Notas iniciais
Esse capítulo é só do Rabastan hehehehehehe Espero que vocês gostem! Beijos e bom fim de semana! ^^

1996

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Caiu de joelhos, sentindo as cordas em seus pulsos machucarem e esfolarem sua pele. Suas costelas doíam horrivelmente. Seu joelho estava doendo mais que qualquer coisa. Seu nariz ainda estava quebrado, mas por ter levado outro soco no rosto, estava ainda pior. Mas nada sangrava mais que seu coração.

Seu filho... seu garoto... um lobisomem...

Rabastan caiu derrotado no chão. Shacklebolt o olhava com olhos frios. Moody parecia querer socá-lo um pouco mais. Até o olhar de Dumbledore transbordava desgosto.

–Foi você? – perguntou o velho – Quem fez aquilo com Avery.

Rabastan levantou o olhar para os três homens que o encaravam. Seu rosto se contorceu de raiva.

–Foi. – rosnou sem se arrepender. Sem hesitar – Ele jogou Rasalas para Grayback, para me atingir... ele tentou estuprar a minha filha. Toda a dor que eu o fiz passar... ele mereceu cada segundo.

Os três bruxos o olharam com desgosto.

–Você foi muito burro de ter aparecido por aqui... – rosnou Moody – Ou muito audacioso... no que estava pensando, Lestrange?

Rabastan cuspiu um pouco de sangue no chão.

–Eu quero ver Emily Valentine. – respondeu ele.

–Você já fez aquela mulher sofrer o suficiente. – disse Shacklebolt com frieza.

–Você pediu para que ela me fizesse mudar de ideia, Dumbledore... – rosnou Rabastan, tão cheio de ódio, que sentia-se capaz de matar qualquer um. Sem hesitar – Traga-a aqui, para que eu converse com ela a sós. – o olhou furioso – E então poderá contar comigo para o que quiser. Direi o que quiser. Farei o que quiser.

Dumbledore o olhou com os olhos estreitos, ponderando.

–Eu não sei se posso confiar em você, Rabastan. Vejo ódio demais em seu coração e esse sentimento apenas destrói...

–COMO QUERIA QUE EU ESTIVESSE? – gritou furioso – HEIM?

As lâmpadas daquela casa velha foram explodindo uma a uma. Os três bruxos ainda o olhavam com olhares calculistas.

–Eu entendo a sua dor... – começou Dumbledore, mas Rabastan gargalhou, cheio de sarcasmo.

–Entende? ENTENDE? – rosnou Rabastan se levantando, ignorando a dor aguda em seu joelho – Como você poderia entender? Como o nobre Dumbledore poderia saber o que é odiar? O que é ver sua família ferida? Pra sempre? O que você sabe sobre o que eu sinto? Meu irmão tentou matar a mulher que eu amava. Meu filho foi transformado em lobisomem por um companheiro de causa... o mesmo companheiro que tentou estuprar minha filha dias antes! Me diga, Dumbledore! Como você poderia sequer imaginar como eu estou me sentindo? Eu fiquei preso quatorze anos naquela maldita prisão. Eu não vi meus filhos nascerem. Eu perdi TUDO! TUDO! Por dedicar minha vida e minha confiança a quem não mereceu. O que você sabe sobre isso, Dumbledore? O que você já perdeu, além de alguns aliados?

–Cale a boca, seu cretino! Não fale sobre o que você não sabe. – rosnou Moody.

–Está tudo bem, Alastor. – murmurou Dumbledore – Kingsley. Você pode esclarecer a situação para Emily e perguntar se ela deseja ver o Sr. Lestrange?

–É claro. – murmurou o negro, sacando a varinha para desaparatar.

–Não está mesmo pensando em confiar nesse homem, está, Dumbledore? – perguntou Olho Tonto – Ele é um Lestrange. Os Lestrange são os piores entre todos os comensais de Voldemort.

Rabastan olhou furioso para Moody. Como ele ousa pronunciar o nome do Lorde.

–Eu sei que há muita podridão nele... mas há algo bom também.

–Eu duvido. – rosnou Moody – O que esse homem pode ter de bom?

–Ele ajudou Alhena. – murmurou Dumbledore.

–Prole dele. Não confio nela também. O garoto é nobre, a menina nem tanto. Ela...

–Ele ajudou Astoria Greengrass. – murmurou Dumbledore olhando para dentro dos olhos de Rabastan. Lembrou-se vividamente da garota, implorando para que não a machucassem. Rodolfo queria estuprá-la... não só ele, na verdade. Muitos olharam com desejo para a menina. Mas ele não podia permitir aquilo. Só conseguia se lembrar de Emily e Alhena. Então não permitiu. Não queria nem que tocassem nela, mas tinham recebido a missão de mandar um recado para os puro sangue que apoiassem Dumbledore...

–Ajudou? Ajudou como? A garota chegou super ferida em casa! – retrucou Moody.

–Poderia ter se ferido ainda mais. – murmurou Dumbledore – Se não tivesse sido por ele.

Rabastan baixou os olhos, ainda cheio de ódio. Cheio de ressentimentos. Cheio de conflitos, culpas, dúvidas...

–Eu não acredito nisso. Esse homem não é de confiança, Dumbledore.

–Nenhum de nós é capaz de julgar isso.

–E quem é? – perguntou Moody, espumando – Valentine? Me poupe. Aquela mulher ficou louca há muito tempo.

–Cale a boca. – rosnou Rabastan – Dobre a língua pra falar sobre o que não sabe.

–Cale a boca, você, seu traste. – rosnou Moody. Rabastan não recuou. Mesmo estando desarmado, amarrado e ferido – Eu sei mais do que imagina!

–Eu acho que você está mais biruta do que eu, Moody. – riu Rabastan com sarcasmo.

Moody o pegou pela gola, mas ao ouvir o som de aparatação, ele o soltou. Era Kingsley e Emily.

Um silêncio um tanto constrangido pairou naquela sala. Rabastan olhou para Emily, finalmente sentindo o cansaço bater. Estava quase há uma semana sem dormir. Primeiro perseguindo Avery. Depois o matando.

–Emms... – murmurou ele. Ela o olhava chocada.

–O que houve? – perguntou ela.

–O Sr. Lestrange se entregou. – murmurou Dumbledore – Por sorte, ele não se entregou ao Ministério. Ele se entregou a mim. E disse que foi graças a um acordo feito entre vocês...

–Você encomendou a morte de Avery com ele, Valentine? – perguntou Moody. Emily o olhou com frieza.

–O que quer de mim, Dumbledore? – perguntou ela, ainda encarando Moody.

–Rabastan se ofereceu para nos ajudar. – disse Dumbledore, sem rodeios – Ele disse que fará o que for pedido... eu posso acreditar nele?

Emily e Rabastan trocaram um olhar cheio de tormenta. Se perguntou o que ela iria responder.

–Ele não está em condições de decidir isso. Olhe pra ele, Dumbledore. – disse Emily se aproximando – Ele precisa descansar e pensar a respeito. – viu Emily sacar a varinha. Fechou os olhos e sentiu a mulher tocá-lo no nariz, fazendo com que a dor cessasse. Ela fez o mesmo em seu olho e lábio – E então poderemos saber o que ele vai querer fazer. Rabastan não costuma pensar direito quando está com a cabeça cheia.

–Mas você acha que poderemos confiar na decisão dele? – perguntou Dumbledore.

Rabastan voltou a abrir os olhos, olhando Emily Valentine nos olhos.

–Eu espero que sim... – murmurou ela.

–Não podemos confiar nele baseado num “espero que sim”. – disse Moody.

–E se depois que ele pensar... se ele decidir que não quer nos ajudar... o que faremos com ele? – perguntou Kingsley.

–Me permitam falar com meus filhos uma última vez e então sintam-se livres para me matar. – respondeu calmamente – Emily pode fazer isso.

–Está louco? – perguntou ela o olhando com o cenho franzido.

–Não. – respondeu ele – Eu não vou ser preso novamente. Eu prefiro morrer a voltar praquele inferno.

Dumbledore deu um sorriso cansado.

–Vejo que alguns sabem que a morte não é a pior coisa que se pode desejar. – murmurou o velho – Eu vou providenciar um lugar para que você repouse.

–Eu posso arranjar isso, Dumbledore. – disse Emily. Dumbledore a olhou com as sobrancelhas arqueadas e então a olhou por cima de seus óculos de meia lua.

–Você tem absoluta certeza disso? – perguntou ele.

–Sim. – respondeu ela.

Rabastan olhou de um para o outro, desejando apenas descansar.

–Como quiser. Mas entenda que não pode permitir que ele fuja... Talvez eu deva pedir a Remus que...

–Eu posso cuidar bem de Rabastan se ele não tiver uma varinha. – cortou Emily.

–Ele pode pegar a sua. – disse Moody.

–Ele não vai fazer isso. – insistiu ela.

Rabastan se contentou em ouvir em silêncio.

–E quem garante? Você? – perguntou Moody com escárnio.

–Eu garanto sim. – respondeu Emily. Ela se virou para o velho – Dumbledore... – disse ela como que pedindo a autorização.

Dumbledore soltou um longo suspiro e concordou com um aceno de cabeça. Kingsley e Moody o encararam com preocupação, mas Emily segurou o braço de Rabastan antes que alguém resolvesse tentar convencer Dumbledore do contrário.

Aparataram para a rua onde a casa dela ficava, mas se surpreendeu por a casa dela ter desaparecido. Então entendeu que ela estava protegida pelo feitiço do fiel segredo. Emily brandiu a varinha e conjurou um papel. Ela entregou para ele e ele leu embaixo da luz de um poste. Era o endereço.

Voltou para olhar a rua e viu a casa de Emily surgir, empurrando as outras casas para o lado. Esperaram em silêncio até que a casa estivesse completamente aparente e então entraram. Ela tocou as cordas que prendiam seus pulsos com a varinha e as cordas se soltaram.

–Você precisa de um banho. Está fedendo. – murmurou ela. Apenas concordou em silêncio.

–Pode arrumar meu joelho antes? – perguntou ele – Está me matando.

–Ok. – respondeu ela – Vem aqui.

Mancou até o sofá e fez uma careta de dor. Emily colocou a varinha na boca e o ajudou a tirar a capa, depois o cinto, as botas e a calça.

–Não consegue me ver e não tirar minha roupa, não é, Valentine? – provocou se sentando no sofá. Emily o olhou com algum desdém.

–Mais uma gracinha e faço furúnculos nascerem no seu saco.

–Eu estou tentado a correr o risco. – disse com um sorrisinho. Emily jogou os cabelos acastanhados para trás e se ajoelhou na sua frente. Olhou para o teto, sem querer pensar besteira.

–O que houve com seu joelho? – perguntou ela.

–Moody. Ele me azarou no joelho. Não sei o que ele... – xingou alto apertando o braço do sofá. Emily tinha mexido em seu joelho e tinha doído horrores. – Você fez de propósito! – rosnou.

Ela deu uma risadinha e tocou seu joelhos, sussurrando feitiços, cada vez doía menos.

Ela se levantou e fez um sinal com a cabeça, para que a seguisse. Se levantou bastante aliviado da dor e ela o guiou até o banheiro. Ela conjurou algumas toalhas e ele agradeceu.

Tomou um banho demorado, deixando a água quente lavar ser corpo maltratado. Lavou os cabelos e o rosto. Depois, quando saiu, viu que havia uma lâmina para fazer a barba. Se perguntou se seu garoto já se barbeava e se sentiu muito velho ao pensar sobre isso.

Olhou seu reflexo e respirou fundo. Pegou as coisas que imaginou ser de Rasalas e se barbeou pela primeira vez em anos. Assim que terminou, notou que parecia alguns anos mais novo. Se descansasse um pouco, ficaria até apresentável. No tempo que ficara com os Malfoy, Narcisa lhe deu algumas poções para os dentes e isso tinha feita toda a diferença em seu rosto.

Só não sabia se algum dia voltaria a sorrir como quando era um rapaz... secou o rosto com a toalha e a enrolou nos quadris, pois não tinha mudas de roupas ali. Saiu do banheiro e entrou na primeira porta que encontrou. Um quarto com duas camas.

Metade do quarto estava cheio dos desenhos de Alhena. Tinha certeza que ela dormia ali. Um quartinho pequeno e simples. A outra metade do quarto estava cheia de pôsteres estranhos, estáticos, com homens com roupas estranhas. Imaginou que era trouxa e teve certeza de que pertencia a Rasalas.

Caminhou até a penteadeira e viu uma foto do filho com uma garota bonita, parecida com Astoria. Imaginou que deveria ser a namorada dele...

–Daphne Greengrass. – murmurou vendo os dois sorrirem e acenarem, contentes.

Sorriu sentindo saudade dos filhos e devolveu a fotografia para a penteadeira. Saiu do quarto e caminhou até a cozinha, guiado pelo cheiro de comida. Emily estava cozinhando um ensopado, com os cabelos presos num desleixado coque. Ela usava uma regata e uma saia marrom comprida. Podia ver um pedaço da cicatriz que Rodolfo deixara em seu ombro.

Olhou para a mesa da cozinha, onde Emily esclarecera tantas coisas pra ele. Puxou uma cadeira e se sentou, sentindo-se muito cansado. Ficou observando as próprias mãos, magras e ossudas. Estava recuperando a força, mas estava demorando mais do que imaginou. Não sou mais tão jovem, afinal...

Olhou de soslaio para Emily e notou que ela ainda tinha um corpo bonito. Apesar de não ter muito peito, tinha uma cintura fina e uma bunda redonda e empinada, em completa evidência sob a saia.

Mas também não sou tão velho... haveria tempo? Pra recuperar tudo o que eu perdi? Será que seria justo pedir mais uma chance? Engoliu em seco e voltou a olhar para as próprias mãos. Não conseguia imaginar-se com Emily novamente... não depois daquele encontro no Bloody Mary.

Escutou um barulho e viu que Emily tinha lhe servido uma tigela de ensopado.

–Obrigado. – murmurou pegando uma colher, sentindo o estômago doer de fome.

–Tudo bem. – murmurou Emily se sentando para comer também – Obrigada... – a olhou e notou que ela o olhava um tanto triste – Por ter acabado com ele...

Concordou em silêncio e provou da comida. Delicioso, como sempre.

–Obrigado por me acolher.

Ela deu de ombros. Comeram em silêncio e quando terminou, se levantou para servir mais um pouco a si mesmo. Emily não reagiu. Depois de repetir e se satisfazer, suspirou, sentindo-se exausto. Poderia dormir naquela cadeira mesmo. Emily pegou sua tigela e foi lavar a louça. Deitou a cabeça na mesa, desejando descansar enquanto ela não dizia onde ele iria dormir.

Mas estava tão cansado que acabou apagando. Sonhou com a época de colégio, no dia do baile de inverno, quando ele e Emily começaram a namorar. Mas logo acordou. Estava deitado no sofá, com um cobertor pesado sobre seu corpo.

A lareira estava acesa e Emily estava sentada no chão. Se sentou e a observou. A escutou fungar e abrir uma garrafa de qualquer coisa. Saiu do sofá e se ajoelhou ao lado dela, ignorando a fisgada no joelho. Ela o olhou, surpresa e ele sentiu o cheiro de whisky nela.

–Não. Você não pode. – murmurou tirando a garrafa dela.

–É só um pouco... pra me ajudar a dormir... – murmurou ela.

–Não. – respondeu, jogando a garrafa na lareira.

Emily soltou um suspiro e se deitou no chão mesmo.

–Eu não consigo mais dormir direito... se não tiver bebido... – murmurou ela.

–Eu lembro que você não conseguia dormir sem mim. – murmurou ele – Anos atrás...

–Eu me lembro...

–Aqueles frascos que eu encontrei na sua casa... não eram chá de lua... eram poções para dormir sem sonhar... não eram?

Ela deu um sorriso sem felicidade alguma.

–Ainda lembra disso? – perguntou ela, ainda olhando para o teto.

–Lembro.

Ela ficou em silêncio, mas acabou concordando.

–Eu não conseguia dormir... sem tomar aquelas poções... não depois que meus pais e meu irmão foram assassinados...

–Mas dormia comigo. – murmurou ele.

–É... dormia.

Rabastan soltou um suspiro.

–Você... – ele se calou, soltando um suspiro – Você acha... que... – fechou os olhos e suspirou, se levantando – Boa noite, Srta. Valentine.

Emily se sentou em frente ao fogo. Rabastan mancou até o sofá e escutou a mulher se levantar ao seu lado. Ela se sentou ao seu lado e sacou a varinha. Ela começou a tocar as feridas que ainda tinha, as fazendo desaparecer. Até mesmo as antigas cicatrizes.

–Por que está fazendo isso? – perguntou a olhando.

–Eu me lembro o quanto era vaidoso. – murmurou ela. Soltou um suspiro.

–Eu não ligo mais pra isso... – resmungou – Não se preocupe.

–Está tudo bem... – murmurou ela – Eu sei o que é viver com cicatrizes... eu me livraria delas se pudesse...

Sentiu um aperto no peito e segurou o pulso dela.

–Deixe minhas cicatrizes, Emms... nem mesmo seus feitiços poderão fechar todas elas.

–Eu sei... – murmurou ela tocando-o no peito – Algumas nunca vão sair...

–Não... – concordou ele. Se lembrou de Avery pedindo perdão por ter machucado Rasalas... mas nunca o perdoaria. Nunca... – Avery... Avery nos machucou permanentemente....

–Sim... mais do que Rodolfo. – murmurou ela.

–Pra você, talvez... eu não sei o que é pior... – murmurou Rabastan se deitando esparramado – Rodolfo é meu irmão... Avery me odiava. Eu entendo a vingança de Avery... mas a traição de Rodolfo? Isso não...

Emily concordou com um aceno de cabeça.

–Acho que tem razão... – murmurou ela. Ficaram em silêncio, olhando a fogueira arder e estalar.

–Emms...

–O que?

–Eu... eu ainda amo você. – murmurou fechando os olhos – Mas não acho... não acho que... – suspirou – Você não vai me perdoar de novo, vai?

–Bem... pela primeira vez você parece estar querendo deixar de ser um idiota. – murmurou ela – Mas eu realmente não sei, Rabastan... da outra vez... eu me deixei levar pelo momento.

–Não foi coisa de momento. – retrucou ele.

–Foi sim.

–Não foi. Você disse que me amava. – abriu os olhos e se sentou, para encará-la, mas ela não quis encará-lo de volta – E não podia mentir. Você estava sob o efeito da poção... – acariciou o rosto dela, de leve – Aquilo não foi uma mentira, Emily...

Ela afastou a mão dele e suspirou. Seus olhos ficaram cheios de água e ele se perguntou se ela iria chorar.

–E daí? – perguntou ela com a voz tremida – Não faz diferença, afinal...

–Não faz? – perguntou ele.

–Não... eu não confio em você...

–Está mentindo. – disse sorrindo. Ela virou o rosto – Caso contrário eu não estaria aqui... estaria em qualquer outro lugar...

–Eu fiz pela Ordem. – resmungou ela.

–Fez por mim... porque não queria me deixar nas mãos deles.

–Pense o que quiser, Lestrange. – rosnou ela ficando de pé e fungando.

–Estou pensando o que quero... mas isso não quer dizer que seja mentira.

Emily não o encarou e saiu da sala, o deixando sozinho.

Se deitou e suspirou, cansado. Fechou os olhos e caiu no sono.

**

Quando Emily voltou para sala, encontrou Rabastan sentado, apenas de toalha, no chão mesmo, olhando vários álbuns de fotos, com um sorriso um tanto bobo no rosto. Sentiu o coração doer de leve e não quis atrapalhá-lo.

Foi para a cozinha, preparar o café da manhã, mas notou que Rabastan já tinha feito tudo. Suspirou e se sentou para comer um pedaço de bolo e o suco que, pela bagunça na cozinha, ele tinha tentado fazer sem magia. Notou que metade da parede estava amarela, provavelmente porque ele não tinha fechado o liquidificador ao tentar fazer o suco.

Riu um pouco disso e quase cuspiu o suco ao tomá-lo. Estava sem açúcar. Colocou algumas colheres e provou, achando melhor. O Profeta estava em sua mesa e ela leu desinteressadamente as notícias. Nada de realmente relevante, na verdade...

Depois de comer e de limpar a zona que Rabastan tinha feito, voltou para a sala. Piscou surpresa ao vê-lo fazer flexões.

–O que está fazendo? – perguntou ela.

Ele parou e ficou de joelhos. Os músculos tensos pelo exercício.

–Me fortalecendo. – respondeu ele girando o braço com uma careta – Pode dar um jeito no meu joelho? Para doer menos?

Emily tentou não olhar para os braços dele e nem para o abdômen magro e definido. Rabastan ficou sentado e ela se ajoelhou ao lado dele, para lhe remendar o joelho.

–Mais uns dois dias e ficará novo em folha.

–Pode me arrumar algumas roupas? – perguntou ele – Ou está gostando do meu show de exibicionismo?

–Ok... vou arrumar roupas pra você. – respondeu com um sorrisinho.

–Oh... eu conheço esse sorrisinho. – riu ele de maneira travessa. Lembrou-se dele, da época do colégio, ainda mais por ele estar sem barba.

Se levantou, sentindo-se calorenta, mas ignorando isso. Caminhou até o quarto de Rasalas e pegou uma muda dele. Voltou para a sala e viu que Rabastan tinha voltado a fazer flexões. Ficou assistindo por um tempo, mas disfarçou quando ele se levantou, ligeiramente suado.

–Vou tomar um banho. – disse ele, tranquilamente.

–Certo. Pegue. – disse estendendo as roupas – São do Rasalas. Quando se lavar, eu posso ajeitá-las em você.

Rabastan concordou e minutos depois ele reapareceu. Usava bermuda e uma camisa do Kiss. Ele parecia completamente constrangido naquelas roupas trouxas e Emily precisou se conter para não cair na gargalhada. A bermuda estava curta e a camisa folgada, por Rasalas estar mais forte que o pai.

–Não tinha nada mais... normal? – perguntou Rabastan, constrangido.

–Vem cá. – riu ela. Ele caminhou até ela e ela sacou a varinha, transfigurando a bermuda numa calça. Deixou a camiseta do mesmo jeito, porque Rasalas gostava dela. Mas Rabastan pareceu ficar satisfeito por não precisar sair exibindo as canelas finas.

Rabastan se sentou no chão e começou a catar os álbuns de fotos, para organizá-los e guardá-los no lugar. Ficou observando-o fazer isso, sem falar nada. Quando ele arrumou tudo, soltou um bocejo e caminhou para o outro sofá. Viu Rabastan se deitar e fechar os olhos, dobrando o braço sobre o rosto. O músculo do braço aparecendo por baixo da manga.

Aquele calor inconsequente a tomou de novo.

Lembrava dele, na escola... sempre tão vaidoso... sempre exibindo os braços fortes pelo quadribol... se pendurando nos lugares e subindo sem dificuldade em qualquer lugar. Ele não era popular como Sirius ou James, mas certamente era um garotão bonito.

Se deitou no outro sofá, se perguntando o que restara em si mesma daquela garota que costumava ser. Se levantou e foi até o próprio quarto. Retirou a roupa, ficando apenas de calcinha e sutiã. Mas seu corpo já não era mais lá essas coisas. Tinha estrias nas coxas, pela última gravidez, mas isso não era nada se comparadas às cicatrizes que marcavam seu corpo.

Pegou a varinha, olhando seu reflexo, e trançou a lateral da cabeça, como costumava fazer. Com seu poder de metamorfa, mudou o cabelo para rosa berrante, mas isso a fez se lembrar de Tonks...

Mudou para vermelho, azul e roxo. Olhou para seu corpo e fez as cicatrizes sumirem. Por alguns segundos, conseguiu até mesmo fazer sua tatuagem de serpente parecer inteira de novo.

Mas, aos poucos, lentamente, as cicatrizes foram voltando. Lembrou da voz de Rodolfo. Lembrou do toque dele e sentiu-se enojada. Colocou as duas mãos no espelho e forçou as cicatrizes a desaparecerem novamente.

Mas era como se obrigar a não pensar em algo... logo elas apareciam ali. Forçou de novo e de novo. Mas elas voltavam, insistentemente...

–Não podemos nos livrar de cicatrizes feitas por magia negra... – murmurou pra si mesma, lembrando de Sirius lhe explicando aquilo...

Socou a parede, zangada, triste, frustrada. Não passava de um retrato rachado do que costumava ser... olhou-se novamente no espelho, olhando suas cicatrizes que riscavam lentamente sua pele, voltando a aparecer. Engoliu em seco e foi até sua cama, pegando papel e um lápis.

Desenhou um molde de corpo e refez a serpente que um dia tivera ali. Já tinha visto trouxas tatuarem sobre cicatrizes para disfarçá-las... talvez... talvez um dia pudesse se livrar delas. Um dia poderia ver sua arte em seu corpo e então não se lembraria de Rodolfo. Lembraria que tinha sobrevivido. Que tinha sido forte...

Se levantou novamente e voltou a encarar o próprio reflexo. Soltou um suspiro e mais uma vez tentou fazer as cicatrizes desaparecerem, mas como das últimas centenas de vezes, elas voltaram a aparecer. Forçou mais uma vez, sem motivo algum para isso... sabia o que iria acontecer...

A porta se abriu lentamente e ela se virou, constrangida. Rabastan entrou e a olhou ficando chocado. Os olhos dele foram de seus cabelos e passearam famintos por seu corpo.

–Sua mãe não te ensinou a bater? – perguntou se escondendo com os braços...

–Meu santo Merlin... – murmurou ele a olhando com um sorriso safado – Vem cá, agora.

–O que?

Mas ele a puxou e a beijou desesperadamente. As mãos dele passearam por seu corpo, completamente sedentas.

–Rabastan. Está louco? – perguntou tentando afastá-lo.

–É possível... – riu ele a beijando no pescoço – Você é aquela garota do colégio!

–Me solte, Rabastan! Isso não tem graça. – disse se virando. Mas Rabastan a abraçou por trás, a observando pelo espelho.

–Você é linda. – riu ele.

Seus olhos desceram para as cicatrizes, que já tinham voltado a riscar seu corpo. Suspirou de desgosto, sabendo que ele só estava dizendo aquilo para conseguir uma aventura.

–Vá embora. – rosnou se desvencilhando dele e pegando sua camiseta – Você tem que ficar lá no sofá. – pegou sua varinha e o olhou nervosa. Rabastan ainda a olhava faminto.

–Não quero. Quero ficar aqui... com você.

–Isso é problema seu. Ninguém mandou ir embora das últimas duas vezes!

Ele sorriu de maneira insolente.

–Eu voltei... isso não significa nada? – perguntou ele olhando para suas coxas com desejo.

–Não.

–Eu vou trair o Lorde... isso não significa nada? – insistiu ele.

Ela engoliu em seco e desviou o olhar.

–Saia. – disse friamente.

Rabastan suspirou, finalmente perdendo o sorriso. Ele se virou para sair, mas olhou com interesse para a gaveta da cômoda, de onde tinha tirado o papel e o lápis para desenhar. O sorriso dele voltou e ele esticou a mão para pegar alguma coisa na gaveta. Uma caixinha de veludo. Sentiu uma vertigem e o rosto corar. Era o anel de noivado que ele tinha deixado em sua lápide falsa.

–Ainda tem isso? – perguntou ele a olhando de soslaio.

–Era bonito demais para vender. – resmungou querendo soar fria, mas não teve muita certeza de ter conseguido.

Rabastan deu uma risada nostálgica e abriu a caixa para olhar o anel.

–Esse aqui pertenceu a minha bisavó. – murmurou ele – Ela era uma feiticeira famosa... Quando o marido morreu, ela levou a família durante muitos anos... Meu avô sempre falava dela com muito orgulho... – Rabastan soltou um suspiro, olhando o anel – Eu quis pegar esse anel no nosso cofre, porque sempre que meu avô ou meu pai contavam sobre ela eu só conseguia imaginá-la como uma mulher forte e independente. Ela foi uma Lestrange notável... fantástica... Como eu imaginei que você seria... – Rabastan a olhou risonho – Mas você nunca aceitou meus pedidos de casamento. – ele caminhou até ela, lentamente. Emily se abraçou novamente, tentando esconder a quase nudez, apesar de não haver absolutamente nada ali que ele já não tivesse visto – Sempre tinha um motivo, não é? – perguntou ele a olhando nos olhos. Sentiu um frio na barriga, nada relacionado ao medo que sentia de Rodolfo – Era por eu ser comensal... era por eu “matar gente inocente”... era por eu seguir o Lorde das Trevas... era por não escolher você... – ele parou muito próximo e ela respirou fundo, com milhões de flashbacks em sua mente... o tempo da escola. O tempo que ele ficara com ela, quando ela o acolhera... quando o encontrara já grávida, em Godric’s Hollow, disfarçada, e o convencera a tocar sua barriga... lembrou-se de quando o visitou em Azkaban no aniversário dele e de quando ele aparecera, quando fugiu... para esclarecer tudo... Lembrou daquele momento de loucura no sofá, onde ele estava tão fraco, que não tinha energia nem mesmo para a aventura... e lá estava ele, em seu quarto, segurando aquele anel que ele nunca pode entregar pessoalmente. Lá estava ela, com os joelhos tremendo e o coração acelerado... como se fosse uma adolescente boba, constrangida por ter um jogador de quadribol bonito a convidando pra sair... – Bem... Eu não sou mais um comensal... eu estou disposto a manter o disfarce, para ajudar o seu lado. Mas eu não sirvo mais o Lorde das Trevas... a última pessoa que eu matei, você desejou a morte tanto quanto eu... E finalmente eu estou aqui, na sua frente... disposto a nunca mais ir embora... então... qual será o motivo dessa vez?

–Rabastan... você está... louco? – perguntou chocada, tremendo, ansiosa.

–Talvez... mas a quem você quer enganar... está tão louca quanto eu... – riu ele – Não é? – desviou o olhar, sabendo que aquilo era bem verdade. Rabastan olhou para o anel e segurou sua mão – Eu não vou ficar de joelhos, porque ainda dói muito ajoelhar... eu não sou mais tão jovem, sabe. – riu ele colocando o anel em seu dedo – Casa comigo, Srta. Valentine. Casa?

Respirou fundo, olhando naqueles olhos cinzentos.

Notas finais
DIZ QUE SIM, EMMS! DIZ QUE SIIIIIIIM!!!!! Será? Será? Será? =D