Legado Lestrange
14 Crescendo
Notas iniciais

Expresso Hogwarts
1995
Ela caminhava orgulhosa por entre as pessoas. Os cabelos muito loiros, presos num coque impecável. Suas roupas eram de um azul escuro profundo. Um vestido de tecido grosso e pesado, com detalhes em prata, em bordados belíssimos. As mangas compridas escondiam completamente seus braços e, as luvas, as mãos. Ela usava um par de brincos de brilhantes, o único presente que ganhara do colégio e que ainda não tinha vendido. No dedo, usava um anel que aparentava ser simplesmente caríssimo. Os sapatos eram mais simples, mas o vestido comprido quase não deixava que ficassem expostos.
A maquiagem bem feita, os lábios muito vermelhos e os olhos muito verdes. Um ar muito sério. Qualquer um que a olhasse imaginaria que era a esposa de algum bruxo muito importante. Não eram muitas as famílias que se vestiam daquele jeito apenas para buscar os filhos na escola. Aquela mulher estava usando roupas tipicamente bruxas. Tradicionalmente bruxas. Qualquer um que visse certamente imaginaria que ela deveria pertencer ao diretório.
Rodolfo Lestrange não poderia estar mais satisfeito ao vê-la. Emily Valentine finalmente parecia apropriada para ser relacionada a seus netos, e consequentemente a ele. Sorriu arrogante e satisfeito, vendo aquela mulher como uma vitória pessoal. Ela o olhava com asco, mas isso apenas lhe dava um ar ainda mais austero.
Se quando Rabastan a tivesse me apresentado, ela estivesse assim, eu certamente teria ficado satisfeito.
—Valentine. – disse com um sorriso, estendendo a mão – Quanto tempo.
Ela certamente cogitou não aceitar o cumprimento dele, mas ela sabia que precisava andar na linha. Ele a convidara para jantar com eles, assim que pegassem Rasalas (Alhena só chegaria no dia seguinte) e ela sabia que se o aborrecesse, ele poderia simplesmente suspender o convite e ela não veria o filho.
Então ela apertou a mão dele, o olhando com desgosto. Rodolfo olhou para o anel que ela tinha no dedo, impressionado com a beleza e riqueza. Mas sentiu um solavanco no estômago, reconhecendo a joia. Ela pertencera a sua avó. Tinha certeza.
—Rabastan deixou no meu túmulo, quando achou que eu estava morta. – disse ela, como que sabendo que ele reconhecera a joia – Eu nunca me desfiz dele... Seu filho caçula ia me pedir em noivado, mas o seu mais velho tentou me matar e eu achei melhor me esconder deles. – Emily puxou a mão e tocou o próprio ombro – Rodolfo sabe ser muito... persuasivo. – murmurou ela.
O Sr. Lestrange viu que ela perdeu o ar arrogante e parecia melancólica, como se tivesse se lembrado de algo muito ruim.
—Eu não sabia disso. – murmurou – Se vendesse esse anel, poderia abrir a própria loja. Poderia ter uma vida muito melhor... ele vale uma boa fortuna...
—Eu sei. Seu filho deixou dois anéis de noivado no meu túmulo falso. Eu vendi um deles, já que Rodolfo tacou fogo na minha casa. – disse ela voltando a encará-lo com frieza – E eu estava grávida de gêmeos. Precisava de dinheiro. Como acha que comprei minha casa? Ou como sustentei os dois sem poder trabalhar durante a gravidez e os primeiro seis meses de vida deles?
—Por que guardou isso? – perguntou o Sr. Lestrange olhando para a mão dela. Emily soltou um suspiro, olhando o anel com tristeza.
—Nem sempre é fácil deixar o passado para trás... já pensei em vendê-lo várias vezes, mas... – ela não continuou, mas não foi necessário.
—Mesmo hoje em dia?
—Acho que nunca. – murmurou Emily olhando para os trilhos vazios – Apesar de tudo, Rabastan foi muito bom pra mim... ele foi muito importante na minha vida. Tanto como amigo quanto como namorado... ele me salvou das minhas próprias trevas... – ela suspirou – Pena que não pude fazer o mesmo por ele.
—Não tentou de verdade. – murmurou Rodolfo, olhando para os trilhos da mesma maneira que ela.
—Não... admito que não. – sussurrou ela.
—Por que? – perguntou Rodolfo.
—Medo. – respondeu ela se abraçando, apesar de estar muito quente e ela estar em roupas quentes também – Eu não suportaria olhá-lo depois do que me aconteceu.
—E o que aconteceu? – perguntou Rodolfo. Emily engoliu seco, mas não respondeu. Escutaram um longo e alto apito e toda a plataforma se agitou, sabendo que o trem vermelho finalmente estava chegando.
—Você ouviu o que Dumbledore disse? – perguntou Emily.
—As tolices sobre o Lorde das Trevas ter voltado? – perguntou o Sr. Lestrange. Ele riu com pouco caso. Aquele homem estava morto. Todos sabiam disso – Aquele velho está delirando. Simples assim.
Emily Valentine não parecia assim tão convencida. Ela suspirou e olhou para ele.
—Um garoto morreu.
—Pessoas morrem no torneio Tribruxo. Por isso apenas maiores de idade deveriam participar. – retrucou o Sr. Lestrange – O fato de Potter sair falando bobagens não significa que o Lorde das Trevas tenha voltado.
—Não acha que ele é louco, como o Profeta vem defendendo, acha? – perguntou Valentine.
—Nunca acreditei em uma só palavra de Rita Skeeter. – respondeu ele – Ela era amiga de Rodolfo, quando ele estudava... Sempre aos cochichos, inventando histórias fantasiosas. Não me admira que trabalhe com isso agora. Difamando e fazendo fofoca para um jornal decadente.
Valentine concordou em silêncio.
—Dumbledore está convencido que...
—Ele está louco.
—Crouch Jr. estava em Hogwarts. Infiltrado. – insistiu ela.
—Só mostra a incapacidade de Dumbledore. Se deixou enganar por um garoto idiota. Eu lembro de Crouch Jr. Ele era amigo do caçula dos Black. Um bobo, covarde. Com um organismo lento e frágil. Aos dezessete anos parecia ter quinze. Sem falar que era um idiota. Não sei como Rabastan acabou sendo amigo dele... – Rodolfo a olhou com um sorriso sarcástico – Mas aparentemente meu filho mais novo gostava de se envolver com viciados. Crouch Jr. era viciado em salvia, assim como você.
Valentine o olhou com desprezo e desviou o olhar para o trem, que se aproximava.
Outro apito ecoou pelo ar, como se fosse um suspiro cansado do trem. Pais esperavam ansiosos por seus filhos. Ali perto viu Lúcio Malfoy, junto da esposa. Ele conversava com os Bulstrode, tranquilamente. Rodolfo passeou o dedo por sua bengala, sentindo-se cansado. Não estava ficando mais jovem...
Escutou o trem soltar ar e por fim as portas se abriram. Um mar de alunos saiu, com murmurinhos nervosos e olhares assustados. As despedidas eram rápidas e todos pareciam ansiosos para se encontrar com suas respectivas famílias.
Logo viu Rasalas sair do trem, conversando de maneira descontraída com Burke e Zabini. Sorriu de satisfação ao vê-lo. O neto estava bastante alto e tinha os mesmos olhos cinzentos de Rabastan. Os cabelos estavam castanhos e isso o deixou mais parecido ainda com o pai. Mas talvez apenas estivesse vendo o que queria ver.
O garoto se virou com uma careta desdenhosa, mas assim que viu a mãe, seu rosto se iluminou. As cabelos dele ficaram muito loiros e ele correu para ela. Valentine o abraçou apertado e ele notou que o garoto já estava da altura dela. Ele a abraçou na cintura e a girou no ar, ambos gargalhando felizes.
Valentine começou a chorar de alegria e ele notou que os olhos do neto também ficaram cheios de água. Mas ele não chorou. Esperou um bom tempo, até que aquele abraço terminasse e então se aproximou dos dois.
—Convidei sua mãe para o jantar, Rasalas. Ela também virá amanhã, para buscar Alhena. – disse estendendo a mão para o neto. Teve certeza de que Rasalas cogitou não cumprimentá-lo de volta. Mas ele não arriscou enfrentá-lo e isso o deixou muito satisfeito. O neto apertou sua mão e então foram para a Residência Lestrange.
O jantar foi agradável, pois Rasalas estava simplesmente feliz e ele contagiava a todos. E como Valentine finalmente estava como uma bruxa puro sangue realmente deveria ser, não houve alfinetadas por parte de sua esposa.
Os elfos trouxeram a sobremesa e Rasalas sorriu para a mãe.
—Eu beijei uma garota esse ano. – disse ele. Rodolfo o olhou com interesse, ficando feliz por seu herdeiro varão já estar se interessando por garotas – Hermione Granger. – adicionou ele com um sorrisinho travesso.
Rodolfo piscou tentando se lembrar de alguma família bruxa de sangue puro que tivesse Granger como sobrenome, mas não se lembrou de nenhuma.
—Mestiça? – perguntou um tanto desgostoso. Repetiu para si mesmo que ele apenas havia beijado a garota. Ele não mencionara um relacionamento, afinal de contas.
—Não. – respondeu Rasalas com um sorriso insolente – Ela é nascida trouxa.
Uma fúria sem precedentes atingiu Rodolfo. Ele socou a mesa e os talheres pularam fazendo barulho, mas antes que pudesse gritar qualquer coisa, sua esposa falou.
—E ela é bonita?
Ele a olhou como se ela tivesse perdido o juízo. Rasalas a olhou um pouco surpreso também.
—Sim. Ela é sim. E é a garota mais inteligente do ano. – respondeu ele.
—Nascida trouxa, Rasalas? – perguntou Rodolfo, ainda furioso.
—Rodolfo! – disse Eda – Se lembra da última vez que...
—Deveríamos ter dado uma chance para Valentine! Ela é sangue puro. Mas uma nascida trouxa?
—Ele não está casando com ela. Apenas se divertindo. – retrucou sua esposa – Deixe estar.
Rodolfo respirou fundo e concordou. Olhou para o neto que sorria ainda de maneira insolente. Ele tinha dito aquilo apenas para provocá-lo, tinha certeza. Bem... conseguiu, Rasalas.
—Eu recebi uma coruja... – murmurou Rodolfo estreitando os olhos, ainda mirando o neto, mas então se voltou para a esposa – De Sor Kelley. – ele abriu um sorriso – Um bruxo do diretório puro sangue, da França.
Ele notou que todos na mesa pareceram ficar mais alertas.
—E o que ele queria? – perguntou sua esposa.
—Alhena. – respondeu Rodolfo. Valentine o olhava em choque assim como Rasalas – Ele a viu em uma das reuniões de boas maneiras. O filho dele está com dezesseis. Fará dezessete agora no verão. Ele insiste em que levemos Alhena para a comemoração.
—Alhena conhece esse menino? – perguntou Eda sem parecer se animar com a ideia. Ele sabia muito bem que ela não queria um noivado forçado para sua neta, ainda mais com ela sendo tão jovem.
—Não. Ele está na Durmstrang. – respondeu Rodolfo – Mas não é ótimo? Nossa neta está chamando atenção. – ele deu um bom gole em seu vinho – Beauxbatons fez mesmo bem a ela.
—Não está pensando em casar minha irmã com o filho desse idiota, está? – perguntou Rasalas se levantando, seus cabelos adquirindo leve tom de laranja. Rodolfo deu um sorriso insolente.
—Legalmente falando é proibido forçar alguém a se casar já faz alguns anos. – respondeu ele. Rasalas se sentou o olhando feio e Rodolfo pegou seu vinho novamente – Ao menos aqui na Grã Bretanha, mas existe alguns países na Europa...
—Rodolfo! – ralhou sua esposa. Ele deu um gole, matando sua taça e olhou para o neto.
—Não vou obrigar sua irmã a se casar com quem quer que seja, Rasalas. – disse num tom brando, apesar de ainda rir do humor do neto – Mas nós vamos aceitar o convite. Vai ser bom para a auto estima da sua irmã... ser cortejada por hum garoto mais velho, de sangue puro, e de muitas posses. Ela precisa ser mais segura de si mesma.
—Minha filha e mulher nenhuma precisa de homem para se sentir mais segura, Sr. Lestrange. – disse Valentine, por fim.
—Tenho certeza de que sei o que estou fazendo, Valentine. E me desculpe, mas suas tentativas de ajudar Alhena não pareceram produtivas. Treze anos tentando e a garota continuava temendo a própria sombra. – devolveu acidamente.
Valentine o olhou feio e bebeu mais um gole de seu suco – ele não permitiria que ela ingerisse álcool. A mulher era descontrolada. Se bebesse um pouco não conseguiria parar.
Rasalas soltou muxoxo. Mas então o olhou com uma expressão concentrada.
—Posso levar um amigo para essa festa? Eu não vou conhecer ninguém lá e eu não quero ficar do lado da Lena enquanto ela é “cortejada”. – resmungou ele.
—É claro, Rasalas. Pode chamar até dois amigos, se quiser. – respondeu Eda. Rodolfo a olhou um tanto afrontado com a liberdade com que ela agiu, sem esperar que ele opinasse, mas não criou caso.
—Certo. Vou chamar Draco e Damian. – riu ele – Blair vai estar ocupado nessas férias.
—Burke e Malfoy. Bons amigos, Ras... bons amigos. – riu Rodolfo.
—Bons sobrenomes não significam bom caráter. – resmungou Valentine.
—Eles são legais. – riu Rasalas, como se estivesse armando alguma coisa – E a Lena era amiga deles também. Ela vai gostar de revê-los.
—Fico feliz que Alhena esteja fazendo amizade com garotos de famílias tão ricas. – riu Eda – Não é mesmo, Rodolfo?
—Não ligo pro dinheiro. Ligo pro prestígio. E ambos os tem. – concordou ele. Rodolfo deu uma tossida – Acho que está tarde. Temos que acordar cedo amanhã. O trem chega de Beauxbatons cedo. Eles viajam de madrugada. E nós teremos que ir para a Central das Chaves antes de chegar na estação deles. – ele se levantou e olhou para Valentine – Nos vemos amanhã, às oito da manhã, na Central das Chaves, certo?
—Certo. – respondeu ela se levantando, sabendo que era a deixa para se retirar. Ela olhou para o filho e o abraçou – Até amanhã, meu amor.
—Até, mamãe. – murmurou Rasalas de maneira infantil. Era estranho olhar para ele e ver um menino quando ele já estava tão alto.
*
O baile de verão era tão tradicional em Beauxbatons quanto o baile de inverno. As pessoas usavam vestidos mais curtos e leves e o palácio ficava completamente livre. Como as regras de conduta eram impostas o ano inteiro, os professores não se importavam em vigiar os alunos naquele único dia.
Provavelmente esse era o motivo por o dia do Baile de Verão ser o mais esperado do ano. E por isso foi tão fácil fugir com Jac para as estufas.
Alhena estava se sentindo uma rainha. Parecia que todos os seus medos tinham desaparecido. Todos os seus problemas. Deshayes não estava mais implicando com ela. As amigas dela a evitavam e até os outros alunos pareciam menos terríveis. Muitos a cumprimentavam e pararam de agir como se ela fosse tóxica. Talvez fosse por também odiarem Deshayes e ela ter dado uma lição na garota.
Mas naquele momento Deshayes era a última coisa que passava por sua mente. Jacques tinha baixado seu vestido e a beijava com volúpia nos seios. Ele adorava seus seios. Ela era a garota mais peituda do ano e Deshayes era magra como uma vassoura.
—Lena... vamos fazer isso. Hoje...? – pediu ele subindo os beijos para seu pescoço.
—Não. – riu ela – Você me teve fácil demais, mas isso não vai conseguir assim tão...
—Ah... Lena. – resmungou ele – Estou tão louco por você. – confidenciou ele. Alhena apenas riu. Já estava acostumada com ele a dizer aquelas coisas. Mas sabia que era apenas bajulação para que ela se entregasse por completo. Mas isso ainda não estava disposta a fazer.
Não era por medo da pressão social. Sinceramente não dava a mínima pra isso. Pra falar a verdade tinha cogitado ceder algumas vezes, apenas para envergonhar o avô. Mas sabia que não conseguiria nada agindo assim. Às vezes era melhor ser o junco a ser o carvalho...
Mas de qualquer maneira ela não queria que sua primeira vez fosse com Jacques. Ainda pensava em Damian Burke. Pensava muito nele. Sentia uma saudade absurda do amigo e queria muito que ele visse o quanto tinha mudado. E quem sabe... se tivesse chance... se entregaria completamente para ele. Queria que fosse ele... o primeiro.
Por isso aliviou Jacques com a mão e logo voltaram para o baile. Ele estava um tanto zangado, na verdade. Mas dançaram juntos e curtiram a noite até o fim do baile.
Não estavam namorando oficialmente. Ela tinha prometido a Damian que não namoraria ninguém. Jacques não se importava tanto assim, na verdade. Ela não exigia exclusividade e ele era livre para ficar com quem quisesse, apesar de sempre vir correndo para ela.
Deshayes comentara que ele fazia aquilo somente porque ela era muito fácil. Não duvidava, na verdade. As garotas do Diretório Puro Sangue eram sempre muito recatadas, submissas às tradições e tudo mais. Havia uma pressão enorme para casarem virgens também. Duvidava muito que Mona era virgem, mas a grande maioria das puro sangue eram.
As mulheres deveriam ser virgens, mas os homens podiam se divertir sem prejuízo. Por isso que a maioria dos casamentos aconteciam com as garotas muito jovens e os homens quase na casa dos trinta.
Depois do baile, voltou para seu dormitório e arrumou suas coisas. Preparou-se para a viagem e logo rumava com os outros alunos para a estação. Ficou sozinha numa cabine, pegando seu caderno de desenho.
Desenhou até que sentiu sono. Se encolheu e dormiu. Só acordou quando o sol estava nascendo. Trocou de roupa, colocando os trajes de gala. Penteou os cabelos e os prendeu num coque elegante. Depois colocou o chapéu azul, com uma fita. Rumou para um dos banheiros e esperou na fila pela sua vez. Escovou os dentes e se maquiou. Nada muito exagerado. Apenas um batom claro e o lápis de olho, que realçava seus olhos claros.
Deixou o banheiro e ignorou um assovio de um garoto do sexto ano. Marchou de volta para a sua cabine e viu que Jacques estava ali.
—Olá, Lena. – riu ele – Vamos nos divertir um pouco? Tenho esperanças de tirar sua virgindade, ainda.
—A esperança é a última que morre, não é? – perguntou cruzando os braços.
—Sempre. – riu ele.
Alhena sorriu, se divertindo. Gostava de Pierre pois ele tinha feito com que se sentisse, pela primeira vez, desejada, bonita.
Ainda vomitava de propósito, mas quase não o fazia mais. Não estava mais tão desesperada para emagrecer. Só mais uns quilos e estaria perfeita, por mais que ele dissesse que gostava dela daquele jeito.
—Não quero manchar meu batom. – disse fazendo biquinho.
—Não beijo seus lábios, então. – devolveu ele com um sorriso safado. Alhena sorriu, adorando o jeito dele e riu quando ele a puxou pela cintura para beijar seu pescoço.
—Não posso chegar com marcas, heim? – disse para ele.
—Não deixarei em lugares visíveis... – murmurou ele abrindo seu traje, procurando por seu sutiã.
—Em nenhum lugar, Jacques! – disse com convicção – Se minha avó sonhar com o que eu ando fazendo.
—E ela vai inspecionar? – perguntou ele.
—Vai. – riu ela.
Jacques meteu a mão por dentro de seu sutiã, para massagear seu seio, com a outra, encontrou caminho para dentro de sua saia.
—Mas que velha chata. – resmungou ele. Alhena gargalhou, mas logo soltou um gemido ao sentir os dedos dele dentro de si.
Logo estava delirando com os toques dele, como normalmente acontecia. Estava para tirá-lo da calça, para tocá-lo também, quando escutou alguém bater na cabine. Os dois olharam, assustados e viram Deshayes com um olhar zangado.
Se separaram se aprumando, mesmo que Mona tivesse saído. Não seria sensato ficar daquele jeito. Ela poderia chamar um monitor. Então se sentaram e começaram a conversar sobre qualquer coisa.
Em menos de uma hora chegaram na estação final. Seu avô a buscaria ali. Então deu um último beijo em Jac e pegou suas coisas. Olhou para o uniforme, procurando por algo fora do lugar, mas tudo parecia certinho.
Puxando seu malão, seguiu para o corredor, com Jac ao seu lado. Caminharam até a saída do trem e ele a ajudou a descer os degraus com suas coisas. O garoto lhe lançou um sorriso safado e lhe deu uma piscadela antes de sair.
Alhena procurou por seus parentes e sorriu feliz ao ver o irmão e a mãe, junto dos avós. Caminhou calmamente, pois sempre tropeçava naquele salto se tentasse andar rápido demais e quando os alcançou recebeu olhares surpresos.
Rasalas engasgou ao vê-la e piscou algumas vezes, sem parecer convencido de que era ela mesmo. Sua mãe soltou um suspiro e a abraçou apertado. Alhena a abraçou de volta, doente de saudades, desejando ardentemente ir com ela para sua casa de verdade, onde poderia colocar uma camiseta folgada, um short e passar o resto da tarde deitada no sofá, trocando histórias.
Sentiu a mãe soluçar e a apertou ainda mais no abraço, mas agora sorria para Rasalas, que ainda a olhava um tanto boquiaberto. Se perguntava o porquê daquela reação. Seus avós olhavam com aprovação e isso quase minou seu humor.
Quando por fim se soltou de sua mãe, ela a olhou no rosto. Estavam quase na mesma altura, faltando apenas alguns centímetros para que a alcançasse. Sentiu as mãos calejadas da mãe em seu rosto, e o olhar dela era de puro carinho.
—Minha menininha... se transformou numa mulher... – sussurrou ela – Você está linda, Alhena.
A garota sorriu, baixando o olhar, mas então respirou fundo, sorrindo de verdade e a olhando nos olhos.
—Obrigada, mamãe. – depois a abraçou novamente – Eu senti tanto a sua falta.
**
Rasalas bateu na porta e escutou a voz da irmã, o convidando para entrar. Entrou timidamente e viu Alhena sentada em sua cama, com seu caderno de desenhos. Mas assim que ela o viu, sorriu animadamente.
—Olá.
—Você andou comendo da ração da Pansy? – perguntou ele com um sorriso maroto. Alhena o olhou sem entender – Damian vai ficar doido quando te ver. – ele suspirou e Lena sorriu parecendo se divertir – Você está bonita, maninha.
—Obrigada. – respondeu ela. Rasalas caminhou até a cama da irmã e se sentou na beirada.
—Ficou sabendo sobre Você-Sabe-Quem? – perguntou ele.
—Não. – respondeu ela franzindo a testa – O que tem ele? Apareceu mais uma vez? Potter salvou o dia de novo?
—Potter diz que ele voltou. Que voltou de vez. – respondeu Rasalas – Dumbledore acredita nele, mas o vovô acha que é besteira.
Alhena o olhou parecendo chocada.
—Como ele pode ter voltado? Ele estava morto!
—Pois é... – murmurou Rasalas – Dumbledore disse que dias difíceis estão por vim e o Ministro da Magia não gostou nem um pouco dessa história. Estão tentando abafar o caso... – ele soltou um suspiro, se lembrando de Potter carregando Diggory e o pai do Lufa-Lufa gritando “é o meu filho!” – Não me espanta que não ficou sabendo...
—Conte o que houve! – pediu ela.
Rasalas concordou com a cabeça e então contou sobre todo o torneio Tribruxo, sobre o falso-Moody, sobre Cedrico e sobre Harry Potter voltando com o corpo morto do garoto. Quando terminou de contar, notou que Alhena parecia bastante aflita.
—Isso é muito, muito ruim... – murmurou ela mordiscando o lábio. Rasalas concordou – Oh... isso é péssimo... isso significa guerra... ou talvez... talvez chacina, já que Fudge se recusa a acreditar em Dumbledore. Você-Sabe-Quem vai poder agir por debaixo dos panos e ninguém vai fazer nada para detê-lo...
—Dumbledore vai tentar detê-lo. – retrucou Rasalas – Draco estava exultante... ele ficou realmente feliz com a volta de Você-Sabe-Quem...
—Draco é um idiota. – resmungou Alhena, fazendo Rasalas sorrir – Ele vai ter tempo para se arrepender. – adicionou ela voltando seu olhar para o caderno de desenho – Como foi o seu ano letivo? Recebi umas cartas de Daphne e ela parecia bem chateada com você.
—Hum... – Rasalas coçou o queixo – Eu e Daphne meio que brigamos e agora a chance de termos alguma coisa é próxima a zero. – resmungou.
—Você e Mione realmente estavam juntos? Daphne me contou isso... mas não soube dizer se era apenas exagero dela...
—Sim. Eu tive uns lances com a Mione. – riu Rasalas se lembrando dos beijos quentes com ela.
—Por que brigou com Daphne? Vocês pareciam tão bem...
Rasalas suspirou.
—Eu fui um idiota. – respondeu – No dia de ir para a escola, o vovô me viu com ela e ficou incentivando um romance. Eu estava tão puto que...
—Entendi... – cortou ela – Sim, você foi um idiota... mas eu entendo. – riu ela – Eu fiz minha cota de loucuras apenas por odiar o nosso avô. – adicionou ela se deitando.
—Que tipo de loucuras? – perguntou Rasalas.
—Todo tipo... arrumei briga na escola, duelei com Deshayes...
—A que ficava pegando no seu pé?
—Ela mesma. – riu a irmã. Então ela respirou fundo – Conheci um garoto e... bem... digamos que eu... não fui nada comportada. – ela se sentou e olhou para ele – Foi uma loucura...
Rasalas sentiu uma coisa desconfortável no estômago e não quis saber detalhes.
—Eu fiquei sabendo que você e o Damian andaram se beijando! – disse estreitando os olhos – Não quero você se agarrando com todo mundo, viu? Com o Damian eu deixo, porque ele gosta de você... apesar dele querer entrar nas saias da Parkinson vez ou outra...
—O que? – perguntou Alhena. Rasalas deu de ombros.
—Ele gosta de você, mas tem um tesãozinho na Parkinson. – respondeu – Particularmente eu acho nojento, mas ele não tem chances com ela. Fique tranquila.
Alhena concordou em silêncio, apesar de não parecer ter gostado nada daquilo.
—Desculpe por não ter contado... fiquei com medo que você brigasse com ele.
Rasalas deu de ombros novamente.
—Tá tudo bem. Hum... o vovô já te falou de um tal de Kelley?
—Não. Quem é esse?
—Um pretendente seu. – respondeu Rasalas – O pai dele te viu algum dia ai e quer que você case com o filho dele... – Alhena o olhava horrorizada – O avô falou que não vai te obrigar a casar, mas a gente vai ter que ir no aniversário do cara. Ele vai te “cortejar”.
Alhena deu uma risadinha desdenhosa.
—Fala sério. – riu ela.
—Pois é... – riu ele – Você emagreceu muito... não está mais vomitando, está?
—Não. – respondeu ela simplesmente, voltando a deitar – Estou tendo que fazer exercícios em Beauxbatons. Isso me ajudou bastante a emagrecer.
Rasalas concordou em silêncio. Parecia que ela dizia a verdade. Alhena nunca soubera mentir.
—Você está muito bonita. Feliz por estar magra como sempre quis? – perguntou Rasalas. Alhena o olhou com a sobrancelha arqueada.
—Eu não estou como sempre quis. Ainda falta um pouco.
—Do que está falando? – perguntou franzindo a testa – Você está ótima desse jeito!
—Não. Ainda não. Mas falta pouco. – disse Alhena ficando de pé para se olhar no espelho. Ela colocou a mão na cintura e girou de um lado para o outro, mirando o próprio reflexo – Ainda falta umas gordurinhas desagradáveis.
—Eu acho que não precisa. Ninguém gosta de garotas magrelas demais. – resmungou Rasalas.
—Daphne sempre foi super magrinha. – discordou Alhena.
—É o físico dela. Pequena e delicada. – murmurou Rasalas – Você não tem esse tipo. Você tem peitão e bundão. Pra que ficar igual a Daphne, que não é assim?
—Porque é mais bonito. – resmungou Alhena voltando a se jogar na cama.
Rasalas soltou um suspiro.
—Só não fique magra demais. – disse dando de ombros. Ele suspirou mais uma vez – Amanhã... a gente podia ir visitar o papai. O que acha?
Alhena olhou para o teto, deitada na cama, como se ponderasse.
—Você o visita, ainda?
—Não... Eu fui uma vez, no verão passado... mas ele não estava em condições de receber visitas... e eu não pude ir depois e nem no natal. – respondeu cabisbaixo – Vem comigo?
Alhena se sentou e sorriu.
—Ok. Eu vou. – disse ela parecendo levemente contente – Prometo tentar não perder a cabeça com ele... afinal... – ela suspirou e sorriu novamente – Papai meio que me ajudou a acabar com a raça da Deshayes.
—Hum? Como assim? – perguntou Rasalas a olhando confuso, mas Alhena o olhou com divertimento e não respondeu.
Saiu no quarto dela se perguntando que raios de lavagem cerebral se fazia em Beauxbatons, mas ficou feliz por ela parecer estar feliz também.
***
—Cuide de sua irmã, Rasalas. – disse sua avó de maneira preocupada. Rasalas revirou os olhos e sua irmã riu com desdém – Se seu avô souber que vocês estão indo pra lá... sozinhos...
—Não conte pra ele e estará tudo bem. – riu Alhena arqueando a sobrancelha e falando com divertimento. Rasalas concordou, rindo do mesmo jeito e foi a vez da avó sorrir.
—Céus... vocês riem da mesma maneira, já repararam nisso?
—Bem... somos gêmeos, sabe? – perguntou Alhena com desdém, colocando pó de flu na lareira – Caldeirão Furado.
Depois ela entrou.
—O que raios fizeram com ela lá em Beauxbatons? – perguntou olhando para a avó, que simplesmente sorriu.
—Não a deixe sozinha. Fique de olho nela.
Rasalas suspirou e logo foi para o Caldeirão Furado, onde Alhena o esperava tranquilamente. Caminharam juntos para o Beco Diagonal, conversando sobre seus respectivos anos letivos, rindo das histórias um do outro.
—Podemos passar na loja da Madame Greengrass, pra ver a Daphne? – perguntou Alhena calmamente – Estou com tanta saudade das minhas amigas...
—Ok. Mas primeiro vamos ver o papai. – respondeu dando de ombros. Alhena concordou e logo chegaram na Central das Chaves. Pegaram uma para Azkaban e vestiram os casacos.
A diferença de temperatura era absurdamente gritante. O calor do verão parecia simplesmente não alcançar a ilha. Subiram pelos degraus, escutando as ondas baterem com força contra as pedras. Alhena quase escorregou num degrau cheio de lodo e ele a segurou com firmeza. Ela sorriu agradecida e subiram de mãos dadas, para evitar eventuais tombos da parte dela.
Rasalas falou com a mulher da recepção, pedindo para ver o pai, pois ele já sabia como funcionava os procedimentos. Depois seguiram juntos pelos corredores sujos e frios.
—Mamãe veio aqui um dia desses. – disse Rasalas – Estava no registro. – Alhena deu de ombros sem achar aquilo importante – Ela nunca vinha, mas eu vi o nome dela em outra data, antes... por que será?
—Sei lá. – resmungou Alhena dando de ombros novamente – Talvez quis conversar algo sobre o passado deles... Vai saber.
—Você sabe se a mamãe e o Lupin ainda estão juntos? – perguntou curioso. Alhena soltou um suspiro desanimado.
—Eu não sei... ela nunca falou pra mim quando me mandava cartas. – resmungou Alhena – E eu não tive oportunidade de perguntar. O correio em Beauxbatons não é como em Hogwarts. As corujas chegam num setor, onde a correspondência passa por todo o tipo de teste antes de ser realmente entregue. Pra evitar coisas ilícitas, sabe? Eu realmente não tive acesso a corujas.
—Só... – murmurou Rasalas.
Finalmente viram a cela do pai. Alhena se abraçou por conta do frio, se encolhendo dentro do sobretudo. Rasalas a imitou e quando chegaram em frente a cela, Rabastan sorriu ao vê-los.
—Rasalas! Alhena. – ele cambaleou até as grades e tropeçou se segurando nas barras de ferro. Rasalas o ajudou a se equilibrar e ele o olhou agradecido – Minha nossa... olha só o seu tamanho! – disse Rabastan sorrindo – Vai ficar mais alto que eu. – Rasalas sorriu convencido e Alhena olhou para ele, como se não tivesse notado antes que ele estava realmente bem alto – E você... – Rabastan a olhou com carinho – Que bom que veio... você está ainda mais linda do que eu me lembro, Alhena.
—Obrigada. – disse Alhena um tanto sem jeito. Por um momento ela lembrou a menina insegura e tímida que ela costumava ser, mas então ela respirou fundo e ficou simplesmente séria, o olhando com certa frieza – Beauxbatons serviu de alguma coisa.
—Essa é sua filha? – perguntou uma voz que Rasalas não conhecia – Eu gostaria de uma visita íntima com ela. – um homem, na cela do lado deu um sorriso pervertido para Alhena, que fez cara de nojo.
Rasalas viu seu pai fechar a cara e ir até a parede. Então ele passou o braço pela grade e puxou os cabelos do homem, com violência.
—Respeite a minha filha, Carrow, seu imbecil. – rosnou ele parecendo furioso – Se não quiser que eu arranque esse sua língua, mantenha ela dentro da boca. – o tal Carrow tentou se soltar, mas seu pai não deixou.
Ele o puxou com violência, de uma vez, fazendo o homem bater a cabeça contra as grades e então o empurrou. Carrow caiu no chão e se encolheu no outro lado da cela, resmungando ofensas.
Escutaram risadinhas e se viraram, para ver o tio olhar achando graça. Na cela ao lado estava Bellatrix, que parecia mais louca que qualquer um ali.
—Seu instinto paterno é um amor, Rabastan. – riu Bellatrix – Mas não acho que poderá proteger sua filhinha dos criminosos lá fora, sabe?
Alhena se virou para tia Bella, prestes a falar qualquer coisa, mas Rabastan falou primeiro.
—Ela é um Lestrange. Não precisa que eu a proteja lá fora. – resmungou o pai, parecendo levemente corado, se é que era possível – Não é, Alhena?
Rasalas olhou a irmã, que franziu a testa, como se tentasse controlar o próprio rosto.
—Não preciso de ninguém cuidando de mim. – resmungou ela levantando o rosto – Muito menos... – deu um pisão forte no pé dela e a olhou feio. Então ela cruzou os braços – Babaca. – resmungou baixinho.
—Com quantos anos vocês já estão mesmo? – perguntou tio Rodolfo.
—Quinze. – respondeu Rasalas colocando as mãos nos bolsos.
—Quinze anos. A idade do perigo. – ele riu para Bellatrix, que sorriu cruelmente – Hormônios em fúria e tudo mais... Já arrumou uma namorada, Rasalas?
—Eu pensei que as pessoas não rissem em Azkaban. – disse Alhena se encostando na cela do pai, cruzando os braços.
—Vocês trazem alegria para esse lugar. – riu Rodolfo com uma voz carregada de sarcasmo – Sempre que um de vocês aparece, seu pai fica tão feliz que os dementadores passam o resto do dia em cima dele.
—É adorável. – resmungou Bellatrix olhando para Rabastan com desagrado. Rasalas olhou se sentindo mal para o pai, mas ele apenas sorriu.
—Vale completamente a pena. – garantiu Rabastan – Céus... já é verão? Por que não vieram no natal passado? – perguntou ele.
—Seu pai não deixou. – respondeu Alhena com um pouco de descaso na voz.
—Você quer dizer: seu avô. Não é? – perguntou Rodolfo para a sobrinha. Alhena só deu de ombros com a mesma expressão de desagrado.
—E então? O que tem de novo? – perguntou Rabastan, olhando um tanto sem jeito para Alhena, que mascava um chiclete de baba bruxa com cara de tédio.
—Eu... – começou Rasalas, querendo contar sobre Hermione, mas então se tocou que seria uma péssima ideia – acho que Alhena vai arrumar um namorado. – disse desconversando. Alhena o olhou franzindo a testa e Rabastan fez do mesmo jeito.
—O que? – perguntaram os dois juntos.
—É que o vovô vai levar a gente para a festa de um cara ai... pra ele cortejar a Alhena. – riu Rasalas imitando a pose da irmã, só que na grade do tio.
—Ah... já está debutando? – perguntou Rodolfo – Bem... você é bem bonita. É justo que comece logo. – riu ele de maneira quase simpática – Lembra das suas festas de debutante, Bellatrix?
—As que você não me deixava em paz? – perguntou a mulher revirando os olhos – Claro que me lembro. Apareceu em todos, mesmo de penetra, só para me irritar. – ela encostou-se contra a grade, olhando para Alhena – São divertidos, esses bailes. Aproveite antes que um idiota te lace e te tire seu sobrenome. – disse ela olhando para o marido, que apenas revirou os olhos.
—Como são, tia Bella? – perguntou Alhena, parecendo genuinamente curiosa – O que eu preciso fazer? Não tenho que ficar fazendo olhinhos doces com qualquer tapado que meu avô inventar de me apresentar, tenho?
Bellatrix a olhou com cuidado e então deu um sorrisinho.
—Não. Nunca deixe esses garotos mimados acharem que são bons o suficientes... não se não forem.
—Tio Rodolfo era bom o suficiente? – perguntou Alhena de maneira quase doce, mas tinha um ar de troça nela tão absurdamente esquisito que Rasalas se perguntou se ainda conhecia a irmã de fato. Só ficaram um ano separados... o que tinham feito com ela naquela escola?
—É claro que eu era. Ela casou comigo. – respondeu Rodolfo.
—Eu tinha uma obrigação a cumprir. Digamos que Rodolfo foi o melhor que tinha disponível. Bonitão e inteligente. Um bom bruxo e meu melhor amigo. Ele foi uma escolha meio óbvia.
—Mas você nunca gostou dele de verdade. – disse Alhena e o tom dela não era de pergunta – Você só o julgou apropriado e se casou?
—Basicamente. Não foi amor, como a tonta da minha irmã Andrômeda fez.
—E se arrependeu? Algum dia? De não ter amado loucamente. – perguntou Alhena com a mesma expressão de tédio. Rasalas e o pai apenas olhavam de uma para a outra.
—Nunca. – respondeu Bellatrix dando de ombros – Amor é superestimado, querida. Torna tudo confuso, complicado. Mexe com sua mente e te faz fazer coisas idiotas. Olhe seu pai, por exemplo.
—Não vejo o lado dele. – retrucou Alhena, sem encará-lo – Eu vejo o da minha mãe. – ela olhou Bellatrix com um olhar gelado – Que nunca o superou. Levou mais de dez anos para conseguir tentar ter um namorado e mesmo assim, quando fica lembrando do passado, fica toda nostálgica, sentindo falta...
—De mim? – perguntou Rabastan, se aproximando lentamente.
—É. – resmungou Alhena olhando para tudo, menos para ele – Ela gostava do Lupin... talvez ainda goste... mas ela nunca esqueceu você. Me pergunto se... se ela soubesse o que a esperava... se ela faria diferente... – Alhena o olhou gelidamente – Se teria chamado os aurores, no lugar de te ajudar. Era o que eu teria feito, ao menos.
Rabastan a olhou magoado e se sentou no chão. Rasalas a olhou fulo da vida.
—Você... – começou, mas Alhena continuou.
—Mas eu nunca amei ninguém como a mamãe te amou, então... – ela deu de ombros – É difícil me colocar no lugar dela. – Alhena soltou um suspiro e mirou Rodolfo – Quem foi que tentou matar minha mãe? Quando meu pai voltou pra chacina e a deixou para trás?
Rodolfo piscou, olhando para ela, levemente surpreso pela pergunta repentina.
—Por que acha que eu sei? – Perguntou Rodolfo. Rasalas o olhou curioso.
—Eu só acho. Diga que estou errada, se não souber. – riu Alhena. Rodolfo trocou um olhar com Rabastan, que o olhou de maneira ainda mais gélida que Alhena. Rodolfo soltou um suspiro.
—Eu sei. Mas você não entenderia... sua mãe era... – começou ele, mas Alhena o cortou.
—Minha mãe era uma mulher solitária, sem vínculo algum com a Ordem da Fênix, traumatizada com o assassinato da própria família. Ela nunca apoiou Dumbledore e sempre fez questão de nunca apoiar nenhum dos lados... – ela parou para rir com escárnio – Digo... pelo menos até você aparecer na porta dela. – disse olhando para o pai. Rabastan mirou o irmão e sorriu.
—Como eu sempre disse. Emily não era da Ordem...
—Ela era sim! – cortou Bellatrix, acidamente.
—Não era. Eu perguntei várias vezes e ela sempre negou. Por que negaria isso pra mim? Com Você-Sabe-Quem derrotado? – perguntou Rasalas – Seria super maneiro saber que minha mãe era um membro da Ordem. Mas a verdade é que mamãe nunca foi boa duelando...
Rabastan olhou novamente para o irmão.
—Por que não conta de uma vez, Rodolfo? – perguntou ele.
—Seu irmão nunca te contou? – perguntou Alhena – Por que não? Não é como se você ainda pudesse fazer alguma coisa a respeito. Ah não ser... – Alhena olhou para o tio com uma sobrancelha arqueada ao máximo – Que ele tenha sido o responsável... Ela nunca conseguiu se livrar das cicatrizes. Mesmo sendo metamorfomaga.
—Sendo o que? – perguntou Rabastan, chocado. Alhena o olhou e riu com desdém.
—Você não sabia? Ela e Rasalas são metamorfomagos. – riu ela – Mas mesmo esse dom não pode esconder cicatrizes deixadas por magia negra.
Rasalas olhou para o pai, que parecia ter recebido uma informação muito importante. Ele ficou com os olhos inquietos, sussurrando consigo mesmo, baixo demais para que pudesse escutar.
—E então, tio? – sibilou Rasalas, se afastando da cela do tio e ficando ao lado de Alhena – Quem machucou minha mãe? Me dê um nome... de presente. Afinal, eu sou o futuro da sua família.
Rodolfo mirou o irmão e soltou um suspiro.
—Yaxley... Lyssandra Yaxley. – respondeu ele caminhando para o fundo da sua cela, escorregando pela parede.
—Conhece? – perguntou Alhena para Rabastan, que adquiriu um ar sombrio. Ele concordou em silêncio e suspirou.
—Ela morreu... antes da queda do Lorde das Trevas.
—Por isso não queria contar. – murmurou Rodolfo – Você quis vingá-la... agora que o Lorde retornou, é questão de tempo que ele nos liberte. – Rasalas mirou a irmã, que parecia bem alerta – E então você se sentiria livre para se vingar... mas não haveria como se vingar. Ela morreu. Eu preferi te deixar essa esperança...
Rabastan suspirou, parecendo entender alguma coisa, mas Rasalas achava aquilo muito fraco.
—Mentiroso. – murmurou Alhena. Rasalas olhou a irmã, que mirava o tio. Rodolfo não a encarou de volta. Ela sorriu e se virou, ficando colada contra a cela do pai – Ele está mentindo.
Rabastan olhou para ela e escondeu o rosto com as mãos.
—Lena... – murmurou Rasalas.
—E você sabe. – sussurrou ela. Lena o olhou com intensidade e se abaixou ao lado dele – Se o Lorde das Trevas voltar, papai... – murmurou ela. Rabastan levantou o olhar para ela, desacostumado a ouvi-la chamá-lo assim – O que vai fazer? Se ele te tirar daqui? Vai voltar a ser um soldado dele? Ou vai correr atrás da sua família? Do tempo perdido? – Ela sorriu acidamente – Como você disse pra mim que teria feito se soubesse antes de nós?
Rabastan desviou o olhar.
—Papai não lutaria ao lado dele de novo. – disse Rasalas sentindo um peso no estômago – Não é?
—É claro que ele lutaria! – ralhou Rodolfo – Estamos há quatorze anos, apenas esperando, para servi-lo novamente!
—Você está, tio. – disse Alhena. A irmã se levantou e soltou um suspiro. Então se agarrou às grades da prisão, olhando para o pai – Ele virá por vocês antes do natal. Não se esqueça de me comprar um presente. – riu ela lhe lançando uma piscadela. Então arrumou o sobretudo e caminhou em direção a saída.
Rasalas a olhava boquiaberto.
—Do que ela está falando? Como ela sabe disso? – perguntou Bellatrix, com os olhos alterados.
—A-Alhena é vidente... ela nunca erra. – murmurou Rasalas olhando para todas as celas. Foi quando notou que muitos prisioneiros prestavam atenção, com os olhos esbugalhados e bocas escancaradas. Alguns sorriram, outros voltaram a se esconder nas sombras.
Rasalas olhou para o pai, sentindo-se tonto com aquela informação. Como Alhena poderia falar aquilo naquele tom tão casual? Como se falasse uma bobagem qualquer? Como se não ligasse? Como poderia não ligar?
Sempre desejou que seu pai saísse da cadeia... mas somente ele. Os outros comensais poderiam muito bem seguir ali.
—Ele vai vir... falta pouco agora! – riu Rodolfo parecendo eufórico.
—Eu disse! Eu sempre disse que ele voltaria por nós! – riu Bellatrix – Garoto! Chame sua irmã de volta! Eu quero que ela me diga que honras nos esperam!
Rasalas fez uma careta de desgosto ao olhá-la. Depois se virou para o pai, que parecia enfrentar diversos dilemas internos.
—Eu... eu realmente espero que nunca mais use aquela máscara de novo. – murmurou sombriamente – Eu nunca vou te perdoar... se voltar a seguir aquele homem.
—Do que está falando, garoto? – ralhou Rodolfo – Você é um Lestrange. – ele sorriu de maneira cruel – É seu destino ser um de nós um dia.
Rasalas o olhou cheio de desgosto.
—Os Comensais de Morte de o Lorde das Trevas destruíram a minha família, mataram meus avós maternos, tentaram matar a minha mãe e enlouqueceram o meu pai... Eu NUNCA serei um Comensal de Morte e eu certamente NUNCA seguirei o Lorde das Trevas. – disse Rasalas. Ele cuspiu no chão, aos pés do tio, que o olhava furioso – E eu acho a causa puro sangue ridícula. – ele se virou para o pai – E minha primeira namorada era nascida trouxa. – Os três o olharam em choque.
—Bartô me falou. – murmurou Rabastan, com algum desgosto – Tive esperanças que de que ele estivesse mentindo.
—Ele não men... – começou a falar, mas Bellatrix gritou de raiva.
—SEU TRAIDOR DE SANGUE! – rosnou ela.
—Eu não acredito! Você tem o meu sobrenome, moleque! Como ousa? – perguntou Rodolfo, furioso.
Rasalas apenas riu e arrumou a gola do casaco.
—Se depender de mim, a próxima geração dos Lestrange não estará no diretório, tio. – disse num sibilo zangado. Lançou um olhar rápido para o pai, que o olhava desgostoso e então foi para junto da irmã, que o esperava na saída.
—Parece zangado, maninho. – murmurou ela arqueando a sobrancelha.
—Crescer é uma droga. – resmungou ele voltando a andar. Alhena deu uma risadinha e segurou sua mão, o olhando da maneira carinhosa que costumava olhar, antes de Beauxbatons mexer com a cabeça dela.
—Eu sei...
****
Daphne gritou tão alto que achou que seus ouvidos iriam sangrar. Ficou num canto, sentindo-se desconfortável com a presença dela, enquanto ela e Alhena gritavam, se abraçando e pulando de alegria.
Sua mãe olhava com um sorriso e Madame Greengrass olhava da mesma maneira. Soltou um suspiro, mirando as duas, sentindo-se deslocado e ouviu Madame Greengrass engasgar ao mirá-lo.
—Aquele é o Rasalas? – perguntou ela piscando – Meu Merlin. Como você cresceu. Vem cá. – disse ela caminhando até ele. Soltou um suspiro e foi até ela. A mulher, que já estava alguns centímetros mais baixa que ele, o olhou no rosto, mediu a distância entre seus ombros e pediu para que levantasse a camisa, deixando-o sem graça – Céus. Emily. Seu filho está lindo! – disse ela sorridente. Sua mãe sorriu de orgulho.
—Eu sei.
—Minha nossa... ele virou um homenzinho. Olhe só... – Rasalas desviou o olhar, corando de leve – Daphne. Por que não namora o Rasalas? Olha só como ele está bonito!
—Eu já tenho um namorado, mamãe. – resmungou Daphne sem olhá-lo. Ele fez questão de não olhar pra ela, também.
—Mas Rasalas é um Lestrange! – disse sua mãe – Astoria está solteira, não está? – perguntou Madame Greengrass olhando para sua filha mais nova. Ela brincava com o irmão Viktor, de dez anos. Ela levantou o olhar para ele e Rasalas lhe piscou sorrindo. A menina corou com violência e ele deu uma risadinha.
—Mamãe! Astoria não quer nada com o Rasalas! – ralhou Daphne.
—Ela te disse isso? – perguntou Rasalas sem olhar para ela.
—Eu simplesmente sei! – respondeu Daphne, num tom frio.
—Vai começar a pensar por sua irmã, já que Pansy pensa por você? – perguntou olhando para ela. Daphne o olhou furiosa e se aproximou.
—Pare de ficar falando besteira! Pansy não controla a minha vida! Ela é minha amiga.
—Isso mesmo, Rasalas! – ralhou Alhena.
—Vocês são controladas pela Pansy e nem se tocam. – ele revirou os olhos – É ridículo. – Ele se aproximou de Astoria – Por isso gosto da Astoria, ela não se deixa levar por ninguém. Sempre teve opinião própria. – disse passando os braços pelos ombros da garota, que corou ainda mais violentamente – Não é mesmo, Astoria?
—É... isso mesmo... – murmurou ela sem jeito.
—Pena que gosta mais do Draco do que de mim. – murmurou ele fazendo bico, fingindo-se de triste. Astoria o olhou zangada e envergonhada.
—Não gosto nada! – disse o empurrando e saindo correndo, batendo os pés no chão. Rasalas deu uma risadinha debochada.
—Ela é apaixonada pelo Malfoy. – disse Rasalas e a mãe dela abriu um enorme sorriso – Ele te acha muito bonita! – gritou para a menina, que se virou chocada, para encará-lo – Ele vive dizendo que você vai ser muito mais bonita que a sua irmã.
Astoria deu um sorriso, mas então corou com violência e saiu correndo para dentro da loja. Rasalas deu outra risadinha e voltou a olhar para Daphne, que vinha andando em sua direção, parecendo furiosa.
—Pare de tirar sarro da minha irmã! – ralhou ela.
—Não estou tirando sarro. – resmungou ele.
—Está sim!
—O que foi? Está se sentindo ameaçada por não ser mais a Greengrass mais bonita? – perguntou com deboche. Daphne corou e o mirou parecendo ofendida.
—Não me sinto ameaçada coisa alguma! – ralhou ela lhe dando um empurrão – Seu – ela o empurrou de novo – grande – mais uma vez – idiota!
Segurou-a pelos pulsos.
—Pare. – ralhou a olhando de cara fechada.
—Me solte! – exigiu ela. Ele sorriu sem soltá-la – Me largue, Rasalas.
—E se eu não quiser?
—Rasalas! – ralhou sua mãe. Sentiu um solavanco no estômago. Tinha esquecido completamente que ela estava ali. Soltou Daphne, revirando os olhos, mas sentindo-se um tanto sem jeito – O que deu em você?
—Eu só estava tirando uma com a cara dela. – riu Rasalas se afastando, recebendo um olha furioso da menina – Mas Daphne não sabe brincar.
—Eu não sei brincar? – perguntou ela o empurrando de novo.
—Pare com isso. – ralhou olhando nervoso pra ela.
—Você é um idiota!
—E você é muito chata!
—Meu Merlin. Vão para um quarto, vocês dois. – riu Alhena cruzando os braços. Rasalas piscou, constrangido e Daphne corou, ambos olhando para ela.
—Cala a boca, Alhena! – disseram juntos. Se olharam zangados e cruzaram os braços, se recusando a se encarar novamente.
Escutou o sininho da loja, alertando que um cliente entrava. Se virou, distraidamente e notou que era Lupin. Os dois trocaram um olhar sem jeito.
—Ãhn... olá... – murmurou o homem, timidamente.
—LUPIN! – gritou Alhena, contente. Lupin piscou chocado ao ver a garota correr até ele, para abraçá-lo – Que saudades!
Rasalas bufou baixinho e desviou o olhar. Notou que sua mãe o olhava sem jeito.
—Alhena? É você? – perguntou Lupin chocado. Ele se afastou para olhar para ela – Minha nossa... como você cresceu!
Alhena sorriu para ele, contente.
—Olá, Remus. – cumprimentou Madame Greengrass com um sorriso gentil. Ela olhou de maneira sugestiva para sua mãe, que apenas virou o rosto, parecendo completamente constrangida.
Chega de ser infantil. Pensou consigo mesmo. Lupin nunca tinha feito coisa alguma contra ele e fora essa sua birra com aquele homem simples que desencadeara praticamente tudo de ruim que lhe acontecera no último ano.
Por isso respirou fundo, levantou a cabeça e caminhou calmamente até ele. Ergueu a mão, de maneira cortês, para cumprimentá-lo.
—Olá, Lupin. Quanto tempo. – disse com a mão erguida. Lupin sorriu parecendo muito cansado e o cumprimentou com firmeza.
—Sim. Já faz muito tempo. – concordou ele – Você cresceu bastante.
—Estão me dizendo isso com frequência. – disse gentilmente, sem soltar a mão dele – Está muito ocupado?
—Hum... – ele olhou constrangido para sua mãe, mas Rasalas não se virou para olhar a reação dela – Bem... na verdade não.
—Eu gostaria de conversar com você. – disse calmamente.
—Rasalas! – murmurou Alhena, preocupadamente. Ele a olhou de maneira severa e ela encolheu de leve, suspirando.
—Claro. Vamos conversar. – disse Lupin, parecendo ansioso.
Finalmente largou a mão dele e foi até a porta. Lupin olhou mais uma vez para trás, para sua mãe e agora Rasalas pode notar que ela não o olhou de volta. Ficou cabisbaixa varrendo o chão, apesar de essa não ser uma tarefa sua.
Estranhando aquilo, saiu da loja e Lupin o seguiu, o olhando sem jeito. Caminharam pela rua, calmamente. Sentia um leve constrangimento pela situação, mas estava convencido que já era hora de deixar aquela picuinha com o homem para trás.
—Escute, Rasalas... – começou Lupin.
—Não... me escute primeiro. – disse sem conseguir olhar para ele. Estava ligeiramente envergonhado – Me desculpe.
—O que? – perguntou o homem, parecendo chocado. Rasalas soltou um longo suspiro.
—Me desculpe... eu fui um idiota com você... com a minha mãe... – murmurou ele sem jeito – Você sempre fez muito bem a ela e... e... e eu...
Sentiu a mão dele em seu ombro. O olhou constrangido e recebeu um sorriso gentil.
—Está tudo bem, Rasalas... – murmurou ele. Lupin soltou um longo suspiro – Eu... eu sinto muito mesmo, pelo que aconteceu... foi tudo culpa minha.
—Não foi culpa sua. – disse cabisbaixo – Foi culpa minha... eu... eu fui tão idiota. Você nunca fez nada de ruim com nenhum de nós. – ele soltou um suspiro – Estive sempre tão preso ao meu pai... – deu uma risadinha triste – Ele é o cretino filho da puta, mas eu teimava em achar que ele era perfeito pra minha mãe... – Rasalas soltou um suspiro – Eu não tinha o direito de...
—Você tinha todo o direito, Rasalas. – cortou Lupin – Qualquer um no seu lugar teria achado ruim, não se preocupe... – ele soltou um suspiro cansado – Ainda mais na sua situação.
Rasalas soltou um suspiro e Lupin colocou as mãos nos bolsos. Ficaram num silêncio cheio de constrangimento por alguns segundos, ambos encarando os próprios sapatos.
—Então... – murmurou depois daquele silêncio – Você e minha mãe... como estão?
Lupin soltou um longo suspiro, parecendo muito triste.
—Infelizmente não estamos mais juntos... – respondeu ele. Rasalas o olhou curioso, chocado. Mas então sentiu um frio lhe subir a espinha.
—Por conta... do meu avô? – perguntou receoso.
Lupin soltou um suspiro e sorriu de maneira gentil.
—Não se preocupe com isso, ok? – perguntou ele – O que importa é que sua mãe está podendo ver vocês de novo. Ela sentiu muita falta de vocês dois.
Rasalas desviou o olhar sabendo que aquilo era um sim. Ele só não queria que se sentisse mais culpado ainda.
—Eu... eu vou falar com o meu avô... e com a minha mãe... Não é justo que vocês... – começou, mas Lupin negou com a cabeça.
—Não. Você não tem que se envolver nisso, Rasalas. – disse Lupin com aquele jeito dele quase irritantemente gentil – Sua mãe tem os problemas dela. Você não pode querer assumi-los. – ele colocou a mão em seu ombro e os dois voltaram a caminhar pela rua – Você precisa apenas se preocupar com seus estudos... E em não se meter em encrenca... tempos difíceis estão por vir.
—Eu sei... Dumbledore nos avisou. – respondeu sem se importar por estar caminhando com ele. Sem se importar com aquela mão no ombro – Eu fiquei chocado ao notar que muitos dos meus colegas ficaram felizes com o retorno dele.
—Não deveríamos falar isso em voz alta, ou em qualquer lugar. – disse Lupin olhando discretamente para os lados – Mas sim... muita gente se alegrou... Ainda existem muitas pessoas preconceituosas por ai... Que veem em um homem como Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado um meio de impor seus preconceitos para o mundo bruxo... alguns infelizmente não conseguem entender que...
—Somos simplesmente pessoas. – completou Rasalas.
—Isso mesmo. – concordou Lupin.
Rasalas soltou um suspiro.
—É muito chato, isso... ano passado eu tive um rolo com a Hermione. Lembra dela?
—É claro. – riu Lupin parecendo muito contente – É uma excelente garota.
—Sim. Ela é ótima. – riu Rasalas se lembrando da amiga com carinho – Mas era insuportável conviver com nossos amigos. Os dela e os meus... com exceção de Harry. – corrigiu-se – Ele não ligava muito... mas meus amigos da Sonserina... eles... argh! – fechou a cara se lembrando de todas as vezes que quis socar Draco no rosto quando ele xingava Hermione – E pra que esse ódio todo? Hermione é a bruxa mais talentosa do nosso ano... E Crabbe e Goyle são tão idiotas que só conseguem passar de ano porque Draco passa as respostas pra eles.
Lupin deu um sorriso e concordou em silêncio.
—Está quente, não? – perguntou ele olhando pra cima.
—Bastante.
—Quer um sorvete?
Rasalas cogitou por um momento e deu de ombros.
—Ok.
No caminho para a sorveteria, viram a firebolt na vitrine de uma loja. Rasalas comentou que tinha ganhado uma do avô naquele ano e Lupin disse que o time da Sonserina provavelmente acabaria muito bem no campeonato. Tomaram o sorvete, conversando sobre coisas bobas, como as esquisitices do falso professor Moody, seus amigos da escola, como precisou ter que se separar da irmã e de como ela estava diferente. Contou do garoto da Durmstrang, contou sobre como estava num momento ruim com Daphne, contou sobre as garotas bonitas do colégio e descobriu que algumas garotas o achavam muito bonito, mas Lupin se recusou a contar quem eram.
—Eu prometi que não contaria. Não posso! – riu Lupin. Rasalas soltou um muxoxo, mas logo estavam rindo, conversando sobre quadribol, Hogsmeade, as passagens secretas do castelo.
—Posso te perguntar uma coisa? Que sempre quis perguntar? – perguntou Rasalas se equilibrando no meio fio.
—Claro.
—Mas é bem pessoal.
—Quer saber como virei um lobisomem? – perguntou Lupin. Rasalas o olhou curioso e concordou. Lupin soltou um suspiro cansado – Tudo bem... Foi há muito tempo... eu só tinha oito anos.
—Nossa...
—É... – ele coçou os olhos, parecendo nada menos que exausto – Meu pai ofendeu um homem chamado Fenrir Greyback. E ele me mordeu, por vingança.
Rasalas o olhou chocado.
—Pera... o que? – não podia acreditar nisso – O que raios seu pai fez?
Lupin chutou uma pedrinha para longe, cabisbaixo.
—Bem... meu pai era um dos homens que estavam julgando alguns crimes... Fenrir era uns dos réus, mas ele se passou por um simples trouxa confuso. Ele enganou todos os juízes, menos meu pai, que tinha vasto conhecimento sobre criaturas das trevas... ele reconheceu os sinais da licantropia em Fenrir e o acusou de ser um lobisomem... disse que pessoas como ele... – Lupin soltou um longo suspiro – Não eram dignas de confiança e que deveriam ser exterminadas... mas ninguém mais concordou com ele...
—Então esse Grayback te mordeu... – Rasalas mirou o homem, que concordou em silêncio, tristemente – Eu sinto muito, cara... que horrível... – pulou para a calçada, com as mãos nos bolsos – E o que aconteceu com esse cara?
—Nada... ainda está por ai... dizem que ele gosta de atacar crianças... transformar outras pessoas na juventude...
—O QUE? Isso é horrível!
—Por conta de pessoas como ele que somos temidos. – murmurou Lupin. Rasalas o olhou chocado.
—Bem... espero que ele vá preso logo. – disse ainda chocado – Uma pessoa dessas não deveria ficar solta por ai.
—Realmente não. – concordou Lupin. Ele olhou o relógio e sorriu – Já estamos caminhando há quase duas horas... é melhor voltarmos antes que pensem que eu te sequestrei ou qualquer coisa assim...
—Mais fácil acharem que eu acabei com você e escondi o corpo por ai. – riu Rasalas com bom humor – Isso foi bem divertido, Lupin. Obrigado pela conversa.
—Eu quem agradeço pela oportunidade, Rasalas. – respondeu Lupin realmente parecendo genuinamente feliz.
—Bem... saiba que... caso queira tentar voltar com a minha mãe, você tem a minha bênção. – disse sorrindo. Lupin o olhou com divertimento.
—Eu fico feliz em ouvir isso... lembre-se de repetir pra ela, quem sabe não aumenta as minhas chances?
Ficaram de papo, no caminho de volta para a loja. Quando entraram, rindo e descontraídos, receberam olhares confusos de todos.
—Alhena. Acho que está na hora de voltarmos pra casa do nosso avô. – disse como se nada de incomum tivesse acontecido.
Sua irmã olhava boquiaberta, de um para o outro.
—O que aconteceu com você? – perguntou ela.
—Sei lá. – respondeu sorrindo. – Mãe! Eu quero um beijo! – disse pulando até ela, para levantá-la pela cintura. Sua mãe gritou de surpresa, mas logo estava rindo.
—O que Remus fez com você, afinal? – perguntou sua mãe, olhando dele para o homem.
—O mérito é todo meu. Ele não fez nada. – disse fazendo pose – Mas ele é legal. Você pode namorar com ele se quiser. Eu deixo.
—Oh... agora eu tenho permissão de vossa alteza? – perguntou sua mãe com um sorriso sarcástico e divertido.
—Sim. Agora tem. – respondeu ele de maneira presunçosa. Sua mãe o pegou no rosto e o beijou com força nas duas bochechas.
Ele e a irmã se despediram de todos. Apenas evitou de olhar para Daphne, porque ainda não se sentia confortável com ela. Alhena deu um longo e apertado abraço em Lupin e por fim usaram a lareira de Madame Greengrass para voltar para casa.
—Rasalas. – chamou sua irmã. Ele a olhou curioso – Obrigada pelo dia.
—Eu quem agradeço, maninha. – riu lhe apertando as bochechas.
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