Legado Demoníaco
3 [Mundo Humano] - Filho do Rei demônio
Notas iniciais
Midgate, 2018
Naquela manhã Thomas se levantou cedo e fez o que sempre fazia: banho, tomar café e escovar os dentes. O caminho para o colégio foi o mesmo, andou três quarteirões, dobrou na esquina e atravessou a ponte antes de chegar na construção alta e avermelhada, com um gramado enorme entre os portões e o primeiro prédio, onde em letras em ferro se sustentava o nome Axel.
Encontrou conhecidos no caminho e falou com todos eles, parando um pouco mais em Sofia para tirar uma dúvida sobre o último assunto de literatura que ele havia perdido porque saíra mais cedo. Na sala sentou com Ryan e Lucas, seus amigos, e preguiçosamente conversou sobre as atualizações do jogo online que gostavam.
Mas alguma coisa estava errada. Era uma sensação no fundo da sua cabeça que o deixava inquieto. Inquieto durante as aulas, durante o intervalo, durante o treino do clube de basquete. Lucas e Ryan riram dele no caminho de volta, dizendo que estava avoado por causa de Alice, uma das veteranas do terceiro ano, e ele riu junto, fingindo que não era nada demais.
Nunca sentira nada do tipo antes. Era como se alguma coisa o estivesse puxando, com um corda, mas ele não saísse do lugar. A sensação o deixava curioso e incomodado. Sentia-se exposto e vulnerável, olhando para os amigos quis rir de si mesmo. Provavelmente estava precisando de um bom banho e uma noite longa de sono, só isso.
Quando jantou com seus pais e foi para o quarto, Thomas desistiu de jogar antes mesmo do computador em seu quarto ligar e deixando ele de lado se jogou na cama, cansado. No escuro repassou o dia anterior em seus pensamentos, buscando o que poderia tê-lo deixado daquele jeito, mas além de gazear aula para sair com seus amigos ele não tinha feito nada demais.
Será que depois de anos pulando aulas para se divertir finalmente havia começado a ter consciência pesada? Eram só saídas rápidas, não tinha feito nada de errado, tinha? Beijar garotas e sair com os amigos não parecia nada demais.
Suspirando Thomas sentou na cama alongando o pescoço travado. Ligou a televisão pequena apoiada na parede oposta e, com os olhos fixos na tela, tateou a cabeceira em busca de sua garrafa de água.
O que encontrou, entretanto, foram fios.
Ele demorou alguns segundos para perceber que acariciava cabelos e não a superfície plana da sua mesa. Quando voltou os olhos para onde tocava pulou de susto controlando o grito. Do lado da sua cama, meio sentada e meio caída no assoalho de madeira, estava uma garota.
No escuro ele viu perfeitamente o sorriso da silhueta se abrir quando ele a notou.
— Finalmente encontrei você.
Thomas puxou a mão, assustado e confuso, com mais surpresa do que medo com a estranha caída no chão do quarto. Na penumbra do quarto ela parecia uma adolescente, seria da sua escola? Uma conhecida? Alguma garota interessada nele?
— Quem é você?
Desajeitada a figura se levantou, limpando com as mãos uma roupa exótica e de couro preto que usava, e ajeitando os cabelos, mais longos do que ele imaginou que eram, ela estendeu a mão para ele. Lentamente e sem saber porquê ainda não tinha começado a gritar pedindo ajuda, Thomas a apertou.
O aperto dela foi firme.
— Me chamo Cali e sou uma cavaleira infernal. Thomas Diaz, venho informar que você é filho do Rei Demônio e que o inferno precisa da sua ajuda.
Primeiro Thomas sorriu, incrédulo, depois riu às gargalhadas. A estranha se remexeu, incomodada, e até tentou falar depois, mas nada conseguia fazê-lo parar. Quão absurdo era aquilo? Aquela garota tinha invadido seu quarto para brincar com ele? Quem tinha planejado aquela pegadinha?
— Thomas? Tudo bem aí em cima?
A voz da mãe do garoto soou preocupada. Ele a respondeu ainda rindo que estava tudo bem, mas percebeu, um pouco atrasado, que a garota não pareceu preocupada com a possível entrada de sua mãe no quarto.
Aquilo o deixou curioso.
— Quem mandou você aqui?
Ela fez uma expressão indecifrável, como se lembrasse de algo terrível, e sentou na beirada da cama. Inconscientemente o garoto percebeu que ela cheirava suavemente a baunilha.
Thomas tentou ignorar essa percepção.
— Seu pai, Thomas Diaz, está preso no submundo. O inferno sofreu um golpe de estado e estamos em meio a uma guerra. Não sei nem mesmo em quanto tempo os demônios começarão a invadir o mundo humano.
Vendo a seriedade dela Thomas abandonou o sorriso se aprumando no colchão, indo um pouco mais pra longe dela.
— Você está me dizendo que é um demônio?
Cali olhou para ele desconfiada.
— Não, não sou. Sou humana.
— Então como pode ser uma cavaleira infernal?
— É uma história que não tenho tempo para contar – ela levantou – preciso que volte comigo para o inferno. Vamos recuperar seu antigo corpo e lutar.
A voz dela parecia desesperada e o garoto descartou a hipótese de pegadinha. Em vez disso sorriu como se estivesse na frente de alguém louco.
— Você só pode estar brincando.
Cali suspirou. Seu tato com humanos já não era mais o mesmo.
— Estou falando sério, venha comigo e...
— Eu não vou a lugar nenhum, sua louca.
Com o final da frase ela o olhou surpresa.
— Você invade meu quarto e quer que eu vá salvar o inferno com você? – soltou um risinho de escárnio – Só pode estar completamente maluca.
A garota mordeu os lábios, reprimindo a sensação horrível que veio com a afirmação. Ela não era louca.
— Quando você fala desse jeito realmente parece um pouco surreal, mas...
— Um pouco? – tomado de ânimo ele levantou num pulo, ficando de frente a ela, que era um pouco mais baixa que ele – Eu quero que você saia agora do meu quarto e quem sabe posso esquecer que você invadiu minha casa.
Cali abriu a boca e a fechou, atônita. Ela realmente tinha invadido a casa dele. Péssima primeira impressão. Olhando para ele por longos segundos antes de suspirar, a jovem se repreendeu internamente por se deixar levar pela animação.
Usando suas energias infernais tinha finalmente conseguido sintonizar a alma dele naquele dia e quase não pensou quando elas a levaram até a frente da casa do garoto.
— Tudo bem. O mundo dos humanos também tem suas regras.
— Pare com isso! – pediu, exasperado.
Não era possível que ela acreditasse mesmo no que estava dizendo!
Dando curtos passos ele ligou as luzes do quarto, piscando um pouco antes de ajustar a visão na figura parada ao lado da janela. Quando virou para vê-la Thomas sentiu que devia ter deixado as luzes desligadas.
A estranha, Cali, estava usando uma roupa apertada demais e tinha muito corpo para ela, acentuando todas as curvas que algum dia o pobre garoto podia ter imaginado. Os cabelos negros eram longos e iam até metade das coxas, enrolando-se preguiçosos em um dos braços dela.
E tinha os olhos.
No escuro Thomas não conseguiu ver a cor deles, mas sob a luz o azul ciano fez todo o corpo do garoto arrepiar. Cali o encarou intensamente quando as luzes acenderam e a pulsação dele acelerou.
Bonita, Thomas se remexeu com o pensamento. Ela podia ser a garota mais bonita do mundo, resmungou mentalmente, mas ainda assim ele a colocaria para fora. Bonita e doida.
— Onde pensa que vai? – ele continuou quando percebeu que a jovem tinha deslizado para perto da janela, com um pouco menos de firmeza na voz do que antes – a porta é aqui – indicou-a ao seu lado.
Cali olhou de um para o outro e ergueu a sobrancelha.
— Mas entrei pela janela.
A constatação de que ela entrou pela janela em seu quarto deixou Thomas ainda mais convicto de que era uma perseguidora. Ele estava com essa bola toda? Impossível.
— Eu moro no segundo andar – retrucou – impossível.
Cali olhou novamente para ele, com mais atenção sob a luz branca da lâmpada, e nada nele lhe pareceu digno da monarquia infernal. Ele era um garoto simples, com cabelos castanhos bagunçados e olhos tão castanhos quanto suas madeixas. Era magro sob a camisa folgada que usava e parecia um pouco patético vestindo uma samba-canção.
Infelizmente, para Cali, aquele era o filho do rei demônio. O único que podia ajudá-la no plano maluco que bolara de salvar o submundo e Tchort. O único, essa noção a deixou cabisbaixa.
Ele também não acreditava nela, reforçou.
— Quase me esqueci – ela puxou da cintura um punhal e Thomas percebeu que haviam muitas coisas ali camufladas pelo negro da roupa.
Era um item estranho para o castanho, porque parecia uma faca malfeita com ossos na base. Gasta e antiga.
— Seu pai me pediu que você ficasse com isso. Vai ajudá-lo contra os demônios que vierem atrás de você.
Thomas controlou o revirar de olhos.
— Não preciso desse seu brinquedo. Não existem demônios.
Sem querer protestar, cansada demais por ter usado seus poderes durante meses para encontrar o garoto, Cali depositou o punhal sobre a mesa de cabeceira.
— O encantamento que o esconde dos demônios vai sumir em algum momento quando o inferno sucumbir. Fique com isto, é para sua segurança.
Junto ao punhal a garota depositou uma pedra alaranjada com um dos lados quebrados, como um seixo arredondado quebrado ao meio. Presa a pedra estava um fio negro a transpassando e Thomas identificou como sendo um colar.
Sem dizer mais nada a morena se apoiou na janela e pulou.
O garoto piscou três vezes antes de conseguir se mexer e correr até o beiral, acreditando que iria encontrar a bela garota caída na rua em frente a sua casa. Mas, para sua surpresa, não havia nada. Nem na rua, nem no chão e tão pouco no seu quarteirão.
Da mesma forma que havia chegado a estranha tinha sumido.
Receoso e mais inquieto do que antes ele olhou para os itens deixados por ela. O punhal era pequeno, quase inofensivo, e o colar se enrolava nele, com a pedra meio lascada refletindo a luz que caía sobre ela.
Deslizando a pedra entre os dedos Thomas se perguntou o que tinha sido tudo aquilo. Riu sozinho acreditando estar louco também e depositou a pedra onde a jovem havia deixado. Desligando a luz e voltando a deitar repassou os últimos minutos diversas vezes em sua cabeça antes de dormir, sonhando que era um Rei Demônio dando chicotadas em pecadores, acompanhado da bela morena que sorria o incentivando.
•••
— O que você está fazendo aqui?
Cali sorriu para ele apoiada no grande poste em frente a casa do garoto. Thomas ergueu a sobrancelha para ela, questionador, mas a jovem ignorou. Ela ainda vestia as mesmas roupas da noite anterior e a única diferença eram os cabelos, antes soltos, agora presos num rabo de cavalo desajeitado que não diminuía nem um pouco o tamanho dele.
— Vim novamente pedir que vá comigo ao inferno salvar o submundo e o seu pai.
O castanho suspirou fechando o portão baixo da frente da sua casa. Ele tinha acabado de tomar café da manhã com seus pais. Seu pai estava lá dentro ainda, comendo torradas e precisando ser salvo apenas da quantidade absurda de café que ingeria, já em seu terceiro copo.
Ignorando-a ele começou a andar até o colégio com a morena o seguindo um passo atrás. Observando as costas do filho de Tchort Cali notou que ele era um pouco mais alto do que achou e, vestido com o uniforme, menos magro também. Apesar do símbolo estranho e cheio de pompa com o nome da escola, Axel, nele ser maior que o necessário.
— Sei que é loucura o que estou dizendo e talvez não tenha usado a melhor abordagem, mas, por favor, acredite em mim. Você tem uma alma poderosa, nós podemos usá-la para salvar...
— Olha – ele a interrompeu, parando e sendo também seguido por ela – eu tive uma noite péssima de sono por sua causa, não quero que o meu dia seja ruim também. Poderia só ir embora com essa sua fantasia sobre demônios e reis?
Cali suspirou passando nervosa uma das mãos sobre sua franja.
— Não é fantasia.
— É? – ele cruzou os braços – Então prove. Faça algum truque de mágica infernal aí pra mim.
A morena o encarou como se ele fosse o louco. Algumas poucas pessoas que passavam olharam para eles curiosos.
— Ainda que pudesse demônios não fazem truques de mágica, eles atacam e devoram almas quando estão sem supervisão. Se não fosse o seu pai, muitas almas...
— Você não consegue? – ele sorriu de lado – Ah, é verdade, você é humana.
Cali o encarou raivosa e quase rosnou, pondo sem perceber a mão onde antes havia o cabo da sua espada, mas agora estava vazio. Já não bastava Dante a desmerecendo no inferno, não precisava de mais alguém fazendo isso. Muito menos aquele estúpido.
Desculpe Tchort.
— Eu recebi energia infernal para poder usar poderes, mas adivinha? Gastei boa parte dele procurando por você – o rebateu também cruzando os braços – o que me sobrou usarei para abrir o portal de volta, então não, não tenho como usá-los para convencer você.
Thomas a observou com mais atenção e notou que ela estava séria. Enquanto ele levava tudo aquilo como fantasia para a garota na sua frente tudo que dizia era verdade. Ela acreditava mesmo num Rei demônio, em poderes e em portais para o inferno. E usava aquela roupa estranha. Ela estava perdida.
O coração dele pesou ao notar a sinceridade naqueles olhos.
— Digamos que eu seja o filho do rei demônio, então. Eu não ligo pro que vai acontecer no inferno, não dou a mínima se o reinado dos demônios chegou ao fim.
— Os demônios...
Ele ergueu o dedo, indicando que não tinha terminado.
— Você pode vir me pedir quantas vezes quiser que eu a siga, que eu não vou. Não quero e não vou, entendido?
Cali deixou os ombros caírem, cansada. Quando pensou em ir atrás do filho de Tchort para conseguir salvá-lo não achou que ele seria tão cabeça dura. Mas por outro lado sabia que toda a realidade do submundo, demônios e guerra seria difícil de engolir.
Mas ela não ia desistir. Havia uma alma poderosa dentro dele que poderia salvar o eminente colapso do submundo.
— Entendi, então posso vir pedir quantas vezes eu quiser?
Thomas se viu desarmado frente a pergunta descruzando os braços, deixando uma das alças da sua mochila deslizar pelo seu braço.
— O que?
A morena sorriu de lado, vendo-o confuso, e adiantou os passos, ultrapassando-o, deixando-o olhar o nada.
— Até amanhã então, Thomas Diaz.
Ele virou a cabeça e a viu sumir na esquina que dobraria para o colégio, ficando alguns segundos estático. Ela estava dizendo que iria vê-lo amanhã?
Ainda aturdido o castanho adiantou o passo e dobrou a esquina que seguiria para a ponte da escola, procurando curioso a silhueta da garota. Mas, mais uma vez, não havia o menor sinal dela. Sentindo um calafrio ele se apressou indo direto para a sala de aula.
Com os amigos Thomas relaxou o suficiente para conseguir rir e esquecer da morena de olhos azuis demoníaca. Ao menos até sentir o peso do colar que ela deixara em seu quarto ao redor do seu pescoço, com a pedra quente contra sua pele.
Thomas ainda não sabia por que estava usando-o. Decidira colocá-lo de última hora pouco antes de sair de casa, depois de o encarar por longos minutos inexplicáveis. Ele o lembrava constantemente da garota, da sua história maluca e do sorriso dela em seu sonho.
Encarando a lousa e uma das equações matemáticas ali presentes, o garoto pensou que o que mais o assustava no estranho sonho era que, para ver aquela expressão no rosto dela, talvez realmente pudesse machucar alguém.
Talvez ele estivesse ficando louco.
•••
Durante todos os dias daquela semana Thomas encontrou Cali no portão da sua casa. Ela o acompanhava até um pouco antes do colégio, às vezes indo embora antes da curva às vezes antes da ponte. Ela sempre tentava convencê-lo, contava histórias sobre o submundo, sobre o Rei, sobre a Corte infernal.
Dissertou sobre o palco político de lá, com grão-duques armando um complô para conseguir o poder e quebrar todas as ordens e leis que regiam o inferno, coisa que Thomas achou que já acontecia. Do ponto de visão dela o inferno tinha um governo... bom. Almas era julgadas com equidade e os demônios não saíam para o mundo humano a seu bel prazer, pelo menos não mais.
As famosas legiões travavam batalhas dentro do próprio território, como os exércitos humanos, e o tal Rei tinha assuntos muito mais sérios a tratar do que dar chicotadas em pecadores, função delegada a determinados servos que na verdade puniam não pecadores, mas almas corrompidas.
Afinal, lá no submundo aparentemente todos os pecados eram celebrados e estimulados em festas que a morena contou durarem de dias até meses nos salões infernais.
Thomas se tornou curioso quanto a tudo aquilo, mas nunca aceitava as palavras dela como verdade. Elas dariam uma ótima história, mas o garoto não acreditava em demônios e às vezes, em momentos de reflexão, também não acreditava em Deus.
Dividiu com a morena em um desses encontros um de seus sanduíches, tanto por ter acabado levando a mais quanto para fazê-la parar de falar um pouco. De início ela pareceu surpresa com a oferta e aceitou curiosa, com os olhos azulados enormes dizendo a ele exatamente o que ela pensava, mordiscando timidamente o pedaço de pão.
— Faz tanto tempo – ela murmurou, interrompendo seu monólogo surpreendendo o garoto – isso é manteiga ou margarina? Tem um gosto ótimo!
Sorrindo com a expressão de curiosidade e alegria dela Thomas a respondeu, se perguntando se fazia parte de toda a atuação demoníaca aquela expressão em seu rosto. Então, com uma dúvida rápida sobre comida, o assunto que até então era guerra, sangue, pecado e morte se tornou um monólogo sobre a culinária do inferno.
A morena, ou Cali, como ela o corrigiu em uma das suas discussões, discorreu sobre as comidas infernais. Cogumelos, ervas, grãos, especiarias e massas cozinhadas do próprio terreno morto do submundo, que tinham gostos diversos e deliciosos, mas nunca iguais aos do mundo humano. Contou também que demônios não tem fome como os humanos e comem por prazer, algo que chamou bastante a atenção do garoto.
Ela contou isso um pouco nostálgica, o que fez Thomas se perguntar se dentro do enredo que criava a personagem dela já tinha morado no mundo humano. Não arriscou a perguntar, entretanto, para não dar margem a história doida que sempre trazia, mas ficou remoendo isso o resto daquele dia.
Na semana seguinte o mesmo se repetiu, mas em algum grau diferente. Porque apesar de ter passado só uma semana na companhia matutina da garota Thomas notou que ela parecia cansada. Tinha olheiras sutis e os cabelos agora viviam presos em coques, grandes demais para o corpo dela. As roupas, sempre as mesmas do primeiro dia, o deixaram intrigado. Não estavam sujas ou fediam como qualquer roupa normal, o que denunciava ou várias peças iguais ou uma lavagem diária.
Mas Cali ainda era a mesma: irredutível, e perseverou naqueles dias tentando convencê-lo da mesma forma de sempre. Contou grandes guerras que ocorreram no inferno, sobre monarcas anteriores e exaltou o atual rei encarcerado. Ela o admirava muito, percebeu, talvez até mais do que o normal.
Quem sabe fossem amantes?
Ele lançou um olhar de esgueira para a morena ao pensar nisso, mas afastou a ideia em seguida.
Por mais que o tema ainda fosse o mesmo às vezes a jovem se perdia no enredo, divertindo Thomas que ria de algumas histórias cômicas sobre demônios escorregando em cascas de frutas infernais e bacanais que terminavam em incêndios.
Pensou em ameaçar ligar para a polícia certo dia, caso ela continuasse o importunando, mas desistiu assim que saiu e a encontrou, na frente da sua casa dessa vez se apoiando no poste para ajeitar algo no sapato fechado que sempre usava. A companhia dela não era ruim e eram encontros rápidos também, se confortava afim de não admitir que gostava de vê-la todos os dias de manhã, apesar do começo tão... estranho.
Em alguns momentos Thomas desejou que o colégio fosse um pouco mais distante para ouvir certas histórias, noutros que morasse mais próximo. Cali era responsável por esses extremos e Thomas se questionou como seriam as manhãs sem ela na porta da sua casa, cabelos negros presos em um rabo de cavalo enorme, sorriso de lado e olhos azuis determinados.
Entretanto, ele não precisou de muito para saber, porque na sexta-feira daquela semana Cali não apareceu.
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