Legado Lestrange II - Legacy
79 Disinherited
Notas iniciais
Capítulo 79
Disinherited
—Você vai vir comigo, não é? – perguntou Loto pela oitava vez, com as mãos trêmulas. Draconis concordou apertando a mão dele com firmeza.
—Claro. – riu ele – Vou estar ao seu lado, ok?
—Mas fique com a varinha em punho... pro caso dele tentar te azarar, tá? – perguntou Loto, parecendo terrivelmente ansioso. O trem já tinha parado e os dois andavam para fora. Draconis acariciou a mão do namorado com o polegar, mas Loto entrou em pânico e tentou voltar – Não. Não. Não. Não vai dar, Draconis! – disse ele desesperado e os alunos olharam feio pra eles.
—Loto. Vamos. – riu Draconis.
—Não. Meu pai vai me matar! Eu não posso fazer isso. O que eu vou dizer pra ele? O que a minha mãe vai pensar? – Loto colocou as mãos no rosto – Merlin. Mamãe vai ter um treco. Eu vou matar os dois de desgosto. Draconis, eu não posso... – suspirou e puxou o namorado pela gola das vestes, para lhe roubar um beijo. Loto suspirou, parecendo se acalmar de leve, e Draconis se afastou.
—Eu vou estar aqui com você. Ok? – perguntou Draconis – E não se esqueça que eu vou entrar em pânico também na hora de encarar a Rose. Então eu vou precisar da sua ajuda.
—Dá pras duas moças andarem logo? – perguntou o garoto que estava atrás deles. Draconis olhou para Loto, que parecia desesperado.
—Eu vou estar lá com você. Vamos. – riu Draconis. Loto engoliu em seco e se virou, parecendo angustiado. Draconis o seguiu e os dois deixaram o trem.
—Acho que meu pai não está aqui. Que coisa. Te vejo amanhã, ok? – perguntou ele suando de nervoso e Draconis sorriu e apontou para um casal logo ali – Merda, Draconis. – resmungou ele.
—Vamos. Eu vou com você.
—Sem mãos dadas. – disse Loto tentando disfarçar e Draconis concordou calmamente. Loto respirou fundo e puxou o próprio malão, parecendo mais do que nervoso. Os dois andaram até a família Yaxley, que os esperava. A irmã de Loto, Launet, veio até eles e os abraçou ao mesmo tempo.
—Nervoso, maninho? – perguntou ela.
—Eu acho que vou vomitar. – resmungou Loto. Launet os soltou e olhou para Draconis, apertando as bochechas dele.
—Pense no quanto ele é lindo e vai, mano. – riu Launet e Draconis riu olhando o namorado. Loto engoliu em seco de novo.
—Podemos deixar isso em segredo deles por um tempo? – perguntou ele em pânico.
—Não. – respondeu Launet – Coragem, Loto. Você já é um adulto! – ralhou ela. Draconis o olhou com carinho e Loto corou, nervoso. – Loto. – ele a olhou – Nós te amamos, ok? Eu e o Draconis, não é Draconis? – perguntou ela abraçando seu braço.
—Amamos demais. – riu Draconis piscando para ele e Loto engoliu em seco. Ele respirou fundo e expirou criando coragem.
—Draconis... se meus pais me matarem agora... ou na nossa casa. Saiba que eu te amo, ok? – murmurou Loto. Draconis sorriu e concordou.
—E saiba que é amado de volta, ok? – perguntou segurando o ombro dele.
—Ok... ok... ok... – respirou Loto. O rapaz respirou fundo e os trio se aproximou dos Yaxley – Seu pai vai estar nos esperando na casa dele, né?
—É. – riu Draconis.
—Ok. – murmurou Loto. Os três se aproximaram mais e a mãe de Loto sorriu para ele.
—Meu menininho. – riu ela o abraçando.
—Oi... mamãe. – murmurou Loto a abraçando apertado. Draconis se perguntou quando ela o abraçaria daquele jeito de novo. O pai de Loto dava tapinhas no ombro do filho.
—Todo bonitão. Arrumou uma namorada puro sangue? – perguntou seu sogro e Draconis virou o rosto se perguntando se era cedo demais para que Loto o assumisse pra família.
Seu namorado gargalhou nervosamente.
—Namorada? Pfff... – riu ele suando frio – Pai, lembra do meu amigo... o...
—Draconis Burke. Sim. Eu me lembro. Como vai, garoto? – perguntou o pai de Loto.
—Muito bem. E o senhor? – perguntou Draconis apertando a mão do sogro.
—Melhor ainda agora que meu garotão voltou. – disse o Sr. Yaxley olhando com profundo orgulho para Loto, que parecia que teria um treco a qualquer momento.
—Então, pai... o Draconis pode jantar lá em casa? – perguntou ele – A família dele tá passando por um momento difícil e...
—Eu li no jornal. Mad-Dog Lestrange é seu tio, não é? – perguntou seu sogro e Draconis concordou com um aceno de cabeça – Muito triste que um puro sangue de peso como ele se oponha ao Ministério depois de tudo de bom que aconteceu para nossa comunidade. Não acha?
Loto o olhou quase desesperado e Draconis sorriu.
—Meu tio ficou louco. Foi o que meu pai me contou. – disse calmamente – Então não leve em consideração as coisas que ele fez.
—Sim. Eu conheço sua tia. Polaris Lestrange. Ela é mais sensata, certamente. – riu seu sogro e Draconis concordou.
—Sim, sempre achei tia Polaris uma pessoa extremamente inteligente.
—Falando em inteligente, sabia que Draconis vai receber um prêmio por sua proeminência em feitiços? – perguntou Loto e os pais dele o olharam impressionados.
—É verdade? – perguntou sua sogra e Draconis concordou com um sorriso no rosto.
—Draconis é incrível, papai. Ele foi o melhor do ano dele, se formou com todas as honras e conseguiu dez N.I.E.M.s!
—Foi melhor que você, então. – ralhou o pai de Loto – Apesar que esse seu curso te rendeu excelentes recomendações. Nós recebemos várias cartas de elogios de seus instrutores.
—Draconis me ajudou a andar na linha. – riu Loto.
—Draconis é mesmo maravilhoso. – riu Launet deitando a cabeça em seu ombro – Não seria ótimo se ele entrasse pra família?
—Oras, Lana. Você está noiva do Grant, esqueceu? – ralhou a mãe de Loto e Launet lhe lançou uma piscadela.
—O destino guarda surpresas, não acha, Draconis? – perguntou ela. Draconis encarou o namorado e sorriu para ele.
—Pois é.
—Ok, chega de ficar tagarelando. Vocês dois devem estar morrendo de fome. – riu seu sogro, ainda dando tapinhas em Loto, o olhando com orgulho – Vamos? Lana, você pode levar o nosso convidado.
—Ok. – riu ela. Lana segurou seu braço e logo estavam aparatando.
A casa dos Yaxley’s era bem parecida com a sua, em tamanho, mas ficava próxima à Mansão Malfoy, ele notou. Também em Wiltshire, num terreno mais alto e com mais casas por perto. Logo viu a árvore que Loto lhe falara, há um ano atrás, onde os Yaxley guardavam sua linhagem.
O brasão deles tinha um Wyvern, como ele já sabia. E a árvore tinha sido talhada para se parecer com o corpo de um. Toda branca, como mármore, com os galhos se espalhando como se fossem as duas asas do wyvern, com as folhas vermelho alaranjadas preenchendo o desenho das asas. E em cada galho haviam os colares com as plaquinhas e os nomes dos membros da família.
Olhou muito impressionado para a árvore, a achando intimidadora, mas ao mesmo tempo fascinante.
—Que maneiro. – murmurou sorrindo.
—Impressionante, não é? – perguntou o Sr. Yaxley – Quando Loto era pequeno, adorava subir nos galhos... passava mais tempo lá em cima do que no chão. Chegue mais perto. Olhe os detalhes. – Draconis concordou e se aproximou, olhando como a árvore tinha sido entalhada com perfeição. Parecia o próprio animal feito em mármore.
—É uma árvore mesmo? – perguntou olhando as garras do wyvern, que entravam na terra, parecendo raízes.
—Sim. É. – riu Loto – Olha aqui, Draconis! O colar que meu pai fez pra mim, quando eu nasci. Que faz par com o meu. – disse ele. Draconis se aproximou de um galho qualquer e viu um colar bem parecido com o que Loto tinha, mas bem menor – Maneiro, não é?
—Muito. – riu Draconis olhando para ele – E quando você tiver seus filhos, você vai fazer um colar pra eles, certo? – perguntou inocentemente, mas o sorriso de Loto morreu. Se lembrou que o namorado provavelmente seria deserdado naquela noite e se sentiu um imbecil por ter dito aquilo.
—Isso mesmo. Ele fará dois colares. Um deixará aqui, em um dos galhos... o outro ficará com a criança até o dia da morte dela. – explicou seu sogro.
—E só os garotos tem colares? – perguntou curioso.
—Não. Nós também. – riu Launet se aproximando e apontando para um colar com seu nome – Mas nós penduramos o nosso quando casamos.
—Entendi. Muito legal mesmo. – riu Draconis, sem jeito.
—Mas então. Vocês querem tomar um banho antes do jantar? – perguntou sua sogra – Os elfos estão preparando algo delicioso. Vou mandar colocarem mais um prato pro nosso convidado. – riu ela.
Draconis concordou e foi para junto de Loto.
—Desculpe... – sussurrou para ele e Loto deu de ombros.
—Tudo bem. – riu ele – Eu vou mostrar meu quarto pro Draconis, ok? – disse ele mais alto. Os pais dele deram de ombros.
—Mostre a casa pro seu amigo. Ele é muito bem vindo. Ele e as famosas irmãs dele. – riu o Sr. Yaxley. Draconis suspirou e olhou para Loto, que deu um sorrisinho sem jeito.
—Vem. Vou te mostrar tudo. – riu Loto.
Launet os seguiu, parecendo animada. A casa de Loto era muito bonita e tinha uma decoração bem medieval. Lembrava um pouco de Hogwarts, inclusive. Conheceu alguns retratos que ele mostrou, viu o quarto de Launet, que parecia bastante com o de Vince.
O quarto de Loto era cheio de coisas de quadribol, além de ter vários pôsteres de bandas bruxas. O favorito dele, aparentemente, era o Pentagram. Mas havia muita coisa sobre animais fantásticos também. Havia um mapa com vários adesivos espalhados por ele. Alguns em forma de dragões, outros em forma de wyverns, grifos reais, basiliscos e etc.
—O que é isso? – perguntou curioso e Loto deu um sorrisinho.
—Eu marcava no mapa onde no mundo meus animais favoritos viviam. – explicou ele e Draconis sorriu – Eu sempre quis viajar para ver dragões... – suspirou ele. Draconis sorriu e entrelaçou a mão com a dele.
—A gente pode fazer isso agora que formamos. – murmurou. Loto sorriu e concordou dando um sorriso meio bobo para ele.
—Por favor, se beijem! Vocês são TÃO fofos juntos. – murmurou sua cunhada fechando a porta – Meu irmão me mandou um monte de cartas falando de você, Draconis.
Abraçou Loto, que era menor e mais magro, o mordiscando na bochecha.
—Ele falou muito de você também. – disse sorrindo.
—Bem, eu espero. – riu ela.
—O que há de ruim pra falar de você, mana? – perguntou Loto o beijando na bochecha – Acha... acha que papai vai ficar tão furioso a ponto de me expulsar de casa?
—Ele não vai ficar feliz... mas talvez ele não reaja assim tão drasticamente. Ele te ama, Loto.
—Ele ama o filho colecionador de bocetas dele... mas eu não sou mais assim, Lana. – resmungou ele. Launet suspirou e concordou.
—Eu sei, mas eu acho que o amor de pai vai pesar mais, Loto. – riu ela – Você vai contar agora?
—Acho que vou esperar o jantar... minha última refeição em família. – lamentou ele. Launet suspirou e foi até ele, para abraçá-lo.
—Eu sou sua família também e você vai poder jantar comigo sempre que quiser, ouviu? – perguntou ela e Draconis a achou maravilhosa. Launet era tão legal quanto Loto a pintava.
—Obrigado, mana... significa muito pra mim. – murmurou ele.
—Então... – riu ela se sentando na cama de Loto – Me contem sobre vocês dois. Quero saber de tudooooo. – riu ela.
Ficaram conversando por quase uma hora até que um elfo veio chamá-los pro jantar. Loto estava tremendo de nervosismo. O trio foi para a sala de jantar e começaram a se servir com um delicioso faisão.
—E então, Draconis. O que pretende fazer agora que se formou? – perguntou seu sogro se servindo com um pouco de arroz.
—Quero um emprego no Ministério. – respondeu Draconis – Quero ser da Corte dos Bruxos algum dia, então pretendo trabalhar no Departamento de Execução das Leis da Magia. – explicou ele – Vou mandar meu currículo ainda essa semana.
—Loto queria trabalha no Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas, não é, querido? – perguntou sua sogra e Loto concordou, nervoso demais para comer. Entrelaçou os dedos com os dele por debaixo da mesa e o olhou com solidariedade. Loto concordou com um aceno de cabeça, apertando sua mão.
Ficaram conversando de maneira tranquila e descontraída. Notou que havia um padrão bem claro ali. O pai de Loto escolhia o tema da conversa e todos falavam sobre até que ele mudasse o assunto. A família dele era completamente patriarcal, o que explicava o noivado arranjado de Launet, já que aquele tipo de prática já não era mais feito e nem bem visto na sociedade.
—Eu tenho boas notícias, Loto. – disse seu sogro e Loto levantou os olhos para ele – Eu estava falando com os Shafiq. Eles tem uma filha muito bonita, da sua idade. Estudou na Beauxbatons, sabe? – Loto esbugalhou os olhos – Eu estava pensando em arranjar um noivado. Você deveria chamá-la para sair.
Loto engoliu em seco.
—Não. – respondeu ele. O som dos talheres tocando a louça cessou. Todos olharam para ele – Isso não vai acontecer.
—E por que não? – perguntou o pai dele, franzindo a testa. Draconis e Launet olharam para Loto, que respirou fundo.
—Porque eu estou gostando de uma pessoa... uma outra pessoa... – murmurou Loto, olhando para o pai com uma expressão determinada no rosto. O pai dele sorriu interessado.
—Sangue puro? – perguntou ele. Sangue, sangue... é sempre sangue o que importa... pelo menos eu sou sangue puro.
—Sim. Sangue puro. – respondeu Loto.
—Oras, Loto. Que bom. Nós nunca vimos você levando ninguém a sério. Era sempre uma aventura atrás da outra. – disse a mãe dele com certa censura.
—É. – riu o pai dele – Mas os garotos são assim mesmo, não é? Conte-me sobre ela, Loto. Quem é essa garota? – perguntou o homem olhando o filho com interesse. Loto engoliu em seco.
—Bem... eu conheci essa pessoa já tem algum tempo... nós ficamos amigos e então... – Loto respirou fundo – E as coisas começaram a ficar mais... mais sérias... e agora... agora eu meio... que estou... hum...
—O que, Loto? – perguntou o pai dele.
—Apaixonado por essa pessoa, porque... porque ela é a pessoa mais incrível que eu já conheci. E eu... eu quero passar o resto da minha vida com ela... e é por isso que eu não quero nem ver essa Shafiq. – Draconis sorriu, lisonjeado, mas Loto não o olhou. Mas os pais dele olharam para o filho cheios de sorrisos.
—E qual é o nome dela, querido? – perguntou a mãe dele.
Loto respirou fundo, nervoso. Se perguntou se estava sendo egoísta por deixar Loto passar por aquilo. Em um momento decidiu que aquilo não era necessário. Decidiu que poderia manter aquilo em segredo por mais tempo, até que Loto conseguisse lidar com toda a situação.
—É a minha irmã. – disse Draconis – Ele está caidinho pela minha irmã. – disse achando que aquele momento poderia esperar.
—Não. Não é a irmã dele. – disse Loto ficando de pé. Os pais dele olharam confusos – Pai, mãe... eu... eu estou gostando de um garoto... – murmurou ele.
Fez-se silêncio na mesa, onde todos olhavam para Loto. Depois de um tempo, o pai dele suspirou e começou a cortar o faisão como se Loto nunca o tivesse interrompido.
—Você deve chamar a Shafiq pra sair. Ela é uma garota adorável.
—Pai, você me escutou? Eu não vou sair com essa garota. Eu estou gostando de...
—Eu escutei, mas vou fingir que não ouvi essa ofensa à minha família! – rosnou o pai dele. E Draconis desviou o olhar – Sente aí e coma. Você também, moleque. E quando terminar, vá embora. – rosnou o pai dele com desgosto – Aparentemente os boatos não eram boatos, não é mesmo?
Draconis baixou a cabeça e Loto ficou em silêncio.
—Papai. Loto não vai chamar essa garota pra sair, porque ele já está namorando outra pessoa! – disse Launet – Loto já é um homem e você não pode obrigá-lo a fazer o que você quiser!
—Se ele quiser herdar o meu nome e o meu cofre, sim, eu posso obrigá-lo...
—Eu não preciso do seu dinheiro. – cortou Loto e Draconis o olhou surpreso – E nem do seu sobrenome. Eu posso ir no Ministério amanhã mesmo e criar um sobrenome pra mim. Ou então eu posso simplesmente ficar sem. Não me importa. Eu cansei de viver fingindo ser alguém que eu não sou...
—Sente-se, Loto!
—Não vou me sentar, pai! – respondeu ele – Eu sou gay. – disse Loto – Não gay, gay... eu até curto mulher, mas... mas eu prefiro...
—Eu não vou ouvir esse tipo de indecência na minha casa! – rosnou o pai dele ficando de pé.
—Não é indecência! – ralhou Loto – Eu amo...
—NÃO OUSE, LOTO! NÃO OUSE DIZER ISSO SOB O MEU TETO!
—Eu amo um homem! – disse Loto assim mesmo – Eu não tenho controle sobre isso, pai... simplesmente aconteceu. Eu sou assim!
—Não! Não é assim! Você vai agir como um homem decente. Vai casar com uma mulher e ter filhos. Que é o certo! – rosnou o pai dele.
—Pai... pode até ser que eu não dê certo com o Draconis e um dia...
—Então é você a maçã podre que veio macular o meu filho! – rosnou o Sr. Yaxley sacando a varinha e Draconis sacou a própria. Mas duas pessoas se colocaram em sua frente. Loto e Launet.
—Você não vai machucar o Draconis, pai. – disse Loto com mágoa na voz – Por favor. Ao menos me deixe explicar...
—Saiam da frente, vocês dois.
—Não! – disse Launet – Pare de ser tão medieval e escute o seu filho! – exigiu ela.
—Eu não vou escutar essa falta de vergonha. Sentem-se! É uma ordem! – rosnou ele.
—Não vou me sentar! – disse Loto – Pai, eu amo você e a mamãe e eu queria muito que vocês...
—Ou você volta pra dentro do armário, Loto, ou você sai da minha casa! – rosnou o Sr. Yaxley.
Loto baixou a varinha e olhou para o pai profundamente magoado.
—Pai... eu...
—Eu falo sério, Loto. Eu nunca falei tão sério em toda a minha vida. Eu não vou aceitar isso na minha casa. Não mesmo. – rosnou ele. Loto e o pai se encararam por longos segundos, até que o rapaz soltasse um suspiro, parecendo derrotado.
—Eu te amo, pai. Adeus. – murmurou ele. O Sr. Yaxley virou o rosto e a Sra. Yaxley ficou encarando o próprio prato.
—Loto... – murmurou a irmã dele.
—Vamos, Drac. Me desculpe por isso... – murmurou Loto – Eu vou pegar a minha mala...
—Não vai. – rosnou o Sr. Yaxley – Você não vai levar nada dessa casa. Se quiser ser uma abominação, que ninguém saiba que você saiu daqui! – rosnou ele. Loto olhou para o pai parecendo prestes a cair no choro. Então ele baixou os olhos e se virou – Nada que eu tenha comprado pra você. Me devolva tudo. Eu vou te deixar ficar com a varinha. Mas de resto, Loto. Devolva.
—Papai...
—CALE A BOCA, LAUNET! – rosnou o homem.
—Vamos embora, Loto. – pediu Draconis. Loto ainda encarava o chão, parecendo desolado. Ele suspirou e tirou o uniforme, ficando apenas de cueca e uma camiseta regata, num momento de humilhação sem igual.
—Eu disse tudo. – rosnou o pai.
—Querido, foi o suficiente... – começou a mãe dele.
—Cale a boca, Martha.
Loto suspirou e tirou a regata e, num momento de ainda mais profunda humilhação, ele começou a tirar a cueca.
—Você não precisa fazer isso. – disse Draconis tirando a capa do uniforme e envolvendo Loto com ela – Vamos embora, por favor.
—Tire tudo, Loto, antes de passar por aquela porta. – rosnou o pai dele. Draconis fechou os olhos, sentindo pena do namorado, que suspirou e tirou a cueca, para se enrolar na capa depois.
—Vamos, Draconis. – murmurou ele parecendo muito infeliz. Draconis o abraçou e os dois começaram a andar até a porta.
—Loto!
—O que mais você quer dele!? – rosnou Draconis, furioso.
—O colar. Você não é mais um Yaxley. – rosnou o pai dele e Loto pareceu ainda mais chocado.
—Pai, por favor...
—Não me chame de pai. – rosnou o homem.
—Não precisa disso, vamos embora, Loto.
—Não ouse, Loto. Devolva agora mesmo. – rosnou o homem se aproximando. Draconis se colocou entre ele e Loto, olhando o sogro com ódio no olhar – Saia da minha frente, seu veado.
—Fala isso de novo. –desafiou Draconis erguendo a varinha.
—Não. Drac... tá tudo bem. – murmurou Loto, o segurando.
—Não tá tudo bem. – disse tremendo de raiva. Mas o pai de Loto esticou a mão e pegou o colar do filho, o arrancando com violência. Launet e a mãe de Loto arfaram com aquilo e Draconis abraçou o namorado.
—Nunca mais volte a aparecer na minha frente. – rosnou o pai dele – Você não é meu filho. – e então o homem cuspiu no chão, aos pés deles – Vá embora e não volte mais aqui.
Loto engoliu em seco e concordou. Draconis o guiou para fora e quando estavam no portão, viram o pai de Loto tirar o colarzinho de Loto do galho da árvore. Soltando um suspiro, abraçou o namorado e aparatou dali.
Tentou ir para a casa de Draco, que era mais próxima, mas simplesmente não a achou. A Mansão Malfoy parecia ter simplesmente sumido do mapa. Soltou um suspiro e aparatou para o Caldeirão Furado e depois para casa. Loto estava bem escondido com sua capa, então ninguém notou que ele estava nu.
—Loto... eu realmente sinto muito. – murmurou Draconis, sentindo-se triste.
—Está tudo bem... – murmurou Loto com um sorriso triste – Eu já sabia que isso ia acontecer... eu... eu já estava me preparando...
—Ei... – murmurou segurando o rosto dele – Você foi muito corajoso... e ainda tem a sua irmã... e acho que a sua mãe também... então... então tente não ficar tão triste. Sem falar que você ainda me tem, também...
Loto deu um sorrisinho e o beijou nos lábios, num selinho triste.
—Podemos entrar agora? Eu estou sentindo uma brisa gelada aqui embaixo. – murmurou ele.
—Ok. Vamos. – disse Draconis. Abriu a porta e entrou com Loto. Queria levá-lo direto para seu quarto, para lhe entregar algumas roupas, mas a sala estava cheia de gente.
—Yaxley! – riram seus dois irmãos mais velhos – Sabe o que descobrimos?!
—Castor, Póllux! Agora não! – rosnou Draconis. Seus dois irmãos engoliram a brincadeira que iriam fazer. Prim, Cerce e Dido se levantaram, mas ele negou com a cabeça – Vem, Loto.
Levou o namorado para o quarto e foi até o armário procurar alguma roupa que coubesse nele. Encontrou uma muda qualquer de roupa e uma samba canção.
—Obrigado. – murmurou Loto pegando as roupas e se vestindo. Draconis o observou sentindo-se triste. Loto era o retrato da infelicidade. Escutaram uma batidinha na porta e logo ela abriu.
—Drac.
—Paizão... – murmurou Draconis sem conseguir colocar entusiasmo na voz. Foi até o pai para abraçá-lo.
—E então... foi muito ruim? – perguntou ele. Loto nem respondeu, apenas se sentando derrotado na cama – Durma aqui hoje, Loto. Amanhã eu te entrego a chave da outra casa, ok? – perguntou seu pai.
—Muito... muito obrigado, Sr. Burke... – murmurou Loto parecendo infeliz. Draconis cruzou os braços sentindo-se triste e seu pai soltou um suspiro. Ele andou até o rapaz e lhe deu uns tapinhas nas costas.
—Ei, rapaz. Cabeça erguida, ouviu? – disse seu pai, gentilmente – Seu pai vai ter tempo pra se arrepender e entender que não há nada de errado em amar outra pessoa a ponto de ser capaz de enfrentar o mundo por ela.
—Ele me odeia, Sr. Burke... ele me deserdou... – murmurou Loto, infeliz – Ele não me deixou nem mesmo pegar minhas coisas... foi tão... tão...
—Eu só posso imaginar como você se sente, Loto. Mas parabéns, você chegou ao fundo do poço. Agora é só subir, ok? – murmurou seu pai. Loto fungou tentando não chorar e seu pai soltou um suspiro. – Eu vou fazer um pouco de gole da paz. Fique de olho nele, ok, Draconis?
—Pode deixar.
—E Loto. – murmurou Damian. Loto levantou o olhar para ele – Você teve um romance com a minha filha Rose? Porque ela tá danada da vida com você.
Loto piscou confuso e então os dois se lembraram do que Damian estava falando.
—Ah... bem... – Loto olhou para Draconis, pedindo ajuda.
—Ele e Rose terminaram, de qualquer maneira. Eles tiveram só um rolo. – disse Draconis. Damian arqueou as sobrancelhas, parecendo desconfiado, mas em seguida deixou o quarto. Draconis soltou um suspiro e se sentou ao lado do namorado – Ei... – Loto o olhou parecendo muito triste – estou aqui pra você, ok? Sempre.
—Promete?
—Prometo. – sussurrou dando a mão para ele – Amanhã nós vamos sair pra comprar umas coisas pra nossa casa, ok?
Loto deu um sorriso triste e fungou.
—Ok. – murmurou ele.
Os minutos passaram e logo a porta voltou a se abrir. Draconis estava deitado na cama com Loto e sentiu uma vertigem lhe subir a espinha. Era Rose quem tinha entrado, com a poção de Gole da Paz com ela.
—Ei... – murmurou ela. Céus, como Rose era linda. Já tinha tanto tempo que não a via, que tinha até esquecido disso – Loto... papai contou o que aconteceu. Tome. – murmurou ela lhe oferecendo a poção – Tome tudo e descanse, ok?
—Obrigado, Rose. – murmurou Loto, meio sem jeito. Rose soltou um suspiro e se sentou na beirada da cama.
—Escute... eu realmente sinto muito pelo que aconteceu. – murmurou ela olhando apenas para Loto e Draconis teve absoluta certeza de que ela estava zangada com ele – Saiba que se precisar de qualquer coisa, pode contar comigo, ok?
—Rose... me desculpe por essa situação toda. – murmurou Loto.
—Não é culpa sua que o seu pai... – começou ela.
—Não to falando da situação do meu pai. – murmurou Loto e Draconis respirou fundo, constrangido – Eu... eu agi pelas suas costas e...
—Ei. – Rose soltou um suspiro e se aproximou segurando a sua mão e a de Loto. Draconis suspirou sentindo uma vertigem – Escutem. Eu fiquei brava na hora que o papai contou... mas eu tive uns dias pra pensar e... quem sou eu pra julgar vocês? – perguntou ela de maneira doce – Não controlamos por quem nos apaixonamos... e você era o melhor amigo do Draconis naquele lugar... e dava pra ver a tensão sexual que sempre rolou entre vocês, desde que eu descobri que você é bi também. – riu Rose – Cuida bem dele, Draconis. – pediu Rose o olhando nos olhos e o garoto sentiu o estômago dar uma cambalhota – E você cuida bem do meu irmão, ouviu? – perguntou Rose suspirando – Porque ele é fantástico.
—Eu sei. – riu Loto.
Rose beijou Loto na testa e lhe deu um beijo na bochecha também.
—Boa noite. Vocês deveriam descansar. – disse ela calmamente. Loto suspirou, bebendo a poção, enquanto Rose saía do quarto.
—Eu já volto. – murmurou Draconis – Eu... eu preciso conversar com ela.
—Só não me trai agora, ok? – pediu Loto, deprimido.
—Pela milésima vez. Eu não vou te trair, ok? – perguntou Draconis apertando a bochecha do namorado – Eu já falei que te amo, Loto. Ok?
—Ok. – riu Loto parecendo mais calmo e sereno, se deitando na cama – Eu acho que vou ficar aqui... curtindo a vibe desse negócio. – ele sacudiu o vidrinho de gole da paz, fazendo o loiro sorrir.
Draconis se levantou e saiu do próprio quarto. Rose estava encostada na parede, parecendo triste, mas disfarçou quando o viu.
—Me desculpe. – murmurou num sussurro.
—Desculpo. – murmurou ela – Eu deveria saber que isso poderia acontecer. – adicionou ela. Os dois se olharam e sorriram constrangidos – Você ficou mais alto.
—E você está ainda mais linda. – riu bobamente. Os dois se encararam por um momento e Rose se aproximou dele, o olhando nos olhos.
—Eu quero que saiba... que eu não desisti de nós dois. – disse ela. Draconis sorriu e coçou a cabeça se perguntando se aquilo ficaria ainda mais complicado – E eu meio que contei pro Navi... sobre nós.
Piscou chocado e corou absurdamente.
—Você o que!?
—Você contou pro Loto! Eu precisava desabafar com alguém! – resmungou ela.
Draconis suspirou tentando não ficar apavorado.
—Ok... e como foi?
—Um desastre. – resmungou Rose – Eu deveria ter contado pra qualquer outra pessoa! – resmungou ela. Draconis deu uma risadinha e concordou.
—Bem... essa seria a reação padrão da maioria das pessoas... – murmurou ele – Talvez você estivesse certa no fim das contas... não era pra ser.
—Você realmente pensa isso? – perguntou ela o olhando nos olhos.
Quis dizer que sim, mas não conseguiu. Desviou o olhar, cruzando os braços e suspirou.
—É... complicado. – resmungou.
—Sim... – disse Rose – Mas ei...
—O que? – perguntou a olhando. Ela se aproximou, ficando nas pontas dos pés, para beijá-lo no pescoço, fazendo com que seu corpo se arrepiasse inteiro.
—Eu ainda amo você. – sussurrou ela em seu ouvido. A puxou pela cintura por reflexo e os dois se encararam longamente. Ela o encarou com expectativa e ele a afastou, engolindo em seco.
—Boa noite, mana. – murmurou.
—Boa noite, Drac. – respondeu ela indo para o próprio quarto.
—Ei.
Ela se interrompeu e o olhou.
—Somos amigos, né?
—Claro. – riu ela lhe lançando uma piscadela. Corou de leve e voltou a entrar no quarto. Loto o olhou curioso e ele deu de ombros.
—Está tudo bem. – disse tirando o uniforme e ficando só de cueca. Loto o encarou ainda tristonho e Draconis se deitou ao lado dele – E então... quer se aproveitar de mim, pra se animar? – perguntou mordiscando o lábio e olhando de maneira cafajeste para o namorado.
—Podemos só ficar abraçados hoje? – perguntou Loto – Eu não to no clima pra isso...
Draconis sorriu e concordou, se deitando e batendo no peito, convidando Loto para se deitar ali.
—Ok. Vamos só ficar abraçadinhos... afinal amanhã nós vamos para a nossa casa.
—Cacete... vamos mesmo fazer isso, né? – perguntou Loto.
—Vamos. – riu Draconis – Eu tenho um dinheiro guardado... a gente pode se virar com ele até arrumarmos um emprego.
—Ok. – riu Loto o abraçando – Obrigado por existir na minha vida, Drac.
—Eu quem agradeço, Loto. – murmurou o beijando na testa.
*
Loto notou que a mesa era ruidosa e animada como ele nunca tinha visto. Não em sua casa. Seu pai quem sempre decidia o assunto das conversas e ninguém falava ao mesmo tempo. Nunca. Havia uma clara hierarquia a ser seguida em sua casa.
Mas não era assim com os Burke. Rose e Prim conversavam entre elas, Cerce e Dido faziam o mesmo. Draconis estava ao seu lado, conversando com o pai, parecendo super feliz por estar de volta. Póllux e Castor olhavam para ele com troça e toda vez que eles lhe davam sorrisinhos debochados, sentia as bochechas corarem.
Era incrível como eles conseguiam agir como uma família mesmo que a mãe deles estivesse faltando. Olhou para a cadeira vazia da Sra. Burke e se perguntou se ela estava bem. Draconis estava bem convencido de que ela tinha morrido e ele ficara arrasado por muito tempo.
Soltou um suspiro mastigando a comida, se perguntando se um dia faria parte daquela família. Se perguntando se poderia viver ali de verdade, como sonhava em viver. Onde o máximo que teria que enfrentar eram as piadinhas de Póllux e Castor, que olhavam pra ele da exata maneira que ele olhara para qualquer um que parecesse ser gay, em Hogwarts.
Sempre se orgulhara por conseguir se esconder e sobreviver. Mais do que isso. Ele mandava e desmandava naquele colégio. Mas agora sentia-se tremendamente envergonhado por isso e os sorrisinhos de Póllux e Castor eram como chicotadas de algum tipo de justiça cármica... como Vlad vivia falando sobre.
Olhou para o lado, para Draconis. Ele ainda usava a roupa que tinha usado para dormir. Uma samba canção e uma regata branca. Na verdade, apenas Cerce não estava de pijamas. Mesmo que estivessem almoçando. Se um dia aparecesse para almoçar vestido daquele jeito, levaria uma bronca.
A casa de Draconis parecia um símbolo de liberdade pra ele.
Sorriu ao pensar que em breve teria seu próprio teto, para ser o que quisesse. E Draconis viria morar com ele. Isso era tão perfeito que parecia ser apenas um sonho. Soltou um suspiro, sentindo-se bem, apesar de tudo. Apesar de ainda se lembrar bem do olhar de desgosto do pai. Queria tanto que ele entendesse... que ele... que ele o aceitasse... queria tanto receber mais daqueles olhares de orgulho que costumava receber... mas aquilo era pedir demais. Simples assim...
Quando o almoço terminou, foi tomar um banho com Draconis. Finalmente se sentiu bem o suficiente para namorá-lo de verdade, apesar de preferir não transar com ele ali. Achou que seria falta de respeito, por mais que Draconis insistisse que não tinha problemas. Mas conhecia o namorado o suficiente para saber que ele não estava sendo realmente racional...
Depois de se arrumarem, o Sr. Burke os levou para a nova casa. Ela era bem menor que a casa principal, verdade seja dita... mas levando em conta que apenas ele e Draconis iriam morar ali, ela era grande o suficiente.
—Eu comprei essa casa quando descobri que Alhena estava grávida. – riu o Sr. Burke – Não é um bairro nobre. Não é uma casa muito grande... mas tem um grande valor sentimental pra mim... então cuide bem dela, Sr. Yaxley. – disse o sogro lhe entregando as chaves da casa.
—Loto... – murmurou triste – Não estou mais autorizado a usar esse sobrenome.
—Que se dane. Você é um Yaxley, seu pai gostando ou não. – ralhou seu sogro – E isso ninguém nunca vai poder tirar de você. – adicionou ele – Você pode não ter acesso ao cofre ou aos pertences da família, mas você sempre será Loto Yaxley, ok?
Loto sorriu agradecido e pegou a chave, sentindo-se confortado.
—Muito obrigado, Sr. Bruke.
—Me chame de Damian. – pediu ele.
Draconis sorriu passando o braço por seus ombros e Loto sorriu de volta.
—Não sabe o quanto tudo isso significa para mim. – murmurou ele – Eu já mandei meu currículo pra um monte de lugar. Em breve eu devo estar trabalhando, mas se eu puder ajudar com a sua loja... de qualquer maneira que seja, enquanto eu não consigo nada formal... seria um imenso prazer.
Damian sorriu e concordou.
—Bem... o verão está aí. Vários adolescentes mal intencionados passeiam pela Travessa e pelo Beco Diagonal... se você e Draconis puderem distribuir alguns folhetos por aí, fazendo propaganda da loja... seria bom. – riu Damian. Loto concordou e sorriu – Mas não hoje. Hoje nós vamos para o Bloody Mary. Eu, vocês dois, a Rose, o Rasalas e o Navi. Temos que comemorar que nossos garotos terminaram a escola. – riu Damian bagunçando o cabelo do filho – Não é mesmo?
—Com certeza. – riu Draconis.
**
—Você está me dizendo que eu tenho chances de ser avô? – perguntou Draco apavorado – Eu vou... – ele pareceu esganar um pescoço invisível, com as bochechas vermelhas – Moleque... irresponsável... surra... – ele continuou falando palavras aleatórias, enquanto Harry parecia ter perdido a capacidade de falar.
—Mas... mas eu achei que Albus... eu achei que ele estivesse com a filha do Burke! – disse Harry. Rasalas deu de ombros.
—É... nossos filhos tem um modo meio diferente do nosso... de viver a vida. – resmungou Rasalas.
—Castigo... resto... da... vida! – rosnou Draco sem parar de fingir esganar alguém.
—Eu queria muito que vocês pedissem que seus filhos fizessem um teste. Pra saber de quem é o bebê que a Lyra está esperando. – disse Rasalas, completamente constrangido – Vocês podem me arranjar isso?
—Albus está com Scorpius, no quarto dele. – disse Harry parecendo extremamente decepcionado.
—Eu chamo os dois. – rosnou Draco pegando a varinha – Ah, pode deixar que eu chamo.
—Draco. – ralhou Rasalas – Fique calmo.
—Não vou ficar calmo. – ralhou Draco – Como sua filha está lidando com isso?
—Ela ainda não parou de chorar. – disse Rasalas dando de ombros – Então não muito bem.
—E ela vai levar essa gravidez a diante? – perguntou Draco – Ela é nova demais.
—Malfoy! Como ousa falar algo assim!? – perguntou Harry em choque.
—Oras! Eu não vejo problema nenhum em falar algo assim. Seriam vários problemas a menos.
—Pra você, não é? – perguntou Harry – Sabe o quanto isso pode ser traumático para a cabeça dela?
—Oras! Se ela tem idade pra fazer um filho, tem idade pra decidir se quer continuar ou não a...
—Malfoy, cale a boca antes que eu te estupore. – ralhou Harry.
—Adoraria fazer isso, não é, Potter? – rosnou Draco – Eu espero que o problema seja seu e não meu.
—Não vai ser um problema meu ou seu. Vai ser ou do Albus ou do Scorpius.
—Ah, sim. Todos nós vimos o quanto os três são responsáveis. – rosnou Draco – Eu não vou nem perguntar como isso aconteceu. Mas se o filho for do Scorpius, eu faço ele largar aquela escola e arrumar um emprego pra sustentar esse moleque.
—Parem vocês dois. Vá chamar os dois. – ralhou Rasalas.
Draco soltou um muxoxo e foi subir as escadas para chamar os dois garotos. Harry tirou os óculos e coçou os olhos com uma das mãos.
—Céus... como se já não tivéssemos coisas o suficientes para lidar. – resmungou ele – Não se preocupe, Rasalas. Albus vai se responsabilizar pelo bebê. Não vamos obrigar os dois a se casar, é claro... né?
—Não. De jeito nenhum. Inclusive, no que depender de mim, o bebê vai assinar “Lestrange”. – respondeu Rasalas – Mas eu não quero que a responsabilidade caia somente sobre Lyra.
—Claro. Com toda razão. – murmurou Harry – Mas eu vou te dizer... eu esperava esse tipo de coisa do James... nunca do Albus.
—Pois é. – resmungou Rasalas – Sempre esperei isso do Navi também. – murmurou soltando um muxoxo.
Os minutos vieram depois e Draco apareceu puxando Albus e Scorpius pela orelha.
—Pai! Qualé! – ralhou Scorpius.
—Sr. Malfoy, vai arrancar a minha orelha! – lamentou Albus.
—Eu deveria arrancar outra coisa, seus dois abusados. – ralhou Draco. Rasalas deu uma risadinha e Harry fechou a cara – E você! – rosnou Draco com o filho – Vai ali e peça desculpas ao seu tio!
—Pelo que? – resmungou Scorpius – Não é como se eu estivesse tentando... – Scorpius soltou um muxoxo e revirou os olhos, enquanto Draco o olhava desconfiado – Ok, ok. Desculpa por ter... talvez... engravidado a Lyra, tio. Mas eu nunca pensei que ela teria um descuido desses! – resmungou Scorpius.
—A escola não é lugar pra fazer esse tipo de coisa! É um local pra estudar! – ralhou Draco. Scorpius revirou os olhos.
—É mesmo, né? Vai ser hipócrita e me dizer que nunca transou na escola?
—Eu nunca engravidei ninguém na escola. – ralhou Draco.
—E eu nunca engravidei a esposa alheia! – rosnou Scorpius com a mesma língua afiada do pai. Harry soltou um assovio olhando de um para o outro. Draco respirou fundo e concordou.
—Realmente. Nunca engravidou a esposa alheia. Mas eu arquei com as consequências dos meus atos. E você vai fazer o mesmo. Toda a sua mesada, sendo o filho seu, ou não, eu vou passar para Lyra.
—O que?! Não pode fazer isso! – resmungou Scorpius.
—Eu posso fazer o que eu quiser, Scorpius . – riu Draco – E eu vou fazer isso até que você aprenda a ser responsável pelas coisas que faz. Você sabia que a garota poderia estar grávida de você e não me contou?! Como teve a ousadia de esconder isso de mim? O que estava esperando, heim?
Scorpius emburrou, cruzando os braços, enquanto Albus apenas olhava os próprios sapatos.
—Eu digo o mesmo pra você, Albus. Como não me contou isso? – perguntou Harry.
—Desculpe, mas... mas Lyra pediu para que eu não contasse... ela queria falar com os pais dela primeiro. Eu respeitei a escolha dela. – murmurou o garoto.
—Cerce sabe sobre essa gravidez? – perguntou Harry.
—Não. Só vou contar se for meu mesmo. – murmurou Albus – Mas ela sabe que eu e Lyra tivemos um... bem... um momento.
Harry concordou com um aceno de cabeça. Draco soltou um muxoxo.
—Foi por conta disso que terminou com a Weasley? – perguntou Draco.
—Não. Foi por ter terminado com ela que tudo isso aconteceu. – resmungou Scorpius.
—Certo. – resmungou Rasalas tirando dois frascos com um líquido lilás – Vamos fazer o teste de paternidade?
Scorpius e Albus engoliram em seco.
—Rasalas. Posso te pedir um favor? – perguntou Harry e todos o olharam, curiosos – Antes de fazermos o teste, podíamos ir todos ao curandeiro. O que acham? Eu posso tomar poção polissuco, assim como Albus... podemos tomar a forma de Daphne e Navi, por exemplo... eu acho que seria bom para os dois irem com a Lyra na primeira consulta...
Rasalas concordou e deu de ombros.
—Ótimo, vou pegar um pouco de poção dos estoques. Acho que ainda temos uns frascos. – disse Draco – Ou levaram todas para a última missão na Coreia?
—Ainda tem. – disse Harry.
—Ok. Eu já volto.
Minutos depois, quando Harry tinha adquirido a forma de Daphne e Albus a de Navi, todos foram para o Mungus. Albus parecia aterrorizado e Scorpius contrariado. Mas Lyra parecia quase em pânico, segurando sua mão como se não passasse de uma criança...
Talvez ela fosse mesmo.
Os minutos se passaram enquanto eles esperavam pela consulta. Draco parecia que iria começar a cuspir fogo a qualquer momento. Quando o medibruxo chamou Lyra, todos se levantaram e foram até ele.
—Olá... vocês são todos... família? – perguntou o medibruxo.
—Podemos dizer que sim. – rosnou Draco entrando de uma vez.
O medibruxo olhou para Lyra e soltou um suspiro, provavelmente pensando no quão jovem ela era. Ele fez algumas perguntas sobre a menstruação dela e Lyra respondeu envergonhada. Depois o médico pediu para que ela se deitasse na cama. Ela o fez e o homem levantou um pouco a blusa dela e abaixou de leve a calça que ela usava. Notou que tanto Scorpius quanto Albus semicerraram os olhos e isso lhe arrancou um sorrisinho.
O medibruxo pressionou o ventre de Lyra e Scorpius foi se aproximando, olhando com curiosidade, enquanto Draco respirava com as narinas dilatadas e uma veia saltando em sua têmpora.
—Treze semanas. – concluiu o homem – Se for interromper a gravidez, precisa fazer o mais rápido possível. A cada dia que passa, a chances de complicações ficam maiores.
Scorpius olhou preocupado para Albus, que ficou ainda mais pálido.
—Entendi... – murmurou Lyra. O curandeiro sacou a varinha e murmurou alguns feitiços.
Uma névoa começou a se formar em cima da barriga dela e Rasalas se lembrou da primeira consulta daquele tipo que tinha ido com Daphne, quando ela engravidou. Lembrava que tinha sentido vontade de chorar ao ver a imagem de Navi, ainda um pequeno feto, do tamanho de um pomo de ouro, se formar na névoa. Principalmente ao escutar o coração do bebezinho bater.
—Aqui está o seu bebê, Srta. Lestrange. – disse o curandeiro e Scorpius se aproximou completamente hipnotizado pela imagem. Albus desviou o olhar, parecendo completamente desesperado, mas Scorpius sorriu.
—Dá pra ver os dedinhos... – murmurou ele – Olha, Lyra... os dedinhos...
—Uhum... – murmurou Lyra parecendo desgostosa e Rasalas viu o garoto entrelaçar os dedos com os dela. Olhou para Draco, que pareceu se abrandar ao ver aquilo.
—Nossa... parece um ser humano mesmo. Achei que iria parecer um feijão... olhe só os pezinhos! – disse Scorpius, impressionado, com um sorriso bobo no rosto – Olha o narizinho. Dá pra ver o narizinho... – murmurou ele – Caramba... – ele se virou, olhando para Albus, que parecia prestes a vomitar – É tão perfeitinho, não é, Lyra? – Mas Lyra parecia tão doente quanto Albus – Dá pra ouvir o coração?
—Dá sim. – riu o curandeiro. Ele murmurou mais algumas palavras e todos fizeram silêncio. As batidas rápidas do pequeno coraçãozinho tomaram o consultório e Lyra começou a chorar em silêncio, completamente emocionada.
—É normal ser rápido assim? – perguntou Scorpius, esbugalhando os olhos.
—É. – respondeu Draco mirando a parede, fazendo o filho sorrir aliviado.
—Ele está bem? Está saudável? – perguntou Scorpius.
—Aparentemente sim. Você é o pai? – perguntou o curandeiro. Scorpius concordou com um aceno de cabeça e o curandeiro suspirou – Parece estar tudo ok. O coração dele parece forte e saudável.
—E é menino ou menina? – perguntou o garoto.
—Ainda não dá pra saber. – respondeu o curandeiro.
—E quando vai nascer?
—Com trinta e sete a quarenta semanas. – respondeu o curandeiro com um sorriso.
—E quando vamos sentir mexer? – perguntou Scorpius.
—Com vinte semanas já poderá sentir... mas algumas vezes demora até vinte e quatro. Se chegar a vinte e cinco e não tiver mexido, precisamos fazer uns exames, para ver se está tudo bem. – explicou o curandeiro.
—E quando eu vou saber se é menino ou menina? – perguntou Scorpius olhando para névoa que flutuava em cima da barriga de Lyra.
—Com dezesseis semanas... algumas vezes até antes. – explicou o curandeiro.
—O que você prefere, Lyra? – perguntou Scorpius com um sorriso – Menino ou menina?
—Tanto faz, eu não vou ficar com ele. – resmungou ela se sentando e arrumando a camisa, fazendo a névoa se desfazer – Eu quero avisar o serviço social e avisar que eu quero colocá-lo para adoção. É um bebê sangue puro. Não deve demorar pra conseguir um casal que queira adotar...
—Não deveríamos conversar sobre isso primeiro? – perguntou Scorpius.
—Ah! Agora você quer conversar?! – perguntou ela o olhando feio.
—Estou há semanas esperando que você viesse falar comigo, mas você deixou o trabalho sujo pro Albus, e só me procurou pra... – Scorpius respirou fundo – Você não pode decidir isso sozinha.
—Eu posso sim. E já me decidi. – respondeu ela pulando para o chão – Se está tudo certo, onde eu falo com alguém do serviço social?
—Lyra! – resmungou Scorpius. Ela se virou para ele, indignada.
—Você já trocou uma fralda? – perguntou ela – Você sabe colocar um bebê pra arrotar? Você sabe o que é necessário pra criar uma criança? Fala sério, Scorpius, nem mesmo terminamos a escola! Sem falar que não é certeza que é seu.
—Provavelmente é meu! Você só transou com o Albus uma vez e... – começou Scorpius, mas Rasalas deu uma tossida.
—Então. Acho que é só, não é mesmo? Alguma recomendação? – perguntou Rasalas. O curandeiro pegou um livrinho de poucas páginas e o entregou para Lyra.
—Tome. Aqui tem tudo o que precisa saber sobre a gravidez... – ele pegou outro folheto e entregou para Rasalas – E aqui tudo sobre o programa de adoção. Você precisa vir uma vez a cada quatro semanas. Mais pro final da gravidez terá que vir todas as semanas.
—Obrigado. – murmurou pegando o folheto.
—Podemos ir pra casa agora? – perguntou Lyra.
—Sim.
—Lyra. Nós precisamos falar sobre isso! – resmungou Scorpius.
—Não precisamos! – disse ela teimosamente. Scorpius soltou um muxoxo.
—Ok, como quiser! Mas não venha falar depois que eu não tentei arcar com as minhas responsabilidades, ok? – ralhou ele.
—Não se preocupe. Não vou jogar nada na sua cara depois. – resmungou ela.
—Ok, crianças. Chega de fazer cena. – pediu Draco segurando Scorpius nos ombros.
Saíram do consultório e trocaram olhares.
—Muito bem. Vamos ver qual dos dois é o pai? – perguntou Rasalas tirando o frasco do bolso. Albus ficou ainda mais pálido.
—Eu sou o pai! – ralhou Scorpius.
—Você não pode ter certeza disso se nem ela tem, Scorpius. – resmungou Draco.
—É uma questão simples de probabilidade. – resmungou o garoto.
—Por que quer que seja seu? – perguntou Albus, finalmente falando alguma coisa.
—Não é que eu queira... eu... eu só sei, ok? – perguntou Scorpius dando de ombros.
—Já que está tão certo, me dê um fio de cabelo, Scorpius. – disse Rasalas. Scorpius olhou para Lyra, que se recusou a olhá-lo de volta. O garoto arrancou um fio platinado da cabeça e entregou para Rasalas, que colocou dentro frasco e o sacudiu. Todos prenderam a respiração e o líquido lilás foi ficando cada vez mais translúcido, até ficar transparente. Rasalas viu Harry coçar a cabeça e Draco soltar um suspiro aliviado – Bem... Você vai ser avô, Harry.
Albus ficou tão pálido que parecia prestes a desmaiar.
—Mas... mas como? – perguntou Scorpius parecendo verdadeiramente desapontado – Mas... mas a gente passou tanto tempo...
—Acredite, Scorpius. Você não estaria pronto pra encarar um frasco vermelho. – murmurou Draco.
Albus soltou um suspiro comprido e olhou para Lyra.
—Você não quer mesmo ficar com o bebê? – perguntou ele.
—Não. Eu vou colocá-lo na adoção. – respondeu Lyra parecendo decidida. Albus concordou com um aceno de cabeça.
—Bem... pode contar comigo durante a gestação, pra qualquer coisa que precisar... e se mudar de ideia, eu vou te ajudar a criar o... o bebê...
—Eu não vou mudar de ideia!
—Pai, podemos adotar o bebê? – perguntou Scorpius. Draco respondeu dando um tapa na orelha dele – Credo! Eu só perguntei, ok?
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