Legado Lestrange
27 Um Verão Feliz
Notas iniciais
1996
Expresso Hogwarts
Estavam todos calados e abatidos. Draco parecia simplesmente em choque. O pai dele tinha ido em cana, afinal. O prestígio dos Malfoy tinha acabado... Assim como o dos Crabbe.
Rasalas ainda olhava pela janela, admirando o céu estrelado lá fora. Já estavam para chegar, afinal. Sentiu a mão de Daphne sobre a sua e os dois se entreolharam. Ela sorriu gentilmente e deitou a cabeça em seu ombro. Passou o braço pelos ombros dela e a abraçou, em silêncio. Blair mirou os dois e deu de ombros, voltando a ler um livro qualquer. Vince e Greg soltaram suspiros ao mesmo tempo, enquanto Emília fazia bolhas com a varinha, querendo passar o tédio.
A porta da cabine se abriu e Damian entrou com Pansy, ambos muito desarrumados e Damian com o zíper da calça aberto. Ele se sentou sorridente ao lado de Daphne e suspirou parecendo ser o único feliz ali.
Rasalas olhou para Pansy, que parecia uma parede de gelo. Damian não era o primeiro garoto com quem ela transara. Ela já tinha transado com todos os garotos do ano, inclusive Crabbe e Goyle. Desde que ela abortara, algo na cabeça dela tinha mudado. Um pouco de seu orgulho e liderança... Ela parecia ter uma rachadura em si mesma... e tentava preenche-la com alguma coisa. Primeiro foram os exames... agora...
Agora ela queria preencher o vazio com distrações.
Sabia o que ela sentia, mas imaginava que seria muito pior com ela. Suspirou e voltou a olhar pela janela, se perguntando quanto mais seus amigos poderiam sangrar, sofrer e mudar. Os únicos que pareciam ilesos a tudo era Blair e Emília, pois sabia muito bem que Damian tentava se distrair com Pansy apenas para esquecer Alhena.
Daphne passeou o nariz por seu pescoço e ele sentiu os pelos da nuca se arrepiarem. Respirou fundo e a olhou com carinho. Aqueles tão belos olhos azuis, que vinham visitando sua mente sempre que se distraía. Não importava como seu espírito estava... eram sempre os olhos de Daphne que apareciam para ele.
Por que estamos perdendo tempo? Perguntou pra si mesmo. Encostou a testa na dela e a viu corar. Sentiu o solavanco, quando o trem começou a desacelerar e levantou o olhar para os colegas, como que saindo de um transe. Daph fez o mesmo, corando violentamente ao notar os olhares risonhos de Pansy e Emília.
Se levantaram, pegando suas coisas. Draco assustadoramente calado e triste. Assustado. Quis segurar Daphne, para ficar a sós com ela na cabine, mas não se permitiu. Foi até Draco e o segurou no pulso.
—Quero falar com você, ok? – perguntou ele.
Draco suspirou e concordou.
Daphne escutou e soltou um suspiro, dando de ombros. Mas antes que ela saísse, a segurou pela mão. Ela o olhou e ele sorriu.
—Espero te ver nessas férias, Daph...
Ela sorriu carinhosamente.
—Eu desejo o mesmo, Ras.
Pansy sorriu, assim como Emília e as três saíram. Rasalas fechou a porta da cabine e se virou para Draco, que se abraçava mirando a janela.
—Como você está, cara? – perguntou Rasalas. Draco soltou um suspiro e o olhou parecendo perdido.
—Estou com medo. – murmurou ele – Eu não sei o que espera por mim, quando eu chegar em casa...
Rasalas acenou com a cabeça, concordando.
—Eu... eu espero que... que esteja tudo bem e... eu realmente sinto muito pelo seu pai. – murmurou sentindo-se culpado, afinal estivera no Ministério – Eu não queria que ele tivesse ido preso...
—Eu preciso te confessar uma coisa, Ras... – murmurou Draco parecendo infeliz – Uma coisa que vem me torturando há séculos.
Rasalas o olhou curioso.
—O que houve? – perguntou franzindo a testa.
—Eu... eu sei onde sua irmã está. – murmurou Draco – Ou estava... eu sempre soube. – murmurou ele. Rasalas abriu os olhos, chocado – Ela estava lá em casa.
—O... o que? – perguntou incrédulo.
—Sim. Lá em casa, a salvo. Ela está bem melhor... bem melhor do que estava quando chegou, ao menos... ela parecia muito doente quando chegou...
Rasalas encarou o colega, indignado, controlando a vontade de socá-lo no rosto.
—Eu... eu não acredito que... que não me contou isso! – rosnou, zangado.
—Eu sinto muito. – murmurou Draco desviando o olhar – Eu fui proibido de falar... de contar pra quem quer que fosse... não contei nem pro Vince e nem pro Greg... só pra você. – Draco suspirou – Mas eu não sei o que pode acontecer com ela, agora que meu pai foi preso... todos os comensais que Potter citou naquela entrevista do Pasquim devem estar sendo investigados. Eu não sei pra onde o Lorde das Trevas deve ter mandado a Lena.
—O que raios ele faria com ela? – perguntou em choque.
—O dom dela... de ser vidente. – explicou Draco. O colega o olhou com seus frios olhos azul acinzentados – Eu só queria deixar uma coisa clara, Ras... – Draco suspirou – Sua irmã não estava lá como prisioneira, mas como convidada. Ela queria estar lá.
—O que? – perguntou perplexo.
—Ela... a sua irmã... eu sei que você não vai acreditar... mas que seja. – Draco pegou sua mochila e saiu com as mãos nos bolsos – Ela está do lado do Lorde das Trevas.
Rasalas observou, atônito, Draco se afastar. Realmente... não podia acreditar. Aquilo simplesmente não fazia sentido. Lena detestava a causa puro sangue... muito mais do que ele, diga-se de passagem.
Olhou para o céu, se perguntando o que Draco ganharia com aquela mentira. Bagunçou os cabelos castanhos e suspirou. Deixou a cabine e foi com os alunos, que saíam para pegar seus pertences no vagão bagageiro.
Pegou seu malão e foi procurar pela pessoa que deveria vir buscá-lo na estação. Se perguntou quem seria... Lupin? Sua mãe? Os avós? Imaginou que a mãe deveria estar triste demais. Sirius era um dos melhores amigos dela e estava morto. Se sentiu levemente culpado por não ter ido ajudar a Ordem. Imaginava que seria muito improvável que ele pudesse salvar Sirius de Bellatrix, mas... poderia ter havido uma chance...
Se sentia completamente perdido. Não se sentia a vontade com Harry e os outros... não mais... mas tampouco podia ser ele mesmo com seus amigos da Sonserina. Basicamente todo mundo apoiava o Lorde das Trevas...
Soltou um suspiro, olhando ao redor e viu o rosto cansado e abatido de Remus. Ele estava sentado num banco e Harry estava lá ao lado dele. Se perguntou por quem Remus estaria ali e mais uma vez sentiu uma certa antipatia por Harry. Puxou seu malão até os dois e Lupin o olhou sorrindo.
—Olá, Rasalas. – murmurou ele.
—Lupin... – murmurou baixinho – Eu realmente sinto muito por Sirius... eu... eu nunca quis que...
Lupin ficou de pé e colocou a mão em seu ombro.
—Está tudo bem... Sirius morreu da maneira que viveu. – disse Lupin olhando dele para Harry – Lutando pelas pessoas que amava.
Rasalas suspirou, concordando.
—Eu achava ele muito legal... – murmurou triste – A guerra sempre está tirando um pedaço de nós... e só agora ela está começando de verdade.
—Precisamos ser fortes... todos nós. – murmurou Lupin. Rasalas concordou e suspirou olhando para o homem, que já estava alguns poucos centímetros mais baixo que ele – Vamos? Sua mãe está esperando por você. Temos uma surpresa.
—Você veio me buscar? – perguntou Rasalas sorrindo, contente. Lupin o olhou curioso – Achei que tivesse vindo por Harry.
—Harry está com os tios dele. – respondeu Lupin e Harry pareceu que iria vomitar.
—Entendi... – murmurou dando de ombros – Vamos?
—Vamos... fique bem, Harry. – murmurou Lupin. Harry concordou, abatido. Ele gostava muito de Sirius, sabia disso.
—Boas férias, Harry. – disse timidamente.
—Rasalas. – chamou o garoto. Rasalas o olhou curioso – Obrigado... por ter nos ajudado... eu sei que Rony falou um monte de coisa pra você... por você ter ido embora antes, mas...
—Não se preocupe. – cortou calmamente – Eu deveria ter ficado. Eu mereci cada palavra que Ronald disse.
Harry negou com a cabeça e suspirou, estendendo a mão para ele.
—Sei que posso contar com você, quando precisar. Não vou esquecer disso.
Rasalas sorriu divertido e apertou a mão dele, com firmeza.
—Alguém tem que manter essa sua cabeça rachada no seu pescoço, não é? – perguntou sorrindo – Mas não ache que eu vou aliviar no quadribol. Porque eu não vou. Ano que vem a Taça é nossa de novo. – ele piscou para Harry com um olhar insolente e Harry devolveu o sorriso.
—Boa sorte com isso.
Apertaram um pouco mais as mãos e por fim se soltaram. Lupin os observou por um tempo e deu um sorrisinho, antes de aparatar para casa. Rasalas respirou fundo, sentindo saudades de casa. Queria encontrar o avô em breve, mas a saudade da mãe era mais urgente. Se aproximou da porta, afoito, puxando o malão com vigor. Abriu a porta e deixou o malão dentro da sala, para ir até a cozinha, onde a mãe provavelmente estaria.
Mas assim que entrou, viu Alhena sorrindo de volta para ele, sentada com o rosto apoiado nas mãos.
—Olá, Rasalas. – riu ela.
Sua boca se abriu em choque. Piscou algumas vezes olhando para ela, sem acreditar. Alhena se levantou e correu até ele para abraçá-lo. Ela ainda estava magra, mas quase voltara ao que ela estava no ano anterior. Sentiu o cheiro da irmã e a abraçou de volta, com força.
—Lena! – murmurou, chocado, com um nó na garganta.
—Eu senti tanta a sua falta, maninho. – choramingou Alhena.
Só então se lembrou que Lupin tinha dito que tinham uma surpresa para ele.
—Rasalas. Você voltou. Que bom. – escutou a voz da mãe. Seus olhos já estavam cheios de água, e quando a mãe o abraçou junto de Alhena, foi demais para ele. Suas bochechas ficaram molhadas pelas lágrimas que desciam por seu rosto – Oh... como é maravilhoso ter vocês dois de volta aqui... comigo. – chorou sua mãe.
—Como? Como? – perguntou confuso – Como você fugiu? – perguntou abraçando a mãe e a irmã, ao mesmo tempo.
—Eu não fugi. – negou ela – Papai me trouxe de volta. – explicou ela se afastando. Rasalas olhou para ela, chocado – Ele foi preso, mas fugiu no mesmo dia. Disse que eu ficaria mais segura com a mamãe mesmo.
—Nós vamos realizar o feitiço do Fiel Segredo nessa casa. – disse Remus – Eu serei o fiel segredo. – adicionou ele – Ninguém mais vai vir mexer com a família de vocês.
Rasalas olhou para Remus e sorriu.
—Obrigado. – abraçou a mãe e a irmã mais apertado.
—Rasalas! Meus peitos! – resmungou Alhena, enquanto ele a amassava. Mas nem ligou. Apenas ficou rindo e chorando, feliz e aliviado.
*
O jantar estava estranhamente animado na residência dos Lestrange. Seu avô mandou os elfos prepararem todos os seus pratos favoritos e nem ligou ao ver a mãe com um vestido sem manga, que deixava as tatuagens dela expostas, assim como a cicatriz em seu ombro.
Alhena comia calmamente, mas como qualquer pessoa deveria comer. Ela até exagerou um pouquinho no pudim de leite, na verdade. A avó depois apareceu com uns vestidos de quando ela era adolescentes e ficou provando em Alhena.
—Precisamos debutar Alhena. Ah sim! É uma fase tão boa da nossa juventude... não acha, Valentine?
—Ah, sim. Com certeza. – riu a mãe, bebendo um pouco de suco de uva – Eu lembro que na primeira vez que debutei, Rabastan estava lá, mas ele só tinha olhos para Katherine Greengrass.
—Quem é essa? – perguntou Alhena.
—Falando em Greengrass! – riu sua avó – Nós recebemos convites para a festa da filha mais velha deles. As duas filhas deles já estão debutando e eles queriam muito que Rasalas aparecesse.
Rasalas piscou e sentiu o rosto ferver.
—Parece que ele gostou de saber. – riu seu avô, parecendo achar graça de qualquer coisa – Seus cabelos ficaram cor de rosa, filho.
Piscou, constrangido, voltando a deixar os cabelos no tom loiro.
—Eles andam meio rebeldes. – murmurou passando a mão pelos fios sedosos.
—Rasalas sempre foi muito amigo das duas. – murmurou a mãe o olhando com atenção – Não é mesmo, Ras?
Ele deu de ombros, tentando imaginar como Daphne ficaria num vestido de debutante. Provavelmente ficaria tão sonso quanto Damian tinha ficado ao ver Alhena... Foi quando lembrou que não tinha avisado o amigo sobre o retorno dela. Não tinha dado no jornal que ela tinha sido “resgatada” porque seu pai fugira no mesmo dia. Então Fudge ainda estava tentando abafar o caso.
Olhou para a irmã, que sorria comendo mais um prato de pudim, com um ar contente e satisfeito. Lembrou dela quando os avaliadores vieram para aplicar os N.O.M.s especialmente para ela. Sua irmã estava bem forte e teve certeza que ela fora melhor que ele em tudo, mesmo sem ter assistido nenhuma aula desde o natal.
Alhena dissera que o pai apagara a memória dela, assim ela não se lembrava onde ela estivera nos últimos meses. Ninguém acreditou muito nisso, mas o avô não deixou que os aurores ficassem perturbando com pressões. Ela não iria contar e ponto.
—Vocês vão querer ir? Pro baile dos Greengrass? – perguntou a avó – Você vai, não vai, Valentine? É amiga deles há anos...
—Trabalho para eles há anos. – corrigiu a mãe. Mas ela sorriu – Mas eu recebi um convite. Acho que vou sim.
—Ótimo. Iremos todos juntos. – disse a avó, empolgada – Vai ser no final do verão... mas já tenho mais umas quatro festas para irmos. Os Parkinson também convidaram Rasalas para o baile em homenagem à filha deles... assim como os Bulstrode e os Abbot... teríamos recebido mais convites se soubessem que Alhena voltou pra casa, mas não tive pressa para sair gritando isso por ai...
—Temos que ser cautelosos. – concordou o avô – Eu não acho certo o que Hugo está fazendo.
—Que Hugo? – perguntou Rasalas comendo um pedaço de bolo de chocolate.
—Hugo Greengrass... ele está falando pelos quatro ventos que nenhum bruxo decente deveria apoiar a causa do Lorde das Trevas.
—Ele não está errado. – retrucou a mãe. Rasalas espiou Alhena, mas ela parecia concentrada demais no próprio pudim de leite, comendo sonhadoramente.
—É, mas... ele não pode pensar que não vai sofrer represálias... ele deveria ficar quieto e observar o que acontece ao seu redor... O Lorde das Trevas teve muito tempo para se preparar para essa guerra... para conversar com as pessoas certas, corromper quem podia ser corrompido...
Todos fizeram silêncio por um momento e Rasalas concordou com o avô. Sabia muito bem o que ele queria dizer com isso. Participou durante meses da AD, mas nem por isso saiu falando para todos que queria lutar contra a causa puro sangue um dia. Para todos os efeitos ele era um perfeito Sonserina, com um fraco por mulheres bonitas...
—Valentine. Você ainda está trabalhando para os Greengrass? – perguntou a avó.
—Na verdade não... desde o natal. Eu pedi demissão... – respondeu ela – Eu achei melhor me esconder por um tempo.
—Então não deve estar muito ocupada, certo? – perguntou a avó. Sua mãe a olhou curiosa.
—Como assim?
—Eu queria encomendar uns vestidos para Alhena e para mim, um para cada baile. Você se importa de fazê-los pra mim? Eu pagarei o preço que merece receber. – disse ela parecendo empolgada – Não é, Rodolfo?
Seu avô estava comendo pudim, parecendo tão satisfeito quanto Alhena, e simplesmente deu de ombros.
—Quero um verde. – disse Lena – Para combinar com o colar que meu pai me deu. Ele finalmente mandou minhas coisas de volta. – riu ela finalmente parecendo interessada na conversa.
—Que colar? – perguntou Rasalas – Certeza de que não é perigoso?
—Papai nunca faria nada que me machucasse. – disse Lena, calmamente.
—Ele te sequestrou! – disse Rasalas.
—Ele me convidou a ir com ele e eu aceitei. – disse ela se levantando – A comida estava uma delícia, vovó. Eu vou pro meu quarto dormir um pouco.
Todos a olharam se afastar, chocados. Rasalas olhou para a mãe, que suspirou parecendo sonhadora.
—Pelo menos Rabastan a ajudou a melhorar... – murmurou a mãe com um sorriso sereno.
**
Rasalas estava em seu quarto, com sua mãe tocando seus trajes a rigor com a ponta da varinha. Estava usando um traje muito bonito, negro, com o dragão dos Lestrange bordado nas costas em finos e delicados fios prateados. Arrumou a gola, orgulhoso de seu reflexo.
—Vou ficar com os cabelos negros. – disse movendo o pescoço e mudando os cabelos, os deixando lisos, negros, de lado. Olhou-se no espelho, novamente e sorriu – Eu sou mesmo muito lindo.
—E modesto. – disse sua mãe, com um sorrisinho – Você está a cara do seu pai com esses cabelos escuros. – suspirou ela olhando para o reflexo dele no espelho. Rasalas olhou para ela de canto de olho e notou que ela parecia um tanto sonhadora. Os cabelos completamente lisos, ondulados harmonicamente, com aquele par de brincos com esmeraldas, que era o único que ela tinha.
—Mamãe? Você não está se concentrando. – disse rindo. Sua mãe piscou, como se acordasse de um transe e corou tão furiosamente que os cabelos dela ficaram completamente rosa berrante – Está descontrolada. – disse sorrindo. O rosto dela estava completamente vermelho e até as sobrancelhas ficaram completamente rosa.
—Pare de implicar comigo. – ralhou ela tentando voltar ao normal, mas a cor rosa foi desaparecendo lentamente, como se escorresse para fora do cabelo.
—Mamãe encontrou o papai e agora não para de falar sobre ele. – disse Alhena de maneira cantarolada, se aproximando do espelho, para se ver. Ela usava um bonito vestido verde claro com brilhantes, com uma calda de prata bordada, cheia de diamantes. O colar dela era muito extravagante, mas ela parecia muito confortável nele. Ela arrumou os cabelos ondulados e sorriu satisfeita. Mas os olhos dela foram para o reflexo, na altura da cintura e o sorriso dela vacilou – Não estou gorda nesse vestido, estou? – perguntou ela preocupadamente.
—Não. – responderam todos com firmeza e ao mesmo tempo.
—Você está com carne de menos. – disse Rasalas.
—Sim, precisa engordar mais um pouco. – concordou o avô.
—É até bom que fique um pouquinho mais rechonchudinha. Dá uma aparência mais saudável. – concordou a avó.
—Ah, parem vocês. – resmungou Alhena, se irritando. – Essas coisas que vocês falam só me deixam nervosa. – ela colocou os brincos, fechando a cara e resmungou algo como “saudades do papai”.
Rasalas olhou para a mãe, que mirava os dois de maneira orgulhosa.
—Você viu o papai? Quando? – perguntou ele. Sua mãe piscou nervosa e mais uma vez os cabelos ficaram rosados (e ela não pareceu nem um pouco feliz por isso).
—Quem disse que... – começou ela, mas Alhena a cortou.
—O papai me disse. Ele falou que você contou que eu estava doente e que tinha prometido pra você que ele me protegeria. – ela se afastou e olhou os brincos nas orelhas, de maneira analítica – E eu acho que vocês andaram aprontando juntos. – ela deu uma risadinha e foi se sentar na cama dele para colocar os sapatos.
Rasalas e os avós olharam para Emily Valentine, que não conseguiu disfarçar um olhar culpado.
—Eu não acredito nisso! – ralhou Rasalas.
—Oh... Rabastan passa quatorze anos preso e a primeira coisa que ele faz é ir atrás dela. – riu a avó – Ele gostava mesmo de você.
—Ele não veio me ver com... com intenção... com essa intenção! – ralhou a mãe, completamente corada. Rasalas notou que ela estava se esforçando para não deixar os cabelos mudarem de cor – Ele só quis conversar e esclarecer algumas coisas.
—E vocês conversaram muuuuuuuuito, né, mamãe? – riu Alhena olhando os sapatos prateados com uma borboleta de esmeralda.
—Alhena! – ralhou a mãe.
—Sim... com os quadris. – Alhena continuou e Rasalas ficou dividido entre rir e ficar zangado.
—Mãe! E Lupin? – perguntou fechando a cara, mesmo que um sorrisinho escapasse de seu rosto.
—Lupin? A mamãe é apaixonada pelo papai e ele é apaixonado por ela. – discordou Alhena.
—Lupin é muito melhor do que ele! – disse Rasalas cruzando os braços.
—Não mesmo! – discordou Alhena colocando um anel no dedo e levantando a mão para ver de longe – Papai é melhor bruxo, mas bem nascido e...
—E desde quando você se importa com isso? – perguntou cruzando os braços.
Alhena sorriu e o olhou com troça.
—Você notou que se fosse há uns três anos atrás nós estaríamos discutindo a mesma coisa, só que de lados diferentes?
—Bem, um de nós melhorou e o outro piorou. – Ralhou Rasalas.
Alhena deu uma risadinha desdenhosa.
—Pois é. – ela desceu da cama e foi caminhando para fora do quarto – Emms e Rabastan estão a se beijar... – cantarolou ela fazendo seu avô rir. Rasalas o olhou feio e ele disfarçou fingindo que estava apenas tossindo. – Mamãe poderia nos encomendar um irmãozinhooooo... – disse ela lá do corredor.
—Mas de jeito nenhum! – ralhou Rasalas. Ele olhou para a mãe, que olhava para a porta, como se não estivesse acreditando em nada daquilo – Mãe! Não quero você com aquele cara, ouviu? Você tem que ficar com o Lupin!
—O lobisomem? – perguntou o avô com censura – Nem pense nisso, Valentine. Lobisomens são animais perigosos e...
—Não são animais! São pessoas! – ralhou Rasalas – E Lupin é o cara mais legal que existe! E ele gosta de você, mamãe! Tem que ficar com ele.
—Oh, Rasalas. Eu não acho que seja simples assim. Eu e Lupin somos apenas amigos. – riu sua mãe pegando as abotoaduras para colocá-las nele – Mas eu não tenho intenção nenhuma de voltar com seu pai. Ele é um soldado do Lorde das Trevas... provavelmente está... está morto. – disse ela engolindo em seco – Ele não podia ter devolvido Alhena, mas devolveu... Ele vai ser castigado e provavelmente morto por isso... talvez já esteja... mais provável que... que esteja... – murmurou ela com os olhos baixos.
—Mãe! Pare com isso! – ralhou ele – Nada de ter recaídas com o papai! Ele é mau.
Sua mãe deu um sorrisinho e apertou sua bochecha.
—O mundo dá voltas, hum? – disse ela. Rasalas fez uma careta, sabendo que ela estava se referindo a ele – Eu vou terminar de me arrumar. Só um minuto...
A observou sair do quarto e suspirou.
—Vocês acreditam nisso? – perguntou para os avós.
Seu avô parecia estar se divertindo, mas sua avó estava séria.
—Eu queria que ela curasse Rabastan e o resgatasse das trevas em que ele se meteu... mas... mas não sei se ainda há alguma esperança para meu caçula... – murmurou ela, tristemente.
—Ele cuidou bem de Alhena, o Rabastan... – murmurou seu avô – Melhor que todos nós... olhe só para a nossa neta. Tão segura de si... com uma língua afiada e muito bonita... talvez não seja Valentine quem vai salvar nosso filho, no fim das contas... Rabastan tirou Alhena da própria prisão dela... quem sabe agora ela o tire da dele...
Rasalas mirou o avô, que olhava o nada com um ar sonhador.
—Você acha que terá tempo pra isso? – perguntou a avó.
—A guerra está apenas começando, Eda... a última durou muitos anos... sabe-se lá quantos essa irá durar também...
Rasalas sentiu um calafrio. O clima descontraído tinha feito com que se esquecesse completamente da guerra.
—Eu espero que... que a gente fique bem... – murmurou.
—É claro que vamos ficar bem. – disse seu avô.
—Meu pai e meu tio não acabaram nada bem da última vez... os dois irmãos Lestrange acabaram numa cela... – ele se olhou no espelho... espero que os novos irmãos Lestrange não terminem em uma tumba.
***
O senhor Parkinson os recebeu e ficou muito contente ao ver Alhena.
—Vou mandar meu filho mais velho te acompanhar, Srta. Lestrange – disse ele com um sorriso.
—Eu sei andar sozinha, mas obrigada pela cortesia, senhor Parkinson. – respondeu Alhena entrando na casa.
—Céus... ela está até parecendo aquela... – começou seu avô.
—Tia Bella. – riu Rasalas.
—Alhena! Volte já aqui e peça desculpas ao senhor Parkinson. – disse sua mãe, zangada. Ela se voltou para o anfitrião, que parecia chocado – Desculpe... é a idade.
—Oh. Não se preocupe. Eu sei bem como é. – riu o Sr. Parkinson – Meu filho acabou de se formar e minha filha está indo pro sexto ano. – ele revirou os olhos – Vou ficar careca antes da formatura dela.
Alhena voltou, mas não pareceu nada contente por isso. O filho mais velho do Sr. Parkinson a olhou com interesse e ofereceu o braço. Alhena aceitou, mas nem sequer olhou nos olhos do rapaz.
Rasalas deu um sorrisinho e acompanhou a mãe, para dentro. Nunca tinham ido para a casa de Pansy. Ela era muito bonita, cheia de enfeites bonitos, com várias paredes de vidro, dando vista para a piscina que mudava de cor a cada dez segundos.
—Onde está sua irmã? – perguntou Lena, olhando para os lados.
—Eu não sei, gracinha. Quer procurar? – perguntou ele com um sorrisinho.
—Sim. Mas com o meu irmão. Vamos Rasalas. – disse ela se soltando – Mamãe, faça companhia pro jovem Parkinson, ok? – perguntou Alhena com um sorrisinho.
Sua mãe revirou os olhos.
—Vai. – riu ela.
Alhena enlaçou o braço com o dele e juntos, os dois irmãos, foram olhar pelos corredores. Passaram por uma porta que fazia um som estranho, como se alguém estivesse batendo repetidas vezes contra a porta.
—Meu Merlin... será que é Pansy? – riu Alhena. Rasalas mordeu o próprio lábio, preocupado.
—Eu não sei... – murmurou ele – Vamos olhar outra porta.
—Ah, mas isso é simplesmente divertido. – riu Alhena tocando na porta e sussurrando qualquer coisa. Os olhos dela viraram, mas em dez segundos ela voltou ao normal, com um sorriso ácido no rosto – É ela sim... com Damian. – riu Alhena – Será que Emília e Daphne vieram? – perguntou ela despreocupadamente, ignorando um gemido alto, feminino.
Rasalas deu um sorrisinho.
—Eu não sei, mas eu voto em procurar por elas. – disse querendo se afastar da porta que vibrava a cada estocada que Damian dava em Pansy – Em algum lugar bem longe daqui, de preferência.
—Sim. Ou então... – Lena deu um sorrisinho e deu uns soquinhos na porta.
—Por que? – perguntou baixinho, querendo não rir do constrangido silêncio que veio do quarto. Lena bateu de novo, com o mesmo sorriso ácido no rosto – Lena! – sussurrou chocado. Mas ela apenas riu.
A porta abriu lentamente e Damian espiou, corado, com os cabelos bagunçados e o rosto sujo de batom.
—Rasalas! – ralhou ele sem ver Lena, que estava do outro lado – Qual seu problema? Achei que fosse o irmão da Pansy... ou os pais dela!
—Não fui eu quem bateu na porta. – disse sorrindo sem jeito.
Damian piscou e virou o rosto, para o lado de Lena. Ela acenou com um sorrisinho malicioso e Damian engasgou.
—Quem é, Damian? – perguntou Pansy abrindo a porta, arrumando o vestido. Quase que um mamilo apareceu enquanto ela fazia aquilo. Damian ainda olhava horrorizado para Alhena. Pansy se virou e viu Alhena. As duas trocaram um olhar gelado e Rasalas se perguntou o que aconteceria.
—Olá, Pansy. Resolveu abraçar de vez o símbolo da Sonserina, né? – riu Alhena. Pansy engoliu em seco.
—Eu... eu não sabia que... – começou ela.
—O que? Que eu vinha? – perguntou Alhena. O sorriso ácido dela agora parecia simplesmente zangado – Ok... sem problemas.
—Lena... – murmurou Damian. Alhena o olhou e sorriu com desgosto.
—Com licença.
—Lena, espera... – murmurou Damian, mas Alhena apenas saiu marchando, furiosa. Damian o olhou, magoado, fechando o cinto, apressado – Por que raios não me avisou que sua irmã tinha voltado? – perguntou ele.
—Eu esqueci. – respondeu honestamente – Eu estava ocupado ficando feliz por minha família voltar ao normal, sabe? Pela primeira vez há anos.
—Porra, Rasalas! – resmungou Damian, que parecia prestes a ir atrás de Lena.
—Você não vai ir atrás dela, vai? – perguntou Pansy. Damian a olhou corando furiosamente – É meu aniversário, a gente estava transando... você não vai me fazer essa desfeita, não é? Eu não sou um copinho de plástico pra você jogar fora!
—Não... não é... – murmurou Damian – Não... – ele engoliu em seco – Eu não vou atrás dela, Pansy.
Rasalas soltou um assovio.
—Feliz aniversário, Pansy... a Daph está ai? – perguntou ele.
—Claro que está. Com a Emília, o Vince, o Greg, o Blair e o Draco.
—O Draco veio? – perguntou surpreso.
—É claro que veio. É meu aniversário! – respondeu Pansy – Agora volta aqui, Damian. – disse ela o puxando para dentro do quarto e trancando a porta.
Rasalas olhou para os lados e foi na direção onde Alhena tinha ido. Procurou pelas vozes dos amigos e logo escutou gritinhos eufóricos. Sorriu e seguiu a algazarra. Entrou num escritório onde todos os seus amigos estavam. Daph e Lena estavam abraçadas, felizes. Emília abraçava as duas, Greg e Vince aplaudiam e Blair e Draco sorriam felizes.
—Que saudade, amiga. – murmurou Daphne – Estou tão feliz por te ver. Você não tem ideia.
—Eu estava com tanta saudade! – murmurou Lena parecendo mais uma vez com aquela garotinha tímida que ela fora uma vez – Eu amo tanto vocês, suas lindas!
—Ooown! – murmurou Emília.
Alhena as soltou e Daphne olhou para o colar que ela usava.
—Minha nossa! Quem te deu isso? – perguntou ela.
—Meu pai. – respondeu Alhena, orgulhosamente – Agora, com licença que eu preciso abraçar mais alguém.
Rasalas piscou e viu a irmã pular nos braços de Draco. Os dois sussurraram alguma coisa, apenas entre eles e Rasalas olhou para Daphne. Ela sorriu para ele e ele suspirou olhando para ela.
Ela usava um vestido azul escuro muito revelador e sensual. Se aproximou e a abraçou, sentindo vontade de despi-la. Queria fazer mais ou menos a mesma coisa que Damian e Pansy estavam fazendo naquele quarto. Mas na impossibilidade de fazer aquilo, apenas a beijou no pescoço, depois de passear o nariz pela pele dela. Adorou ver a garota se arrepiar, com o seu toque e adorou o modo como ela o olhou com aqueles cintilantes olhos azuis.

—Oi, Ras... – murmurou ela.
—Olá... – respondeu sorrindo.
—Você está muito bonito. – disse ela, se afastando e dando um sorriso torto.
—Você também. – respondeu ele – Tá parecendo um presente de natal. – disse sorrindo de maneira safada. Ela o olhou sem entender.
—Como assim?
—O embrulho é bonito e tudo mais... – ele deu um sorrisinho – Mas todo mundo quer ver o que tem dentro.
Daphne deu um sorrisinho e se aproximou para sussurrar em seu ouvido.
—Talvez o natal chegue mais cedo pra você esse ano, então. – riu ela para depois lhe mordiscar a orelha. Foi a sua vez de se arrepiar inteiro.
—Então. Nós vimos muitos quartos no caminho pra cá, sabe? – riu Alhena – Me diz que eles já se agarraram freneticamente por ai nesse meio tempo que eu fiquei fora.
—Acredita que não? – perguntou Draco – Digo... teve um episódio envolvendo uma garrafa de Veneno de Fada, mas nós não somos autorizados a falar disso.
—Veneno de Fada? Isso parece ter sido hilário.
—Mais ou menos... – riu Draco.
—Qualquer dia a gente bebe. Eu quero recuperar o tempo perdido.
—Eu nunca mais tomo aquilo. – disse Blair.
—Nem eu. – resmungou Vince fazendo careta, enquanto Greg morria de rir.
—Lamento, amor... mas eu to fora também. – riu Emília.
—E eu... muitos traumas. – riu Daphne.
—Eu nunca mais quero beber qualquer coisa que tenha álcool – Disse Rasalas.
Alhena fez um biquinho.
—E você, Draco? Você bebe comigo?
Draco a olhou por um momento e depois se virou para Rasalas.
—Eu... eu estou tentado a aceitar.
—Fechado então. Eu vou encomendar uma garrafa com o Damian depois, então. – riu Alhena parecendo contente – Obrigada por não me deixar fazer besteira sozinha.
—Ah... sim... – riu Draco a olhando com divertimento – Fazer besteira em dupla é sempre melhor, não é? – perguntou ele.
—Claro. – riu Alhena – Vamos lá pra fora? Por que ficar aqui dentro?
Emília deu de ombros e Daphne se virou para encará-lo.
—Me chama pra dançar, Ras?
—Quer dançar? – perguntou para ela. Daphne fez uma cara de que estava muito surpresa pelo convite.
—Oh! Sério? Eu adoraria. – riu ela.
Rasalas lhe estendeu o braço e ela aceitou, saindo com ele do escritório. Foram para o salão e dançaram algumas músicas, sempre olhando nos olhos um do outro, sempre com aquele sorriso no rosto.
—Seu pai está ai? – perguntou Rasalas.
—Não... ele está trabalhando... é um inominável, o meu pai. – explicou ela – Por que?
—Porque eu vou te beijar agora. – sussurrou ele. Daphne sorriu arqueando a sobrancelha.
—Minha mãe está ai...
—Eu vou arriscar as minhas chances. – sussurrou ele.
Daphne sorriu e ele se curvou para finalmente beijá-la. Os lábios macios dela tinham gosto de framboesa e dias ensolarados, no lago. E beijá-la lhe causava o mesmo frio no estômago que ser pendurado de cabeça para baixo pela lula gigante... e era um alívio maior do que finalmente respirar depois de um longo mergulho.
Se lembrou de quando eram muito pequenos, muito pequenos mesmo, e brincavam de correr pela loja de Madame Greengrass... quando se escondia atrás das roupas para assustá-la, ou quando brincavam tanto, que caíam de sono e dormiam abraçados, ele Lena e Daphne.
Daphne sempre estivera lá... sempre... e ele sempre se recusou a ver. Mas agora estava lá, a beijando na frente de quem quisesse ver e não se importava nenhum pouco. Só queria mais dela. Mais daquela sensação que ela lhe causava...
—Olha o cabelo dele, que legal! – riu alguém. Rasalas parou de beijá-la e Daphne o olhou, para dar uma risadinha.
—Seu cabelo parece ter perdido completamente o controle. – disse ela.
—Por que? – perguntou sorrindo, sem conseguir deixar de olhá-la nos olhos.
—Porque eles estão mudando de cor furiosamente rápido... – riu ela – Que nem no vídeo do dia do Veneno de Fada.
—Podemos não nos lembrar daquele dia? – perguntou fazendo careta.
—Eu lembro do dia do vídeo... do dia do Veneno de Fada não... parece que quanto mais o tempo passa, menos a gente se lembra. – riu ela.
Rasalas concordou e os dois voltaram a dançar juntinhos. Foi quando viu Draco beijando sua irmã. Piscou chocado por um momento, mas em seguida deu de ombros. Não era dono dela e ela era grandinha o suficiente para se virar...
Além disso, ele tinha coisas mais importantes para se importar. Dançar com Daphne Greengrass era uma delas.
**
—----
****
Abriu os olhos, mas logo voltou a fechá-los, na tentativa de voltar para seu sonho. Daphne estava lá com ele, dançando aquela música cafona, mas logo estavam se beijando. Queria voltar para junto daqueles olhos azuis.
Sorriu feliz, contente, satisfeito e se virou novamente na cama, abrindo os olhos novamente, para olhar para o teto. Suspirou e sorriu de novo. Então seu sorriso virou uma risada e depois uma gargalhada.
Se levantou disposto e foi para o banheiro se arrumar. A enorme casa do avô estava num absoluto silêncio, mas sua cabeça parecia barulhenta e cheia de coisas. Tomou banho, se perfumou, se arrumou, vestiu umas roupas mais novas e escreveu um bilhete para os avós, falando que iria no Beco Diagonal.
Usou a lareira para ir até o Caldeirão Furado. De lá passou numa floricultura e comprou alguns lírios azuis. Achou uns que tinham a mesma cor dos olhos de Daphne. Sorriu contente, pagou pelas flores e sorriu, sentindo a barriga cheia de borboletas.
Caminhou pelo Beco Diagonal, ignorando como todos pareciam assustados, como todos andavam apressados, com medo, com capuzes. Ninguém sozinho, sorridente e com flores. Mas nem ligou. Desceu a rua e logo encontrou a Salvage, a loja dos Greengrass.
Respirou fundo e abriu a porta. Astoria quem veio recebê-lo, com aquele ridículo vestido de boneca, que sua irmã usara por tanto tempo. Ela sorriu ao vê-lo e o olhou com os olhos astutos.
—Veio ver a Daphne? – perguntou ela.
—Estou bonito? – perguntou abrindo os braços e Astoria correu até ele para arrumar a gola de sua jaqueta.
—Está. Ela tá lá nos fundos. Toda sonhadora com o beijo do baile de sábado. Mamãe está danada da vida por ela estar toda distraída.
—Sua mãe vai ficar ainda mais zangada, porque eu pretendo sequestrar a Daph. – riu ele. Astoria piscou para ele, rindo e lhe estendeu os polegares.
—Vai fundo. Eu cubro ela.
—Valeu, cunhadinha. – riu Rasalas entrando na área restrita aos clientes. Conhecia aquela loja como a palma de sua mão. Boa parte de sua infância passou ali, entre aqueles corredores de madeira, brincando com tecidos, linhas e fitas. Encontrou Daphne sentada em um banquinho, bordando a barra de um vestido com as mãos mesmo, já que não podia usar magia ainda. Ela soltou um suspiro e olhou para a parede de maneira sonhadora – Olá. – disse sorrindo.
Daphne levou um susto tão grande, que caiu da cadeira, jogando o bordado no chão. Ela se levantou apressada, com o cabelo bagunçado e os olhos chocados. A alça do vestido lhe caindo pelo ombro.
—Rasalas? – perguntou ela sorrindo, mas ainda parecendo chocada – O que... flores? – perguntou ela sorrindo mais animada. Ele riu e as ofereceu para ela.
—São pra você. – disse sorrindo. Daphne sorriu, contente e correu até ele, para pegar o pequeno buquê.
—São lindas, Rasalas. – disse ela pegando as flores. Daphne as cheirou e sorriu encantada – Amei. Vou colocá-las num jarro.
—Ok. – disse rindo.
A seguiu até a cozinha e a viu colocar os lírios num jarrinho branco. Enquanto ela cortava a pontinha dos caules, ele a abraçou por trás e a beijou no ombro. Daphne sorriu achando bom e inclinou a cabeça, para que ele a beijasse no pescoço. Tirou os cabelos dourados dela do caminho e a beijou com carinho.
A alisou na barriga e, quando viu que ela tinha terminado o jarro, a virou para que pudesse beijá-la nos lábios. Ela se deixou guiar mansamente e logo derreteu em seus braços o beijando completamente entregue. A empurrou contra o balcão, querendo eliminar cada centímetro que a afastasse dele. Abriu a boca de leve e sentiu a língua dela procurar pela sua, timidamente. Suspirou contente e deixou que sua língua tocasse a dela, experimentando cada nuance de sabores que a boca dela lhe oferecia.
Canela, cereja, um dia de sol e risadas entre brincadeiras nos corredores de madeira. Daphne tinha gosto de nostalgia. De algo que ele brincara há anos e tinha se esquecido, mas recuperara. Algo que o aquecia por dentro e que era simplesmente inédito.
Sentiu os braços dela envolverem seu pescoço e os dedos finos e delicados dela afagarem sua nuca e cabeça. Sorriu entre os lábios dela e a mordiscou de leve, para voltar a beijá-la, completamente apaixonado. Era isso... estava apaixonado. Todo mundo sabia disso e ele fora o último a ver. Mas agora que via, que sentia e que experimentava, concordava que tinha sido mesmo muito tonto de não notar antes.
Suas mãos percorreram as costelas, cinturas e quadris dela. Daphne não era como as outras meninas da Sonserina. Alhena, Pansy e Emília eram curvilíneas, com os seios grandes, e bunda grande (com exceção de Parkinson, que não tinha bunda alguma). Mas Daph era simplesmente magrinha, delicada como os lírios que ele tinha comprado. Os seios eram pequenos, o quadril não era avantajado e ela não tinha uma bunda maravilhosamente grande. Mas ela tinha um olhar e um sorriso... um sorriso travesso que sugeria milhões de coisas e deixavam sua imaginação funcionar a mil.
Suspirou novamente nos lábios dela sorriu completamente feliz. Não podia imaginar que ficaria tão feliz... Na última páscoa estava vivendo um inferno, mas agora tudo parecia recheado de raios de sol...
—Daphne! – escutou uma voz atrás de si. Pulou de susto quase tão alto quanto Daphne. Madame Greengrass olhava para os dois, com um sorrisinho no rosto.
—Mãe! – riu Daphne, sorrindo insolente – Lembra do Rasalas? – perguntou ela, com as bochechas coradas.
—É claro que eu lembro do Rasalas. – riu ela colocando as mãos nos quadris – Lembro muito bem. O que ele está fazendo aqui?
Daphne abriu a boca, querendo falar alguma coisa e apontou para as flores, nervosa.
—Bem... flores... pra mim, sabe? – murmurou ela, constrangida. Rasalas passou a mão pelos cabelos e se aproximou de Madame Greengrass.
—Eu vim ver a Daph... – murmurou ele, sob o olhar atento da sogra – Sabe... eu... eu vim pedi-la em namoro. – disse sorrindo sem jeito.
—Veio? – perguntou Daph, arqueando a sobrancelha, com um sorrisinho-biquinho no rosto.
—Bem... vim... aceita? – perguntou ele. Daphne sorriu mais largamente e foi até ele, o abraçar.
—É claro, seu bestão! – riu ela – Não tem problema, né mãe? – perguntou Daph enquanto Rasalas a abraçava, lhe afagando os cabelos.
—Não podia esperar diferente. – riu Madame Greengrass – Eu espero por isso desde que Rasalas tinha quatro anos e beijou você na boca, porque estavam brincando de casinha. – riu ela. Rasalas fez uma careta sem jeito. Ele não tinha beijado Daphne naquele dia. Tinha sido beijado por ela e ficou desesperado na hora, porque achou que iria virar um sapo...
—Bem... posso roubar a Daphne um pouquinho? – perguntou com os olhos suplicantes. Madame Greengrass negou com a cabeça, com um sorriso estampado no rosto.
—Eu não acho que seja uma boa ideia, querido. Só se prometerem ficar aqui na loja. Não é seguro ficar andando por ai, principalmente com a cabeça cheia de distrações. – adicionou ela batendo de leve com um leque na cabeça dos dois – E juízo, heim, senhor Rasalas. Eu ouvi que você é um safadinho. Trate de respeitar minha filha.
Daphne deu um sorrisinho e ele colocou a mão na testa, de maneira militar.
—Pode deixar, sogrinha. – adicionou.
Madame Greengrass sorriu achando graça e saiu da pequena cozinha.
Rasalas e Daphne trocaram outro olhar apaixonado e voltaram a se beijar. Entrelaçou os dedos com os dela e ficou a acariciando na mão com o polegar. Se sentaram no pequeno sofazinho e ficaram namorando por um bom tempo, sem que quisessem desgrudar os lábios um do outro.
—Céus, vocês estão colados ai, é? – perguntou Astoria entrando na cozinha para pegar um pouco de água – Já faz duas horas que vocês estão tentando se engolir ai.
—Duas horas? – perguntou Rasalas, surpreso – Já?
—Nossa... a boca de vocês está muito vermelha. – ela deu uma risadinha e lavou o copo, antes de colocá-lo no escorredor de louça – Vou deixar o casal ternura ai.
Astoria saiu da cozinha e Rasalas sorriu deitando a cabeça no colo de Daphne.
—O que foi? – perguntou Daph.
—Sua irmã... nos chamando de casal ternura... Draco quem nos chama assim...
Daphne deu de ombros, o acariciando na cabeça. Seus cabelos agora estavam negros, repicados, num penteado que ele julgava meio rebelde.
—Eu me lembro...
—Ela ainda gosta dele? – perguntou Rasalas.
Daphne suspirou.
—Eu não sei... talvez ela esteja tentando esquecê-lo... Draco não vê Astoria como uma pessoa com quem ele poderia ter um relacionamento... e ela meio que cansou de ficar suspirando por ele o tempo todo. – Daphne o apertou carinhosamente na bochecha – Mas isso não significa que ela o esqueceu... eu digo por experiência...
—Eu sei... você me convenceu pelo cansaço... sempre correndo atrás de mim... sempre me olhando apaixonada... ai! – disse quando ela lhe deu um tapinha na testa. Os dois começaram a rir e ele segurou a mão dela para mordiscá-la no pulso – Estou sonhando com você há tanto tempo, Daph... – confessou. Ela o olhou com um sorriso terno – Eu estava com outras pessoas... mas só lembrava de você e daquele dia no lago. Se lembra?
—Claro... como poderia esquecer? – perguntou ela – Nunca odiei tanto aquela Lula Gigante.
Os dois trocaram uma risadinha.
—Eu acho melhor ir pra casa. – murmurou se sentando – Não quero deixar meu avô preocupado... a gente se vê na casa da Emília?
—Eu espero que sim. – riu Daphne – Vai ser meu acompanhante?
—Óbvio! – respondeu sorrindo. Colou a testa na dela e a beijou mais um pouco, com preguiça de ter que ir embora – Até a próxima, ok?
—Ok. – respondeu ela com um sorriso simplesmente feliz.
Rasalas se levantou e foi até a lareira, para então voltar para casa. Sua irmã estava deitada no sofá, apalpando a própria barriga inexistente, puxando um bocado de pele e soltando muxoxos.
Se aproximou dela e se jogou no sofá, em cima dela.
—Ai, Rasalas! Seu maluco! – ralhou ela. Mas ele a abraçou e deitou a cabeça no ombro dela – O que raios...?
—Eu pedi a Daphne em namoro. E ela aceitou. – riu Rasalas olhando para a irmã – Eu tô namorando a Daphne!
Alhena sorriu parecendo simplesmente feliz!
—Ah! Que legal! Parabéns, maninho. – ela o abraçou contente por ele e ele a abraçou de volta – Ah... eu preciso escrever pra ela pra parabenizá-la. Ela deve estar tão feliz...
—Eu espero que esteja. – disse se deitando esparramado no sofá, assim que a irmã se levantou – Eu sei que eu estou. Acordei rindo de alegria. Em plena segunda feira.
—Estamos de férias. Sempre é sábado pra gente. – riu Alhena.
—É... é...
*****
A festa na casa de Emília estava indo tão bem quanto a de Pansy. E cheia de casais, também...
Greg estava visivelmente dando em cima de Emília, assim como Vince. Draco e Alhena conversavam de mãos dadas, com sorrisinhos cheios de cumplicidade e aos sussurros... E Daphne e Rasalas estavam simplesmente felizes, Rasalas sempre com o braço ao redor dos ombros dela, deixando claro que estavam juntos.
Damian estava com Pansy também, mas ele era o único que não parecia muito satisfeito. Ele sempre olhava de soslaio para Alhena e Draco, para soltar um muxoxo, antes de beijar Pansy de novo.
Alhena parecia completamente indiferente, assim como Draco. Se perguntou se Draco iria assumir Alhena ou se eles iriam apenas se divertir.
Estavam todos na sala, sentados nos sofás. Draco estava esparramado, com as pernas abertas, os braços apoiados no encosto do sofá, uma das mãos acariciando o braço de Alhena. Rasalas trocou um olhar com Daphne, que parecia estar achando o casal simplesmente fofo.
—Você acha que eles têm futuro? – sussurrou Daphne. Damian escutou e olhou discretamente para Rasalas, mas o metamorfo reparou assim mesmo. Ele só deu de ombros.
—Espero que sim... Draco precisa arrumar uma namorada pra ver se toma jeito. – disse sorrindo. Daphne deu uma risadinha e os dois miraram Draco conversar com Alhena, no ouvido, para em seguida beijá-la na orelha.
Alhena se levantou e o puxou, para depois sumirem em um corredor qualquer. Damian bufou, zangado e Pansy revirou os olhos.
—Você está comigo. Será que pode ser menos óbvio? – perguntou ela. Damian desviou o olhar, corado e Rasalas deu uma risadinha.
—Vamos desaparecer um pouquinho também? – perguntou Daphne. Rasalas arqueou a sobrancelha e deu um sorrisinho.
—É claro... vamos lá pra fora. – respondeu.
Se levantou e ajudou Daphne a levantar também. Andaram de braços dados e procuraram um lugar tranquilo para irem. Se sentaram perto de uma fonte e ficaram namorando, cheio de sorrisos e troca de olhares carinhosos, sob a luz das estrelas...
A lua quase cheia no céu.
Melhores férias da minha vida.
Fale com o autor