Legado Lestrange
2 Figura Paterna
Notas iniciais

11 de Março de 1979
Rabastan puxou o corpo quente de Emily mais para perto. Estavam debaixo de um cobertor, deitados no tapete da sala dela. A cabeça dela apoiada em seu braço e as pernas dela estavam enroscadas nas suas. A pele nua dela o deixava excitado, por mais que já tivessem transado umas duas vezes.
Ela estava desenhando com o dedo em seu peito, mexendo em seus cabelos do peito. Ele a olhava satisfeito, adorando o toque dela em seu corpo. Sentia falta de dormir com ela, desde a época do colégio.
—Case comigo. – murmurou olhando para ela. Emily apenas riu com desdém.
—Até parece.
—Eu falo sério. – murmurou.
—Não estrague o momento, Rabastan. Fique quieto. – pediu ela. Rabastan suspirou a puxando mais para perto.
—Eu não sou mais o mesmo de antes. – murmurou – Se meu pai falar qualquer coisa ofensiva para você, eu o azaro. Juro.
Emily o olhou com um sorriso travesso.
—Ainda é apaixonado por mim, é? – perguntou ela.
—Sou. – respondeu ele – Quando achei que fosse morrer... – ele engoliu seco e suspirou – O que eu achei que seriam meus últimos pensamentos... foram todos sobre você. – ele a acariciou no queixo – Sobre nós.
—Se você me amar, eu caso. – disse ela. Rabastan sorriu a beijando nos lábios. Ela o puxou pela nuca para beijá-lo, de volta, com mais urgência. Sentiu a mulher passar a perna por ele então girar o corpo para subir em cima dele. Sorriu excitado ao senti-la sobre seus quadris. Ela o guiou com a mão para dentro de si e os dois soltaram um gemido – Você me ama?
—Sabe que sim... – disse ele.
—Então largue a causa dos Comensais. Se entregue e ajude a derrubá-los. Traia o Lorde das Trevas. – disse ela com um sorrisinho.
—Está brincando, não é? Eu nunca faria isso! – disse sorrindo também.
—Então não me ama. – disse ela rebolando em seus quadris – Então tudo o que sou pra você... – ela se curvou para falar em seu ouvido – É uma boa foda.
—Não é verdade. – retrucou.
—É a maior verdade. – discordou ela. Emily se endireitou e seguiu rebolando em cima dele, fechando os olhos e sorrindo de leve, soltando gemidos vez ou outra. Rabastan ficou olhando o corpo dela se mover deliciosamente. Fechou os olhos se entregando ao momento.
—A causa é maior do que eu, ou que minha felicidade. – murmurou alucinado pelos movimentos dela.
—Você sabe falar coisas sujas durante o sexo, Lestrange. – riu Emily. Rabastan abriu os olhos para mirá-la. Ela sorria parecendo muito satisfeita. A cara de prazer dela era excitante.
—Sente minha falta, não sente? – perguntou ele, sorrindo – Na cama. Duvido que ria assim na cama com outro.
—Não nego. – respondeu ela lhe fazendo sorrir. Ela soltou um gemidinho – Oh...
—Case comigo, Emily. Quando ganharmos a guerra estaremos entre os mais prestigiados. Seremos heróis. – disse Rabastan.
—Não vou me casar com um comensal. – disse Emily – Comensais mataram meus pais e meu irmão. – ela adicionou movendo-se com mais velocidade. Rabastan jogou a cabeça para trás, gostando.
—Vamos, Emms... – pediu ele – Eu nunca vou me casar com outra mulher que não seja você.
—Vai morrer solteiro, Rabastan. – retrucou ela ainda de olhos fechados.
—Emms...
—Cale a boca... – pediu ela segurando as mãos dele atrás de mais apoio. Ele entrelaçou os dedos com os dela.
—Mas...
—Me deixe gozar em paz, ok? – ralhou ela.
—Já?
—Sabe quando foi a últi... hum... – ela gemeu e estremeceu de leve. Rabastan sentiu a mulher apertá-lo lá embaixo durante o orgasmo e gemeu de leve. Ela sorriu satisfeita, ainda tremendo, arfando e gemendo baixinho. Ficou admirando o rosto dela, achando-a imensamente sexy.
—Pronto? – perguntou.
Ela sorriu e concordou, rebolando em seu quadril lentamente, com movimentos mais circulares. Rabastan a segurou na cintura jogando a cabeça para trás. Amava quando ela fazia aquilo. Não conseguia deixar de pensar que ela se movia como uma serpente quando fazia aquilo. Olhou para ela, para a tatuagem de serpente que ela tinha desde a perna, passando pelo quadril, costelas e terminando nas costas.
—Ainda gosta disso?
—Oh, demais... – murmurou sorrindo feliz. Ficou alucinado com os movimentos dela. Ficou olhando para a mulher, que o encarava nos olhos, com um sorrisinho sexy. –Vem cá, Emms! – disse girando o corpo para deixá-la por baixo. Emily gargalhou quando ele começou a empurrá-la com o quadril, com força e velocidade.
—Mais forte. Mais forte. – pediu ela. A atendeu, pois era como gostava. Bruto e violento. E Emily sempre gostara também.
Ficou um tempo considerável naquilo. A dor no corpo era tremenda, mas não seria capaz de parar. Mordeu Emily no pescoço com força e ela gemeu seu nome. Céus, como sentira falta daquilo. Sentiu aquela sensação de pressão e calor por todo seu membro, começando na cabeça e se espalhando para dentro. Forte, rápido e intenso, lhe proporcionando um alívio cheio de prazer do orgasmo.
Gemeu alto, entrando o máximo que conseguia dentro dela. Então respirou fundo descansando a cabeça no busto dela. Respirou mais um pouco e então rolou para o lado dela. Emily se levantou em seguida e foi até um armário, onde tirou uma caixa. Rabastan, ainda suado e ofegante, ficou a observar.
Ela se sentou ao lado e abriu a caixa. Havia um pouco de seda e algo que parecia tempero de comida.
—O que é isso?
—Erva. – respondeu ela pegando o que parecia tempero e colocando em cima da seda – Salvia.
—Ah. – disse voltando a deitar a cabeça em cima do braço – Não deveria fumar tanto dessa merda. Derrete o cérebro.
—Ah, cale a boca. – riu Emily – Se não for chapada, não vale a pena viver.
—Céus, Emily. – disse se sentando – Não vai mas fumar isso. Está falando como uma viciada.
—Eu sou viciada. – retrucou ela ainda colocando mais erva no baseado.
—E está “ok” com isso? – perguntou chocado.
—Antes me destruir e me sentir bem do que sair matando e torturando pessoas. – devolveu ela calmamente.
—Não faz mais isso, por favor. – pediu ele segurando o pulso dela – Vai ser o último. Ok?
—Claro que não. Me solta. – Disse ela, se irritando – Quem pensa que é para querer me dar ordens, heim?
—Eu sou alguém que se importa. – disse sem soltá-la.
—Não parece. Só veio aqui porque sabia que eu não te deixaria morrer na porta da minha casa. Onde esteve todo esse tempo?
—Lutando. – disse ele – Estava na guerra.
—Sirius, James, Pedro e Remus também, mas ele sempre aparecem. – riu ela debochada – Agora me solte.
—Você têm visto Lupin? – perguntou Rabastan com uma sensação esquisita na boca do estômago.
—Claro que sim.
Ele a soltou, com uma onda de fúria. Sabia que ela fora, durante muito tempo, completamente apaixonada por Remus Lupin.
—Ele vem aqui sozinho? – perguntou zangado.
—Isso não é da sua conta. – devolveu ela lambendo a seda, para fechar o baseado.
Rabastan suspirou e a olhou. Ela estava com o baseado na boca e procurava a varinha para acendê-lo. Ela tragou o cigarro e prendeu a fumaça nos pulmões. Então ofereceu para ele.
Soltou um muxoxo, mas aceitou. Estava sentindo dor pelo corpo e aquela porcaria pelo menos ajudaria a se distrair.
—Não há mais nada que eu possa fazer? – perguntou ele antes de tragar o baseado.
—Sobre? – perguntou ela soltando a fumaça.
—Sobre nós. – disse ele soltando a fumaça e tossindo – Sobre me dar mais uma chance.
—Não. – disse ela.
Rabastan suspirou e tragou de novo, devolvendo o cigarro pra ela.
Ficaram fumando em silêncio, quando a marca negra ardeu. Ele olhou para o antebraço, onde a marca brilhava. Emily também olhou para a marca e sorriu debochada, soltando fumaça.
—Seu mestre sadista está te chamando.
Rabastan olhou para ela. A mulher de sua vida. Soltou um suspiro e passou o braço ao redor dos ombros dela.
—Ele pode esperar até o sol nascer.
—Pode? – perguntou ela parecendo surpresa. Por um momento viu a mesma garota por quem tinha se apaixonado na escola.
—Posso... você vai me enxotar quando o sol nascer de qualquer maneira. – ele riu – Aí eu vou ver o que ele quer.
Emily sorriu e jogou o baseado no chão. Então puxou o rosto dele para beijá-lo nos lábios.
—Então talvez eu não vá enxotar você. – murmurou ela o olhando nos olhos – Você ficaria mais um pouco?
—Ficaria. – respondeu sorrindo e voltando a beijá-la.
—Mesmo? – perguntou ela voltando a se sentar em seu colo. Rabastan encostou as costas no sofá, atrás de si.
—Ficarei até que me coloque pra fora.
—Então talvez eu não te coloque pra fora. – riu ela.
Rabastan sorriu e a beijou novamente.
—Então eu fico.
—Jura?
—Juro.
Mas ele estava mentindo.
*
Hogwarts
1991
Rasalas colocou um grande pedaço de bacon na boca. Sua irmã ao seu lado parecia perdida, sem saber como poderia comer tudo o que gostaria de comer. Nunca tiveram uma mesa tão farta.
Amava Hogwarts.
Ele ficou realmente amigo de Damian e Blair, enquanto sua irmã ficou amiga do grupo de meninas da Sonserina: Pansy Parkinson, Daphne Greengrass – de quem já era amiga há séculos – e Emilia Bulstrode.
Ficou feliz ao ver que a irmã já estava se entrosando. Ela sempre fora tímida demais e era sempre ele quem tinha que ficar insistindo para que ela conversasse com as pessoas. Mas agora ela estava num grupo de amigos sem ele.
Era assustador e maravilhoso ao mesmo tempo. Daphne perguntou se ela já tinha feito a tarefa de poções e Alhena concordou, emprestando o dever para ela. Pansy disse que queria que a amiga lhe fizesse um desenho legal e Emilia disse que queria um também.
Alhena parecia quase em pânico por estar recebendo atenção de tantas pessoas, mas apesar de ter o rosto muito corado, ela estava indo bem, conseguindo conversar com todo mundo.
—Sua irmã é muito tímida, né? – perguntou Blair enquanto andavam para fora do castelo, para a aula de Herbologia.
—Sim. – concordou Rasalas dando de ombros – Nunca foi o forte dela, se socializar. Esse é o meu forte.
—E qual é o forte dela? – perguntou Damian.
—Sei lá... desenhar, eu acho. – disse dando de ombros – Ela sempre desenhou bem. Quer ter a própria loja de roupas um dia.
—Ela quer ser costureira também? Não sonha alto essa sua irmã. – riu Damian.
—Ela nunca se adaptou com esse lance de virar um Lestrange. A gente era pobre, saca? O sonho dela era ter um emprego que desse algum dinheiro e ao mesmo tempo fosse algo que ela gostasse.
—E você? O que queria ser?
—Eu queria ser jogador profissional de quadribol. Eu costumava brincar com os trouxas na rua...
—Pera. O que? – perguntou Blair o olhando como se ele tivesse dito algo horroroso.
—Mamãe não tem preconceito com eles. A gente mora num bairro trouxa. – explicou – E eu jogava baseball com eles. É um jogo de bastão. Eu era muito bom. – disse ele – E quando a mamãe ia pra casa da Madame Greengrass pra trabalhar, levava a gente. E eu voava na vassoura da Daphne. Então eu voo bem e sei rebater. Quero ser batedor.
—Que sonho mais óbvio. – riu Damian – Jogador de quadribol.
—E qual é o sonho de vocês?
—Quero viajar pelo mundo, para ver coisas diferentes e acumular experiências legais. – disse Damian. Rasalas concordou que era um sonho legal – E você, Blair?
Blair franziu a testa, pensando a respeito.
—Acho... eu gosto de escrever. Então... eu queria ser escritor. – murmurou ele.
—E depois fala da minha irmã. – riu Rasalas.
—Existem muitos prêmios prestigiosos para escritores, ok? – perguntou Blair fazendo bico. Rasalas sorriu e passou os braços ao redor dos ombros dos amigos.
—Ok. Então eu vou ser um batedor mundialmente famoso. Damian vai ser meu grumete, me seguindo pelo mundo, para ter aventuras comigo e você vai escrever a respeito. Que tal?
—Seu grumete é meu pau de óculos, ok? – riu Damian passando o braço por seu ombro também. Logo Blair o imitou e os três começaram a rir, indo abraçados para as estufas.
**
Rasalas olhou para a irmã, que desenhava em seu caderno com uma feição um tanto triste. Ele sabia que ela estava feliz porque veria a mãe em breve, mas também estava infeliz, porque teria que passar três dias com os avós. Ao contrário dele, ela não sabia controlar os próprios sentimentos e nem ser falsa. Então ela ficava simplesmente melancólica e tentava obedecer, já que nisso ela era realmente boa.
—Ei, quer ouvir uma piada? – perguntou ele. Alhena suspirou em resposta – Um trasgo montanhês adulto pergunta para o Filch... – mas a porta da cabine se abre e Hermione aparece.
—Olá. – disse ela. Rasalas sorri para a amiga. Não costumavam conversar muito, mas tanto ele quanto a irmã realmente gostavam da menina. Seus amigos torciam o nariz porque ela era nascida trouxa, mas nenhum dos dois se importava muito com isso – Se importam se eu...
—Vou ficar furioso se sair antes que o trem pare! – cortou Rasalas sorrindo. Hermione sorriu de volta e se sentou ao lado dele – E então? Saudades de casa?
—Sim. Digo. Hogwarts é fascinante, mas quero ver meus pais. – Hermione suspirou risonha – Tenho tantas coisas para contar pra eles!
—Sim! – riu Rasalas – Tenho toneladas de coisas pra contar pra minha mãe... inclusive justificativas por todas as minhas detenções. – riu ele.
—Você realmente não deveria ter feito aquele balão de água cair em cima do Filch.
—Ele mereceu. – disse Rasalas com um sorriso travesso.
—Mas...
—Não vai me dizer que você não riu. Eu vi você rindo! – provocou ele.
—É claro que eu ri, mas você poderia ter evitado essa detenção. – riu ela.
—Se eu fiz você sorrir então valeu a pena. – disse dando de ombros.
Hermione corou olhando para o outro lado e Alhena o olhou sorrindo.
—Você sabe como isso soou? – perguntou a irmã.
—Isso o que? – perguntou ele.
—Parece que você está dando em cima dela. – riu ela. Rasalas piscou e olhou para Hermione.
—Bem... – ele passou o braço ao redor dos ombros dela – Se a carapuça serve...
Hermione corou ainda mais, olhando para os próprios sapatos.
—Rasalas! – ralhou Alhena.
—Ok, ok, desculpe, Hermione. Não queria te deixar sem jeito. Eu sou meio bobo às vezes. – riu ele. Hermione colocou um pouco dos cabelos atrás da orelha e sorriu.
—Tudo bem. Sei que você não quis me deixar desconfortável. – ela sorriu e olhou para ele feliz – Vocês sãos os dois Sonserina realmente legais, sabiam?
—A maioria é de família puro sangue, tradicional e elitista. – explicou Alhena – Isso aumenta a chance de serem babacas.
—Nós somos de uma família puro sangue, tradicional e elitista. – riu Rasalas.
—Você talvez. Eu não.
—Mana. Somos gêmeos. Saímos praticamente juntos do mesmo buraco. Se eu sou, você também...
—Eu sou uma Valentine. – disse ela num sibilo. Alhene tinha pedido a todos os professores que a chamassem pelo nome da mãe e não do pai. Ela não gostava nem um pouco de ser uma Lestrange.
—Ai, maninha. Você vai ser mais uma garota com problemas paternos. Isso nunca acaba bem, sabe?
—Mais uma coisa legal que papai me proporcionou. – resmungou ela.
Rasalas revirou os olhos.
—Por que você tem tanta raiva do seu pai? O que ele fez de tão terrível? – perguntou Hermione. Alhena soltou um suspiro.
—Ele partiu o coração da minha mãe, mais de uma vez. E então foi preso. E matou gente, torturou pessoas por causa dessa ideologia elitista ridícula. E agora meus avós querem que eu seja igual a ele. Bem... eu não vou ser. Eu vou ser igual à mamãe. E assim que eu tiver idade o suficiente, vou riscar esse sobrenome nojento e serei apenas Alhena Valentine.
—Mana! – ralhou Rasalas – Somos gêmeos. Temos que ter o mesmo sobrenome. Pelo menos até que você se casar.
—Eu não vou me casar. – disse Alhena ainda desenhando em seu caderno.
—E por que não? – perguntou Rasalas.
—Porque não. – disse ela corando muito – E mesmo se eu quisesse, eu nunca iria conseguir fazer um garoto querer se casar comigo. Então não vou perder meu tempo sonhando com isso.
—Ah, maninha. – riu Rasalas – Um dia você vai conhecer um garoto legal, que vai gostar de você pelo que você é e tudo o mais.
—Eu já conheci. Só que ele saiu do mesmo buraco que eu. – disse ela sem olhar para ele. Seguia desenhando, tranquilamente – Vamos mudar de assunto.
Rasalas concordou e começou a falar sobre os trouxas com Hermione. A garota prometeu que iria trazer algumas músicas trouxas para eles e Alhena ficou feliz em escutar isso.
—Apesar que agora eu vou estar um tanto desatualizada sobre o que está na moda... mas mesmo assim vou trazer!
Ficaram conversando animadamente até que o trem parasse, no final do dia. Se despediram de Hermione e foram para junto da mãe, que os abraçou com força.
—Oh! Eu senti tanta falta de vocês. – disse ela os enchendo de beijos. Rasalas sorriu gostando do carinho e então foi embora com ela.
Em casa, sua mãe estava preparando a ceia de jantar.
—Consegui juntar um dinheiro legal. – disse ela contente – E vou preparar um jantar decente pra vocês! Vamos ter até um peru!
—Legal. – riu Rasalas e Alhena correu para pegar um avental e ajudar a mãe na cozinha. Ele fez o mesmo e os três continuaram a trabalhar.
Pela noite, a mãe os mandou tomar banho. Alhena foi primeiro, pois precisava de mais tempo pra se arrumar, e depois ele. Estava terminando de se arrumar, quando a campainha tocou. Saiu do quarto que dividia com a irmã e olhou o corredor. Sua mãe saiu da cozinha tirando o avental com certa pressa. Ela se olhou num espelho, conferindo os cabelos e o vestido preto que usava e então foi até a porta.
Rasalas franziu a testa e saiu do quarto, terminando de pentear os cabelos. Viu que a mãe cumprimentava alguém e então abriu passagem para um homem entrar. Alhena passou por ele e olhou com curiosidade.
—Quem é? – perguntou ela.
—Sei lá. Mas acho que a mamãe tá estranha. – disse ele desconfiado.
Sua mãe andou até eles, com um sorriso nervoso.
—Esse é Remus Lupin, queridos. É um velho amigo meu. – disse ela um pouco afoita. O homem, que era loiro, com uns muitos fios grisalhos e parecia muito doente, sorriu amável para eles.
—Olá. Como vão? – perguntou ele oferecendo a mão para Rasalas. Mas o garoto não gostou de tê-lo ali. Era um namorado da mãe? Aquela ideia não o agradou nem um pouco e por isso ele o encarou friamente, com os braços cruzados.
Alhena, no entanto aceitou o aperto de mão dele com um sorriso quase radiante no rosto.
—Prazer, senhor Lupin. Eu sou Alhena e esse é meu irmão Rasalas. – disse ela. Rasalas corou achando aquilo estranho. Sua irmã nunca tinha feito as apresentações.
—É um prazer conhecê-los. – disse Lupin.
—Rasalas. – ralhou sua mãe.
—Está tudo bem, Emms. – disse Lupin com um sorriso gentil. Mas Rasalas não gostou nada de como ele parecia íntimo da mãe, a chamando por apelidos – Ele só deve estar com ciúmes. – adicionou ele – Eu e sua mãe não somos namorados. Somos apenas bons amigos. Estudamos juntos há muito tempo atrás. – explicou ele. Mas não estava convencido daquilo – Encontrei com sua mãe outro dia e como eu iria passar o natal sozinho, ela me convidou.
Ainda desconfiado, resolveu apertar a mão do homem, mas foi rápido e logo voltou para o quarto, completamente enciumado. Sua mãe sempre dissera que ele, Rasalas, era o homem de sua vida. Agora aparecia com aquele Lupin. Ficou sentado e emburrado na cama, até que a irmã apareceu.
—Qual o seu problema? – perguntou ela – Mamãe reencontrou um amigo!
—Eu conheço aquele sobrenome... Lupin... – murmurou ele tentando se lembrar de onde já tinha escutado – Não lembro de onde...
—Por que o tratou de maneira tão descortês? – perguntou ela – E se ele fosse o namorado dela? Qual seria o problema?
—Não! Mamãe não vai namorar com aquele cara! – disse Rasalas, zangado.
—E por que não? – perguntou Alhena – Isso pode acontecer, sabe? – perguntou ela de maneira melodiosa.
—E por que mesmo?
—Porque ele era a antiga paixonite da mamãe. – riu Alhena – Ela me contou que era apaixonada por ele até... bem... até conhecer aquele homem. – disse ela perdendo o sorriso, se referindo ao pai.
—Ele era o namorado dela antes do papai? – perguntou Rasalas ainda mais enciumado.
—Não! – disse Alhena se sentando ao seu lado – Eles nunca tiveram nada. Era uma paixão platônica.
—Hum... – o garoto gostou menos ainda do tal do Lupin – Se ele ficar de gracinha com a minha mãe, ele vai ver só.
—Por que? – perguntou Alhena – Mamãe não merece ser feliz e ter um companheiro?
—Ela quem escolheu ficar sozinha! – disse Rasalas – Papai pediu ela em casamento, mas ela não aceitou.
—Claro que não. Ele é um idiota. – sibilou Alhena – Um comensal de morte!
—Não interessa! – disse o garoto, amuado.
—Não seja egoísta, Rasalas! – ralhou Alhena – Fique feliz que ela não vai estar tão sozinha agora que reencontrou aquele amigo. Você sabe que a mamãe começa a beber quando fica muito triste. – ele sentiu um peso no estômago – É bom que ela tenha alguém para fazer companhia enquanto a gente está na escola.
—Nós não estamos na escola, agora! – ralhou Rasalas, mas a irmã o olhou com censura e ele bufou – Ok, ok. Vou tentar ser legal com ele. Feliz?
—Sim!
Minutos depois foram para a cozinha, onde havia uma mesa quadrada e pequena. Sua mãe e o tal Lupin conversavam animados, sobre o tempo de escola. Queria encontrar algum defeito nele, além da aparência de quem estava morrendo, mas não conseguiu. Ele era educado, gentil e fazia sua mãe sorrir tanto que era esquisito.
Sua mãe era uma mulher muito séria e amarga. Mas agora ela ficava rindo, corada, mexendo o tempo todo no cabelo bem penteado e torcendo as mãos de nervosismo. Mas Remus Lupin não parecia notar e era simplesmente muito gentil com ela, ignorando o nervosismo dela.
O garoto atribuiu o comportamento da mãe ao fato de nunca receberem visitas. Ela era tão boa quanto Alhena em socializações. Não acreditava que a mãe estava apaixonada por aquele homem que aparecera do nada. Mas sua irmã olhava sonhadoramente para os dois, como se estivesse assistindo a um filme romântico.
—Como está Hogwarts? – perguntou ele para Alhena, que corou com violência. Ela olhou para o irmão em um pedido mudo de socorro e Rasalas revirou os olhos.
—Está tudo bem. – respondeu o garoto.
—Rasalas já recebeu oito detenções. – riu sua mãe – Te lembra de alguém?
—Não sei do que poderia estar falando. – disse Lupin a olhando de maneira cúmplice – E você, Alhena? – Alhena negou assustada com a cabeça extremamente vermelha – Você é mais comportada, então? – Lupin deu um gole na cerveja amanteigada que bebia – Então só Rasalas que puxou a você, não é?
—Mamãe aprontava na escola? – perguntou Rasalas, surpreso.
—Sim, mas sempre conseguia se safar das detenções. – riu Lupin.
—Remus! Não incentiva. – riu sua mãe, terminando de servir a mesa – Nós aprontamos muito no nosso tempo, não foi? – perguntou ela.
—Sim. Principalmente depois que você terminou com Rabastan. – disse Lupin casualmente. Rasalas olhou para sua mãe, que corou ao ouvir aquilo, voltando rapidamente para o fogão.
—Você conheceu o meu pai? – perguntou Rasalas, surpreso. Lupin o olhou tranquilamente.
—Não. Sua mãe nunca nos apresentou. Ele era trouxa, não era?
—Não. Ele era Rabastan Lestrange. – disse secamente. Remus piscou surpreso e olhou para sua mãe, que tinha ficado com as raízes dos cabelos levemente vermelhas. Mas logo ela as voltou para o tom normal e provavelmente o homem nem tinha notado.
—Entendo. – disse ele calmamente.
—Mas mamãe não gosta de falar que somos filhos dele, então diz que nosso pai era trouxa e morreu na guerra. – disse calmamente, imitando o tom de Lupin. Sua irmã o olhava chocada, sem acreditar que ele estava falando aquilo.
—Entendo. – repetiu Lupin como se Rasalas tivesse dito que gostava de sapos de chocolate mais do que de jujubas explosivas – Você quer ajuda com alguma coisa, Emms?
—Não. Obrigada. – disse sua mãe sem se virar.
—Mas então. Você conheceu o meu pai? – repetiu Rasalas.
—Sim. – disse Lupin, tranquilamente – Ele era um bruxo muito competente. – adicionou ele – Mesmo que tenha tomado muitas decisões erradas na vida. – Ele deu um longo gole em sua cerveja e suspirou – Ele realmente amava sua mãe. Vocês namoraram por bastante tempo, não foi, Emms?
—Quase um ano. – respondeu ela.
—Sério? Pareceu mais tempo. – disse ele.
—Nós éramos bons amigos. – disse ela. Rasalas a olhou curioso. Sua mãe NUNCA falava de Rabastan Lestrange – Ele me ajudou a... a superar certas coisas.
—Mesmo? – perguntou Rasalas.
Sua mãe colocou as batatas cozidas em cima da mesa e suspirou tirando o avental. Depois se sentou e jogou os cabelos para trás.
—Rabastan... na época do colégio... – ela suspirou e ele jurou que ela corara de leve – Ele era um garoto muito diferente do homem que se tornou. Ele era meu amigo sim... nunca me viu como a garota órfã e esquisita. Eu sempre me fazia de forte e indiferente com tudo, mas ele sempre viu o que eu era de verdade e sempre gostou de mim pelo o que eu realmente era... – ela se serviu um pouco de água, já que ela não conseguia parar de beber quando tomava qualquer coisa com álcool – Ele foi um bom namorado até as coisas ficarem sérias demais.
—Fala de quando foi conhecer os Lestrange? – perguntou Lupin.
—Sim. – respondeu ela – Então Rabastan foi um cretino e desde então nós não nos falamos mais.
—Isso é mentira. – disse Rasalas. Sua mãe piscou o olhando zangada.
—Como? – perguntou ela.
—Meu avô me contou que o papai te apresentou para ele quando estava no sétimo ano. As datas não batem. – explicou ele – Você o viu de novo anos depois da escola. – adicionou ele.
Rasalas sentiu o olhar zangado de sua mãe sobre si, mas não desviou o olhar do dela.
—Ele tem um ponto, Emms. – disse Lupin.
Pare de chamar minha mãe assim. Pensou Rasalas, enciumado. É Sra. Lestrange pra você.
Sua mãe bufou zangada.
—Ele apareceu um dia, todo machucado, fugido de alguma batalha, implorando por ajuda. Então eu o recebi. – murmurou ela olhando para o nada. Mas então ela suspirou – Lupin, você poderia, por favor... cortar... – ela piscou um pouco e engoliu um soluço – Desculpe... eu... eu esqueci uma coisa...
Ela se levantou escondendo a boca com a mão. Rasalas baixou os olhos, desconfortável. Sabia que ela iria chorar.
—Por que precisa ser desse jeito! – ralhou Alhena se levantando. Ela correu atrás da mãe e Rasalas ficou em silêncio, olhando o prato vazio.
—Sua mãe estava muito empolgada com esse jantar. – disse Lupin – Falou que queria fazer todos seus pratos favoritos. – ele deu outro gole em sua cerveja, calmamente – Ela nunca pediu ajuda pra ninguém pra cuidar de vocês. Todos nós oferecemos ajuda. Um amigo nosso até se ofereceu para fingir ser o pai de vocês, mas ela negou. Sua mãe é uma pessoa muito forte e trabalhadora. – Rasalas concordou em silêncio – Mesmo quando os pais dela morreram e ela só tinha quinze anos... ela deu um jeito de se virar. Se emancipou para ser responsável por si mesma, arrumava bicos durante o verão e nunca se deixou abater por todos os que olhavam para ela e viam uma garota diferente e rebelde... Mas qualquer um que a conhecia sabia que ela estava sofrendo muito, apenas não queria precisar de ninguém. Queria ser forte. Ela sempre foi muito orgulhosa... Mas quando ela começou a sair com Rabastan... – Lupin soltou um suspiro e Rasalas o olhou com atenção – Ela parecia verdadeiramente feliz. Completamente feliz. Perdê-lo para Você-Sabe-Quem foi um golpe muito duro para ela. – ele murmurou – Então, por mais difícil que seja a sua situação... tente ser mais paciente com ela. Ela nunca superou Rabastan Lestrange e duvido muito que um dia vai superar.
Rasalas engoliu seco e se levantou. Caminhou pelo corredor e viu Alhena na porta do banheiro. Ela tinha os olhos cheios de água.
—Por favor, mamãe. Abre. – murmurou ela.
—Eu estou bem. Vá jantar, meu bem. – disse sua mãe de dentro do banheiro, com a voz engasgada.
—Mamãe. – murmurou Rasalas batendo na porta – Eu te amo, mamãe... me desculpe. – pediu ele sentindo-se muito mal – Você é tudo pra mim, não fique triste no natal porque eu sou idiota. – murmurou ele sentindo os olhos ficarem cheios de água.
Escutou o trinco da porta e sua mãe saiu do banheiro com o rosto molhado e vermelho.
—Meu amor, mamãe não está triste com você. E você não é idiota, ouviu? – perguntou ela o abraçando. Ela soluçou baixinho o acariciando nos cabelos e ele a abraçou de volta – Vem cá, vem, Alhena. – chamou ela. Alhena a abraçou também e Rasalas escutou a mãe fungar – Me desculpem, ok?
—Sou eu quem peço desculpas, mamãe. – disse Rasalas baixinho. Se forçasse demais a garganta cairia no choro.
—Não. Eu sei que vocês sentem falta da figura do pai de vocês e eu sei que não facilito as coisas... – murmurou ela – Eu... eu só tento ser o suficiente... eu sei que não sou, mas...
—É sim, mamãe! – disse Alhena com convicção. Rasalas quis falar que ela estava certa e que a mãe era suficiente. Mas ele não conseguiu mentir. Sempre fora um bom mentiroso, mas naquela hora não conseguiu. Então apenas apertou a mãe com mais força.
Ela os beijou no topo da cabeça e se levantou.
—Vamos! É natal. Vamos comer. Devem estar famintos! – Disse ela secando o rosto com a palma das mãos. Voltaram para a cozinha e se sentaram – Remus, você pode fazer as honras de cortar o peru?
—Desculpe, Emms. – riu Lupin como se ninguém nunca tivesse saído da cozinha – Mas acho que essa é a honra do homem da casa. Rasalas consegue fazer isso, não consegue?
Rasalas olhou com desdém para Lupin e se levantou pegando a faca e o garfo, mas quando estava para cortar, notou que nunca antes tinha cortado um peru e ficou corado ao saber que não saberia o que fazer.
Mas Lupin se levantou e muito cordialmente o ensinou. Ficou morrendo de raiva, porque não queria precisar da ajuda dele, mas nada disse. Agradeceu pela ajuda e o serviu primeiro, já que ele era a visita. Depois serviu a mãe, a irmã e a si mesmo.
Ficou quieto durante o jantar, apreciando a comida. Estava tudo muito gostoso e bem preparado. Sua mãe e Alhena cozinhavam super bem afinal de contas. Sua mãe, Lupin e Alhena conversavam animados, mas ele, pela primeira vez desde sempre, preferiu ficar em silêncio. Sabia que estava sendo egoísta, mas não conseguia deixar de pensar que Remus Lupin era um intruso.
Se havia um homem para sua mãe, esse homem era Rabastan Lestrange.
—Me desculpem, eu estou cansado. Vou me retirar, ok, mamãe? – perguntou cabisbaixo.
—É claro, meu amor. Eu sei como aquela viagem de trem é cansativa. – disse sua mãe com um sorriso.
Rasalas se levantou, foi até a pia e lavou a louça que tinha usado. Depois murmurou um “boa noite” e correu para o quarto, para se deitar. Não trocou de roupa, apenas deitou-se sentindo-se completamente infeliz. Por que estava infeliz? Por que? Escondeu o rosto no travesseiro e fechou os olhos com força.
***
Rasalas estava sentado no balanço que tinha no quintal, olhando as famílias trouxas passearem, cantando músicas natalinas. No colo do garoto tinha um álbum de fotos de quando sua mãe estava na escola. Já tinha inspecionado todos os álbuns de foto de sua casa e todos os da casa dos avós. Em nenhum havia uma foto de seu pai.
A única vez que vira qualquer coisa dele tinha sido quando seu avô lhe mostrou a Sala das Bolhas.
“Todos os Lestranges, quando se casam ganham sua própria bolha, com suas memórias mais significantes. Essa é a do seu tio Rodolfo.” Explicou seu avô em sua memória “Um dia você vai ter sua bolha aqui, Rasalas, como meu herdeiro.”
“Meu pai não tem uma bolha?” perguntou ele olhando para a bolha do tio. Por um momento viu dois garotos de idades diferentes brincarem aos risos. O mais velho o carregava nas costas.
“Não. Ele nunca se casou, então não ganhou uma.”
“Ele é aquele ali?” perguntou apontando para a memória das crianças, mas logo ela se dissolveu em uma com uma mulher bonita, de cabelos encaracolados e olhos azuis.
“Sim... aquele era Rabastan, quando era criança.” Disse o avô.
Rasalas soltou um suspiro, apoiando a cabeça na corda do balanço. Viu quando um pai apareceu com a filha nos ombros, ambos rindo. A mãe andava com o filho mais novo no colo. Uma família completa e feliz. Pensou. A minha mãe é alcoólatra, minha irmã é incapaz de manter uma conversa com quem quer que seja e eu sou um egoísta. mentiroso, falso do caralho...
Soltou um suspiro e fechou os olhos. Queria poder jogar quadribol com o pai, como Damian fazia. Ou poder falar: Meu pai trabalha em tal lugar. Como Draco sempre falava. Crabbe e Goyle também tinham pais e ambos eram muito orgulhosos deles. Ele e Blair eram os únicos que não tinham um pai, mas Blair simplesmente não se importava. Ou fingia não se importar, como ele mesmo fazia.
Tentou ter no avô a imagem de um pai, mas não era a mesma coisa... Queria ter ao menos uma foto de Rabastan Lestrange para encontrar algo em comum. Algo para falar que era como o pai. Fosse os olhos, a boca, a aparência ou o jeito. Mas todos ao seu redor simplesmente se recusavam a falar dele.
Queria ser como Alhena, às vezes. Simplesmente não sentir falta e até não gostar dele. Sentir desprezo. Mas tudo o que conseguia fazer era idealizar como ele seria. Se era inteligente, bagunceiro, se era fã de quadribol, qual era sua matéria favorita... queria poder visitá-lo no trabalho durante o verão e ver que o pai tinha uma foto sua em sua escrivaninha. Queria ter uma família normal e completa.
Mas querer isso era egoísmo levando todo o esforço que sua mãe fazia.
Olhou para o álbum de fotos e viu sua mãe com os colegas da Grifinória. A única coisa em comum que sabia que tinha com o pai era a casa Sonserina. Olhou para o álbum e reconheceu Remus Lupin, que já tinha aquela cara de enfermo desde criança. Sua mãe estava abraçada com ele e parecia simplesmente feliz.
Fechou o álbum com força e o jogou no chão. Não era justo. Simplesmente não era. Se levantou, magoado e chutou o álbum de leve antes de voltar para dentro. Sua mãe estava costurando um vestido para alguma pessoa da alta sociedade e sua irmã estava desenhando, sentada no tapete.
Rasalas soltou um muxoxo e se sentou também, ao lado da irmã. Ela estava desenhando o brasão da escola e parecia muito distraída.
—Quando vamos sair? – perguntou ansioso.
—Mamãe só vai terminar essa costura, ok? – perguntou a mãe, sem olhar para ele. Rasalas jogou a cabeça para trás a apoiando no sofá.
—Ok... – murmurou sem empolgação.
—Rasalas... eu estava pensando... – murmurou sua mãe, ainda sem olhá-lo – Você quer conhecer Rabastan?
Rasalas puxou a cabeça para frente, com força e olhou chocado para a mãe.
—O que?
—No natal, eles podem sair da cela. – disse sua mãe tranquilamente – Se vocês quiserem...
—Eu não quero. – cortou Alhena sem nem se interromper a desenhar.
—Bem... se você quiser, eu levo você. – murmurou sua mãe, sem levantar o olhar.
—Está falando sério? De verdade?
—Rasalas... – murmurou sua mãe descansando as mãos e finalmente levantando o olhar para ele – Não crie muitas expectativas, ok? A essa altura do campeonato, Rabastan já deve estar louco. Ele está há anos em Azkaban. – explicou sua mãe – Ele não vai sorrir e te chamar de filho, nem te abraçar e perguntar como você está indo na escola. Ele vai te olhar confuso e babar. Entende?
Aquilo foi um balde de água fria. O garoto desviou o olhar, um tanto desanimado.
—Eu entendi.
—Meu amor... vem aqui. – disse sua mãe estendendo os braços. Rasalas se levantou e caminhou até a mãe. Ela o abraçou e o beijou no topo da cabeça – Se ele tivesse te conhecido quando era são, seria louco por você.
—Sério? – perguntou ele sorrindo.
—Rabastan... – ela suspirou – Ele sempre quis ter muitos filhos... ele amava o irmão dele. Se ele visse como você e sua irmã são amigos, ele ficaria muito orgulhoso.
Rasalas sorriu e olhou para a irmã. Mas ela não o olhou de volta. Ela estava de cara fechada, como se não estivesse gostando do que está ouvindo.
—O que mais? – perguntou o garoto, sedento por informações – Eu pareço com ele?
—Não. – disse sua mãe – Mas tem os olhos dele. Você tem o porte do meu pai. Mas... eu juro que você sorri igualzinho a Rabastan. – sua mãe soltou um suspiro – Vá e pegue chocolates na dispensa. Se agasalhe bem e volte aqui.
—Certo. – disse feliz.
O garoto saiu correndo, animado. Foi para seu quarto e se encarou no espelho, principalmente seus olhos cinzentos. Sorriu animado, tendo finalmente encontrado algo para se conectar. E então se lembrou que sorria igual ao seu pai. Um calor gostoso o tomou. Estava cheio de expectativas. Não deveria, mas não conseguiu não se sentir daquele jeito. Trocou de roupa, colocando as vestes de bruxo novas, que seu avô tinha lhe dado de natal. Penteou o cabelo para trás, como seus amigos costumavam fazer. Colocou o melhor par de sapatos que tinha e se olhou novamente no espelho.
—Eu sou um Lestrange. – disse rindo – Rasalas Lestrange! – disse fazendo pose na frente do espelho.
O garoto fechou a cara e se fez de sério, como o avô sempre fazia, mas isso escondia seu sorriso, que era uma das características em comum. Soltou um suspiro e pegou a capa, para jogar ao redor dos ombros. Vestiu as luvas e então foi apressado para a cozinha. Pegou algumas trufas de chocolate que tinha lá e as guardou no bolso. Depois voltou para a sala.
Sua mãe demorou uns cinco minutos para reaparecer. Ela estava usando vestes bruxas também. Um vestido bonito e que parecia ser muito antigo. Ela estava terminando de se maquiar quando o olhou.
Sua mãe sorriu e ele fez uma pose mais arrogante.
—O que fez com os cabelos?
—Estou como meus colegas da Sonserina.
—Está parecendo Malfoy. – riu Alhena, que tinha se deitado no sofá – Só que não tão... magro.
—Magro? – perguntou ele. Alhena corou de leve.
—Ele é MUITO magro e pequeno. Deve ser porque sempre anda com Crabbe e Goyle atrás dele.
Rasalas deu de ombros e olhou para a mãe novamente.
—Vamos? Eu estou pronto.
Sua mãe concordou e o segurou pela mão. Aparataram juntos para o Beco Diagonal e então foram para a Casa das Chaves. Estava com o estômago cheio de borboletas, cheio de expectativa.
Pegaram uma chave para Azkaban e então foram subindo os degraus de pedra, ouvindo o som das ondas que batiam com violência contra os rochedos. O frio ali era absurdo então se abraçou vendo nuvens brancas se desprenderem de sua boca. Sua mãe olhou para trás, para ele e ele acenou para mostrar que estava tudo bem.
Quando finalmente chegaram no balcão, uma bruxa os atendeu, recolhendo seus dados. Assinaram um livro de visitas e então entraram.
—Fique perto de mim, ok? – pediu sua mãe.
—Não estou com medo, mamãe. – disse confiante.
—Mas eu estou. – murmurou sua mãe – Já faz tanto tempo... – ela suspirou e ele segurou sua mão.
Caminharam por corredores úmidos de pedra. O fedor era horrível. Ratos corriam loucamente no chão e tudo estava coberto com enormes teias de aranhas. Era um lugar muito sombrio e escuro.
—Aqui está, senhora. – murmurou um homem baixinho e atarracado – Ande longe das celas. Alguns deles gostam de puxar as vestes das visitas.
Sua mãe concordou e brandiu a varinha. Uma serpente prateada saiu dela e foi se rastejando pelo chão. Rasalas olhou para aquilo, achando muito bonito. Caminhou com a mãe, olhando os muitos prisioneiros sentados no chão sujo. A medida que passavam, eles se jogavam contra a grade.
Olhou para cima e viu os tais dementadores, escondendo o rosto com as mãos podres, por causa da luminosidade da serpente prateada. Rasalas adiantou o passo e olhou para a mãe. Ela finalmente parou de frente para uma cela. Um homem de cabelos castanho avermelhados estava ali. Os cabelos compridos, sujos e emaranhados. As mãos ossudas segurando a grade. Ele estava com os olhos fechados e com uma feição cheia de dor no rosto.
O homem abriu os olhos, lentamente e piscou, se acostumando com a claridade. Então ele levantou o olhar para ele. Seus olhos cinzentos o olharam confusos. Os mesmos olhos que sempre via quando se olhava no espelho.
—É ele? – perguntou Rasalas cheio de expectativas.
—É. É ele. – respondeu sua mãe. O homem deixou de olhar para o garoto. Seus olhos brilharam de surpresa e ele encarou Emily Valentine com incredulidade.
—Emms... – murmurou ele, chocado. Ele se levantou minimamente encarando a mulher, como se não estivesse acreditando no que seus olhos mostravam.
—Rabs... – murmurou sua mãe de volta. Eles se olharam por vários segundos, num olhar cheio de significados ocultos – Quero te apresentar Rasalas. Meu filho. – disse ela. Rasalas sentiu o olhar chocado do homem cair sobre si, novamente.
—Rasalas... – repetiu ele ficando de joelhos e mais ereto. Ele olhou o garoto a sua frente com um olhar perdido e chocado – Rasalas o que?
—Lestrange, o que acha? – perguntou sua mãe com severidade. O homem suspirou e voltou a olhá-lo com muita atenção. Como se não estivesse acreditando. Como se procurasse por alguma prova irrefutável – Era Valentine, mas depois que seus pais descobriram sobre ele, vieram implorar para que eu o nomeasse Lestrange. Depois desse dia, eles nunca mais torceram o nariz pra mim.
Rasalas sabia que ela estava mentindo. O desprezo dela por eles era igual ao deles por ela. Mas talvez ela só falasse isso para agradar o prisioneiro e Rasalas foi grato por isso. Ele encarou o homem, que tinha a barba mal feita, num rosto quadrado e bem marcado, ossudo, cheio de arranhões. Rasalas se perguntava o que ele estaria pensando naquele momento. Estaria satisfeito por vê-lo?
—Eu só queria saber como você é. – explicou o garoto olhando para o pai pela primeira vez em sua vida – Não nos parecemos muito. – disse lamentando por isso.
—Quantos anos você tem? – perguntou Rabastan Lestrange, com a voz muito rouca. Ele provavelmente não conversava com alguém há anos. Ninguém o visitava naquele lugar...
—Doze. Eu sou da Sonserina. Como você. – respondeu Rasalas. E então Rabastan deu um sorriso horrível. Seus dentes amarelos e podres ficaram todos evidentes, mas mesmo assim, iluminou seu rosto.
—Mesmo? – perguntou ele estendendo a mão trêmula. Rasalas se adiantou um passo, mesmo que sua mãe tenha segurado seu ombro num pedido silencioso de que não o fizesse. Sentiu as mãos sujas e feridas do pai lhe tocarem o rosto e o sorriso dele se desmanchou. Os olhos dele se encheram de lágrimas – Você é tão lindo. – disse ele fechando os olhos e escondendo o rosto – Meu deus, Emily... por que demorou tanto? – Rabastan levantou o rosto para olhá-lo novamente – Doze anos? Doze...
—Eu não vim por você, Rabastan. Eu vim por ele. – disse sua mãe num tom muito frio – Eles vão te tirar daí e te dar um banho. Você vai poder ficar meia hora com Rasalas, para conversar e explicar o porquê de você não poder vê-lo crescer. Nem a ele e nem a irmã dele.
—Irmã? – perguntou Rabastan – Eu tenho uma filha também?
—Gêmeos. – concordou Emily.
—Meus pais te ajudaram? – perguntou Rabastan.
—Não. Mas eles são bons avós para Rasalas. – respondeu ela – Eles vão vir te pegar, Rabastan. Vamos, Rasalas.
Rasalas concordou obedientemente, ainda olhando para seu pai, que o encarava petrificado. Ele e a mãe foram para um quarto rústico de pedra, onde havia uma mesa e duas cadeiras, uma oposta à outra. Se sentou em uma delas e sua mãe ficou de pé atrás dele.
Os minutos se arrastaram lentamente, mas por fim, depois de uma boa meia hora, seu pai apareceu pela porta. Tinham dado um banho nele, cortado seus cabelos e feito sua barba. Ele estava com os pés e mãos algemados e parecia muito magro naquelas vestes brancas surradas.
Ele se sentou na cadeira em frente a do garoto. Um bruxo prendeu as mãos e os pés do prisioneiro na cadeira e no chão, para que ele não pudesse se levantar e então foi até sua mãe.
—A varinha, senhora.
—Eu não vou ficar. – cortou ela.
—Emily. Fique, por favor... – murmurou Rabastan. Sua mãe o olhou com frieza – Tenho tanto para falar...
—Você ficou quando eu pedi, Lestrange? – perguntou ela. Rasalas viu o pai fechar os olhos, cheio de lamento – Pois é. Você me perdeu de vez, Rabastan. Mas Rasalas ainda quer se conectar com você. Então faça pelo menos algo de certo na vida... e se magoar meu filho... eu mato você, ouviu?
—Estaria me fazendo um favor, Emms.
—Não me chame de Emms! – rosnou ela. Mas então ela olhou para o filho e suspirou. Em seguida saiu da cela.
Rabastan se virou, com pesar, para encarar o filho e então tentou sorrir.
—E então? – perguntou Rasalas – Hum... eu não sei o que eu deveria falar agora.
Rabastan sorriu mais uma vez.
—Você parece com a sua mãe... – disse ele – Mas tem os olhos dos Lestrange. Prateados. – ele suspirou – Eu sinto muito, Rasalas... por tudo.
—Eu tive medo de que... de que você estivesse... bem... pirado. – disse dando de ombros.
—É... mas eu sou mais resistente do que imaginam. Vaso ruim não quebra, certo?
—É... acho que sim.
—Me fale de você.
—Não. Me fale você, de você... – Rasalas suspirou e apoiou os cotovelos na mesa – Mamãe não fala de você. Ela... parece bem magoada com o que você fez... e afinal... o que raios você fez? – perguntou Rasalas.
Rabastan piscou e passou as mãos pelos cabelos.
—Eu era um Comensal de Morte. Um bom soldado.
—É... isso eu sei.
—E eu lutava com fervor pelo Lorde das Trevas, mas sua mãe não entendia isso.
—E nem eu. – disse ele com severidade.
—Eu imagino que não... sua mãe odiava os Comensais... – Rabastan suspirou – Quer saber o porquê de sua mãe me odiar?
—Ela não te odeia. – disse Rasalas, sem estar certo daquilo – Minha mãe não é capaz de odiar. Talvez te despreze... mas ódio não...
Rabastan sorriu de novo, timidamente.
—Um dia... depois de muito tempo... eu fiquei muito ferido em uma batalha e fui buscar refúgio com ela. – ele suspirou e o olhou com atenção – Ela cuidou de mim, das minhas feridas... e conversamos muito... – ele pareceu ainda mais triste – Eu queria que ela se tornasse minha esposa... acabei fazendo promessas para ela das quais não seria capaz de cumprir... e nós acabamos nos deixando levar pelo momento e por tudo... – ele pareceu um tanto sem jeito.
—E fizeram eu e minha irmã, entendo. – riu Rasalas descontraído. Rabastan sorriu de leve.
—É. Você e sua irmã... como ela é?
—Parece a vovó Edasich. Tem os mesmos olhos verdes dela. Mais loira que eu. Um pouco gorda, muito tímida. Faz uns desenhos maneiros. Ela se chama...
—Alhena. – concluiu Rabastan. Rasalas piscou surpreso.
—Como sabe?
Rabastan sorriu e suspirou novamente.
—Fui eu quem escolhi o seu nome. – explicou ele – Fico chocado que sua mãe tenha te nomeado com esse nome...
—Como assim?
—Rasalas era o nome da minha estrela favorita. Sempre disse para sua mãe, quando estávamos namorando no colégio, que quando tivéssemos um filho, ele se chamaria Rasalas. E ela dizia que se tivéssemos uma filha, seria Alhena...
—Quando? – perguntou o garoto com um sorrisinho – Você estava certo de que iria se casar com ela, é?
—Sim. – respondeu Rabastan – Eu tinha certeza de que meus pais iriam gostar dela e que ela se tornaria minha esposa... mas tudo deu errado e nós terminamos...
—Entendi... – murmurou Rasalas.
—Eu sinto muito que não tenha estado presente, Rasalas... se eu pudesse voltar atrás...
—Teria deixado de ser um Comensal de Morte? – perguntou o garoto.
—Não... teria feito como muitos... teria fingido que estava sendo controlado. Não teria assumido meus crimes... e certamente não teria feito o que fiz aos Longbottom...
—Longbottom? – perguntou Rasalas.
—Queríamos informações sobre o paradeiro do Lorde das Trevas, quando ele desapareceu. – explicou o homem – E achávamos que eles sabiam... Mas eles se recusaram a cooperar... então fazer eles falarem... mas minha cunhada Bellatrix não soube parar. – Rasalas sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha. Conhecia Neville Longbottom e sabia que ele morava com a avó... só nunca tinha imaginado que seu pai era uma das razões para isso – Se eu ao menos soubesse de você e da sua irmã naquela época... – murmurou Rabastan. O garoto piscou em choque e olhou para o pai – Tudo poderia ter se desenrolado de maneira diferente... eu nunca me arriscaria daquele jeito sabendo que tinha dois filhos... nunca...
—Você não sabia? – perguntou chocado.
—Não... eu acabei de descobrir que tenho dois filhos. – murmurou Rabastan – Sua mãe não veio me ver nem no dia do meu julgamento e nem me visitou uma vez sequer... até hoje... por crédito seu... Eu... eu achei que ela estivesse morta na verdade... – Rabastan fechou os olhos com força – O tempo aqui passa diferente do que lá fora. Um minuto dura uma eternidade, às vezes... mas em outras, o que nos parece um minuto, é na verdade dois anos... é uma loucura... Talvez seja por isso, mas... – ele piscou parecendo preocupado – Sua mãe... ela se casou?
—Não. Nunca nem teve um namorado... – murmurou Rasalas – Ou ao menos não nos contou.
—Bom... – murmurou Rabastan, mas então ele sacudiu a cabeça – Eu sei que não deveria achar isso bom... sua mãe merece encontrar alguém, mas...
—Acredite, pai. Eu sei como se sente. – riu Rasalas. Rabastan sorriu de tal maneira que seu rosto se iluminou inteiro. Rasalas corou ao vê-lo daquele jeito. Provavelmente era por tê-lo chamado de pai que Rabastan sorriu daquele jeito.
—Obrigado. – os dois ficaram em silêncio por um tempo – E sua irmã? Por que ela não veio?
—Porque ela pegou todas as dores da mamãe pra si. – respondeu Rasalas sem a menor intenção de mentir – Ela não gosta de você, nem de ser uma Lestrange. Disse que quando tiver idade, vai mudar o nome dela para Valentine de novo.
Rabastan baixou o rosto, parecendo um pouco triste, e soltou um suspiro.
—Eu entendo... eu entendo... – ele parou por um momento – E meus pais... são bons pra vocês?
—Comigo o vovô é legal. Eu sei lidar com ele. É só falar o que ele quer ouvir. Mas minha irmã não gosta e nem consegue fazer isso... então meu avô não é tão legal com ela.
—Hum... mas ele bateu em algum de vocês alguma vez? – perguntou Rabastan num tom mais baixo e perigoso.
—Não. Nunca.
—Bom. Se ele encostar em um fio de cabelo de vocês... – ele se interrompeu e suspirou – Bem... conte para sua mãe.
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Emily Valentine

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