Legado Lestrange II - Legacy
65 Tea Talk
Notas iniciais

Capítulo 65
O professor Neville entrou nas estufas para verificar como estavam seus pequenos murtiscos. Ele não estava no espírito do Baile de Dia Das Bruxas que o professor Slughorn tinha feito (bem no mesmo estilo que o pai dele fazia, diga-se de passagem...). Ele só queria olhar suas plantas e ir para o Caldeirão Furado, para ficar com sua amada Anna por aquela noite. Ela provavelmente teria feito seus biscoitos favoritos. Ela sempre fazia...
Andou com os passos sendo abafados pela grama e por isso não foi notado pelo casal que se agarrava ali. Por um momento imaginou que era Lestrange e Young – de novo – no cantinho das samambaias, mas escutou um chorinho e isso prendeu sua atenção.
—Pare de drama. Você disse que queria! – ralhou uma voz masculina.
—É. Mas eu mudei de ideia. – lamentou uma voz feminina. Piscou achando aquilo estranho e foi se aproximando em silêncio – Por favor. Eu não quero mais. Eu não quero mais!
—Eu não ligo! Você concordou. Agora para de se remexer!
—Por favor... Pare! Me solte ou eu vou gritar!
—Fica quieta e para de drama! – ralhou a voz masculina.
—O que está acontecendo aqui!? – perguntou o professor, pegando os dois alunos no flagra. Crisélia Carlton da Corvinal e Marcus Klun, da Sonserina... Tinha que ser da Sonserina...— Klun. Largue a senhorita Carlton agora mesmo.
Klun, parecendo completamente furioso, soltou a garota e bufou.
—Ok. Também não quero mais saber da freira. – resmungou ele.
—E eu vou tirar cem pontos da Sonserina! – ralhou Neville, mas Klun deu de ombros, sem nem parar de andar, saindo da estufa. Olhou para a garota da Corvinal, que estava completamente corada – Você está bem?
A menina estava tremendo, mas concordou com um aceno de cabeça.
—Foi culpa minha... – lamentou ela e Neville piscou surpreso – Eu dei todas as dicas, sabe? E eu bebi demais, também. Eu não devia ter bebido, mas o Marquinhos insistiu... e... e... – ela soluçou – Eu deixei ele zangado agora com a minha frescura.
—Ei... ei... – murmurou Neville – Você não fez nada de errado... digo... você bebeu e está no quinto ano. Não deveria ter feito isso... e cogitar fazer sexo no colégio não é uma boa também. – ralhou ele e Carlton corou – Mas fingindo que isso não importa e que a única coisa que estamos tratando é você ter dito que não queria... isso deveria ser o suficiente...
—Mas professor... – lamentou a menina – Eu disse que queria. Eu disse, entendeu? – perguntou ela.
—Mas mudou de ideia... – suspirou Neville – Fique aqui. Eu vou dar uma olhada nos meus murtiscos e depois vou te levar para o seu Salão Comunal, ok?
—Ok... – suspirou a garota, parecendo muito constrangida.
E quando Neville voltou pra casa, ele ainda estava pensando na pobre Carlton, que jurava que era culpada naquela história toda.
—Isso é normal. – murmurou Anna, sua esposa, lhe entregando uma xícara de chá – Os garotos acham que depois que uma garota fala “sim”, não se pode mais mudar de ideia.
—Mas isso é errado. – resmungou Neville.
—Eu sei que é... mas desde quando esses bruxos tradicionalistas param para escutar o que uma garota tem a dizer? Eu vejo eles fazendo piadas horrendas sobre McGonagall, aqui, durante as férias. Todas misóginas. Como se ela fosse menos capaz por ser mulher... – Anna se sentou em sua coxa, bebericando da própria xícara – Infelizmente o feminismo trouxa não chegou no mundo bruxo... e olha que o feminismo trouxa ainda tem muito pelo que batalhar, viu?
—Bem... eu vou fazer algo a respeito disso! – disse Neville franzindo a testa.
—Querido, não é responsabilidade sua. – murmurou Anna – É dos pais.
—Eu sou um educador. É minha responsabilidade sim. E é um excelente momento pra isso. Navi Lestrange fez um chilique outro dia porque a professora de DCAT era homofóbica. E ela foi demitida por isso.
—Navi Lestrange? O filho do Rasalas?! – perguntou Anna.
—É. – concordou Neville.
—Quem diria. – riu ela.
—Ele é um bom menino... só tem que aprender a ficar dentro das próprias calças...
*
Draconis fechou a porta, sentindo-se desconfortável em suas calças. Ele andou até o lado de fora do navio e pegou um cigarro para fumar. Harley estava lá, fumando também e sorriu quando o viu.
—Uai? Que cara é essa de que comeu e não gostou? – perguntou ela.
—Não é que eu comi e não gostei, eu não comi. – respondeu sentindo o vento gelado bater em seu rosto. Era o dia do Baile do dia das Bruxas, quando os alunos mais velhos da Durmstrang podiam dormir fora do castelo, em um dos navios, e voltar no dia seguinte.
—Uai. Mas você e o Loto estavam cheios de expectativas. – riu Harley. Draconis deu de ombros – O que aconteceu?
—Ele bebeu demais. Desmaiou. – resmungou Draconis – E sabe o que é mais escroto? – perguntou Draconis tragando o cigarro e olhando para Harley, que estava com os cotovelos apoiados no convés.
—O que?
—Ele viu que estava pra desmaiar... e eu falei: poxa... falei pra você não beber tanto... – tragou mais uma vez o cigarro, indignado, prendeu a fumaça e então a soltou – Sabe o que ele falou?
—O que? – perguntou Harley.
—Ele falou: pode continuar ai... mas eu não dou mais conta... – tragou de novo, furioso – Que tipo de pessoa o Loto acha que eu sou? Será que passou pela cabeça dele que eu iria comer ele com ele desacordado?! Que tipo de gente pensa isso?!
Harley deu um sorrisinho, tragando o cigarro dela.
—Muita gente pensa isso. Ainda mais por ele ter “te dado permissão”... Muita gente não teria pensado duas vezes... – respondeu ela – Quem te ensinou a não pensar isso?
Draconis piscou e passou a mão pela cabeça raspada.
—Meu pai... – murmurou. Harley sorriu e soprou a fumaça do próprio cigarro.
—Seu pai é um cara muito legal então... como ele te ensinou isso?
Soltou um suspiro e tragou seu cigarro de novo.
—Ele, quando eu era bem pequeno, gostava de brincar de fazer cócegas em mim... Eu morria de rir até perder o fôlego. – Draconis deu uma risadinha da cara confusa de Harley – Ele só parava quando eu falava para ele parar... e teve um dia que ele me perguntou se eu sabia o porquê dele parar... e eu disse que não... – Draconis se endireitou, com uma mão no bolso e a outra segurando o cigarro – Ele disse algo mais ou menos assim: Eu parei porque sou mais forte que você e porque você me pediu. Porque eu respeito você. E se algum dia você for mais forte que alguém e a outra pessoa te pedir pra parar de fazer o que quer que você esteja fazendo, você tem que parar na hora. E se essa pessoa não tiver como te pedir pra parar... você nem deveria estar fazendo nada com ela pra início de conversa.
A olhou levemente constrangido, mas Harley sorriu.
—Nossa. Que legal. Seu pai parece ser bem bacana.
—Ele é...
—Meu pai falava que se alguma coisa desse tipo acontecesse comigo é porque eu não me cuidei. Meu pai é um babaca. – resmungou ela. Draconis negou com a cabeça – Já sofreu na mão de alguém?
—Já. Mais de uma vez. Por isso mudei de escola. – murmurou Draconis – E você?
—Sim. Meu tio. – respondeu ela olhando para a água gelada, lá embaixo.
—O que ele fez? Posso perguntar? – perguntou a olhando e se apoiando no convés também.
—Ele mexia comigo. Falava que eu tinha que ficar quietinha, pra não acordar o meu irmão. Eu morria de medo dele... Ele nunca me estuprou. – disse Harley – Ele gostava de me colocar no colo e acariciar minhas coxas. Eu não entendia o que ele estava fazendo, mas sabia que era algo ruim. Então, um dia, quando eu completei doze anos, ele me obrigou a masturbar ele.
—Seu tio é um babaca. Você falou com seus pais? – perguntou Draconis. Harley deu uma risadinha triste.
—Sim, no dia seguinte. Eu tive medo do que ele me obrigaria a fazer. Na verdade eu contei pra minha avó, porque ela era o único adulto além do meu tio lá em casa... e ela disse que eu tinha que calar a boca pra falar do filho dela. Eu não passava da neta da empregada, sabe? Foi quando eu descobri que meu pai era um bastardo, diga-se de passagem... – Harley deu uma risadinha, passando a mão pelo cabelo curto – Então eu me escondi no sótão, morrendo de medo do que iria acontecer se meu tio descobrisse... meu pai chegou do trabalho e eu corri pra contar pra ele... então eu levei um tapa na cara, por falar aquelas coisas absurdas do irmão do meu pai, que era o melhor amigo dele. – Draconis piscou em choque e Harley riu sem alegria novamente – E ele me proibiu de repetir aquelas “mentiras” novamente. Mas quando minha mãe chegou, eu contei pra ela, desesperada, chorando. E minha mãe acreditou em mim. Foi quando meus pais se divorciaram. Minha mãe ficou completamente do meu lado, sabe? Mas depois de dois anos, meus pais voltaram, mas minha mãe ameaçou meu tio. Disse que se ele entrasse na nossa casa, ele era um homem morto. Meu pai acabou concordando, por mais que sempre dissesse que no fim das contas minha mãe estava apenas protegendo a filha mentirosa. Meu pai nunca gostou de mim. Ele sempre viu que eu era diferente das meninas. Eu não gostava de bonecas, ou de me maquiar. Eu gostava de brincar com meu irmão e com os amigos dele, sempre fui meio masculina... o que não significa que eu me veja como um garoto.
—Eu entendo. Relaxa. – riu Draconis – Eu não sabia que eu curtia garotos... isso nunca tinha passado pela minha cabeça... eu achava apenas que não via problema em achar os garotos bonitos. – murmurou ele – Mas um dia, eu me permiti experimentar e... e eu meio que prefiro garotos, apesar de estar apaixonado por uma garota.
—Mas mesmo assim está trepando com Yaxley.
—Eu tenho minhas necessidades... – riu Draconis e Harley revirou os olhos – E eu sou solteiro, o que é mais importante. Mas quando terminar a escola... eu vou ficar com ela. E só com ela. – riu ele.
Harley ficou de costas para o mar, com os cotovelos apoiados na madeira.
—Nunca te ocorreu que o Loto poderia ser o cara da sua vida? – perguntou ela. Draconis piscou surpreso e a olhou – Eu nunca vi tanta – ela olhou para o céu estrelado, procurando a palavra certa – tanta... conexão, entre duas pessoas.
—Nunca me viu com a minha garota. – riu Draconis – Mas o Loto é... ele é diferente mesmo. Algumas vezes parece que a gente é amigo desde sempre... é meio assustador saber que ele é meu amigo há menos de dois anos.
—Dois anos?! – perguntou Harley – Vocês tem um en, então. – riu ela.
—Um o que? – perguntou a olhando e jogando a bituca de cigarro na água.
—Um en. Uma ligação mágica que dura a vida toda. – riu ela olhando para o céu – Todas as pessoas que você conhece, marcam você de algum jeito... mas existe uma pessoa, não necessariamente a pessoa que você vai amar pelo resto da sua vida, que te marca de uma maneira especial... cria um laço, inquebrável... uma ligação eterna entre duas almas... cultura japonesa, sabe?
—Viagem. – riu Draconis, pensando a respeito – E se fosse pra eu ter um negócio desse, seria com o Navi, que é meu irmão, praticamente. Não com o Loto.
—Eu não sei como é você com o Navi... mas eu sei que quando duas pessoas tem um en as ligando... é uma coisa linda... e quando uma dessas pessoas morre... a dor que gera é... imensurável... pode transformar você em outra coisa... mudança pela dor... tem um nome também, mas eu não me lembro...
—Pff... não acredito em nada disso. – riu Draconis – Somos o que escolhemos ser. E a morte de uma pessoa não nos muda. Eu até achava que poderia mudar... realmente dói... realmente machuca... mas só muda você, se você permitir...
—Por que diz isso?
Draconis soltou um suspiro e ficou na mesma posição que Harley, olhando para o céu.
—Minha mãe morreu. – murmurou. Não conseguiu ver a expressão dela, mas a ouviu respirar fundo – Eu senti. Eu realmente devo ter algum dom de vidência no fim das contas... bem que Rose me avisou... mas eu nunca... eu nunca trabalhei ele... mas eu senti, quando minha mãe morreu.
—Por isso estava tão deprê uns dias atrás... – murmurou Harley.
—É... mas... não mudou nada em mim. Ela já tinha sido sequestrada quando eu voltei pra escola. Talvez eu meio que já soubesse que isso iria acontecer, mas... mas eu não... não imaginei que... eu não mudei. Entende?
—Isso é o que vamos ver, Drac... – riu Harley.
**
E quando eles chegaram para a aula de herbologia, encontraram uma enorme mesa de vidro, com várias cadeiras, xícaras e pratinhos. Scorpius franziu a testa e olhou para Albus, que parecia tão curioso quanto ele. Os alunos das outras casas começaram a chegar também e logo todos soltavam murmurinhos curiosos. Lyra e Les estavam rindo, achando que o professor Neville tinha pirado, Rose foi dar a mão para Scorpius, parecendo confusa.
—O que é isso? – perguntou ela.
—Não sabemos. – murmurou Scorpius.
—Boa tarde, alunos! – disse o professor Neville, entrando nas estufas – Como vocês se sentem? – a turma murmurou uns “ok”, “bem”, etc – Ótimo. Sentem-se. Hoje, antes da aula, nós vamos tomar um chá. Para acalmar os ânimos.
—Vai ser aquele chá esquisito da aula de adivinhação de novo? – perguntou Cerce arqueando a sobrancelha – Eu nunca mais vou beber aquilo.
—Eu nunca mais vou beber aquilo. – imitou Lyra.
—Para de me imitar!
—Para de me imitar!— imitou Lyra, ficando igual a Cerce.
—Albus! Lyra está fazendo de novo!
—Ly... para de implicar com a sua prima. – ralhou Albus passando o braço ao redor dos ombros de Cerce, que deu língua para Lyra, que retribuiu o gesto.
—Alunos! Alunos! Sentem-se. Vamos ter uma conversa muito séria hoje! – riu Neville. Scorpius olhou para Rose e Albus, todos se sentando, com olhares confusos. – Sabe, garotos... chega um momento na vida de todo adolescente... em que eles precisam ouvir “a” conversa.
—OMG. Vamos falar sobre sexo? – perguntou Les com um sorrisinho sacana – Ok, professor. Qual a sua dúvida? – perguntou ela e todo mundo caiu na gargalhada, inclusive o professor – Não precisa ter vergonha, professor. Nós podemos tirar qualquer dúvida que o senhor tiver.
—Não, não, Srta. Young , não é isso que eu quero dizer. – o professor soltou um suspiro e olhou para cada um na mesa – Chega um momento na vida de todo Britânico que não dá pra ser evitado. E esse momento é a conversa do chá. – explicou Neville brandindo a varinha, conjurando alguns bules. Os alunos riram, achando divertido e curioso – Muito bem... vamos ver se vocês entendem das regras do chá.
—Fodeu. Mamãe tentou me obrigar a fazer aquele curso pra moças, mas eu matava todas as aulas porque era muito chato. – resmungou Lyra, fazendo Cerce dar uma risadinha.
—Eu adorava. Era tão legal. – riu ela olhando carinhosamente para Albus, que sorriu corando de leve.
—Claro que a senhorita perfeita gostava. Quem duvidaria disso? – debochou Lyra.
—Amiga. Menos. – riu Les e Lyra olhou com deboche para Cerce, que fez biquinho. Quando não tinha Dido (que não estava mais fazendo Herbologia) pra defender, Lyra ficava o capeta pra cima da prima.
—Muito bem, galerinha do bem e do mal, olhem pra mim! Vamos ter a conversa do chá. – riu Neville – Vamos supor que vocês estão numa boa, fazendo as coisas de vocês... tudo ok. Tudo normal... até que alguém te chama para fazer um chá. Por exemplo, Scorpius, chame sua namorada para o chá.
—Hum? Ãhn... ok... – Scorpius deu uma risadinha, acompanhado dos outros alunos e se virou para Rose, que estava ao seu lado – Rose, você quer tomar um chá?
—Oh, eu adoraria um chá! – riu Rose e todo mundo riu de novo, ainda meio perdido naquela dinâmica.
—Muito bem. Claro e direto. – riu o professor – Agora Scorpius sabe que a Rose quer um chá, certo? – perguntou Neville e todo mundo concordou – Mas e se o Scorpius aqui tivesse perguntado “Ei, você quer um chá?”, mas a Rose tivesse respondido “Huuum... não tenho certeza se eu quero...” Scorpius, você faria ou não o chá?
Scorpius piscou, confuso, com aquela pergunta boba.
—Depende. Eu quero o chá?
—Você quer? – perguntou o professor calmamente e todo mundo começou a rir de novo.
—Só eu estou pensando putaria? – perguntou Les.
—Sim, amiga. Meu irmão destruiu a sua mente para coisas cotidianas. – riu Lyra e todo mundo caiu na gargalhada, incluindo Lessa.
—Eu sei, eu sei.
—Ok, calem a boca. Eu quero o chá, a Rose não sabe se quer ou não... – ele olhou a namorada, que ria, corada – Ok, eu faria o chá assim mesmo.
—Isso mesmo. – riu o professor. – Você pode fazer um chá... ou não... mas esteja ciente de que a Rose pode não beber... E se ela não beber, aí... – o professor olhou para Lessa com um sorrisinho – E essa é a parte importante... não faz ela beber a força, goela abaixo. Só porque você preparou não quer dizer que tem o direito de ver a Rose beber. De acordo, Scorpius?
—Claro. Que tipo de demente forçaria a namorada a beber um chá, só porque ele preparou? – perguntou Scorpius franzindo a testa.
—E ela nem disse que queria... – riu Cerce.
—Isso mesmo. – riu Neville – Agora vamos supor que a Rose foi passar a tarde na casa do Scorpius, ele perguntou se ela queria chá... e ela disse que não. O que você faria, Scorpius?
—Oras. Eu não faria o chá. – respondeu fazendo todo mundo dar risadinhas, sem entender o que raios o professor queria com aquelas perguntas bestas.
—Isso mesmo. É só não preparar o chá. Simplesmente não faça o chá. Não faça a pessoa beber o chá a força. Não fique bravo com a pessoa por ela não querer o chá... A pessoa simplesmente não quer chá, entendem? Ok? Gente?
—Ok! – responderam os alunos, morrendo de rir, sem entender o sentido daquilo.
—Muito bem... outra situação. Albus e Cerce. – Cerce corou quando o professor falou o nome dela e Albus encolheu de leve, por odiar ser o centro das atenções – Vamos supor que você chamou Cerce para um chá, ela disse “Sim, por favor”. Vocês vão para a sua casa, você prepara o chá com todo o cuidado e quando serve... ela muda de ideia e não quer mais o chá. O que você faz?
—Hum... eu bebo sozinho? – perguntou Albus e o professor deu um sorriso.
—Mas você já fez o chá. Ela queria o chá. É o mínimo que ela tem que fazer! – riu Lyra.
—Não. – respondeu Albus, franzindo a testa, começando a pensar que Lessa não estivesse assim tão errada em relação a aquela dinâmica – Ela mudou de ideia. Ela pode mudar de ideia. É um direito dela. – respondeu calmamente.
—Pô... mas é meio chato, né? – perguntou Fred Weasley – Você teve todo o esforço, né? De preparar tudo!
—É, mas você não pode enfiar o chá goela abaixo na pessoa por conta disso. Ela mudou de ideia, acontece. Não é? – perguntou Rose. O professor ficou em silêncio e a turma resmungou um pouco até concordar que não deveriam obrigar a pessoa a beber o chá, porque seria algo idiota e infantil.
—Algumas pessoas mudam de ideia durante o tempo que leva para ferver a chaleira, abafar o chá e colocar o leite. E tudo bem as pessoas mudarem de ideia. Ainda assim você não tem o direito de vê-las beber. – riu o professor Neville, resumindo o que eles tinham discutido – Muito bem... agora... E se a pessoa estiver desmaiada? Bebeu todas, nessas festinhas do Slug, que eu sei que vocês sempre bebem todas. – disse ele estreitando os olhos enquanto os alunos davam risadinhas – Você levou a pessoa ainda acordada pra cozinha, foi lá falar com os elfos pra poder fazer um chá e quando voltou, a pessoa está desmaiada. Nunca, em hipótese alguma, faça ela tomar o chá desacordada. Essa é uma regra básica do chá.
—Ou você afogaria o cidadão. – riu Scorpius, fazendo todo mundo rir também.
—Boa observação, Scorpius. Não vamos afogar nossos colegas com o chá, ok? Se a pessoa estiver desacordada, não faça chá pra ela! Pessoas desacordadas não querem chá. E elas não podem responder à pergunta “você quer chá?”... Porque elas estão desacordadas. Entendem? – os alunos riram e responderam com “é óbvio”, “sim” e “claro, professor”. – Muito bem. Próximo tópico. A pessoa disse “Sim, eu aceito chá”. – as pessoas deram risadinhas novamente, sem nem saber o porquê – Mas com o tempo que leva para ferver a chaleira, abafar o chá e colocar o leite, ela agora está desacordada. Puf... muito álcool, a maioria de vocês sabe como é... – a turma deu risadinhas novamente, olhando significativamente para os colegas, como se falassem: tipo você! – Nesse caso, deixe o chá pra outro dia. Assegure-se de que a pessoa desacordada está segura. E essa é novamente a parte importante: Não faça-a beber o chá. A pessoa disse “sim” antes, é verdade, mas... pessoas desacordadas não querem chá. Essa é uma regra importante, ok?
—Ok! – responderam os alunos, morrendo de rir, sem entender como podiam estar rindo de algo tão besta.
—Ok. Vamos pensar que a pessoa não desmaiou. Você fez o chá. Vocês dois estão bebendo e então, no meio do chá, puf! A pessoa desmaia. O que fazer?
—Levá-la pra Ala Hospitalar, porque se ela gosta de chá sem leite, provavelmente está com queimaduras pelo corpo. – riu Lessa e todo mundo concordou com sorrisinhos, fazendo comentários sobre o caso.
—Isso mesmo. Mas o mais importante é... não continue derramando o chá goela abaixo... Apenas não... ok? Leve o chá embora, tenha certeza de que a pessoa está bem, porque novamente... pessoas desacordadas não querem chá. Vai por mim... elas não querem... não... nunca... não querem...
Todo mundo começou a rir de novo, apesar de Lessa e Albus já terem entendido sobre o que se tratava tudo aquilo.
—Mais alguma outra regra do chá, professor? – perguntou Scorpius, com um sorriso desdenhoso.
—Sim... vamos supor que estão todos de férias. E vocês costumam ir nas casas um dos outros para o nosso querido chá das cinco. E você, Scorpius, tomou o chá com a Rose num sábado. Isso não quer dizer que Rose queira tomar chá com você o tempo todo. A Rose, por exemplo, não quer que você apareça na casa dela de surpresa, faça chá e a obrigue a beber e ainda diga: “Mas você queria chá na semana passada!” Muito menos quer acordar com você derramando chá goela abaixo, dizendo “mas você queria chá ontem a noite!” – E todo mundo começou a rir do absurdo que aquilo parecia. – Não... não façam esses absurdos, ok?
—Quem seria o louco pra fazer uma coisa dessas? – perguntou Fred, aos risos.
—Professor... eu acho que você andou escutando as Mandrágoras bebês gritarem. – riu Theodore Mosby, da Corvinal.
—Bem. – o professor pegou um dos bules, com um sorriso satisfeito no rosto – Se vocês conseguem compreender o quão absurdo é forçar pessoas a tomar chá quando elas não querem chá... e vocês têm capacidade para entender quando as pessoas não querem chá... Então quão difícil pode ser para entender quanto se trata de sexo? – e as risadas cessaram imediatamente. Alguns alunos coraram, outros esbugalharam os olhos, em choque. Alguns riram nervosamente, muito baixinho – Seja chá ou sexo, consentimento é tudo! O contrário, no caso do sexo, seria estupro... no caso do chá... seria apenas idiotice. E aliás... Aqui tem um pouco de chá. E é Earl Grey, srta. Burke. Não se preocupe.
Os alunos se entreolharam e algumas alunas aplaudiram o professor. Logo toda a turma fazia o mesmo e Neville sorriu satisfeito por ter feito mais uma turma entender algo importante além do estudo das plantas mágicas em sua aula.
Fale com o autor