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Eliane, que até há pouco tempo estava ao lado do marido no lounge, deixou-o entregue às conversas calorosas com seus conhecidos e aliados. Ela observou a cena por um momento, vendo Pasini se envolver naquelas falas e gestos familiares, antes de decidir que era hora de se afastar. Deslizou com a naturalidade de quem conhece os meandros do poder, levando consigo Melina, que parecia menos à vontade, mas igualmente imponente. As duas, como se possuídas por uma harmonia invisível, cortavam a multidão que se aglomerava no evento, destacando-se entre os murmúrios e risos abafados que preenchiam o ambiente.

Eliane, sempre dona de uma presença que não passava despercebida, vestia um longo vestido de seda azul-marinho que abraçava seu corpo com a sutileza de um rio em noite calma. O tecido, leve como uma brisa, acompanhava seus movimentos com a graça natural de quem sabe o poder que exerce em cada olhar que a segue. Seus cabelos, que em outras ocasiões caíam soltos como um manto, estavam agora presos num coque que mais parecia obra de um artesão. Não era um coque qualquer; tinha volume, tinha vida, e algumas mechas rebeldes, soltas de propósito ao redor do rosto, davam a ela um ar de elegância sem esforço. Fios ondulados pendiam em volta das orelhas, desenhando seu rosto com a delicadeza de quem sabe ser bela sem precisar de espelhos. Na base do penteado, pequeninas pérolas reluziam discretamente, como estrelas que se escondem por trás das nuvens, apenas à espera do momento certo para brilhar.

Melina, que caminhava ao lado de Eliane, contrastava com a sobriedade da amiga. Havia nela uma vivacidade discreta, uma luz própria que brilhava sem esforço, refletida nas escolhas que fazia. Um choker de veludo negro circundava seu pescoço, sublinhando a delicadeza da clavícula com a precisão de quem conhece o próprio corpo e sabe destacá-lo. O simples pedaço de tecido, com seu toque de ousadia, emprestava à sua presença uma sensualidade sutil, como uma brisa que mal se sente, mas que muda o rumo da conversa. O vestido, num vermelho profundo que lembrava o sangue dos sonhos, abraçava sua figura com uma precisão quase poética, valorizando suas formas sem exagero, apenas o bastante para que a imaginação fizesse o resto. Os cabelos, lisos e sedosos como o leito de um rio, haviam sido lançados sobre um dos ombros, deixando à mostra um longo brinco prateado que dançava com a luz. Cada movimento fazia o acessório cintilar, realçando a firmeza e a sofisticação que os anos lhe haviam dado, fazendo-a parecer uma mulher que já conhecia o gosto da vida e não tinha pressa em desvendá-lo por completo.

O salão dos convidados era uma moldura de veludo e ouro, um quadro pintado com esmero por mãos que conheciam a grandeza dos detalhes. As cortinas de veludo pesado, num verde esmeralda que lembrava a opulência das florestas tropicais, pendiam majestosas das paredes, carregando consigo a história de noites antigas e segredos sussurrados. No alto, candelabros dourados cintilavam, como estrelas capturadas, projetando uma luz cálida e dourada que banhava o ambiente com uma aura de elegância quase mística.

Eliane lançou um olhar ligeiro pelo salão, captando com olhos experientes a disposição das mesas e o ordenamento dos convidados. Viu, com a sutileza de quem entende os jogos sociais, os olhares que, curiosos, se voltavam para elas, mas logo fugiam, como se temessem ser descobertos em flagrante. Ela deslizou pelo ambiente com a confiança de quem domina cada palmo do chão que pisa, seu vestido de seda murmurando segredos antigos a cada passo. Ao lado, Melina, com a leveza e despreocupação de quem ainda encontra encanto nos detalhes, mantinha a postura ereta, mas relaxada, seus olhos cintilando com uma curiosidade fresca.

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A conversa ainda não fluía com o entusiasmo desejado, mas o ambiente ao redor da mesa de Tarcísio carregava uma tensão palpável, como se as palavras não ditas e os olhares furtivos estivessem acumulando um potencial que prometia explodir a qualquer momento.

Foi nesse momento que Eliane e Melina se aproximaram. As duas chegaram como uma brisa que entra por uma janela aberta, trazendo consigo uma mudança no ar. O som dos saltos de Eliane ecoou pelo chão de mármore, cortando o silêncio que pairava sobre a mesa. Sua presença foi imediatamente notada, e todos ergueram os olhos, sentindo o impacto de sua chegada.

Eliane lançou um olhar penetrante e firme para Luca, cuja atenção parecia estar vagando como uma bruma distante. Seu olhar percorreu a mesa, até se fixar no copo diante de Luca. O suco, de um laranja intenso e quase deslumbrante, parecia uma chama líquida, como se um pedaço do sol tivesse sido capturado e vertido em um vidro. Sua cor vibrante e saturada destacava-se com um brilho quase mágico contra a toalha de linho branco da mesa e os acessórios de prata que pareciam desvanecer diante da intensidade do líquido.

Sem hesitar, Eliane dirigiu-se até a cadeira de Luca com passos firmes, seu vestido de seda deslizando como uma sombra elegante. Ela se inclinou levemente, sua voz firme e controlada cortando o suave murmúrio das conversas e a música delicada que preenchiam o salão.

— Você não deveria estar bebendo algo como isso — começou ela, a tensão no tom de sua voz clara e inconfundível.

Luca tentou responder, mas suas palavras saíram entrecortadas e gaguejantes, como se estivesse lutando para se recompor diante da invasiva presença de sua mãe. — Não é... não é bebida alcoólica — tentou explicar, a voz embargada pela surpresa e pela pressão.

Ele olhou para o copo, como se esperando que a cor vibrante do suco o defendesse, mas a insistência de Eliane fazia com que suas palavras soassem ainda mais vacilantes e incertas.

Enquanto Luca tentava se explicar, Melina, ao lado de Eliane, aproveitou a brecha para trocar algumas palavras com o avô, Sr. Tarcísio. Pedrina, observando a situação, aproximou-se e agarrou a cintura de Eliane com um gesto afetuoso e possessivo, como se quisesse descobrir mais sobre a bronca do irmão naquele momento.

Eliane, mantendo o olhar firme em Luca, virou-se então para Kadu. Com um gesto autoritário e sem deixar margem para dúvidas, ela o chamou:

— Reúna os convidados no salão. Eu e meu marido temos um pronunciamento a fazer.

Kadu ergueu-se com a rapidez de um gato que se espreguiça após um cochilo, seus movimentos ágeis e precisos, como quem sabe o que quer, mas teme interromper o fluxo natural das coisas. Com passos ligeiros, aproximou-se de Eliane, hesitando por um instante antes de deixar escapar as palavras que lhe queimavam na garganta. Com um gesto nervoso e quase imperceptível, ajustou o paletó, como se tentasse pôr em ordem não só as roupas, mas também os pensamentos que se atropelavam em sua mente.

— Depois de reunir todos, posso voltar para a mesa? — perguntou Kadu, com a voz carregada de um respeito antigo, desses que se aprende desde criança, mas que não conseguia esconder a ponta de ansiedade que lhe tremia no fundo das palavras.

Eliane, com o olhar ainda cravado em Luca, permitiu-se desviar os olhos para Kadu por um breve instante. A astúcia que trazia nos gestos fez com que compreendesse, sem demora, o que se escondia por trás daquele pedido. Seus olhos vagaram até Gigi, numa pausa que pareceu durar uma eternidade. Quando voltou a encarar Kadu, havia nos traços de seu rosto uma leveza quase imperceptível, uma aceitação muda do desejo que ele guardava no peito, como quem entende as vontades do coração sem precisar ouvir palavra alguma.

— Está bem — disse Eliane, num tom que trazia consigo a firmeza de quem comanda e uma pitada de indulgência, como quem concede uma pequena graça a um súdito fiel. — Mas seja ligeiro e cuide para que ninguém falte no salão.

Ela lançou um último olhar em direção à mesa, demorando-se por um instante, como se quisesse gravar cada detalhe antes de voltar sua atenção para Kadu, reforçando com os olhos a importância da tarefa. Ele acenou com a cabeça, uma reverência discreta, agradecido e determinado a cumprir o que lhe foi pedido, embora o pensamento já o conduzisse de volta à mesa onde Gigi o esperava.

Kadu se afastou, seus passos firmes, mas o coração acelerado, ansioso pelo retorno ao lado da moça, enquanto se preparava para convocar os convidados ao salão, como quem deseja apressar o tempo para retomar seu lugar ao lado dela.

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No grande salão, a luz suave dos candelabros parecia abraçar os convidados em um abraço caloroso e cintilante. O murmúrio das conversas foi diminuindo gradualmente, como se o ambiente inteiro estivesse sintonizado com a expectativa do momento que se aproximava. Eliane e Pasini, agora no palco, eram figuras de destaque sob o olhar atento dos presentes. O palco estava decorado com drapeados de veludo azul escuro que emolduravam os dois como um cenário de opulência e autoridade.

O murmúrio das conversas cessou quase que instantaneamente quando Eliane se dirigiu ao microfone, seu vestido de seda azul-marinho fluindo como uma onda majestosa que parecia sussurrar segredos antigos. O tecido reluzia à luz dos holofotes, realçando a elegância e a autoridade que ela carregava. Seus olhos, firmes e escuros, percorriam a plateia, capturando cada olhar e segurando-o como um pescador que retém o peixe com a rede.

Quando começou a falar, sua voz era um misto de suavidade e firmeza, uma melodia de autoridade que se espalhava pelo salão como um perfume delicado. As palavras saíam de seus lábios com uma cadência controlada, a retórica moldada pela experiência e pelo poder. “Senhoras e senhores,” ela começou, “é com grande honra que estamos aqui hoje para compartilhar com vocês um momento significativo para todos nós.”

O som das palmas começou a ecoar pelo salão, como o bater das ondas na costa, ritmado e incessante. Cada aplauso era uma pequena explosão de entusiasmo que reverberava contra as paredes adornadas com tapeçarias e quadros de paisagens distantes. O calor das palmas se elevava, misturando-se com o brilho dos sorrisos e das olheiras admiradas.

Enquanto isso, Luca, sentado à mesa, sentia o peso das palavras da mãe como uma sombra crescente. O rosto dele, de um rubor incômodo, começou a se corar lentamente, como o sol que se põe vermelhamente no horizonte. Seus olhos, antes curiosos e dispersos, agora se fixavam no chão, na tentativa de se esconder da avalanche de sentimentos que a presença e a eloquência da mãe lhe provocavam. O constrangimento, quase palpável, parecia pairar no ar ao seu redor, um manto invisível que o envolvia cada vez mais.

Pasini, ao lado de Eliane, observava com uma expressão de orgulho sereno, sua postura inabalável, como um farol de estabilidade. Seus olhos refletiam a satisfação de estar ali, participando de um momento que prometia ser memorável. O palco, com seus tecidos luxuosos e a iluminação envolvente, parecia um reino temporário onde a família era soberana, e o mundo fora das cortinas aguardava em silêncio respeitoso.

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À medida que Eliane prosseguia com seu discurso, Gigi, à mesa, começava a sentir um desconforto crescente. O calor do ambiente parecia se intensificar ao redor dela, como se o climatizador já não pudesse aliviar o turbilhão de emoções que a envolvia. As palavras de Eliane, carregadas de uma pompa imponente, pareciam se espalhar pelo salão e tocar Gigi com uma força inesperada. A jovem sentia-se pequena e deslocada, como uma peça que não se encaixa em um quebra-cabeça grandioso.

Mesmo sendo, talvez, conhecidos do seu pai, Gigi não conseguia deixar de sentir que aquele lugar não lhe pertencia. O brilho dos candelabros agora era um reflexo de uma luz intensa demais, que iluminava não apenas o espaço, mas os pensamentos inquietos que passavam pela mente dela. Era como se ela fosse uma intrusa, alguém que, por mais que tentasse, não conseguia se adaptar ao esplendor e à grandiosidade do cenário. A leveza em seus pés, como se o chão estivesse desaparecendo sob ela, aumentava essa sensação, deixando-a em um estado de flutuação incômoda. O murmúrio dos convidados ao redor parecia um zumbido distante, uma colagem de sons indistinguíveis que apenas intensificavam a sensação de isolamento.

O olhar de Gigi vagueava pela mesa, observando os convidados que, encantados pelo espetáculo, aplaudiam e sorriam. Ela questionava a si mesma sobre o seu lugar naquele cenário majestoso, o que a fazia sentir-se como uma intrusa em um teatro de grande escala. Sentia um peso nos ombros, como se o ambiente opulento e os olhares admirados que a rodeavam fossem um fardo insuportável. Cada vez que via um olhar de aprovação ou um gesto de entusiasmo dos presentes, uma onda de desconforto a invadia, como se a atmosfera ao redor estivesse constantemente lembrando-a de que ela não pertencia àquela festa de grandeza e brilho.

Enquanto o discurso de Eliane se desenrolava com a grandiosidade e a pompa características de um evento de alta sociedade, uma nuvem escura começava a se formar sobre o estado emocional de Gigi. O calor do salão parecia pesar mais em seus ombros, e, contra a opulência do cenário, seu desconforto se tornava cada vez mais palpável. As palavras de Eliane, que antes ressoavam com uma força imponente, agora pareciam um ruído distante e esmagador, como um trovão em uma tempestade iminente.

“Nós nos reunimos hoje para celebrar uma nova era,” proclamava Eliane ao microfone, com um tom firme e solene, cada palavra cuidadosamente articulada. As frases de Eliane pareciam preencher o ambiente com uma solenidade imponente, criando um contraste gritante com o turbilhão de emoções que dominava Gigi.

O salão, com suas luzes douradas e conversas murmuradas, parecia encolher ao seu redor, cada vez mais sufocante. O ar que antes era festivo agora se tornava pesado, quase irrespirável. Gigi sentia o coração bater descompassado, uma música triste que contrastava com as palmas e risos ao seu redor. Ela olhava para os rostos sorridentes, para os gestos de aprovação, e tudo o que via era um espelho que refletia sua solidão e desconforto. Não havia como escapar do sentimento crescente de que estava fora do lugar, como uma estranha no próprio corpo.

O desconforto se transformava em um nó na garganta, um peso que ameaçava transbordar em lágrimas a qualquer momento. E, quando finalmente não pôde mais conter a maré de emoções, Gigi sentiu as lágrimas brotarem, escorrendo silenciosamente por seu rosto. A pele, antes apenas pálida, agora parecia ainda mais frágil, quase translúcida sob a luz dos candelabros, enquanto suas mãos tremiam levemente, traindo o caos que se instaurava em seu interior.

Desesperada, ela virou-se para Kadu, ao seu lado, buscando nele um refúgio, uma saída para aquele inferno de brilho e falsa alegria. A voz embargada, mal saindo de sua boca, foi suficiente para expressar o que as palavras não conseguiam:

— Por favor, me tire daqui. Estou me sentindo mal...

Kadu percebeu que algo estava profundamente errado. Os olhos de Gigi, antes vivos, estavam enevoados, como se uma tempestade se formasse dentro dela. Ele, que conhecia aquelas sutilezas do sentir, aproximou-se, o coração batendo mais rápido ao ver o quanto ela estava abatida.

— O que está acontecendo? — perguntou Kadu, sua voz baixa, quase um murmúrio, mas cheia de preocupação, enquanto as palavras pareciam se perder na densa atmosfera de incertezas que pairava entre eles.

Gigi, sem conseguir sustentar o olhar, apenas balançou a cabeça, a angústia transbordando em cada gesto, em cada suspiro entrecortado. Ela tentou falar, mas as palavras se misturaram com os soluços, transformando-se em um pedido quase desesperado:

— Por favor... me tira daqui... — a voz dela soava como um apelo, mais forte do que qualquer explicação que poderia dar naquele momento.

Kadu, percebendo que não era hora de perguntas, sentiu o peito apertar ainda mais. Ele insistiu, a voz agora quase em um sussurro:

— Fala comigo... o que foi? O que está acontecendo com você?

Mas ela, com as mãos trêmulas e o rosto já úmido de lágrimas, insistia na única coisa que sua mente conseguia formular naquele momento:

— Só me tira daqui... por favor...

Os dedos de Kadu roçaram de leve o braço de Gigi, um gesto silencioso, quase imperceptível, mas carregado de preocupação. Ele inclinou-se novamente em sua direção, como quem se prepara para proteger uma chama frágil de um vento forte. Viu as lágrimas que ainda teimavam em cair e sentiu que precisava agir rápido, como se cada segundo fosse um peso que a afundava ainda mais naquele mar de angústia.

Com uma voz baixa e tranquilizadora, como se tentasse acalmar um animal assustado, Kadu sussurrou:

— Se quiser, a gente dá uma volta lá fora, pega um ar fresco. Ninguém precisa saber de nada... só fica tranquila.

100

Lorenzo, sentado em sua mesa, tentava manter a compostura enquanto o discurso de Eliane se arrastava, mas a paciência começava a lhe escapar pelas bordas. Seus dedos tamborilavam impacientes sobre o guardanapo de linho, o olhar vagando pelo salão com uma inquietação disfarçada. O tom solene de Eliane, que parecia hipnotizar os convidados, não conseguia prender sua atenção por muito tempo. Ele desviava os olhos do palco, observando os convidados ao redor, os sorrisos forçados, as expressões de reverência que, para ele, pareciam mais mecânicas do que genuínas.

Enquanto seus olhos passeavam sem compromisso pelo salão, algo chamou sua atenção. Uma movimentação na mesa onde estava o filho de Eliane, uma agitação sutil, mas que contrastava com o comportamento até então estático dos presentes. Lorenzo fixou o olhar na cena, vendo Kadu se levantar com uma expressão de preocupação e, logo em seguida, Gigi, ainda visivelmente abalada, fazer o mesmo. As duas figuras que emergiam do restante da multidão capturaram seu interesse de imediato.

Lorenzo franziu o cenho, tentando entender o que estava acontecendo. A maneira como Kadu apoiava Gigi, como se estivesse tentando ampará-la, despertou um alarme silencioso em sua mente. Sem hesitar, ele empurrou a cadeira para trás, os pés tocando o chão com um leve ruído que mal se destacou no burburinho do salão, e se levantou. Com passos decididos, mas cautelosos, começou a atravessar o espaço entre as mesas, seu olhar fixo na dupla.

Chegando à mesa, Lorenzo fez questão de manter um tom calmo, embora sua presença fosse firme e determinada. Ele parou ao lado de Kadu, o rosto moldado por uma expressão que misturava curiosidade e leve preocupação.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou Lorenzo, a voz baixa, mas carregada de autoridade. Seus olhos alternavam entre Kadu e Gigi, esperando uma resposta que elucidasse o motivo daquela súbita inquietação.

Kadu olhou para Lorenzo, hesitando por um momento, como se estivesse tentando escolher as palavras certas. Ele sabia que não podia causar alarde, especialmente com Eliane ainda no palco e todos os olhares voltados para ela. Com um leve aceno de cabeça, Kadu falou, mantendo a voz baixa e calma.

— Gigi não está se sentindo bem — começou, seus olhos fugindo rapidamente para Gigi, que parecia ainda mais pálida sob a luz do salão. — Eu estava sugerindo que a gente saísse um pouco.

Kadu manteve a mão suavemente no braço de Gigi, como se o gesto pudesse oferecer algum consolo. Ele sabia que Lorenzo estava analisando cada detalhe, mas tentou parecer tranquilo, mesmo que sua preocupação com Gigi fosse evidente.

Lorenzo franziu a testa, os olhos fixos em Gigi, que continuava lutando contra as lágrimas, mal conseguindo disfarçar seu desconforto. Ele sabia que não seria apropriado sair do salão de maneira abrupta, especialmente enquanto Eliane estava no centro das atenções. Sua mente rápida já estava calculando as possíveis repercussões.

— Não seria bom saírem assim, no meio de tudo — disse Lorenzo, a voz firme, mas baixa, direcionada a Kadu. Seus olhos ainda avaliavam a situação, cientes dos olhares que poderiam seguir qualquer movimento inesperado.

Ele se aproximou mais, sua presença imponente reforçando a autoridade que exercia em momentos de tensão.

— Vou levá-la para o escritório no primeiro andar — ofereceu, com um tom que mais parecia uma decisão do que uma sugestão. — Lá é mais tranquilo, ninguém vai notar. Será melhor para ela, e não chamará a atenção de ninguém.

Lorenzo fez um gesto sutil com a cabeça, indicando que Kadu o seguisse com Gigi. Ele colocou uma mão firme, mas não agressiva, no ombro dela, guiando-a com determinação e cuidado, como se estivesse protegendo um segredo valioso.

101

Ettore chegou à Fortaleza de Prata com a suavidade de um fantasma, o carro deslizando pelo asfalto até repousar no estacionamento. Ao sair, foi recebido por um vento frio, que trazia consigo o odor salgado do mar próximo, misturado ao leve aroma de pinho das árvores ao redor. Poucos eram os que vagavam pelo saguão—apenas alguns recrutas absortos em suas funções e os garçons, como sombras passageiras, portando bandejas de prata que refletiam as luzes difusas como espelhos mágicos. Ettore seguiu adiante, passos firmes, atravessando as portas que davam acesso ao grande salão onde os convidados se reuniam como estrelas em uma noite densa.

O som da voz de Pasini, carregada de autoridade e experiência, ecoava pelas paredes adornadas. Ele agora tomava a palavra, discursando para os conhecidos como um pregador em seu púlpito. Ettore permaneceu à margem, seus olhos perscrutando as mesas, buscando nitidamente a figura de Gigi. Mas o salão parecia um mar revolto, onde cada rosto era uma onda que se misturava na correnteza. O desconforto se aninhava em seu peito, mas ele mantinha a calma, os olhos atentos e o coração pesado, enquanto a figura de Pasini dominava o cenário, os ecos de suas palavras ressoando nos ouvidos de Ettore como um tambor distante.

102

No escritório do primeiro andar, onde a penumbra se entrelaçava com o calor acolhedor, Gigi se aninhava em uma poltrona de veludo, com seus ombros ainda agitados pelo desconforto. O ambiente era um refúgio de mistério e antiguidade, adornado por um lustre de ferro forjado com detalhes em ouro envelhecido, que reluziam de maneira enigmática. Móveis de madeira escura e tapetes pesados envolviam o espaço em uma aura de sofisticação silenciosa.

A luz suave da luminária lançava sombras tranquilizadoras sobre as paredes, repletas de livros antigos. Sobre a escrivaninha, uma imponente estatueta de um gárgula de ouro destacava-se, conferindo um toque de majestade ao ambiente.

O lugar, agora um abrigo de calmaria, era também um eco de lembranças. Gigi reconheceu-o imediatamente como a mesma sala onde Lorenzo a havia conduzido naquela noite do baile oculto. Kadu, a seu lado, era uma presença serena e constante, enquanto Lorenzo, próximo à porta, observava com um olhar profundo e ponderado.

— Vou deixá-la sozinha aqui por um momento. Preciso tratar de alguns assuntos, mas já volto para ver como você está — disse Lorenzo, sua voz grave reverberando levemente na quietude do escritório.

Gigi ergueu a cabeça, os olhos ainda avermelhados e marejados, e, com uma voz hesitante, pediu:

— Eu gostaria que Kadu ficasse comigo.

Lorenzo olhou para Kadu com uma expressão que misturava curiosidade e uma leve suspeita, avaliando o jovem de maneira sutil. Havia um brilho interrogativo em seus olhos, uma avaliação silenciosa de Kadu, antes de ele finalmente acenar com um gesto afirmativo.

— Está bem. Ficarei fora por um tempo. Vou confiar em você para cuidar dela — disse Lorenzo, sua voz carregada de um tom de confiança relutante.

Com um último olhar para Kadu, Lorenzo se afastou lentamente, a porta se fechando suavemente atrás dele. Descendo as escadas em direção ao salão, os ecos de seus passos reverberavam pelo caminho. Ao chegar no salão principal, a atmosfera ainda estava carregada com a imponência dos discursos de Pasini e Eliane.

Lorenzo desviou o olhar dos oradores e dirigiu-se ao bar, onde pediu uma bebida. O líquido gelado escorregou por sua garganta, trazendo um breve alívio à tensão que sentia. Ele bebeu alguns goles, sentindo o frio do copo em suas mãos, enquanto sua mente trabalhava em silêncio.

Após pegar sua bebida, Lorenzo voltou ao salão, mantendo-se nos fundos enquanto tomava pequenos goles. Ele se posicionou em pé, segurando o copo gelado, e começou a observar tudo ao redor. Seus olhos analisavam cada detalhe, desde os convidados que murmuravam entre si até a postura confiante de Pasini no palco.

Enquanto Lorenzo tomava outro gole da bebida, perdido em seus pensamentos, ele ouviu alguém chamar seu nome por trás. Inicialmente, ele se virou sem reconhecer a voz, franzindo o cenho ao tentar identificar a pessoa à sua frente. Mas então, seus olhos se fixaram no rosto familiar de Ettore. A mudança na aparência de Ettore — talvez o cabelo mais curto e claro, ou o cavanhaque discreto com pelos ralos e esparsos — causou um breve momento de hesitação em Lorenzo. No entanto, ao perceber quem era, ele deixou escapar um riso ligeiramente sarcástico, uma burla velada que mal escondia sua surpresa e divertimento diante da nova aparência do rapaz conhecido.

Ettore arqueou uma sobrancelha ao notar o riso de Lorenzo, sua expressão misturando curiosidade e leve desconfiança.

— O que foi? — perguntou ele, tentando decifrar o motivo da risada.

Lorenzo, sem perder o tom irônico, inclinou levemente a cabeça, observando Ettore de cima a baixo.

— Nada, nada… Só estou admirando essa sua nova versão — respondeu Lorenzo, com um sorriso de canto. — É que você quase passou despercebido. Mas, de qualquer forma, achei interessante essa sua tentativa de renovação.

Ettore estreitou os olhos, tentando ler nas entrelinhas do comportamento de Lorenzo.

— Aconteceu alguma coisa por aqui? — perguntou, um tom de preocupação velado em sua voz.

Lorenzo, ainda segurando o copo, ficou em silêncio por um momento, perdido em seus próprios pensamentos. A imagem de Gigi saindo do salão ao seu lado passou por sua mente, mas ele disfarçou, deixando escapar um suspiro antes de responder.

— Nada demais — respondeu, com um desinteresse aparente. — Tudo na mais perfeita ordem.

Antes que Ettore pudesse questionar mais, os aplausos ecoaram pelo salão, interrompendo o diálogo. Ambos voltaram seus olhares para o palco, onde Eliane se afastava discretamente, deixando Pasini a falar sozinho. Lorenzo percebeu o movimento dela e, com um olhar decidido, já começou a traçar um plano em sua mente.

— Com licença — disse ele a Ettore, já se movendo em direção à saída do palco, determinado a seguir Eliane.

Ettore, percebendo a urgência nos passos de Lorenzo, hesitou por um segundo, mas logo decidiu não ficar para trás. Sem dizer mais nada, seguiu Lorenzo, os dois se movendo entre os convidados enquanto Eliane desaparecia na multidão.

103

Eliane caminhava rapidamente em direção à mesa de Luca, sua mente ainda presa à visão que tivera do palco: Gigi saindo do salão, acompanhada por Lorenzo e Kadu. Seus passos eram firmes, embora o coração batesse acelerado, ansiosa para entender o que estava acontecendo.

Ao chegar à mesa, Luca, que conversava algo com o Sr. Tarcísio, ergueu o olhar ao perceber a aproximação de Eliane. Ela se inclinou levemente sobre a mesa, sua expressão era uma mistura de autoridade e preocupação.

— Para onde Kadu levou a garota? — perguntou Eliane, sua voz baixa, mas carregada de urgência.

Luca, surpreso pela pergunta repentina, trocou um olhar rápido com os outros à mesa antes de responder.

— Ela estava se sentindo mal — explicou ele, sua voz calma, como se tentasse tranquilizá-la. — Lorenzo achou melhor levar os dois para um lugar mais reservado.

Eliane franziu o cenho, ainda processando as palavras de Luca. A ideia de Lorenzo levando Gigi para longe a deixou desconfortável, uma inquietação que não conseguia afastar.

— Para onde ele os levou? — insistiu ela, agora com um tom mais direto.

— Acho que para uma sala no primeiro andar — respondeu Luca, após uma breve hesitação, tentando imaginar de onde Lorenzo poderia costumar a levar convidados em situações assim.

Eliane ficou em silêncio por um momento, seus olhos estreitando enquanto considerava as implicações. A sensação de que algo mais estava acontecendo não a deixava em paz. Eliane estava absorta em seus pensamentos, quando ouviu seu nome sendo chamado. Ela se virou, vendo Lorenzo aproximar-se da mesa.

— Eliane — começou Lorenzo, sua voz carregada de uma cortante sutileza, — eu estava justamente procurando você.

Eliane ergueu uma sobrancelha, sua expressão tornando-se ligeiramente tensa.

— O que foi, Lorenzo? — perguntou ela, tentando manter a compostura. — Já que está aqui, pode me dizer por que retirou Gigi e Kadu do salão?

Lorenzo sorriu de maneira enigmática, seu olhar passando pela mesa antes de pousar em Eliane.

Começou ele, com um tom que misturava sarcasmo e admiração:

— A maneira como você lida com o público é... fascinante. Mas, digamos que um pouco de discrição não faz mal a ninguém. Gigi estava visivelmente desconfortável, e achei que um pouco de privacidade seria apropriado.

A tensão no ar era palpável, Eliane estreitou os olhos, não conseguindo ocultar o desagrado.

— Não acredito que você deva criticar meu discurso enquanto está agindo dessa maneira. Não é algo que eu esperava da sua parte.

Lorenzo inclinou a cabeça, um sorriso de desdém ainda no rosto.

— Não estou criticando. Apenas observando. Talvez um pouco de empatia às pessoas não seja o seu forte — ele alfinetou, deixando o tom mais ácido.

Eliane controlou a respiração, seus olhos lançando um olhar cortante para Lorenzo.

— Empatia? — ela respondeu, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Não se preocupe com meu nível de empatia. Eu cuido das minhas responsabilidades com a mesma atenção que você dedica às suas observações.

Lorenzo manteve o olhar fixo em Eliane, a frieza em seu tom não se desvanecendo.

— Eu não posso deixar de me perguntar se essa grandiosa cerimônia não tinha um propósito oculto. — Sua voz ganhou um tom mais grave, carregado de suspeita. — Desconfio que você preparou o palco de forma a levar Gigi a um estado de grande constrangimento, quase como se a intenção fosse humilhá-la publicamente.

Eliane arqueou uma sobrancelha, um sorriso irônico brincando em seus lábios.

— Então, você realmente acredita que toda essa grandiosidade tinha um propósito secreto? — ela disse, com uma pontada de sarcasmo. — Será que você mencionou essa teoria a Gigi? Talvez seja isso que a tenha feito se sentir mal. Afinal, nada como uma boa dose de paranoia para acelerar o desconforto.

Lorenzo estreitou os olhos, a frieza de seu tom revelando uma irritação contida.

— Você é uma mulher ridícula. Não há nada de grandioso ou elegante em suas jogadas. Apenas uma tentativa patética de manipulação.

Eliane, furiosa, aproximou-se abruptamente, a raiva transbordando em cada palavra.

— Se não está satisfeito, vá embora! Não sei por que você ainda está aqui. Só foi convidado porque meu marido insistiu, não porque você tenha alguma importância real aqui.

Lorenzo deu um passo à frente, sua voz cortante como uma lâmina.

— Ah, sim, insistiu e você aceitou, acreditando que eu ainda era um aliado de Nicolas. Achou que poderia extrair algo útil de mim, não é? Pois saiba que, se quer me enxotar, faça-o com mais tato, pois a sua tentativa de rebaixar os outros só revela sua própria falta de valor.

Lorenzo balançou a cabeça, a incredulidade visível em seu rosto.

— Você está louca. A forma como manipula tudo ao seu redor é uma verdadeira insanidade.

Eliane, com o rosto incandescente e os olhos fulgurando como brasas, respondeu com uma frieza implacável, sua voz carregada de um desafio ardente que fazia o ar ao redor parecer vibrar.

— Aqui é Monte dos Reis. Aqui, é assim que se joga. Se não consegue lidar com isso, talvez devesse ter ficado longe desde o início.

A intensidade na expressão de Eliane era quase palpável, sua raiva e ódio tornando-a uma figura ameaçadora. Lorenzo sentiu um arrepio recorrer sua espinha, momentaneamente cogitando recuar. No entanto, sua postura permaneceu firme, desafiando a atmosfera carregada enquanto enfrentava o olhar gélido e desafiador de Eliane.