Legado Lestrange
29 O Lobo
Notas iniciais

1996
Residência dos Greengrass
Abraçou Daphne, assustada. Os duelos aconteciam por todo lado.
—Por que? Por que? – perguntou a amiga, olhando sua casa, que estava em chamas.
—ALHENA! – ouviu um grito. Se virou e olhou. Era sua mãe. Ela estava com os cabelos desarrumados, cinzentos, com sangue escorrendo de sua cabeça. A mãe a abraçou apertado – Onde está o Rasalas? Onde? – perguntou ela.
Alhena forçou seu dom, apesar de isso estar se mostrando cada vez mais perigoso. É necessário... é necessário... parecia que estava numa piscina, com uma pressão absurda, a puxando para fora. Mas lutou contra isso, usando sua habilidade com clarividência. Viu Rasalas deitado no chão, dentro da casa.
—Ele não saiu. – disse voltando à realidade – Eu vou buscá-lo.
—Não! – disse sua mãe, com firmeza – Ele disse que ia te buscar e olha no que deu.
—Ele não sabia onde procurar.
—Alhena, vá para fora e se esconda, eu vou procurar...
—Ele é meu irmão e eu sei onde ele está. Pegue Daphne e a tire daqui! Eles estão atrás dela e de Astoria.
—Onde está minha irmã? – chorou Daphne.
—Vai mãe... – murmurou olhando-a nos olhos.
—É muito perigoso... – sussurrou sua mãe segurando Daphne com firmeza.
—Eu não sou uma garotinha indefesa, vai! – disse se virando. Puxou o vestido, para correr. Um comensal passou por ela e tentou identificá-la. Eles deveriam saber que Daphne era loira. Apontou a varinha contra ele – Reducto! – o comensal fez um escudo e se defendeu, mas caiu no chão por força de seu ataque. Aproveitou para correr para dentro de casa.
Estava para entrar, quando viu Damian se joelhos, ajudando Rasalas a levantar. Correu até os dois e abraçou o irmão.
—Ele levou Astoria... – disse Rasalas.
—Quem? – perguntou Damian. Rasalas se soltou dela e disse com a voz carregada de ódio.
—Rodolfo.
—Precisamos salvá-la! – disse Alhena.
—Precisamos sair daqui, isso sim! – disse Damian. Uma viga caiu ali perto, em chamas.
—Eu vou ajudar Astoria. – disse decidida.
—Eu também. – disse Rasalas.
Damian os olhou angustiado e bufou.
—Você só me arrasta pra furada, Rasalas! – resmungou Damian. Rasalas deu uma risadinha e pegou a própria varinha, que estava no chão. Os três trocaram alguns olhares e então seguiram para fora.
Azarações e feitiços vinham de todos os lados, mas conseguiram se defender de todos eles. Logo ela viu um comensal tentar tirar Astoria dos limites da casa, onde poderia aparatar com ela.
—ALI! OLHEM ALI! – gritou uma voz conhecida. Sentiu seu corpo ficar tenso. Se virou e viu Avery. Ele não usava máscara, apenas um cachecol escondendo metade de seu rosto – É A ALHENA! É A ALHENA!
—Droga. – resmungou Rasalas, quando o cerco começou a fechar ao redor deles. Ele apontou a varinha para os comensais – BOMBARDA! – gritou. Uma explosão surgiu no ar, fazendo muito barulho. O choque do ar foi tanto que quase a derrubou. Sentiu a mão de Rasalas a puxar. Precisavam sair. Precisavam sair – Sabe aparatar?
—É claro que não. – disse o seguindo. Damian vinha logo atrás, com o rosto sujo – Mas a Ordem deve estar vindo. Eu mandei mamãe sair com a Daphne.
—Ok... – disse Rasalas. – Precisamos apenas sair daqui.
Olhou para frente e viu Rodolfo aparatar com Astoria, junto de outros três comensais. Olhou para trás e viu os comensais apontarem as varinhas.
—ESCUDOS! – gritou. Rasalas e Damian se viraram ao mesmo tempo, para fazer escudos. Os três juntos foram jogados para trás, mas ninguém se machucou – Vamos! Vamos!
—Damian! – gritou Rasalas. Damian o olhou – Tire Lena daqui.
—O que? – perguntou Damian.
—Eu distraio eles. – disse Rasalas fazendo um escudo muito poderoso, que rebateu uma azaração.
—Mas...
—VAI!
—RASALAS, NÃO! – gritou sentindo Damian lhe tirar a varinha – ME SOLTE! ME SOLTE! RASALAS!
Viu o irmão defender os feitiços, jogando-os para os lados.
—Desculpe, Lena... – murmurou Damian a arrastando.
—Me solte! Eu preciso ajudar meu irmão! Rasalas! – gritou assustada. Os comensais fechavam o cerco, tentando se aproximar, mas o irmão não permitiu – Me solte! Ele é seu amigo! Ele é seu amigo! – gritou tentando se soltar de Damian.
—Eu sei... – disse ele com dor, a pegando no colo e a colocando no ombro.
—ME PÕE NO CHÃO, DAMIAN BURKE! – gritou o socando nas costas, mas logo deixaram os limites da casa dos Greengrass. A marca negra flutuava fantasmagórica no céu – RASALAS!
O irmão olhou para trás e sorriu, insolente. Mas o sorriso dele morreu quando o atingiram no peito com um feitiço qualquer.
—Droga. – resmungou Damian, a segurando.
—RASALAS!
Outro feitiço acertou seu irmão e ele caiu no chão, de joelhos. Ouviu um CRAQUE quando Tonks aparatou do seu lado.
—AJUDE MEU IRMÃO! – disse desesperada. Mas Tonks a segurou com firmeza – Tonks! Meu irmão! Meu irmão está lá!
—Eu sinto muito, Alhena. – murmurou ela.
Antes que pudesse gritar em protesto, sentiu aquela sensação estranha e desconfortável ao aparatar. Caiu no chão. Um chão de madeira, completamente desconhecido. Respirou fundo, olhando para os lados. Damian estava sentado, escondendo o rosto com uma mão, mas era óbvio que ele estava chorando.
—Não... não... – murmurou com um sentimento de peso.
—Eu vou voltar por Rasalas. – disse Tonks.
—Não está pensando em ir sozinha, está? – perguntou uma mulher que nunca tinha visto antes, mas que parecia absurdamente com Bellatrix.
—Eu preciso. – disse Tonks, desaparecendo.
—Eu... eu sinto muito, Lena... – murmurou Damian. O olhou furiosa.
—Você não me deixou ajudá-lo...
—Ele não te queria lá... ele queria você a salvo...
—Ele é meu irmão... ele é seu melhor amigo... como pode deixar o Rasalas pra trás? Como pode? – perguntou com as lágrimas escorrendo por seus olhos. O coração apertado e um medo irracional tomando conta de sua mente. A imagem de Rasalas, de joelhos, com todos aqueles comensais o cercando.
Damian se levantou.
—Ele ama mais você do que a si mesmo. Se eu tivesse ficado e alguma coisa tivesse acontecido com você... – ele tentou tocar seu rosto, mas não deixou. Deu um tapa na mão dele e se virou – Eu sinto muito, Lena.
—Hum... vocês... vocês aceitam um pouco de chá? – perguntou uma voz grave. Se virou e viu um homem loiro, de barba fechada, ao lado da mulher. Ele trazia uma travessa com algumas xícaras e um bule fumegante.
—Não... — respondeu, apreensiva.
Os minutos passaram lentamente. Todos pareciam nervosos. Quando Tonks reapareceu, ela e Damian a olharam com expectativa. Mas o rosto derrotado dela foi o suficiente para fazê-la entender.
—Não... – murmurou Damian – Ele... ele está...
—Não estava mais lá. – explicou ela – Seu irmão foi levado pelos Comensais de Morte.
Alhena sentiu os joelhos tremerem e perdeu o equilíbrio. Damian a segurou com firmeza e a abraçou. Se permitiu ser confortada por alguns segundos, mas então se livrou dele.
—Eu... eu preciso de uma adaga de prata.
—Pra que? – perguntou o homem.
—Só faz o que eu digo! – rosnou zangada. Mas ninguém pareceu querer se mover – Eu sou uma vidente. Eu vou rastrear o meu irmão! – disse impaciente.
A mulher que parecia Bellatrix se retirou e voltou com um punhal. Alhena respirou fundo e cortou o pulso.
—Lena! – disse Damian, chocado.
—Não me atrapalhe! – rosnou zangada. Se ajoelhou e desenhou um círculo no chão com o próprio sangue. Desenhou algumas runas e então murmurou um feitiço poderoso de clarividência. Colocou a mão no meio do círculo e forçou seu dom. Estava cada vez mais difícil abandonar a visão... parecia que voltar para a própria mente era o mesmo que atravessar um corredor apertado demais. Mas não ligou. Somos gêmeos... Somos gêmeos... nossa ligação é mais forte que qualquer coisa...
Viu o caminho passar rápido. Viu uma cabana no meio de uma vila. Uma cabana que parecia abandonada. Rasalas estava lá amarrado, de joelhos. Avery estava com ele e o puxou pelos cabelos. Se afastou dali, olhando ao redor da cabana, procurando por todos os pontos de referência que conseguisse. O fio que a ligava ao próprio corpo parecendo extremamente estreito.
Voltou ao próprio corpo com mais dificuldade do que nunca. Sua cabeça doeu mais do que nunca. Se curvou segurando a testa e rosnou de dor. Respirou fundo e piscou. Com a mão boa, retirou a varinha e a tocou na testa. Um fio prateado saiu de lá. Tonks se ajoelhou ao seu lado, conjurando um frasco, guardando o fio com cuidado.
—Vou falar com Dumbledore imediatamente. – disse a auror.
—Rápido, por favor.
—Mamãe, cuide dos ferimentos dela. – adicionou Tonks – Não saiam daqui.
Tonks desaparatou e Alhena sentiu alguém ajudá-la a levantar. Era o homem que julgou ser o pai de Tonks.
—Vamos... vamos para o quarto. Precisamos arrumar o seu pulso... – disse ele – Qual o seu nome, rapaz?
—Burke. Damian Burke. – respondeu o garoto.
—Certo, senhor Burke. Me ajude aqui. – disse o Sr. Tonks, cordialmente. Alhena fechou os olhos, desejando apenas que seu irmão estivesse bem, sentindo-se completamente exausta.
*
??????
Acordou sentindo tanta dor que achou que ficaria louco. Gritou desesperado. Se contorceu, sem entender o que estaria acontecendo. Arqueou as costas, confuso. E então, tão subitamente quanto começara... a dor cessou.
Respirou fundo, olhando para o teto cheio de teias de aranha. Não sabia onde estava. Olhou ao redor e viu dois comensais de morte.
—Certeza que é uma boa ideia, Avery? Ele é um Lestrange... é o filho do Rabastan...
—Rabastan é um traidor. Esqueceu o que ele fez? – perguntou o tal Avery – Eu acho que esse ratinho tem que pagar... afinal... eu tenho algum ressentimento guardado... eu queria mesmo descarregar em algum Lestrange. – Rasalas viu o homem apontar a varinha para ele. Seu coração acelerou de uma vez – Crucio.
A dor recomeçou, como se milhões de facas em brasa estivessem atravessando seu corpo, várias e várias vezes. Gritou de desespero, da mesma maneira que antes. Quando a dor parou, choramingou, se encolhendo.
—Está doendo, garotinho? – perguntou o outro comensal – Vai fazer de novo, Avery?
—Não... – riu Avery – Eu me lembrei que Rabastan me deve um cu. – Rasalas olhou para o comensal, chocado – Eu preferia o cu da sua irmã, mas na falta dela... – ele o pegou pelos cabelos e Rasalas se contorceu, tentando se soltar.
—Me larga, seu doente! – rosnou. Estava completamente amarrado. As mãos atrás das costas, os braços colados ao corpo, as pernas e o tornozelo.
—Não adianta se esquivar. – riu Avery. O escutou abrir o zíper e sentiu a mão do comensal tentando tirar suas vestes. Não mesmo, seu babaca. Sentiu-se exposto, mas parou de lutar – Se conformou mais fácil que sua irmã... gosta de dar o rabo, é? Seu viadinho.
—Boa sorte com isso. – riu Rasalas olhando para trás.
Sentiu a mão do comensal em sua bunda e fez uma careta de nojo. Mas logo ouviu uma exclamação de surpresa.
—Ele não tem cu!
—O que? – perguntou o outro.
—O garoto. Ele não tem cu! – disse Avery. Rasalas se permitiu dar um sorrisinho desdenhoso.
—Como não tem cu? É claro que ele tem cu. Todo mundo tem cu.
—Eu to dizendo que ele não tem! – resmungou Avery – O que foi que você fez, seu merdinha? – perguntou o comensal o puxando pelos cabelos.
—Acho que não é seu destino enrabar um Lestrange. – provocou Rasalas.
—Ah... seu merdinha... – rosnou Avery. Sentiu o comensal o chutar com força nas costas e caiu no chão – Vai aprender a não dar esse sorrisinho pra mim, seu espertinho. Crucio!
Gritou novamente, se debatendo. Aquela vez pareceu durar mais que as outras. Podia ouvir os dois comensais rirem e teve a impressão de ouvir latidos, mas talvez fosse só impressão... talvez fosse o eco de seus próprios gritos...
Quando a azaração parou, estava com o rosto colado no chão, os joelhos flexionados, respirando ofegante. Engoliu em seco e olhou para o comensal, com desdém.
—Olha só como o bastardinho olha pra mim, Scabior. – rosnou Avery.
—Deveríamos arrancar os olhinhos dele. Pra ele nunca mais olhar assim pra ninguém. – sugeriu o outro comensal.
Rasalas engoliu em seco e ouviu um latido, seguido de um uivo. Os dois comensais trocaram um sorrisinho.
—Acho que seus gritos acordaram um amigo nosso, garoto. – riu Avery – Deixe eu apresentar vocês.
Rasalas sentiu o estômago dar uma cambalhota, sentindo-se, pela primeira vez, verdadeiramente em pânico. Tentou de todo modo se soltar de Scabior e Avery, mas amarrado, sem varinha e contra os dois, não havia nada que pudesse fazer.
Eles o levaram para um cômodo escuro. Podia ouvir rosnados ameaçadores e assim que entrou, viu o par de olhos âmbar o encarar. A luz da lua cheia era a única luz daquele aposento até que Avery, com um aceno de varinha, acendeu algumas velas.
Um enorme lobo cinzento o encarava de dentro de uma jaula.
—Diga olá a nosso amigo Grayback. – riu Avery. O lobo latiu, rosnando, se jogando contra as grades.
—Não... por favor, não... – disse tentando recuar.
—Não quer conhecê-lo melhor? Heim? – perguntou Avery colocando a varinha em suas costas.
—Não... eu sou puro sangue! Eu sou do diretório puro sangue! Tire ele de perto de mim! – pediu desesperado, seus pés patinando no chão. Seu coração batia acelerado – Por favor... eu sou só um garoto! Eu sou só um garoto!
—Um garoto muito inconveniente. – riu Scabior – Que resolveu se meter a besta com os comensais de morte... está se achando um membro da Ordem da Fênix, por um acaso?
—Não! Não sou! Não sou! – disse sentindo um feitiço o empurrar de leve. Seu corpo tremia em pânico. O lobo rosnava, tentando alcançá-lo com a pata – Não! Eu sou só um garoto! Eu sou só um garoto! Eu sou puro sangue! Eu sou um Lestrange!
—Eu sei que você é um Lestrange. – riu Avery – E eu sei que você é só um garoto. – Estava cada vez mais perto. Tentava de todo jeito recuar, mas o feitiço de Avery não permitia – Mas Grayback gosta mesmo dos novinhos... não é mesmo, Scabior?
—É o que eu ouvi.
—Não... por favor! Por favor! – pediu chorando de medo. O lobo rosnou de maneira assustadora e se jogou novamente contra a grade, arrancando mais risadas dos dois comensais – Eu faço qualquer coisa! Eu faço qualquer coisa! Por favor! Por favor, me tirem de perto dele! Por favor!
—Está com medinho, Lestrange? É só um cachorrinho crescido. – riu Avery. O lobo latiu muito alto e a pata dele bateu em seu sapato. Sentiu a bexiga esvaziar, de medo.
—Por favor... por favor! – chorou assustado – Não me deixem aqui! Me tirem daqui... meu pai é um comensal. Meu tio também. Por favor... – chorou desesperado. A cada centímetro que se aproximava, o lobo ficava mais agitado – Eu faço qualquer coisa, por favor... não... piedade... eu sou só um garoto! Eu sou da Sonserina! Não façam isso comigo, por favor...
—Está bom, já, Avery... o garoto já se mijou de medo. – disse Scabior. Sentiu um imenso alívio e olhou da melhor maneira que conseguiu, para trás. O lobo o arranhou no sapato novamente.
—Eu não quero apenas dar um susto. Eu quero dar uma lição. – riu Avery. Rasalas sentiu mais um empurrão e a mão do lobisomem lhe alcançou a canela. Gritou de dor ao sentir as garras dele lhe perfurarem a perna, rasgando roupa e carne, com violência. Sentiu as garras o puxarem para perto da grade, de uma vez.
O lobisomem abriu a boca, pronto para mordê-lo. O chutou com força no focinho e ele recuou com um ganido. Mas o olhar que ele lhe deu em seguida foi mais aterrorizador do que qualquer coisa.
Eu vou morrer... pensou entendendo o que estava para acontecer. Tentou se arrastar para longe, mas a barreira que Avery tinha feito não permitiu.
—Avery, isso passou dos limites! Solte o garoto! Ele é parente do Rodolfo! Ele mata você!
—Ele nem gosta do moleque. – riu Avery com pouco caso – Vai, garoto. Brinca um pouquinho com o au-au. – sentiu um feitiço jogá-lo com força contra a grade. As garras do lobisomem o agarraram no peito. Gritou de dor e notou o olhar de choque de Scabior, enquanto Avery sorria. Avery lhe lançou uma piscadela e aparatou, deixando Scabior para trás.
—Me ajude! Me ajude, por favor. – disse desesperado. Scabior tirou a varinha do bolso e Grayback o puxou mais para junto da grade – Por favor, me ajude...
***
Sede da Ordem da Fênix
Emily torcia as mãos, nervosa. Daphne estava ao seu lado, parecendo doente. Havia um ar de derrota por todo o ambiente. Quando ouviu a campainha, se levantou muito rápido, mas Daphne passou por ela, com muita pressa. A juventude lhe dando velocidade que há muito lhe havia abandonado.
Mas correu o mais rápido que conseguiu, escada a baixo. O retrato da Sra. Black começou a gritar escandalosamente. Sacou a varinha e a fez calar a boca a tempo de ver Alhena entrar com o Sr. Tonks.
—Lena! – gritou Daphne com um choro entalado finalmente se libertando.
—Daphne! Mamãe! – chorou Alhena vindo até a colega. As duas se abraçaram, chorando, assustadas e Emily notou que o braço da filha estava enfaixado. Abraçou as duas e Alhena soltou-se da colega para abraçá-la exclusivamente – Acharam o Rasalas? Acharam? – perguntou Alhena, com os olhos inchados e o rosto cheio de maquiagem borrada.
—Ainda não. – disse com a voz cheia de dor.
Alhena a abraçou, desesperada e o Sr. Tonks deu um suspiro.
—Eu já vou, Valentine. Vou esperar em casa. Mande notícias. – pediu ele.
—Ok... – murmurou Emily sentindo um imenso vazio no peito.
—Ninguém descobriu o paradeiro da minha irmã? – perguntou Daphne com os olhos tão inchados quanto os de Alhena. Mas ninguém respondeu.
Subiram as escadas, novamente, esperando por notícias. Os minutos passaram lentamente, como se estivessem se arrastando como lesmas. O tic tac do relógio era torturante. E quando finalmente Olho Tonto aparatou no meio da sala, Emily teve certeza de que receberia notícias, apesar de não saber se seriam boas ou ruins.
Moody a encarou com aquele rosto duro dele, sempre controlado.
—Sente-se, Valentine. – disse ele, autoritariamente.
Emily se sentou, sentindo medo. Seus braços tremiam furiosamente.
—Me-meu filho? O que aconteceu com meu filho?
—Rasalas está morto? – perguntou Daphne parecendo prestes a desmaiar.
—Ele está vivo, mas não está estável ainda. – disse ele.
—Ele está no Mungus? – perguntou Emily pegando a varinha – Eu vou pra lá...
—Dumbledore te mandou ficar. Ele está vindo. – disse Moody de maneira rude.
—Eu vou ver o meu filho, Olho Tonto! Não tente me impedir!
—Você vai se sentar e esperar. Essas são as ordens de Dumbledore! – rosnou Moody, mas não se intimidou. Em qualquer outra situação teria se intimidado, mas era de seu filho de quem estavam falando. Seu filho, que aparentemente estava entre a vida e a morte – Ele já está vindo. A situação de Rasalas é muito delicada.
—Eu quero ver o meu filho! Não tente me segurar! – rosnou com os olhos cheios de água, um aperto no peito e uma angústia terrível.
CRAQUE
Todos se viraram e viram Dumbledore. Para seu horror, ele estava muito sujo de sangue. Desde sua alvíssima barba comprida, até suas vestes azul turquesa.
—Emily... sente-se. – pediu Dumbledore – Você vai precisar ser muito forte.
—Muito forte? – repetiu Alhena, a voz embargada.
—Rasalas morreu? – perguntou Daphne, com desespero.
Emily sentiu os joelhos perderem a força e ela caiu pesadamente no chão. Gritou de dor. Seu peito parecia que iria explodir. Soltou outro berro, cheio de lamento e escutou a Sra. Black começar a gritar lá embaixo.
—Rasalas está vivo, Emily. – disse Dumbledore. Levantou os olhos para o diretor e respirou fundo, arfando, chocada. Quis rir, mas o rosto de Dumbledore estava tão sério que simplesmente não conseguiu.
—Ele... ele está vivo? O que aconteceu com meu filho? – perguntou ainda no chão.
—O levaram para um esconderijo. – explicou Dumbledore. – Ele estava muito machucado quando chegamos, completamente inconsciente... não sabemos que tipo de torturas ele passou, mas... – Dumbledore se sentou num sofá parecendo simplesmente exausto – O levamos para o Mungus imediatamente, é claro. Ele perdeu muito sangue.
—Ele estava sozinho? – perguntou Alhena.
—Não... ele infelizmente não estava... – Dumbledore soltou um suspiro cheio de pesar – Havia um lobisomem adulto, preso em uma jaula com ele. – Emily sentiu um frio agourento percorrer toda sua espinha. Alhena e Daphne arfaram ao mesmo tempo.
—Que... que ferimentos... que ferimentos...? – tentou perguntar que ferimentos seu filho tinha, mas as palavras não saíram.
—Rasalas não estava ao alcance do lobisomem ainda não identificado. – disse Dumbledore – Mas... eu realmente sinto muito, Emily... mas eu acho que ele foi mordido. Ele certamente foi arranhado, mas... na altura do ombro... tenho quase certeza de que foi uma mordida.
—Não... não... meu bebezinho... – murmurou em choque. Fechou os olhos querendo acordar daquele terrível pesadelo.
—Os curandeiros estão tentando conter a infecção, mas se foi uma mordida... – Dumbledore soltou um suspiro – Você sabe que as chances são muito poucas... Mas os curandeiros querem que você vá para o Mungus, assinar um termo, autorizando que ele seja esterilizado.
—O que? – perguntou Emily, em choque.
—Existe uma lei que obriga os recém transformados a tomar uma poção, para se tornarem estéreis... para que não passem a doença para os descendentes... – explicou Dumbledore – Mas eu não te aconselho a assinar. Não há estudos muito confiáveis que comprovem que a doença possa ser transmitida dessa maneira. Eu me disponho a te ajudar com isso, com toda a minha influência. Tenho certeza de que o Sr. Lestrange não vai concordar que você assine essa permissão, também... mas... legalmente, é sua escolha.
Emily baixou o olhar, sem saber como se sentir. Parecia que estava presa num terrível pesadelo. Onde lhe falavam coisas sem sentido... seu filho tinha sido sequestrado? Transformado em lobisomem... estava lutando para não morrer? Seu Rasalas? Sempre tão sorridente e forte? Tão corajoso... tão... tão...
Arfou novamente e fechou os olhos, colocando as mãos no peito. O choro veio em seguida, incontrolável... seu pequeno Rasalas... sempre tão brincalhão... sempre com uma piadinha pronta... sempre com aquele olhar de troça... amaldiçoado pelo resto da vida. Soltou um grito cheio de lamento, sem saber o que fazer. Só queria ver seu garotinho... só queria lhe afagar os cabelos e falar que tudo ficaria bem.
—Eu... eu não entendo... – disse olhando para Dumbledore – Ele é puro sangue... eu não entendo... quem fez isso com ele? Foi Rodolfo? – sua voz saía tremida e seu corpo dava espasmos a medida que o choro vinha.
—Foi Avery... – respondeu Alhena – Foi Avery quem machucou Rasalas... eu vi...
Dumbledore a olhou com o mesmo ar cansado.
—Alhena... o que você fez foi incrível... se não fosse por você e pela memória que nos mandou, jamais teríamos encontrado seu irmão a tempo. Ele teria sangrado até morrer...
Alhena soltou um suspiro.
—Talvez ele tivesse preferido assim... – disse Alhena se abraçando – Morrer a se tornar um monstro...
Dumbledore soltou um suspiro.
—Você acha?
—Eu teria preferido...
Dumbledore olhou para a garota com atenção.
—Eu não acho... a morte é definitiva... mas a vida é cheia de novas possibilidades... – Emily viu Dumbledore olhar sua filha por cima de seus oclinhos de meia lua – Você diz que Rasalas virou um monstro... quem é mais monstro, Alhena... Remus ou Avery?
Alhena levantou os olhos, tocada por aquelas palavras e fungou, desviando o olhar.
—Nós... nós podemos ir ver o Rasalas? – perguntou Daphne.
—Eu acredito que não. – disse Dumbledore – Ele precisa ficar em contensão por vinte e quatro horas... para ter alguma chance de se conter o vírus... vocês poderão vê-lo depois de amanhã. – Dumbledore soltou outro suspiro – Até lá a lua cheia já vai ter desaparecido... seria uma boa levar Remus para conversar com ele, independentemente do resultado do tratamento.
****
Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos
Alhena caminhou pelo corredor branco do Mungus. Daphne ao seu lado, com um semblante triste. Astoria seguia desaparecida...
Sua mãe estava com os cabelos castanhos, quebradiços e sem vida, com um olhar muito pesado, que lembrava o tom de quando ela tinha as piores ressacas. Ela nunca parecera tão velha... tão quebrada.
Quanto mais minha mãe vai aguentar? Quanto mais nós vamos aguentar?
Caminharam até a porta onde Rasalas estava. Remus estava de pé, olhando a porta com muita dor no olhar. Ele ouviu os passos das três e se virou. O olhar dele encontrou o de sua mãe e os dois correram para se abraçar.
—Oh, Remus... obrigada por vir! Muito obrigada por vir...
Remus parecia mais doente do que nunca, com o semblante mais abatido que ela já vira.
—Eu sinto muito, Emms... eu realmente sinto muito...
—Você já falou com ele? – perguntou a mãe, soltando Lupin e secando as bochechas com as costas das mãos.
—Ainda não... não quis entrar antes de você... – respondeu Lupin. Ele suspirou e olhou para Alhena e Daphne – Lena... eu realmente... – Alhena o abraçou, grata por ele estar ali.
—Obrigada por vir, Lupin... meu irmão vai ficar mais... mais...
Não encontrou uma palavra... quis dizer “confortado”, mas não imaginou que Rasalas fosse, algum dia, se sentir confortado, independentemente do que acontecesse. Todos sabiam que não existia cura para a licantropia...
Foi Daphne quem abriu a porta. Rasalas estava de pé, de costas para eles. Ele colocava a camisa, mas puderam ver os terríveis cortes nas costas dele. Ele se virou, anormalmente sério e suspirou, fechando os botões da camisa.
A cicatriz da mordida estava ali, no ombro dele. Enorme e feia. Seu irmão, que sempre fora tão vaidoso... os cabelos dele estavam exatamente da mesma cor dos da mãe... ele parecia simplesmente derrotado.
—Veio terminar comigo? – perguntou ele sem olhar para Daphne. Ninguém respondeu. Ninguém falou. Ele se virou e pegou o casaco – Tudo bem, eu entendo...
—Ras... – murmurou Daphne.
—Está tudo bem, não se preocupe. – riu ele sem absolutamente nenhuma alegria – Eu não vou te arrastar pra lama comigo. Eu já sei o que aconteceu. E eu sei que eu nunca mais...
—Cale a boca, Rasalas! – disse Daphne – Não ouse terminar comigo, ouviu? Não ouse?! – ela se aproximou dele, parecendo simplesmente furiosa – Eu esperei oito anos pra você me pedir em namoro! Não vai terminar comigo só porque ficou doente!
—Daphne, eu não estou somente doen... – ele começou, mas Daphne o puxou pelas vestes e o beijou. Alhena deu um sorriso cheio de ternura, amando Daphne mais do que nunca. Rasalas abraçou a namorada e encostou a cabeça no ombro dela, começando a chorar feito criança.
Sentiu os olhos encherem-se de água e escutou sua mãe fungar. Ambas correram até ele, para abraçá-lo. Todos chorando muito.
—Me desculpem! – chorou Rasalas – Eu não consegui fugir e ele me mordeu... me desculpem...
—Meu amor... não é culpa sua... não é! – chorou sua mãe, emocionada, acariciando os cabelos de Rasalas, que já estava mais alto do que qualquer uma delas.
—Eu tive tanto medo... – chorou ele – Eu achei que fosse morrer...
—Alhena te achou. Com a vidência dela. – disse Daphne, que chorava também, sem conseguir se soltar de Rasalas – Se não fosse por ela...
—Eu sinto tanto, Ras... eu sinto tanto... – chorou Alhena.
Rasalas fungou e se afastou delas, por mais que nenhuma delas quisessem soltá-lo.
—Eu nunca mais serei o mesmo... ele tirou algo de mim... – disse Rasalas – Eu não paro de sonhar com ele... sempre acho que ele vai vir me pegar se eu fechar os olhos... acho que estou maluco...
—É assim mesmo... – escutaram a voz de Lupin. Ele olhava Rasalas com um olhar tão cheio de dor que se impressionou por ele não estar chorando também – Eu sonho com isso até hoje... apesar de a frequência ter diminuído bastante... é um medo que você vai precisar aprender a lidar, Rasalas.
Seu irmão se sentou na cama, com o rosto contorcido pelo choro.
—Eu... eu estou com tanto medo, Lupin... da próxima lua cheia... – chorou ele – Dói muito, não dói? – perguntou ele. Lupin concordou com a cabeça, num aceno triste.
—Sim... dói. – respondeu ele. Lupin se aproximou e abraçou Rasalas, que mesmo sendo mais alto e mais forte, pareceu apenas um garotinho – Mas você é um rapaz forte. Mais forte do que eu era, ou sou... você vai conseguir enfrentar isso... – Lupin suspirou e o olhou nos olhos – Eu falei com Dumbledore... na próxima lua cheia você já estará em Hogwarts...
—Como eu posso ir pra escola assim? – perguntou Rasalas, chorando – Eu... eu sou perigoso para as outras pessoas e...
—Não. Com os cuidados certos e alguma responsabilidade, você não será perigoso para ninguém. – disse Lupin de maneira firme – Eu falei com Dumbledore. Você vai ganhar uma licença para se ausentar de Hogwarts por uma semana. Minha casa está preparada para recebê-lo... podemos passar pela lua cheia juntos. – disse Lupin. Rasalas fungou e olhou para ele.
—Obrigado, Lupin... obrigado... – chorou Rasalas abraçando Lupin de novo e mais uma vez caindo num choro desesperado.
Papai precisa saber que foi Avery... e se ele matar aquele cretino, eu vou saber... se é mesmo possível mudar o futuro...
Rasalas terminou de pegar suas coisas e a mãe foi falar com o diretor do Mungus. Quando saíram do hospital, a luz do sol os cegou por um momento. Alhena mirou o irmão, que ainda parecia abatido. Com a mochila nas costas, onde estava suas roupas. Ele se virou encarando a própria sombra e ela fez o mesmo.
Engoliu em seco, pois podia ver o lobo ali. Sua vidência nunca a deixaria esquecer...

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