Legado Lestrange

8 Segredos de Família


Notas iniciais
Oi, gente! Demorei muito para postar, eu sei. Me desculpem... Mas é que ando meio sem tempo D= É tanta coisa pra fazer u.u Mas aqui vai mais um capítulo!! Cheio de tretas, inclusive... Mas espero que gostem! Beijos!

31 de Outubro de 1979

Rabastan olhou para o irmão, com aquela venenosa desconfiança envolvendo seu coração. Como se fossem ramos de um visgo do diabo, prestes a espremê-lo, até que não existisse mais ar.

“Foi seu irmão”

As palavras de Black o assombravam há meses. Tinha conversado com Rodolfo, que negara tudo, obviamente. Era a palavra de Black contra a de seu irmão... era óbvio em quem deveria acreditar... mas...

Mas a semente da dúvida fora plantada.

Acendeu um cigarro e o tragou, mirando Rodolfo polindo a própria varinha. Bellatrix afiava seu punhal. Estavam numa estalagem trouxa, em Godric’s Hollow, cercado de trouxas. Tinham sido enviados para fazer uma emboscada aos recém casados Potter. Potter tinha se casado com uma nascida trouxa e tanto ele quanto a esposa eram apoiadores declarados de Dumbledore.

—Eu já volto. Vou dar uma volta, está bem? – perguntou Rabastan.

—Não se afaste muito. Estamos esperando o sinal de Régulus, lembra? Não podemos perder. – disse Rodolfo.

—Está bem. Eu só quero dar uma volta. – resmungou Rabastan ficando de pé e levantando a gola da jaqueta, para esconder seu rosto.

Saiu da estalagem e caminhou pela praça. Crianças estavam fantasiadas e passeavam pedindo doces, de casa em casa. Ficou observando aquela tradição trouxa, achando engraçado. Mas olhar para crianças doía em seu peito e por um momento se arrependeu de ter saído da estalagem.

Soltou um suspiro e se sentou em um banco de praça, ao lado de uma mulher grávida. Não prestou muita atenção nela. Provavelmente era trouxa e ele deveria no mínimo tomar distância.

—Você poderia fazer o favor de não fumar? – perguntou ela sem humor – Faz mal pro meu bebê.

Rabastan a olhou sem humor e jogou a fumaça no rosto dela.

—Não dou a mínima. – respondeu seco. A mulher tossiu afastando a fumaça e se levantou. Ele notou que ela tinha uma barriga muito grande e que a gravidez estava muito avançada. Ela tinha os cabelos castanhos e um rosto comum. Uma completa desconhecida. Mas notou algo curioso nela. Uma cicatriz feia no ombro... como se uma garra tivesse a cortado ali. Ela notou que ele estivera olhando, pois colocou a mão no corte, o escondendo. Ele a olhou nos olhos com desdém e notou que os cabelos dela mudaram levemente de cor... para um tom azul claro, mas logo voltaram ao castanho. Ele piscou surpreso e sorriu – Você é uma bruxa.

—Sou. – disse ela desviando o olhar do dele. Se perguntou se ela o teria reconhecido. Ele ainda não era procurado como seu irmão ou Bellatrix. Ainda podia se dar ao luxo de mostrar o rosto em público – Eu já vou indo.

—Desculpe pela grosseria. – disse ele jogando o cigarro no chão e pisando nele – Achei que era só uma trouxa.

—E por isso merecia menos respeito? – perguntou a mulher, com desdém. Rabastan deu uma risadinha e concordou.

—Sabe como é. – respondeu dando de ombros.

—É... eu sei. – respondeu ela friamente.

—Quantos meses? – perguntou ele. A mulher se virou para olhá-lo.

—Quase nove. O curandeiro disse que pode nascer a qualquer momento. – respondeu ela. Rabastan concordou olhando para a barriga dela.

—É uma senhora barriga. – riu ele – Está bem grande mesmo.

—Eu sei. – respondeu a mulher.

—Sente aqui. Não precisa sair por minha causa. – murmurou ele se levantando. A mulher soltou um suspiro e voltou a se sentar – Qual o seu nome? – perguntou ele.

—Essa é uma coisa perigosa para se dizer a um Lestrange. – retrucou ela. Rabastan sorriu com desdém e concordou.

—Sabe quem sou eu. Mas não me lembro de você. Estudamos juntos?

—Sim. – respondeu ela sem querer encará-lo. Ficou fitando-a, tentando se lembrar dela, mas não conseguiu.

—Eu realmente não me lembro... mas também... eu só tinha olhos para uma mulher no colégio... todas as outras garotas são um grande borrão pra mim. – riu ele dando de ombros.

—Está falando da Valentine? – perguntou a mulher.

Rabastan a olhou surpreso por ela saber daquilo.

—Sim.

—Como ela está? – perguntou a mulher.

—Morta. – respondeu ele desviando o olhar dela – Foi executada... por apoiar Dumbledore.

—Os Comensais a mataram? – perguntou a mulher.

—Sim. – respondeu ele.

—E você ainda a amava?

Ele a olhou de soslaio.

—Isso não lhe diz respeito. – disse secamente.

—Hum... – a mulher passou a mão na enorme barriga – Se os comensais matassem uma pessoa que eu amasse... eu jamais me uniria a eles... – murmurou ela – Como consegue se olhar no espelho, Lestrange?

—Está inferindo que eu amava aquela mulher e que eu sou um comensal. São acusações bem sérias pra se fazer. – disse ele, calmamente.

—Chame-me de mentirosa, então. – desafiou ela. Rabastan apenas riu, dando de ombros – O que faz uma pessoa como você, que passou o que você passou... continuar nesse caminho? – perguntou ela. Rabastan não a encarou de volta.

—E que escolha eu tenho? – perguntou ele.

—Sempre temos uma escolha.

—Ficar sozinho... trair aqueles que sempre ficaram ao meu lado? E pra quê? Só porque... ela achava que era o certo a se fazer?

—Porque É o certo a se fazer. – murmurou a grávida. Rabastan sorriu, negando com a cabeça.

—Nós temos definições diferentes do que é certo e errado. Você é irmã do Tonks? Ele era metamorfomago. – arriscou ele.

—Isso faria de mim uma nascida trouxa. – riu a mulher, com desdém – E se eu for... devo rezar por mim e por meu bebê? – perguntou ela.

Rabastan baixou os olhos.

—Não... eu nunca faria mal algum a você.

—E por que não?

—Você está grávida... – murmurou Rabastan – Eu não sou um monstro.

—Seu irmão é. – murmurou ela.

—Ele é um soldado.

—O soldado de um monstro... o que isso faz dele? A não ser outro monstro?

Rabastan a olhou de soslaio e deu de ombros.

—Pense o que quiser. Eu não me importo. – resmungou. A mulher soltou um suspiro e se acomodou melhor no banco da praça. Ele se sentou ao lado dela, olhando o por do sol, que tingia o céu de laranja, roxo e azul – Não vejo aliança no seu dedo. Não é casada?

—Não. – respondeu ela – Acho que aproveitei demais minha juventude...

—Não vai ser fácil ser mãe solteira... ainda mais em tempos como esse...

—Eu vou dar um jeito. – respondeu ela – O pai da criança me deixou algumas coisas... vou conseguir me virar.

—Que coisas?

Ela riu e o olhou de soslaio.

—Isso não lhe diz respeito. – respondeu ela. Podia jurar que ela sorria igual a Emily, mas provavelmente era apenas sua imaginação lhe pregando peças. Ele baixou os olhos para a barriga dela.

—Emily estava grávida... quando a mataram.

—Como você sabe? – perguntou ela.

—Sirius Black me contou... ele me encontrou por um acaso... e me disse. – murmurou ele. Era mentira. Tinha sido Pedro Pettigrew quem contara, mas não era sensato dizer aquilo. A mulher o olhou sem parecer acreditar – Se ela não tivesse morrido... nasceria em novembro... eu acho. – murmurou ele.

—Sinto muito por sua perda. – murmurou ela. A mulher alisou a barriga e soltou um suspiro – Quer passar a mão na minha barriga?

—Não... tenho aflição. – respondeu ele meio sem jeito.

—De que?

—De grávidas... – respondeu ele meio sem jeito – Tem um mini ser humano ai dentro... isso é... – ele fez uma careta – Meio esquisito.

—Isso é totalmente natural! – riu ela. Rabastan negou com a cabeça – Vamos. Não seja medroso. Aproveite que está chutando.

A mulher segurou a mão dele e ele quis puxar de volta. Mas acabou se deixando levar pela mão dela. Colocou a mão na barriga dela, sem saber o porque de se deixar levar por aquilo. Nem conhecia aquela mulher. Estava para retirar a mão, quando sentiu algo se mover na barriga dela.

—Ai! Cacete! – disse puxando a mão, de uma vez – Se mexeu! Você sentiu? – perguntou sentindo um fio na barriga.

—Está dentro de mim, então... sim. – riu ela. Rabastan riu meio sem jeito. Ele soltou um suspiro e se aproximou mais da mulher, tocando a barriga dela. Sentiu o bebê se mover novamente e sentiu um nó na garganta com isso – Largue essa vida, Rabastan... quem sabe que surpresas a vida ainda pode trazer pra você?

Rabastan a acariciou na barriga e a olhou nos olhos. Uma carga de energia atravessou seu corpo. Ele deu um sorriso infeliz e se afastou dela.

—Até mais, senhorita... – murmurou ele – Foi uma conversa agradável.

—Deixe essa vida... por favor.

—Eu não tenho mais pra onde ou pra quem voltar, senhorita. – retrucou ele – Boa sorte com isso ai. – riu ele apontando para a barriga dela – Espero que o pai seja puro sangue.

—Ele é. – respondeu ela baixinho, alisando a enorme barriga – Um idiota puro sangue... mais preocupado em lutar do que em viver... sem conseguir ver o óbvio em frente ao próprio nariz... – ela soltou um suspiro e se levantou, um tanto desengonçada. Então começou a se afastar – Boa sorte com a sua vida, senhor Lestrange.

E então ela foi caminhando, calmamente. Ele também lhe deu as costas e voltou para o restaurante. Tinha uma missão para cumprir, afinal de contas.

*

—Ei, Alhena! Você esqueceu uma coisa. – riu Flint. Alhena se virou constrangida e Flint arrotou na cara dela – O cérebro.

—Céus, Flint! Você é um babaca! – ralhou Pansy Parkinson.

—Olhe as minhas rugas de preocupação. – riu Flint apontando com deboche para a palma da mão.

Rasalas bufou de raiva, desejando descer um belo de um soco no garoto, mas se conteve. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, escutou uma voz que não suportava.

—Senhor Flint. Esses não são modos apropriados para tratar uma garota. – Disse Lupin, aparecendo do nada. Lupin parecia surgir nos corredores, mais ou menos como Filch e isso era simplesmente irritante.

—Eu só estava brincando, não é mesmo, Alhena? – riu Flint com deboche. A garota desviou o olhar do dele – Viu?

—Hum... Eu acho que o que você precisa é de algumas aulas de etiqueta. Vou te aplicar uma detenção, está bem? A professora Minerva vai adorar te ensinar bons modos. – disse Remus gentilmente, arrancando sorrisos das meninas – Muito bem. Vamos para a aula, ok? – ele chamou os alunos do terceiro ano e Rasalas notou que Flint lançou um olhar mortífero para Alhena.

Rasalas se sentou entre Damian e Blair e pegou seu caderno.

—Alhena. – chamou Damian. A garota não se virou. Damian soltou um muxoxo – Ei, Alhena... fale comigo!

—O que você quer, Burke? – perguntou Daphne, se virando e olhando feio para ele – Não vê que estamos querendo prestar atenção?

—Lupin ainda nem começou a aula! – resmungou Damian – Alhena! Por favor, dá pra se virar e falar comigo?

Alhena soltou um suspiro e o encarou.

—O que foi, Burke?

—Pare de me chamar pelo sobrenome! Você sempre me chamou de Damian! – resmungou o garoto, fechando a cara.

—Ok, Damian. O que você quer? – perguntou ela, calmamente. Rasalas sorriu por a irmã não estar agindo com frieza.

—Por que está falando assim comigo?

—Assim como? — perguntou ela franzindo a testa.

—Indiferente! – respondeu ele.

—Não estou sendo indiferente!

—Está sim! Desde aquele dia no trem! – insistiu Damian – Eu não quis magoar você. Podemos voltar a sermos amigos?

—Não sei do que está falando. – respondeu a irmã arqueando a sobrancelha – Eu nunca deixei de ser sua amiga.

—Mas mudou! – acusou Damian.

—Sim, mudei! – resmungou ela.

—E por que? – perguntou ele – Você era mais legal antes.

—Antes quando? – perguntou ela com um sorriso ácido – Quando eu sorria sempre que você falava, corava sempre que você se aproximava e soltava suspiros o tempo inteiro?

Damian piscou um tanto chocado.

—Bem... é. – respondeu ele.

—Vai te catar, Damian. – resmungou Alhena – Eu não tenho motivos pra ficar daquele jeito, feito uma tonta, quando você diz com todas as letras que eu “não sou o seu tipo”.

—Do que está falando? – perguntou Damian, franzindo a testa. Rasalas bateu na própria testa, sem paciência com a lerdeza do amigo e Blair deu uma risadinha.

—Porra, Damian. Ainda não entendeu que ela gostava de você, por isso agia daquele jeito? Só que você deu um fora nela e ela parou de tentar fazer você notar os sentimentos dela. Larga de ser burro. – resmungou Blair.

Damian olhou chocado de Blair para Alhena, que estava furiosamente corada, mas tentava não parecer em pânico.

—Você gostava de mim? – perguntou ele.

—Não importa mais. – respondeu ela – Eu não vou fazer que nem a minha mãe. Passar a vida apaixonada por um bobo que não gosta de mim, pra depois acabar caindo na lábia de um idiota que só vai querer tirar proveito de mim.

Ela se virou, olhando para frente, com suas orelhas extremamente vermelhas. Damian parecia chocado. Completamente chocado. Ele olhou para Rasalas e sussurrou.

—Você sabia disso?

—Disso o que? – perguntou se fazendo de bobo.

—Que ela gostava de mim? – Rasalas apenas deu de ombros – Porra! Como não me contou isso? Me deixou dar uma bola fora dessas!

—Pois é... – murmurou Rasalas – Lena pediu preu não contar pra ninguém. – Ele olhou o amigo – Mas ela não está indiferente com você...

—Está sim! – insistiu Damian, emburrado.

—Nop. Ela está te tratando como trata todo mundo. – disse Blair.

—Como todo mundo? – perguntou Damian, fechando a cara.

—Você já não é mais especial. Só isso. – concordou Blair.

Damian franziu a testa, olhando para a nuca de Alhena e Rasalas revirou os olhos. Lupin chamou a atenção da classe e começou a dar aula.

Rasalas prestava atenção apenas parcialmente no que ele dizia. Não suportava o modo como ele era querido por todos os alunos e como todos simplesmente amavam a aula dele. Não era nada diferente da de Quirrell... bom... ele não fedia a alho e nem gaguejava... isso ajudava um pouco...

Rasalas bufou, deitando a cabeça na mesa. Nunca iria admitir, nem pra si mesmo, que Lupin era o melhor professor que já tivera. Se perguntou se ele ainda se encontrava com a sua mãe e se perguntou se os dois estavam engajando algum tipo de romance. Não queria aquilo de modo algum e se sentia um mesquinho egoísta por não aceitar que aquilo era o melhor para a mãe.

**

Rasalas estava sentado na biblioteca, estudando com a irmã. Na verdade, ela estava estudando. Ele estava cochilando de leve.

—Se não quer estudar, não precisa ficar aqui comigo. – murmurou ela.

—Vamos ensaiar a droga da peça. – pediu ele – Temos que apresentar Eros e Psiquê no final do semestre. – resmungou ele.

—Eu não preciso ensaiar coisa alguma. – resmungou Alhena – Eu sou só Perséfone. A única coisa que eu faço é entregar uma caixa para Psiquê no finalzinho da história.

—Ok. Mas eu sou Eros. Eu preciso gravar minhas falas. – resmungou Rasalas.

—Daphne está super empolgada com a peça... principalmente porque ela é Psiquê... – riu Alhena o olhando sugestivamente. Rasalas tentou não esboçar reação, mas não soube dizer se seus cabelos o teriam denunciado.

—Hum... – resmungou deitando o queixo nos braços, debruçado sobre a mesa.

—O que acha da Daphne? – perguntou Alhena.

—Ela é ok. – respondeu com o estômago dando cambalhotas.

—Você poderia... não sei... chamá-la para ir dar uma volta no lago... só vocês dois... aproveitar o calor, quem sabe?

—Eu não sei. – Rasalas levantou o olhar para a irmã – Segredos de irmãos?

—Claro. – riu Alhena se debruçando sobre a mesa, para conversarem baixinho um com o outro.

—Eu estou gostando dela, mas... – ele fez uma careta – Acho que seria esquisito, não? – Alhena o olhou arqueando uma sobrancelha ao máximo – Digo... a gente se conhece há muito tempo... a gente é amigo de infância... e se... e se depois...

—Eu entendo. – murmurou Alhena – Então... talvez fosse melhor esperar até ter certeza de que você realmente gosta dela a ponto de querer arriscar.

—Exatamente. – riu Rasalas – Sem falar que... – ele fechou a cara – Se eu namorasse a Daphne... eu não ira aguentar ver a Pansy mandando e desmandando nela. – resmungou ele – Sério... vocês obedecem tudo o que ela fala.

—É que a Pansy sabe das coisas. – riu Alhena – Eu já perdi oito quilos graças a ela – riu Alhena, muito satisfeita. Rasalas piscou surpreso. Não tinha notado que a irmã estava tão mais magra. Ela sempre se vestia com as mesmas roupas folgadas e isso disfarçava bastante.

—O regime deu certo, então?

—Não só o regime. – riu Alhena – Ela me ensinou um truque, pra poder comer e não engordar.

—E como seria isso?

—Eu não posso contar. É segredo. – riu Alhena.

—Não é nada perigoso, é? Não está tomando poções esquisitas por aí, está?

—Não. De jeito nenhum. – riu Alhena.

Rasalas concordou em silêncio.

—Cuidado... você não precisa ficar magra demais... você é legal assim... olha o Damian. Tá todo grilado com você. Não para de falar de você um segundo sequer.

—É mesmo? – perguntou ela com um sorriso – Bem... mas eu não vou voltar atrás... ele perdeu a chance dele.

—Hum... seria estranho ver você com um amigo meu. – murmurou Rasalas – Você acharia estranho... eu com a Daphne?

—Não. Acharia super legal. – riu Alhena – Você quem é o ciumento psicótico.

Rasalas fechou a cara.

—Não sou...

Foi quando alguém colocou livros em cima da mesa. Rasalas se sentou direito e notou que era Draco, com Vince e Greg.

—Qual a novidade? – perguntou Draco.

—Nenhuma. – respondeu Alhena corrigindo a postura – Só estávamos descansando um pouco.

—Hum... – Draco se sentou, sendo imitado pelos outros dois – Eu não acredito que você não quis sabotar Potter com a gente.

—E pagar vexame com vocês? Estou muito de boa. – riu Rasalas.

—Eu ajudei você com Flint aquela vez.

—Ok. Quando Flint ficou te infernizando por conta do jogo contra a Grifinória no segundo ano, eu te defendi também. – resmungou Rasalas.

Draco soltou um muxoxo.

—Você tem que escolher de que lado está Rasalas. Do nosso ou de Potter. – resmungou Draco – E céus. Agarre logo Daphne, antes que ela morra. Não aguento mais ver ela suspirando por você. – Rasalas sentiu o rosto queimar de vergonha – E nem você ficando ruivo sempre que alguém fala dela. – adicionou ele com um sorrisinho debochado.

—Cale a boca, Malfoy. – resmungou Rasalas, completamente envergonhado.

***

Os exames finalmente tinham terminado e Rasalas estava bastante concentrado, querendo passar em tudo.

Tinha ido mal em História da Magia e em Runas, mas compensou muito bem com Estudo dos Trouxas, Transfiguração e Poções. Alhena tinha ido bem em aparentemente tudo. Ela era mais dedicada que ele, e com o final do ano letivo chegando, ela estava cada vez mais convencida que a profecia da professora Trelawney não iria mesmo se cumprir.

Como a Grifinória acabou ganhando a Taça de Quadribol, com um desempenho excelente, eles ganharam a Taça das Casas pelo terceiro ano consecutivo. Mas a única coisa que se falava na escola – além de Sirius Black ter fugido mais uma vez – era sobre algo que o professor Snape tinha deixado escapar, na mesa de café da manhã.

Lupin. Remus Lupin. Ele era um Lobisomem.

—Eu não quero nem sonhar que ele está perto da nossa mãe! – disse Rasalas, horrorizado – Espero que ela nunca tenha tido consciência disso..

—Qual o problema dele ser um lobisomem? – perguntou Alhena, um tanto sem graça.

—Qual o problema? QUAL O PROBLEMA? – perguntou Rasalas indignado – Ele é perigoso! É esse o problema. E você sabe muito bem que bruxos e lobisomens não interagem. Eles são selvagens!

—Lupin não é selvagem. Ele é a pessoa mais meiga e gentil que...

—É um lobo na pele de cordeiro. Nada menos que isso. – disse Rasalas de bom humor. Finalmente tinha um excelente motivo para não querer aquele homem por perto – E parece que ele renunciou ao cargo de professor.

—Eu fiquei sabendo. – murmurou Alhena – É uma pena. Ele era um excelente professor. – murmurou ela.

—Era coisa nenhuma. – resmungou Rasalas.

Estavam na beira do lago, conversando, aproveitando que por fim estavam livre de tarefas. Era o último dia na escola e em breve voltariam para casa.

Escutaram vozes e Rasalas se deitou na grama, para olhar para trás. Todos os outros alunos da Sonserina de seu ano vinham conversando calmamente. Blair se sentou ao seu lado e Damian do lado dele. Draco ficou do lado de Alhena, sem dar muita atenção pra ela, já que estava de papo com Pansy Parkinson. Daphne se sentou na frente de Alhena e Emilia ficou com Greg e Vince.

O dia estava bastante ensolarado e muito, muito quente.

—Sabe o que eu queria fazer? – perguntou Pansy se levantando e tirando o sapato e as meias ¾ — Quero entrar nesse lago. – ela tirou a gravata e o colete, ficando só de saia e a blusa branca do uniforme – Quem quer entrar comigo?

—Eu quero! – disse Daphne a imitando – Sempre quis entrar no lago.

—E vocês, meninos? – perguntou Pansy.

Blair soltou um suspiro e deu de ombros, se levantando e tirando a camisa, as meias e os sapatos. Rasalas logo o imitou e lançou um olhar questionador para Draco.

—Ah, que seja. – riu ele tirando a roupa, para ficar apenas de calça – Vamos, vocês ai! – chamou ele, olhando para Greg, Vince e Emilia – O que estão esperando?

—Você vem, Lena? – perguntou Rasalas. A irmã negou com a cabeça.

—Eu não gosto de nadar.

—Eu faço companhia pra você. – disse Damian.

—Não precisa. Eu vou ficar desenhando. – disse Alhena.

—Mas eu quero te fazer companhia... – murmurou Damian bagunçando o cabelo – Ou você quer que eu te deixe sozinha?

Lena soltou um suspiro e olhou para Damian.

—Se quiser, fique, Damian. Eu aprecio a sua companhia. – disse ela de maneira cortês. Damian concordou em silêncio e Rasalas o encarou semi cerrando os olhos.

Mas em seguida sentiu as mãos de Daphne a lhe puxarem para a água.

Estava gelada pra caramba, mas foi ótimo para se refrescar. Brincaram de jogar água uns nos outros, de apostar corrida, de subir nos ombros uns dos outros, para fazer uma pirâmide. Depois ficaram tentando afogar uns aos outros, com suas risadas ecoando, alegres.

—Será que eles vão se acertar? – perguntou Daphne pulando nos ombros dele e o abraçando por trás, ao redor do pescoço.

—Eles?

—Sua irmã e o Damian? – explicou ela – Tomara que sim, né?

—Eu vou confessar que não fico muito confortável com a situação. – resmungou Rasalas – Ela é minha irmã, sabe? – perguntou ele.

—E daí? Ela não grilaria se você ficasse com alguma amiga dela. – disse Daphne próxima a seu ouvido. Sentiu um frio lhe subir a espinha, seguido por um enorme calor. Sentiu sua pele arrepiar por inteiro e sua mente acabou viajando para a hipótese de beijar Daphne novamente... – Ela me disse que não veria problema. Que acharia até legal...

—Daph... – murmurou ele tentando com muita força não deixar seus cabelos mudarem de cor – Eu... eu acho que eu acharia estranho também. – explicou ele.

—Ficar com uma amiga da sua irmã? Por que? – perguntou ela se soltando dele. Ela deu a volta para que ficassem frente a frente – Qual o problema?

—Sei lá... digo... somos um grupo de amigos... seria estranho... e se desse errado? E se isso estragasse a amizade?

—Você começaria alguma coisa, pensando já que poderia dar errado? – perguntou ela nadando para mais perto. Os olhos azuis dela o olhavam com muita atenção.

—Nesse caso... sim... – respondeu ele, nervoso.

—Por que? – perguntou ela baixinho, se aproximando ainda mais. A blusa branca e transparente dela mostrava o sutiã e o ombro, fazendo com que o garoto se sentisse completamente afoito. Ela estava muito perto... muito perto...

—Eu não iria querer correr o risco de me precipitar e... colocar a nossa amizade em risco. – respondeu engolindo em seco, lutando para não olhar para o busto dela.

—Nossa? – riu Daphne ainda mais perto. Perigosamente perto.

—Nossa... – sussurrou ele, respirando rapidamente – Daph... eu...

—Shhh... – sussurrou ela fechando os olhos e segurando-o nos ombros. O rosto dela ficou ainda mais perto do dele e ele não aguentou não encerrar a distância. A puxou pela cintura e a beijou, timidamente.

Escutou os amigos fazerem algazarra, mas os ignorou. Os lábios macios de Daphne eram mais interessantes e importantes que as brincadeiras dos amigos. Portanto a beijou com carinho. Há muito queria fazer aquilo.

Estavam já há alguns minutos naquele beijo extremamente desejado por ambas as partes quando sentiu algo pegajoso enrolar-se em seu tornozelo. Estremeceu soltando Daphne e no segundo seguinte aquela coisa, fosse o que fosse, o puxou para dentro da água. Prendeu a respiração surpreso e olhou para o tornozelo, reconhecendo um tentáculo.

Tentou gritar, mas todo o ar de seus pulmões foi embora naquilo. Tentou se soltar, mas o tentáculo o puxou mais para o fundo. Ficou com medo do que aconteceria, mas o tentáculo o tirou da água e ele puxou o ar, com força.

—É A LULA GIGANTE! – gritou Draco. Rasalas viu os amigos gritarem de medo e irem embora, desesperadamente, deixando-o para trás, pendurado pelo tornozelo.

—Muito obrigado, seus traíras. – resmungou zangado, notando que estava ficando cada vez mais distante da superfície do lago. O tentáculo foi levando-o mais para perto da orla e então o colocou muito gentilmente no chão. Rasalas saiu da água, zangado e o tentáculo voltou para o fundo do lago – Fiquei emocionado com o esforço de vocês em me salvar. – resmungou Rasalas, furioso.

—Desculpe. Mas eu sou lindo demais para virar comida de lula gigante. – riu Draco – Por que raios ela te pegou? – perguntou ele.

—Sei lá... talvez pra lembrar que é contra as regras entrar no lago... ou talvez para me alertar que as ideias da Pansy são todas furadas. – riu Rasalas dando uns tapinhas no ombro da garota.

—Está brincando? Nunca me diverti tanto quanto hoje, vendo sua cara de pânico. Valeu totalmente a pena. – riu Pansy travessa e acabou todo mundo rindo com ela.

****

Mais uma vez a viagem de volta para casa tinha se sucedido na cabine com os Sonserina. Rasalas porque queria ficar perto de Daphne, apesar de não terem se beijado de novo. E Alhena porque ela e Damian tinham ficado realmente amigos, conversando muito, trocando sorrisos e não ligando para os olhares cheios de insinuações que recebiam.

Mas assim que chegaram na estação, e estavam se dirigindo para junto da mãe, Rasalas sentiu alguém cutucá-lo no ombro. Se virou e viu Hermione com um sorriso.

—Olá. – disse ela, animada.

—Oi! – Responderam os gêmeos.

—Vocês estão fazendo estudo dos Trouxas, não estão? – perguntou Hermione.

—Sim. – respondeu Rasalas.

—Ok... – ela pegou um pedaço de papel e riscou um punhado de números – Vocês sabem como usar um telefone? – perguntou ela.

—Sim. – respondeu Rasalas – Eu costumava mandar trote nos orelhões, do lado de fora do Caldeirão Furado, quando ficava entediado.

—Oh! Era isso que você ia fazer? – perguntou Alhena, rindo.

—Claro. Assim que eu descobri como funcionava. Era sempre hilário.

—Ótimo. Esse aqui é o meu número. Me liguem nas férias, pra gente conversar, ok? – perguntou Mione.

—Claro. – responderam os dois. Hermione os abraçou de uma vez e então saiu correndo, animada.

—Ela é legal. A Mione. Não é? – perguntou ele. Alhena o olhou com troça e um sorrisinho – O que?

—Nada não. – riu ela se virando.

A mãe esperava pelos dois, ao lado do avô, que estava sentado em um banco, com a bengala com uma cabeça de dragão entalhada em seu colo. Assim que os viram, a mãe abriu um imenso sorriso e correu até eles para abraçá-los. Rasalas notou que já estava quase do mesmo tamanho que ela e se assustou por ter crescido tanto sem ter notado.

—Meus, amores. Senti tanta falta de vocês. – lamentou a mãe.

—Também, mamãe. – respondeu Alhena.

Rasalas logo se soltou da mãe e cumprimentou o avô, que o abraçou com um sorriso no rosto.

—Como foi a escola, meu neto? – perguntou ele com o mesmo sorriso.

—Foi muito bem. Eu e Alhena passamos com boas notas.

—Isso é bom. Muito bom. – respondeu o avô lhe dando tapinhas nas costas com aprovação – Apesar de hoje ser sábado, eu concordei com a sua mãe que vocês deveriam ficar com ela nesse fim de semana. Afinal ela é a mãe de vocês. – disse o avô, calmamente – Mas eu queria que vocês fossem lá para casa na quinta a noite, em troca. Está tudo bem?

—Claro. – riu Rasalas – Vovô... o senhor vai conseguir as entradas pra Copa?

Seu avô deu um sorriso pomposo.

—E você acha que eu não conseguiria? – riu ele – Fique tranquilo. Tenho ingressos para a final e vamos ver o primeiro jogo da Inglaterra também. – adicionou ele.

—LEGAL! – disse animado, socando o ar.

—E olhe só pra você, Alhena... esteve se cuidando esse ano. Emagreceu. – riu o avô. Alhena concordou parecendo orgulhosa de si mesma – Muito bom. Muito bom. Mais alguns quilinhos e vai ficar perfeita...

—Minha filha É perfeita, Sr. Lestrange. – sibilou sua mãe. O avô revirou os olhos com um sorrisinho no rosto.

—Bom... vejo vocês na quinta a noite. – riu o avô sacando a varinha e aparatando de lá.

O trio foi para casa no Noitibus. Rasalas se sentia completamente exausto e Lena também. Os dois caíram na cama e logo cochilaram. Rasalas acordou muito tarde, eram quase onze da noite. Se levantou, faminto, e saiu do quarto, para pegar algo de comer na geladeira. Porém, parou no corredor, ao escutar uma voz indesejada.

—...sim. Foi uma enorme surpresa pra mim também... eu sempre achei que ele era culpado.

—Pelas cuecas sujas de Merlin... isso é tão surreal. Você tem certeza disso, Remus?

—Sim. Vi Pedro com meus próprios olhos. Doze anos... disfarçado de rato... apenas esperando o momento certo para... bem... não sei exatamente o que ele esperava. – murmurou Lupin – Apenas o que sei é que Sirius era inocente todo esse tempo. – Rasalas piscou chocado, ao escutar aquilo. Remus só poderia estar mentindo. Todo mundo sabia que Black era um assassino louco de pedra. Tentara matar Harry umas três vezes no último ano... e o professor Snape disse que ele tinha azarado Harry, Ronald e Hermione...

—Ranhoso não deve ter recebido bem a notícia da fuga dele. – disse sua mãe, aparentando estar de bom humor.

—Não mesmo. – riu Lupin – Fiquei sabendo que ele teve um ataque nervoso, na frente do Ministro e de Dumbledore.

—Falando em Dumbledore... não vai mesmo voltar a lecionar. Alhena adorava suas aulas. Ela sempre escrevia elogiando.

—E Rasalas?

—Rasalas... bem... ele não escrevia reclamando. Acho que é um avanço, não é?

—Ele nunca me aceitou... agora que ele sabe sobre... sobre meu problema... agora que não vai aceitar mesmo. – suspirou Lupin. Rasalas estava prestes a se fazer notar, mas se conteve para escutar a resposta da mãe.

—É muito difícil pra ele... ele tem um vínculo com Rabastan... desde pequenininho... sem falar que ele é muito super protetor.

—Ele deve ter aprendido isso de você. – riu Lupin.

—Talvez... mas eu sei que ele vai entender um dia... – suspirou sua mãe – Ele ainda é novo, mas ele vai entender que... que é minha escolha e não a dele. – Sentiu um frio intenso no estômago.

—Eu queria que ele entendesse que eu não tenho a menor intenção de tomar o lugar do pai dele. – suspirou Lupin.

—Rabastan nunca teve um lugar nessa família. Ele sempre foi uma cadeira vazia... um fantasma, Remus... Rasalas vai ter que aceitar isso, cedo ou tarde...

—Você sabe que eu concordo com ele, sobre uma coisa, não é?

—O que?

—Rabastan não teria sido completamente ausente se você tivesse contado... eu acho que as coisas poderiam ter sido diferentes.

—Não... não teriam... – discordou a mãe – Rabastan estava interessado apenas em lutar, lutar e lutar... e ele teve a chance de escolher ficar comigo, mas ele não quis...

—Se ele soubesse o que Rodolfo fez...

—Por favor... não quero pensar nisso. – cortou sua mãe, severamente.

—Não fique brava... a última coisa que eu quero é isso... que você se irrite. – riu Lupin – Como vamos fazer daqui pra frente... você vai contar sobre nós? – Rasalas sentiu o corpo ficar dormente por um momento. Suas mãos ficaram geladas, seu coração pareceu parar de bater. Tudo nele parecia simplesmente imóvel.

—Não... ainda não... – respondeu sua mãe – Eles ainda não estão prontos pra isso.

—Eu não quero ser um clandestino aqui, Emms... é um direito deles saber.

—Mas... mas Rasalas não vai entender... me dê mais um tempo...

—Se ele descobrir, vai ficar magoado. – murmurou Lupin.

—Ele não vai descobrir. É só continuarmos cautelosos.

Rasalas recuou em silêncio até seu quarto, sentindo-se completamente traído. Como ela pode? Esconder uma coisa dessas? Até Lupin parecia entender que ela não podia esconder aquilo...

Os dois estavam juntos, sabe-se lá desde quando... sua mãe sabia que ele era um lobisomem... e fora sua mãe quem escolhera tirar seu pai da vida deles... se sentou em sua cama, tremendo. Um sentimento muito forte dominava toda sua mente. Queria fugir dali. Queria ir embora... queria deixar sua mãe completamente desesperada...

Ela não sabia o quanto podia estar prejudicando a reputação deles, se envolvendo daquela maneira com alguém como Lupin? Um doente, perigoso... sangrento... ele era simplesmente repulsivo... uma desgraça para o mundo. Uma criatura perigosa, selvagem, doente e contagiosa... maligna...

Ficou rolando na cama, sem conseguir acreditar naquilo. Sem saber como reagir a toda aquela situação... quando terminava o próprio egoísmo e começava o dela?

Não conseguiu mais dormir depois daquilo, pois sua mente ficava divagando sobre o que poderia estar acontecendo naquela sala. E se tivesse acordado uns vinte minutos depois... o que poderia ter flagrado?

Aquela hipótese que não gostaria de imaginar simplesmente não deixou de assombrá-lo. E quando o dia nasceu, estava completamente mal humorado. Esperou que Alhena acordasse, mas ela demorou muito mais do que o costume para levantar. Acabou levantando primeiro, para tomar um banho e se arrumar. Estava completamente lívido e nada conseguiu fazer seus cabelos abandonarem a cor laranja berrante.

Foi para o quarto e se vestiu, bufando e então seguiu para a cozinha, procurando Lupin com os olhos, mas só sua mãe estava ali. Ela o olhou e franziu a testa.

—Laranja? Com que está zangado? – perguntou ela.

—Como sabe que eu estou zangado? – perguntou se sentando e pegando um pão, para passar manteiga.

—Eu sou metamorfomaga também, esqueceu? Eu sei que azul significa medo, vermelho rosado é vergonha, laranja é raiva... e quando ficam mudando de cor alopradamente quer dizer que os hormônios estão tomando conta. – riu ela – O que está te deixando bravo?

—Não vou contar. – respondeu friamente. Sua mãe piscou, surpresa.

—Por que não?

—Porque acho que guardar segredos uns dos outros é algo novo aqui nessa casa e eu gostaria de experimentar. – retrucou. Sua mãe sorriu nervosamente.

—Do que está falando?

—Nada. – respondeu num sibilo e sua mãe desviou o olhar parecendo perdida. Rasalas tomou café da manhã de cara fechada e sua mãe nada disse.

Alhena logo chegou, cheia de sono. Ela olhou faminta para os pães que tinham por ali, mas se contentou em tomar um pouco de água e comer um pouco de melão.

—Alhena. Coma direito. Comer só isso faz mal. – ralhou a mãe. Alhena soltou um suspiro e pegou o menor dos pães e colocou uma fatia de queijo nele. Ela comeu lentamente, mastigando muito e quando terminou, se levantou, lavou o que tinha sujado e saiu da cozinha.

Rasalas seguiu olhando de maneira acusatória para a mãe, de braços cruzados, mas ela nada disse.

—Não vai falar nada? – perguntou ele.

—Não. – respondeu ela.

Ele se levantou e lavou o que tinha sujado, mas antes de sair da cozinha, se virou para ela e disse.

—Sempre achei que a Grifinória era a casa dos destemidos e corajosos.

Sua mãe soltou um muxoxo, mas não respondeu. Então ele saiu, indo em direção ao próprio quarto. Mas assim que passou pelo banheiro, escutou um barulho estranho. O som de alguém vomitando.

—Lena. Tudo bem? – perguntou abrindo a porta e flagrando Alhena colocando o dedo na garganta, para vomitar. – O que raios você está fazendo? – perguntou horrorizado.

Alhena se levantou, chocada.

—Nada! Não conte pra ninguém.

—É assim que está emagrecendo? Colocando pra fora o que come? – perguntou ainda mais furioso.

—Só quando como mais do que deveria. – disse ela, encolhendo de leve.

—VOCÊ QUER MORRER, ALHENA? – perguntou furioso – Desde quando está fazendo essa merda?

—Já tem uns dois meses... mas é só de vez em...

—NUNCA MAIS FAÇA ISSO! – gritou a sacudindo pelos braços – VOCÊ ME OUVIU? NUNCA MAIS!

—O que está acontecendo aqui? – perguntou sua mãe aparecendo na porta. Rasalas a olhou feio e soltou a irmã.

—Opa. Acho que vamos fazer segredo disso também, mamãe. – riu ele zangado – Acho que todo mundo nessa casa está cheio de segredinhos sujos, não é? – perguntou ele olhando da irmã para a mãe.

—O que houve, Alhena? – perguntou a mãe, com uma veia saltando em sua têmpora.

—Não foi nada... – murmurou Alhena sem conseguir encará-la.

—Alguma coisa aconteceu! – ralhou a mãe.

—Sim... mas ao menos ela não está namorando um lobisomem às escondidas, não é? – perguntou Rasalas, furioso.

—Você o que? – perguntou Alhena, olhando para a mãe, que corou de leve – Com Lupin? – a garota abriu um sorriso – Oh! Mamãe! Isso é maravilhoso!

—Isso não é maravilhoso! – retrucou Rasalas.

—Obrigada por ser tão madura, Alhena. – disse sua mãe respirando fundo – Sempre soube que as meninas amadurecem antes dos meninos, mas nunca imaginei que a diferença era tão gritante. – ela adicionou o olhando friamente.

Rasalas respirou fundo com um sorriso zangado no rosto.

—Ah, sim. Eu sou o imaturo! – rosnou ele saindo do banheiro – Por que as duas não ficam aí discutindo a minha imaturidade? A alcoólatra e a bulímica!

—RASALAS! – gritou Alhena, em choque. Mas ele não ficou pra ouvir sermão. Pegou a capa e estava indo para fora.

—VOLTA JÁ AQUI, RASALAS! – gritou a mãe.

—VÃO PRO INFERNO, VOCÊS DUAS! – gritou furioso. Viu a mãe puxar a varinha e apontar para ele, mas escapou porta a fora antes que ela pudesse lançar qualquer feitiço. Depois correu como nunca antes.

Parou na frente da rua e deu sinal para o noitibus, que logo parou. Assim que entrou, viu a mãe sair da casa. Ela correu fazendo sinal e ele se levantou.

—Pago em dobro se você não parar pra ela! – disse zangado.

Sentiu um solavanco quando o noitibus acelerou de uma vez, deixando sua rua para trás.

—Pra onde você está indo, garoto? – perguntou o auxiliar do motorista.

Rasalas soltou um suspiro.

—Beco Diagonal. Me deixe em frente ao Caldeirão Furado.

Ficou amuado, se perguntando se a mãe adivinharia para onde ele estava indo. Seu primeiro pensamento foi fugir para a casa do avô, depois para Azkaban, para junto do pai... mas sabia que ela imaginaria isso. Então resolveu ir para o Beco Diagonal mesmo.

Passou a curta viagem mirando a paisagem, achando graça de tudo desviar do automóvel quando ele passava. Quando finalmente chegou, tirou os poucos trocados que lhe sobrara do dinheiro que o avô lhe dera, tempos atrás, e pagou o homem.

Depois caminhou para o Caldeirão Furado e de lá para o Beco Diagonal. Ficou passeando pelas ruas, tentando se acalmar. Aquelas ondas de raiva estavam acontecendo cada vez com mais frequência. Ele não costumava se descontrolar daquele jeito. Era como se houvesse um monstro dentro de si, louco para sair e ferir o máximo possível quem estivesse por perto.

Chutou uma lixeira, zangado, sem derrubá-la no chão e seguiu caminhando pelas ruas. Sentou-se em um meio fio, próximo à Floreio e Borrões e ficou olhando as pessoas passarem.

—Rasalas? O que você está fazendo aqui?

Rasalas levantou o olhar e viu o professor Remus Lupin olhá-lo surpreso. Ou melhor... ex-professor.

—Olá, professor. – resmungou emburrado. Lupin soltou um suspiro e se sentou ao seu lado.

—Dia difícil? – perguntou ele.

—É. – resmungou em resposta.

—Posso perguntar o que houve? – perguntou Lupin.

Rasalas o olhou furiosamente.

—Eu acordei ontem a noite e fui comer alguma coisa na cozinha... acabei escutando mais do que gostaria. – respondeu. Lupin soltou um suspiro.

—Entendo. – murmurou ele – Sinto muito que tenha descoberto dessa forma.

—Não precisa sentir muito. Você não me deve coisa alguma. – resmungou Rasalas surpreso por se dar conta de que não estava realmente puto com o professor... mas sim com a mãe.

—Claro que devo. – discordou Lupin pegando uma barra de chocolate e a quebrando ao meio. Ele ofereceu uma metade e Rasalas a aceitou com um muxoxo – Eu estou saindo com uma das pessoas mais importantes da sua vida... e você tem todos os motivos do mundo pra não gostar disso.

—Bem... pelo menos você tem algum juízo. – resmungou Rasalas mordendo seu chocolate. Lupin deu uma risadinha e comeu um tablete também.

—Meu problema é que muitas vezes tenho juízo demais. – murmurou ele – Mas isso é esperado de mim, devido à minha condição.

—Hum... – resmungou o garoto, ainda emburrado. Lupin soltou um longo suspiro.

—Há algo que gostaria de me falar?

—Por que você não começa? – perguntou o olhando zangado.

—Justo. – disse Lupin, calmamente – Eu sempre fui apaixonado por sua mãe... desde o meu primeiro ano, em Hogwarts... ela sempre foi muito doce e gentil comigo... uma das minhas melhores amigas. – disse ele – Mas como eu fui transformado em... bem... você sabe... – ele soltou outro suspiro – Eu tinha apenas oito anos. Eu sabia que nada na minha vida poderia ser como normalmente acontece... Eu sabia que tudo seria diferente, difícil e duro pra mim... mas sua mãe nunca me julgou pelo meu problema... – Lupin soltou outro suspiro – Mas mesmo assim, eu nunca me senti bom o suficiente para estar com ela. Eu sempre tive medo de prejudicá-la... eu sempre pensei no perigo que eu estaria causando... sem falar... que eu nunca poderia formar uma família com ela... eu sempre tive muito medo de a minha doença passar para um filho meu, entende?

—Hum...

—Mas... mas agora os anos passaram e sua mãe ainda quis me dar mais uma chance... nos dar uma chance... de sermos felizes... você entende?

—Ela não precisa ser feliz com você. – disse Rasalas – Ela não precisa de você pra ser feliz. Não precisa. Ela já tem a mim e a minha irmã... e...

—E? – perguntou Lupin.

Rasalas soltou um suspiro, se recusando a continuar se iludindo. Seu pai não era ninguém na vida dela. A verdade era simplesmente essa.

—E nós deveríamos ser suficientes!

—Você já se apaixonou, Rasalas? – perguntou Lupin, calmamente. O garoto não respondeu. Ele baixou os olhos, para encarar os próprios pés – Eu espero que se apaixone um dia... é uma sensação muito boa... ficar feliz apenas porque aquela pessoa especial sorriu para você... – Lupin deu mais uma mordida no próprio chocolate – Acho que se apaixonar é uma das poucas coisas no mundo que consegue ser melhor que chocolate. – riu ele com a boca cheia de doce. Rasalas suspirou e deu mais uma mordida. Ficaram em silêncio por mais um tempinho até Lupin voltar a falar – Eu amo a sua mãe. E eu realmente quero fazê-la feliz... mas não quero desrespeitar você e sua irmã...

—Minha irmã não se importa. – resmungou o garoto.

Lupin deu um longo suspiro.

—Mas você sim? – Rasalas respirou fundo, sentindo-se confuso. Se dissesse que sim, estaria assumindo que era um cretino, egoísta... mas e se dissesse que não? Seria um mentiroso e estaria traindo a confiança do pai... – Está tudo bem, Rasalas... não precisa responder... – murmurou Lupin – Está tudo bem, não fique triste.

—Não estou triste! – defendeu-se ele.

—Seus cabelos ficaram azuis... quando sua mãe ficava com os cabelos azuis, era porque ela estava triste... – riu Lupin – Ninguém sabia que ela era metamorfomaga, na escola... ela odiava ser. Eu era o único que sabia... eu sabia do segredo dela e ela do meu. – ele soltou outro suspiro – Sua mãe quis até virar uma animaga... para poder ficar comigo na lua cheia... mas ela descobriu que metamorfomagos não conseguem virar animagos...

—Minha mãe era louca. – resmungou Rasalas.

—Sim... nós todos éramos meio loucos... – riu Lupin – Mas acho que essa é a graça de ser jovem. Poder ser idiota, sem tanta culpa... – adicionou ele – Eu mesmo tive uma boa dose de idiotice...

—Hum...

—Eu aprontei muito naquela escola, no meu tempo... mas duvido que você esteja interessado nisso, não é?

—Realmente não. – resmungou Rasalas.

—Bem... você quer mais um chocolate? – perguntou Lupin. O garoto colocou o restante do chocolate na boca, e negou com a cabeça – Ok... quer que eu te leve em casa? Sua mãe sabe que você está aqui? – Rasalas apenas negou novamente – Hum... você quer ir pra casa agora? Ou prefere que eu te deixe na casa do seu avô? Não acho que seja legal te deixar sozinho aqui... e eu imagino que você queira um tempo sozinho, certo?

Rasalas concordou, engolindo o chocolate.

—Ok...

Lupin lhe deu uns tapinhas nos ombros e sorriu daquele jeito irritantemente gentil.

—Para seu avô, então?

—Sim... pra lá. – respondeu ele cruzando os braços.

—Ok. Mas você poderia fazer a gentileza de não comentar sobre mim com ele? Seu avô não iria gostar de saber sobre meu envolvimento com vocês... acho que seria sensato mantê-lo no escuro quanto a isso, por enquanto.

—Está bem... – murmurou Rasalas.

Lupin o segurou no braço com firmeza e então aparatou para a rua do avô.

—Eu sei que ele mora por aqui, mas não sei exatamente onde. – murmurou Lupin – Mas você consegue achar sozinho, não é?

—Consigo. – respondeu Rasalas.

—Certo. Vou avisar sua mãe que te deixei aqui, ok? Para ela não ficar mais preocupada.

—Faz o que quiser. – resmungou Rasalas colocando as mãos nos bolsos – Não é como se minha opinião importasse pra qualquer um de vocês, de qualquer maneira.

—Não diga isso, Rasalas. Eu e sua mãe nos importamos muito com...

—FAZ O QUE QUISER, TÁ BOM? – gritou o garoto, emburrado, com aquela ira descontrolada aflorando de novo. Ele arfou e em seguida saiu correndo para a casa do avô, deixando Remus Lupin para trás.

—

Remus mirou o garoto se afastar correndo e soltou um suspiro, um tanto triste.

—Achei que estávamos indo bem... – Lamentou ele.

*****

—Rasalas? O que está fazendo aqui? – perguntou o avô, assim que o garoto entrou na sala – Por que não está com a sua mãe?

Rasalas respirou fundo, contendo todas suas frustrações dentro de si.

—A gente brigou. Posso passar um tempo aqui? – perguntou ele.

Seu avô piscou surpreso e sua avó sorriu.

—É claro, meu amor...

—Claro que não. – discordou o avô, se levantando – Você é um homem, Rasalas! Se você brigou com a sua mãe, não pode fugir e se esconder aqui! Vá pra casa se resolver com ela.

—Eu... eu não quero ir pra casa. – murmurou sentindo os olhos encherem-se de água – Me deixa ficar aqui, avô?

—Não. De jeito nenhum! – ralhou seu avô batendo a bengala no chão.

—Rodolfo. Tenha dó. – ralhou a avó – O que aconteceu, meu bem? Por que vocês brigaram?

Rasalas negou com a cabeça, sem poder falar o que tinha acontecido.

—Vou te deixar em casa.

—Me deixe ao menos almoçar aqui! – pediu Rasalas olhando para o teto.

—Rodolfo! Não negue comida ao nosso neto! – ralhou a avó. Seu avô soltou um muxoxo.

—Vou avisar sua mãe que você está aqui e que eu vou te mandar de volta assim que terminar de almoçar!

—Ela já sabe que eu estou aqui. – disse Rasalas. Os dois avós olharam pra ele.

—Não está mentindo, está, garoto? – perguntou o avô severamente, colocando a bengala embaixo de seu queixo, para que ele erguesse a cabeça.

—Não. Não estou.

Rasalas ficou olhando para o avô pelo que pareceu uma eternidade. Mas então ele baixou a bengala e concordou em silêncio.

—Ok. Mas nada de choro. Você é um Lestrange, ouviu?

—Sim...

Rasalas foi para o próprio quarto e suspirou, se deitando em sua cama. Fechou os olhos, sentindo-se muito cansado e finalmente conseguiu dormir. Sua avó o acordou para almoçar, lhe afagando os cabelos.

—Meu amor. Volte para o loiro. Seu avô não vai querer vê-lo assim... – sussurrou ela, carinhosamente.

Rasalas mudou os cabelos de cor, para o loiro acastanhado que era a cor natural e então seguiu a avó para a sala de jantar. Almoçou de tudo, se perguntando se Alhena iria continuar vomitando a comida. Por que aquela obcessão para emagrecer? Não via problema nenhum nela estar alguns quilinhos a cima do peso.

Assim que terminou de almoçar, seu avô o levou para casa. Ele tocou a campainha e quando Alhena atendeu, ele sorriu.

—Sua mãe está? – perguntou ele.

—Não. Ela teve que sair. – respondeu Alhena – Onde você se meteu? Perguntou ela severamente para o irmão.

—Não é óbvio? – respondeu ele, secamente, entrando em casa e indo direto para o próprio quarto – Obrigado por tudo, vovô! – gritou do corredor.

Se jogou na sua cama, querendo desaparecer. Querendo esquecer que tinha se encontrado com Lupin, esquecer o quanto ele era compreensivo, esquecer o que ouvira naquela noite, esquecer a briga que tivera com a mãe...

Tudo o que queria era uma maldita família normal. Como a de Draco. Não era pedir muito, era?

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Notas finais
Eeeeeeeita... E agora, heim? D= Estou sentindo falta dos comentários. Onde estão meus comentários? Plz... não me abandonem! Falem comigo, ok? Beijos! Até a próxima