa com o nome de Natasha Petrovich. Ele a mostrou para Lyra, que sorriu nervosamente. Depois o rapaz foi até a porta e colocou a placa ali, a tempo de ver tio Rasalas e tia Daphne se aproximarem parecendo muito nervosos.
—Olá, pessoal. – riu ele.
—Como está Lyra? – perguntou Rasalas.
—Está lá dentro com Albus. – respondeu Scorpius. Tio Rasalas entrou logo e tia Daphne ficou olhando para a placa.
—Natasha Petrovich... – murmurou ela – É um nome bonito. – suspirou ela.
Scorpius suspirou e concordou, dando de ombros.
—Você vai entrar? Ou ainda está sem falar com Lyra? – perguntou Scorpius. Tia Daphne suspirou e o olhou.
—Minha filha vai ter um bebê. É claro que eu vou entrar, por mais decepcionada e chateada com ela que eu esteja. – respondeu ela logo antes de entrar.
Scorpius suspirou e deu as costas para a porta. Todos estavam onde deveriam estar. Olhou para a placa e sorriu.
—Adeus, Virgo... – e ao dizer isso o nome Natasha Petrovich mudou para Virgo Malfoy por breves segundos, antes de voltar ao nome russo.
***
O chorinho de bebê fez com que todos se calassem. Scorpius olhou para Gale, que parecia levemente assustado. Cerce e Dido estavam abraçadas, olhando para a porta com nervosismo. Rabastan roia as unhas ao lado do primo Órion. Prim e Les andavam de um lado para o outro, muito nervosas.
Todos ficaram muito quietos, olhando para a porta, mas levou mais de meia hora até que Albus saísse de lá, muito pálido, parecendo bem aéreo.
—É mesmo uma garota. Não é metamorfomaga, ou pelo menos não parece ser. – disse ele muito aliviado. Todos concordaram com um aceno de cabeça – Tem os meus olhos. – disse ele parecendo bobo – Os cabelos escuros. Ela é bem cabeluda... tem o nariz meio achatado, mas a Sra. Lestrange falou que os bebês todos têm... – ele engoliu em seco – Ela é linda. – adicionou ele – Eu sou pai... eu sou um pai. – sussurrou ele escorrendo pelo batente da porta.
Scorpius tinha contado aquilo para os outros, que tinham ficado curiosos por ser Albus a acompanhar o parto e não ele. Dido estava furiosa, Prim, indignada. Mas Cerce já sabia e disse que não se importava. Disse que não se importaria nem mesmo se Albus e Lyra resolvessem ficar com o bebê. Ela inclusive preferiria que eles ficassem com o bebê, mas sabia que a escolha era apenas deles.
—Como a Lyra está?
—Está amamentando. – disse Albus. – Ela está muito emocionada. A Sra. Lestrange está querendo ficar com a Natasha... – explicou ele – Mas Lyra disse que os russos vão ser os pais dela. – explicou Albus um tanto triste.
—E você, o que acha disso? – perguntou Scorpius.
Albus respirou fundo.
—Natasha estará mais segura lá... – explicou ele – Sem o sobrenome Potter... longe dessa confusão toda, longe da guerra... – explicou ele – Então eu... eu vou concordar com a Lyra.
Todos se entreolharam, parecendo tristes. Como se espelhassem seu humor naquele momento.
—Entendi. – murmurou Scorpius.
—Você quer vir conhecer? – perguntou Albus.
—Eu quero! É minha sobrinha! – disse Rabastan entrando.
Scorpius desviou o olhar e se sentou no chão, com as costas apoiadas na parede. Todos entraram para conhecer o bebê. Ele não. Ele queria um momento especial e só dele. Quase uma hora depois, quando todos saíram, menos Albus, ele se levantou e entrou.
Rasalas estava olhando o bebê, no colo da esposa, enquanto Lyra parecia simplesmente exausta.
—Ei... eu... eu posso ficar um tempinho a sós com elas? – perguntou Scorpius.
—Claro. Tenta colocar algum juízo na cabeça da minha filha. – adicionou Daphne, deitando o bebezinho num cestinho. Scorpius riu cabisbaixo e Daphne saiu. Rasalas beijou a filha na testa e lhe deu uns tapinhas no ombro, para sair junto com Albus. Scorpius fechou a porta e olhou para a amiga.
—Vem... você mais do que todo mundo deve estar louco pra conhecê-la... e se despedir. – murmurou Lyra fracamente. Scorpius suspirou e concordou, se aproximando. Um tanto desajeitado, pegou o bebezinho no colo. Albus tinha esquecido de falar que o bebê era a cara dele. Não apenas os olhos e cabelos. O formato do rosto, as sobrancelhas, a testa – É a cara do Albus, não é? – perguntou ela.
—Sim. – riu Scorpius – Ei, Virgo... – chamou ele e o bebê o olhou preguiçosamente – Eu sou o seu papai, não deixe aquele cabeçudo do Albus te convencer do contrário, ouviu?
—Virgo Petrovich... é um lindo nome. – disse Lyra e ele a olhou – Eu disse pro meu pai... que só vou dar o bebê se eles a chamarem de Virgo Petrovich. – explicou ela – O que acha?
—Eu acho ótimo, apesar que Virgo Malfoy é mais bonito.
—Virgo Lyra Malfoy. – concordou Lyra e ele sorriu.
—Sim. Ficaria muito melhor, não acha?
—Sim... mas a vida tem dessas... – Lyra soltou um suspiro – Nós não podemos ficar com ela, Scorpius.
—Eu sei. É muito arriscado. Você é metamorfomaga... Albus é um Potter... e ninguém nunca iria acreditar se eu falasse que ela é uma Malfoy. – riu ele segurando uma das mãozinhas do bebê. Andou até Lyra e a olhou com carinho – Você nunca cogitou ficar com ela por isso, não é? Pela segurança dela?
—É. Eu morro de medo dela... dela puxar o meu dom... ou acabar virando um vidente... minha avó era. Não tão forte quanto a minha tia, mas... – murmurou Lyra – Ela vai estar segura na Rússia, não vai?
—Eu acredito que sim. – riu Scorpius olhando para Lyra – Ela é muito bonita.
—Sim. Ela é linda. – suspirou Lyra fechando os olhos – Eu vou dormir um pouco... – sussurrou ela. Scorpius concordou e ficou ninando Virgo, que caiu no sono. Ficou observando mãe e filha dormirem, serenamente, achando aquela cena adorável, apesar de achar que Lyra estava um tanto pálida. Se sentou numa poltrona e ficou com o bebê no colo, impressionado com o quanto ela se parecia com Albus, apesar de ser linda. Havia algo de Lyra nela, apesar dele não saber exatamente o que.
Ficou sentado ali, se despedindo daquele bebezinho por quem tinha se afeiçoado. Os cabelos escuros, os olhos verdes... piscou, espantado, ao notar que não era com Lyra que a garotinha se parecia, mas com sua mãe. Sua mãe também tinha os olhos verdes, os cabelos escuros e querendo ou não, ela era tia de Lyra.
Fechou os olhos e encostou a testa do bebê contra sua, sentindo enorme saudade de sua mãe. Daria qualquer coisa para poder ver sua mãe de novo, por um momento que fosse. Ninguém em sua vida faria mais falta do que ela. Estava pensando em sua mãe ainda, quando abriram a porta. Era o diretor. O olhou confuso e o homem o olhou com interesse.
—O que temos aqui? É uma menina, certo? – perguntou o diretor Wilson.
—Sim. – respondeu.
—Posso segurá-la? – perguntou ele – Afinal, ela nasceu na minha escola.
—Não. – respondeu Scorpius assim mesmo – Onde está o Sr. Lestrange?
—Ele está... ocupado. – respondeu o diretor – Ouvi que ele estava conversando com o nosso novo curandeiro.
—Novo curandeiro? – perguntou Scorpius – O Sr. Fungus é um excelente curandeiro.
—Ele é apenas um enfermeiro. Eu acho que, em virtude do avanço do clube de duelos, seria interessante ter um novo médico.
A porta voltou a se abrir e um homem entrou. Alto e forte, com o queixo largo e a barba por fazer. As sobrancelhas eram bem marcadas e ele tinha um sorriso travesso. Careca, mas perceptivamente loiro, com os olhos num tom azul claro. Ele sorriu para o diretor e suspirou.
—Então aqui que eu vou trabalhar?
—Isso mesmo, Hesse. – riu o diretor. Scorpius sentiu cada cabelo seu se arrepiar ao escutar aquele nome. Hesse era o nome do cara que tinha deixado a mãe de Draconis louca. Sentindo o coração bater acelerado, tentou fazer como seu pai tentara lhe ensinar. Sobre como fechar os próprios sentimentos e a própria mente, para que não fosse possível ser lido. Mas nunca tinha sido um bom oclumente e teve absoluta certeza que os dois notaram que ele sabia que Hesse não era um homem qualquer – Conhece o Dr. Kevin Hesse, Scorpius?
—Scorpius... Malfoy? – perguntou Hesse. Scorpius engoliu seco. Com Virgo no colo e Lyra desmaiada... não tinha como fugir, ou duelar. Onde estariam Albus e Rasalas?!
—Isso mesmo. – respondeu o diretor.
Scorpius e o médico se encararam.
—Muito bem... é um prazer conhecê-lo, jovem Malfoy. Eu conheci o seu pai uma vez. Um homem interessante. – riu Hesse e Scorpius engoliu em seco – Ele falou de mim?
—Sim. – respondeu Scorpius – Você é primo da ex-namorada do meu pai.
—Que segue desaparecida. – riu ele.
—Sim, meu pai ficou muito triste. Foi a primeira pessoa com quem ele se envolveu depois do atentado ao Ministério. – murmurou Scorpius.
—Isso mesmo. – riu Hesse – Bem... eu acho que vou averiguar meu escritório. Nos vemos em breve, jovem Malfoy. – riu ele.
Scorpius engoliu em seco e Hesse começou a avançar para o escritório do Dr. Fungus, quando a porta voltou a se abrir e Rasalas entrou com a esposa.
—Sr. Lestrange. Parabéns pela neta. Ela é muito bonita. – disse o diretor – Mas esse cabelo me surpreendeu.
—Ela é a cara da minha mãe. – respondeu Scorpius e Daphne concordou com um aceno de cabeça.
—Eu também notei. Bateu uma saudade, né? – perguntou ela parecendo emocionada. Scorpius olhou para o Sr. Lestrange, mas ele não prestava atenção. Ele olhava para Hesse, que o olhava de volta.
—Sr. Lestrange? – perguntou ele – Acho que não nos conhecemos. Eu sou Kevin Hesse. – riu ele com desdém.
—Você atacou a casa dos meus pais. – rosnou Rasalas, sacando a varinha – Você quase matou meu pai e machucou a minha mãe.
Hesse sacou a varinha dele, com um sorrisinho desdenhoso.
—Acalme-se, Sr. Lestrange. – riu ele.
—E você capturou a minha irmã. Você deixou meu irmão louco! – rosnou ele.
—Eu? Você tem como provar qualquer uma dessas acusações infundadas? – perguntou ele muito calmamente e Scorpius sacou a varinha, caminhando de costas até Lyra, na intenção de fazer um feitiço escudo, caso fosse necessário.
—Papai...? – perguntou Lyra, parecendo com sono, já que tinha acabado de acordar – O que houve?
—Rasalas. Não faz isso aqui. – pediu Daphne – Olhe como sua filha está. E sua netinha recém nascida! – disse Daphne, com desespero na voz.
—Eu vou matar esse desgraçado. – rosnou Rasalas.
—Sr. Lestrange! Comporte-se. O Dr. Hesse é o novo curandeiro da escola. – ralhou o diretor Wilson e Rasalas o olhou ainda mais furioso.
—Só sobre meu cadáver. – rosnou ele.
—Rasalas, pelo amor de Merlin, se acalme! – pediu a Sra. Lestrange. Rasalas estava com os olhos completamente negros, os cabelos se arrepiaram e ficaram negros também, enquanto o rosto dele adquiria um aspecto extremamente selvagem e assustador. Virgo chorou, agitada, mas seu choro era baixinho, como se estivesse muito longe dali. E Scorpius a segurava como se sua vida dependesse disso – Rasalas, pense na sua família!
—Eu estou pensando na minha família. – rosnou ele. Hesse deu um sorrisinho atrevido e desdenhoso e Scorpius notou que seu tio o atacaria a qualquer momento.
—Papai? – perguntou Lyra novamente – O que você... – e então ela parou de falar. Scorpius a olhou preocupado e notou que ela estava muito pálida e tinha desmaiado.
—Rasalas! – chamou Scorpius, mas Rasalas estava ocupado demais olhando para Hesse – Rasalas!
—Rasalas, por favor! – repetiu Daphne.
—Sr. Lestrange.
—RASALAS! – gritou Scorpius e Rasalas o olhou – Lyra! Olhe para Lyra!
Todo mundo o fez. Hesse piscou por um momento e avançou contra a garota.
—SAIA DE PERTO DELA! – gritou Rasalas.
—Hemorragia. – sussurrou Hesse, puxando o cobertor e Scorpius achou que iria desmaiar. A cama, escondida pelo cobertor negro, estava coberta de sangue – Merda... Atonia Uterina. Chame o Fungus, rápido, Jon, ou ela vai morrer. – Hesse olhou para Rasalas, que no momento parecia outra pessoa. Os cabelos dele tinham mudado para o cinza e o rosto dele agora era de quem estava muito assustado – Ela perdeu muito sangue. Qual o tipo sanguíneo dela, Sr. Lestrange? – perguntou Hesse apontando a varinha para Lyra, que estava tão pálida que parecia estar cinza.
—Ela é B negativo! – disse Daphne olhando horrorizada para a cama de sangue. O Dr. Fungus entrou rapidamente, junto com o diretor.
—Ela precisa de pílulas sanguíneas. – disse Hesse.
—Eu vou buscar! – disse Fungus, voltando para o escritório.
—B negativo, senhora, Lestrange? – perguntou Hesse.
—Isso mesmo. – murmurou ela e Hesse continuou com os feitiços.
—Não quer parar de sangrar. – murmurou ele. Ele suspirou, perdendo o sorriso pela primeira vez. O medibruxo olhou para o escritório e Fungus voltou trazendo uma caixa cheia de bolinhas vermelhas.
—Aqui está, Dr. Hesse. – disse ele.
—Faça-a comer e me ajude aqui. O útero não quer parar de sangrar. – resmungou ele – Essa pequena deve ter rasgado tudo para sair.
—E por que não quer fechar? – perguntou Scorpius, chocado.
—Porque ela tem um defeito genético comum em lobisomens. – disse Hesse.
—Lyra não é um lobisomem! – disse Rasalas, perdendo ainda mais a cor.
—Não. Mas ela tem o vírus incubado nela. E ele deixa alguns lugares resistentes a magia... infelizmente para ela foi o útero. – disse Hesse – Ela vai sangrar até morrer a menos que... – o médico abriu as pernas de Lyra e enfiou a varinha ali.
—EI! – ralhou Scorpius.
—Eu vou ter que lançar um feitiço cauterizador. Vai doer horrores, mas vai impedir que sangre mais. Teremos uma chance de salvá-la.
—Infecções são mais fáceis de se lidar do que esse problema congênito. É por isso que dizem que lobisomens não devem se reproduzir. – murmurou Jon Wilson, que era o diretor.
—Você vai queimar o útero dela?! – perguntou Daphne – Mas isso... isso quer dizer que...
—Caso ela sobreviva... ela não vai mais poder ter filhos. – explicou Hesse – Ela é maior de idade, mas não está em condições de responder. Vocês decidem por ela. Mas têm menos de um minuto, ou vai ser tarde demais. Ela já perdeu muito sangue.
Scorpius abraçou Virgo e olhou para os tios, que miravam Lyra, com atenção.
—Não dá tempo de procurar uma segunda opinião, Rasalas. – disse Daphne, com desespero.
—Quer que eu salve a vida da sua filha ou não? – perguntou Hesse.
Rasalas respirou fundo. Scorpius notou que ele parecia enfrentar o dilema de sua vida.
—Faça o que for necessário. – disse ele com ódio na voz.
Hesse concordou.
Scorpius virou o rosto e se afastou, para em seguida escutar Lyra gritar. Um grito desesperado de dor. Virgo chorou ainda mais, completamente assustada. Tão de repente quanto começara, Lyra parou de gritar e Scorpius olhou para o Dr. Fungus.
—Pressão, Sr. Fungus? – perguntou Hesse fazendo feitiço atrás de feitiço, parecendo extremamente concentrado.
—Estável... por enquanto. Batimentos cardíacos estáveis... respiração estável... ela só desmaiou devido à dor. – explicou ele. Hesse concordou e pronunciou outro feitiço. O sangue morto de Lyra começou a evaporar numa nuvem vermelha, afunilando para a varinha dele, formando uma imensa bolsa. Com um brandir de varinha, ele fez o sangue sumir e então olhou entre as coxas de Lyra de novo.
—Um pano limpo. – pediu ele – E uma pasta para queimaduras. Uma poção de Wiggenweld seria bom também.
O Sr. Fungus obedeceu, entregando tudo para Hesse, que foi cuidando de Lyra, com um aspecto muito concentrado.
—Aqui...
—Sua filha não vai morrer, Sr. Lestrange. O útero está completamente destruído, ela não vai poder engravidar de novo. Mas a hemorragia foi contida e os sinais vitais estão estáveis. Quantos partos você já realizou, Sr. Fungus?
—Eu ajudei em dez partos...
—E não notou que o sangramento não tinha estancado? Foi um erro bem de principiante. – ralhou Hesse – Talvez você devesse voltar pra escola de medicina. Você quase matou uma garota. – adicionou ele. O Sr. Fungus engoliu em seco, parecendo muito envergonhado e abatido – Essa certamente não é minha especialidade, mas vocês tiveram sorte de que eu estava aqui. McGonagall provavelmente achou que os alunos não poderiam se machucar tanto e por isso contratou um medíocre para o trabalho. Fez bem em me chamar, Wilson. – ralhou ele enquanto Fungus se sentava, parecendo derrotado – Você me deve, Sr. Lestrange. A vida de sua amada filhinha. – riu Hesse, voltando a adquirir seu sorriso desdenhoso – Não se esqueça disso. A garota deve ficar em observação por uma semana.
****
Quando contaram para Lyra que ela não poderia engravidar novamente, ela não pareceu se importar. A mãe dela insistiu que ela ficasse com o bebê, mas ela tampouco quis. Lyra era assim. Quando ela decidia alguma coisa, ela simplesmente não mudava de ideia.
Mas isso não significava que ela não tinha ficado abalada.
Ela tinha.
Os cabelos dela agora eram sempre negros. Ela sempre exagerava na maquiagem. Ela estava sombria e a Lyra brincalhona, sem limites e porra louca tinha desaparecido.
Scorpius notou.
Albus também notou.
E principalmente Les, que era a melhor amiga dela.
Lyra não foi se despedir de Virgo. Ela preferia não se despedir. Então Albus e Scorpius foram no lugar dela.
Albus sentindo-se triste. Muito triste...
Scorpius tinha chorado, mas Albus prometeu não espalhar.
E quando o mês de Março chegou, parecia que havia uma sombra negra sobre a Sonserina. Todos estavam preocupados com o futuro, pois todos teriam que passar por uma inspeção com o novo médico. E Scorpius contara quem ele era e o que ele tinha feito.
E ninguém parecia mais nervosa que Dido. Cerce era uma vidente e ela morria de medo do que aconteceria com ela caso descobrissem, ainda mais depois do que tinha acontecido com a mãe delas.
Albus também estava bastante assustado com aquilo. Kevin Hesse era o responsável por Alhena ter ficado louca... mas ele também se perguntava se o fato de Kevin Hesse ter vindo para Hogwarts iria acabar atraindo Mad-Dog Lestrange.
Órion e Rabastan pensavam que sim. E eles não sabiam se ficavam animados ou assustados com aquela possibilidade. Tio Rigel tinha se transformado num lunático sem limites e atrás dele havia uma imensa trilha de sangue.
Lessa apenas contava os dias para terminar os estudos. O quanto antes ela e seus amigos deixassem a escola, melhor. Ela iria noivar com Navi e o sobrenome dele a manteria a salvo. Mas enquanto eles não faziam isso, ela ficaria escondida com a Resistência, assim como seu irmão estava.
Hogwarts tinha se tornado um lugar terrível e perigoso. Aquele que havia se tornado um símbolo de resistência, segurança e liberdade, agora parecia apenas mais órgão da opressão, com professores e diretores apoiando todas as loucuras do Ministério. Com toda aquela lavagem cerebral. Com todo aquele discurso de ódio.
Todos eles. Todos... só queriam ir pra casa. Queriam estar com suas famílias. Todos tinham medo de serem chamados para enfrentar os trouxas, pois sabiam que aqueles que iam... nunca voltavam...
E o fato de Cerce acordar toda noite com pesadelos e sonhos inquietos... isso não ajudava ninguém.
Nem um pouco...
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