Legado Lestrange
6 A Fuga
Notas iniciais

26 de Abril de 1979
Caiu de joelhos, de frente para a casa. Não sobrara muita coisa. Rodolfo estava ao seu lado, junto de Bellatrix.
—Não pode ser... – murmurou Rabastan puxando os cabelos da cabeça.
—Ela era da Ordem. – murmurou Bellatrix – Nosso espião confirmou que ela foi na casa do meu priminho, para uma reunião. Ela estava armando para você, Rabastan. Por isso não queria que fosse embora.
—Ela ia te entregar. – rosnou Rodolfo cuspindo no chão – Foi tarde, traidora de sangue.
—Não... – murmurou Rabastan socando o chão, de novo, de novo e de novo – Mentira... não pode ser... ela não era da Ordem. Ela me disse que não era. – murmurou sentindo-se completamente perdido.
—Ela mentiu pra você, Rabastan. Ela nunca gostou de você. – disse Rodolfo – Eu sempre te disse isso...
—Você não a conhece! – rosnou Rabastan para o irmão – Ela não era da Ordem. Ela não mentiria pra mim!
—Rabastan. Quantos anos já se passaram desde que você perdeu o contato com ela? – perguntou Bellatrix – Ela não é aquela garota que você conheceu na escola.
—Isso mesmo. – concordou Rodolfo – E ela está morta de qualquer maneira.
Rabastan sentiu um peso no estômago e olhou mais uma vez para o que restara daquela casa. A marca negra ainda flutuava sobre os escombros.
Fungou desesperado. Ela estava morta. Emily Valentine estava morta...
—Levante, Rabastan! Está passando por ridículo! – ralhou Bellatrix.
Rabastan levantou a manga da roupa, onde a marca negra brilhava quando ele era chamado. Tocou o lugar onde ela ficava.
—Quem a matou? – perguntou acariciando o antebraço.
—Não importa. – respondeu Rodolfo – O que importa é que...
—QUEM? – gritou ficando de pé. Segurou o irmão pela gola das vestes e o empurrou contra uma árvore, o levantando alguns centímetros do chão – Eu juro que se tiver dedo seu, Rodolfo... eu juro que mato você! Eu juro que te mato, ouviu?
Rodolfo o encarou ofendido.
—Dá mais valor a uma mulher do que a seu próprio irmão? – sibilou ele.
—Dá mais valor a sua autoridade do que a minha felicidade? – sibilou em resposta – Você disse que a viu, Rodolfo! Que veio aqui há dois dias atrás... – rosnou Rabastan furioso – Ela estava sã e salva quando você saiu? Diz que sim, Rodolfo, ou eu juro que...
—Você acha que eu seria capaz de machucar a mulher que você ama, Rabastan? – perguntou Rodolfo com severidade – Eu, que sempre cuidei de você, zelei por você, te protegi... Acha mesmo que eu colocaria o orgulho da nossa família a cima da sua felicidade? Ela era puro sangue, apesar de tudo. Seria algo que poderíamos deixar de lado, o fato de que ela era uma lástima...
Rabastan baixou o irmão, o soltando. Uma imensa tristeza o tomou. Ele respirou fundo, envergonhado por seu descontrole. Rodolfo nunca faria algo que o magoasse. Estava sendo injusto com ele. Mas seu coração estava ferido. Fungou de novo, sentindo-se infeliz.
—Ela está morta... – murmurou Rabastan abraçando Rodolfo. Os olhos cheios de água – Ela está morta... meu deus, Rodolfo... mataram a minha Emily...
—Eu sinto muito, Rabastan. – murmurou Rodolfo o abraçando – Mas ela traiu você... seja lá o que tenha acontecido com ela, foi merecido...
—Não... não pode ser... não pode ser... – lamentou ele, sentindo as lágrimas rolarem por seu rosto – Ela não faria isso... ela não mentiria pra mim...
—Eu sinto muito, meu irmão. Me parte o coração te ver assim... – murmurou Rodolfo – Mas que sirva de aviso, Rabs... sangue não manterá os rebeldes a salvo. Ela nos traiu. Por isso a mataram. Não ouse nos dar as costas.
—Ou nem eu, nem o seu irmão, poderemos manter você a salvo. – concordou Bellatrix – Você vacilou, Rabastan. Nós vimos que você vacilou.
—Não. Nunca. – murmurou ele, mais pra si mesmo do que para os dois.
—Rabastan, olhe pra mim. – pediu Rodolfo. O mais novo dos Lestrange se afastou secando as lágrimas com as mãos e por fim olhou para o irmão mais velho – Você é minha família e eu sou a sua família. Somos irmãos. Melhores amigos, certo?
—Sim... – murmurou ainda infeliz.
—Se eu tivesse que escolher entre você e Bellatrix, que é minha esposa... eu escolheria você. E Bella sabe disso.
—Assim como se eu tivesse que escolher entre Rodolfo e Narcisa, eu escolheria Narcisa, sem pensar duas vezes. – disse Bellatrix docemente, sem parecer magoada – O laço entre irmãos é muito forte e precioso, Rabastan. Nunca coloque mulher nenhuma acima dele.
—Isso mesmo. Valentine te traiu.
—Não... eu não acredito.
—ACORDE, RABASTAN! – gritou Rodolfo o sacudindo – ELA TE TRAIU. ELA NUNCA TE AMOU! ELA ESTAVA COM LUPIN PELAS SUAS COSTAS!
Rabastan encarou o irmão boquiaberto, em choque.
—O... o que? – perguntou ele.
—Às vezes com Lupin. Às vezes com Black. Ela é uma fútil. Pergunte a Pettigrew. Ela não prestava, Rabastan! Aceita que dói menos.
Rabastan recuou alguns passos, em choque.
—Não... ela não faria isso.
Saiu de lá e aparatou para a casa de Pettigrew. Bateu na porta durante longos minutos, até que ele aparecesse. O homem o olhou assustado e Rabastan entrou.
—Está sozinho?
—E-estou...
—Quem matou Emily Valentine! – rosnou Rabastan colocando a varinha no pescoço de Pedro.
—E-e-eu não s-s-s-sei... – murmurou o gordo, em pânico.
—Ela estava trepando com Sirius? – perguntou Rabastan.
—Sim... – murmurou Pedro – Transou com ele no dia do casamento do James... na cama do James...
—Está mentindo! – sibilou, furioso.
—Ela mesma quem disse isso! – guinchou Pedro, escondendo o rosto – Ela mesma... quando precisou confirmar a identidade. Ela e Sirius viviam dormindo juntos...
—E Lupin? Ela estava transando com Lupin também? – perguntou Rabastan.
—N-não sei... – choramingou Pedro – E-ela f-ficou com e-ele... no quarto do Sirius... por um te-tempo. – murmurou Pedro. Ele respirou fundo – Remus disse que ela estava grávida...
—O que? – perguntou Rabastan soltando Pettigrew e cambaleando para trás – Grávida? Emily estava grávida?
Pettigrew tossiu um pouco.
—Sim. – murmurou o homem – Ela disse que era de um trouxa...
—Não podia falar que era meu... – murmurou Rabastan – Ela estava grávida de um filho meu... – lamentou Rabastan se sentando no chão. Ele se curvou para frente escondendo o rosto com as mãos – Ela estava esperando um filho meu... – repetiu.
Se levantou rapidamente e saiu de lá. Iria descobrir quem fora o desgraçado. Iria descobrir e iria matá-lo. Voltou para a casa do irmão, onde estavam se escondendo. Rodolfo estava lendo o Profeta, parecendo satisfeito, e Bellatrix bebericava um pouco de chá.
—Quem a matou, Rodolfo? – perguntou novamente.
—Não vou te dizer. Vai fazer besteira, se souber.
—Eu vou matar o desgraçado. – rosnou Rabastan.
—Não vai, não. – respondeu Rodolfo – Você precisa entender, Rabastan, que ela traiu você e...
—NÃO ME INTERESSA! – gritou furioso – Eu a amava, Rodolfo. É tão difícil pra você entender isso?
—Sim. É completamente impossível pra mim entender isso. – ralhou ele – Aquela mulher não prestava. Era fútil, viciada, pobre, sem prestígio... E ela pertencia à Ordem da Fênix. Ela te entregaria a Moody por um punhado de galeões.
—Não entregou. – retrucou Rabastan – Fiquei com ela durante dias, mas ela não me entregou. Cheguei até ela completamente ferido, incapaz de me defender. Ela cuidou das minhas feridas. Cuidou de mim... me deu abrigo. – Rabastan sentiu um nó na garganta. E ela estava morta... morta...
—Ela queria arrancar informações de você, Rabastan. Não seja tonto. – resmungou Bellatrix.
—Não. Ela nem tocava no assunto. É verdade que ela queria que eu largasse a causa... mas ela queria ficar comigo... queria fugir pra longe comigo. – murmurou ele – Ela sentia por mim, o mesmo que eu sentia por ela.
—Não seja idiota. – resmungou Rodolfo – Ela não amava você. Eu não queria falar isso, pra não te magoar, Rabastan. Mas já que você está tão iludido por essa mulher, eu vou falar. No dia em que eu fui falar com ela, ela não parecia nem um pouco contente ao saber que você iria sobreviver. Quando eu disse que você iria voltar por ela, me enxotou de lá. Aposto que vocês dois estavam trepando, nesse tempo em que ela te “acolheu”. Aposto que ela engravidou de você. – Rabastan sentiu um frio lhe subir a espinha – Ela não te amava, Rabastan. Ela queria te ver morto, para poder ficar com sua parte de herança. E com isso se drogar até morrer. Põe isso na sua cabeça de uma vez por todas.
Rabastan fechou o punho, com a mente cheia de dúvidas.
—Isso... isso não faz sentido... – murmurou Rabastan – Não faz sentido. Nenhum sentido...
—Pare e pense, Rabastan. Por que raios eu iria mentir pra você? – perguntou Rodolfo – Vá para seu quarto, descanse e volte logo a ser o que você é. Um leal e dedicado Comensal do Lorde das Trevas. Ou por um acaso quer ser castigado de novo?
Rabastan engoliu seco e baixou os olhos. Não sabia o que pensar. Não sabia em que acreditar... a única coisa da qual tinha certeza era que Emily estava morta... e nem mesmo poderia ir a seu funeral... ou acabaria morto.
*
Rasalas não estava falando com a mãe. Ela estava furiosa, magoada e envergonhada, tudo ao mesmo tempo. Então ele achou melhor simplesmente ignorá-la por um tempo.
Estava na loja de Madame Greengrass, olhando sua irmã servir chá para os clientes. Sua mãe ajudava uma senhora de idade a encomendar um vestido. Rasalas estava tentando terminar seu dever de casa. Sua irmã já tinha feito tudo, então estava livre. Daphne ainda não tinha terminado também, então estavam trabalhando juntos, rindo de piadas internas.
Vez ou outra riscava o caderno dela, só por pirraça e ela fazia o mesmo com o dele. Ela escreveu várias vezes “Daphne passou por aqui” em seu caderno de História da Magia e ele escreveu “Rasalas é o garoto mais lindo do meu ano” no dela.
Estavam trocando risadinhas quando Astoria gritou.
—Daphne! Você e o Rasalas estão de namorico?
Rasalas olhou para Astoria e revirou os olhos, mas Daphne corou violentamente e se levantou de uma vez.
—Cale a boca! Não fique falando essas besteiras! – ralhou ela.
—Tá sim! Tá de namorico com o Rasalas... fazendo o dever juntinho, cheia de risinhos e cochichos!
—Está com ciúmes, Astoria? – riu Rasalas acidamente.
—Nada. – riu Daphne com uma risadinha malvada – Ela gosta é do Malfoy.
—É mesmo, é? – perguntou Rasalas. Astoria corou furiosamente e depois empalideceu de uma vez – Vou contar pra ele se ficar perturbando eu e a Daphne.
—Não! Eu não gosto dele. A Daphne que é uma mentirosa! – disse ela, em pânico, corando de novo.
—Então, se não quiser que eu conte... vai ter que se comportar. – disse Rasalas com um sorrisinho. Astoria bufou, batendo o pé no chão, e então saiu de lá.
Rasalas riu com Daphne e logo voltaram a fazer a tarefa. Foi quando um homem apareceu. Ele usava vestes púrpuras e um turbante. Madame Greengrass veio atendê-lo pessoalmente, o que era muito estranho. Ela só vinha atender os clientes mais importantes e ele nunca tinha visto aquele homem antes.
—Shacklebolt. Que prazer em te receber. No que posso ajudar? – perguntou ela.
—Madame Greengrass... infelizmente não vim aqui por suas roupas. – respondeu ele com uma voz muito grave – Temo dizer que algo terrível aconteceu...
—O que houve? – perguntou ela.
—Certamente se lembra de Sirius Black, certo? – perguntou Shacklebolt.
—Sim. É claro. – respondeu ela – Foi preso por ter traído os Potter.
—Ele fugiu ontem a noite de Azkaban.
—O que? – perguntou Emily Valentine. Ela se aproximou olhando para o tal Shacklebolt com o olhar petrificado – F-fugiu?
—Sim, senhora. – respondeu ele.
—Mas como? Isso é impossível. – disse Madame Greengrass.
—Nós também achávamos. – murmurou Shacklebolt – Mas Black simplesmente desapareceu de sua cela. Sem deixar pistas...
—Só ele, não é? – perguntou sua mãe. Rasalas franziu a testa – Nenhum outro prisioneiro fugiu, não é? – perguntou ela.
—Não. E nós reforçamos a segurança. – garantiu Shacklebolt – Mais nada vai fugir de lá, senhora. – garantiu ele.
Rasalas ficou muito quieto enquanto escutava Shacklebolt pedir que Madame Greengrass colocasse os cartazes de “procurado” na frente de sua loja e dentro também. Mas tudo o que Rasalas conseguia pensar era: se Sirius Black fugiu... o que impediria que seu pai fugisse também?
**
Todos pareciam muito preocupados com a fuga de Sirius Black, mas sua mãe parecia ainda mais. Ela não parava de tremer, de olhar por cima do ombro. Estava uma pilha de nervos. Rasalas e Alhena ficavam trocando olhares preocupados, temendo que ela fizesse algo estúpido.
Rasalas foi até a cozinha, procurar algo para petiscar enquanto o almoço não ficava pronto. Sua mãe estava tentando cortar algumas cebolas. Mas a mão dela tremia com tanta violência, que ela só batia a faca na tábua de cortar. Ela olhava para a faca com um olhar vidrado e estranho.
—Mãe? – chamou baixinho. Mas ela não respondeu. Se aproximou dela, muito devagar. Esticou a mão, lentamente e a colocou em cima da dela. Sua mãe saltou de susto e tentou acertá-lo com a faca. Rasalas puxou a mão com velocidade, mas o fio pegou em seu dedo, fazendo um corte profundo ali.
—Oh, meu Merlin. Me perdoe! – chorou sua mãe largando a faca em cima da pia. Ela o olhava em pânico, agitada. Nunca tinha visto a mãe nervosa daquele jeito.
—Calma. – pediu Rasalas com uma careta – Eu acho que não vou perder o dedo. – disse rindo, fazendo graça para que ela visse que não tinha sido grave e que estava tudo bem.
Sua mãe correu até o armário, para pegar suas poções de cura. Rasalas colocou o dedo debaixo da torneira, fazendo careta ao sentir a água gelada cair sobre o corte. Sua mãe procurava desesperada pelo frasco com a poção cicatrizadora, mas ela parecia completamente desorientada, sem conseguir achar a poção que queria.
—Inferno! ALHENA! – gritou ela. Alhena apareceu correndo com uma expressão curiosa no rosto. Ela olhou do irmão para a mãe e entrou na cozinha – Pegue o dínamo, por favor. Eu não estou achando. – disse sua mãe, procurando o frasco com as mãos trêmulas.
—Ok. O que houve, Rasalas? – perguntou Lena. Rasalas viu sua mãe parecer infeliz ao escutar a pergunta. Provavelmente se culpava por tê-lo machucado.
—Eu me cortei com a faca. Sabe como sou desastrado. – disse dando de ombros.
—Ai, ai... – suspirou Alhena, calmamente, pegando o frasco correto. Rasalas teve a impressão de que sua mãe já o tinha pego umas três vezes – Quer que eu aplique, mamãe?
—É melhor... – murmurou sua mãe com as mãos trêmulas, passando uma mão nos cabelos, que estavam loiros e opacos, sem as mexas cor de rosa que normalmente tinham. Sua mãe sempre disfarçara muito bem seu dom de metamorfomagia, mas até mesmo isso parecia sem controle naqueles dias, desde que ouviram que Sirius Black tinha fugido da prisão.
—Mãe. O que foi que houve? – perguntou Rasalas mostrando a mão machucada para a irmã, que logo deixou algumas gotas de dínamo caírem na ferida. Sentiu uma leve coceira e o corte foi diminuindo aos poucos.
—Não... não é nada... – murmurou sua mãe, com um ar perdido. Mas então ela se levantou agitada, com os olhos inquietos – Eu... eu preciso beber algo forte...
—NÃO! – gritaram Rasalas e Alhena juntos.
—Só um pouco... – murmurou sua mãe tirando o avental e o jogando em cima da mesa – Só para me acalmar... ou vou enlouquecer.
—Mãe. Por favor... – pediu Rasalas a segurando no pulso – Por mim. Não faz isso.
—Por mim também, mamãe. – murmurou Alhena.
Rasalas viu a mãe respirar muito fundo, olhando para todos os lados. Ela parecia tentar recuperar o controle de si mesma, mas parecia muito longe de conseguir isso. Logo viu o lábio dela tremer e ela escondeu o rosto com as mãos, apoiando as costas na parede e escorregando até o chão.
—Mamãe... o que houve? – perguntou Rasalas.
—Oh, meus amores... me desculpem... – murmurou ela soluçando – Eu... eu preciso de um pouco de Gole da Paz... só isso... Rasalas, você pode ir no Beco diagonal comprar pra mim?
—Ok... – murmurou o garoto.
Sua mãe se levantou secando o rosto.
—Alhena, você pode fazer o almoço, querida? Eu... eu não estou me sentindo bem... – ela fungou, ainda tremendo, sem olhar para nenhum dos filhos – Eu... eu vou dormir um pouco...
Rasalas e a irmã observaram a mãe se afastar e rumar para o próprio quarto. Alhena suspirou e colocou o avental ao redor da cintura. Rasalas pegou algumas moedas no pote da cozinha e olhou para a irmã.
—Você sabe o que ela tem? – perguntou ele.
—Não. – respondeu ela – Mas espero que ela melhore antes que a gente volte pra escola... – Alhena soltou um suspiro e lavou a faca, que estava suja de sangue – Não quero imaginar como vai ser ter a mamãe sozinha aqui, nesse estado.
Rasalas sentiu um peso no fundo do estômago. Não queria que nada de ruim acontecesse com a mãe, nem que ela voltasse a beber e a se drogar. Mas simplesmente não poderia não voltar para Hogwarts.
Deixou a irmã cuidando do almoço e pegou o flú para ir para o Beco Diagonal. Comprou a poção para a mãe, olhando os panfletos de “Você viu esse bruxo?” espalhados por todos os lados. Tinha a impressão de já ter visto aquele rosto em algum lugar. Mas não sabia onde.
Voltou para casa com aquela dúvida a lhe incomodar. Foi para o quarto da mãe e a encontrou andando nervosa de um lado para o outro. Ela o olhou com os olhos arregalados e suspirou estendendo a mão quando ele lhe ofereceu o frasco de poção.
—Obrigada, querido. – murmurou a mãe.
—Mãe... quem é Sirius Black? – perguntou Rasalas. – Você o conheceu?
Sua mãe se sentou na beirada da cama.
—Sim... ele era... ele era meu amigo. – murmurou ela rodando o frasco de Gole da Paz nas mãos – Um grande amigo.
—Ele era um Comensal, não era? – perguntou o garoto. Sua mãe concordou com a cabeça – Você tinha uma turma barra pesada, heim? Meu pai, Black... – riu Rasalas cruzando os braços e se escorando na parede.
—Ele era um espião... – murmurou sua mãe com um olhar perdido – Traiu a confiança de todos nós... – ela suspirou e deu um sorriso triste – Deveríamos ter imaginado... a família inteira dele era podre... Régulus, Bellatrix...
—Bellatrix Lestrange? A esposa do tio Rodolfo?
Rasalas viu sua mãe esbugalhar os olhos e ficar completamente tensa.
—Sim.
—O que foi?
—Não é nada, querido. – murmurou sua mãe com um sorriso trêmulo. Um sorriso que ele notou que ela estava lutando para manter no rosto – Ajude sua irmã com o almoço, ok?
—Ok... – murmurou Rasalas, encucado com tudo aquilo.
***
Alhena estava desenhando enquanto Rasalas brincava com seu frisbee dentado. Era o último fim de semana do verão e os gêmeos estavam loucos para voltar para a escola. Rasalas jogou o frisbee e fez uma careta quando seu avô apareceu na sala. Ele se abaixou agilmente e falou como se nem tivesse visto o brinquedo, que estava mordendo um urso que ele tinha entalhado.
—Vão se arrumar. As vestes a rigor estão em seus quartos. Nós vamos nos Malfoy.
—OBA! – riu Rasalas com alegria. Alhena suspirou, fazendo bico, mas, como sempre, não reclamou.
Rasalas tomou seu banho e foi se vestir. Um bonito conjunto de vestes negras estava já em cima de sua cama. Ele se vestiu e pegou uma garrafinha de bolso, cheia de whisky de fogo, do compartimento secreto de seu tio Rodolfo. Escondeu a garrafinha no bolso das vestes e foi para a sala esperar pelos parentes.
Logo seu avô apareceu e se sentou ao seu lado. Ele estava com os cabelos prateados todos penteados para trás. Rasalas notou que ele estava com duas entradas avançadas na testa e se perguntou se o avô – e ele – ficaria careca.
Os minutos passaram e logo sua avó e Alhena apareceram, também prontas. Ambas usavam vestidos prateados e Rasalas ficou feliz de ver que a irmã usava um traje mais moderno, sem espartilho e, por isso, mais confortável.
Seu avô aparatou com ele, enquanto a avó aparatou com Alhena e logo estavam mais uma vez no luxuoso jardim da Mansão Malfoy. Andaram juntos até a mansão, com Rasalas de braços dados com a irmã. Ela olhava preguiçosamente para a mansão. Ela não se sentia bem naquele tipo de ambiente.
Alhena nunca se adaptara à vida de elite. Ela era uma garota simples, com desejos simples. Enquanto Rasalas sentia que tinha nascido justamente para aquilo. Para ser realeza. Já pensara em ser jogador de Quadribol, mas agora, a vida de negócios do avô parecia igualmente interessante. Um emprego burocrático no Ministério, onde todos viriam bajulá-lo...
Viver de festa em festa. De baile em baile. Com luxo, poder e influência. Isso era ser um Lestrange e era por isso que amava o sobrenome.
Logo encontrou Draco, que por educação se ofereceu para andar com Alhena. A irmã corou, obviamente, mas ao menos não desmaiou novamente.
—Acho que estou perdendo meu charme. – debochou Draco para o colega. Alhena corou ainda mais – Estão te alimentando bem, Alhena? Você está mais magra.
—Eu engordei dois quilos. – respondeu ela, acidamente.
—Mesmo? Talvez seja porque está mais alta. – disse Draco com um sorrisinho. Rasalas o olhou desconfiado. Alhena não estava nada mais alta e nem um pouco mais magra. O que ele estava querendo? – De qualquer maneira. Estão todos lá no salão de chá. Vamos pra lá? – perguntou ele.
—Sim. – respondeu Rasalas.
O trio logo chegou na sala de chá e Alhena se soltou de Draco para ir para junto das amigas. Felizmente, dessa vez, ela não tropeçou e conseguiu chegar sã e salva do outro lado.
Rasalas cumprimentou Damian, Blair, Vince e Greg e então ficaram conversando até que Pansy fosse até eles.
—Nós vamos fazer um jogo. – disse ela com autoridade.
—Sabe o que eu gosto na Pansy? – riu Damian – É esse jeito dela de decidir o que nós queremos fazer. Como se fôssemos concordar com qualquer coisa que ela propusesse. – riu ele. Pansy nem se abalou. A garota caminhou felinamente até uma mesa e pegou uma garrafa de vinho que tinha ali.
—Nós vamos brincar do jogo do beijo. O que acham? – riu ela.
—Sempre cheia das boas ideias, essa Pansy. – riu Damian, arrancando risinhos de todos, menos Vince, que não pareceu gostar muito da ideia.
—Eu sei lá... e se eu tiver que beijar a Emilia ou a Alhena. Credo. – resmungou ele. Rasalas o olhou feio, mas Pansy quem respondeu.
—Elas vão ter que lidar com o azar delas de beijar você. Ou talvez prefiram pagar uma punição no lugar. É o que eu faria. – riu ela, acidamente e Vince corou absurdamente – E então? Topam? Ou estão intimidados demais para beijarem pela primeira vez?
—Vamos lá. – riu Draco, parecendo animado. Todos estavam, na verdade.
—Com uma condição. – disse Rasalas. Todos o olharam – Eu não beijo minha irmã. Se cair com a gente, gira a garrafa de novo.
—Justo. Os beijos tem que durar pelo menos sessenta segundos. E só vale beijo entre menino e menina. Ok? – riu Pansy se sentando e todos concordaram. Fizeram um círculo e Pansy girou a garrafa. Uma ponta apontou para Emilia e outra para Greg. Os dois coraram muito e todo mundo caiu na risada – E então? Beija ou punição?
—Beijo. – disseram os dois, corando.
Ambos engatinharam para perto um do outro e se beijaram desengonçados. Rasalas sentiu um frio na barriga, olhando as meninas. A única que seria legal de beijar seria Pansy e ele não sabia se iria gostar muito, pois a achava um pouco chata. Emilia era feia, Alhena era sua irmã e Daphne... com Daphne seria esquisito...
Depois de um minuto, Pansy avisou que o tempo acabou e Emilia e Greg voltaram a se sentar em seus lugares. Draco girou a garrafa e ela apontou para Alhena e Blair. Blair sorriu para Lena, que corou furiosamente.
—Deu sorte, amiga. – riu Daphne – Dá um beijo nele! Não pode correr!
Alhena sussurrou alguma coisa, baixinho para Pansy, com os olhos assustados. Mas a morena apenas riu, achando graça.
—Blair não disse que não vai te beijar. Para de ser medrosa! – respondeu ela – Você vai beijar, não vai, Blair?
—Eu não vejo problema. – respondeu Blair. Rasalas deu uma risadinha da cara de pânico da irmã. Ela iria acabar pedindo uma punição – Não quer me beijar, Alhena? Eu não sou bonito o suficiente pra você, é isso?
Alhena corou ainda mais do que parecia possível, adquirindo um tom quase roxo, mas ela negou veementemente com a cabeça e respirou fundo. Ela engatinhou até Blair, que fez o mesmo até ela. Rasalas viu a irmã fechar os olhos com força e fazer um biquinho, como se fosse dar um reles selinho no garoto. Blair olhou para Pansy, que o olhou sugestivamente. Depois ele olhou para Rasalas, que sorriu com aprovação.
Então Blair Zabini puxou Alhena pela cintura, que abriu os olhos, assustada. Os dois se entreolharam por instantes. Ela o olhava, em completo choque. Ele colocou a mão no rosto dela e então a beijou carinhosamente. Rasalas olhou para o outro lado, pois achou tremendamente esquisito ver sua irmã beijar um de seus melhores amigos.
—Se joga, amiga! – riu Emilia – Abraça ele! Larga de timidez.
Rasalas espiou a irmã novamente, sem ter certeza de que queria mesmo espiar. Ela estava com os olhos fechados e beijava Blair, ainda muito vermelha. O colo dela subia e descia, mostrando algum nervosismo, mas ela parecia ficar cada vez mais calma, curtindo o beijo do garoto.
—Já passaram sessenta segundos? – perguntou Rasalas, levemente incomodado.
—Não. Agora que deu trinta. – riu Draco, conferindo o relógio de bolso.
Rasalas soltou um muxoxo, se sentindo completamente desconfortável com tudo aquilo. Queria que sua irmã se divertisse, mas não era lá muito legal vê-la beijando um amigo seu. E quando Blair a abraçou, de joelhos e ela o envolveu com os braços ao redor do pescoço... Fez uma careta, fingindo que iria vomitar e Vince e Greg riram achando graça.
—Opa! Sessenta segundos. Podem soltar. – riu Draco.
Blair ainda deu uns três beijinhos em Alhena antes de soltá-la. A garota o encarou ainda meio corada, mas muito menos nervosa. O garoto sussurrou algo no ouvido dela e ela ficou tensa. Voltou para o seu lugar completamente vermelha. Blair se sentou parecendo muito satisfeito consigo mesmo. Rasalas não sabia se ficava feliz ou se socava o amigo.
—Muito bem! Vamos girar isso. – riu Pansy girando a garrafa. Ela apontou para Draco e Rasalas, então ela girou de novo. Pansy e Daphne. Mais uma vez. Damian e Alhena – Alhena está pegando fogo! – riu Pansy.
—Oh! – murmurou a garota ficando vermelha.
—Me dá um BEIJÃO, Lena! – riu Damian ficando de joelhos e estendendo os braços. Rasalas torceu o nariz, incomodado.
Alhena engatinhou até o garoto e começou a beijá-lo, mas ela parecia menos a vontade do que com Blair. Damian riu entre os lábios dela e a deitou no chão, mas aquilo foi o cúmulo para Rasalas.
—Chega! Isso passou dos limites! – ralhou ele.
—Só estamos nos divertindo, Ras. Relaxa. – riu Draco.
—Vou ficar com ciúmes, Lena! – riu Blair.
—De joelhos e levemente afastados! Tá achando que minha irmã é o que? – perguntou Rasalas.
—Se eles pararem de se beijar, vão ter que ficar mais trinta segundos se beijando. – disse Pansy. Rasalas a olhou fechando a cara e Damian se afastou de Alhena, que estava em choque, ainda deitada no chão.
—Opa! Mais beijo pra mim! – riu ele.
—Muito engraçado! – resmungou Rasalas.
—Quem diria que o Ras seria ciumento? – perguntou Blair.
—Isso sempre foi óbvio. Ele quer controlar a vida da Alhena o tempo todo. – murmurou Pansy.
—Eu não faço isso! Você faz isso! – retrucou ele.
—Porque eu sou a amiga dela. – disse Pansy, convencida – E olha só. Ela deu uns amassos em dois lindos garotos graças a mim. O que ela conseguiu com você?
Rasalas a olhou indignado, mas antes que pudesse responder, Draco falou.
—Por que eles não estão se beijando? Eles deveriam estar se beijando! – riu ele.
Rasalas cruzou os braços se recusando a assistir. Quando o beijo dos dois terminou, giraram a garrafa e ele viu que teria que beijar Daphne. A garota sorriu corada para ele e Draco deu uma risadinha. Olhou feio para o colega e soltou um suspiro. Não iria pagar de frouxo por achar que seria esquisito.
Engatinhou até Daphne, que parecia muito animada com a ideia. A garota segurou suas mãos e se aproximou com um biquinho. Rasalas respirou fundo e a beijou, tentando não pensar no quanto era estranho beijar aquela menina. Mas assim que começou a beijá-la, sentindo os lábios macios dela lhe acariciarem, notou que estava tudo bem. Era bom. Tinha gosto de morango.
Suspirou e acariciou as mãos dela com os polegares. Daphne suspirou e soltou suas mãos, para abraçá-lo. Ele a envolveu pela cintura e estremeceu ao sentir os dedos dela lhe alisarem a nuca.
Foi quando seu corpo começou a responder a aquilo tudo. Sentiu que estava se “empolgando” demais com a situação. Quando Daphne lhe deu uma mordidinha no lábio, então, seu corpo tremeu inteiro. Quis se afastar dela, temendo que ela sentisse, mas teve vergonha de se afastar e alguém notar.
Aquele dilema o estava matando. Acabou escolhendo não se afastar. Não estava assim tão junto dela. A mordiscou de volta e ela sorriu para ele, o olhando nos olhos.
—Sessenta segundos. – disse Draco.
—Já? – perguntou Rasalas – Está me sacaneando!
—Se quiser seguir beijando a Daphne, é só ficar mais pra lá, oras. – riu Draco.
Rasalas olhou travesso para a menina, que corou de leve.
—Não! Nós vamos continuar brincando. – disse Pansy – Vem, Daphne.
Daphne o olhou e suspirou, desanimada, mas não desobedeceu Pansy Parkinson. Rasalas revirou os olhos e se sentou no seu lugar.
Draco e Pansy se beijaram fogosos e parecia que iriam tirar a roupa um do outro a qualquer momento.
Emilia beijou Blair, timidamente.
Vince caiu com Pansy e ela preferiu levantar a saia do vestido e mostrar a calcinha preta de rendinha a beijá-lo.
Damian beijou Daphne. Damian muito mais animado que ela.
Draco beijou Daphne e os dois pareceram curtir.
Rasalas acabou tendo que beijar Pansy e nenhum deles pareceu satisfeito com a ideia.
Quando Daphne iria beijar Rasalas de novo, um elfo apareceu na sala de chá, falando que todos estavam sendo chamados na sala de visitas.
Rasalas franziu a testa, achando aquilo estranho. Ele e Alhena trocaram um olhar e a garota virou os olhos. Rasalas correu até ela, para segurá-la (ela já tinha caído algumas vezes naquilo). A irmã estremeceu e todos pararam para olhar. Quando ela voltou ao normal, suspirou, piscando.
—O que foi isso? – perguntou Damian – Ela tá passando mal?
—O que você viu? – perguntou Rasalas.
—Homens de roxo estão aqui... o senhor Malfoy está muito zangado, mas o Ministro da Magia vai mandar todo mundo embora e vai ficar se desculpando... – murmurou Alhena – Vieram para falar com a senhora Narcisa e com o nosso avô.
Draco piscou, surpreso.
—Você é uma vidente? – perguntou Blair.
—Minha mãe? O que querem com a minha mãe? – perguntou Draco.
—Sirius Black. Eles eram primos em primeiro grau. E a irmã dela é casada com nosso tio. – Alhena soltou um suspiro – Os irmãos Lestrange, Bellatrix Lestrange e Sirius Black ficavam em celas próximas. Então querem interrogar todos que possam ter alguma ligação com a fuga de Sirius Black.
Pansy olhou para ela com um olhar surpreso. Draco parecia completamente desgostoso de ouvir aquilo.
—Meu pai vai ficar furioso. – murmurou ele saindo da sala.
—E o que querem com a gente? – perguntou Blair.
—Eu não sei. – respondeu Alhena, um pouco ofegante.
Os dois irmãos trocaram um olhar apreensivo e logo foram atrás de Draco. Voltaram para a sala de visitas. Um homem alto, com os cabelos dourados, que faziam com que ele parecesse um leão falava com Lúcio Malfoy de maneira agressiva. O Sr. Malfoy se colocava entre ele e a esposa e parecia completamente lívido.
Seu avô também parecia completamente zangado.
—Eu nunca moveria um dedo pra retirar qualquer um daqueles garotos de Azkaban. – rosnou seu avô – E não me envolveria com alguém que fosse arriscar a própria reputação numa idiotice dessas!
—Saiba, Fudge, que eu considero isso uma grave ofensa contra minha pessoa. Eu, que sempre fiz tão generosas doações ao Ministério. – rosnou o Senhor Malfoy – Parece que vocês tomaram gosto por fazer acusações infundadas contra minha família!
O homem que parecia um leão riu com escárnio.
—Porque você é tão inocente, não é, Sr. Malfoy? – perguntou ele.
—Escute aqui, Scrimgeour... – começou o senhor Malfoy.
—Se sua esposa não tem informações sobre o paradeiro de Sirius Black e é completamente inocente, não há motivos para ficar apreensivo, Sr. Malfoy. – cortou Scrimgeour calmamente.
—A questão não é essa, seu imbecil. – rosnou o Sr. Lestrange – Só o fato de estar... – ele se interrompeu – Eu não vou perder meu tempo explicando o óbvio para esse mestiço sem classe. Estou indo embora, Lúcio. Eda, Rasalas e Alhena, vamos!
Rasalas e Alhena caminharam até o avô mas um auror segurou Alhena pelos ombros, com brusquidão.
—Ninguém sai daqui até que todos sejam interrogados. – disse ele.
Alhena encolheu, assustada. Mas aquilo foi o cúmulo para o avô deles. Rodolfo Lestrange sacou a varinha e a apontou para o auror que segurava a menina.
—Solte minha netinha agora mesmo, seu traste. – rosnou o avô. Rasalas viu que sua avó ficou ao lado dele, com a varinha também em punhos.
—Isso é um absurdo! Abaixe a varinha, homem! – rosnou uma mulher qualquer, que era gorda, com os olhos meio saltados. Rasalas não conseguia olhar para ela e não pensar em um sapo.
—Não vou abaixar enquanto não soltar a minha neta! Com quem acha que está lidando, heim? – rosnou o avô.
—Newett. Solte a garota. Céus! – choramingou Fudge, que parecia prestes a ter um ataque de nervos. O reconheceu das fotos dos jornais das últimas semanas – Não estamos lidando com criminosos. São bons bruxos. Eu sinto muito, Lúcio. – disse ele se virando para o Sr. Malfoy – Isso foi tudo um mal entendido. Mas é que estão todos muito nervosos com essa fuga... – Fudge suspirou puxando Alhena com gentileza e a guiando para junto do avô. Rasalas viu o velho a puxar para ficar atrás dele, como se temesse que alguém a pegasse de novo – Nós só pensamos que talvez sua esposa tivesse escutado algo de Bellatrix, ou que seu neto tivesse ouvido algo de Rabastan... Sabemos que os visitaram no último mês... Na verdade, na semana em que Black fugiu.
Rasalas encolheu de leve, olhando temeroso para o avô, que não o olhou de volta. Depois mirou o Sr. Malfoy, que olhava zangado para a esposa.
—Meu neto não sabe de coisa nenhuma! – rosnou seu avô – Rasalas, venha pra cá. – disse ele, severamente. Rasalas não desobedeceu. Sentiu o avô segurá-lo com força no ombro, mas não esboçou reação – E só a insinuação de que ele ouviu algo do gênero e não me contou me ofende, Fudge. Malfoy não é o único que sustenta seu governo, sabe? Eu seria mais cuidadoso no seu lugar.
—Está ameaçando o ministro da magia? – perguntou a sapa, parecendo absurdamente ofendida.
—Não. Estou dando um bom conselho, Umbridge. E no seu lugar, eu o aceitaria. – respondeu o avô – Estamos indo. Ou ainda pretende me dizer mais alguma ofensa, Cornélio?
Fudge olhou nervoso para Rasalas, mas negou com a cabeça.
—Meu pai não me disse nada. – murmurou Rasalas – Apenas queria saber se eu estava indo bem na escola e como estava minha mãe, minha irmã e meus avós... – explicou ele – Ele nem mencionou Sirius Black.
—Feliz? – rosnou o avô – Boa noite, Lúcio. Vamos.
Rasalas sentiu a mão do avô em seu pescoço, o guiando para fora. Sabia que iria levar uma bronca. Tinha certeza que sim. Saíram da mansão e então aparataram para casa. Rasalas viu seu avô apoiar-se na bengala e tirar a capa, para jogá-la no sofá.
—Desculpe, vovô. – murmurou Rasalas baixando os olhos – Eu não sabia que...
—Não há motivos para se desculpar. – cortou sua avó, docemente – Você não fez nada de errado.
—Fudge é um completo demente. – rosnou seu avô, se sentando no sofá – Como ele ousou? Como ele ousou?
****
Rasalas olhou para o trem, com expectativa. Mais um ano que se aproximava. Ele chegara a conclusão de que suas férias eram muito chatas! Queria poder ver os amigos todos os dias e ser simplesmente uma criança durante todos os dias.
Ele olhou para o lado e viu Daphne e a irmã entrarem no trem. Seu rosto corou de leve e sua irmã deu uma risadinha. Sua mãe o olhou parecendo escandalizada.
—Rasalas! Arrume esse seu cabelo! – ordenou ela. Piscou sem entender e puxou uma mexa para verificar a cor. Estavam cor de rosa escuro. Riu sem jeito e os voltou para o loiro acastanhado, que era o tom natural de seus cabelos.
—Desculpe.
—Não pode ficar se descontrolando desse jeito, filho. Caso contrário vai acabar se esquecendo de como você realmente é e nunca mais vai conseguir voltar ao normal.
Rasalas apenas concordou em silêncio.
—Ele não deveria ter que esconder o dom dele. – disse seu avô, severamente – É um dom bastante raro.
—Eu concordo com Rodolfo. Desde que Rasalas não abuse. – disse a avó.
—É uma pena que Alhena não tenha herdado o dom. – murmurou o avô, olhando para Alhena, que desviou o olhar – Seria muito mais fácil dela entrar nas roupas que compro pra ela.
—Se comprasse roupas para o modelo dela, talvez ajudasse, Lestrange. – rosnou sua mãe. Ela sorriu para Alhena e lhe apertou a bochecha – Não se preocupe com seu peso, querida. Garotos gostam de ter o que apertar a noite, ok? – disse ela lhe dando uma piscadinha.
—Mãe! Ninguém vai apertar a Lena! – ralhou Rasalas franzindo a testa.
—Cuidem-se, ok? – pediu a mãe – E Rasalas, tenta receber menos detenções nesse ano e não arrume confusão com seus professores, ouviu?
Rasalas franziu a testa.
—Eu nunca arrumei confusão com professor nenhum! – resmungou ele.
—Então continue assim. – disse ela o olhando nos olhos, com intensidade – Por favor.
—Muito bem, crianças! – disse o avô quando o trem apitou, para deixar claro que estava na hora de sair – Vamos, vamos. Hora dos abraços finais. Não podem perder o trem.
—Seu avô tem razão. Um beijo, Alhena! – disse a avó puxando a neta. Rasalas notou que ela sussurrou qualquer coisa no ouvido da irmã e esta sorriu sem jeito. A avó a beijou no rosto e as duas sorriram uma para a outra. Depois a avó o puxou também – Um beijo, meu querido. – disse sua avó o abraçando e o beijando na testa – Estude bastante! E cuide da sua irmãzinha.
—Pode deixar.
Rasalas viu o avô apertar a bochecha de Alhena, com um sorriso meio acanhado. A menina o olhava um tanto surpresa. O avô a segurou no queixo, para olhá-la no rosto.
—Você vai ser uma mulher muito bonita, Alhena. Olhe só que olhos que você tem... Se tivesse um pouco mais de vaidade, colocaria as duas filhas de Greengrass no bolso.
—Daphne é muito mais bonita que eu. – retrucou Alhena.
—Ela é, mas só porque você não faz questão de ser mais bonita. Eu tenho certeza disso. – o avô suspirou e a soltou, se virando para Rasalas. Ele deu um largo sorriso para o neto, que levantou a cabeça numa pose mais arrogante – E você... você com certeza vai dar trabalho. He... – riu ele numa tossida – Seus filhos são muito bonitos, Valentine. Mais bonitos do que você ou Rabastan. Foi uma boa mistura de genes.
Rasalas olhou para a mãe, que olhava para o lado oposto, sem querer encarar o senhor Lestrange.
—É, eu sei. – disse ela simplesmente.
—É uma pena que você e Rabastan não se casaram... eu duvido que meu filho caçula teria terminado onde ele terminou se tivesse tido mais pulso para insistir em ficar com você. Por mais que eu desaprovasse a união, naquela época... eu nunca iria proibi-lo. Você vem de uma família sangue puro, afinal de contas.
—É só isso o que importa, não é, Lestrange? – rosnou sua mãe – Sangue?
—O que importa é que as crianças seriam mais felizes se todos nós tivéssemos agido com menos orgulho no passado. – retrucou o avô – Mas não é hora nem lugar para discutirmos isso. Vão, vocês dois. Antes que fiquem de fora do trem.
Rasalas e Alhena beijaram a mãe, rapidamente, e correram para o trem, quase ficando do lado de fora. Os dois caminharam pelas cabines, procurando por seus amigos da Grifinória. Já era uma tradição ficar a viagem com eles.
Como normalmente acontecia, eles estavam na última cabine. Abriu a porta, com um sorriso no rosto. Olhou primeiro para Hermione, que era de quem ele mais gostava. A menina sorriu de volta para ele. Depois olhou pra Ronald e Harry. Mas assim que o fez, notou que havia um homem ali. Meio grisalho, com vestes surradas e aparência enferma.
—O que raios esse cara tá fazendo aqui? – perguntou Rasalas, num sibilo furioso.
—Acho que ele vai ser nosso novo professor de DCAT. – respondeu Hermione. Alhena sorriu encantada e Rasalas lamentou não estudar na Durmstrang.
—Está de brincadeira, não é? – perguntou ele – Vamos, Lena.
—Eu vou ficar aqui. – disse ela, calmamente.
—Não quero ficar com ele. Já basta ter que me encontrar com Lupin nas férias. – resmungou Rasalas.
—Então nos encontramos no castelo. – disse Alhena, tranquilamente.
Rasalas piscou, chocado. Se sentia traído. Ele olhou chateado para a irmã e saiu sem se despedir. Logo encontrou a cabine com Damian, Blair, Draco, Vince e Greg. Se sentou ao lado de Blair e cruzou os braços.
—Cadê a sua irmã? – perguntou Blair.
—Em má companhia. – respondeu Rasalas, zangado – Na cabine de Potter. – adicionou, mas se referindo a Lupin. Ele não via problema nenhum com os Grifinória.
Houve um silêncio na cabine e então Rasalas sentiu os braços de Damian o envolverem.
—Que lindo! Eles crescem tão rápido. – riu Damian.
—Do que está falando? – perguntou corando.
—Estou falando que você finalmente está aprendendo com quem é certo passar o tempo, Weasley. – respondeu Damian bagunçando seus cabelos. Rasalas puxou uma mexa novamente e viu que mais uma vez tinham mudado de cor (rosa berrante).
—Que droga! – resmungou voltando-os ao normal – É a segunda vez que muda de cor sem que eu tenha tido intenção.
—Você brigou com o trio de ouro de Dumbledore? – perguntou Draco o olhando com um sorriso debochado.
—Não. É só o amigo da minha mãe que está na cabine. E aparentemente ele vai ser nosso professor de DCAT. – resmungou Rasalas – Estou cagando pros três. Eles são meus amigos. Mas não suporto Lupin.
—Qual o problema com ele? – perguntou Blair.
—Ele quer comer a minha mãe. E ele é... insuportável. – resmungou Rasalas, arrancando risadinhas de todo mundo.
—Bem... sua mãe é mãe solteira, né? – perguntou Vince – Normal.
—Como assim? – perguntou Rasalas fechando ainda mais a cara.
—Ela não tem um marido. Normal que alguém queira dar em cima dela, ué. – explicou Vince – Ou você quer que ela passe o resto da vida sozinha?
—Ela não vai estar sozinha. Ela tem eu e Alhena.
—Garotinho da mamãe. – debochou Damian lhe apertando a bochecha.
—Me solta, idiota. – resmungou dando um tapa na mão dele.
Estavam todos rindo da irritação dele, quando a porta da cabine se abriu. Parkinson, Greengrass e Bulstrode.
—Olá, queridos... onde está Alhena? – perguntou Parkinson.
—Com Potter. – respondeu Draco – Está confraternizando com o inimigo. É isso o que ela está fazendo. – ele olhou para a garota, que tinha um certo ar de reprovação no rosto – Por que não traz ela pra cá. Ela escuta você.
—Ah... a cabine já está muito cheia. Mas eu vou livrá-la das mãos dos Grifinória. Mas, fala sério... a sua irmã parece ser uma desmiolada. Por que quer andar com aquela gente?
—Eles são legais. – defendeu Rasalas, cada dia mais detestando Pansy Parkinson.
—Eles são legais? Oh... esqueci que falava com o rei dos desmiolados. – riu ela com desdém. Rasalas a olhou friamente e Pansy se virou para sair.
—E eu com a rainha das piranhas. – retrucou ele – Apesar de Daphne parecer mais com as sereias gregas. – adicionou lançando uma piscadela para a garota, que corou furiosamente. Pansy o olhou zangada e Rasalas lhe mostrou o dedo médio.
—Ras. Onde estão seus modos? – perguntou Draco franzindo a testa.
—Ficaram na outra cabine. – resmungou baixando a mão.
Logo o trio de garotas deixou a cabine, por ordem de Parkinson, e os garotos voltaram a conversar amenidades. Mas o humor de Rasalas seguiu arruinado. A ideia de ter que aturar Lupin o resto do ano era simplesmente aborrecedora. Preferiria que Gilderoy fosse professor a Lupin.
Quando o trem parou e um dementador entrou para aparentemente procurar por Black, apenas ficou quieto em seu canto. A maioria dos alunos ficaram assustados, morrendo de medo, mas ele já estava acostumado com eles então simplesmente o ignorou. Comeu uns chocolates que tinha no bolso e fingiu que nada de diferente tinha acontecido.
Quando chegaram no castelo e Lupin foi apresentado por Dumbledore, ele notou o olhar furioso de Snape. Não... não era fúria. Era desprezo.
Nunca sentiu tanta empatia por ele. Preferiria que Snape fosse o professor de DCAT. Seria muito melhor. Tinha certeza.
Comeu seu jantar, muito quieto e calado. Não teve nem vontade de ir ver se Harry estava melhor, aparentemente ele tinha desmaiado por conta do dementador. Malfoy foi tirar uma onda com o garoto e Rasalas preferiu simplesmente continuar brincando com a comida.
—Está desse jeito ainda por conta do Lupin? – perguntou Alhena. Ele não respondeu, apenas franziu ainda mais a testa – Deveria ao menos dar uma chance pra ele!
—Você deu uma chance pro nosso pai? – perguntou Rasalas a olhando friamente.
—Oh! Uma coisa não tem absolutamente nada com a outra! – retrucou ela, fechando a cara.
—Pra mim tem. Você despreza o papai e eu desprezo Lupin. É a mesma coisa.
—Claro que não. Lupin nunca matou ninguém e nunca magoou a nossa mãe.
—Você quem pensa. – respondeu ele com superioridade – Lupin partiu o coração da mamãe. Foi por isso que ela e o papai começaram a namorar. Porque ele estava lá pra ela. – retrucou ele – Papai é um cara legal. Ele é apaixonado pela nossa mãe até hoje. Se você fosse conhecê-lo, veria que ele não é o monstro que a mamãe pinta.
—Ele a abandonou. – disse Alhena – A trocou por uma causa ridícula.
Rasalas a olhou carrancudo.
—Não foi isso que aconteceu. – disse convencido.
—Ah, não? E o que foi, então? – perguntou Alhena, numa expressão irritada.
Mas Rasalas não sabia. Então apenas bufou e voltou a brincar com a comida.
—Eu vou perguntar, quando for visitá-lo no Natal. E você deveria vir também. Ou ao menos escrever pra ele. – resmungou Rasalas.
—Escrever? – perguntou ela arqueando as sobrancelhas – Eu não vou gastar um segundo da minha vida com aquele homem.
—Nem eu com Lupin. – disse determinado – Que a maldição do cargo de professor de DCAT acabe com ele.
—RASALAS! – ralhou Alhena. Ele apenas bufou de novo.
Logo Dumbledore dispensou os alunos, os mandando para seus respectivos salões comunais. Rasalas seguiu com Blair e Damian. Sua irmã vinha logo atrás, emburrada. Só esperava que ninguém gostasse de Lupin... que ele fosse simplesmente um fiasco... era tudo o que queria.
*****
Alhena, Draco e Rasalas escolheram uma mesa para sua primeira aula extra: Runas antigas. Rasalas se sentou entre a irmã e Draco. No início achou a matéria bem aborrecida, mas os dois outros garotos pareceram achar simplesmente fascinante. Principalmente Alhena, que simplesmente amou desenhar as Runas.
—Você é realmente boa com isso. – murmurou Draco tentando desenhar uma runa qualquer. Rasalas estava completamente entediado e prestes a cair no sono, mas notou que a irmã corou de leve.
—Eu amo desenhar e amo a cultura nórdica. – explicou ela – Já vi que vou amar essa matéria.
—Vai fazer minhas lições de casa, não é? – riu Rasalas.
—Segue sonhando. – sibilou ela.
—Por favor, maninha! – pediu ele.
—De jeito nenhum! – ralhou ela.
No final da aula, se despediu da irmã, que teria aula de Adivinhação, e seguiu para fora do castelo, com Draco. Logo encontrou os amigos e Pansy. Os dois trocaram um olhar irritado e seguiram juntos para a orla da Floresta.
A verdade era que não estava nada animado com a ideia de ter Hagrid como professor. Principalmente com aquele livro assassino que tentava arrancar seus dedos. Mas logo viu que a aula tinha tudo para ser muito boa. Hagrid trouxe Hipogrifos!
E ele realmente parecia saber muitas coisas sobre eles. Tudo estava indo bem e o professor realmente superou suas expectativas. Mas tudo desandou quando um hipogrifo atacou Draco, lhe causando um feio ferimento. O professor pegou o garoto no colo e saiu correndo com ele. Pansy Parkinson, logo foi atrás para ver se ele ficaria bem e os alunos da Sonserina rumaram para as masmorras.
—Aquilo foi realmente horrível. Mas só prova que Hagrid não tem controle da situação. – ralhou Damian.
—Bem... – Rasalas só podia concordar – Ele deveria ter trazido uns animais mais bem treinados. – disse dando de ombros.
Assim que chegaram no Salão Comunal, encontraram Alhena sentada ao lado de Daphne, que tentava consolá-la.
—O que houve? – perguntou Rasalas para a irmã.
—A professora Trelawney... – murmurou Alhena – Ela... ela disse que eu... que eu vou morrer.
Rasalas sentiu seu estômago dar uma cambalhota.
—Como é? – perguntou ele.
—Ela disse que eu... eu vou morrer. – murmurou Alhena – Ela falou... – ela deu uma fungada – Que viu coisas terríveis na minha xícara... que eu não terminaria a escola. Que eu deixaria Hogwarts antes do quarto ano... – Alhena fungou novamente e então começou a chorar de verdade.
—Hei! Relaxa, Lena. – murmurou Damian – Ela pode ter se enganado.
—Não se enganou. – murmurou Daphne, tristemente – Alhena já tinha feito essa previsão... – Daphne abraçou a amiga – Ela já tinha visto que Rasalas viria no próximo ano para Hogwarts... sozinho... e estaria super triste.
Rasalas ainda encarava a irmã, completamente chocado.
—Hei! Talvez foi um engano! – murmurou Blair. Mas a irmãzinha de Daphne negou com a cabeça.
—Alhena nunca errou uma previsão.
—Não vem com essa. – disse Damian – Talvez essa seja a exceção! Quero dizer... por que você iria morrer?
—Talvez um dementador resolva sugar a alma dela. – riu Flint do outro sofá, com uma risadinha – Mas veja o lado bom, Valentine. Vai ganhar um beijo antes de morrer.
—Cale a boca, Flint! Isso não tem a menor graça! – rosnou Rasalas.
—Vai fazer o teste pro time, Ras? – perguntou Flint o olhando com um sorrisinho. Rasalas o fitou, fechando a cara ainda mais – Foi o que pensei. Então, se quiser ter alguma chance, sugiro que fique calado.
—Pelo amor de Merlin! – ralhou Blair – Lena. Olhe aqui. – disse ele cruzando os braços – Você não vai morrer!
Alhena soluçou completamente infeliz.
—Ma-mas...
—Ele tem razão! – disse Pansy Parkinson, que ele não tinha visto chegar – Por que você acha que vai morrer?
—Porque a professora Trelawney, de adivinhação, disse. – respondeu Daphne, ainda abraçada com Alhena.
—Não vai acontecer. E se for, então você tem que viver o melhor ano da sua vida! – disse Pansy – Aproveitar ao máximo, tudo o que puder! – Pansy parou de falar e olhou Alhena dos pés à cabeça – Mas eu não vejo motivo para você morrer. Você nunca desobedece as regras da escola, então dementador nenhum iria mexer com você... e você é perfeitamente saudável... – Pansy piscou um pouco e a encarou dos pés à cabeça – Só tem uma coisa.
—O que? – perguntou Lena, com o rosto vermelho de tanto chorar.
—Você precisa parar de comer tanta besteira e se alimentar direito. – disse Pansy, com severidade – Não estou falando que tem que parar de comer... mas se alimentar de maneira saudável... ou vai comer até explodir. É o que você quer?
—N-não... – murmurou Lena.
—Então está decidido. A partir de hoje, eu decido o que você pode ou não comer! – disse Pansy – Você vai ter hábitos saudáveis e eu garanto que você vai viver muitos anos! – ela se aproximou e tirou um lenço das vestes. A garota se sentou ao lado de Lena e, de maneira muito cuidadosa, secou as lágrimas dela – Eu não vou deixar que nada de ruim aconteça com você, entendeu?
Lena concordou fungando e Pansy a puxou para um abraço.
—O-obrigada, Pansy.
—Agora, Daph... leva a Lena pra ela lavar o rosto.
—Claro! – disse Daphne se pondo de pé. Ela segurou a mão de Alhena e a puxou.
Rasalas a acompanhou com o olhar, sentindo uma terrível sensação de peso. O que seria dele sem sua irmã? Como seria sua vida sem sua irmã gêmea? Correu até Alhena e a puxou de leve olhando pra ela, ainda chocado.
—Por que não me contou? – perguntou ele.
—O que?
—A sua visão! Desde quando tem segredos de mim? Primeiro fica do lado do Lupin, depois não fica comigo no vagão... agora tem uma visão séria dessas e não me conta? – perguntou magoado. Alhena apertou os lábios, querendo voltar a chorar.
—Eu não queria te preocupar... – murmurou ela.
—Nunca mais faça isso. Nunca mais esconda nada de mim! – disse Rasalas puxando-a com força, para um abraço. Seu coração batia acelerado, cheio de medo... Imaginar uma vida sem Alhena era simplesmente assustador. Não saberia lidar com isso... simplesmente não...
—Desculpe... – choramingou Alhena no seu ombro, o abraçando de volta.
—O que você viu? – perguntou ele, baixinho.
Alhena respirou fundo algumas vezes, antes de responder.
—Você vinha sozinho para Hogwarts... Eu te vi chorando também... e a mamãe... a mamãe falava para Lupin que eu não voltaria mais. – Alhena suspirou – Eu quis pensar que poderia significar outra coisa, mas... mas a professora Trelawney...
—Shh... – sussurrou Rasalas a apertando com mais força – Nada de ruim vai acontecer com você, Lena. Nada! Entendeu? – perguntou ele.
—Entendi.
—Eu vou te proteger. – prometeu. Lena concordou em silêncio e fungou mais uma vez – Olhe pra mim, Lena. – pediu ele. A irmã secou as lágrimas do rosto com as mãos e depois o olhou, apesar dos olhos dela ficarem muito inquietos – Você vai ficar bem, ok? Nada de ruim vai acontecer. Olha só. Você sobreviveu ao ano passando, quando tinha um basilisco gigante pela escola, atacando os alunos... você adquiriu um tipo de... invulnerabilidade. Entendeu? – perguntou sorrindo. Alhena sorriu de leve – Você não vai morrer. Não vai. Agora... agora nada de choro. Vai com a Daph limpar esse rosto e vamos almoçar!
—Certo. – murmurou ela respirando fundo. – Ras...
—O que? – perguntou ele. Alhena soltou um suspiro.
—Eu tenho mais um segredinho... mas você tem que jurar não contar pra ninguém! – murmurou ela corando de leve. Rasalas arqueou as sobrancelhas e concordou, curioso.
—O que?
—Eu... – ela olhou para os lados, insegura. Daphne sorriu e se afastou para não ouvir – Eu... eu... – ela se aproximou e disse num sussurro nervoso – Eu acho que estou gostando do seu amigo... o Damian.
E Rasalas sentiu o estômago dar um salto. A imagem de Damian deitando sua irmã no chão para beijá-la apareceu instantaneamente em sua mente.
—Hum...
—E eu tive uma visão com ele. – murmurou Alhena corando ainda mais.
—Que visão?
Ela deu um sorriso nervoso.
—Eu acho que você não vai querer detalhes... mas... – ela respirou fundo – Eu o vi no meu dormitório, sorrindo pra mim. Acha que... acha que eu tenho chance?
Rasalas fez uma careta.
—Eu realmente duvido muito, Lena... Damian nunca falou nada sobre você... só que te acha desengonçada. – murmurou num tom seco.
Alhena desviou o olhar e concordou em silêncio.
—Bem... ele... ele provavelmente tem razão... – ela deu um sorriso triste – Eu não faço o tipo dos garotos, não é?
—Lena...
—Está tudo bem. – riu ela dando de ombros, mas parecendo muito magoada – Eu... eu vou lavar meu rosto. Te vejo no almoço.
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