Legado Lestrange
1 Herdeiros
Notas iniciais

10 de Março de 1979
Lançou outro feitiço por cima do ombro, sentindo a adrenalina percorrer seu corpo. Olho Tonto o perseguia como um cão de caça. Jurava poder ouvi-lo rosnar logo atrás de si. A gargalhada de Bellatrix duelando com o primo Sirius Black era audível à distância. Rodolfo lutava com Lupin e Potter ao mesmo tempo.
Dumbledore e o Lorde das Trevas duelavam, também, de maneira assustadora. Todos duelavam por todos os lados. Mas Rabastan corria assustado. Moody era louco. Seu braço esquerdo sangrava muito. Tinha certeza de que tinha quebrado algumas costelas. Sua visão embaçava. Não estava em condição de lutar.
Precisava fugir. Precisava fugir. Nunca se permitiria ser capturado com vida. Nunca iria para Azkaban. Era um soldado.
Mas no momento não poderia lutar. Estava ferido demais. Escondeu-se em um beco, mas Moody sempre parecia saber onde procurá-lo. Soltou outro feitiço, explodindo algumas lixeiras, querendo causar distração o suficiente para conseguir fugir. Precisava fugir...
Mas Moody sempre sabia onde atirar. Não importava quantas distrações fizesse. Rabastan sentiu um feitiço atingi-lo no peito. Girou no ar, antes de cair no chão, sentindo muita dor. Moody vinha se aproximando. Podia ouvi-lo chegar.
Fechou os olhos sabendo que era o fim. Moody sabia que o Ministério era corrupto. Ele nunca prendia ninguém. Ele matava. Ele não dava chances para absolvições. Apertou a varinha, sentindo o sangue em sua boca. Iria morrer. Não poderia mais lutar por Lorde Voldemort. Não veria sua família crescer e continuar.
Não veria o final da guerra, não lutaria outra batalha. Abriu os olhos, mirando as estrelas no céu. Os passos de Moody, se aproximando.
Pensou que seus últimos pensamentos seriam sobre seu irmão, seu melhor amigo... Mas eles correram para a única mulher que amou. Emily Valentine. Nunca tinha se esquecido dela. Sempre ficava pensando em vê-la uma vez mais... em tentar conversar e se acertar... mas nunca vinha a coragem.
E agora morreria sem poder vê-la de novo. Uma bolha de sangue saiu de sua boca. Moody apontou a varinha. O olhou com frieza e desgosto.
—Faça, traidor de sangue. Escória imunda. – rosnou. Que suas últimas palavras fossem um insulto a seu algoz.
—Farei. – rosnou Moody – Mas primeiro eu quero ver seu rosto. – disse ele se abaixando. Foi quando o auror foi atingido nas costelas e arremessado longe.
Rabastan virou o rosto e viu o sorriso debochado de Bellatrix.
—Corra antes que te peguem. – riu ela.
Se levantou com muita dificuldade e escutou o som de aparatações. Comensais e aurores. Não poderia lutar. Instintivamente aparatou para longe. Achou que iria estrunchar, mas a sorte estava a seu favor.
Caiu numa poça de lama, no meio da rua. Levantou os olhos para a casa. Não tinha a quem recorrer... Sua casa estava sendo vigiada...
Lutou contra seus ferimentos, se colocando de pé. Um passo de cada vez o aproximaram da porta. Um passo e depois o outro. Um tombo. Mais lama no rosto. Mais uma luta contra a dor, cansaço e feridas. Mais passos cambaleantes e incertos.
Foi uma verdadeira luta chegar até aquela porta. Só estivera ali uma vez, há anos atrás. Gemendo de dor, tocou a campainha, sabendo que ela provavelmente o entregaria aos aurores. O “Eu te odeio” que ela lhe dirigira na última vez que conversaram pairou em sua memória. Escorregou pela porta e caiu sentado no chão, já sem forças. Se ela não o ajudasse, estaria perdido.
A porta demorou eras para se abrir. Levantou o rosto, tirando a máscara e a olhou nos olhos.
—Por favor... me ajude... – murmurou antes de desmaiar.
*
A dor era excruciante. Mover-se doía e muito, então optou por ficar de olhos fechados. Tinha medo do que veria caso os abrisse. Poderia estar numa cela, em Azkaban, esperando para ser entregue aos dementadores.
Mas ao sentir um pano frio em sua testa, não conseguiu ficar de olhos fechados. Muito lentamente os abriu e reconheceu uma mulher de cabelos coloridos. Ela ainda os coloria, quem diria...
A olhou completamente grato. Emily estava limpando seu rosto com o pano. Ficou muito quieto enquanto ela fazia isso. Sentiu a ex-namorada limpar suas feridas, com muito cuidado, mas sem nunca o olhar nos olhos. Ela nem mesmo falou com ele. Respeitou isso, apreciando o cuidado que ela tinha em limpar suas feridas.
Estava apenas de calças, em uma cama. Emily usava um short e uma blusa regata, exibindo o corpo cheio de tatuagens. Um de seus braços estava completamente tatuado. Os cabelos estavam completamente trançados, tingidos de vermelho, roxo e verde.
Rabastan suspirou e ficou quieto, permitindo que ela cuidasse dele. Queria falar muitas coisas para ela, mas não teve coragem. Escolheu o silêncio. Porém, depois de longos minutos, se sentiu obrigado a pronunciar ao menos duas palavras.
—Me perdoe.
Emily não esboçou reação. Ela limpava um corte em sua barriga, com uma expressão infeliz. Rabastan colocou uma mão sobre a dela, a olhando nos olhos. Emily o olhou de volta e então o acertou com um tapa na cara.
—Você sabe que eu posso ser presa só por ter te colocado pra dentro, não sabe?
—Eu sei. – murmurou – Obrigado por me ajudar.
—Eu deveria ter deixado você morrer. – rosnou ela ficando de pé.
Então ela se afastou dele, saindo do quarto. Ficou deitado durante um tempo. Olhou para o ferimento em seu braço. Ele cicatrizava aos poucos. A dor estava sendo aliviada por alguma poção que ela colocara naquele pano úmido que usara para limpá-lo.
Se sentou, sentindo-se melhor. Seu corpo estava anestesiado. Ia se levantar quando ela voltou com uma bacia.
—Eu não quero te meter em problemas... – murmurou sem jeito. Mas Emily o empurrou gentilmente de volta para cama, para que ele deitasse. Com outro pano, ela voltou a umedecer seus ferimentos, que começaram a coçar. Ele sabia que aquilo faria com que fechasse mais rápido.
—Desde quando é boa em poções? – perguntou ele, muito quieto.
—Sou boa com essas poções. – respondeu ela, friamente.
—Por que com essa, em específico?
—Porque eu uso em mim. – disse ela com o mesmo tom – Quando me corto.
—Por que se corta? – perguntou franzindo a testa.
—A dor me distrai. – murmurou ela – Dor física me distrai dos outros tipos de dor.
—Eu sou um tipo de dor? – perguntou ele.
Ela não respondeu. Continuou passando o pano em seus ferimentos. Fechou os olhos, sem querer incomodá-la. Ela estava fazendo muito por ele. Principalmente depois de tudo.
—Descanse. Assim que o sol nascer, você vai embora, recuperado ou não. – disse ela se levantando.
—Certo. Obrigado. – murmurou.
Emily se virou e saiu, deixando-o sozinho. Mas por mais que estivesse cansado, não conseguiu dormir. Rolou na cama, mas desistiu de ficar deitado depois de um tempo. Se levantou e saiu do quarto. Emily estava sentada no sofá, fumando um baseado. Caminhou até ela e se sentou ao seu lado.
—O que quer?
—Nada. – murmurou ele – Só não consigo dormir...
—Tente de novo. – sibilou ela tragando o baseado. Rabastan a olhou franzindo a testa.
—Desde quando usa drogas? – perguntou ele.
—Desde que abortei um filho seu. – respondeu ela. Rabastan a olhou chocado.
—O que?
—Nossa última vez... eu engravidei. – respondeu ela dando de ombros – Não que importe pra você.
—Claro que importa! Deveria ter falado comigo. – disse zangado.
—Por que? Iria me fazer uma mulher honesta? – perguntou ela com um sorriso ácido – Não tinha coragem de pedir para que seus pais me tratassem de maneira civilizada. O que dirá assumir um filho naquela época... – ela tragou o baseado mais uma vez enquanto Rabastan se sentia um lixo – E eu nunca iria ter um filho seu.
—Você está com a Ordem? – perguntou Rabastan. Emily o olhou com desdém.
—Eu tenho cara de quem consegue lutar com alguém? – perguntou ela soprando a fumaça para o alto – E eu nunca fui muito boa duelista...
—Isso é verdade... – murmurou ele com um sorrisinho – Vejo que comprou móveis novos. – adicionou mudando de assunto. Da última vez que estivera ali, Emily quase não tinha móveis, mas agora tudo estava mobiliado.
—Eu arrumei um emprego de verdade. – disse ela – Trabalho numa loja, no Beco Diagonal.
—Bom... – murmurou ele. Soltou um suspiro e ficaram em silêncio por alguns minutos – Eu queria ter vindo antes.
—Tenho certeza que sim. – murmurou ela friamente.
—Eu falo sério.
—Eu sei. – disse ela sem o olhar – Aposto que ainda pensa em nós dois. Você é tão cabeça dura. Quando invoca com uma coisa, nunca consegue largar.
—Isso é verdade. – riu ele – E você? Ainda pensa em nós dois?
—Não. – respondeu ela friamente – Eu te excluí da minha vida. Nunca vou perdoar o que fizeram com a minha família.
—Eu não tive nada a ver com aquilo. – disse sentindo-se desconfortável. Sabia quem tinha matado a família dela... Rodolfo e Bellatrix.
—Mas sabe quem tem. – murmurou ela.
—Emms...
—Não importa. – cortou ela com o mesmo tom frio – Não importa. – ela tragou de novo e prendeu a fumaça nos pulmões, jogando a cabeça para trás, fechando os olhos.
—Eu ia te pedir em casamento. – confessou. Emily tossiu, se engasgando com a fumaça e ele precisou esperar um tempo até que ela o olhasse.
—O que?
—Você ouviu.
—Nunca se casaria comigo. – riu ela com deboche, e desviando o olhar novamente – Nunca teria coragem pra se casar comigo.
—Você é puro sangue. Claro que teria. – disse ele – Eu amei você, sabe?
—Amou? – perguntou ela com raiva – Você tinha um jeito muito estranho de demonstrar, Lestrange.
—Eu comprei o anel. – disse ele sem olhá-la – Mas tudo deu errado naquele natal.
—É, eu me lembro. Eu estava lá.
—Eu sinto muito por não ter tomado seu partido... – murmurou ele.
—Hum... só levou três ou quatro anos pra se tocar disso? – perguntou ela com desdém.
—Mas não daria certo, de qualquer maneira.
—Eu sei que não. Você luta para aquelas pessoas. – disse Emily se referindo aos comensais – Eu nunca iria casar com você...
—É... você não poderia ser perfeita. Eu não poderia exigir isso de você. – riu Rabastan – Mas admita... o sexo era muito bom.
—Era. – disse Emily com um suspiro. Ficaram em silêncio por um tempo – Você se casou com alguém?
—Não... nunca mais me envolvi com alguém. – respondeu Rabastan pegando o baseado dela, para dar um trago.
—Por que? Muito ocupado matando crianças nascidas trouxas? – perguntou ela com a voz venenosa.
—Estive ocupado lutando por um ideal. – retrucou. Ele tragou o baseado e o devolveu para Emily – Ao contrário de você, que desperdiça sua vida e talento com isso aqui.
—Seu ideal é sangrento, Lestrange.
—Mas ao menos eu tenho um. – devolveu ele.
—Eu tenho ideais. – disse Emily pegando uma garrafa de hidromel, que estava em cima da mesa – Isso. – ela deu um longo gole – E isso. – então ela tragou o baseado. Ela fechou os olhos e então soltou a fumaça – São os dois ideais pelos quais vale a pena lutar.
—Eu te quebrei pra valer, não foi? – perguntou ele um tanto desgostoso – Você era tão melhor do que isso...
—Sou apenas mais uma das várias coisas que você quebrou.
—A última coisa que você é, Emms, é “mais uma”.
Emily terminou o baseado e jogou a bituca no chão. Ela engatinhou pelo sofá, até ele e soprou a fumaça em seu rosto. Rabastan tossiu, indignado, mas então sentiu os lábios de Emily tocarem os seus.
—Isso não muda nada. Eu só quero foder, entendeu? – perguntou ela em sua orelha.
—Por mim... – murmurou Rabastan a puxando para ele.
**
14 de Fevereiro de 1988
Edasich e Rodolfo passeavam pela Travessa do Tranco. A Sra. Lestrange queria comprar vestidos novos e o Sr. Lestrange precisava passar no Gringotes para fazer alguns investimentos.
A prisão dos dois filhos nunca tinha descido pela garganta do Sr. Lestrange. Se sentia furioso por seus dois herdeiros – Rabastan e Rodolfo – terem jogado seu bom sobrenome na lama. Mas o que mais o deixava furioso era saber que seriam os últimos Lestrange’s. Seus filhos nunca sairiam de Azkaban e o nome da família morreria com ele, já que os filhos provavelmente morreriam primeiro, entocados naquele lugar horrível.
Nunca tinha ido visitá-los e proibira a esposa de ir. Era completamente vergonhoso ter seus dois filhos trancafiados naquele lugar. Não se rebaixaria ao nível de Crouch, que ia para lá visitar o bostinha do filho, enquanto a esposa definhava de tristeza. Ele era um homem de classe. Sempre tinha frequentado lugares exclusivos e refinados. Não perderia um dia sequer de sua vida com Azkaban. Seus filhos tomaram a tola decisão de esperar pelo retorno do Lorde das Trevas. Se tivessem sido um pouco mais inteligentes, teriam feito como Malfoy e muitos outros, que disseram estar sob efeito da maldição Imperius.
Se eles queriam ficar enfiados numa cela suja até o fim de seus dias, ele não iria consolá-los. Tinham traído a família e ele não falava com traidores.
Mas precisava admitir que ver seus colegas se tornarem avôs, enquanto ele não, era enfurecedor. Se Rodolfo e Bellatrix ao menos tivessem adiantado um herdeiro... infelizmente estavam mais interessados em lutar do que em cumprir com suas obrigações...
E Rabastan nem se dera ao trabalho de arrumar uma mulher. Aparecera certa vez com uma moça completamente inapropriada, com o corpo infestado de tatuagens. Uma Valentine, que provavelmente só estava interessada no sobrenome e dinheiro dele. Obviamente o filho a enxotou de casa, quando notou que a garota não tinha agradado, mas isso não significava que o tolo deixara de gostar dela. Ele nunca mais arrumara outra mulher.
Havia um pouco de arrependimento em si por conta disso. Aquela ali engravidaria rapidinho na tentativa de manter o status.
Entraram na Botique Salvage para que a esposa comprasse os vestidos. Rodolfo se sentou em um banco, entediado e
Edasich foi procurar sua costureira favorita para encomendar suas roupas. Estava sentado, ainda pensando em quanto seus filhos eram ingratos e inconsequentes quando uma garotinha de uns oito anos apareceu com uma bandeja.
Ela usava um vestido que a deixava parecendo uma boneca. Ela era gorduchinha e tinha os olhos verdes, com os cabelos dourados. Na bandeja havia uma cópia do Profeta Diário e um jogo de chá. A menina ofereceu o jornal para ele e sorriu um sorriso treinado.
—Aceita um chá, senhor?
—Sim. Tem mel? – perguntou aceitando o jornal.
—Sim, senhor. – disse a menina, de maneira cortês. Ela lhe entregou a xícara e lhe serviu o chá. Depois colocou o mel – Quando estiver bom...
—Está bom. – disse severamente.
A menina fez uma mesura e saiu, corada. Mas então um garoto saiu de dentro de uma caixa cheia de tecidos.
—OLHA O BICHO PAPÃO, ALHENA!
—AH! – a menina pulou de susto, derrubando o jogo de chá no chão. Ela olhou envergonhada – Rasalas... por que fez isso? – choramingou ela se abaixando para catar os cacos da louça – A senhora Greengrass vai brigar comigo.
Rodolfo virou para o outro lado, quando ouviu o menino gargalhar. Sentiu um arrepio lhe subir a espinha e o olhou novamente. Ele era loiro também, num tom bem mais escuro de loiro, mas não muito familiar... mas o modo que ele gargalhava lhe era completamente nostálgico.
—Vai chorar, é? Vai chorar? – riu ele.
—RASALAS!
O Sr. Lestrange olhou para o lado e viu uma mulher loira chegar, parecendo zangada.
—Desculpe, mamãe... eu me assustei. – disse a menina. O garoto lançou um olhar petulante para a mulher.
—Você não consegue se comportar, não é? Por que não pode ser mais como a sua irmã? – perguntou a mulher. Ela tinha um braço todo tatuado e era familiar também.
—Ah, mamãe. Não é minha culpa se a Lena é tão desastrada. – disse um garoto com um sorriso insolente. E então ele o olhou.
O Sr. Lestrange achou que estava vendo coisas. Aquele sorriso... conhecia aquele sorriso. A mulher brandiu a varinha, concertando a louça quebrada e depois limpou o chá derramado.
—Conversaremos em casa, Rasalas Valentine. – rosnou a mulher.
O Sr. Rodolfo ficou tão chocado ao ouvir aquele nome que deixou sua xícara cair. O garoto olhou para a mulher de maneira arrogante, do mesmo modo que Rodolfo, seu filho, fazia. A garota, que tinha os olhares evasivos e sem confiança em si mesma fazia a mesma pose de Rabastan.
Ficou olhando os dois meninos sem acreditar em como poderia estar vendo aquilo. Rasalas e Alhena... era como ver Rodolfo e Rabastan crianças novamente. A aparência era diferente, mas o jeito... céus... o jeito...
A mulher se virou para ele, com um sorriso gentil.
—Quer outra xícara...? – mas ela parou no meio da pergunta. A reconhecia. Tinha certeza de que era a mesma Valentine que Rabastan trouxera para casa num natal. Apesar de tudo, os Valentine eram sangue puro... Eram traidores de sangue, claro, mas costumavam ser muito influentes até serem assassinados – Rasalas, Alhena. Vão lá pra dentro. – disse a mulher com um olhar petrificado.
—O que houve, mamãe? – perguntou o garoto franzindo a testa.
—Agora. – disse ela mais rispidamente. A menina foi, obediente, mas o menino ficou, olhando curioso para a mãe e para o senhor, que o encarava completamente chocado.
A mulher se virou para ir atrás dos filhos, mas Edasich apareceu no caminho dela. A Sra. Lestrange olhou para as tatuagens de Valentine e torceu o nariz.
—Suas funcionarias já tiveram um padrão melhor, Greengrass. – murmurou sua esposa, com visível desagrado – No mínimo deveria esconder essas coisas. – disse apontando frouxamente para as tatuagens no braço da mulher.
—Emily Valentine é nossa melhor designer. – disse Diana Greengrass – Ela é um pouco alternativa, mas desenha os vestidos mais bonitos da loja, Sra. Lestrange.
—Valentine? – perguntou Edasich se virando para a mulher. Então os olhos da esposa correram para o garoto, que a olhava com desdém. A Sra. Lestrange levou um choque tão grande que cambaleou para trás, escondendo a boca com as mãos – Meu Merlin...
—Rasalas. Entre agora! – disse Valentine parecendo nervosa.
—Lestrange? – perguntou o garoto olhando para a Sra. Lestrange – Seu nome é Lestrange?
—Rasalas! – disse Valentine tentando segurá-lo pelos cotovelos, mas ele escapuliu para longe dela.
—Achei que todos os Lestrange estavam presos! – disse ele sorrindo.
—E o que você sabe sobre os Lestrange? – perguntou Rodolfo ficando de pé. O garoto o olhou com um sorriso maroto.
—Eu sei que meu pai era um Lestrange.
—Rasalas. Vá lá pra dentro. AGORA! – rosnou Valentine, vermelha.
—Por que nunca me disse que meus avós estavam vivos? – perguntou o garoto, desobediente – Nunca me deixou ir visitar o meu pai na prisão. Mas nem os meus...
—Rasalas, por favor! – pediu Valentine, com os olhos ficando cheios de água. O garoto olhou para a mãe e pareceu amolecer ao ver que ela estava perto de chorar. Ele suspirou e saiu emburrado. Mas antes de desaparecer pela porta ele sorriu maroto – Falou, vovô e vovó!
—Oh, meu Merlin... – murmurou Edasich, caindo sentada em uma cadeira. Ela respirava ofegante, em choque – Você viu, Rodolfo? Você viu? São de Rabastan! Eles são de Rabastan!
—Não. Eles não têm pai. Eles são Valentine’s! – disse a loira.
—O que raios está acontecendo aqui? – perguntou Diana Greengrass.
—Essa mulher tem mantido meus netos longe de nós. Nunca nem falou que eles existiam! – rosnou Edasich apontando com ódio para Valentine.
—O que? – disse Diana – Seus filhos são Lestrange’s? – perguntou ela em choque – Sempre disse que eram de um trouxa!
—Meus netos? Filhos de um trouxa? – rosnou Rodolfo – Aqueles são filhos de Rabastan! – e então ele sorriu. Finalmente tinha seu herdeiro. E ele ainda espiava pela porta, torcendo para que a mãe não o visse.
***
15 de Março de 1989
Rasalas entrou naquela casa enorme, completamente fascinado. Sua irmã gêmea parecia antes assustada do que realmente impressionada.
Levou um ano... um ano inteiro, mas Rodolfo Lestrange conseguiu convencer Valentine a fazer como ele queria.
Não eram mais Rasalas e Alhena Valentine. Eles eram Lestrange’s. Seu sobrenome sobreviveria mais uma geração.
Rodolfo guiou os netos pela casa. Edasich vinha logo atrás, com um sorriso satisfeito no rosto. Ele apontava para os cômodos e os dois olhavam com atenção. Os conhecia muito pouco, mas já tinha se apegado ao neto muito mais do que à neta. Ela era medrosa e sem confiança em si mesma. Mas Rasalas era esperto e afiado. Ele tinha carisma pelos dois. Seria um bom herdeiro, certamente.
—Aqui vai ser o seu quarto, Rasalas, quando vierem para nos visitar. – disse Rodolfo mostrando um quarto espaçoso e bonito, que pertencera a Rodolfo, anos atrás. Rasalas sorriu satisfeito e pulou para a cama.
—Mas onde Alhena vai dormir? – perguntou o garoto. Alhena olhou o avô assustada.
—No outro quarto. O que pertenceu ao pai de vocês. – respondeu Edasich.
—Não quero. – murmurou a menina. Rodolfo a olhou surpreso. Era a primeira vez que a escutava falar desde que ela lhe oferecera um chá na botique dos Greengrass – Eu não quero ficar no quarto dele.
—Do seu pai?
—Eu não tenho pai. – disse ela timidamente – Eu sou Valentine. Não podiam ter mudado o meu nome! Não podiam! – murmurou ela com os olhos cheios de água.
—Maninha! – disse Rasalas vindo até ela – Não fique assim. Estamos com um sobrenome mais importante agora! – riu ele – E vamos ter um quarto pra cada um. Isso não é demais?
—Eu quero a minha mãe. – choramingou a menina.
—Não vai ter a sua mãe. – disse Rodolfo num tom seco. A neta o olhou assustada novamente – Você vai ficar conosco durante todos os fins de semana, até que tenham idade o suficiente para ir para Hogwarts. Vão fazer como a Corte mandou. Você entendeu? – perguntou ele severamente – E se eu te ver chorando de novo, vai ficar de castigo.
—O que? – perguntou a menina, encolhendo.
—Isso mesmo. Você é uma Lestrange agora. Gostando ou não. – disse ele com um ar severo – Vai aprender a se portar de maneira comportada ou será punida.
A garota o olhou terrivelmente assustada, mas concordou parecendo infeliz.
—Vamos. Vamos levar você até o seu quarto. – disse Edasich com ternura – Vem com a vovó.
—Edasich. Enquanto Alhena não começar a agir como um Lestrange, você não deve tratá-la assim. Carinho será recompensa para bom comportamento. Você entendeu? – perguntou Rodolfo com severidade. Rasalas e Alhena olharam para a avó, que estava com uma feição sem emoção alguma.
—Sim, meu esposo. – respondeu ela.
—Ótimo. Agora leve Alhena até o quarto dela. Eu vou levar Rasalas para a Sala das Bolhas.
—Sim, meu esposo. – repetiu Edasich, mais uma vez sem emoção – Alhena. Venha. – disse ela secamente. Alhena encolheu e olhou assustada para o irmão, que acenou em concordância para ela.
A menina seguiu a avó e Rodolfo olhou para seu pequeno herdeiro.
—Vamos, Rasalas. Você tem que reaprender o que é certo e errado. Você vai ser um bom Lestrange, não vai?
—É claro, avô. – riu o garoto fazendo uma pose aristocrata. Ele tinha porte de puro sangue, ao contrário da irmã, que parecia um filhote assustado. Rodolfo sorriu satisfeito e foi andando com seu neto a lhe seguir.
****
Hogwarts
1991
Rasalas sabia que a mãe não estava nada satisfeita com a presença dos Lestrange. Ela os odiava e desprezava. Mas os avós fizeram questão de irem com eles para a plataforma ¾. Finalmente, ele e a irmã estariam indo para Hogwarts.
Rasalas olhou para o trem com excitação e um enorme sorriso no rosto. Sua mãe se abaixou para arrumar os óculos de sua irmã, que estavam tortos, parecendo que poderia chorar a qualquer momento.
—Prometam que vão se comportar, ok? – perguntou a mãe.
—Eu vou cuidar da Lena, mamãe. – disse Rasalas. Sua mãe o olhou com ternura, mas quem falou foi seu avô.
—Isso mesmo, Rasalas. Nós, os Lestrange, cuidamos uns dos outros. Certo?
—É claro, vovô. – disse Rasalas com um sorriso.
—Quem serão seus amigos? – perguntou o avô.
—Apenas sangues puros. – respondeu ele prontamente. O avô sorriu com aprovação e então olhou para sua irmã.
—Quem serão seus amigos, Lena? – perguntou ele.
—Alhena fará amizade com quem quiser. – respondeu sua mãe com um tom zangado – Você pode ter conquistado o direito de dividir a guarda deles, Lestrange. Mas eles são meus filhos e não serão preconceituosos como você.
Rasalas viu seu avô sorrir com desdém.
—Não sei o que Rabastan viu em você. – retrucou ele – Talvez apenas trabalhasse muito bem com os quadris.
—Por que não pergunta pra ele? – perguntou sua mãe, acidamente. Mas então ela sorriu e se virou para Rasalas e a irmã – Se comportem e vão para a Grifinória, ok?
—Sonserina. – corrigiu o avô.
—Eu vou para a Sonserina, mamãe. Desculpe. – riu Rasalas – E você, Lena?
A irmã suspirou e deu de ombros.
—Pra onde me mandarem ir.
—Se continuar com essa atitude, vai acabar caindo da Lufa-Lufa. – repreendeu o avô. Alhena encolheu alguns centímetros.
—E não há vergonha nisso. Muitos bruxos decentes saíram da Lufa-Lufa e um número muito, mas muito pequeno deles foram parar em Azkaban.
—Claro que não. Texugos são bons em se enfiar em buracos para se esconder. – debochou o avô, com um sorriso desdenhoso – Sonserina, Alhena. Não espero menos que isso. Você é uma Lestrange.
Sua irmã olhou para os próprios pés e concordou em silêncio.
—Cale a boca, Lestrange! – rosnou sua mãe – Não importa a casa, querida. Desde que se dedique muito. – Sua mãe beijou Alhena no rosto e depois o puxou para beijá-lo também – Vou morrer de saudades de vocês. – disse ela puxando os dois para abraçá-los. Alhena sorriu e Rasalas também. Os dois se aproximaram da mãe e a apertaram com força – Eu amo vocês, ouviram? – perguntou ela os beijando nas bochechas.
—Também te amo, mamãe. – responderam juntos.
Rasalas se afastou e olhou empolgado para o trem. Então pegou a mão da irmã e se virou para os avós.
—Até o natal?
—Natal com a mãe de vocês. Ano novo comigo. – disse ele tranquilamente.
—Então, ok. Até mais. – riu Rasalas – Vamos, mana.
Alhena concordou o seguindo.
O trem já estava para partir. Tinham chegado bem em cima da hora. Encontrou alguns conhecidos no trem, como Malfoy, Crabbe, Goyle, Zabini e Burke, mas não quis ficar com eles. Sabia que talvez tratariam sua irmã muito mal por ela ser tímida. Então foi olhando as cabines, uma a uma. Por fim encontrou uma lá no final, com dois garotos desconhecidos.
Ele abriu a porta e entrou, sorrindo.
—E ae! – disse olhando para eles – Eu e minha irmã vamos ficar aqui com vocês. – disse ele – Tá tudo cheio. Vocês não se importam, né?
—Não. – respondeu o que usava óculos.
Ele era baixo e magricela, com os olhos verdes, os cabelos escuros e roupas grandes demais para ele. Seu óculos estava quebrado e remendado com fita adesiva. Os cabelos estavam despenteados e o tênis descosturado.
O outro garoto era ruivo, com vestes surradas, olhos azuis, muitas sardas e um nariz comprido.
Alhena se sentou ao lado do ruivo e pegou logo seu caderno, para escrever ou desenhar. Rasalas largou suas coisas ali e se sentou ao lado do de óculos.
—Olá. Eu sou Rasalas Lestrange. Essa é minha irmã, Alhena Lestrange. – disse ele.
—Lestrange? – perguntou o ruivo – Hum... – ele pareceu sem jeito – Eu sou Ronald Weasley.
—É um prazer, Weasley. – disse Rasalas – Você está na lista negra do meu avô. – riu ele.
—Lista negra? – perguntou ele, franzindo a testa.
—Não se preocupe. Nosso avô é um babaca. – resmungou Alhena – Se você está na lista negra dele, então provavelmente é uma boa pessoa.
—Hum... obrigado. – riu ele meio sem jeito.
—E você? – perguntou Rasalas para o de óculos.
—Ah... sou Harry. Harry Potter.
Rasalas esbugalhou os olhos, sentindo um frio na barriga. O olhou boquiaberto e então procurou pela cicatriz em forma de raio na testa dele. Realmente estava lá, parcialmente escondida pelo cabelo.
—Uou! Você ouviu, Lena? Ele é Harry Potter! – disse Rasalas empolgado.
—Eu sei. – disse ela – Eu vi a cicatriz assim que entrei.
—E não surtou? – perguntou ele, com um sorrisinho.
—Por que eu surtaria? – perguntou ela ainda rabiscando o caderno. Ela não olhava para os lados. Era um mecanismo de defesa. Fingir-se de concentrada com um desenho ou texto, para não ter que encarar as pessoas.
Rasalas riu dando de ombros e voltou a encarar o tal Harry Potter.
—Minha mãe sempre contava histórias sobre você quando nos colocava para dormir. – disse ele – Que legal te conhecer, cara.
—Hum... obrigado, eu acho. – riu Harry.
—Vocês já sabem pra que casa vão ir? – perguntou Rasalas.
—Provavelmente Grifinória. – respondeu o ruivo – Minha família toda veio de lá.
—E você, Harry? Posso chamar de Harry, né?
—Claro... Rasalas, não é?
—Sim. – disse sorrindo.
—Bem... eu vou ficar feliz se for escolhido pra alguma casa. – disse ele meio incerto.
—Ele vai para a Grifinória. – disse Alhena. Rasalas soltou um muxoxo.
—Sério? – perguntou ele – Certeza que não é pra Sonserina? – ele riu e olhou para os dois garotos – A gente vai pra Sonserina, sabe?
Rony fez uma careta e Harry pareceu confuso.
—Como sabe? – perguntou Harry.
—Alhena sabe das coisas. – respondeu Rasalas – Ela é meio vidente... é o talento dela.
—Que legal. – disse Rony.
—É. Mas meu talento é mais irado. – disse Rasalas e Alhena baixou o caderno.
—Mamãe falou pra não fazer! – disse ela com censura.
—Mamãe não tá aqui e só porque ela tem vergonha e acha esquisito, não quer dizer que eu sinta o mesmo.
—Do que está falando? – perguntou Rony. Então Rasalas mudou a cor do cabelo para azul elétrico – Uou! – disse o ruivo.
—Que legal! – riu Harry.
—Maneiro, né? – riu ele – Nossa mãe era proibida de usar o dom dela. Só começou a usar quando mataram os pais dela, mas mesmo assim era segredo. Todo mundo achava que ela pintava os cabelos. – disse Rasalas voltando para a cor normal. Alhena o olhou com censura e logo voltou a desenhar – Mas é certeza, mana? Eles vão para a Grifinória? – perguntou se virando para a irmã.
—Sim. Rony é um Grifinória sem espaço para contestação. Harry seria grande na Sonserina, mas seria ainda maior na Grifinória. – ela respondeu rabiscando o caderno.
—Ah, que pena... – riu Rasalas – Mas é a vida.
—Por que quer ir pra Sonserina? – perguntou Harry – Dizem que todo mundo lá é mau...
—Não. – retrucou Rasalas – É a casa dos astutos. Eu e minha irmã somos astutos.
—Como raposas. – debochou Lena.
—Fiz meu avô acreditar que eu concordo com todas as baboseiras preconceituosas que ele fala. – riu Rasalas.
—Por que? – perguntou Rony.
—Porque ele é rico e minha mãe se mata de trabalhar todos os dias pra sustentar a gente. Ela é mãe solteira, sabe? – explicou o garoto dando de ombros.
—E o seu pai? – perguntou Harry.
Rasalas olhou para a irmã. Ela estava estática, sem escrever ou desenhar, olhando para o próprio caderno.
—Nós não temos um pai. Só mãe. – respondeu ela secamente.
—Papai está preso. Nós nunca o conhecemos.
—Preso? – perguntou Harry, sem jeito.
—É... Perpétua em Azkaban por ser seguidor de Você-Sabe-Quem. – riu o garoto sem se importar – Papai era mau e mamãe não era muito responsável. – riu ele – Namoraram no colégio e terminaram porque ele era...
—Um babaca. – completou Lena – Mas um dia, ele apareceu todo estourado, ela cuidou dele e acabou fazendo besteira...
—E cá estamos nós. – riu Rasalas – Mamãe era meio “locona”, mas quando descobriu que estava grávida, tomou jeito... – ele deu uma risadinha e falou apenas para provocar a irmã – Então pode-se dizer que papai concertou ela.
—Oh! Cale a boca! – rosnou Alhena baixando seu caderno – Aquele homem não é capaz de concertar porcaria nenhuma. Só destruir.
—Ok, maninha. Você está deixando o clima desconfortável, sabe? – riu Rasalas e Alhena corou furiosamente. Ela murmurou um “desculpe” e voltou a desenhar em seu caderno – Lena não gosta muito da família do papai. Não sei se deu pra notar.
Rony deu uma risadinha e Harry pareceu levemente desconfortável.
—Não liguem para ele. – disse Lena – Ras não sabe quando parar.
—Eu certamente sei quando parar. – discordou.
Ficaram conversando animadamente – ou ao menos ele ficou. Alhena ficou rabiscando seu caderno. Lá para o meio dia apareceu uma bruxa vendendo doces. Alhena baixou o caderno com um enorme sorriso no rosto.
—Ah! Eu quero sapos de chocolate, por favor.
—Eu quero varinhas de alcaçuz. – disse Rasalas tirando dinheiro do bolso. Mas Harry sorriu e tirou um monte de moedas.
—Eu quero uma de cada.
Rasalas sorriu e Lena corou de leve.
—Eu posso comprar mais, Ras? – perguntou ela.
—Claro, maninha. Vovô me deu dinheiro. Pede o que quiser. – disse sorrindo. Lena sorriu e pegou um monte de chocolates e outros doces. Ela se colocou a comer, feliz. Lena adorava doces. Vovô falava que era por isso que ela era gorda. Quando passavam o final de semana com eles, ela nunca podia comer muito. Vovô dizia que se ela fosse gorda não arrumaria um bom marido. Mas assim que voltavam pra casa, Alhena comia como se estivesse sido amarrada.
Ela ficou tão empolgada que largou o caderno com um desenho não terminado da coruja de Harry.
—Uau! Você desenha bem! – disse Rony olhando para o desenho.
Alhena corou com violência e sorriu.
—O-obrigada. – murmurou ela – Eu ajudo minha mãe a desenhar os vestidos da Sra. Greengrass... desenho desde pequenininha...
Ficaram conversando e dividindo os doces, trocando figurinhas e tudo o mais. Logo apareceu um menino choroso procurando por um sapo, mas falaram que não tinham visto.
Pouco depois apareceu uma menina de cabelos cheios, meio dentucinha, também procurando pelo sapo.
—Não vimos. Já falamos isso. – resmungou o ruivo.
Rasalas ficou olhando para ela, achando estranho o fato dela já estar de uniforme.
—Se quiser entrar e procurar. – disse Rasalas – Mas nós não vimos. Seu nome é?
—Hermione Granger. – respondeu ela.
—Esse sobrenome eu não conheço. – murmurou franzindo a testa.
—Você é nascida trouxa? – perguntou Alhena.
—Sou. – disse ela parecendo orgulhosa.
—Oh! Que legal. – disse Alhena – Eu adoro música trouxa!
Rasalas sorriu e bateu no banco em que estava sentado.
—Chega mais, Srta. Granger! – chamou ele – Aceita alguns feijões de todos os sabores?
Ela sorriu e depois se sentou ao seu lado. Ele lhe oferece a caixa cheia de doces e ela pegou um.
—Gosto de batata frita! – riu ela.
—Só eu pego os sabores escrotos. – resmungou Rasalas – Quer ver? – ele pegou um doce e colocou na boca. Fez uma careta assim que engoliu – Argh! Picles.
A menina sorriu e se levantou.
—Vou ajudar o Neville com o sapo. – disse ela.
—Não! Fica aí, Hermione! – riu Rasalas sorrindo – Você tem que me explicar como funciona uma torradeira.
Sua irmã sorriu.
—Como elas sabem quando o pão já está bom? Sempre achei esquisito. – confessou ela.
Harry deu uma risadinha e Rony soltou um suspiro.
Hermione se sentou ao lado dele e explicou que a torradeira tinha um marca tempo, que calculava quanto era necessário esquentar o pão. Ela estava lhe explicando sobre uma coisa chamada eletricidade, quando a porta da cabine se abriu.
Era Malfoy, Crabbe e Goyle.
—Fala, galera. – riu Rasalas – Quanto tempo.
—Quem são? – perguntou Alhena.
—Ah. Malfoy, Crabbe e Goyle. A gente fez aquele curso tosco de etiqueta masculina juntos. – Rasalas se virou para Harry – Vovô me obrigou. Até parece que eu não era educado!
—Não perdeu tempo, heim, Lestrange? – disse Malfoy entrando, o olhando com os olhos semi cerrados – Já foi fazer amizade com Harry Potter.
—Foi acidente. – riu Rasalas dando de ombros. Malfoy passeou o olhar pela cabine, olhando de Hermione para Alhena e Rony e então para Harry.
—Por que não falou quem era lá na Madame Malkin? – perguntou Malfoy.
—Talvez porque você não cala a boca quando começa a se gabar. – brincou Rasalas com um sorriso travesso. Malfoy o olhou irritado e então olhou mais uma vez para Harry.
—Meu nome é Draco Malfoy. – Rony deu uma tossidinha, como que para segurar uma risadinha e Malfoy se virou irritado para ele – Achou meu nome engraçado? Nem preciso perguntar o seu. Cabelo ruivo, sardas e vestes de segunda mão. Você deve ser um Weasley. – Rony encolheu um pouco no banco e Rasalas franziu a testa. Não via vergonha nenhuma em usar vestes de segunda mão. Apenas muito recentemente começara a ganhar roupas boas e novas. Sua mãe, quando tinha tempo fazia vestes pra ele, antes de descobrir seu avô. Mas na maior parte das vezes tinha que usar roupas surradas. Malfoy se virou novamente para Harry, que o olhava com um semblante sério – Logo você vai descobrir que existem famílias bruxas melhores que outras. Não quer ficar amigo da família errada, quer?
—Ridículo.
Malfoy se virou e olhou para Alhena, que tinha corado, olhando para o próprio caderno. Ela provavelmente tinha deixado escapar.
—E quem é você? – perguntou Malfoy com frieza.
—Ela é minha irmã, Malfoy. E se for falar alguma coisa ofensiva vai se ver comigo. – ralhou Rasalas. Malfoy olhou dele para Alhena franzindo a testa.
—Eu não sabia que tinha uma irmã.
—Pois é. Eu tenho. – disse Rasalas.
—O que você acha ridículo, heim? – perguntou ele estreitando os olhos.
—Esse pensamento de que algumas famílias são melhores que outras. – disse a garota.
—E você não acha que é assim que funciona?
—Não. A família de uma pessoa não a define. Eu não sou como meu pai ou avô. E nem meu irmão.
Malfoy deu um sorriso desdenhoso e se virou novamente para Harry.
—Que seja. Você vem?
—Não. Eu estou bem aqui. E melhor acompanhado também.
Malfoy franziu a testa e um leve rosado tingiu seu rosto.
—Eu tomaria cuidado no seu lugar, Harry. Seus pais também não tinham juízo. Por isso acabaram daquele jeito. Você não quer ter o mesmo fim, quer?
—Você realmente sabe como fazer amigos, Draco. – debochou Rasalas ficando de pé – Agora, por favor, se retire. Você está incomodando.
Draco o olhou estreitando os olhos.
—E se eu não quiser me retirar. – ele olhou para os doces de Alhena – Eu vejo que vocês ainda têm doces aqui, mas os nossos já acabaram. Acho que vou ficar com os de vocês.
Alhena o olhou temendo que lhe roubassem os doces e Rasalas segurou Malfoy pelo pulso.
—Toque em uma jujuba que seja, da minha irmã, Malfoy, e você vai se ver comigo.
—E o que vai fazer? – provocou ele rindo. Crabbe e Goyle riram estalando os nós dos dedos. Rasalas olhou para eles, sabendo que era muito menor, assim como Harry e Rony.
—Acha que seus amigos podem te ajudar por serem grandes? – provocou ele com um sorriso – Acha que eu não dou conta deles? Já briguei com caras maiores. Quer mesmo passar vexame na frente das meninas? – puxou o pulso dele com força – E acredite, o primeiro soco vai ser em você.
Malfoy piscou, levemente preocupado e puxou o pulso. Rasalas o soltou e o garoto olhou para seus amigos.
—Vamos. Não vamos mais perder nosso tempo aqui.
Rasalas cruzou os braços e ficou olhando enquanto o trio se afastava. Hermione se levantou e fechou a porta.
—Você realmente poderia ter lutado contra eles? – perguntou ela parecendo surpresa.
—Claro que não. Ele ia apanhar feito criança. – riu Alhena – Mas Rasalas mente bem. Ele sempre faz todo mundo acreditar nas anedotas dele.
—Deve ser um dom. – riu ele se sentando novamente.
—E se Malfoy comprasse a briga? – perguntou Rony.
—Eu esperava que vocês me ajudassem para apanharmos unidos. – riu ele fazendo graça. Rony e Harry sorriram. Sua irmã revirou os olhos, voltando a desenhar a coruja de Harry e Hermione o olhou com censura.
—Ia colocar os outros para apanhar com você! Que horror. – ralhou ela.
—Qual é, Hermione. Era só uma brincadeira. – riu ele. Ela arqueou uma sobrancelha e se levantou.
—Eu vou ajudar o Neville. Vocês deveriam colocar os uniformes também.
E então se virou e saiu. Rasalas deu de ombros.
—Ela é um pesadelo. – resmungou Rony.
—Acho que gostou de mim. – riu Rasalas dando de ombros, fazendo graça.
*****
Rasalas se jogou em sua cama, completamente satisfeito. Tanto ele quanto a irmã tinham ido para a Sonserina. Teria que dividir o dormitório com Malfoy, Crabbe e Goyle. Mas também tinha outros dois garotos, que ele tratou de fazer amizade: Damian Burke, um garoto alto, de cabelos negros, olhos azuis e cara de troça; e Blair Zabini, um garoto alto, negro, com os cabelos compridos e trançados desde a raiz. Nenhum deles era forte como Crabbe e Goyle, mas tinham muito mais cérebro que os brutamontes.
—Hey, Malfoy. – chamou Rasalas, deitado com a cabeça apoiada nas mãos, as pernas cruzadas e um sorriso petulante – Sem ressentimentos sobre o episódio no trem, não é?
Malfoy jogou-se na cama.
—Só porque eu ameacei roubar os doces da sua irmã. – disse Draco – Apesar que ela bem merecia que eu roubasse os doces dela. Ela é bem gordinha.
—Sim. Ela é viciada em doces. Agora que não tem meu avô aqui pra fazer ela maneirar, ela vai engordar ainda mais. – riu Rasalas – Mas estamos numa boa, certo?
Draco riu com deboche.
—Você é amigo de Potter?
—Ele é gente boa. Mas agora somos rivais. Ele é da Grifinória.
—Ok, então estamos numa boa. – riu Draco.
—O que acharam das garotas do nosso ano? – perguntou Blair – Só Greengrass salva. – riu ele deitado de bruços na cama.
—Eu gostei de Parkinson. Ela é bonita e divertida. – disse Draco.
—Muito fútil. – resmungou Blair. Draco deu de ombros e Rasalas também.
—É... eu nunca beijaria Daphne. A gente se conhece desde sempre. – riu Rasalas – Vou ter que olhar as garotas de outras casas... ou então aquela Parkinson mesmo. – deu uma risadinha – Bulstrode é feia, mas é gente boa. Talvez no futuro ela melhora.
—Daphne é bonita. – concordou Draco.
—Eu não achei Bulstrode feia. – disse Goyle franzindo a testa. Ele estava sentado na beirada da cama.
—Fala sério. As únicas que valem a pena são a Parkinson e a Greengrass. – resmungou Crabbe.
—Olhe pra nós. Primeiro ano e já pensando em mulheres. Meu pai ficaria orgulhoso, eu acho. – riu Rasalas. Não fazia a menor ideia de como seu pai era.
—Eu acho que o meu também. – riu Blair – Mas eu não o conheci.
—Eu também não conheci o meu. – riu Rasalas – Azkaban.
—O meu morreu quando minha mãe estava grávida. – murmurou Zabini – Foi atacado por um lobisomem e não sobreviveu.
—Que coisa, heim? – perguntou Burke.
—Pois o meu pai é foda. – disse Draco – Membro e conselheiro da Corte dos Bruxos.
—Uou. Não é pra qualquer um, heim? – perguntou Rasalas.
—Você mora com a sua mãe? – perguntou Blair para ele.
—Sim. Ela é costureira na loja da Greengrass. – disse Rasalas. Mas quando escutou risadinhas, se sentou – Algum problema?
—Costureira. Sua mãe é costureira? – riu Draco.
Rasalas fechou a cara, ficando puto.
—E qual o problema? – perguntou olhando para o loiro.
—Você é um Lestrange. Os Lestrange são ricos. Pra que sua mãe foi inventar de fazer uma coisa tão... sem prestígio quanto costurar? – perguntou Crabbe.
—Porque nem sempre eu fui um Lestrange. – respondeu Rasalas ainda olhando torto para Draco – Ela sustentava eu e minha irmã sozinha. Nunca pediu um centavo para meu pai ou meu avô. Mas meu avô descobriu sobre nós e entrou na justiça para poder nos criar também.
—Oh. Então você é elite há pouco tempo. – riu Burke – Por que sua mãe não parou de trabalhar depois que o seu avô assumiu vocês?
—Porque ele nunca deu um centavo pra ela. E mesmo se desse, ela não iria aceitar. – respondeu Rasalas – Ela odeia ele.
—Ei, Ras. – riu Draco se deitando na cama – Sem ressentimentos, ok? – falou ele num tom de deboche – Não fique com raivinha só porque eu achei engraçado o que sua mãe faz.
Ficou tão zangado que perdeu o controle sob si mesmo.
—Eita! Você é metamorfomago! – disse Burke apontando para seus cabelos. Rasalas puxou uma mexa e viu que estava com os cabelos vermelhos. Soltou um muxoxo e se concentrou, fazendo o cabelo voltar ao normal. Então fechou as cortinas para ir dormir.
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