Legado Lestrange
46 Ciúmes
Notas iniciais
1997
Hogwarts
Rasalas estava tomando café da manhã, se deliciando com grandes fatias de bacon frito. Daphne comia melão com açúcar, ao seu lado e Alhena comia favos de mel, olhando sonhadoramente para a janela do correio.
Foi quando ouviu o som de bater de asas. Rasalas olhou o correio, desinteressadamente, enquanto a maioria das pessoas parecia aflita e assustada, desesperada por notícias de seus parentes. Mas Rasalas estava muito confiante que tanto seu pai quanto sua mãe estavam sãos e salvos.
Mas sua coruja parou em sua frente.
Era dia nove de Dezembro. Véspera do seu aniversário. Tinha acabado de voltar de sua semana difícil.
Pegou a carta, com o garfo na boca. E a desenrolou, levemente curioso.
“Caros Rasalas e Alhena. Tenho uma notícia maravilhosa. Os irmãozinhos de vocês nasceram. Um menino e uma menina. Nomeamos o garoto de Rigel Orionis Lestrange. Ele é minha cara, os olhos cinza, cabelo vermelho escuro, o mesmo nariz, o mesmo queixo... a garota nomeamos Polaris Lyra Lestrange, ela se parece bastante com a Alhena (sua mãe garantiu... Eu acho que os dois se parecem com o meu joelho, mas não contem pra ela). No feriado de natal, quero você e Alhena aqui em casa, para conhecê-los, ok?”
Rasalas sorriu animado. Tinha ganhado um irmãozinho e uma irmãzinha.
–Mamãe quando resolve ter filhos, resolve ter filhos com força. – riu Rasalas. Alhena o olhou surpresa.
–Nasceram? – perguntou ela – Gêmeos?
–Gêmeos. Um menino e uma menina. Rigel e Polaris. – respondeu Rasalas – Papai quer que a gente vá pra casa, no natal, pra conhecer os dois.
–Que legal! – riu Alhena – Como eles são? Ele falou?
–O garoto, aparentemente é a cara do papai. – murmurou Rasalas – E aparentemente nenhum é metamorfomago. – adicionou ele – Continuo sendo único. – debochou, voltando a ler a carta.
“Ah, acho que você vai gostar de saber que Polaris é metamorfomaga. Começou a mudar a cor dos cabelos cinco minutos depois de nascer...”
–Esquece... Polaris é metamorfomaga. – riu um tanto enciumado.
–Será que o Rigel vai ser vidente? – riu Damian tomando suco.
–Sei lá... o que acha, Alhena?
Alhena soltou um suspiro.
–Eu espero que não. Não é legal ser vidente. – resmungou ela – Estou até feliz por ter perdido o meu dom, por mais que isso signifique que não vou conseguir meu N.I.E.M. em adivinhação. – resmungou ela.
–Posso ir na casa de vocês? No natal? Quero conhecer seus irmãozinhos. – riu Damian.
–Ok, por mim. – riu Rasalas dando de ombros – Você também é bem vinda, meu anjo. – disse olhando para Daphne, que sorriu.
–Ah! Com certeza eu vou! – riu ela – Gosta de crianças, Damian? – perguntou Daphne, que tinha tomado a carta de Rasalas, para ler.
–Ah, sim. Quero ter um monte de filhos. Montar minha própria equipe de quadribol. – ele sorriu – Afinal, sete é um número mágico.
–Eu quero ter um moooooonte de filhos também. – riu Daphne. Rasalas sentiu um solavanco na boca do estômago.
–Eu odeio crianças. – resmungou Draco – Não quero ter nenhum. – resmungou ele. Alhena o olhou um tanto chocada.
–Mas... vai ser o fim do seu nome! – disse Alhena.
–Paciência. – resmungou Draco – Entre ter um filho nesse mundo de merda e não ter... eu prefiro ser o último Malfoy.
–E você, Ras? Quantos filhos quer ter? – perguntou Daphne, com um sorriso gentil. Rasalas sentiu um imenso calor, de repente.
–Hum... eu ainda não terminei de ler a carta... – disse desconversando.
–Que tal três? – perguntou Daphne, sonhadoramente – Não é um número muito grande e nem muito pequeno. Poderíamos ter os dois primeiros um depois do outro e então esperar um pouquinho pra ter o terceiro...
Rasalas afrouxou o nó da gravata, sentindo-se encurralado.
–Tá quente aqui, não tá...? Eu acho que comi bacon demais e vou ter um ataque do coração... licença. – disse suando frio. Daphne o olhou risonha, achando graça, provavelmente pensando que ele estava apenas brincando ao desconversar.
Mas ele não queria ter filhos. Era um maldito lobisomem e não queria que seu herdeiro tivesse sua maldição também.
*
Alhena puxou a loira para dentro da sala de música e pediu silêncio. DiLua a olhou tranquilamente.
–Escute. – pediu Alhena, com um frio lhe subindo pela espinha – Eu realmente sinto muito por precisar torturar você e Weasley. Eu não quero fazer isso e acho que vocês estão sendo muito corajosos em desafiar o sistema... – ela destampou a boca da pequena Corvinal e sorriu – Então, por favor... tomem mais cuidado para não serem pegas, ok? – disse sorrindo.
DiLua concordou com um aceno de cabeça.
–Obrigada. Eu sabia que Draco Malfoy não estava mais aguentando fazer isso... por isso que você ficou no lugar dele, não é? Pra protegê-lo? – perguntou DiLua, daquele jeitinho todo sonhador que ela tinha. Alhena concordou com um aceno de cabeça – Você deve gostar muito dele.
–Eu gosto. Ele é meu melhor amigo. – disse tranquilamente – Escutem... Deem um tempo nas aprontadas...
–Você é vidente, não é? – perguntou DiLua, a cortando.
–Era... eu perdi meu dom.
A loirinha deu uma risadinha e negou com a cabeça.
–Esses dons não se perdem. Deve ter alguma coisa bloqueando. Algum assunto não resolvido, que você precisa tratar.
–Eu sempre tive assuntos não resolvidos e isso nunca me impediu de fazer previsões. Foi um trauma mesmo. – disse se abraçando.
–Foi Pierre, não foi? – perguntou Luna – Ele tentou mexer comigo também, mas aquele garoto bonito da Sonserina o impediu.
–Que garoto bonito? – perguntou curiosa.
–Zabini. – respondeu DiLua – Meu Urso. – riu ela.
–Seu Urso? Ele sabe que o chama assim? – riu Alhena.
DiLua deu um sorriso sonhador e negou com a cabeça.
–Esse é meu segredo... nosso agora. – riu ela.
–Você é mesmo estranha... quer dividir segredos com quem te tortura? – perguntou Alhena, arqueando a sobrancelha.
–Você não gosta de torturar. Só faz isso para proteger seu amigo. Então eu não tenho nada contra você. Não vejo problema em sermos amigas. Seu irmão foi meu amigo uma vez...
Alhena concordou com a cabeça, sabia sobre a AD.
–Sabe quem está escrevendo sobre Lisian Martell? – perguntou Alhena. DiLua concordou com um aceno de cabeça – Diga para parar, ou eu vou descobrir quem é... – Alhena semicerrou os olhos – E eu sou muito boa com a maldição cruciatus.
–Eu já pedi, mas eles não entendem. É mais fácil ferir Draco do que entender que ele foi só mais uma vítima do fanatismo de Você-Sabe-Quem. – explicou DiLua. Alhena olhou para aquela garotinha, um tanto surpresa com o quanto ela parecia sábia, apesar de meio doidinha.
–Ainda assim... faça mais um esforcinho, ok?
DiLua concordou com a cabeça e Alhena se virou, para sair da sala de música. Já estava na porta, quando Luna murmurou.
–Você e Draco tem um en, sabia? – perguntou Luna. Alhena se virou para ela.
–O que é isso?
–Uma ligação cármica, que dura a vida inteira. Hoje em dia muitas pessoas parecem acreditar que suas vidas são totalmente questão de opções, mas não acho que seja assim... – disse DiLua, se aproximando – Acho que somos como peças de argila, que mostram para sempre as impressões dos dedos de todos os que nos tocaram. Draco te tocou com profundidade, de um jeito que ninguém nunca tocou. Vai ser ele quem vai te ajudar a se curar.
–De onde tira essas coisas, DiLua? – perguntou chocada.
–Do meu coração. – respondeu ela – É por isso que as pessoas me acham estranha. Porque eu falo o que sinto no meu coração. Nem todos estão prontos para ouvir o que vem do coração. Você está?
–Não sei. – respondeu honestamente, antes de sair da sala de música. Já era quase horário de almoço. Tinha completado dezoito anos, finalmente, mas algumas vezes se sentia uma velha. Mas Luna falava com a certeza de uma anciã e isso a assustou um pouco.
Chegou na mesa da Sonserina e se sentou ao lado de Draco, que estava sombrio, como sempre. Mas ele tentava sorrir, já que era seu aniversário.
–Onde estava, Estrelinha? – perguntou Damian, que estava ao lado de Rasalas.
–Resolvendo uns assuntos. – murmurou sentindo um frio na barriga. Já tinha tanto tempo que ele não a chamava daquele jeito... a última vez tinha sido durante o treino de quadribol que Pierre interrompera – Ras, me ajuda com a tarefa de transfiguração?
–Só se você completar minha tabela de Runas Antigas. Aquilo tá pior que alfabeto chinês. – resmungou Rasalas comendo um sangrento pedaço de bife. Grossas gotas de sangue caíam no arroz do irmão – Odeio Runas. Não sei porque fui inventar de pegar essa matéria.
–Porque você precisa de pelo menos dez N.I.E.M.s se quiser conseguir um cargo no Ministério. – riu Daphne o olhando carinhosamente, o acariciando nos cabelos.
–Do jeito que o Ministério está corrupto, acho que até o Filch conseguiria um emprego lá, se alguém o indicasse. – resmungou Rasalas.
Seus amigos se encolheram de leve e Draco o olhou com censura.
–Fala baixo. Se eu tiver que torturar você por ser indisciplinado, eu juro que vou ficar muito grilado. – resmungou o loiro – Ou pior... não vou ser eu a te castigar, vai ser a Lena...
Sentiu um gelo no fundo do estômago. Não queria nem imaginar aquela possibilidade.
–Eu sou um Lestrange, meu querido. Quem seria doido de encostar o dedo em mim? – perguntou Rasalas – Meu papai é comensal, meu titio é comensal, titia é comensal... até minha irmã tava querendo entrar pro grupo um tempo desses...
–O que? – perguntou Astoria ficando de pé. Ela não estava sentada muito longe e certamente tinha escutado – Você o que? – rosnou ela. Alhena olhou feio para o irmão, que fez uma careta de “foi mal”.
–Alguém na família tem que herdar o manto, não? – perguntou disfarçando, afinal Aleto Carrow passava ali perto.
–Oh, vocês se merecem mesmo, Malfoy. – rosnou Astoria. Draco a olhou surpreso e levou um banho de suco de abóbora.
–Astoria! Espera! – pediu o loiro, se levantando assim mesmo, e indo atrás dela.
–Boa sorte. – riu Alhena olhando pra ele. Sentiu uma pontinha de ciúmes, mas torceu para que ele explicasse as coisas pra ela. Mas então se virou para o irmão – Você não consegue ficar de boca fechada, não é?
–Foi sem querer... – murmurou Rasalas.
–Malfoy gosta da Astoria? – perguntou Damian, parecendo em choque.
–Há séculos. – riu Greg.
–Como que ninguém me contou isso? – perguntou Damian sorrindo maravilhado – Eu achei que ele gostasse da... eu preciso ir! – disse ele, parecendo exultante.
–Ei! Onde você vai? – perguntou Rasalas.
–Vou ser romântico! – gritou Damian, já quase na ponta da mesa.
Alhena franziu a testa, sem entender nada e olhou para Daphne, que deu de ombros, sorridente.
–Do que ele está falando? – perguntou confusa.
–Ora... é seu aniversário, não é? – perguntou Daphne, piscando marota – Você deveria almoçar e ir ver o que ele aprontou.
Alhena sentiu um frio no estômago e olhou para Draco, mas então lembrou que ele tinha corrido atrás de Astoria.
–Falando nisso... é meu aniversário também... – riu Rasalas para Daphne – O que vai me dar de aniversário?
Daphne sorriu e o olhou marota.
–O que você quer que eu dê? – perguntou ela. Rasalas sussurrou alguma no ouvido dela e ela sorriu – Eu imaginei.
–Oba! – comemorou Rasalas, voltando a comer.
Soltou um suspiro e comeu, sentindo-se mais ou menos da mesma maneira que no dia em que Damian iria cantar a música na aula de Estudo dos Trouxas. Então quase não conseguiu comer e depois de quinze minutos de infrutíferas tentativas, se levantou.
–Bons beijinhos, maninha. – riu Rasalas. Se virou e mostrou o dedo médio pra ele, antes de sair, mas seus amigos todos riram.
Será que FINALMENTE iria se acertar com ele? Não estava zangada com ele, pelo que tinha acontecido com Parkinson. Rasalas tinha contado da poção do amor. E também não estava chateada por ele ter ficado com outras meninas. Era um direito dele e ela queria que ele fosse feliz.
Mas não sabia se estava pronta para ser receptiva ao toque dele. Queria de coração deixar Damian cuidar de si, mas não sabia se conseguiria. Sentia muita falta do toque dele, mas ao mesmo tempo não suportava que ele a tocasse.
Pierre a tinha estragado. Era isso que tinha acontecido.
Mesmo que os pesadelos fossem menos frequentes e que não ficasse mais se esfregando até quase arrancar o couro, tentando se livrar do cheiro dele, que parecia não querer sair de sua pele. Mesmo que agora conseguisse olhar no rosto das pessoas e que finalmente tinha recuperado a boa forma no quadribol, sendo a melhor artilheira do time... ainda não suportava toques e abraços...
–Só os de Draco. – murmurou, lembrando-se das palavras de DiLua. Será que ela tinha razão, ou era só mais um dos devaneios loucos da Corvina?
Caminhou pelas masmorras e viu Draco e Astoria conversando no corredor. Se escondeu, sem querer atrapalhá-los, mas escutou um som de algo se chocando contra outra coisa, seguido de passos que se aproximavam. Se escondeu atrás de uma armadura e viu Astoria passar aos prantos.
Contou até cinco e saiu do esconderijo, para ir atrás dela.
–Astoria! Astoria!
–Me deixe em paz, Lestrange! – rosnou ela.
–Não deixo! Volte aqui! – ralhou a puxando pelo pulso. Astoria a olhou furiosa – Eu e Draco somos apenas amigos e eu não quero ser um comensal de morte. Nunca quis. Eu apenas me infiltrei, porque tive uma visão do meu irmão sendo assassinado e eu quis impedir. – disse de uma vez. Astoria piscou, em choque.
–Rasalas vai morrer?! – perguntou ela quase em pânico.
–Não. Eu impedi. – respondeu calmamente – Então não preciso mais entrar pro grupo maligno. – Astoria se abraçou, desviando o olhar – E Draco só fez o que fez para salvar a família dele. A mãe dele era refém do Lorde das Trevas. A casa dele está sendo usada de quartel general. Você não vê o quanto ele está sofrendo? – perguntou fechando a cara.
–É culpa por ter feito merda.
–Exatamente. – respondeu Alhena – Culpa por ter escolhido salvar a própria família a se recusar a obedecer. Seu pai não fez a mesma coisa?
–Como ousa? – rosnou Astoria – Meu pai passou um inferno...
–E você acha que Draco não passou? – perguntou arqueando a sobrancelha – Você acha que ele não foi torturado, chantageado, pressionado? Não reparou nas olheiras dele, no ano anterior? Em como ele sempre parecia não ter dormido? Nunca se perguntou o motivo dele ter largado até o quadribol?
–Ele tomou decisões erradas!
–Eu prefiro pensar que ele não teve a opção de escolher. Era isso ou deixar que a mãe passasse pelo que você quase passou. Meu pai não iria poder protegê-la. Ninguém iria poder protegê-la. – explicou Alhena, calmamente e Astoria esbugalhou os olhos – É fácil criticar aqueles que erram, sem se colocar no lugar deles. Perdoe Draco, Astoria. Ele gosta muito de você... infelizmente só demorou demais pra notar isso.
Astoria fungou e limpou uma lágrima que descia por seu rosto, mas não disse nada. Ela se virou e saiu, parecendo perdida em pensamentos. Alhena suspirou, sabendo que tinha feito o que podia. Se virou e voltou para o salão comunal. Draco estava lá, sendo infeliz, perto da lareira.
Se sentou ao lado dele, sacou a varinha e o limpou do suco, que o encharcava.
–Por que não vai tomar um banho, Draco? – perguntou o alisando nas costas, carinhosamente. Draco suspirou e coçou os olhos.
–É... é... – ele se levantou – Vem comigo? No banheiro dos monitores? – perguntou ele parecendo abatido, mas tentando sorrir – Quero te dar um presentinho. – brincou ele, piscando, mas não parecia muito convincente. Alhena sorriu e negou com a cabeça.
–Eu acho que não. – disse se levantando – Tome um banho e descanse. Ainda temos runas antigas e feitiços hoje...
–É... é mesmo... – suspirou ele – Eu vou lá... até mais tarde.
–Até. – disse o observando ir até as escadas. Se virou, olhando para a lareira e respirou fundo. Depois se virou, desceu as escadas e entrou no dormitório feminino. Damian estava parado ali, fechando as cortinas de sua cama – Senhor Burke. O que está fazendo ai, na minha cama?
Damian pulou de susto e se virou, com o rosto muito corado.
–O-oi... – disse ele. Alhena o olhou com um sorriso fraco. Mas era o melhor que conseguia fazer – Eu... eu vim aqui deixar seu presente.
Ela olhou para a cama e caminhou até as cortinas. As abriu, cheia de curiosidade e viu um monte de rosas. Rosas coloridas, grandes e pequenas, formando a constelação de gêmeos. E no lugar que estaria a estrela “Alhena”, no “pé” da constelação, estava uma caixa de veludo, do tamanho de um palmo.
Era realmente lindo. As rosas, o presente... soltou um suspiro, sentindo o coração bater rápido e pegou a caixa, cheia de curiosidade.
–Ficou lindo, Damian... obrigada.
–Não seja por isso. – respondeu ele, baixinho, perto de sua orelha esquerda. Lembrou-se de Pierre, mandando que empinasse a bunda, naquele dia, nas estufas, mas afastou aquele pensamento. Não pensaria naquilo. Não agora – Abre... – pediu Damian. Obedeceu e abriu a caixinha. Um lindo colar de esmeraldas estava ali. – Para combinar com seus olhos. – disse ele – Era da minha mãe... queria que ficasse com ele.
Alhena fechou a caixa e o olhou.
–Não posso... é lindo, mas... mas é uma joia da sua família. – murmurou Damian sorriu e a puxou pela cintura.
–Você um dia vai ser também. – riu ele, confiante. Sentiu uma sensação estranha, ao ficar tão próxima dele. Tentou ignorar isso. Tentou focar apenas em Damian. Era ele ali e não Pierre – Eu ainda sou louco por você, Estrelinha...
Ele se aproximou lentamente, como se estivesse inseguro. Ela estava também. Ele a puxou com mais força e finalmente encerrou a distância. Os lábios dele eram macios e doces, exatamente do jeito que se lembrava. Ele suspirou e a puxou com mais força contra si.
Seu corpo todo estava tenso, assustado, mas estava disposta a ignorar aqueles flashes horríveis. Damian a deitou na cama, parecendo afoito. Animado. Extasiado. Provavelmente ele estava ansiando por aquilo. Ela também estava, mas tudo o que conseguia fazer era pensar em Pierre... e quando Damian colocou a mão em sua coxa, simplesmente entrou em pânico. Quando ele a empurrou com os quadris, pode sentir como ele estava excitado, o estapeou com força. O medo dominou sua mente e tudo o que queria fazer era sair dali. O empurrou, desesperada e se levantou, sentindo o corpo formigar. Podia jurar que Pierre iria mandar que dissesse que estava gostando.
Se virou e saiu correndo, escada a cima. Topou com Draco, que aparentemente tinha acabado de sair do banho. Ele a olhou, curioso, mas ela não conseguiria falar. Precisava de ar puro. Precisava sair dali. Precisava se esconder. De um lugar seguro... Jogou o presente que Damian tinha lhe dado para Draco e saiu correndo, desesperada, sentindo o coração disparar.
Sua mente entrou num estado de transe e ela simplesmente não se lembrava de mais nada. Só se viu na torre de astronomia, completamente sem ar, com o rosto molhado de suor e lágrimas.
–Eu sou tão IDIOTA! – gritou lá de cima, olhando a janela.
Engoliu em seco e se curvou, notando o quanto era alto.
“Você tem uma boquinha de algodão, Lena... me chupa, vai...”
Seu corpo teve um espasmo e o pouco que conseguiu almoçar jorrou para fora. Caiu de joelhos, enojada de si mesma.
“Você tem uma bundinha linda Alhena... Eu acho que vou provar dela.”
–Não quero lembrar disso! Não quero! Não quero. – disse apertando a própria cabeça. Mas os flashes vieram, um atrás do outro. A dor, a humilhação e o medo... céus... o medo. Procurou seu cigarro nos bolsos do uniforme. Acendeu um, com a varinha e o tragou, querendo relaxar. Fechou os olhos e tragou – Eu sou tão ridícula...
Quando terminou o cigarro, o apagou na pedra da parede e se levantou de novo. Mais uma vez se curvou na janela, sabendo que a queda certamente a mataria. Se curvou mais um pouco, sentindo os pés deixarem o chão. Fechou os olhos, sentindo o vento bater contra seus cabelos. Levaria poucos segundos e nunca mais precisaria pensar em Pierre novamente...
Se curvou mais um pouco e sentiu uma mão puxá-la de volta. Piscou, assustada e olhou para quem a segurava.
–Não pule. – pediu Draco – Por Merlin... não me deixe sozinho aqui... – pediu ele a abraçando – Você disse que sempre estaria aqui... não me deixe sozinho, por favor?
Um enorme sentimento de culpa a atingiu em cheio. Abraçou Draco de volta, lembrando-se mais uma vez do que DiLua tinha dito.
–Não vou, não se preocupe... – murmurou.
–Se você pular... eu pulo. – Ficaram em silêncio, abraçados. Draco a beijou na têmpora e a olhou preocupado – O que Burke fez? – perguntou ele.
–Nada. – respondeu – Eu só... entrei em pânico...
–Você não teria entrado em pânico se ele não tivesse feito alguma coisa...
Alhena suspirou e deu de ombros.
–Ele meio que me deu uma encoxada, enquanto me beijava... e pegou na minha coxa... então... foi culpa minha... eu surtei e...
–Não foi culpa sua. É a primeira vez que você se permite ter um contato mais próximo com alguém, depois do que Pierre fez e Burke te joga na cama, te apalpa e te encoxa? – ralhou Draco – Eu vou transformá-lo em um ratinho e vou jogá-lo pros testrálios!
–Relaxa, Draco... – disse o segurando pela camisa – Ele provavelmente já deve estar arrependido por ter ido tão rápido...
–Ele é muito burro. É o que ele é. – rosnou Draco. Mas logo em seguida ele suspirou – Vamos... temos Runas agora.
–É... runas... – murmurou sem muita animação.
**
Rasalas rolou para o lado, com um sorriso completamente satisfeito no rosto.
–Ah, eu te amo tanto. – riu ele, ofegante. Daphne sorriu, achando graça e o beijou no rosto.
–Mais uma semana sem conseguir sentar direito. – brincou ela. Rasalas a puxou com força, para si e a mordeu no ombro.
–Para. Não é isso tudo. – disse rindo, um tanto constrangido.
–Rasalas... Eu quero te fazer uma pergunta. – disse Daphne. Ele a beijou no ombro e a olhou curioso – Você realmente quer se casar comigo quando terminarmos a escola?
–Claro. – riu ele a beijando na testa – Você é a mulher da minha vida.
–Ok... mas... mas você não quer ter filhos? – perguntou ela. Rasalas sentiu um frio no estômago e a olhou inquieto.
–Daphne... eu sou um lobisomem... – murmurou com um suspiro – Não é seguro.
–Eu entendo que pense assim... mas esse é um tópico fechado ou ainda está aberto para debate? – perguntou Daphne – Porque eu quero ter filhos... – murmurou ela. Rasalas soltou um suspiro e olhou para o teto.
–Eu acho egoísmo da minha parte... ter filhos, sabendo que a criança pode ser como eu... como você vai amamentar na lua cheia? Quando nosso bebezinho virar um monstrinho cheio de unhas e dentes afiados? – Rasalas engoliu em seco e olhou para cima – Não rola, Daph... não é justo com você e nem com a criança... eu sinto muito.
Daphne se sentou, suspirando.
–Mas é certeza de que ele nasceria um lobisomem? – pergunto ela.
–Eu não sei...
–Hum... você disse que Tonks estava grávida... poderemos ter esperança em ter os nossos, caso o bebê dela não seja um lobisomem?
–É arriscado, Daphne... – insistiu Rasalas.
Daphne olhou para o lado e pegou a camisa dele, se vestindo. Depois saiu da cama. Rasalas soltou um suspiro e foi atrás dela. Ela entrou no banheiro e os dois foram juntos para um boxe.
–Eu queria muito ter filhos... – lamentou ela pegando o sabonete – Sempre sonhei com isso, sabe? – perguntou ela abrindo o chuveiro.
–Daph...
–Está tudo bem... – murmurou ela parecendo triste. A olhou preocupado – Sério. Tudo bem mesmo. – riu ela de maneira convincente – Eu... eu deveria ter imaginado isso... quando disse que não me importava em você ser um lobisomem. – sentiu algo gelado no fundo do estômago. Algo terrível e cruel, que o feriu profundamente – Eu não me importo. Eu amo você, Rasalas. E se o preço pra ficar com você é não ter filhos, eu pago, sem pensar duas vezes, ok? – perguntou ela o abraçando.
Mas agora ele se sentia extremamente culpado.
***
Estava sentado sozinho no salão comunal. Olhava o fogo crepitar quando ouviu passos. Olhou para trás e viu Damian se sentar ao seu lado.
–Feliz aniversário. – disse o amigo lhe entregando uma caixa comprida – Demorou pra chegar, mas eu consegui...
Rasalas abriu a caixa e viu que tinha um bastão de quadribol, com a assinatura de Dimitri Vlastof, o maior batedor russo, considerado o melhor batedor da atualidade.
–Caralho, Damian! – disse impressionado – Como você consegue essas coisas? – perguntou sorridente. Damian deu de ombros, um tanto triste.
–Eu vivo disso... de conseguir as coisas pras outras pessoas... – murmurou ele.
–Ei, o que houve? – perguntou franzindo a testa – Pensei que você estaria todo serelepe e pimpão... não se arrumou com a Lena?
–Não. – confessou Damian – Eu... eu fui um idiota. – resmungou ele – Eu fiquei tão feliz de conseguir finalmente beijar ela que... que fui muito rápido... e ela entrou em pânico. Tentei falar com ela, mas o Malfoy ficava rosnando pra mim sempre que eu chegava perto... – resmungou ele. Rasalas deu uma risadinha e concordou.
–Ele é bem protetor com ela... mas o que você fez?
–Eu joguei ela na cama e... bem... me empolguei... – disse Damian, corando.
–É... você é mesmo meio demente... – disse sorrindo – Mas pelo menos foi um avanço, não é?
–Eu não sei... tem vezes que eu acho que eu não mereço a Lena... eu SEMPRE faço merda!
–Não é verdade. – riu Rasalas – Você comete um vacilo ou outro, mas a Alhena não ajuda. Ela deveria te pedir desculpas e te explicar o porquê de ter saído correndo, oras... – Rasalas soltou um suspiro – Vocês deveriam conversar direito. Os dois, num lugar calmo, pra decidirem o que vão fazer da vida de vocês... não ficar nessa punheta de fica ou não fica. Beija ou não beija.
–Você tem o dom da palavra, Rasalas. – riu Pansy chegando e se deitando no sofá com as pernas sobre as dele. Mas em seguida ela se sentou e lhe estendeu um pacote – Pra você. Feliz aniversário. Espero que goste.
–O que é? – perguntou balançando a caixa.
–Rasalas. Deveria ter cuidado com isso. – murmurou Damian olhando desconfiado para Pansy. Ela apenas revirou os olhos.
Abriu a caixa e viu que tinha umas ervas muito cheirosas ali.
–O que é isso? – perguntou ele, curioso.
–Cogumelo de Leprechaun. – riu Pansy – Você mastiga a folhinha e se diverte.
–É alucinógeno? – perguntou Rasalas. Damian se curvou para olhar, curioso.
–Não. É relaxante. Causa orgasmos, vez ou outra, tanto em homens quanto em mulheres... – riu Pansy – E eu pesquisei, não tem absolutamente nenhum efeito colateral em lobisomens. Dizem até que ajuda a ter uma transformação menos dolorosa na lua cheia, já que é relaxante, sabe?
Rasalas sorriu e olhou para as várias folhas secas.
–Que maneiro. Valeu. – riu ele.
–Você não quer que eu verifique se isso ai é autêntico, Rasalas? – perguntou Damian. Pansy revirou os olhos, pegou uma e mascou. Os dois olharam para ela e ela se deitou esfregando as coxas.
–Oh... – riu ela se remexendo de maneira sensual. Vou ter que dormir com a Daphe de novooooo... – Ótimo...
Pegou um deles e mastigou. Uma sensação de enorme bem estar o tomou. Sorriu bobamente para Damian e estendeu os polegares.
–Cara... isso é da hora... – disse com um sorriso enorme no rosto. Damian o olhava preocupado, mas acabou dando de ombros.
–Bem... eu vou me deitar e dormir. Fica esperto, viu? – disse ele, olhando para Pansy.
–Deixa disso, cara. – riu Rasalas.
Damian se virou e voltou para o dormitório. Pansy seguia deitada, com os olhos fechados. Aquela sensação gostosa o tinha tomado por inteiro. Se sentou mais esparramados e colocou a mão na canela da amiga a afagando com o polegar, mas Pansy nem se mexeu.
Ficaram um tempão assim, apenas curtindo as sensações. As pontinhas dos seus dedos estavam com cócegas e ele sentiu que estava ficando de pau duro, apesar de não estar com vontade de transar.
–Hum... acho que vou deitar. – murmurou Rasalas. Pansy concordou com um aceno de cabeça.
–Gente... eu não sabia que isso dava um barato tão bom... – murmurou Pansy – Gostou?
–Sim. Gostei. – riu Rasalas – Valeu.
–De nada, fofo. – riu Pansy, se sentando preguiçosamente, com as pernas ainda em seu colo – Você merece. É o garoto mais legal dessa escola. – riu ela o apertando na bochecha – E ai, como está o namoro? Daphne ainda acha que eu quero pular nas suas calças?
–Na verdade acha... você quer? – perguntou ele.
Pansy deu de ombros.
–Você é bonito, gentil e bom de cama. Eu não acharia ruim. – riu ela – Mas sei que não tenho chances. Você e Daph são o casal mais casal da escola. – ela mexeu numa mecha de cabelo, a enrolando no dedo – Vocês vão casar e ter um monte de filhinhos lindinhos. Ah, sim...
Rasalas sentiu aquele solavanco na boca do estômago.
–Eu não posso ter filhos... – murmurou ele.
–Nós dois sabemos que pode, Rasalas. – riu Pansy, um tanto boba, provavelmente pelo efeito do cogumelo.
–Não é questão de conseguir... é questão de não ser certo... – explicou ele – Eu sou um lobisomem.
Pansy o olhou, parecendo compreender.
–Oh... Daphne já sabe disso? – perguntou ela – Daph sempre sonhou em ser mãe...
–Eu sei... conversamos isso hoje...
–Ela deve ter ficado triste... – murmurou Pansy. Rasalas concordou com a cabeça. Pansy soltou um suspiro – Eu não quero mais ter filhos.
–Por que?
–Depois daquilo que aconteceu... eu não acho que eu mereça ser mãe, sabe? – perguntou ela tirando as pernas de seu colo e se sentando direito, com um ar triste – Eu sinto que perdi esse direito.
–Não seja boba. Você não estava pronta... mas no futuro pode ser diferente...
–Sei lá... eu não acho que seria uma boa mãe... nem sei se gosto de crianças. – riu Pansy – Eu acho que não teria paciência, de qualquer maneira...
Rasalas sorriu ainda sob efeito do cogumelo e concordou com a cabeça.
–Você não é a pessoa mais paciente do mundo, realmente...
–Pois é. – riu Pansy. Os dois trocaram um olhar e riram de novo – Bem... eu acho que você... já que não quer engravidar a Daphne... e ela quer muito ser mãe... você poderia pensar em... outras opções, saca?
–Tipo o que? Mudar de namorada? – perguntou negando com a cabeça – Nem pensar. Ela é a mulher da minha vida.
–Não é isso, seu bobo. – riu Pansy – Estava falando em adoção. – explicou ela – Ou então você pedia pra alguém... bem... doar a semente, se é que você me entende...
–Ah! Mas de jeito nenhum! – disse rindo – Piroca nenhuma, além da minha, tocará na minha mulher.
Pansy deu uma risadinha e se levantou.
–Então adotem, oras. – riu ela – Alguém bem bonitinho, que nem você. – adicionou ela bagunçando seus cabelos. Rasalas riu e segurou a mão dela a beijando.
–Valeu, Pansy...
–RASALAS LESTRANGE! – rosnou uma voz vinda do dormitório. Largou a mão de Pansy e viu Daphne se aproximar, parecendo simplesmente furiosa – PANSY, EU JÁ MANDEI FICAR LONGE DO MEU NAMORADO.
Pansy se sentou no sofá, um pouco embriagada pelo cogumelo.
–Rasalas, você pode explicar pra ela que eu só estava te dando seu presente de aniversário? – perguntou Pansy coçando os olhos.
–Amor, ela só estava me dando o meu presente... – murmurou Rasalas, também um tanto grogue.
–EU SEI MUITO BEM O QUE ELA QUER DAR PRA VOCÊ! – rosnou Daphne. Rasalas revirou os olhos e ficou de pé.
–Ok, Daphne. Chega.
–Escuta aqui, sua piranha. Se eu te ver falando com meu namorado de novo... – começou Daphne.
–Céus. Você tá mais neurótica do que quando namorava o Blair. – resmungou Pansy – Eu vou pro dormitório. Boa noite, Ras.
–Para de falar como se eu fosse louca. Nós duas sabemos que você não presta!
–Eu não presto? – perguntou Pansy arqueando a sobrancelha – Desculpe, mas não fui eu quem transei com o amigo do garoto que eu gostava, na cama dele, só para magoá-lo. Sorte que ele não flagrou vocês.
Rasalas olhou para Daphne, chocado. A namorada tinha ficado completamente vermelha.
–Cale essa boca! Você deu poção do amor pro Damian! E transou com ele. Sua doente! – rosnou Daphne.
–Eu não fiz isso. Pare de supor que isso aconteceu! – rosnou Pansy – Pare de colocar a culpa de tudo o que acontece de ruim nesse castelo em mim! – Adicionou Pansy – Só porque quer arrumar justificativas para esse seu ciúmes sem sentido!
–Sem sentido? Você armou com Pierre para que ele pegasse a Lena! Vai negar isso? Heim?
–Daphne! Já chega. – disse Rasalas segurando o pulso dela. Daphne o olhou magoada e puxou o punho.
–Ótimo! ÓTIMO! Faz o que quiser! – choramingou ela se virando e voltando para o dormitório.
Se sentiu um pouco mal por aquilo, se lembrando do natal, quando gritara com Alhena por ela estar chorando por suas roupas não entrarem.
–Vai lá se resolver com ela, Rasalas. – murmurou Pansy – Ou ela vai falar que eu estou tentando separar vocês. – ela se sentou no sofá e cruzou os braços – Afinal, eu sou o monstro da Sonserina...
–Você não é um monstro, Pansy, só estava tentando me ajudar... – murmurou Rasalas. Pansy deu de ombros e se deitou no sofá.
–Você sabe disso e eu também. É o que importa.
Rasalas suspirou, pegou seus presentes e a olhou novamente.
–Boa noite, Pansy. Você é uma boa amiga.
Ela engoliu em seco e concordou, olhando pro teto.
–Você é um bom amigo também, Ras...
Se virou e foi até o dormitório. Lembrava vagamente de Blair comentar que transara com Daphne em sua cama... mas não se lembrava quando ele tinha dito aquilo. Se fosse verdade, teria sido um enorme vacilo da parte dos dois...
As cortinas de Daphne estavam fechadas, mas as de Alhena não. Ela estava deitada, dormindo abraçada com o travesseiro. Damian estava sentado na beirada da cama dela, escrevendo alguma coisa num papel.
–O que você está fazendo? – perguntou Rasalas.
–Escrevendo um bilhete para Lena... pedindo desculpas... por... bem... por pensar com o pau, de novo... – resmungou Damian.
Rasalas andou até ele e puxou o papel. Damian o olhou confuso.
–Fale com ela, seu retardado. Seja homem. – resmungou – E agora capa o gato, porque eu e a Daphne vamos ter uma conversa séria. Não é, amor? – perguntou um pouco mais alto, para a cama da namorada.
Daphne colocou a cabeça pra fora das cortinas.
–Oh. Está falando comigo ou com Parkinson? – perguntou ela, furiosa.
–E essa... é a minha deixa. Boa sorte pra vocês, não perturbem o sono alheio. – riu Damian, saindo de fininho. Rasalas e Daphne se olharam seriamente.
Rasalas soltou um suspiro e colocou as coisas que tinha ganhado dentro em cima do baú da namorada e se sentou na cama, ao lado dela.
–Eu amo você. Só você. Eu não quero nada com Pansy Parkinson e nem ela quer nada comigo. – disse de uma vez, o mais sério que conseguiu. Seu corpo ainda estava formigando gostosamente por conta do cogumelo e isso o ajudou a ficar calmo – Eu só quero você, Daphne... eu amo você e quero me casar com você... então... então para com essa insegurança. Você acha que eu trocaria tudo o que a gente tem por uma foda? Você me dá tão pouco crédito assim? – perguntou calmamente.
–Eu já disse, Rasalas. Eu confio em você. Não confio nela.
–E o que ela vai fazer? Ela é minha amiga, Daph.
–Parkinson é amiga de ninguém! – choramingou Daphne.
–Escute. Ela é minha amiga sim. Desde o dia do Veneno de Fada a Pansy virou minha amiga e eu confio nela desde então. – disse muito calmo. Daphne abriu a boca para falar, mas ele levantou a mão, pedindo silêncio e continuou – Eu não quero que o nosso namoro fique igual ao seu e o do Blair. Blair te dava todos os motivos pra você ficar insegura. Eu não. Eu só tenho olhos pra você. Então... então me dê algum crédito. Pansy nunca conseguiria nada a força de mim. Nunca. E ela jamais tentaria também... – Rasalas soltou um suspiro e fechou a as cortinas. Depois sacou a varinha e colocou um feitiço para abafa-los acusticamente, assim, ninguém os escutaria do lado de fora – Eu e Pansy temos uma ligação, Daphne, que nunca vai ser quebrada.
–Do que está falando? – perguntou ela o olhando curiosa.
Rasalas soltou um suspiro.
–Eu... eu não posso contar. Nós juramos que nunca falaríamos a respeito com ninguém. É algo entre apenas eu e...
–Oh! Agora tem até segredinhos! – resmungou Daphne, cruzando os braços, ficando com os olhos cheios de água.
–Pare. – disse no tom mais severo que conseguiu. Daphne até se assustou – Pare com isso. O que aconteceu entre Pansy e eu foi algo muito sério e que nenhum de nós gosta de pensar a respeito. É por isso que juramos que nunca ninguém ficaria sabendo. Alhena não sabe, Damian não sabe e nem você sabe. Assim como eu duvido que Emília saiba... Eu não quero que você pergunte a respeito e nem crie caso sobre isso.
Daphne o olhou magoada e desviou o olhar novamente.
–Vá embora. Eu quero ficar sozinha. – disse ela, friamente. Rasalas soltou um suspiro desviou o olhar também.
–Vai fazer isso no dia do meu aniversário, Daphne? Muito obrigado mesmo... – murmurou ele.
–Você está fazendo isso, não eu!
–Você transou com Blair na minha cama? – perguntou de uma vez. Ela corou de novo – Nem precisa responder. – disse se levantando.
–Rasalas...
–E realmente me desculpe se tenho que fazer você desistir dos seus sonhos. Mas eu não escolhi virar um lobisomem e se eu me lembro bem, eu te avisei que eu não estava só doente.
–Rasalas...
–E o fato de você não ter desistido de mim não te dá o direito de jogar suas frustrações na minha cara. – adicionou.
–Quando eu fiz isso? – perguntou ela, zangada.
–Quer saber, Daphne? Deixa pra lá. – respondeu pegando suas coisas – Afinal, você quer ficar sozinha, não é. Então fica sozinha ai.
–Está vendo? Está vendo? – perguntou Daphne pulando pra fora da cama e o puxando pelo ombro – É o veneno de Pansy, nos corroendo. É ela quem fez isso! Ela!
–Não. Não foi Pansy. – devolveu Rasalas – Boa noite, Daphne. – disse friamente. Ele puxou o ombro de uma vez, se sentindo terrível. Era a primeira vez que discutia com Daphne desde que começara a namorar com ela.
Foi para o quarto e colocou seus presentes no baú. Draco estava acordado, com a cabeça apoiada nas mãos. Blair estava dormindo, só de cueca, com as cortinas abertas. Greg e Vince estavam com as cortinas fechadas, então não soube o que eles estavam fazendo. E Damian não estava ali.
Se enfiou em sua cama e começou a tirar os sapatos, sentindo-se simplesmente triste. Não estava zangado. Estava triste e simplesmente isso...
Tirou a roupa e tocou sua cicatriz, onde Grayback o tinha mordido. Sentiu o relevo diferente e por um momento teve um flash do lobo cinzento que o atacou. Baixou os olhos sentindo-se péssimo e se deitou só cuecas também, sem se importar em fechar as cortinas.
Escutou passos e viu Daphne entrar no dormitório. Não quis olhar pra ela, pois se sentia impuro, sujo e desajustado demais. Nunca se sentiu tão abatido por ter sido mordido e transformado. Daphne se sentou ao seu lado e o beijou na têmpora.
–Me desculpe, ok?
–Ok... – disse sem de fato deixar aquilo pra lá. Se sentia quebrado. Como se tivesse enganado Daphne de alguma maneira... como se alguma vez tivesse prometido uma família feliz pra ela e agora não quisesse mais cumprir o acordo.
–Rasalas, não fique assim, por favor. – pediu ela.
–Está tudo bem, Daphne... – murmurou. Ela se sentou mais no meio de sua cama e fechou as cortinas, soltando um feitiço abafador em seguida.
–Não está tudo bem. – respondeu ela – Você ficou chateado, não foi? Por conta dessa nossa conversa sobre filhos?
Rasalas se virou na cama, ainda deitado, e olhou para Daphne.
–Me sinto frustrado, Daph... por não conseguir... ser o cara perfeito pra você. Só isso. – murmurou se sentindo cansado de tudo o que já tinha passado. Daphne sorriu e se deitou ao seu lado o acariciando no rosto.
–Mas você é perfeito pra mim, Ras...
Não foi capaz de não sorrir de volta.
****
Alhena, Rasalas e Draco estavam saindo da aula de Runas Antigas, quando viram Damian em pé, de braços cruzados, esperando do lado de fora. Ele olhou diretamente para Alhena, que desviou o olhar e Draco a segurou pelo braço, como se quisesse levá-la embora. Rasalas olhou para Damian, como se quisesse dizer: “não a deixe ir” e o garoto pareceu entender.
Ele se apressou e a segurou no outro braço.
–Preciso muito falar com você. – disse ele.
Draco olhou feio para o colega, mas Alhena – apesar de se desvencilhar do ex namorado – sorriu timidamente.
–Está tudo bem, Draco...
–Certeza? – perguntou o loiro.
–Sim.
O loiro concordou com um aceno de cabeça e se afastou com Rasalas, deixando Damian e Alhena sozinhos. Os alunos saíam da sala de Runas e os olhavam com alguma curiosidade, então se afastaram, andando lado a lado, pelo corredor, procurando um lugar mais calmo para conversarem. Pararam em frente a uma janela do terceiro andar, com vista para o lago. Damian se apoiou no parapeito da janela, com as mãos nos bolsos, olhando a ex namorada constrangido.
–Me desculpe por ontem... – murmurou. Alhena corou ainda mais e desviou o olhar.
–Eu... eu peço desculpas também. Eu sei que vai parecer drama, mas eu...
–Está tudo bem. Eu entendo. – riu Damian. Alhena concordou com a cabeça, agradecida e Damian sorriu – Eu só me empolguei demais... digo... como não me empolgar com você... depois do nosso namoro, não é?
Alhena deu uma risadinha, mas não conseguiu encará-lo. As bochechas estavam muito vermelhas e ela parecia completamente sem jeito.
–Eu... estamos ok? – perguntou ela.
–Só se aceitar isso. – disse ele tirando o presente que tinha dado pra ela no dia anterior – Ou vou ficar muito chateado... eu quero que fique com esse colar, por favor. – murmurou Damian. Alhena suspirou e pegou a caixa, a abrindo de novo. Era um bonito colar, verdade seja dita. Sorriu e concordou com a cabeça, abraçando a caixa.
–Muito obrigada. – murmurou.
Damian sorriu e se aproximou um pouco, tocando seu rosto. Ela encolheu de leve, mas não recuou. A acariciou de leve na bochecha e se curvou para beijá-la no rosto, com muito carinho. A garota encolheu um pouco mais, mas novamente não recuou. Ele se afastou e sorriu, a soltando.
–A gente se vê. – disse ele, sorrindo e piscando, charmosamente.
*****
“O Monitor Chefe é um assassino!”
Letras garrafais pintavam a parede das masmorras. Draco olhava para elas tristemente. Rasalas o puxou para longe daquilo, enquanto Filch tentava limpar a tinta da parede, mas não parecia estar tendo muito sucesso.
Draco parecia simplesmente infeliz. Desde o café da manhã, quando alguém enviara um pedaço do que parecia ser o diário de Lisian Martell, onde estavam escritos vários “Draco Malfoy” rodeados de coraçõezinhos. Junto da página tinha o bilhete: Ela te admirava seu assassino traidor.
Alhena também não estava muito bem. Precisara torturar uns garotos do segundo ano, que tinham xingado a professora Carrow de besta obesa. Mas Carrow tinha levado a ofensa a um patamar imenso e Alhena teve que ajudar a professora a torturar os garotos.
Os dois estavam desmoronando. Algumas vezes sumiam, sem deixar sinal. Algumas vezes apenas um. Outras vezes só o outro. E algumas vezes os dois, apesar de não saber com certeza se estariam se escondendo em algum lugar, juntos.
Só sabia que Draco acordava gritando a noite, assim como Alhena, pois Daphne tinha contado. Eram dias terríveis...
Acabou se candidatando para torturar no lugar dos dois, assim como Damian, mas o professor entendeu aquilo como entusiasmo e não como uma maneira de não sobrecarregar Alhena, Draco e Pansy, que era a monitora chefe (apesar de Pansy estar segurando a barra melhor que Draco e Lena).
E foi decretado que, depois do natal, os sextos e sétimos anos iriam aprender a maldição da dor e iriam praticá-la nos delinquentes. Achou que vomitaria de desgosto. Ninguém queria que o natal chegasse.
Nem Alhena e Draco, que se veriam livres da exclusividade de torturar crianças e companheiros de escola.
Torturadores e Torturados

Fale com o autor