Legado Lestrange
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Notas iniciais

1998
Hogwarts
O silêncio só foi rompido pela voz do Lorde das Trevas, que ecoou magicamente por todo o lugar.
“Vocês lutaram bravamente. Lorde Voldemort aprecia a bravura. Vocês estão feridos e cansados. Posso ser misericordioso. Ordeno aos meus homens que recuem. Voltem. Agora, cuidem de seus mortos e feridos... Vocês tem uma hora... E agora... Eu me dirijo especificamente a você, Harry Potter. Você permitiu que outros lutassem e morressem por você. O que é isso se não covardia? Estarei te esperando, Harry Potter, na orla da Floresta Proibida. Se você não aparecer em uma hora então a batalha recomeçará. E eu entrarei no combate e matarei qualquer homem, mulher ou criança que ousar esconder você de mim. Eu não quero isso. Não quero machucar ninguém. Acho um desperdício de sangue mágico. Portanto, espero por você, Harry Potter.”
Rasalas levantou a cabeça da cama. Secou as bochechas e olhou para a irmã, que parecia dormir. Algumas partes de seu rosto estavam coradas, mas os braços dela tinham uma ou duas manchas grandes e esverdeadas.
Mas ela parecia mais saudável.
A pegou no colo e saiu finalmente da Ala Hospitalar. Caminhou pelo castelo vendo morte em todo o lugar. Alunos, adultos desconhecidos, comensais e salteadores. Caminhou, descendo as escadas, topando com escombros, com destruição, com sangue nas paredes.
O cheiro de morte era horrível. Pairava por tudo e todos... como se aquela poeira que pairava no ar fosse o manto negro e fantasmagórico de um gigantesco dementador...
Caminhou com Alhena em seu colo e entrou no Salão Comunal da Sonserina. Pansy estava de pé ali, parecendo assustada, assim como Greg.
—Ras! – disse Pansy vindo abraçá-lo – Alhena... ela... ela...
—Eu não sei. – murmurou perdido. A irmã não abrira os olhos ainda. Levou Alhena para o dormitório. Daphne e Damian estavam lá, com cara de cemitério. Daphne nem sorriu ao vê-lo. Seus olhos arregalaram, ficando do tamanho de pires, ao ver Alhena.
—Meu deus... – lamentou ela.
—Não... não... não... – murmurou Damian, se levantando lentamente. Um feio machucado no peito.
—Ela está viva. – disse Rasalas – Mas não sei por quanto tempo. – explicou. Damian e Daphne respiraram aliviados. Rasalas colocou a irmã na cama de Draco e se sentou na sua própria, sentindo-se esgotado. Daphne se sentou ao seu lado e Damian foi ver Alhena. Greg se sentou na própria cama e Pansy na de Vince.
—Vince está morto. – murmurou Greg. Todos o olharam, surpresos – Ele colocou fogo na Sala Precisa... Não conseguiu controlar... Potter, Weasley e Granger salvaram a mim e a Draco, mas não puderam salvar Vince... as chamas o engoliram.
Daphne soltou um suspiro.
—Eu sinto muito, Greg... sei que eram amigos...
—O que estavam fazendo na Sala Precisa? – perguntou Rasalas.
—Tentando impedir Potter de pegar um artefato que o Lorde das Trevas queria. Era o que Draco queria fazer... mas Vince só conseguia pensar em matar Potter e companhia... para conseguir prestígio... – Greg soltou um suspiro – O feitiço se virou contra o feiticeiro.
Rasalas concordou com a cabeça.
—Onde está Draco? – perguntou Pansy.
—Eu não sei. – respondeu Greg – Corremos para fugir das batalhas, mas acabamos nos separando e nos perdendo um do outro... eu vim direto pra cá... mas Draco... – ele deu de ombros – Até onde eu sei, ele pode estar morto.
Rasalas suspirou e olhou para a irmã.
—Precisamos... precisamos sair do castelo. – disse Pansy, decidida – Como monitora chefe, eu sou responsável por todos vocês. Eu vou tirar todo mundo daqui.
—Fiquem a vontade pra saírem. – disse Rasalas ficando de pé – Eu não vou a lugar algum. – disse cruzando os braços.
—O que quer dizer com isso? – perguntou Daphne se levantando e vindo furiosa para puxar sua orelha – Você vai sim! Vamos todos sair daqui antes que um de nós acabe morrendo!
—Daphne... eu preciso ajudar o meu pai! – disse Rasalas.
—Seu pai sabe cuidar dele mesmo. Vamos embora, Rasalas Lestrange! – insistiu Daphne.
—Não tem como deixar a escola. – disse Greg com pesar. – Vince destruiu a Sala Precisa... não há mais saída... não vão deixar a gente sair pelo portão de entrada... somos considerados traidores agora.
Rasalas soltou um suspiro e Pansy andou de um lado para o outro.
—Deve ter uma saída. – murmurou Pansy.
—Podemos simplesmente ficar aqui. – sugeriu Damian, com uma careta de dor – Escondidos até o fim do confronto e falar que simplesmente não conseguimos sair...
—Não seria mentir. – murmurou Greg.
—Todos de acordo sobre não sair? – perguntou Daphne.
—Não! – respondeu Rasalas – Não vou ficar aqui. Não vou me esconder. Eu vou lá pra fora, para ajudar os outros. Eu nunca apoiei o Lorde das Trevas e todo mundo sabe disso!
—Não andou sendo muito produtivo, não é, Rasalas? – ralhou Greg – Deveria ser mais agradecido. Ele tirou o nome da sua família da lama, sabe?
—Foi ele quem jogou o nome da minha família lá, pra início de conversa. – retrucou entre dentes – E seu melhor amigo morreu tentando fazer favores pra ele. Seu outro amigo pode estar morto por causa dele também. Harry, por outro lado, salvou a sua a vida e a de Draco, sem absolutamente nenhum motivo. Lamento informar que está muito claro por qual lado eu devo me esforçar!
“Harry Potter está morto. Ele foi assassinado, foi até mim, numa tentativa de salvar a si próprio quando vocês dispuseram de suas vidas para salvar a dele.”
Rasalas sentiu um frio agourento subir por sua espinha ao ouvir a voz do Lorde das Trevas ecoando pelas paredes. Ele e seus colegas trocaram olhares amedrontados, confusos e ansiosos.
—Potter está morto! – disse Pansy cruzando os braços – Bem... não é nenhuma surpresa.
—Eu não acredito que Harry tentou fugir. O Lorde só pode estar mentindo! – disse Rasalas.
—Até o mais valente sente medo, Rasalas. – tossiu Damian – Que chances achou que Potter tinha? – perguntou ele.
Todas. Sempre tinha confiado em Harry. Sempre imaginara que ele daria um jeito de fazer o impossível... ele sempre fazia o impossível... se sentou em sua cama, completamente chocado.
—Espero que ainda saiba mentir bem, Rasalas. – riu Greg – Pois vai precisar fazer todo mundo acreditar que sempre apoiou o Lorde.
—Não acho que isso vá ser possível... – murmurou – Minha tia me viu duelar contra os comensais...
—Estamos perdidos. – riu Damian, com um filete de sangue escorrendo por seu queixo – Completamente perdidos.
*
Rabastan e Emily estavam escondidos numa sala, curando seus ferimentos. A busca pelos filhos tinha se mostrado completamente infrutífera...
—O tempo passa, mas eu continuo remendando você, Rabs. – riu Emily, fazendo graça para não pensar no aviso que tinha ecoado pelas paredes – Eu preciso ir... devem estar precisando de mim.
Mas Rabastan não queria que ela fosse. Estava sendo caçado por ambos os lados. Comensais o tinham visto matar Rodolfo e seu rosto era famoso como seguidor do Lorde das Trevas. Então era mais seguro ficar escondido e esperar um pouco... deveria ter se retirado quando o Lorde mandara que recuassem, mas não sabia se Rasalas ainda estava disfarçado... era uma aflição sem fim.
—Não vá. – pediu olhando para a esposa. Mas ela sorriu, o beijou na testa e se virou, indo embora. Estava completamente sozinho e preocupado – Onde vocês estão? – murmurou desesperançado.
Foi quando algo o ocorreu. Saiu da sala se sentindo um grande idiota. Como não tinha pensado no óbvio antes? Desceu as escadas o mais rápido que suas costelas recém remendadas permitiram. Pulou o degrau que sempre quebrava quando pisavam nele e seguiu descendo até as masmorras.
“Nós trazemos-lhe seu corpo como a prova que seu herói se foi. A batalha foi ganha. Vocês perderam a metade de seus lutadores. Meus Comensais da Morte estão em maior número , e o ‘menino que sobreviveu’ está acabado.”
“Não deve haver mais guerra. Qualquer um que continuar a resistir, homem, mulher ou criança, será massacrado, como cada membro de sua família. Saiam do castelo agora, ajoelhem-se diante de mim, e vocês serão poupados. Seus pais e crianças, seus irmãos e as irmãs viverão e serão perdoados, e você juntar-se-á a mim no mundo novo que nós construiremos juntos.”
Os Carrow sempre disseram as senhas dos três salões comunais que as tinham (o da Corvinal era um enigma que sempre mudava, aleatoriamente), por isso disse “Acônito” para a parede, fazendo-a se mover. Há quantos anos não entrava ali? Sorriu ao ver as paredes do Salão Comunal da Sonserina, exatamente iguais a quando era um estudante.
Lembrava de quando Addie o beijara ali mesmo e pedira para que ele a levasse para o dormitório. E é claro, lembrava das várias vezes que guiara Emily para sua cama, sob o olhar reprovador dos colegas.
Soltou um suspiro, deixando a nostalgia de lado, e seguiu para os dormitórios. Já no primeiro andar escutou uma voz.
—Estamos perdidos. Completamente perdidos. — Segurou a varinha e entrou. Sentiu o olhar de vários jovens sobre si. Reconheceu o filho de Goyle, a namorada do filho, Rasalas, Alhena e o garoto que fora namorado de Alhena certa vez. Ainda havia uma garota ali, mas ele não a conhecia.
—Por favor. Não machuque a gente! – pediu a garota desconhecida. Ela era até bonitinha, apesar de ter cara de bulldog.
—PAI! – gritou Rasalas correndo até ele. Rabastan sorriu e abriu os braços, abraçando o filho, sentindo imenso alívio.
—Graças. Eu estava tão preocupado. – murmurou Rabastan – Como está sua irmã? – perguntou largando o filho, para olhar Alhena.
—Eu não sei... eu tentei reverter a azaração, mas...
Rasalas pareceu encolher um metro. Os cabelos dele perderam o brilho, ficando castanhos e opacos. Rabastan soltou um suspiro e caminhou até Alhena. A examinou atentamente, reparando nas manchas verdes em um braço e nas pernas.
—Isso pode ser permanente... – murmurou se referindo às manchas – Mas eu acho que ela vai ficar bem... – ele passou a varinha, averiguando se ela estava apodrecendo por dentro, mas tudo parecia em ordem – Ela parece estar bem... só precisamos esperá-la acordar.
—Ela vai ficar bem? – disse Rasalas voltando a parecer contente – Eu sabia que ia conseguir. Eu sou mesmo incrível. – se gabou ele. Rabastan bagunçou os cabelos do filho e sorriu.
—Você é mesmo, Rasalas. – ele se virou para os outros – O que estão fazendo aqui? Por que não saíram com os outros alunos?
—Eu fiquei... pela Lena... – murmurou o garoto Burke. Ele parecia bem machucado.
—Eu e Greengrass ficamos por Rasalas. – disse a garota com cara de bulldog.
—Eu fiquei para ajudar Draco... mas me perdi dele. – respondeu o filho de Goyle – O Lorde deu uma missão pro Malfoy, mas ele falhou. O Vince morreu na tentativa de cumprir a missão.
—Quem é Vince? – perguntou Rabastan, franzindo a testa.
—Vincent Crabbe. – respondeu Goyle filho.
Rabastan acenou com a cabeça, para dizer que tinha entendido.
—Vamos ficar aqui, onde é seguro. Depois guiarei vocês para fora. A causa de Dumbledore está perdida... – murmurou Rabastan torcendo para que Emily fizesse o que tinha sido combinado. Que se declarasse pelo Lorde das Trevas. Rabastan faria o mesmo, alegando que só tinha duelado com Rodolfo para resolver algumas pendências pessoais. Com a guerra ganha, o Lorde não precisaria mais de Rodolfo da mesma maneira. Agora ele precisaria de mais política e menos cachorros loucos. E todos sabiam que Rodolfo não passava disso... não mais.
Os minutos passaram e finalmente voltaram a escutar os sons de explosões. Rasalas olhou aflito para a porta e se dirigiu até ela.
—Rasalas!
—Eu vou lá.
—Pra que? A guerra acabou. O Lorde venceu. – disse Rabastan.
Rasalas negou com a cabeça.
—Ele não venceu ainda. Não enquanto restarem aqueles que não querem baixar a cabeça. – disse Rasalas.
—Não seja estúpido, meu filho. Use a cabeça. Não tem que...
—Eu tenho todos os motivos do mundo para não apoiar o Lorde das Trevas.
—Rasalas! Você vai acabar se matando! – ralhou a garota com cara de Bulldog.
—Meu pai tem outro filho pra levar o nome Lestrange pra frente. – riu o garoto com aquele sorrisinho insolente. Antes que pudesse pegar a varinha para puxá-lo, ele já tinha se esgueirado pra fora do dormitório.
—RASALAS LESTRANGE! SEU MOLEQUE ABUSADO! – Gritou zangado, correndo atrás dele. Mas Rasalas se mostrou absurdamente rápido... principalmente levando em conta que estava sendo comparado com um adulto beirando os quarenta, com algumas costelas quebradas. Não vou conseguir alcançá-lo. Logo notou que essa era uma incontestável realidade.
Respirou fundo, tentando conseguir algum fôlego, jurando que deixaria Rasalas pendurado pelos tornozelos por uma semana.
Quando finalmente chegou ao Salão Principal, sentindo uma enorme pontada na lateral do tórax, viu Rasalas segurando uma garota ruiva, que parecia machucada. Mas ninguém mais parecia estar duelando. Apenas duas pessoas, no meio da multidão. Se aproximou, confuso e sentiu um grande assombro ao ver Harry Potter muito vivo, duelando contra o Lorde das Trevas.
Mais assombroso ainda foi o momento em que o garoto que sobreviveu fez a azaração da morte voltar contra o Lorde das Trevas e este acabou caindo completamente morto no chão.
Correu até o filho, que o olhou com um sorriso vitorioso, enquanto ajudava a tal ruivinha, que ele reconheceu como sendo uma Weasley, a se manter de pé. Emily logo veio ao seu encontro e o abraçou, para em seguida reconhecer Rasalas e o abraçar ainda mais forte.
Nem teve tempo de sorrir. Alguém o azarou pelas costas. Caiu no chão virou o rosto, vendo alguns membros restantes da Ordem o cercarem. Entre eles, Remus Lupin, que mal parecia se aguentar de pé.
—Rabastan Lestrange. Você está preso. – disse Arthur Weasley, que se aproximava junto do filho e de Lupin. Rabastan deu uma risadinha.
—Vamos ver quanto a isso.
Mas em seguida foi estuporado e ficou tudo escuro.
**
Damian Burke engoliu em seco. Rasalas ria ao seu lado, achando graça de seu nervosismo. Draco também parecia nunca ter visto nada tão engraçado.
Seu pai e o Sr. Lestrange – o pai de Rasalas – conversavam mais afastados. Nenhum dos dois pareciam muito satisfeitos.
—O que eles estão dizendo, Rasalas? – perguntou pela oitava vez. Rasalas deu de ombros.
Era dia 25 de Outubro de 2000.
E ele finalmente tinha pedido Alhena em casamento. Mas o senhor Lestrange não parecia nenhum pouco disposto a casar sua filhinha. Ou talvez não estivesse aceitando os termos de seu pai, que queria que a família Lestrange arcasse com a maior parte dos gastos do casamento, já que eles eram bastante ricos.
Seu pai era, provavelmente, umas cinco vezes mais rico, mas estava para nascer alguém mais sovina que Jacques Burke (Sim, seu pai tinha o primeiro nome daquele francesinho de merda...).
Damian bufou, angustiado, esperando alguma resposta, mas o senhor Lestrange apenas balançava a cabeça em negativa, enquanto seu pai fazia basicamente a mesma coisa.
—Vamos, pai! Eu sou seu único filho! Vai ser o único casamento que você vai precisar pagar na vida! – resmungou baixinho, tamborilando os dedos. Rasalas riu novamente, enquanto Draco se levantava.
—Eu acho que vou pedir Astoria em casamento também. – riu ele.
Rasalas e Damian o olharam surpresos.
—Sério? – perguntou Rasalas, que estava mais alto que qualquer um deles, levemente bronzeado, por ter feito uma longa viagem para “estudar”. Teria acreditado, se ele não tivesse viajado com Daphne. Duvidava muito que eles não tinham viajado apenas para se divertirem juntos – Nunca te imaginei casado.
—Nem eu... mas vocês conhecem a Astoria. Ela é perfeita pra mim. – riu Draco dando de ombros.
Damian concordou com um aceno de cabeça. Os Malfoy passaram por diversos problemas depois da batalha de Hogwarts e os Greengrass meio que os acolheram, dando abrigo para eles enquanto vasculhavam e confiscavam várias coisas na Mansão Malfoy. Isso deu oportunidade para Draco reconquistar Astoria.
Draco não conseguiu aquele desejado cargo no Ministério, por mais que tenha tirado muitos N.I.E.M.s, mas ele não parecia interessado em trabalhar no Ministério. O loiro dizia até que estava pensando em abrir um negócio próprio.
Rasalas, por outro lado, estava trabalhando na Corte dos Bruxos, em um cargo ainda nada importante. Sua identidade como lobisomem o atrapalhou um pouco, mas ele tinha o avô para empurrá-lo pra frente, sem falar que o Ministro gostava muito dele e estava cogitando convidá-lo para ser seu assistente.
Alhena abriu uma loja junto com a mãe, e agora estavam ganhando bastante dinheiro desenhando e fazendo roupas de luxo. Madame Greengrass tinha ficado um pouco chateada, mas acabou se conformando que Emily Lestrange merecia ter seu próprio negócio.
Damian estava trabalhando na loja da família, é claro. Nunca tinha cogitado outro futuro pra si mesmo. Só queria que os pais acertassem logo os detalhes do casamento, antes que Alhena começasse a engordar.
Maldito chá de lua que falhou...
—Parece que seu casamento não vai sair esse século, Damian. – riu Rasalas, olhando para o pai, que se aproximava, parecendo muito emburrado, ao lado do Sr. Burke.
—Esse seu sogro está querendo nos levar à falência! – resmungou seu pai, cruzando os braços. O Sr. Lestrange o olhou completamente ofendido.
—EU? – perguntou ele – O senhor quer que a festa seja na sua casa e quer que eu banque a reforma do seu jardim, da sua sala de visitas e dos seus lustres! Sabe quanto custa pra repor cada diamante daquela sua tralha horrorosa?
—TRALHA? CHAMOU DE TRALHA? – perguntou seu pai. Damian revirou os olhos – Pois saiba que aquele lustre está na família Burke há nove gerações e foi um presente de Amabilius Selwyn! É uma peça única! Exclusiva! De valor inestimável!
—Inestimável mesmo! Vai custar todo o ouro do meu cofre! – rosnou o Sr. Lestrange.
—Eu sei muito bem que o cofre dos Lestrange tem ouro o suficiente para repor alguns poucos diamantes. – ralhou seu pai – Eu já vou ceder a casa. Sua filha vai ter meu sobrenome. É uma honraria absurda, levando em conta que o seu sobrenome não anda lá essas coisas!
—Como é que é? – sibilou o Sr. Lestrange.
—Você precisa pagar o dote, já que sua filha não tem uma reputação pura. Ela não é exatamente uma santa. – ralhou seu pai – Eu sei muito bem que ela não é virgem e...
—Fale mais uma coisinha sobre minha filha, Sr. Burke, e eu juro que te viro do avesso! – rosnou o Sr. Lestrange – E não vamos nos esquecer que foi o canalha do SEU filho quem tirou a virgindade da minha filha!
—E você tem alguma prova disso? – perguntou seu pai, estreitando os olhos.
—Pai... fui eu mesmo quem... – começou, encolhido.
—Cale a boca, Damian! – rosnou seu pai, sem absolutamente humor algum – Eu não vou deixar uma aproveitadora qualquer...
Damian estava esperando uma azaração da parte do sogro, mas o som de aparatações fez todo mundo calar a boca. Alhena e Daphne tinham chegado e Alhena parecia muito zangada.
—Eu vou matar a Parkinson! – rosnou ela. Damian a olhou assustado e ligeiramente preocupado. O que raios Parkinson tinha aprontado? Não se viam desde a escola...
—Calma, Lena. Ela não deve ter feito por mal. – disse Daphne – E como raios ela ficou sabendo?
—Oi, amor! – cortou Damian, fazendo com que as duas se virassem.
Daphne não mudara desde a escola. Continuava do mesmo jeito de sempre, magrinha, com os cabelos dourados, os olhos muito azuis e aquele rostinho maroto, que agora estava completamente constrangido. Alhena ainda tinha uma mancha esverdeada na coxa e no braço, que ela sempre escondia com luvas ou vestidos compridos, resquício da maldição que Rasalas jogou nela, simulando a azaração da morte. Ela estava também um quilo ou dois mais carnuda, mas ele não se importava muito com isso.
—Damian... ah... Sr. Burke... – murmurou Alhena, corando furiosamente.
—O que houve, Lena? – perguntou Draco – O que a filhote de cruz-credo aprontou dessa vez? – perguntou o loiro se sentando, de maneira esparramada.
—Ah... – Alhena olhou corada para Daphne, como se pedisse ajuda, mas outro CRAQUE se fez ouvir. Todos se viraram para a Sra. Lestrange, que parecia simplesmente furiosa.
—VOCÊ ESTÁ GRÁVIDA? – perguntou ela. Damian sentiu o estômago dar uma cambalhota. Ele olhou para a sogra, que só agora parecia ter se inteirado de todas aquelas pessoas ali. Ela fez uma careta e olhou para o Sr. Lestrange, que ficou primeiro muito pálido, depois muito vermelho.
—Seu... moleque... – rosnou o sogro, sacando a varinha.
—Calma! Calma! Calma! – pediu Rasalas entrando na frente – Não vamos fazer nenhuma idiotice aqui.
—Acho que isso vai adiantar as negociações... – riu Malfoy.
—Por Merlin! – ralhou o pai – É seu, Damian?
Damian revirou os olhos, enquanto os Lestrange olhavam insultados para o pai.
—Que pergunta. É claro que é meu. Vai ajudar a bancar o casamento ou não, pai? – perguntou zangado – Eu sou seu único filho. Custa?
—Claro que custa! – ralhou seu pai, coçando o queixo – Muitos galeões, por sinal.
—Pai! Pare com isso! – resmungou Damian – Peça desculpas para os Lestrange! – se virou para os sogros – Desculpem pelo meu pai. Ele é meio idiota quando o assunto é dinheiro.
—Damian... – disse Rasalas muito calmamente – Você engravidou a minha irmã?
Damian e Alhena se entreolharam constrangido.
—O chá de lua não funcionou... – murmurou sem se preocupar tanto assim. Tinha uma boa renda com sua comissão na loja, Alhena também tinha bastante dinheiro... e ele estava para se casar, se o pai e sogro entrassem logo em consenso...
Mas Rasalas o socou assim mesmo.
***
Rasalas estava de mãos dadas com Daphne, caminhando calmamente pela plataforma ¾. Seu garoto mais velho, Navi, vinha olhando tudo parecendo simplesmente encantado. Ele estava indo para o primeiro ano, finalmente. Lyra, a do meio, parecia completamente revoltada por ainda ter que esperar um ano inteiro. O caçula, Rabastan, apenas choramingava, sem estar acostumado com aquela bagunça.
—Não faça essa cara, Lyra. Ano que vem é a sua vez. – disse Rasalas, com um sorrisinho. Lyra, a única que herdara seu dom de metamorfomago, torceu o nariz, deixando os cabelos ficarem completamente vermelhos.
—Mas eu não quero esperar mais um ano. Eu quero ir agora! Eu sei que consigo, papai. – insistiu ela pela enésima vez. Rabastan levantou os braços pedindo colo, quando um garoto passou correndo com uma coruja muito barulhenta na gaiola – Eu sou muito mais esperta que o Navi.
—Não é nada! – retrucou Navi – Eu sou muito mais esperto. Segunda a nascer, segunda a ir pra Hogwarts, irmãzinha.
—Eu mereço ir mais do que o idiota do Navi.
—Não merece não! – insistiu Navi, sacando a varinha – Você não tem nem varinha. É quase uma trouxa.
—Eu não preciso de varinha pra fazer isso! – disse ela mudando o rosto, o cabelo e a cor dos olhos.
—Mas eu vou poder fazer muitas outras coisas. – debochou Navi. Lyra apenas deu a língua pra ele.
—Vocês dois. Parem com isso. – ralhou Daphne.
—Mas ela é insuportável! – resmungou Navi.
—O único insuportável aqui é você!
—Vocês dois são insuportáveis. – brincou Rasalas. Navi deu uma risadinha e Lyra o olhou zangada.
—Papai! Como pode falar algo assim? – perguntou ela.
Navi deixou a perna e Lyra tropeçou, caindo no chão. Ela se levantou, furiosa e os dois começaram a se estapear. Céus, como Damian conseguiu ter sete filhos.
Rasalas puxou a varinha e fez os dois girarem de cabeça para baixo no ar. Navi começou a rir, achando graça, mas Lyra precisou segurar a saia, para não passar vergonha e não pareceu achar nada engraçado.
—Rasalas! Coloca os dois no chão! – ralhou Daphne, mas ela tinha um sorrisinho no rosto. Rabastan escondeu o rostinho no peito da mãe, olhando levemente interessado para a brincadeira.
Rasalas deu de ombros e colocou os dois no chão. A família seguiu sem mais problemas e logo estavam bem de frente para o trem vermelho. Damian e Alhena estavam ali, com os filhos. Damian com o caçula nos ombros, Alhena de mãos dadas com o segundo mais novo e os outros cinco filhos de pé, muito comportadamente, conversando de maneira amigável.
—Eles usam algum tipo de hipnose. Só pode! – resmungou Rasalas, que teve que puxar a orelha de Navi por estar tentando colar um chiclete de baba bruxa nos cabelos de Lyra.
—Na verdade, eu só acho que nossos bebes amados puxaram a sua personalidade. Você era o capeta quando criança. – riu Daphne.
—Mãe! Está falando que eu sou um capeta? – perguntou Navi com um sorrisinho insolente.
—O rei dos capetas. – concordou Daphne, sorrindo.
Draconis, o terceiro filho de Damian e Alhena os viram primeiro. Ele veio correndo e pulou em cima de Navi.
—Finalmente! Hogwarts! – riu ele, completamente feliz.
—Siiiiiim! – disse Navi, parecendo contente também.
Rasalas andou até a irmã, que estava bem gorduchinha, mas muito elegante num vestido bonito e num penteado formal. Ela estava arrumando o casaco de Prim.
—Mamãe... eu quero ir pra Hogwarts. – lamentava a menina, que era a cara de Alhena.
—Mais alguns anos, querida. Mas sua vez vai chegar. – respondeu Lena, com um sorriso terno.
Os dois mais velhos, Castor e Póllux, estavavam conversando animadamente. Gêmeos idênticos em todos os fios de cabelo. Os dois estavam na Sonserina, pelo que sabia.
—Olá, Damian. – riu Rasalas, cumprimentando o cunhado – Oi, Lena.
—Rasalas. – responderam os dois juntos.
—Como está? – perguntou Alhena, se levantando para abraçá-lo.
—Contente. Vou me livrar dessa peste aqui. – disse bagunçando os cabelos de Navi.
—Ele vai chorar de saudades de mim. – riu o garoto, com o braço nos ombros do primo Draconis.
—Tenho certeza que vai. – piscou Damian – Mais um filho em Hogwarts... – riu Damian – Ano que vem são as gêmeas. Cerce e Dido. – riu ele sorrindo.
—Como consegue mantê-los todos assim, comportadinhos? – perguntou Daphne com um sorriso, balançando Rabastan de leve. Alhena e Damian se olharam como se nunca tivessem reparado em como os filhos eram comportados.
—Sei lá... sempre fizemos essas coisas meio estranhas... como prestar atenção no Binns... – riu Damian.
—Eu sabia que você não era normal. – riu Rasalas.
O trem soltou um longo apito e Draconis e Navi ficaram agitados, querendo entrar de uma vez. Póllux e Castor abraçaram os pais , se despediram dos irmãos e entraram com Draconis e Navi. Lyra xingou baixinho, zangada por ter que esperar mais um ano e as primas foram conversar com ela, para acalmá-la.
Damian colocou o caçula (Orion) no chão, que chupava o dedo, olhando ao redor, com curiosidade. Tinha a idade de Rabastan, o pequeno, por isso Daphne colocou o caçula no chão também, mas os dois não tiveram interesse um no outro. Prim, no entanto, quis brincar com Rabastan e este não se importou.
Rasalas se virou para Navi, que acenava da janela, ao lado de Draconis. Navi era bem parecido com seu pai. Os mesmos olhos cinzentos, o cabelo castanho avermelhado... mas ele sorria como ele. Aquele sorrisinho insolente que Rasalas realmente constatou que era mesmo irritante. Ao lado dele, Draconis, mais loiro que Alhena, mas com os olhos prateados dos Lestrange, com um rosto fino, assim como o nariz. Ele era o filho mais bagunceiro da irmã, mas de longe era muito mais comportado que Navi ou Lyra.
Lyra nascera loira, mas ela nunca ficou com o cabelo da mesma cor por mais de uma semana. Ela gostava de mudar a cor dos olhos, dos cabelos, mudar o nariz, as orelhas... algumas vezes ela até aparecia com sardas. Então era meio difícil dizer com quem ela se parecia mais.
Rabastan era mais parecido com Daphne. Loiro, com os olhos azuis, muito tímido e inseguro. Talvez por Lyra e Navi serem tão encapetados...
Rasalas acenou para o filho, sentindo o peito já doer de saudades.
—Volte pro natal, ouviu? – perguntou. Navi o olhou com troça.
—Não conte com isso! – riu ele.
—Não vai ganhar presente de natal! – ameaçou Rasalas cruzando os braços. Navi estava para responder, quando Castor... ou Póllux, empurrou a cabeça dele para baixo e apareceu na janela.
—Não se preocupe, tio Ras. A gente vai levar o Navi de volta.
O outro gêmeo apareceu e sorriu.
—Nem que seja dentro do próprio malão.
Rasalas sorriu e Alhena colocou as mãos nos quadris.
—Póllux! – ralhou ela.
—O que? – perguntou um dos gêmeos, se fazendo de inocente.
—Eles crescem rápido, não é? – perguntou uma voz atrás de si. Se virou e viu Harry com a esposa e os dois filhos.
—Olá, Harry! – riu Rasalas o cumprimentando. Damian revirou os olhos e saiu de perto – Não liga não. Ele é meio ciumento. – riu Rasalas. Harry concordou sorrindo – Qual dos dois está indo pra escola.
—Nenhum. O meu mais velho já entrou. – riu Harry – Esse é Albus e essa é Lílian. – disse mostrando os dois filhos – Albus vai ano que vem. Lílian daqui três.
—Então vamos estudar juntos. – disse Lyra olhando para Albus, que corou violentamente – E nós vamos ser muito melhores que nossos irmãos. Você vai pra Sonserina, não é? – perguntou ela.
Albus Potter se encolheu de leve.
—Eu espero que não. – disse ele, corando – Eu quero ir pra Grifinória.
Lyra o olhou feio e Rasalas deu um sorrisinho.
—Não seja burro. A Sonserina é a melhor casa de todas! E na Grifinória só tem idiotas sem cérebro!
—LYRA! – ralhou Daphne – Desculpe, Potter.
Lyra piscou chocada e olhou para Harry.
—Potter? Harry Potter? – perguntou ela, surpresa.
—Sim... e por um acaso... eu fui da Grifinória.
Lyra deu aquele sorrisinho insolente e Rasalas se preparou para puxá-la pela orelha.
—Então você é um idiota sem cérebro. – riu ela. A puxou pela orelha e ela rosnou, xingando nomes que ele não sabia que ela conhecia.
—Desculpe por isso. – riu sem jeito.
—Tudo bem... James é assim também. – riu Harry.
O trem apitou novamente e começou a se mover. Rasalas se virou e procurou por Navi, mas ele já não estava mais na janela. Nem ele e nenhum dos sobrinhos. Suspirou e largou a orelha de Lyra, para apertá-la contra si.
—Crianças... – riu Rasalas.
—Pois é. – riu Harry.
—Ei, Rasalas. Vamos? – perguntou Damian. Rasalas queria ver o trem desaparecer. Tinha esperanças de Navi aparecer na janela. Queria vê-lo mais uma vez, mas ele provavelmente estava muito ocupado se divertindo e arrumando confusão.
Soltou um suspiro, quando o trem fez a curva, desaparecendo de vista e se virou para o cunhado.
—Vamos. – disse – Mas fazer o que?
—O de sempre, imagino. – riu Damian – Endure ou Bloody Mary?
Rasalas deu uma risadinha e olhou para Daphne. Ela concordou com um aceno de cabeça. Alhena estava com os outros filhos e o olhou com um sorriso.
—Divirtam-se. Não voltem tarde. – pediu ela olhando agora para o marido – Ok?
—Relaxa, amor. Que tipo de confusão dois homens casados com uma penca de filhos podem fazer? – perguntou Damian com um sorrisinho.
—Quando estão juntos de Draco e Blair... todo o tipo de confusão. – ralhou Alhena, fazendo Rasalas e Daphne sorrirem.
E como ela estava certa. Beber tranquilamente foi a última coisa que fizeram naquele domingo...
Afinal... viver era uma eterna aventura.
* Fim *
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