Legado Lestrange
51 Paradoxo
Notas iniciais
1998
Hogwarts
Sentiu algo terrível em seu coração. Um vazio indescritível... um horror completamente surreal e intragável.
–Não... – murmurou perdido, engatinhando até ela – Lena? – perguntou, chocado. A segurou com firmeza, o calor já abandonando o corpo dela – Lena? – perguntou. – Não... não... não...
Olhou para o comensal. Ele lhe apontou a varinha.
–Vai ter coragem? – perguntou Rodolfo – Estou surpreso, irmãozinho.
Rasalas olhou para o pai, em choque. Era mesmo ele?
Rabastan voltou a olhá-lo e brandiu a varinha. Mas o ataque foi contra Rodolfo. Rasalas se levantou, cheio de ódio e o ajudou. Lutaram juntos contra Rodolfo, mas o comensal era simplesmente forte demais. Suas lágrimas escorriam por seu rosto, sem conseguir parar de pensar na irmã. Sem conseguir parar de lembrar dela, com os olhos arregalados e sem vida.
Rodolfo lhe acertou uma azaração, mas não foi o suficiente para derrubá-lo. As azarações dele pareciam cada vez mais fracas e ele se viu obrigado a recuar. Recuar até a janela e saltar de lá. Rasalas estava para segui-lo, quando seu pai o segurou com firmeza.
–Me escute! – disse ele, mas a voz estava estranha de novo.
–COMO A DEIXOU MORRER?! – gritou furioso.
–No quarto dela. – disse Rabastan – Dentro do baú. Numa caixinha preta, de laca. Você precisa falar com... com seu pai. – Rasalas piscou, confuso – Ele vai te ensinar o feitiço que vai salvá-la. Mas você precisa ser rápido. Você só tem cinco horas.
–Do que está falando? – perguntou confuso. O comensal de morte apontou para a janela e ele viu Rodolfo e outro comensal duelarem lá embaixo.
–Lembre-se de dizer qual janela. Agora vai!
–Eu não... – murmurou, mas o comensal o olhou, com os olhos cinzentos. Tinham exatamente a mesma altura.
–Confie em si mesmo. Você conseguirá protegê-la.
–Ela morreu...
–Então mude o futuro. – disse o comensal – Você só precisa de tempo. Só não esqueça de ser precavido. Só porque eu consegui chegar aqui, não quer dizer que você vai chegar também...
Sentiu um frio lhe subir a espinha e entendeu. Se virou a toda, correndo desesperado. Precisava... precisava chegar ao Salão Comunal da Sonserina...
Não se lembrou de Damian. Não se lembrou de Remus... só queria ver sua irmã viva outra vez.
Esquivou de algumas azarações, azarou alguns comensais pelas costas, mas não se deu ao luxo de perder tempo. Não sabia para onde deveria ir. Não sabia como deveria fazer... mas só podia torcer... para que desse tudo certo.
Derrapou na escada que levava às masmorras e sentiu o coração dar um salto. Um homem enorme e barbudo, com o rosto sujo de sangue. Uma garota estava deitada no chão, com a garganta estraçalhada. Sentiu o corpo inteiro tremer de medo. Nunca tinha visto aquele homem na forma humana, mas o reconheceu assim mesmo.
Ainda tinha pesadelos com ele. Recuou alguns passos, tentando não ter um ataque de pânico. Tentando não deixar os joelhos falhar.
–Eu conheço você. – rosnou Fenrir. Rasalas negou com a cabeça, tremendo – Você é como eu... você é uma cria minha. – riu Fenrir – O que vai fazer?
Rasalas engoliu em seco.
–Você... você é...
–Eu sou Fenrir Grayback... e você está se borrando de medo. – riu Fenrir. Rasalas só conseguiu recuar mais um passo. O lobo adulto rosnou de maneira assustadora e se colocou a correr em sua direção. Seu coração acelerou, suas pernas tremeram, seu corpo se recusou a responder. O rosto sangrento e sujo de Fenrir se aproximava, como em seus pesadelos. Estava para ser atacado, quando um feitiço jogou Fenrir no chão. Ele rosnou e olhou para o lado – Sua peste... – rosnou ele. Rasalas virou o rosto e sentiu o sangue sumir de seu rosto.
Pansy apontava a varinha para Fenrir.
–Não vou deixar que chegue perto dele! – gritou ela. Fenrir se levantou e correu na direção dela. Pansy atirou de novo e de novo, mas Fenrir não pareceu sentir nenhum de seus feitiços. Ele bateu na varinha dela, a derrubando no chão e a levantou pelo pescoço.
–Eu gosto de garotinhas mais novas, mas você vai servir...
–NÃO! – gritou finalmente voltando a si e atacando Fenrir pelas costas. O lobo gritou e largou Pansy, voltando-se para Rasalas.
–Você...
–Ras, corre! – gritou Pansy. Mas Rasalas lançou outra azaração estuporante, que apenas ricocheteou.
Fenrir vinha se aproximando, fazendo careta, mas sem diminuir o ritmo. Estava nervoso e assustado. Podia se lembrar de cada pesadelo.
–Eu vou te devorar, moleque. – rosnou Fenrir. Largou a varinha, assustado, com as costas contra a parede. Estava morrendo de medo. Morrendo de medo.
–Alguém me ajude... – murmurou escorregando para o chão. Podia se lembrar daqueles olhos cor de âmbar... nunca iria se esquecer.
–RASALAS! NÃO DEIXE ELE TE MACHUCAR! – gritou Pansy. Mas não conseguia se mexer. Apenas tremia de medo, com vontade desaparecer dali – RASALAS! ACORDE!
Mas ainda estava em transe, tremendo no chão. Sentiu a mão de Fenrir segurar seu pescoço com firmeza e levantá-lo. O ar escapou e o pescoço doeu terrivelmente.
–Eu vou provar o gosto do seu sangue, garoto. – rosnou Fenrir. Rasalas fechou os olhos, em completo pânico. Mas Fenrir rosnou de novo. Olharam para trás e viram Daphne e Pansy lançando azarações. O lobo rosnou e o olhou, mostrando as unhas – Vocês querem mesmo salvar esse covarde?
Fechou os olhos, assustado. Sentiu as unhas de Fenrir em sua testa.
–NÃO MACHUQUE ELE! – gritou Pansy. Ela correu tolamente em sua direção, lançando azarações. Fenrir recuou um passo e depois outro. Ele rosnou para Pansy Parkinson e soltou Rasalas no chão, para saltar sobre ela. Escutou Pansy cair no chão com um baque surdo. Fenrir rosnou para ela e Rasalas pegou a varinha. Fenrir tomou ar, para fazer com ela o que tinha feito com Lisian Martell e Rasalas lançou o Flipendo mais forte de sua vida. Fenrir foi arremessado com tanta força contra a parede que acabou batendo a cabeça e desmaiando.
–Pansy... – murmurou com as pernas trêmulas. Andou até ela e viu que ela tinha desmaiado, por conta do ferimento na cabeça, que sangrava. Daphne se aproximou, chocada – Pansy, acorde...
–Você está bem? – perguntou Daphne. A olhou, se lembrando de quando achou que fosse morrer. Seus últimos pensamentos foram sobre ela. Negou com a cabeça.
–Alhena morreu. – disse. Daphne arregalou os olhos e tampou a boca com as mãos – Eu preciso... eu preciso... eu preciso do vira tempo... só eu posso salvar a minha irmã...
Daphne concordou com a cabeça e pegou Pansy. Ela suspirou e o olhou.
–Eu te amo... – murmurou ela – Me desculpe por tudo.
–Eu também te amo... – murmurou. Estava para beijá-la, quando ela virou o rosto.
–Não vamos fazer parecer uma despedida, ok? – pediu ela. Rasalas concordou – Volte logo.
–Vou voltar. Mas provavelmente estarei vestido de Comensal. Pegue Pansy e saia daqui o mais rápido que conseguir, ok?
–Ok. – murmurou Daphne fazendo Pansy sentar, para recuperar o ferimento.
Rasalas se levantou e olhou mais uma vez para elas. Pansy desmaiada e Daphne concentrada. Se olharam mais uma vez e então ele entrou novamente em disparada. Desceu mais um lance de escadas e finalmente chegou no Salão Comunal.
Entrou no dormitório e foi até o quarto da irmã. Já tinha perdido uma hora... uma hora inteira... saiu fuçando os pertences da irmã, jogando-os todos para cima. Por fim encontrou uma caixa de laca e a abriu. O vira tempo estava lá.
Mas não sabia como aquilo funcionava. Xingou furioso e colocou o colar, o escondendo por dentro da camisa. Voltou a correr, mas agora para voltar onde havia duelado contra o tio.
Remus estava lá, muito ferido, assim como Damian. Mas não havia sinal do corpo de Alhena. Se ajoelhou ao lado do amigo e tentou acordá-lo. Ele estava com um ferimento feio no peito, que sangrava copiosamente. Aquilo o estremeceu inteiro.
–Damian... Damian... – murmurou assustado. Olhou dele para Remus. Onde estava Dora? Colocou o amigo no colo e o levou para a Sala Precisa, mas no caminho viu um dos gêmeos, o irmão mais velho deles e o atual Ministro da magia duelando.
Foi quando tudo explodiu. Ficou zonzo, tossindo copiosamente. A poeira subia de maneira sufocante. Pegou Damian, sem entender o que estava acontecendo. Precisava de ajuda. O levou para um corredor vazio e o colocou no chão.
–Damian, acorde, por favor... – murmurou com medo. Damian abriu os olhos e fez uma careta. Ele gemeu de dor e olhou para o próprio peito.
–Ras... onde... Alhena...?
Rasalas respirou fundo e baixou os olhos. Damian o olhou horrorizado.
–Eu preciso da sua ajuda.
–Ela... ela morreu? – perguntou Damian, parecendo completamente perdido. Rasalas respirou fundo.
–Isso vai depender. – explicou mostrando o vira tempo. Damian o olhou, surpreso – Como eu uso isso? – perguntou.
–Coloque... a corrente... – ele fez uma careta de dor – Ao redor do pescoço...
–Já está. – respondeu. Damian respirou fundo.
–Cada volta... cada vez que você o girar, é uma hora que você vai voltar... – explicou Damian – E você vai estar no exato lugar em que está, quando utilizar o vira tempo... então precisa estar no lugar certo. – Damian respirou fundo e cuspiu um pouco de sangue. Rasalas pegou a varinha, tentando curar as feridas dele, mas pouco conseguiu fazer. Damian segurou seu pulso – Rasalas...
–O que? – perguntou.
–Não deixe que te vejam... – murmurou Damian – E você precisa fazer de um... de um jeito... – Damian tossiu sangue de novo e Rasalas o olhou ainda mais preocupado – Tem que parecer como aconteceu agora. Alhena tem que levar o feitiço. Você precisa dar um jeito de enganar a si mesmo... de fazer com que ela... não morra... com a azaração... ou você nunca tentaria voltar no tempo... e não a salvaria... cairia num eterno... – ele gemeu de novo, um filete de sangue escorrendo por seu queixo – paradoxo...
–Ok. – murmurou.
–Boa sorte. – disse Damian apertando sua mão – Salve a Lena...
–Você vai ficar bem, ouviu? Você vai! – disse Rasalas, engolindo em seco.
Damian concordou com um sorriso fraco.
–Vai lá... – o olhou preocupado – Eu... eu vou estar te esperando no Salão Comunal da Sonserina... leva a Lena pra lá... – concordou com um aceno de cabeça.
Rasalas se levantou e saiu correndo novamente, indo para a janela. Olhou para Damian, que estava tentando se levantar. Os dois trocaram um olhar preocupado e Rasalas pegou a varinha. Bruxos e mais bruxos duelavam lá embaixo... mas precisava chegar nos Comensais... precisava fazer isso...
–Accio. – murmurou pensando em sua vassoura. Esperou poucos segundos e a viu chegar voando. A pegou, montou em cima dela e saiu voando pela janela. Voou até os portões da escola e pousou, se escondeu dos duelos, indo até o lado de fora da escola. Pegou o vira tempo e respirou fundo.
Girou uma vez, duas, três. Três horas era o suficiente? Por precaução girou mais uma e depois mais outra. Respirou fundo e esperou. Tudo começou a acontecer de maneira esquisita. As pessoas comaçaram a andar para trás, com o tempo revertendo. Ninguém se deu conta que ele estava ali. Logo não haviam comensais ou invasores. Logo o fogo não consumia o castelo. Logo sua irmã estaria sã e salva com Damian, no salão comunal e ele com Daphne...
O sol estava para se por, quando o tempo terminou de voltar. Suspirou e mudou de forma, adquirindo a aparência de um trouxa que morava perto da casa de sua mãe. Transfigurou seu uniforme em uma capa de viagem e foi caminhando até Hogsmeade.
Sabia do toque de recolher, mas ainda teria alguns minutos. Precisava falar com o pai... mas como? Como faria isso?
Caminhou até o Endure e pediu uma cerveja amanteigada. Ficou esperando por longos minutos, até que o dono do bar o olhou desconfiado.
–Hora de fechar, senhor.
Concordou, com um aceno de cabeça e saiu do Endure. Caminhou por entre as lojas, quando viu o primeiro homem encapuzado.
–Hora de voltar pra casa. A cidade está sob toque de recolher. – rosnou o homem. Rasalas tirou o capuz e voltou o rosto ao normal.
–Eu sou Rasalas Lestrange. E eu preciso ver meu pai. É questão de vida ou morte.
*
1998
Hogsmeade
Estava sentado, amarrado, com os pulsos atados para trás. Tentava parecer calmo, mas não sabia se estava tendo sucesso. Sua varinha estava no bolso do comensal de morte que o encarava.
–Eles têm os mesmos olhos. – disse um segundo comensal – E o filho do Rabastan é mesmo metamorfomago...
–Mas... acha mesmo que devemos chamar o Rabastan? Digo... ele não quer contar o que veio fazer... – disse o primeiro. Rasalas seguia calado, apenas observando.
–Acho que devemos chamá-lo. O garoto disse que era importante.
Os dois comensais finalmente entraram em acordo. O primeiro deles se retirou e Rasalas baixou os olhos.
–Pode me soltar agora? Ou vai esperar deixar meu pai furioso? – perguntou Rasalas. O segundo comensal suspirou e concordou, o soltando. Ficou de pé, massageando os pulsos. Os minutos passaram e o primeiro comensal apareceu com três pessoas. Rasalas notou que seu pai parecia preocupado. Tio Rodolfo o olhava com desconfiança e tia Bella com desgosto – Pai...
–O que houve, Rasalas? – perguntou seu pai – Eu espero que seja importante.
Rasalas suspirou. Precisava ser convincente... queria ter tido mais dicas... olhou para o pai e engoliu em seco.
–Alhena... ela recuperou o dom. – disse. Rabastan piscou surpreso – O Lorde das Trevas disse que queria ser avisado imediatamente. Então em vim.
–Isso é ótimo. – riu Bellatrix.
–Onde ela está? – perguntou seu pai. Rasalas tentou manter-se o mais calmo possível.
–No castelo. Desmaiada. Sempre que tem uma visão mais comprida, ela desmaia. Acho que por ter ficado tanto tempo sem prever alguma coisa... acabou acumulando.
–Entendi. – murmurou seu pai. Rodolfo veio andando e colocou a mão em seu ombro, com um sorriso.
–Você fez bem, garoto. – riu o tio – Se arriscou aqui para cumprir as ordens do Lorde das Trevas. Muito bem.
–Poderia ter mandado o recado através dos Carrow. – disse Bellatrix.
Rasalas manteve o olhar para o pai.
–Eu sei, mas eu queria falar com meu pai, pessoalmente... sobre uma coisa.
–Não vai falar pessoalmente. Rabastan está sob vigilância. – murmurou Bellatrix. Rasalas entendeu perfeitamente, na mesma hora, que estavam desconfiando do jogo duplo dele.
–Ok. Como quiser... eu... eu só preciso de um conselho... – murmurou Rasalas.
–Conselho? – perguntou seu pai.
–Daphne... ela está... grávida. – disse sem pensar – E não só ela. Pansy também.
–Quem é Pansy? Quem é Daphne? – perguntou seu tio, franzindo a testa. Rasalas não tentou disfarçar o nervosismo.
–Daphne é minha namorada... Pansy é... uma aventura. – resmungou Rasalas – Acho que chá de lua não funciona tão bem assim com lobisomens. – seu pai o olhou com atenção. Só esperava que ele entendesse que estava mentindo. Que soubesse que nunca trairia Daphne... que só precisava de um motivo, para ficarem a sós – Eu preciso de uma poção abortiva, porque as duas querem ter meus filhos. As duas estão loucas, pensando no meu dinheiro e prestígio. Mesmo sendo um lobisomem, eu sou um Lestrange. – adicionou cruzando os braços.
Seu pai manteve a expressão séria. Imutável. Se perguntou se ele estava entendendo. Se ele estava sacando a verdade. Precisava que ele sacasse a verdade...
–Bem... Bella... você sabe fazer esse tipo de poção? – perguntou seu pai, tranquilamente.
–Claro que sei. – respondeu tia Bellatrix, parecendo desconfortável. Rodolfo parecia muito sem jeito também, como se aquele fosse um assunto delicado – Eu vou fazer as poções. Não queremos o lobinho procriando por ai, não é? – perguntou Bellatrix.
Rasalas se jogou na cadeira, fingindo-se de aliviado.
–Mas se as meninas querem ter o bebê, como vai obrigá-las a beber?
–Ensine Imperius para ele. – sugeriu Rodolfo.
–Eu já sei o cruciatus, Imperius não deve ser difícil. – murmurou Rasalas – Me ensina logo as três imperdoáveis. – disse com falso entusiasmo.
Rabastan concordou.
–Vamos lá na cozinha. Pegaremos uns faisões que tem lá. – disse Rabastan. Rasalas espiou o tio e o viu sentar no sofá. Andaram até a cozinha e fecharam a porta. Seu pai o olhou de maneira questionadora – Pai, não vamos ter muito tempo. – sussurrou assustado. Seu pai concordou.
–O que houve? – sussurrou ele.
–Eu usei isso. – disse mostrando o vira tempo. Rabastan o encarou, chocado.
–Onde arrumou isso? O que aconteceu para se arriscar a usar essa coisa? – ralhou seu pai – Não se brinca com o tempo, Rasalas.
–Alhena foi assassinada. – explicou Rasalas, o mais baixinho que pode – Vocês vão invadir Hogwarts. Harry vai fugir pra lá. – disse ainda mais baixo. Seu pai o olhou chocado – Eu vou ficar no castelo, para ajudar os alunos, mas os comensais vão atacar. Alhena vai vir me ajudar e ela vai ser morta... – Rasalas olhou para o pai – Por você...
–O que?
–Ou melhor, por mim. – disse pensando a respeito. Viajar no tempo era complicado.
–Como assim?
Rasalas respirou fundo.
–Eu achei que era você... estava com tia Bella e tio Rodolfo. Nós vamos duelar, e a pessoa que eu julguei ser você vai matar Alhena. – explicou – E então eu e essa pessoa vamos duelar contra Rodolfo e ele vai pular pela janela... e lá embaixo vai ter outro comensal esperando por ele... e o comensal que me ajudou a lutar contra Rodolfo, o comensal que matou a Lena... ele vai me falar sobre o vira tempo e vai me mandar pra cá... ele disse que você me ajudaria com o feitiço que salvaria a Lena.
Rabastan o olhou um tanto perdido. Tentando entender o que estava acontecendo.
–Como Alhena ficou? – perguntou ele. Rasalas piscou.
–Morta. Ela parecia morta.
–Ela ficou fria?
–Sim.
–E o feitiço era verde? – perguntou Rabastan. Rasalas concordou – Ok... há um feitiço perigosíssimo que parece o Avada Kedavra... que faz a pessoa morrer mais lentamente. Mas sua irmã vai sentir muita dor.
–Ela não parecia sentir dor... ela parecia morta.
–Sim. É o feitiço que transforma as pessoas em Inferi. – explicou Rabastan – Ao usar isso em alguém que esteja vivo... mata aos poucos. Eu não sei as sequelas que vão deixar e você vai ter muito pouco tempo para lançar o contra feitiço. Menos de dois minutos. – explicou Rabastan – Precisa fazer Rodolfo pular pela janela antes que o tempo acabe.
–Porque você não faz isso? Eu te entrego o vira tempo. – disse pegando o artefato mágico, mas o pai o segurou com vigor.
–Não! Está vendo a poeira que está caindo? – perguntou Rabastan apontando para a ampulheta do vira tempo. Rasalas concordou – Enquanto ela não terminar de cair, você não pode tirar o vira tempo.
–Tudo bem. Eu te falo onde está o vira tempo e você me fala depois...
–Não, Rasalas. – explicou Rabastan – Não fui em quem duelou com Rodolfo. Se mudarmos, vamos causar um paradoxo. E não existe coisa alguma mais perigosa que o paradoxo temporal. Vai ser um desastre. Você pode eliminar o seu futuro, o meu ou o da sua irmã... Tem que ser você...
–Mas... mas eu não posso duelar comigo mesmo. E se eu me matar? – perguntou Rasalas, assustado – E se Alhena me matar e eu não conseguir usar o feitiço nela?
–Você sabe que consegue. Você já conseguiu.
–Mas... mas a pessoa disse que só porque ela conseguiu, não era certeza de que eu conseguiria também...
–Então precisa se precaver. – murmurou Rabastan. Seu pai o olhou e soltou um suspiro – Eu vou te ensinar a maldição. Temos muito pouco tempo.
–E se eu não conseguir? – perguntou assustado.
–Alhena depende disso, Rasalas. – explicou seu pai sacando a varinha. Rasalas concordou e notou que não tinham devolvido a sua, mas seu pai pegou outra varinha do bolso e lhe entregou. Só então a reconheceu como sua. O outro comensal deve ter entregue pra ele – Vamos. Não temos tempo.
–Ok... – murmurou.
E era muito difícil... seu pai matou um faisão e o ressuscitou, fazendo o animal andar de maneira desordenada. Mas então lançou o contra feitiço e a ave caiu no chão. Rasalas tentou, mas não conseguiu reproduzir. Tentou de novo, de novo e de novo. Mas ainda assim não conseguiu. O faisão continuava imóvel.
Começou a entrar em pânico e seu pai murmurou palavras acalentadoras.
–Vamos, Rasalas. Concentre-se. Acalme-se. Discipline-se.
Respirou fundo, tentando de novo e de novo.
E uma hora quase inteira se passou, quando seu tio entrou.
–Potter. Ele foi visto em Hogsmeade. – disse Rodolfo. Rabastan acenou com a cabeça.
–Hora de colocar o uniforme. – respondeu Rabastan – Eu já vou. – ele se virou para Rasalas – Fique aqui. Não volte para o castelo, entendeu?
–Claro. – respondeu, sentindo o corpo tremer.
Rodolfo saiu da cozinha e Rabastan conjurou seu uniforme.
–Tome muito cuidado. – disse. Rasalas concordou e mudou de forma, adquirindo a aparência do pai. Vestiu o uniforme e colocou a máscara. Seu pai sorriu e apontou para a porta. Rasalas respirou fundo e caminhou para fora. – Só mais uma coisa, Rasalas. – murmurou seu pai. Se virou e ele pegou seu braço, apontando a varinha. Sua tatuagem falsa queimou dolorosamente. Se perguntou se ela sairia depois – Se minha tatuagem arder, a sua vai arder também... por qual janela Rodolfo vai pular?
–Terceiro andar... em frente a casa do Hagrid...
–Certo. Agora vá. Tome cuidado.
Rasalas concordou e abraçou o pai. Depois se virou e saiu para a sala. Seu tio e sua tia já o aguardavam, ambos com o uniforme e as máscaras. Soltou um suspiro e tentou parecer calmo, como se eles pudessem ver seu rosto.
–Vamos? – perguntou Rodolfo. Apenas acenou que sim, com a cabeça – Hogsmeade está sob encantamento. É impossível aparatar daqui. Temos que andar até Hogwarts.
Não ligou. Não era tão longe, afinal... e não era um caminho desconhecido, também...
Foi caminhando lentamente, ao lado dos tios, sentindo o estômago revirar. E se não conseguisse? E se não conseguisse trazer a irmã de volta? E se ela morresse? E se algo terrível acontecesse com ela? Ela se tornasse um cadáver vivo, com o desejo de findar toda a vida que encontrar pela frente?
Engoliu em seco, desejando ser mais corajoso. Desejando ser mais habilidoso... desejando ser mais confiante...
Mas parecia que parte de si mesmo tinha morrido com Alhena, no momento que a vira desmaiada... ou pior... morta.
Tentou não pensar naquilo e seguiu o os tios para onde o Lorde das Trevas estava. Desejou que ele não notasse a diferença. Desejou que não tentassem ler sua mente. Desejou ter dado ao menos um beijo em Daphne... desejou ter escutado seus amigos e nunca ter resolvido ficar em Hogwarts.
Mas já não havia mais tempo para arrependimentos. Tinha uma missão para cumprir... Damian estava contando com ele...
*
Damian se arrastou fracamente. Seu uniforme da Sonserina acabava ajudando-o a não ser atingido, mas sabia que não seria o suficiente. Seu uniforme não iria arrastá-lo para o Salão Comunal. Estava em frente ao saguão das ampulhetas, onde os pontos das casas eram marcados, quando viu uma garota da Corvinal, com a garganta estraçalhada, mais ou menos da mesma maneira que Lisian Martell tinha ficado.
Desviou o olhar e seguiu se arrastando, sentindo uma terrível dor no peito. Estava sangrando muito... precisaria de muitas pílulas sanguíneas, cataplasmas regeneratórios e feitiços de cura. Puxou o pé com muito esforço e os joelhos cederam.
Sua visão estava turva. Estava muito fraco... se perguntou se Rasalas conseguiria salvar Alhena... nunca deveria tê-la deixado voltar. Deveria ter estuporado a garota pelas costas e lidar com o fato de que ela nunca iria perdoá-lo...
Suspirou e tentou se puxar mais para frente, quando sentiu mãos em seus braços.
–Damian... – murmurou Daphne. Era a voz dela – Vem cá, eu te ajudo. – disse ela. Gemeu de dor e a olhou – Mobilicorpus. – seu corpo ficou leve e Daphne o carregou facilmente – Precisamos deixar o castelo... você está sangrando tanto...
–Me leve... para o dormitório. Por favor... – murmurou – É muito importante.
–Precisamos deixar o castelo...
–É muito importante. Por favor... – gemeu de dor. Daphne suspirou e o ajudou a se mover. – Depois você precisa sair... Rasalas vai ficar desesperado se souber que ainda está aqui...
–Eu sei... eu estava ajudando Parkinson... ela voltou por Rasalas.
–Mesmo?
–Sim... ela estava ferida. Eu fiz o que pude por ela e a levei pro Salão Comunal. Estava para ir embora, quando te vi.
Damian concordou com um aceno de cabeça.
–Entendi.
Caminharam em silêncio, e quando chegaram no Salão Comunal, viu que uns dois alunos da Sonserina estavam ali, ambos feridos. Um deles era Pansy Parkinson. O outro era Greg, que parecia completamente ausente.
Não prestou muita atenção neles, apesar de estar um tanto surpreso por Greg não ter ido embora. Daphne o ajudou a descer as escadas e o levou para o dormitório. Ela o ajudou a deitar na cama e o olhou preocupada.
–No meu malão... um baú de madeira, do tamanho de um estojo de manutenção de vassouras. – murmurou fazendo careta, sentindo muita dor. Daphne obedeceu, indo até seu malão e o abrindo. Ela mexeu um pouco nas coisas e por fim trouxe a caixa. A abriu e tirou de lá algumas pílulas sanguíneas – Me ajuda a tirar a camisa. – pediu colocando as pílulas na boca. Daphne o ajudou e ele tirou um pote cheio de uma pasta creme – Lava meu machucado e passa isso...
–Oh, Damian... não sei se vou ter estômago...
–Por favor... está doendo demais. – lamentou. Daphne respirou fundo e sacou a varinha, fazendo um jato de água sair da ponta. Rosnou de dor, enquanto ela o limpava, tirando os pedaços de sangue seco que estavam presos em sua pele. Seu ferimento ainda sangrava bastante, mas Daphne foi aplicando a pasta cremosa nele, arrancando mais rosnados de dor. – Agora... agora pega o pote amarelinho... aquele redondinho.
–O que é isso? – perguntou ela.
–Essência de murtisco. – explicou Damian – É para dor. – explicou – Coloca numa gaze e pressiona contra o machucado... mas não economiza na hora de molhar a gaze.
–Ok, ok. – murmurou Daphne, com as mãos trêmulas. Ela fez como ele instruiu e ele sentiu uma grande coceira no ferimento, que logo foi ficando menos dolorido.
–Agora... o dínamo... pega o dínamo. Faz a mesma coisa. – explicou ainda enfraquecido.
–Ok. Ok...
–Meu braço direito está quebrado... sabe reparar ossos?
–Sei. – respondeu ela, molhando outra gaze com dínamo. Ela colocou em seu ferimento, que fechou de leve. Ela pegou um rolo de gaze e prendeu o chumaço molhado com dínamo contra o ferimento, enrolando a gaze em seu peito. Depois ela olhou para seu braço quebrado e murmurou o feitiço para repará-lo. Sentiu o corpo menos tenso e mais aliviado, com a diminuição da dor – Precisamos deixar o castelo...
–Não... não posso. – murmurou – Preciso... preciso esperar pela Lena.
–Damian... – murmurou Daphne, com a voz repleta de dor. Ela segurou sua mão e o olhou com os olhos cheios de água – Alhena está... morta.
–Não! – lamentou ele – Rasalas vai trazê-la de volta. Eu sei que vai. – disse sentindo medo. Lembrou-se de como tinha estado com ela pouco antes do ataque. Deitado naquela cama, aos beijos, sorrisos e carícias... – Ele vai... eu sei que vai...
–Damian. Rasalas não pode ressuscitar os mortos. – explicou Daphne. Damian fechou os olhos, virando o rosto.
–Ele vai vir. Ele tem que vir. Eu prometi que iria esperar aqui. Eu vou esperar aqui...
Lembrou-se de seu sonho. Aquele sonho agourento, olhando para sua placa... sem o rosto de Alhena... apenas sua caligrafia em caneta... o nome dela, sem ser entalhado... o que significava que ela nunca se casaria com ele. Que ela nunca seria sua esposa...
O que significaria o fim do seu sobrenome... nunca casaria com outra pessoa que não fosse Alhena. Tinha jurado isso para ela e para si mesmo...
Daphne suspirou e se levantou, para se sentar na cama de Rasalas. Ela apertou o travesseiro dele e fechou os olhos, perdida em medo... não a culpava. Olhou para o lado e viu a câmera. A pegou, junto com os headphones e a ligou. Colocou o headphone e rebobinou a fita. Foi quando notou que não tinha desligado a câmera. Ela tinha continuado filmando...
Apesar de não conseguir ver coisa alguma do sexo que tivera com Lena, podia ouvir os vários “eu te amo” que ambos tinham dito. Isso o fez se sentir desesperado. Seria aquilo uma despedida? Um adeus? Apertou os lábios, sentindo medo... sentindo que... que talvez a vida ficasse um pouco menos sem cor, agora que não veria os olhos verdes de Alhena. Segurou a câmera, escutando os muitos eu te amo que tinha dito pra ela. Fechou os olhos gostando de ouvir a voz dela, revivendo aquele momento que tinham tido.
Mas logo as palavras românticas acabaram e ele escutou os gemidos. Os gemidos deram lugar para respirações ofegantes, risadas e mais juras... depois o silêncio... silencio até que escutou uns sons, como se alguém tivesse pego a câmera. Mas seguiu de olhos fechados, sentindo-se terrivelmente vazio.
“Olá meu amor.” Piscou, reconhecendo a voz de Alhena. Olhou pela câmera e viu que ela estava se filmando, com um sorriso feliz “Eu senti muita saudade de você...” Ela suspirou, com um sorriso doce. O mais doce de todos os sorrisos da terra “Eu... eu não sei como consegui ficar todo esse tempo sem você... acho que eu estive louca durante todo esse tempo... é a única explicação que eu tenho.” Ela suspirou “Eu te amo tanto, Damian...” Soltou um soluço e precisou interromper o vídeo, para respirar fundo. Voltou um pouquinho a gravação e voltou a reproduzir “Eu te amo tanto, Damian...” repetiu Alhena. Mais uma vez voltou um pouco “Eu te amo tanto, Damian...” sentiu um terrível aperto no peito. Um medo terrível... “Tempos difíceis estão pra vir... por conta da guerra... e eu não posso mais ver o futuro... eu não posso mais dizer, com certeza, se tudo vai ficar bem... se nós vamos ficar bem... mas eu gosto de pensar que vamos... que vamos ser muito felizes... felizes como costumávamos ser antes que todas aquelas coisas ruins acontecessem...” ela fez uma pausa e suspirou. Depois o olhou e sorriu. Ela o beijou na testa e se ajoelhou na cama, ao seu lado. A coberta caiu por seu corpo, escondendo apenas de sua cintura para baixo, mas só conseguia olhar nos olhos dela... “Lembra quando escreveu uma música pra mim? No ano passado?” ela sorriu calmamente “Eu escrevi uma pra você também... queria cantar pra você, mas... mas eu tenho vergonha... então... então vou cantar para a câmera, ok? Eu... eu espero que goste.”
Alhena respirou fundo.
“I love this place, but it's haunted without you. My tired heart, is beating so slow... Our hearts sing less than we wanted. Ours hearts sing 'cause we do not know... We do not know...”
Ela tinha uma voz angelical. Uma voz doce e meiga, que o fez ficar completamente arrepiado. Sorriu para a gravação, sentindo o coração bater acelerado.
“To light the night... To help us grow... To help us grow... It is not said... I always know...”
Lembrou-se de uma vez, quando eram muito novos… na casa de Draco… a primeira vez que a beijara... naquela brincadeira da garrafa... quando a deitou no chão, apenas para fazer graça e implicar com Rasalas... naquela época, nem sonhava que Alhena começaria a gostar dele e muito menos que começaria a gostar dela. Sempre a achara legal, mas nunca achou que ela despertaria seu interesse...
“You can catch me. Don't you run. Don't you run. If you live another day, in this happy little house... The fire's here to stay.”
Damian respirou fundo, lembrando-se de quando a viu novamente, antes do quinto ano... lembrou-se do sorriso dela. Lembrou-se do olhar dela... foi ali que finalmente notou os próprios sentimentos... naquele dia... E pensar que se tivesse sido um pouco menos impulsivo... poderia ter beijado Alhena naquele dia... Talvez até teria feito com que ela voltasse para Hogwarts mais cedo...
“To light the night. To help us grow. To help us grow. It is not said... I always know...”
Coçou os olhos, sentindo-os arder.
“Please don't make a fuss... It won't go away, the wonder of it all... The wonder that I make... I am here to stay...” ela olhou diretamente para a câmera e depois para ele, que estava dormindo na filmagem. “I am here to stay... Stay”
Desligou a câmera e a colocou no pé da cama. Não aguentaria continuar assistindo. Ficou olhando para a porta, esperando Rasalas chegar. Ele precisava chegar... precisava chegar com Alhena... com aquele sorriso insolente, fazendo piadinha por ser tão sortudo...
–Cadê você, Rasalas...
***
Caminhou com os tios, ainda fingindo ser seu pai. Precisava duelar com seus colegas e isso o deixou extremamente angustiado. Mas pensava em Alhena e continuava avançando em silêncio. A imagem de sua irmã, deitada no chão, estática, com os olhos esbugalhados... aquilo ainda o assustava terrivelmente...
Seguiu duelando, abrindo caminho, se sentindo péssimo por enfrentar seus próprios colegas, mas ficando menos culpado, pensando que apenas estava estuporando-os... não machucaria ninguém.
Foi guiando os tios pelos corredores, tentando chegar onde vira Dolohov lutando contra Remus. Virou no corredor e se encontrou duelando ao lado de Remus. Lupin já estava no chão e Damian e Alhena apareciam, correndo para ajudar. Viu a irmã, viva, duelando e isso o deixou mais aliviado.
–Para trás. – disse Dolohov – Vocês são os filhos de Rabastan. Não quero machucar vocês.
–Não vai machucar Lupin sem passar por mim primeiro. – disse sua versão do passado. Rasalas ficou um tanto chocado ao ver a si mesmo. Era simplesmente muito estranho. Seu cérebro se recusou a responder. Ficou se encarando, tendo medo do que viria a acontecer...
Dolohov voltou a brandir a varinha, assim como Bella e tio Rodolfo. Ficou observando a si mesmo, lançando olhares cheios de expectativas para sua versão disfarçada.
–Eu sabia que não teria coragem para nos seguir. – disse Bellatrix.
–Eu vou matá-lo, você não merece meu sobrenome. – rosnou Rodolfo. Ficou apenas calado, se perguntando se seu pai faria algo a respeito. Ele o defenderia como da última vez, se fosse fiel à causa? Ou preferiria matá-lo, para poupá-lo de uma morte violenta.
Se perguntou como seria se Alhena tivesse se tornado uma Comensal mesmo... se teria coragem de matá-la. Se um dia ela tivesse se tornado uma comensal e matado Daphne... teria coragem de fazer o que seu pai iria fazer em breve? Observou as costas do tio e desejou que nunca criasse inimizade com Alhena... que fossem pra sempre amigos... pois sabia que seu pai e seu tio tinham sido amigos de verdade, numa época passada... sabia pois a bolha de tio Rodolfo era repleta de lembranças com seu pai...
Acordou de seu torpor quando Damian gritou, atingido por uma maldição de Bellatrix. Escutou a si mesmo gritar, observando o amigo cair ferido, a camisa cada vez mais suja de sangue.
E Alhena... ela parecia aterrorizada, mas não se desconcentrou de Dolohov.
Foi quando Dora apareceu. Ela se jogou ao lado de Remus e o olhou assustada.
–Remus! Remus! – chorou ela, mas Lupin não respondeu. Seguiu de olhos fechados e imóvel. Agourentamente imóvel...
–Nymphadora Lupin... – riu Bellatrix, retirando a máscara. Dora se levantou com a varinha em punho – Hora de limpar essa mancha terrível que suja a honrada casa dos Black.
As duas seguiram duelando e Rasalas seguiu observando a si mesmo e à irmã, duelando contra Rodolfo e Dolohov. Quando Alhena finalmente derrubou Dolohov, se lembrou que era sua vez de entrar na dança. Avançou sobre ela, com a varinha em punho. Encarou a irmã e ela o olhou no fundo de seus olhos. Se perguntou se ela imaginava quem era ali... se imaginava que era seu pai... ou se sequer sonhava que era o próprio irmão...
Começou a duelar pela primeira vez com Alhena e se impressionou com a perícia dela. Ela duelava muito bem, mas não tão bem quanto ele, como ela sempre afirmou que seria. Desviou as azarações dela, prestando atenção em tudo. Precisava desarmá-la e esperar a azaração de Rodolfo... e então teria uma chance. Uma chance de não errar... uma chance de salvá-la.
Alhena o olhava centrada, concentrada, mas vez ou outra desviava o olhar para seu “eu” do passado. Ele tinha aquele sorrisinho irritante, que todo mundo dizia que ele tinha. Concluiu que não era exagero e jurou que nunca mais ficaria rindo daquele jeito enquanto duelasse com alguém.
Rodolfo fez um feitiço escudo, mas seu eu do passado o quebrou com uma azaração.
–Tome isso! Há! – gritou seu eu do passado. Viu Alhena arregalar os olhos e parecer verdadeiramente assustada. Ela o olhou em pânico e ele aproveitou o momento para desarmá-la. O olhar dela caiu sobre o dele, completamente aterrorizado. Ela parecia saber que algo horrível iria acontecer. Não perdeu tempo e lançou a maldição que seu pai tinha ensinado, mas seu eu do passado defendeu Alhena com um feitiço escudo. – Por que não pega alguém do seu tamanho, heim? Seu saco de bosta de dragão!
–Cale-se! – disse desesperado, tentando imitar a voz de seu pai, mas falhando miseravelmente por conta do nervosismo. Rodolfo o encarou, confuso e ele viu seu eu do passado ficar um tanto nervoso, como se acabasse de se dar conta de que não era Rabastan ali... que aquela pessoa que estivera duelando contra Alhena não era seu aliado...
–Não vou calar! Eu sou Rasalas Lestrange e eu vou... – Rodolfo seu eu do passado, que fez um escudo para se defender. Mas a magia do tio foi mais forte. Era horrível de ver. A si mesmo, lento, travado, duro, com aquele olhar surpreso. Aquele olhar que sabia que o jogo tinha acabado. Que era questão de tempo até que sua vida findasse.
E o que pareceu durar uma eternidade, pareceu durar um segundo. Rodolfo brandiu a varinha para matá-lo, mas se moveu mais rápido ainda, jogando a azaração em si mesmo.
–RASALAS, NÃO! – gritou Alhena correndo e se jogando no meio. Tanto a irmã, quanto ele mesmo caíram no chão. Respirou ofegante, assustado, com medo. Ela não se moveu. Ficou estática, olhando o teto, sem piscar... sem respirar. Parecendo simplesmente morta. Teria apenas dois minutos... dois...
–Não... – escutou a si mesmo murmurar, engatinhando para Alhena – Lena? – viu a si mesmo abraçar a irmã – Lena? Não... não... não...
Apontou a varinha para seu eu do passado, tendo medo de não ter conseguido.
–Vai ter coragem? – perguntou Rodolfo – Estou surpreso, irmãozinho.
Se virou e atacou Rodolfo. Logo sua versão do passado o ajudou. Rodolfo o olhou com um olhar traído e magoado, mas não ligou a mínima. Viu o tio acertar sua versão do passado e então pular pela janela. Precisava ser rápido. Precisava ser muito rápido... viu a si mesmo prestes a pular a janela para ir atrás do tio, mas o segurou.
–Me escute. – disse sem conseguir imitar a voz do pai.
–COMO A DEIXOU MORRER?! – gritou sua versão do passado. Era tão estranho. Tão esquisito...
–No quarto dela. – disse desistindo de imitar a voz do pai – Dentro do baú. Numa caixinha preta, de laca. Você precisa falar com... – se interrompeu quando quase disse “nosso pai” – com seu pai. – recebeu um olhar muito confuso de si mesmo – Ele vai te ensinar o feitiço que vai salvá-la. Mas você precisa ser rápido. Você só tem cinco horas.
–Do que está falando? – perguntou sua outra versão. Bufou por ser tão lerdo para entender as coisas. Apontou para a janela, para o gramado, onde seu pai duelava contra seu tio.
–Lembre-se de dizer qual janela. Agora vai!
–Eu não...
–Confie em si mesmo. Você conseguirá protegê-la.
–Ela morreu... – murmurou seu outro eu, parecendo perdido, triste, confuso.
–Então mude o futuro. – disse impaciente – Você só precisa de tempo. Só não esqueça de ser precavido. Só porque eu consegui chegar aqui, não quer dizer que você vai conseguir chegar também.
Seu outro eu pareceu entender o que queria dizer. Ele se virou e saiu correndo, deixando Remus, Damian e Lena para trás.
Correu até a irmã e ficou de joelhos. Lançou a contra azaração, mas ela não respondeu.
–Lena? – perguntou tirando a máscara e voltando ao normal. Mas Alhena parecia morta do mesmo jeito. Na verdade, parecia pior. Como se estivesse esverdeada. Soltou a contra azaração de novo e Alhena fechou os olhos, soltando um gemido cheio de dor – Lena? Fale comigo! – pediu desesperado.
Mas ela não parecia que conseguiria falar. Estava fria, muito fria. Precisava de ajuda. A pegou no colo e correu com ela, pelos corredores, evitando de ir pelo mesmo lugar que tinha ido antes. Mas a verdade era que não sabia para onde ir ou para quem pedir ajuda.
–Ras... – chamou Alhena. A olhou assustado. Ela estava de olhos fechados.
–Lena? Lena? – chamou, mas ela não respondeu. Apenas ficou ainda mais mole, como se desmaiasse. Aquilo o desesperou por completo. Caiu de joelhos e a sacudiu – Alhena! ALHENA! – gritou desesperado – Não me deixe, Lena... não me deixe. – chorou a sacudindo. Mas ela não respondeu. Fungou, desesperado e tentou sentir os sinais vitais dela. Ela ainda respirava e o coração batia... mas ela estava muito fria. – Por favor, maninha... por favor... – chorou desesperado. Mas ela não respondeu.
Se levantou, a levando no colo mais uma vez. A mão dela balançava molemente, sem vida. A pele estava esverdeada aqui e ali. Correu com a irmã, até a Ala Hospitalar. Gritou por Madame Pomfrey, mas ela não apareceu. Deitou Alhena na cama e foi olhar os frascos que tinham ali. Elixires de cura, elixires da euforia... encontrou antídotos e benzoar. Pegou tudo e foi tentando dar para a irmã.
–Vamos, Lena... vamos... – murmurou. Os elixires da euforia eram absorvidos pela pele. Então os jogou sobre as roupas dela. Depois pegou o de cura e jogou na boca dela. O mesmo fez com o benzoar, o colocando bem no fundo de sua garganta. Com a varinha a fez engolir – Acorda, Lena... acorda, por favor. – disse desesperado. Usou a contra azaração mais uma vez e depois outra e depois mais outra. Mas Alhena seguia desacordada – Aquela azaração era pra mim, sua burra... – chorou aos soluços – Eu sou um lobisomem... eu iria sobreviver... eu teria mais chances... por que pulou em cima de mim? Por que? – perguntou aos prantos. Segurou a mão dela e a apertou – Você é minha irmãzinha... eu deveria cuidar de você... eu deveria salvar você... – disse desesperado – Mas vai ser minha azaração que vai te matar...
Aquela era a mais assustadora verdade. Alhena estava morrendo... e a mão que errara o feitiço... tinha sido a dele.
****
Lançou mais um feitiço e depois mais outro. Mas Rodolfo os defendeu.
–Qual o seu problema, Rabastan? O que está acontecendo? – perguntou Rodolfo, confuso – Você estava lá em cima!
–Estava? – riu Rabastan. A luz da compreensão iluminou Rodolfo e ele rosnou.
–Rasalas... era ele. Por que? – perguntou Rodolfo.
–Para te tirar do seu cão de guarda. Para te afastar de Bellatrix. – riu Rabastan – Não me diga que está surpreso, Rodolfo. Eu estou dizendo que vou te matar há tempos. Achou que eu estava blefando?
–Vai tentar me matar por conta de uma mulher? – Rodolfo cuspiu no chão – Patético. – Rodolfo sorriu de maneira detestável – E a foda nem foi tudo isso.
Sentiu o sangue ferver e atacou o irmão, furioso. Não pegaria leve. Daria tudo de si, mas Rodolfo era um excelente duelista. Ele conjurou chamas negras e quase não conseguiu desconjurá-las. Rabastan conjurou vidros afiados, em formas de faca, lançando-os contra o irmão, que os transformou em areia.
Escutou seu irmão gargalhar e lhe lançar uma azaração, mas a desviou.
–Ela te contou como eu mordisquei aquelas tetinhas dela? – perguntou Rodolfo. Rabastan bufou e avançou, soltando a maldição da morte. Mas o irmão simplesmente as desviou – Ela te contou como ela chorou, feito uma sonsa? – riu Rodolfo. Rabastan gritou, desviando as azarações. Rodolfo lutava para matá-lo. Ele conjurou as chamas negras novamente e Rabastan girou a varinha para desconjurá-las novamente. Ficaram perto um do outro, com as varinhas quase a se tocar – Ela contou o quanto ela ficou molhadinha enquanto eu enfiava meu pau nela?
–Cale essa boca! – rosnou Rabastan, o atacando com uma azaração de cortes, mas o irmão desviou a azaração novamente, gargalhando.
–Já passou pela sua cabeça, que Rasalas e Alhena podem ser meus filhos e não seus? – perguntou ele. Rabastan sentiu um frio na barriga e a azaração de Rodolfo quase quebrou seu escudo. Se desequilibrou, caindo de joelhos, mas desviou a próxima azaração, ficando de pé – Já pensou nisso, irmãozinho?
–As datas não batem! – rosnou Rabastan.
–Gêmeos costumam nascer prematuros, sabe? – riu Rodolfo – Já perguntou alguma vez se Rasalas nasceu com o cabelo castanho ou vermelho?
–Cale essa boca! – rosnou Rabastan. Rodolfo gargalhou novamente e o atacou de novo e de novo. Rabastan foi recuando, desviando os feitiços e soltou raios da ponta de sua varinha. Rodolfo fez o mesmo e os feitiços se chocaram fazendo barulho.
–Já pensou se seu amado Rasalas e sua amada Alhena forem, na verdade, meus? Heim? O que seria bem plausível... afinal... Eles são realmente interessantes, e você é um bostinha traidor.
–CALE ESSA BOCA! – gritou lançando uma azaração para jogá-lo longe. Rodolfo fez um feitiço escudo, mas não foi o suficiente e ele recuou alguns passos. Rabastan atacou de novo e de novo.
–Está zangadinho, Rabastan? Você é uma vergonha. É isso o que você é! – rosnou Rodolfo – E pensar que eu amei você, protegi você, guiei você... mas você deu as costas pra mim... por conta de uma boceta doce.
–AVADA KEDAVRA! – gritou furioso, mas Rodolfo desviou a maldição e lhe lançou outra azaração. Tentou fazer um feitiço escudo, mas não deu tempo. Seu braço foi para trás com força e sentiu uma dor imensa no ombro.
–Era doce sim. Eu me lembro. – riu Rodolfo se aproximando com um sorriso sadista – Como uma manga... era de lamber os dedos. – Rabastan o olhou furioso e passou a varinha para a mão esquerda. Fez o braço voltar ao normal e voltou para a posição original de duelo, ignorando a dor terrível no ombro – E os gemidos dela... oh... os gemidos, com os soluços... eu adoro quando elas gemem soluçando. Perguntando: por que? – ele lançou outra azaração, que Rabastan defendeu e contra atacou. Mas Rodolfo desviou a azaração, jogando-a contra uma árvore, que começou a pegar fogo – Não é óbvio a resposta? É simplesmente porque eu quero. Porque eu gosto do olhar de medo, de vergonha. Já recebeu um olhar desses de alguém, Rabastan? – perguntou Rodolfo sorrindo – Aquele olhar assustado e em pânico? Eu realmente achei que os Grifinória dariam mais trabalho. Mas não... foi fácil... acho que ela até queria. Acho que ela até gostou. – o atacou novamente, furioso. Cego de ódio, mas Rodolfo gargalhou e desviou as azarações com facilidade – Acho que ela queria até mais. Mas eu não tinha ido lá pra dar prazer praquela vagabunda imunda. Eu tinha ido para dar um recado. Para dizer que ela não estava a sua altura... então eu a machuquei um pouquinho. – riu Rodolfo – A fatiei que nem um peru de natal.
–CALE ESSA BOCA, RODOLFO! – gritou furioso, tentando azará-lo, mas Rodolfo o desarmou antes. Com outra, o jogou longe. Bateu as costas contra um tronco de árvore. Rodolfo foi se aproximando com um sorriso vitorioso. A varinha na mão. Pensou em Rasalas, em Alhena, em Rigel e em Polaris. Pensou em Emily. Pensou até mesmo em seu pai e sua mãe. Por um momento até se lembrou daquela época, onde Rodolfo o carregava nas costas, arrancando gargalhadas. Olhou para ele e não se moveu. Rodolfo brandiu a varinha e estava para matá-lo, quando outro feitiço o atingiu. Olhou para o lado e viu Emily. – Emms! Sai daqui! – gritou completamente desesperado. Mas Emily seguiu duelando contra Rodolfo, de maneira quase torpe. Ela nunca duelara bem.
–Sua porca. Veio aqui pra morrer? – perguntou Rodolfo. Emily lançou duas azarações, que erraram Rodolfo – Você tem mais chance de me acertar se eu ficar tentando desviar. Você é uma vergonha, Valentine.
Rabastan se levantou e correu até sua varinha, enquanto Emily tentava conter Rodolfo. Ela jogava pedras nele, as aumentava de tamanho, para aumentar o impacto, encantava galhos e outras coisas, para avançarem nele. Ela era uma boa feiticeira, mas não tinha malícia para duelar. Rodolfo queimou todas as coisas que ela lançou e lhe soltou uma azaração, que Emily impediu com um feitiço escudo, muito forte. Tão forte que fez Rodolfo perder o equilíbrio.
–Isso é por ter me batido, Rodolfo! – rosnou Emily. Ela o desarmou e fez com que um galho particularmente grande o acertasse na cabeça – Isso é pelos meus pais. – Rodolfo caiu no chão e ela o acertou de novo – E isso por meu irmão! – chorou ela o acertando com a madeira de novo. Rodolfo rosnou de raiva.
–Eu te mato, Valentine.
–Isso é por Rabastan e por mim! – gritou ela o acertando com a madeira de novo. Mas Rodolfo se virou e segurou a madeira. Rabastan se aproximou e transfigurou a madeira em uma serpente.
–Morra, Rodolfo. – rosnou Rabastan. A serpente mordeu Rodolfo no pescoço. Uma, duas, três vezes. – Splintermotalus.
Rabastan viu o irmão olhá-lo surpreso. Sangue começou a sair de todos os poros a medida que partes dele se transformavam em vidro. Víceras, veias, músculos... a dor era imensa. Mover-se causava dor e agonia, pois os farelos de vidro se espalhavam mais e mais, cortando cada vez mais. Mas não havia o que fazer por ele.
–Perdão... – murmurou Rodolfo o olhando com a certeza de que iria morrer. Rabastan entrelaçou a mão com a de Emily.
–Não. – rosnou – Morra.
Rodolfo engasgou, cuspindo cacos de vidro com sangue. Sua cabeça pendeu no chão e ele ficou choramingando aos soluços, morrendo aos poucos, afundado em dor.
Fechou os olhos, se recusando a se lembrar da infância. Emily o abraçou e ele a abraçou de volta.
–Onde estão Rasalas e Alhena? – perguntou Emily.
–O que você está fazendo aqui? – perguntou ele, zangado.
–Salvando a sua vida. – respondeu ela – Onde estão os nossos filhos? – perguntou Emily. Rabastan olhou pela janela que Rodolfo tinha saltado.
–No castelo...
–Eles não fugiram? – perguntou Emily, o olhando com preocupação.
Rabastan soltou um suspiro.
–Não...
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