Notas iniciais
Gentem... esse capítulo é In The Feelings UHSuahsaushausahs Tá fofo, tá triste, tá ♥ ♥ ♥ Eu espero que gostem! Agradeço muito a todos os comentários! Vocês são umas lindas! Muito obrigada mesmo. Fiquei super feliz!!! Então continuem comentando, ok?? =P Um beijo! E #PartiuLer

"E Alhena o viu também. Primeiro em choque, como se não esperasse vê-lo ali. Mas em seguida deu um sorriso doce e feliz"

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24 de Dezembro de 1977

Residência da Família Lestrange

A comida parecia ter perdido parte do gosto. “Eu não estou a altura do grande Rabastan, não é?” A voz de Emily não saia de sua cabeça. A tinha feito chorar. Era véspera de natal... ela não tinha parentes... ele era tudo o que ela tinha...

E ele a tinha feito chorar.

Lembrou-se das várias noites que passaram juntos. Nunca tinha se sentido tão querido. Tão mimado. Ela sabia fazer os melhores afagos. Até mesmo na hora de espremer alguma espinha de seu rosto. Ela fazia de maneira tão delicada que sua pele nem ficava marcada. Ela costumava massageá-lo nos ombros, depois dos jogos de quadribol, quando rebatia balaços até os braços doerem. Ela sempre cuidara tão bem dele... sempre com sorrisos travessos, beijos doces e afagos carinhosos.

Mas ele a tinha feito chorar, na maldita véspera de natal.

Ela tentara se arrumar de maneira apropriada... se não fossem pelas tatuagens, qualquer um a veria como uma dama. Ela pintou os cabelos para o loiro, apenas por ele. Ela desenterrou um vestido da mãe morta, por ele. Se arrumara e provavelmente ficara completamente ansiosa na esperança de agradá-lo...

Mas ele tinha gritado com ela e dito que ela tinha feito errado... que a culpa era dela por seus pais serem tão... tão...

Rabastan engoliu em seco e olhou para seus parentes. O jantar seguia num silêncio digno de um velório. Bellatrix com cara de desgosto. Seu pai com cara de desgosto. Sua mãe com cara de desgosto. Só Rodolfo que parecia simplesmente indiferente...

Seu irmão levantou o olhar para ele, mas não conseguiu olhá-lo nos olhos. Estava completamente envergonhado. Completamente envergonhado. Queria se levantar e ir até a casa dela, implorar para que ela o perdoasse. Ela perdoaria, certo? Se ele pedisse?

Se levantou, sem pedir licença e caminhou até a porta da sala de jantar, decidido a fazer as pazes com ela. Iria implorar de joelhos, se fosse o caso.

—Rabastan. – chamou seu pai, com aquele típico tom severo – Onde você vai?

Não respondeu. Respirou fundo, querendo ter coragem para enfrentá-lo.

—Não está pensando em ir atrás daquela mulher, está? – perguntou Bellatrix.

Apertou a maçaneta com tanta força que seus dedos ficaram brancos.

—Você não vai fazer isso, Rabastan. – disse seu pai, de maneira autoritária – Você vai se sentar. Vai comer com sua família e então vai ir para seu quarto, pois nós vamos ter uma séria conversa...

—Eu não sou um garotinho! – rosnou furioso.

—Mas é o meu filho e me deve obediência! – rosnou seu pai, de sua cadeira.

Rabastan respirou fundo, querendo mais do que nunca ter coragem.

—Rabastan. Sente-se. – pediu seu irmão.

Fechou os olhos e encostou a cabeça na porta, sentindo-se infeliz. Ele era um filho obediente. Nada mais do que isso.

Se virou deprimido e caminhou até seu lugar. Mas não conseguiu comer. Só conseguia se lembrar do rosto de Emily... cheio de lágrimas. Ela não iria perdoá-lo... não por ser covarde... ela era uma Grifinória, afinal... ela nunca iria entender... a alcunha do filho mais novo... obedecer e servir.

Ficou esperando que o jantar terminasse. Quando todos pareceram satisfeitos, seu pai se levantou.

—Vamos, Rabastan. Nós vamos conversar agora. – disse ele severamente.

Não teve medo.

Se levantou e o seguiu para seu quarto. Sentou-se em sua cama, pronto para levar uma bronca. Seu pai entrou e fechou a porta.

—O que raios passou pela sua cabeça? De aparecer com uma mulher daquelas, na minha casa? Está louco?

—Ela é puro sangue! – defendeu-se – Você nem deu chance dela...

—Ela é uma qualquer. Uma pobre coitada. Só está interessada no seu sobrenome... no nosso dinheiro. Não seja estúpido.

—Não é verdade! – disse zangado, mas seu pai o olhou com tanta fúria, que não teve coragem de encará-lo.

—É verdade sim! Nunca mais me apareça com essa mulher! Você me ouviu?

Rabastan fechou os olhos, se lembrando do sorriso dela.

“Você tem vergonha de mim?” Perguntou ela em suas memórias.

—Eu a amo, pai. – murmurou infeliz.

—Pois trate de esquecê-la! Eu nunca vou tolerar aquela mulherzinha! Ouviu? Eu já arrumei um bom partido pra você, esqueceu? Katherine Greengrass.

—Mas...

—E nós terminamos esse assunto. – cortou seu pai se virando.

—Pai, eu...

—Nós terminamos esse assunto, Rabastan.

—Eu quero me casar com ela! – disse de uma vez. Seu pai estacou no mesmo lugar, parecendo tenso – Eu a amo.

Seu pai se virou tão zangado, que teve certeza que apanharia. Não se enganou e o tapa veio certeiro em seu rosto.

—Nunca mais diga uma asneira dessas! Fique ai e pense melhor na sua vida.

Sentiu o rosto arder e fechou os olhos, angustiado. Seu pai saiu do quarto deixando-o sozinho. Soltou um suspiro e colocou a mão dentro do bolso. Tirou de lá o anel que tinha comprado. Não era assim tão caro. Era até bastante simples, se comparado com as joias de sua família. Mas era especial, pois tinha comprado com suas economias. Feito de ouro com uma bonita esmeralda.

Como os olhos dela. Pensou infeliz.

Sentiu um aperto no peito e um nó na garganta. Ficou olhando aquele anel, sentindo-se um completo imbecil. Levantou a manga das vestes, mirando o próprio antibraço. Ela nunca aceitaria ficar com ele... não se ele se tornasse um comensal. Ela odiava comensais...

Ficou de pé e caminhou até sua escrivaninha. Guardou o anel ali e soltou um suspiro. Olhou ao redor, achando seu quarto pequeno demais. Queria gritar de frustração.

Chutou com força a escrivaninha, sabendo que aquilo não iria aliviar em nada.

—Eu sou muito estúpido. – rosnou pra si mesmo. Olhou ao redor, sentindo como se as paredes estivessem encolhendo. Queria estar na casa dela, deitado no chão ao lado dela, com os dedos entrelaçados... Rindo de alguma piada boba... a beijando... rindo.

Não se lembrava de rir tanto quando não estava com ela. Ela lhe fazia sorrir com tanta facilidade... logo ele, que sempre fora tão sério... ou ao menos tentava ser... mas com ela, era simplesmente impossível. Ela lhe arrancava um sorriso apenas com um olhar travesso.

Olhou seu armário, sentindo-se perdido, confuso. Queria aparatar para a casa dela. Queria pedir desculpas. Queria beijá-la durante toda a noite... passar o natal na casa dela, deitados no tapete, em frente a lareira...

Sua casa era tão fria e silenciosa. Respirou fundo várias vezes, desesperado, assustado com a realidade. Ela não iria perdoá-lo, mas não podia desobedecer seus pais... não podia decepcioná-los... ele era um Lestrange... e seu pai deixara claro. Ele não a aceitaria. Nunca. De modo algum.

Seus olhos encheram-se de água.

—Céus, eu sou tão estúpido. Tão imbecil! – rosnou zangado consigo mesmo. Por que raios queria chorar? Era só uma mulher. Não era nada demais. Existiam outras, mais bonitas, mais bem nascidas... – Eu sou um completo... – o nó em sua garganta apertou ainda mais e ele não evitou de soluçar. Segurou sua varinha, a olhando angustiado. Era só aparatar. Aparatar e pedir desculpas. Era só mentir e dizer que enfrentara os pais... dizer que não ligava para a opinião deles... – Eu nunca disse pra ela... eu nunca disse... como ela me faz...

Jogou a varinha no chão e ela soltou faíscas ao cair. Abriu a porta do armário e se sentou lá dentro. Depois fechou a porta com estrépito, se escondendo na escuridão. Costumava se esconder ali quando era criança. Seu pai sempre brigava com ele quando o pegava chorando, então se escondia ali, para que ninguém visse suas lágrimas.

Faria o mesmo agora. Secou o rosto, envergonhado com milhares de coisas. Bateu a cabeça com força na madeira do armário, fazendo barulho.

—Eu sou um idiota! Eu sou um babaca. Um covarde. – rosnou furioso – Como vou virar um comensal de morte se não tenho coragem de enfrentar meu pai? De dizer que ele não decide com quem eu devo ou não me casar? Eu sou um imbecil mesmo. – bateu a cabeça novamente – Ela nunca vai me perdoar... meus pais a trataram feito lixo e tudo o que eu fiz foi encarar meus sapatos. – jogou a cabeça para trás novamente, fungando de maneira barulhenta. A madeira mais uma vez o acertou na parte de trás da cabeça de maneira dolorosa, mas não ligou – Eu deveria ter me imposto. Eu deveria ter defendido ela... que raios de homem eu sou? – perguntou furioso consigo mesmo – E no lugar de ir me desculpar... – bateu a cabeça novamente – Eu estou preso aqui... porque não tenho coragem... – arfou, com a voz faltando. Chorou barulhentamente, sem se envergonhar por isso – Eu sou tão imbecil. Tão imbecil! Merda! Merda! Merda! – chutou com força a outra extremidade do armário. Depois secou as bochechas, que provavelmente estavam vermelhas – Eu a deixei sozinha na véspera de natal... me desculpe, Emms... me desculpe. Eu sou um completo banana. Como eu vou encarar você depois disso? – perguntou angustiado – Depois de te fazer chorar... depois de... de tudo...

Lembrou-se do sorriso dela. Será que a veria sorrir assim novamente? Não pra mim... nunca mais pra mim...

Bateu a cabeça no armário novamente, afundado em desgosto. Escutou a porta do quarto bater, mas não ligou. Bateu a cabeça de novo, de novo e de novo.

Chorou em silêncio por um bom tempo e então, quando o rosto secou, abriu a porta do armário. Tinha um pedaço de bolo no chão. Pegou o prato e o jogou pela janela, gritando de raiva. Depois se deitou em sua cama, achando-a grande demais para ele.

Queria sua Emily ali... era só o que queria. Fechou os olhos querendo dormir, mas não conseguiu. Soltou um muxoxo e olhou para baixo, para o chão, procurando sua varinha. Foi quando notou que ela não estava lá.

Procurou em baixo da cama, em baixo dos outros móveis. Mas não a achou. Saiu de seu quarto e correu até a sala de estar, onde seu pai estava. Ele segurava sua varinha, a inspecionando.

—Por que pegou minha varinha? – perguntou friamente.

—Para que você não tente fazer algo estúpido... como me desobedecer. – rosnou seu pai – Você estava chorando.

Sentiu seu estômago dar um salto.

—Devolva a minha varinha.

—Não. Só quando for voltar para a escola. – respondeu ele autoritariamente.

—Eu não sou um garoto. Eu já sou maior de idade! – disse furioso. Seu pai o olhou parecendo meramente entediado.

—É o meu filho. Vai fazer do jeito que eu quero e ponto final. – disse ele calmamente. Apertou o punho com tanta força que não se espantaria se começasse a sangrar – Agora vá para seu quarto. Não lembro de ter lhe dado permissão para sair.

Rabastan fitou o pai com rancor. Se virou e voltou para o quarto. Se jogou na própria cama e fechou os olhos, angustiado, pensando em Emily.

Ela nunca vai entender... ela nunca vai me perdoar...

Assim como ele nunca mais perdoaria o pai. Nunca. Fechou os olhos e tentou dormir, sem conseguir parar de se lembrar de Emily secando as lágrimas com as costas das mãos. A fizera chorar na véspera de natal...

—Eu sou um fiasco...

*

1977

Residência dos Valentine

Rasgou o vestido, furiosa. O arrancou do corpo de uma vez, sentindo-se simplesmente zangada. Tinha sido humilhada, magoada. E ele não fizera nada. Apenas ficou em silêncio, ouvindo o pai falar dela, como se ela fosse um monte de lixo.

Acendeu a lareira e jogou o vestido nas chamas jurando a si mesma que nunca. Nunca. NUNCA MAIS, beijaria Rabastan Lestrange. Nunca mais falaria com ele. Nunca mais deixaria que ele a tocasse.

Se ajoelhou em frente a lareira, sentindo falta da mãe. Tinha dito para Dorcas que não passaria o natal com ela. E agora ficaria sozinha. Sozinha. Gritou de raiva, chorando desolada, olhando ao redor. A casa vazia. Os móveis vendidos para comprar os materiais escolares. Tão silencioso. Tão sinistro.

Se abraçou sentindo-se desesperada. Sozinha.

—Como pôde, Rabastan? Como pôde... no natal? No natal? Que belo presente! – chorou angustiada, se deitando semi nua em frente a lareira – Eu não sou uma qualquer! Não sou.

Ficou deitada no chão, olhando as chamas, chorando sozinha de maneira escandalosa. Magoada. Sentia falta de sua mãe para lhe dar conselhos, lhe afagar os cabelos... do pai, sempre dizendo que ela era sua princesa... de seu irmãozinho, sempre rindo, olhando para ela com orgulho, desejando poder entrar em Hogwarts o quanto antes...

Mas sentia falta de Rabastan. Sentia absoluta falta dele. Principalmente a noite.

Desde a morte dos pais, quando encontrou todos mortos em casa. A mãe nua, com a pele arrancada de maneira horrível. O pai completamente despedaçado... e Kevin... oh... Kevin... ele era apenas um menininho... mas o explodiram a cabeça dele. Desde aquela noite, nunca mais conseguiu dormir sem poções para não sonhar. Caso contrário entrava naquela casa e os via mortos. Mortos em todos os cantos. Mortos, desejando que ela se unisse logo a eles.

Mas Rabastan mantinha os pesadelos afastados. Com ele, conseguia dormir tranquilamente, pois sabia que nada de ruim aconteceria enquanto ele estivesse ali. Se tornou mais dependente dele do que de suas poções.

Mas agora...

Se abraçou infeliz. Só queria fugir daquela realidade. Só queria ir para um lugar, onde não tivesse dor. Onde não tivesse mortos a lhe olhar... onde não tivesse os olhos cinzentos do Sr. Lestrange a encará-la com puro desgosto.

—Eu sou puro sangue... eles me trataram como se eu fosse uma nascida trouxa...

E que diferença isso fazia? Evans era nascida trouxa, mas era melhor que ela em praticamente tudo. Só era melhor em feitiços, e mesmo assim, por muito pouco. De que lhe valera ter sangue puro? Era um fiasco em transfiguração... não conseguiu continuar no curso com seu patético “Aceitável” nos N.O.M.s. DCAT também não era seu forte. Seu desempenho em poções era bem mais ou menos...

—Sangue não significa nada. – resmungou para si mesma.

Olhou para a lareira e suspirou triste. Só não queria passar o natal sozinha... não o natal...

Se levantou e foi até seu quarto. Olhou-se no espelho e notou os cabelos castanhos e sem cor. Tentou voltá-los ao colorido, mas não conseguiu. Ótimo! Agora isso. Vestiu uma roupa mais quente, ainda zangada com tudo. Depois voltou para a lareira e pegou um pouco de flu.

Meteu a cabeça nas chamas e chamou pela única pessoa que poderia confortá-la.

—Sirius? Está ai? Sirius?

Ouviu um barulho e logo a cabeça do amigo apareceu.

—Emms? O que foi?

—Posso ir prai? – perguntou – Eu não quero ficar sozinha...

—Sozinha? – perguntou Sirius confuso – Você não está com o nojento do Lestrange?

Ela apertou os lábios, querendo chorar mais um pouco.

—Não... acabou, Sirius... acabou...

**

1995

Sede da Ordem da Fênix

Estava olhando os vários rostos nos tapete da família Black. Mirou o buraco onde o rosto de Sirius costumava ficar e soltou um suspiro. Havia muitos buracos como aquele em seu coração. Um para seu pai, outro para a mãe e outro para o irmão. Depois um para Rabastan e provavelmente outro para Remus...

Se Rodolfo Lestrange pensasse que ela ainda estava com Remus... poderia perder as poucas chances que tinha de ver os filhos. Logo Alhena voltaria para Beauxbatons e Rasalas para Hogwarts e aquele velho nojento teria muito mais tempo para investigar sua vida.

Ainda sentia falta de Remus. Ele fora, durante muito tempo, seu grande amor... sentia falta dos sorrisos fáceis, da voz gentil, dos toques suaves, dos chocolates quentes, dos beijos carinhosos... Remus era amável em tudo o que fazia.

Tinha a impressão de que nunca tinham transado. Sempre fora amor. Era sempre calmo, romântico, carinhoso e cheio de juras. Tão diferente de...

Sacudiu a cabeça se proibindo de pensar naquilo. Não pensaria.

Mas a imagem de Rabastan, ferido, em sua porta, simplesmente apareceu.

Se tivesse feito algo diferente... será que ele teria ficado? Fechou os olhos, sem querer pensar naquilo. O que estava feito, estava feito. Simples assim. Era inútil pensar em “e se...”

—O que está fazendo ai sozinha? – perguntou Sirius. Não se virou para encará-lo, mas o escutou se aproximar.

—Nada. – murmurou – Moody já chegou com o garoto?

—Ainda não. – riu Sirius mirando a árvore. – Meu melhor ângulo. – brincou ele apontando para o buraco na parede, onde seu rosto um dia esteve.

—Com certeza. – disse com uma sombra de sorriso. Soltou um suspiro e caminhou até o sofá, sentindo-se exausta.

—Aluado me disse que seu filho finalmente deu a bênção dele para vocês dois. – murmurou Sirius, dando um gole em sua cerveja amanteigada – Ele pode ter esperanças?

Virou o rosto, sem querer encarar Sirius.

—Não... não posso ficar com ele. – murmurou tristemente – Eu amo o Remus, mas... eu amo mais meus filhos... – se abraçou angustiada – Céus, Sirius... eu sinto tanto a falta deles...

—Eu imagino... – murmurou Sirius – Eu nunca perdi um filho... mas posso dizer que praticamente perdi um irmão. – ele soltou um longo suspiro, provavelmente se referindo a James. Mas ela pensava que ele realmente tinha perdido um irmão... Régulus tinha sido assassinado até onde ela sabia – Imagino que deve ser algo próximo... não é?

—Eu perdi tudo. – murmurou infeliz – Minha família inteira... e agora aquele maldito Lestrange fica me proibindo de ver meus próprios filhos...

—Não se preocupe. Em breve você vai conseguir ter a guarda deles de...

—Eu não vou tentar tê-los de volta. – cortou Emily. Sirius a olhou surpreso.

—Como assim? Por que não?

—Eles estão mais seguros com o Sr. Lestrange. – disse tranquilamente – Eu finalmente tomei coragem pra lutar. Finalmente deixei de me esconder, culpando os outros pela minha própria miséria... – soltou outro suspiro – Pode ser que... que depois que o Lorde das Trevas seja destruído... eu tente recuperar os dois... mas provavelmente, até lá... eles já vão ser adultos. Não vai adiantar de muita coisa...

—Acha que vamos demorar tanto assim para conseguir derrotar aquele cretino? – perguntou Sirius cruzando os braços, se apoiando com o ombro na parede.

—Eu acho que sim... quantos anos durou a última guerra? Mais do que eu ouso dizer... meus filhos já estão com quinze anos.

—Quinze anos... – repetiu Sirius – Já faz quinze anos que não somos jovens e idiotas? – pergunto Sirius com um sorrisinho divertido, coçando a barba – Eu me lembro que éramos os mais idiotas.

—É... éramos mesmo. – ela o olhou com carinho – O que te destruiu naquela época? Sua família? Esse buraco? – perguntou apontando para o tapete. Sirius soltou um suspiro.

—Acho que... acho que sim. – respondeu ele – Eu sempre fui um idiota... quando James cresceu e tocou a vida dele... eu me senti muito sozinho... Quando você disse que estava grávida...

—Eu me lembro. Você me ofereceu seu sobrenome. – riu ela o olhando com divertimento.

—A gente vivia fazendo merda juntos... ninguém duvidaria de nós. – riu ele colocando a mão em seu ombro – Eu me pergunto o que poderia ter sido diferente... se você tivesse aceitado.

—Acha que não teria ido para Azkaban? – murmurou se perguntando se teria outro fantasma da culpa a assombrando até o fim de seus dias.

—Acho que isso não teria mudado. – disse ele simplesmente – Mas ao menos... ao menos você não teria passado tantas dificuldades, não é?

—Não acho que seus pais teriam me aceitado. Eles não eram diferente dos pais de Rabastan. – disse voltando os olhos para a foto de Walburga e a de Órion, no tapete.

—Mas eles morreram. Você seria a dona dessa casa de qualquer maneira. – disse Sirius – Você teria levado uma vida mais fácil e o senhor Lestrange nunca teria tomado os seus filhos.

Emily soltou um suspiro e concordou.

—Mas Rabastan saberia... – murmurou ela tocando a cicatriz no ombro, que Rodolfo deixara, anos atrás – Quando ele visse Rasalas e Alhena...

—Por que ele os veria? Você iria levá-los para me visitar? – perguntou Sirius – Eu não acho que faria isso...

Emily sorriu para ele.

—Por que não? Eu visitei Rabastan tantas vezes... claro que eu visitaria você.

—Eu não me lembro de te ver lá. – riu Sirius – Minha cela era no final do corredor, bem próxima à da minha querida prima.

—Eu nunca fui como eu mesma. Algumas vezes ia como a mãe de Frank... Para ver se você ainda está apodrecendo aqui.— disse imitando a voz da distinta senhora. Sirius a olhou surpreso – Outras, eu ia como alguma viúva... outras eu ia como a Sra. Crouch, fingindo que estava indo para ver Bartô... mas com o passar do tempo... eu notei que era besteira... Rabastan nunca ia sair de lá... – ela soltou um suspiro tristonho – Eu deveria ter ido muito antes... mas eu tive tanto medo... tanto medo... medo de Rodolfo... medo de que ele... – ela engoliu em seco e sentiu Sirius a abraçar por trás.

—Não pense nisso, ok? – perguntou ele – Não pense naquele canalha.

—Uma vez, quando Rasalas foi visitar Rabastan... Rodolfo pediu para que ele me mandasse um “oi”... – ela engoliu em seco, se lembrando daqueles frios olhos cinzentos, exigindo que ela olhasse para ele. Sua boca se contorceu, a medida que o choro lutava para vir – Eu achei que... que...

—Não pense nisso, Emms. – murmurou Sirius, ainda a abraçando.

—Estou atrapalhando alguma coisa? – perguntou uma voz gelada vinda do corredor. Emily sentiu Sirius soltá-la e os dois se viraram. Remus estava olhando para eles com um olhar levemente magoado.

—Aluado... – riu Sirius, sem jeito – Eu e a Emms...

—Harry chegou. Achei que gostaria de saber. – disse Remus se virando. Era tão estranho ouvi-lo falar daquele jeito.

—Harry? – perguntou Sirius abrindo um enorme sorriso – Você já o viu, Emms? Ele é a cara do James!

Sorriu timidamente e negou com o rosto.

—Eu nunca o vi. – disse simplesmente – Darei uma olhada depois... vou ficar por aqui mesmo... acho... acho que já vou pra casa, na verdade. Estou tão cansada.

—Dumbledore disse que queria falar com você. – disse Remus, com a voz ainda fria – Mas ele ainda não chegou.

Emily soltou um suspiro e concordou.

—Vou esperá-lo, então. – disse simplesmente.

—Aluado. – disse Sirius, indo para o corredor.

—O que? – perguntou Remus.

—Eu e Emms não estávamos fazendo nada de demais... ela só está triste, porque está separada dos filhos. Eu só estava dando uma força. Larga de ser ciumento. – ralhou ele. Remus corou com violência e Sirius sorriu para os dois – Aproveitem que Rodolfo Lestrange nunca vai entrar aqui e se enfiem num quarto para matar a saudade um do outro, cacete.

Foi a vez dela corar. Sirius saiu da sala, deixando-a sozinha com Remus. Ele parecia completamente constrangido. A olhou com cara de culpa e ela desviou o olhar.

—Eu... me desculpe. Eu fui um idiota. – murmurou ele.

—Eu sei. Mas não tem problema. Eu sempre sou idiota. – respondeu calmamente, se virando para o tapete. Nunca cansava de olhá-lo. Os bordados eram muito bonitos. Por mais que significasse uma filosofia horrível, medieval, tinha que admitir que era uma obra de arte – É tão lindo... o tapete. – murmurou passando os dedos pelos fios dourados, olhando com atenção os bordados, as sequências, os desenhos delicados e bem feitos, os padrões...

—É mesmo. Mas Sirius sempre odiou isso. – riu Remus se aproximando, com as mãos nos bolsos – Pelo que representa...

—É... eu entendo. – murmurou olhando a foto de Bellatrix – Não deve ser fácil... estar no diretório... e ser Sirius, ao mesmo tempo.

—É. – concordou Remus – Eu sinto sua falta, Emms.

—Remus. Eu não posso... – murmurou virando o rosto, para não encará-lo.

—Não pode ser minha amiga? Em segredo? – perguntou ele.

Soltou um suspiro.

—Tem razão... me desculpe... é só que... Rodolfo conseguiu me desestabilizar completamente...

Remus soltou um suspiro e passou o braço por seus ombros.

—Não se preocupe. Você não está sozinha. – murmurou ele. O olhou com carinho e o abraçou de verdade.

—Obrigada.

Ouviram passos no corredor e se soltaram calmamente. Olharam curiosos e viram Tonks entrar.

—E ai! – riu ela animada.

Tonks era uma garota muito amável. Lembrava um pouco de si mesma ao olhar pra ela. Ambas tinham o mesmo dom, o mesmo jeito descolado... a diferença maior era que Tonks era extremamente desastrada e ela não.

—Olá, Tonks. – riu Emms.

—Olá. – cumprimentou Remus. Tonks sorriu para ele, amavelmente.

—Molly está terminando o jantar. Por que não vamos lá fazer uma boquinha? – chamou ela animadamente.

Emms e Remus olharam um para o outro e deram de ombros. Seguiram juntos para a cozinha e nem viram Tonks suspirar apaixonadamente atrás deles.

***

Rabastan estranhou o fato de estar na sala de visitas. Não era natal e nem seu aniversário... quem seria?

O carcereiro averiguou seus pulsos e conferiu se estavam bem presos à cadeira. Então lhe deu um soco no queixo. Já estava acostumado com essa violência gratuita, então não reagiu.

—É bom você se comportar, Lestrange. Tem uma visita ilustre.

—Cale a boca, Barkins. – riu Rabastan – Quando eu sair daqui, eu vou me lembrar de cada soco que você me deu, ouviu? – perguntou com um sorriso sádico.

—Você vai apodrecer aqui, Lestrange. – disse Barkins, cuspindo em seu rosto – Agora comporte-se.

Ficou angustiado sentindo o escarro escorrer por seu rosto. Assim que o carcereiro saiu, tentou limpar o rosto no ombro, mas com os braços presos aquilo se mostrou bem difícil. A porta da sala se abriu e ele escutou passos leves. Ficou esperando, se perguntando quem seria.

Mas quando viu aquele homem velho, alto, de faiscantes olhos azuis se sentar, não conseguiu não ficar boquiaberto.

—Dumbledore? – perguntou chocado.

—Olá, Rabastan. Já faz algum tempo, não é? – murmurou Dumbledore, calmamente.

—Muito tempo... quatorze anos. – rosnou tentando se libertar – Quando você e seus amigos me jogaram aqui.

—Bem... você fez por merecer. Nós dois precisamos concordar com isso. – murmurou Dumbledore, calmamente.

—O que você veio fazer? Veio me matar? – perguntou Rabastan, sem sentir medo.

—Ah, não... não vim pra isso. Só vim conversar. – respondeu ele calmamente. O velho soltou um longo suspiro – Acredito que já tenha conhecido seus filhos. Rasalas e Alhena. – Rabastan o fuzilou com os olhos e nada disse – São dois garotos adoráveis... e Rasalas tem os seus olhos... e seu comportamento explosivo também, devo dizer. – seguiu calado. Será que aquele homem pretendia ameaçá-lo? – O que achou dos dois?

—Por que quer saber? – rosnou zangado. Não permitiria que Dumbledore ameaçasse seus filhos para chantageá-lo.

—Estou meramente curioso. – respondeu Dumbledore – É realmente incrível o poder que crianças têm sobre nós... São bons meninos, os seus filhos. Muito dedicados. Você deveria ficar orgulhoso deles.

—Eu me orgulho. – respondeu por fim, ainda olhando para aquele homem com desconfiança – E se você acha que ameaçando qualquer um deles, você vai...

—Ameaçar? Quem veio aqui ameaçar? – perguntou Dumbledore calmamente – Ah, não... eu nunca cogitaria algo desse tipo. Eu só vim saber se você se importa com os dois.

—É claro que eu me importo! São meus filhos. – disse achando que aquele homem finalmente deveria estar ficando caduco.

—Fico feliz em ouvir isso. – murmurou Dumbledore – Mas você sabe... eles foram criados por Emily... que adquiriu um certo desgosto pela causa puro sangue... pouco antes de terminar a escola... alguns me disseram que graças ao seu pai. – Rabastan cerrou o punho com força, franzindo a testa, com o maxilar tão tenso que doía – E por conta disso... seus filhos acabaram herdando esse bom senso dela... Eles não compartilham da sua filosofia de vida...

—Eu sei muito bem disso. Onde quer chegar? – perguntou furioso. Dumbledore o olhou por cima dos oclinhos meia lua.

—Quando Voldemort vier libertar vocês... – Rabastan o olhou surpreso – Oh, é claro que ele virá por seus fiéis súditos. Ele certamente quer ter de volta seus homens que jamais lhe deram as costas, certo? – Rabastan apenas concordou com um aceno de cabeça – Eu imagino que você vá querer lutar ao lado dele... você sempre lutou. Mas me diga... O que vai fazer quanto a sua família? O que vai fazer quanto a Emily Valentine?

—Não dou a mínima para Valentine. Se passei metade da minha vida trancado aqui, foi por culpa dela. – rosnou furiosamente. Aquilo era apenas meia verdade, mas não se importou.

—Então... então você finalmente deixou seu sentimento por ela morrer? – perguntou Dumbledore sem parecer muito convencido.

—Sim. – disse, mas era mentira. Dumbledore soltou um suspiro.

—Entendo... E o que vai fazer? Se vingar dela? Da mãe de seus filhos?

Rabastan ficou em silêncio por um tempo.

—Não é da sua conta o que eu irei fazer.

—Aceite um conselho, Rabastan... decidindo ou não se resolver com ela...

—Eu não quero um conselho seu. – cortou de uma vez, mas Dumbledore continuou.

—... não conte pro seu irmão.

Rabastan sentiu uma vertigem. “Foi o seu irmão.” escutou Sirius Black falar em sua mente. “Você não conseguiu matá-la, Lestrange.” Disse Frank Longbottom.

—O que quer dizer com isso?

—Você sabe, não sabe? – perguntou Dumbledore – O porquê de Emily nunca ter falado pra você que estava viva? – Dumbledore soltou um suspiro – Eu admito que na época eu não sabia do envolvimento dela com você... achei que Rodolfo apenas queria matar a última Valentine... um ato simbólico... Mas agora que eu vejo que vocês dois tiveram dois filhos... as possibilidades são mais variadas, não acha?

—Do que está falando, Dumbledore?

—Eu estou falando que não estou muito certo de que foi culpa de Emily, ela não ter te procurado. Não foi descaso, não foi traição... foi medo.

—Cale a boca. – rosnou Rodolfo.

—Quando Sirius a trouxe de volta...

—Cale-se!

—Ela estava tão ferida... E não só fisicamente... Rodolfo a destruiu.

—Meu irmão nunca...

—As cicatrizes nunca deixarão a pele e a mente dela.

—PARE, DUMBLEDORE! NÃO VAI ME COLOCAR CONTRA MEU IRMÃO! NÃO VAI! – se virou para a porta – EU QUERO VOLTAR PRA MINHA CELA! ME TIREM DAQUI!

—Você não vai sair. – disse Dumbledore, calmamente – Você vai ficar e escutar. – Rabastan o olhou furiosamente, rangendo os dentes – Sim. Foi Rodolfo, o seu irmão, quem tentou matar Emily Valentine. E eu temo que ele foi extremamente cruel com ela... se Sirius não a tivesse encontrado... ela certamente teria morrido. Mas os motivos para isso... eu só posso supor. Por que ele iria querer que ela morresse? Ela nunca lutou contra a causa... Emily sempre esteve ocupada em se auto destruir, sabe? O trauma da morte dos pais a impedia de querer se manifestar contra a causa puro sangue. Ela nunca falava a respeito. Com ninguém. Ela odiava os comensais de morte. Ela odiava Voldemort, mas se dobrou.

—Ela era da Ordem da Fênix! – rosnou Rabastan.

—Não. Ela nunca foi da Ordem. Você a viu, Rabastan. Você acha que eu colocaria alguém com uma psique tão desestabilizada como a dela na Ordem? O que ela seria capaz de fazer? – Dumbledore soltou um suspiro, olhando sonhadoramente para a parede – Não... Emily nunca trabalhou pra mim, como Voldemort sabia. Como você sabia e como Rabicho sabia. Ela era amiga de Frank, Dorcas, James, Remus e Sirius, é verdade. Mas ela não estava lutando por lado algum. Estava satisfeita em beber até morrer... pelo menos até te reencontrar. – Quis dizer que ele estava mentindo, mas não conseguiu – E então... bem. Não tenho como saber os detalhes do que aconteceu, mas... imagino que tiveram uma recaída. Ela engravidou e seu irmão resolveu tomar uma atitude... não acho que ele sabia da gravidez dela. Teria sido pior, eu acho, se ele soubesse.

—Rodolfo não fez isso!

Dumbledore sorriu calmamente.

—E se ele tiver feito?

—Não fez.

Dumbledore o olhou no fundo dos olhos.

—Você ainda ama a senhorita Valentine? – perguntou Dumbledore.

—Quem disse que eu já amei? – perguntou tentando sorrir cinicamente, mas não tinha certeza de ter conseguido.

—No dia em que prendemos você, você se entregou pacificamente, perguntando por ela. E quando eu disse que ela estava viva... você sorriu. Eu vi nos seus olhos, Rabastan... e eu vejo novamente agora. – Dumbledore soltou um suspiro – Emily não se defende melhor agora do que naquela época... então... mantenha seu irmão longe dela. Eu acho que vocês dois já bagunçaram demais a vida da pobre mulher. – Dumbledore soltou um longo suspiro – Nem Rasalas e nem Alhena perdoarão você se algo acontecer com a mãe deles. – desviou o olhar do velho, sentindo vontade de vomitar de raiva – E se chegar um dia... em que você esteja disposto a fazer a coisa certa... por favor, me procure. Rasalas adoraria que você fosse o herói que ele acha que você é. Filhos sempre esperam isso dos pais – Sentiu um frio lhe subir a espinha. Dumbledore se levantou e caminhou para fora – Hogwarts sempre oferecerá ajuda a aqueles que clamarem por ela. Pense nisso, Rabastan. Nunca é tarde demais para se arrepender e fazer a coisa certa. Sempre podemos nos redimir... sempre podemos voltar atrás. Sempre temos escolha.

—Cale a boca e me deixe em paz. – rosnou com um aperto no peito.

Rodolfo mentiu?

Rodolfo mentiu todo aquele tempo todo?

O que raio ele tinha feito com ela? Emily era tão corajosa. O que ele poderia ter feito para quebrá-la a ponto dela não ter coragem de procurá-lo, para contar?

—Dumbledore. – chamou quando o homem já estava saindo.

—Sim?

—Se foi meu irmão... por que ela nunca me contou?

Dumbledore suspirou e demorou um tempo para responder.

—Infelizmente, Rabastan... eu não tenho todas as respostas... mas eu acredito que houve muito arrependimento da parte dela... ela realmente acha que poderia ter salvo você... mas é como eu disse... Rodolfo a destruiu.

—O que ele fez com ela? – perguntou com um nó na garganta.

—Eu não sei... só sei que a feriu. E muito. Muito mesmo. Acho que a maldição da dor foi apenas uma das coisas que ele fez.

Fechou os olhos cheios de angústia.

Não... meu irmão não pode ter feito isso... não pode... simplesmente não pode...

****

Damian Burke entrou pela lareira. O verão terminou rapidamente. Mais rapidamente do que gostaria. Mas ao menos uma compensação teria.

Seu estômago parecia cheio de diabretes.

Suas mãos suavam frio.

Seu coração estava acelerado.

Lembrava dos olhos verdes de Alhena sem conseguir parar. Lembrava do beijo que dera nela e o sorriso simplesmente aparecia em seu rosto, sem que pudesse evitar. Recebera a carta de Rasalas e seu coração acelerou.

Alhena estava de volta e iria debutar. Aquele ritual que toda garota puro sangue passava. Era convidada para festas, para ser cortejada. E ela seria cortejada por um garoto mais velho. Só podia imaginar o quanto ela ficaria envergonhada ao ter que passar por aquilo. Então ficou feliz por poder estar lá com ela.

Se surpreendeu por estar com tanta saudade daquela garota gorducha que mal conseguia olhar nos olhos dele na hora de conversar. Ela era tão tímida. Tão tímida... nunca gostara de meninas assim. Sempre preferira garotas com atitude... mas algo nos olhos verdes de Alhena simplesmente tinha roubado sua atenção.

Fazia um ano desde que a vira pela última vez. E isso não o deixou menos ansioso. Cumprimentou Rasalas, que estava da sua altura. Depois cumprimentaram Draco, que estava um milésimo de centímetro mais baixo. Os três se sentaram no sofá, um do lado do outro, mirando vez o outra o Sr. Lestrange.

Sempre com sua bengala e aquela cara de irritação.

Ao contrário de Rasalas, que parecia estar segurando a vontade de rir. Ele e Draco olhavam o amigo com desconfiança. O que ele estava tramando? Nem parecia preocupado com o fato de algum desconhecido querer cortejar a irmã. Logo Rasalas, sempre tão ciumento e possessivo. Mas agora ele parecia quase ansioso.

Só havia uma explicação para aquilo – ou ao menos era o que Draco tinha sussurrado para ele pouco depois de concordarem que o comportamento de Rasalas estava esquisito. Alhena deveria estar muito gorda. Tão gorda que o irmão nem se dera mais ao trabalho de se preocupar com ela.

Damian ao menos esperava que fosse outra coisa. Alhena sempre fora complexada com o próprio peso. Se fosse desprezada pelo tal desconhecido por conta de seus quilo a mais, certamente ficaria ainda mais encanada com aquilo.

Prometeu a si mesmo, que por mais gorda que ela estivesse, em nome da amizade deles, diria que ela estava bonita. Até a chamaria para dançar, por mais que ofendesse o cara que deveria cortejá-la. Não dava a mínima. Ela era sua amiga e ele iria fazer com que ela se divertisse!

A Sra. Lestrange finalmente apareceu. Ela sorria animadíssima.

—Alhena já está descendo. – disse ela.

—Finalmente! – ralhou o Sr. Lestrange – Por que demorou tanto?

—Tivemos um pequeno contratempo com o vestido. Estava muito apertado no busto. – explicou a Sra. Lestrange, ainda com um sorriso. Damian e Draco olharam-se imaginando o quão redonda Alhena estaria. Draco parecia quase animado, pois provavelmente iria tirar onda com ela. Mas Damian só ficava mais preocupado.

Ouviram os passos vindo do corredor.

—Vovó, eu realmente preciso usar esse sapato? É muito alto. Eu sou horrível com saltos! – escutaram a voz dela do corredor.

—Eles melhoram a sua postura, querida.

—Me dê pernas de pau, então! – resmungou ela entrando na sala.

Ela usava um vestido azul, comprido, com os cabelos soltos sobre os ombros. Estava séria e tentava se equilibrar no salto, que na verdade nem era assim tão alto. Já vira Pansy e as outras garotas da Sonserina usar saltos maiores e mais finos. O vestido era azul escuro, com detalhes em prata. O dragão serpentiliano da casa Lestrange bordado com diamantes na saia. Ela usava uma manta – não sabia o nome daqueles lenços cheios de bordados – bonita, prateada, ao redor dos ombros.

E ela não estava gorda. Ela estava simplesmente bonita, com um corpo curvilíneo. Ela não estava magra como Daphne, mas certamente “gorda” não era uma palavra que pudesse defini-la. Ela estava linda e simplesmente isso.

Nem reparou que ficou de pé ao vê-la. Boquiaberto. Espantado. Nem conseguiu ver a reação de Draco pois só tinha olhos pra ela.

E Alhena o viu também. Primeiro em choque, como se não esperasse vê-lo ali. Mas em seguida deu um sorriso doce e feliz.

—Olá. – murmurou ela.

—Oi... – disse sem ar. Escutou risadinhas e tossidinhas e seu rosto corou numa violência sem igual. Ondas de calor desprendiam-se dele. Olhou para o lado e notou que Rasalas e Draco não faziam muito esforço para não rir dele. Mas não ligou. Voltou a olhar Alhena e sorriu para ela – Você... hum... está muito bonita.

—Obrigada. – murmurou ela sem jeito.

—Ei, Lena. Vou te convidar para debutar lá casa, depois. – riu Draco piscando para ela. Olhou enciumado para o amigo, mas Alhena nem deu atenção.

—Eu disse que se você começasse a se cuidar, os garotos ficaram mais interessados em você. – riu o Sr. Lestrange. Alhena baixou os olhos com um sorriso tímido.

—Eu... eu posso te... – começou, mas Draco o cortou e avançou até ele.

—Eu SEMPRE fui o acompanhante da Lena, nos bailes. Com licença. – disse ele rindo maroto, oferecendo o braço para ela. O Sr. Lestrange deu uma risadinha e Damian olhou para o colega de cara fechada. Rasalas apenas ria, achando graça.

Pegaram a chave portal que o Sr. Lestrange tinha deixado preparada: uma bonita taça de cristal. Todos tocaram nela e logo sentiram aquela sensação de gancho no umbigo. Sentiu o corpo girar rapidamente e depois de alguns instantes estavam numa grande mansão, mais ou menos como a de Draco, só que menos bonita e mais assustadora.

—Onde estamos? Na casa do Conde Drácula? – perguntou Rasalas, mas só Alhena riu.

—Quem é Conde Drácula? – perguntou Draco, mas os irmãos somente deram de ombros.

Olhou mais uma vez para Alhena e ela sorriu para ele. Sentiu a barriga remexer de nervosismo e riu de volta, mas logo Draco estava andando de braços dados com ela novamente. Xingou o colega baixinho e Rasalas ficou rindo ao seu lado. Iria dar um cascudo nos dois.

Caminharam pela calçada de pedra até chegar na mansão, onde empregados abriram as portas para eles. Tinha certeza de que eram vampiros. Caminhou ao lado de Rasalas olhando para os lados. Era um lugar intimidador, apesar da decoração não ser, nem de perto, tão interessante quanto a da sua casa.

O Sr. Lestrange se adiantou e cumprimentou um homem alto, de rosto quadrado e sorriso cativante.

—Lestrrrange? – perguntou o homem num sotaque carregadíssimo.

—Sor Kelley. – respondeu o avô de Rasalas.

—Onde está Alhena? – perguntou o homem.

—Aqui. Essa é minha neta. – respondeu o Sr. Lestrange. Draco soltou Alhena, que deu passos hesitantes na direção do homem. Tinha certeza de que os tornozelos dela tremiam, tentando se equilibrar no salto.

Alhena cumprimentou o homem em francês e os dois conversaram qualquer coisa. Ele lhe ofereceu o braço e ela aceitou. Seguiram os dois até uma mesa cheia de rapazes mais velhos, que riam, fazendo barulho.

—Cepheus. Venha cumprrimentarr Alhena Lestrrange, que veio como convidada de honrra. – disse o homem com aquele sotaque estranho. Draco deu uma risadinha disfarçada e Rasalas nem tão disfarçada assim. Damian apenas olhou para a mesa, se perguntando qual daqueles garotos era o tal Cepheus.

Um garoto que parecia de bom humor se levantou. Ele não era muito alto, sendo mais baixo que Draco, mas era troncudo, musculoso, com os cabelos brilhantes e negros, penteados num topete que ele julgou ridículo. O garoto veio andando até Alhena e a olhou da cabeça aos pés, dando um sorrisinho satisfeito. Ele pegou a mão da garota e a beijou galantemente.

Alhena, porém, puxou a mão o mais depressa que pode e desviou o olhar com desagrado.

—Lena. Por que não vai dar uma volta com Cepheus, para se conhecerem melhor? – perguntou o avô dela.

A garota soltou um suspiro, como se a última coisa que quisesse fazer fosse isso, mas não desobedeceu. Ela e o tal Kelley se afastaram e o Sr. Lestrange ficou conversando com o pai do garoto.

—Vamos dar o fora e arrumar algo pra fazer. Tipo nos apresentar para as primas do Sor Kelley. – riu Draco, baixinho. Rasalas e Damian concordaram, apesar de Damian estar mais interessado em seguir Alhena, para garantir que o tal do Cepheus não fosse fazer nada de ruim com ela. Ela era apenas uma menina tímida. Se afastaram dos avós de Rasalas e Draco aceitou um copo de suco que um empregado trazia. Damian e Rasalas pegaram, cada um, um copo também – Caramba, Rasalas. O que aconteceu com a sua irmã? Tá gostosa pra caralho.

Rasalas fez uma careta e deu de ombros. Mas então sorriu e virou para Damian.

—O que achou?

Damian corou de leve e deu de ombros.

—Achei o óbvio.

—Se Damian já gostava dela quando ela era feia... imagina agora. Com concorrência. – riu Draco. Damian o olhou com um olhar fuzilador, mas o garoto riu – Não estou falando de mim, seu bestão. Eu não vou correr atrás dela.

—Por que? – perguntou Damian.

—Porque não é amor verdadeiro. – zombou Draco passando o braço ao redor dos ombros de Rasalas – E não pode pegar a irmã do amiguinho se não for amor verdadeiro. – ele e Rasalas começaram a rir, mas Damian apenas bufou.

—Vocês são uns idiotas. – resmungou zangado – Eu não estou apaixonado! Eu sou amigo dela. Só isso!

—Não está apaixonado. – riu Rasalas olhando para Draco – Mas fez a maior cara de pastel quando viu a Lena.

—Só fiquei surpreso porque ela está diferente. Só isso! – respondeu sentindo o rosto queimar de vergonha.

Mas Draco e Rasalas ficaram cantarolando musiquinhas românticas, apenas para irritá-lo.

Ficaram um bom tempo flertando de longe com umas garotas francesas. Mas só Draco falava francês. Ele serviu de intérprete e as garotas ficaram bem sorridentes ao saber que eram um Lestrange, um Malfoy e um Burke.

Draco e Rasalas acabaram ficando com alguém, mas ele só conseguia pensar em Alhena. Nem cogitou ficar com a amiga das garotas que os amigos estavam beijando. Na primeira oportunidade, saiu de lá.

Esquivou-se até o jardim, onde Alhena e o tal Cepheus estavam conversando. Para seu horror, ela parecia bem descontraída, conversando alegremente com ele. Se escondeu atrás de uma estátua de querubim, sentindo algo estranho em seu estômago. Como se um bicho com unhas afiadas estivesse o arranhando por dentro.

Ficou parado, de braços cruzados, se perguntando o que poderia fazer. Não podia simplesmente aparecer ali e chamar Alhena para conversar. E não era como se ela aparentasse estar precisando de ajuda.

—Ciúmes? – perguntou alguém atrás dele. Pulou de susto e se virou. Um garoto de cabelos escuros apareceu, com um cigarro na boca e um isqueiro na mão. Escutou o click, do isqueiro e o rapaz tragou o cigarro aceso.

—Não. – respondeu o mais descaradamente possível.

—Eu estou. – retrucou o garoto – Quem é você?

—Damian Burke. – respondeu – E você é?

—Pierre. Jacques Pierre. – respondeu o rapaz estendendo a mão para cumprimentá-lo – Eu estou com a Lestrange. Tire os olhos de cima dela.

Sentiu um terrível gosto amargo na boca. Sentindo-se traído, saiu de lá e voltou para a festa, querendo socar alguma coisa. Mas no lugar disso viu uma garota muito bonita e muito loira o olhar com interesse. Olhou de volta para ela e sorriu quando ela veio em sua direção.

—Você é Damian Burke? – perguntou ela com um sorriso satisfeito.

—Sou. Por que?

—É que eu te achei muito bonito. Meu nome é Monalise Deshayes. – riu ela se aproximando – E eu quero te dar um beijo.

Sorriu zangado para ela e a puxou pela cintura.

Que os Lestrange fossem todos à merda.

Notas finais
E ai? Tadinha da Lena, né? D= Ai, Damian... você é tão tonto u.u Só porque tinha a benção do Rasalas, fala sério... E será que o Rabastan FINALMENTE vai se convencer que o Rodolfo é um FDP? Vamos ver Vamos ver Continuem acompanhando, comentando e tudo o mais (tipo uma recomendação? Sim? Que? Onde? Como?) Beijos! Até a próxima!! =D