Legado Demoníaco
2 [Mundo Humano] - Golpe de Estado
Notas iniciais
Palácio do Inferno, ????
Durante muito tempo, no reino dos mortos, não houve festa como aquela. O grande salão estava preenchido de ponta a ponta com condes, grão-duques e príncipes, rindo e bebendo aos montes em seletos grupos, desfrutando de um dia tão incomum no mundo inferior. Era Samhain, o fechamento de um ciclo e abertura de outro, e a energia provinda do mundo dos vivos penetrava no submundo, mas essa ocasião era diferente.
Por mais que a energia vinda do mundo dos vivos mergulhasse o mundo inferior, renovando suas energias, como sempre fizera, daquela vez Cali sabia que algo estranho envolvia aquela celebração. Não só pela súbita festa que o Rei promoveu no palácio, convidando os mais nobres e poderosos, mas pelo olhar que ele dispensou a todos os convidados durante o período de preparação.
Como mão direita do Rei do submundo Cali sabia quando Tchort estava preocupado, assim como quando só pretendia comemorar o sabbath aproveitando os prazeres carnais. Ali, sentado no trono alto e adornado com folhas douradas, logo a frente da multidão, ele não parecia aproveitar a diversão, com olhos ágeis indo de um lado a outro no salão, buscando por algo que ela infelizmente não sabia o que era.
Parada próxima a uma das colunas principais do palácio infernal, com os cabelos vermelhos longos e flamejantes presos num arranjo complicado sobre sua cabeça, ao redor de seus pequenos chifres, a cavaleira também percorreu o espaço lotado tentando decifrar, com a força do pensamento, o que seu Rei estava em busca.
Ao menos esse foi seu foco até vozes conhecidas se aproximarem.
— Está bonita nesses trajes, Cali, a quem quer seduzir para finalmente entrar na Corte infernal?
A expressão neutra da mulher não se alterou e os olhos rubros caíram preguiçosos sobre o trio de demônios engraçadinhos. Dante aumentou o sorriso quando recebeu sua atenção, passando displicente a mão pelos cabelos loiros e cacheados. Os dois atrás dele, Aluga e Biemo trocaram olhares entre si, com sorrisinhos de lado.
Os três vestiam roupas elegantes e longas, que arrastavam no chão, demarcando sua posição de membros da Corte infernal, demônios que mesmo menores tinham algum status no submundo, fosse por tabela ou por mérito de outros que os tutelavam. Ela, por outro lado, usava um conjunto negro e simples de couro, que a marcava como guarda, não uma convidada.
— E você, Dante – frisou o nome amaldiçoado, fazendo vacilar o sorriso dele – ainda não aprendeu a ser legal para tentar recuperar a posição que perdeu?
Desta vez, o vendo afetado, coisa que sempre acontecia quando voltavam a esse assunto, Cali sorriu. Lembrá-lo do resultado de suas ações naquele dia, sabendo que era grande responsável pelo rebaixamento dele era uma vingança deliciosa. Automaticamente a mão da demônio que o acompanhava tocou no ombro do loiro, que quase rosnou para a ruiva a sua frente.
— Você ainda vai me pagar, humana— cuspiu as palavras – seu lugar não é aqui.
Pondo desinteressada uma das mãos sobre o cabo de sua espada de sangue e fogo, Cali aumentou o sorriso.
— Uma pena, porque foi exatamente você quem me trouxe.
— Estou com fome – resmungou Biemo.
O demônio mais baixo bufou olhando para o outro lado do salão, enrolando displicente o rabo pontudo nos dedos, fazendo agitar os fios ralos do cabelo azulado e longo, ignorando a tensão que se formava a sua frente.
— Deixa ela aí – Aluga pegou o gancho do companheiro – temos coisas muito mais interessantes aqui hoje.
A mão que apoiava o ombro de Dante o apertou e ele suspirou, voltando o olhar para a demônio ao seu lado, que sorriu enigmática. Os cabelos negros desciam volumosos em suas costas e os olhos dourados brilhavam, com algum segredo neles. O loiro passou uma das mãos pela cintura dela, apertando-a de lado contra si, fazendo o vestido fino vacilar alguns centímetros mais para cima.
— Você está certa, vamos embora.
Cali, ainda parada na frente dele, tirou a mão do cabo, esvanecendo o sorriso. Apesar de rebater o loiro, praticamente todas as vezes em que se encontravam, ela preferia não ter que lidar com ele, o que já fazia demais nos treinamentos de combate que eram obrigados a interagir.
Sem se despedir Dante puxou Aluga consigo, seguindo Biemo que saiu um pouco antes deles e olhava sedento para a mesa farta, com os olhos de um azul profundo fixos. O trio era como uma onda raivosa no mar, passando e arrastando outros demônios consigo, que riam às gargalhadas entre si. As almas da festa.
Eles se merecem, Cali pensou, soltando um suspiro de cansaço. Não ser demoníaca já era ruim o suficiente no inferno, agora ter que lidar com demônios menores que se achavam superiores era a pior parte.
Com esses pensamentos ela tocou inconscientemente nos pequenos chifres mesclados ao seu cabelo, que lhe transmitiam uma falsa sensação de pertencimento. Mas Cali não era um demônio.
Os olhos rubros a traíram indo para os cabelos loiros e cacheados em meio a multidão infernal. Pelo menos, em questão de hierarquia, o lugar dela junto ao Rei era melhor que o de Dante.
Ao menos isso.
Tomando fôlego e voltando ao seu posto de guarda Cali percebeu que o Tchort estava de pé e conversava com seu conselheiro, um demônio magro e corcunda. A festa ainda ia a todo vapor com os músicos iniciando uma nova corrente de dança e os garçons ainda mais apressados enchendo as taças das ladies e os whiskys infernais dos duques.
Contornando a multidão pela lateral, em busca de algum problema para resolver, Cali reconheceu alguns demônios poderosos. Agaures, o grão-duque das terras ocidentais do submundo, Astaroth, grão-duque das regiões oestes e Baal, grão-duque, chefe do exército e comandante das legiões.
A aura do trio era poderosa e por mais que eles rissem entre si, tomando copos de whisky de forma relaxada, o poder deles exalava em ondas sufocantes. Eram poderosos e perigosos.
Perigosos ainda mais para Cali, que se viu alvo de um olhar de lado de Baal, o mais alto e forte, que a desprezou intensamente nos cinco segundos desse relance.
Ofegante pela pressão desse grupo, Cali se apressou para longe. Desde que fora acolhida por Tchort e posta em seu grupo íntimo, sempre sofria da hostilidade dos demônios. Por mais que tivesse se esforçado em treinamentos de combate para chegar até cavaleira, por mais que tivesse estudado e soubesse diplomacia infernal como ninguém, ainda era desprezada.
Entretanto, haviam alguns demônios que não se incomodavam com sua presença. Como Uphir, especialista em ervas medicinais e saúde, ou Murmur, demônio da música que sempre que a encontrava improvisava versos sobre sua beleza etérea e humana.
Ainda assim, não era fácil. Mas em toda a sua vida nada havia sido, nem antes, nem depois de chegar ao inferno. Exceto por aquele seu último ano...
Os olhos rubros a guiaram, na multidão, indo para Dante, do outro lado do grande salão. Ele a olhou de volta, quase que automaticamente, e o demônio sorriu com escárnio, erguendo seu copo e entornando o whisky quase de uma vez. Havia sempre desprezo em seu rosto quando a olhava e por mais que Cali o odiasse com todas as forças, acabava buscando, mais do que gostaria, o Dante que conheceu antes de ser tragada.
Ainda que soubesse que esse Dante era uma mentira.
Um pigarro alto do Rei cessou em instantes o som das conversas no salão. Tchort estava de pé no tablado de mármore onde se apoiava o trono e tinha uma taça ornamentada em sua mão. O discurso que se seguiu foi de boas vindas, alegria e comemoração pelo Samhain e as novas energias que chegavam ao inferno vindas do mundo humano. Elogiou grandes nomes infernais e encerrou sua fala incentivando a comemoração do sabbath.
Quando tudo se encerrou e as palmas cessaram, voltando a música e as conversas, Tchort olhou para Cali. O movimento foi sutil com a cabeça, um código entre eles, e a mulher o seguiu, saindo do grande salão e indo atrás do grande Rei.
Depois de atravessar um mar de demônios alcoolizados e dançantes, alguns prestes a transar nas mesas, Cali alcançou a sala de reuniões que se escondia parcialmente atrás do grande trono. Lá dentro, entre poltronas, mapas, uma decoração baseada em esqueletos de demônios e uma grande fênix apoiada preguiçosa sobre a escrivaninha, estava o Rei.
Ao vê-lo Cali fez uma demorada reverência, sendo respondida por um sorriso cansado. Tchort era um homem forte e alto, com os cabelos prateados preenchendo suas costas, numa trança grossa, com os chifres altos e retorcidos saindo imponentes dentre os fios. Vestia ali, e quase em todas as celebrações, uma armadura feita de ouro envelhecido, para mostrar seu poder e a honra que trazia ao inferno.
Ganhou seu lugar no trono com muito esforço e com habilidade conquistou toda a Corte infernal. Comandar o inferno e todo o submundo era uma tarefa intensa, pesada e importante. E ele a fazia com maestria e justiça.
Cali o admirava muito.
— Por favor, Cali, sente-se.
Obedecendo-o a ruiva se acomodou numa das poltronas em frente a escrivaninha. Além dela, próximo a um vitral representando a queda de Lúcifer, primeiro rei, Tchort se empertigou.
— Eu tenho um filho.
Demorou alguns segundos para que a cavaleira entendesse o significado dessas palavras. Os olhos rubros caíram sobre o monarca do inferno surpresos e ele assentiu, como se confirmasse qualquer coisa que ela pensasse.
— Eu tive um filho com uma humana.
Se a primeira declaração a tinha deixado chocada a segunda a fez cair nas costas da poltrona.
— Você podia ser um pouco menos direto.
Tchort sorriu ao comentário, melancólico.
— Não temos tanto tempo, me ouça.
Cali se endireitou no assento. Como assim não tinham tempo?
— Antes de me tornar Rei, fui batedor. Explorei o mundo humano para o antigo monarca e tive um caso com uma humana. Ela deu a luz a um filho meu. Eu já tinha me tornado Rei quando descobri essa criança, sua alma era diferente de todas que chegaram aqui e reconheci o parentesco no momento em a encontrei.
Lentamente ele sentou de frente a Cali.
— Eu não podia deixar que ele ficasse aqui. Ele não era demônio e tão pouco era humano. Não havia lugar para a alma dele descansar no submundo.
Os olhos intensos e negros do monarca caíram entre a melancolia e o orgulho sobre a ruiva.
— Eu dei a ele vida eterna e guardei seu corpo infernal.
Cali arregalou os olhos.
— Ele não é como um demônio que vive eternamente – corrigiu ao ver a reação dela – mas sua alma não desce ao submundo. Ele reencarna sem precisar passar por julgamentos, está sempre lá em cima, vivo.
Houve um suspiro mínimo da parte dele, quebrando a imagem de imponência que sempre mostrava a seus súditos. Tchort era agora um pai além de Rei e talvez essa percepção, assim como a tristeza nos olhos dele, fez o coração de Cali apertar.
Mas tinha muito mais coisas em jogo.
— Nunca mais o vi desde então – ele fez uma breve pausa – entretanto, agora ele está correndo perigo.
Remexendo na escrivaninha o grisalho tirou de uma de suas gavetas um punhal. A lâmina brilhava, afiada e nova, mas o cabo entalhado em osso estava gasto e com arranhões. Cali lembrava dela sempre com Tchort, em suas idas aos caminhos infernais do submundo. Era importante.
— No mundo humano demônios não podem morrer. Eles podem ser derrotados e banidos apenas temporariamente, como alguns exorcistas fazem, você deve bem saber.
Ela assentiu.
— Com esse punhal é possível destruir a alma e o corpo do demônio no mundo humano – ele deslizou a lâmina para Cali – preciso que você leve isto com você. Dê a ele, para que possa se proteger.
— Por que agora?
A voz de Cali saiu fina e ela tossiu pegando o punhal em mãos. Ele era quente e estranhamente pesado. O osso era grosso sob seus dedos e a mulher se questionou de onde ele teria vindo. Alguma besta? Demônio? Humano?
— O que está acontecendo, Rei?
Tchort a encarou por alguns segundos e abriu um sorriso fraco.
— Os grandes governantes das regiões estão ávidos por poder. Há um golpe de Estado acontecendo por nossas costas, Cali, em breve eles... não – o grisalho encarou a ampulheta que ficava na beira da escrivaninha, virando-a de cabeça para baixo fazendo descer os primeiros grãos – em alguns minutos, eles irão me atacar e tentar me depor.
A incredulidade e a surpresa no rosto da ruiva, que levantou assustada, fez Tchort fechar os olhos em pesar.
— Eles vão nos atacar? Como assim depor você? Temos que fazer alguma coisa!
Os olhos negros fitaram-na sérios.
— Tenho muitas coisas para proteger, Cali, não tenho tempo para impedi-los. Tudo já estava armado, estou encurralado, há poucas coisas que posso fazer sozinho.
Com determinação Cali cravou o punhal na escrivaninha.
— Eu protegerei seu filho, meu Rei, não tema por ele. É preciso lutar contra essa invasão. Ninguém pode governar o inferno como você!
Ela estava frustrada. Como Tchort podia chegar e lhe dizer que em alguns minutos invadiriam o palácio e tomariam seu poder com tanta tranquilidade? O que seriam das almas atormentadas que ele havia salvado contra a maioria do conselho? Como aqueles demônios no salão tratariam os próximos humanos que chegassem no inferno?
Como o portão para o mundo humano seria resguardado sem o controle de Tchort?
De todas as histórias no mundo humano que contavam sobre o inferno, com sangue, dor e sofrimento eterno, Cali jamais imaginou que nada disso pudesse ser diferente. Não até o homem a sua frente a mostrar justiça e benevolência. Tchort não era santo, impossível sê-lo quando está em suas mãos o poder de mandar alguém sofrer eternamente, mas ele era justo.
O submundo mergulharia em caos sem ele.
— Cali, você lembra quando lhe dei esse nome?
A ruiva quis bater o pé. Não era momento para conversar, eles precisavam agir. Havia treinado com espadas, arcos e o calor do fogo infernal todo aquele tempo para protegê-lo, ganhou campeonatos de luta atrás de campeonatos para que Tchort e sua decisão de salvá-la pudessem ser aceitos.
Ela tinha que fazer alguma coisa.
— Cali foi o nome da rainha dos demônios – o Rei prosseguiu ignorando a indignação no olhar da ruiva – ela governou o submundo por muitos anos, exigindo sacrifícios humanos. Você é humana, Cali, você e esse nome são uma vitória. Quando a salvei naquele dia e a trouxe para cá, você se tornou um símbolo. Aqui em baixo nomes importam. E eu me importo com você.
Ele levantou e pareceu mais alto do que nunca.
— Se sair daqui agora você ainda pode ser salva.
— Não quero ser salva – retrucou, começando a entender as palavras do homem.
Tchort contornou a escrivaninha parando em frente a ruiva. A imagem dele quando o viu pela primeira vez voltou aos pensamentos de Cali. Ela teve medo, tremeu e chorou copiosamente pedindo por sua vida. Ele a olhou intensamente como o fazia naquele momento. E a salvou.
— Você é tão importante quanto meu filho, Cali. Você agora também é minha filha. Não posso deixar que sofra por minha causa.
Os olhos rubros lacrimejaram e ela balançou a cabeça, sem querer entender. Não era possível que Tchort estivesse se sacrificando, sacrificando todo o inferno, para salvá-los. Não, ela não queria acreditar.
Ela faria tudo por ele, daria sua vida.
Antes que pudesse argumentar algo explodiu no grande salão e gritos começaram. A dupla na sala se entreolhou e Cali entendeu que havia começado. Os últimos grãos da ampulheta caíram.
— Pegue o punhal e vá. Vá para o mundo humano e encontre meu filho – ele puxou a arma da escrivaninha, depositando-a nas mãos incertas da mulher – dê a ele este punhal e sobreviva, Cali. Você treinou até aqui para isso. Viva.
Quando a mão de Tchort tocou na testa da ruiva, ela não pôde lhe dizer o quanto queria salvá-lo também. O quanto era grata, o quanto quis orgulhá-lo todos aqueles anos. E, internamente, Cali sabia que aquele homem a entendia, que sabia exatamente o que ela queria dizer.
Que sabia que Cali lutaria para não ir embora.
Quando a visão dela escureceu e seu corpo se desfez em fumaça e faíscas a porta alta e pesada da sala de reuniões foi ao chão. Lá fora havia fogo, gritos e risadas. Prostrado no umbral da entrada, armado com uma espada grande e flamejante, Baal sorriu para Tchort evidenciando seus caninos. O Rei lentamente levou as mãos às costas, com a postura ereta, e o olhar desafiador.
— Hora de acertar as contas.
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