Legado De Poder
21 104—107
Notas iniciais
104
Após o choque do confronto com Eliane, Lorenzo manteve a postura firme, mas sentiu uma inquietude interna que não podia ignorar. Seus pensamentos, breves e carregados, se voltaram para Gigi.
105
Enquanto isso, no escritório, Kadu movia-se com uma cautela atenta, quase reverente. Seus olhos percorriam cada detalhe da escrivaninha, como se nela pudesse encontrar respostas para perguntas que nem sabia que tinha. A curiosidade o guiava, fazendo-o deslizar os dedos pelas superfícies, abrindo gavetas com o cuidado de quem sabe que está diante de algo antigo e significativo.
Seu olhar minucioso captava tudo, como um gato farejando segredos escondidos, explorando cada recanto com a certeza de que algo valioso estava prestes a ser descoberto.
Kadu cruzou os braços, encostando-se na escrivaninha com um ar pensativo. Ele olhou para Gigi, que o observava em silêncio, e sorriu de leve, tentando dissipar o clima tenso que parecia pairar sobre eles.
— Sabe, aqui nessa sala, mal dá para ouvir o som da música lá de baixo — ele comentou, a voz quase em tom de confidência. — É como se estivéssemos em outro mundo, longe de toda aquela agitação.
Ele balançou a cabeça, como se estivesse rindo por dentro. — E pensar que todos estão lá, vestidos com suas melhores roupas, fingindo que nada mais importa além de uma taça de vinho e uma conversa superficial.
Kadu fez uma pausa, os olhos ainda fixos em Gigi. — E nós aqui, longe daquele espetáculo. Me faz pensar se não é melhor estar onde estamos. Acho que, por ora, o melhor é nos focarmos em você.
Gigi sentiu o calor da proximidade de Kadu, uma presença que lhe trazia conforto em meio ao turbilhão que a envolvia. Olhou para ele, e uma pequena faísca de confiança brilhou em seus olhos.
— Ficar lá embaixo me faz sentir que estou sendo tragada por algo... maior do que eu. Como se tudo pudesse me engolir, me apagar — confessou, sua voz trêmula, mas determinada.
Kadu sorriu levemente, um sorriso que trazia consigo uma promessa silenciosa de proteção.
— Então não vamos deixar que isso aconteça. Você é mais forte do que esse lugar, do que qualquer coisa estranha que aqui possa conter.
Kadu, notando a fragilidade nos olhos de Gigi, deu um passo à frente, sua presença firme e cálida envolvendo-a como uma brisa suave em dia de verão. Sem dizer palavra, ele estendeu a mão, pousando-a com a delicadeza de quem toca uma flor, sobre a dela. Um gesto quase tímido, como se temesse quebrar a frágil confiança que pairava entre os dois.
Gigi levantou o olhar, surpresa pelo toque, mas não recuou. A mão de Kadu, quente e segura, transmitia uma força mansa, como as águas calmas de um rio que correm silenciosas. Com cuidado, ele entrelaçou seus dedos nos dela, num gesto que, por sua simplicidade, carregava o peso de uma promessa antiga, dessas feitas na alma e não com palavras.
— Eu não sei se é o melhor momento para dizer isso. Às vezes, o momento perfeito não chega, e a gente tem que se agarrar ao que está diante de nós. — murmurou ele, com uma voz baixa, quase um sussurro que parecia acariciar o ar entre eles. Seus dedos apertaram levemente os dela, como se quisesse gravar na pele a certeza do que dizia. — Não é só por causa dessa confusão toda... mas eu me importo com você de verdade. Muito mais do que eu achei que seria possível.
Gigi sentiu o coração apertar, mas não de medo ou de dúvida. Era um aperto doce, daqueles que vêm quando se percebe que, por mais turbulento que seja o mar, há alguém ali, firme ao seu lado, disposto a dividir as tempestades. E, por um breve instante, ela se permitiu acreditar que, talvez, o sol pudesse brilhar mais uma vez naquele céu nublado.
Ela olhou para Kadu, seus olhos carregados de uma emoção que não conseguia disfarçar. A voz dela, embora suave, tinha a clareza de uma confissão profunda e sincera.
— Em meio a toda essa confusão, você foi a melhor pessoa que eu conheci aqui.
Ela fez uma pausa, o olhar se tornando mais intenso, como se tentasse transmitir toda a sua gratidão e admiração.
— No meio de tantas máscaras e falsidades, você é a única coisa que parece real.
Gigi levantou a cabeça, afastando com um gesto delicado a franja reta que caía sobre seus cílios, revelando um olhar mais profundo e sincero. O rabo de cavalo baixo que segurava seus cabelos escuros balançou suavemente. Ela tentou organizar a franja que, desafiando o domínio das suas emoções, teimava em cair sobre a testa. Em meio a essa cena íntima, a suavidade do seu movimento parecia falar mais do que palavras poderiam expressar.
Nesse instante, o silêncio da sala foi rompido por um rangido seco. A porta, que até então guardava seus segredos, se abriu com um ruído estridente, como se protestasse contra a invasão. Gigi e Kadu se sobressaltaram, o momento de ternura quebrado de forma abrupta. Um barulho firme de salto ecoou por trás, seguido pelo som áspero da respiração de alguém que entrou com tudo, sem pedir licença. Era Eliane, que irrompeu na sala como uma tempestade, os olhos faiscando com uma fúria contida. Ela parou diante deles, a figura dura e determinada, irradiando a autoridade implacável que a cercava como um véu, pronto para abafar qualquer chama de rebeldia.
Eliane, com os olhos cravados em Gigi, avançou mais alguns passos, ignorando completamente a presença de Kadu, como se ele fosse apenas uma sombra no canto da sala. Sua voz cortou o ar com a precisão de uma lâmina:
— O que é que você tem?
O tom carregava uma mistura de impaciência e uma preocupação disfarçada, quase imperceptível, perdida na dureza das palavras. A fisionomia de Eliane era a de alguém que não admitia fraqueza, nem mesmo nas pessoas que, em outro tempo, talvez amasse. Ela estava ali, esperando respostas, sem espaço para rodeios ou hesitações.
Gigi desviou o olhar, sentindo o peso das palavras de Eliane como se fossem pedras. Ela respirou fundo, tentando reunir forças, mas sua voz saiu baixa, quase um sussurro:
— Eu... eu não estou me sentindo bem.
Era uma confissão simples, quase infantil, mas carregada de um cansaço profundo, como se cada sílaba fosse arrancada de dentro de si com esforço. Gigi não queria parecer fraca diante de Eliane, mas a verdade era que aquela noite, aquele ambiente sufocante, tudo parecia conspirar para puxá-la para baixo, para um abismo do qual ela não sabia se conseguiria escapar.
Eliane estreitou os olhos, e sua expressão endureceu num instante. Quando falou, sua voz cortou o ar como uma lâmina:
— Não está se sentindo bem? Talvez seja porque está rodeada por gente que não sabe o seu lugar. Isso aqui não é brincadeira de criança. Se não consegue lidar com a pressão, talvez devesse reconsiderar o que está fazendo aqui na cidade.
As palavras saíram afiadas, deixando Gigi desconfortável, como se tivesse sido golpeada no peito. A dureza no tom de Eliane, o desprezo nas entrelinhas, fizeram com que Gigi se encolhesse ligeiramente, sentindo-se ainda mais deslocada e vulnerável naquele ambiente que parecia esmagá-la a cada segundo.
Gigi respirou fundo, tentando manter a calma diante da agressividade de Eliane. Com a voz trêmula, ela começou:
— Eu só vim para a cidade porque meu pai sugeriu... Eu achei que—
Mas antes que pudesse terminar, Eliane a interrompeu, com um sorriso gelado e palavras cortantes.
— Sugeriu? Você veio para a cidade porque não é capaz de resolver os problemas que tem com ele. E agora todos nós temos que suportar essa sua tristeza mal resolvida. É isso que você não entende — ela continuou, a voz impregnada de desprezo. — Aqui não há espaço para fraquezas. Se você não consegue lidar com seus próprios demônios, não espere que outros façam isso por você.
As palavras de Eliane caíram sobre Gigi como uma marreta, deixando-a sem fôlego, sentindo-se ainda mais impotente e acuada.
O peito ardia com a injustiça das palavras de Eliane, mas, em vez de recuar, Gigi manteve a voz firme:
— Eu não estou querendo que você faça nada por mim. Pelo contrário, você faz as coisas por conta própria e exige que eu vá junto.
Eliane deu um passo à frente, os olhos faiscando.
— Você não faz ideia do que está falando, garota. Se tivesse a mínima noção de responsabilidade, não estaria aqui reclamando. Mas continue se escondendo atrás de suas desculpas infantis. Vamos ver até onde isso te leva.
Nesse instante, a porta da sala se abriu com um ranger sutil. Lorenzo apareceu no batente, observando a cena com uma expressão séria. Kadu, que estava ao lado de Gigi, virou-se para ele, os olhos se cruzando em um momento carregado de tensão.
Gigi, com a voz carregada de frustração, disse:
— Você está apenas me aguentando na sua casa. Eu sei disso. E quanto àqueles lá embaixo, eles não são meus conhecidos, são conhecidos seus e do seu marido. Eu estou aqui só por causa das suas exigências.
Eliane respirou fundo, uma expressão de desdém cruzando seu rosto.
— Não se engane. Se está se sentindo deslocada, a culpa é sua. Não tenho que suportar suas queixas e nem suas queixas sobre quem você conhece ou não. Se você não consegue se adaptar, a porta está ali.
Lorenzo deu um passo à frente, sua presença impondo um silêncio pesado. Kadu, ao seu lado, olhou para Gigi, que se manteve firme, a tensão da situação quase visível nas suas feições.
Com a voz tremendo de raiva e desilusão, Gigi respondeu:
— Sempre soube que você era assim.
Eliane arqueou uma sobrancelha, um sorriso sarcástico curvando seus lábios.
— Ah, que ótimo saber que minhas verdadeiras cores não te decepcionam. Sempre é bom saber que os outros têm expectativas tão baixas quanto a minha consideração por eles.
Levantando-se da poltrona com um movimento brusco, Gigi demonstrava a tensão que sentia através de seu corpo rígido e da expressão marcada pela frustração. Eliane, com um olhar frio e autoritário, avançou um passo em direção a Gigi.
— Desça e mude essa cara — ordenou Eliane, a voz implacável. — Não se esqueça de quem está te dando abrigo aqui. Por mais que você não goste da situação, deve um mínimo de respeito a quem te recebe, mesmo que seja forçado.
106
Ettore, no salão principal, estava com o olhar atento e os pensamentos voltados para a situação na sala de escritório. Entre os convidados que se entrelaçavam em conversas e risadas, ele observava com uma paciência calculada. A mente dele estava ocupada em tentar entender o que poderia estar se desenrolando. O ambiente animado ao seu redor contrastava com a tensão que sentia por dentro. Enquanto aguardava a aparição de Eliane, sua curiosidade e preocupação o mantinham em alerta, antecipando o momento em que teria alguma clareza sobre a situação.
Ettore se dirigiu à mesa onde estavam o Sr. Tarcísio, Luca e a filha de Eliane, seu passo firme e decidido como se ele próprio fosse uma peça fundamental daquele cenário. Quando chegou, o Sr. Tarcísio imediatamente o cumprimentou com um gesto de reconhecimento.
— Você chegou na hora certa! — disse Tarcísio, a voz carregada de um tom de satisfação e um sorriso que parecia esconder mais do que revelava. — Estávamos justamente conversando sobre o andamento da noite.
Luca lançou um olhar curioso para Ettore, enquanto Pedrina, em um canto da mesa, parecia absorver a cena com uma mistura de interesse e reserva.
Sr. Tarcísio, com um olhar atento e um tom que mesclava curiosidade e interesse genuíno, virou-se para Ettore e fez uma pergunta que, embora simples, carregava o peso de sua típica curiosidade.
— Onde andava você? — perguntou Tarcísio, seus olhos brilhando com uma pitada de diversão. — A noite está tão animada aqui no salão.
Ettore, com um olhar atento para Luca, respondeu de forma direta, sem direcionar a resposta ao Sr. Tarcísio.
— Estava tentando entender o que está acontecendo lá em cima. Parece que as coisas estão um pouco mais agitadas do que o esperado.
Sr. Tarcísio fez um gesto com a mão, como se tentasse minimizar a preocupação, acreditando que a resposta de Ettore havia sido dirigida a ele. Seus olhos, distraídos, percorriam o salão, não notando que Ettore estava realmente se dirigindo a Luca.
— Ah, são só os ânimos altos — disse Tarcísio, com um tom que misturava leveza e autoridade. — O que importa é que o evento está indo bem e os convidados estão se divertindo. O que aconteceu lá em cima deve ser uma tempestade passageira.
A mesa mergulhou em um silêncio sutil, como se o som da música houvesse diminuído momentaneamente. Ettore passou os olhos pelo salão com uma contemplação pensativa. Ele observou os convidados, as conversas animadas e os copos de vinho sendo erguidos em brindes.
O ambiente vibrava com uma energia que contrastava com o tom sombrio do incidente no escritório. Ettore percebeu a mistura de alegria e tensão no ar, e, por um momento, sentiu o peso da responsabilidade que carregava enquanto aguardava que Gigi surgisse para entender o que realmente estava acontecendo.
107
Ao lado de Eliane, Gigi descia as escadas com passos que, embora leves, carregavam o peso da tensão que ainda fervilhava em seu peito. Lorenzo e Kadu seguiam logo atrás, suas presenças silenciosas, mas carregadas de significado, como sombras que a acompanhavam nesse breve e doloroso percurso.
Ao chegar ao saguão, Eliane foi rapidamente interceptada por uma conhecida, a quem ela cumprimentou com o calor falso de quem domina as nuances da etiqueta social. Gigi, sem pausa, seguiu adiante, como se cada passo fosse uma fuga. Lorenzo, atento, pousou a mão no ombro dela, guiando-a em direção ao salão principal.
A jovem sentiu o toque firme de Lorenzo, uma força silenciosa que a conduzia para o olho do furacão que era aquela festa. Ao adentrar o salão, os sons da música e das risadas ressoaram em seus ouvidos como um contraste doloroso com o turbilhão interno que a consumia.
Os olhares de alguns convidados se ergueram em sua direção, mas a maioria estava absorta nas conversas e nos brindes, alheios à tempestade que havia se formado nos corredores superiores. Gigi, com o rosto pálido e o coração apertado, permitiu-se ser levada por Lorenzo, tentando, por um breve momento, se reconectar com a realidade ao seu redor, enquanto o salão parecia girar em torno dela, num ciclo incessante de rostos e sorrisos.
Lorenzo a conduziu em direção à mesa de Luca, onde Ettore ainda estava sentado, observando o salão com seus olhos atentos, mas Gigi não notou sua presença. Assim que chegaram, ela se sentou rapidamente, sem olhar para os que estavam à mesa, mergulhada em pensamentos que a afastavam do turbilhão de vozes ao redor. Os burburinhos das conversas entre Kadu e Lorenzo chegavam até seus ouvidos, mas ela mal conseguia entender o que diziam, as palavras flutuando sem formar sentido.
A mente dela estava longe, navegando por mares de ansiedade e cansaço, quando de repente sentiu uma mão repousar em seu ombro. O toque era firme, mas não invasivo, e por um instante, ela hesitou em reagir. Levantou os olhos devagar, tentando reconhecer a pessoa que a tocava. No início, a imagem era apenas uma sombra, alguém que sua mente não queria ou não conseguia processar. Mas então, algo despertou dentro dela.
O olhar de Ettore pousou nos olhos de Gigi, e, por um momento que pareceu eterno, nenhum dos dois disse nada. A sala ao redor deles se dissolveu em um borrão, como se o tempo tivesse decidido parar ali, naquele instante, apenas para que eles se encontrassem em silêncio.
Gigi não desviou os olhos; sentia-se presa na profundidade daquele olhar, como se ele estivesse tentando decifrar cada pedaço de sua alma. O coração batia forte, mas não era o medo ou a confusão que a dominavam agora; era algo mais profundo, mais intenso, algo que ela não estava preparada para sentir. Aquele toque no ombro, que começara como um simples gesto de atenção, agora a prendia de uma forma que ela não sabia explicar.
Ettore, com seu semblante sério, mas suave, percebeu a inquietação que se misturava à força silenciosa de Gigi. Ele também não disse nada, mas seus olhos falavam, numa língua que só os dois compreendiam naquele instante. O mundo ao redor deles podia continuar com sua rotina de falsos sorrisos e conversas sem sentido, mas ali, entre os dois, havia uma verdade que se revelava sem necessidade de palavras.
— Está tudo bem? — A voz dele soou baixa, quase íntima, como se estivessem apenas os dois no salão, alheios ao movimento ao redor.
Ela piscou, tentando encontrar as palavras certas, mas o misto de emoções que ele provocava a deixava desnorteada. Não era apenas o toque ou a proximidade; era o fato de que, de repente, Ettore parecia ocupar um espaço dentro dela que antes estava vazio.
— Eu... estou... — Gigi começou, hesitante, os olhos ainda fixos nos dele, enquanto sentia uma confusão interna crescer. — Estou bem... só preciso de um momento.
Ettore percebeu a aproximação de Eliane, os saltos ecoando pelo salão antes mesmo que ela alcançasse a mesa. Seus olhos, que estavam fixos nos de Gigi, desviaram-se, apenas o suficiente para captar a presença da mulher que vinha em sua direção com ares de quem acabara de vencer uma batalha. Eliane trazia no rosto uma máscara de serenidade, mas o olhar não escondia a ferocidade que sempre guardava para as ocasiões mais oportunas.
— Tudo resolvido agora — anunciou, a voz clara, como quem acabara de limpar uma casa depois de uma tempestade. Ela pousou as mãos na mesa, o brilho dos anéis reluzindo sob as luzes elegantes do salão, e varreu o ambiente com o olhar, como se procurasse algo ou alguém.
Ettore manteve-se em silêncio, observando a interação com uma atenção redobrada. Gigi, que ainda se recuperava do momento de conexão profunda, apenas inclinou a cabeça, evitando o olhar de Eliane, enquanto a presença de Lorenzo ao seu lado oferecia uma discreta barreira entre ela e o que quer que Eliane tivesse ainda para dizer.
— E o meu marido? — perguntou Eliane, com o tom de quem já deveria saber a resposta, mas que gosta de manter o controle de todas as coisas ao seu redor. Os olhos dela correram pela mesa, parando por um segundo em cada rosto, como se esperasse que algum deles a fornecesse a informação que ela queria.
Luca, que até então se mantinha à margem da conversa, endireitou-se na cadeira, preparando-se para informar que o pai havia saído do salão.
Eliane assentiu, satisfeita, mas ainda com a expressão calculada. — Ótimo, muito bem. — Ela deu um breve sorriso, mas Ettore percebeu que havia algo mais por trás daquele gesto. A atenção dela voltou-se para Gigi, que continuava em silêncio, e Eliane, com a postura de quem não admite fraquezas, voltou a se colocar no centro da situação.
— Espero que esteja tudo bem agora, querida — disse, mas havia uma firmeza na voz, como se a frase fosse mais uma ordem do que uma expressão de preocupação. Ela lançou um rápido olhar para Ettore, como se medisse a situação com cuidado, antes de desviar a atenção para os outros ao redor.
Ettore, que ainda sentia o peso do instante anterior com Gigi, inclinou-se ligeiramente para trás, analisando a cena com uma calma que só ele parecia possuir. Havia algo em Eliane que ele respeitava, mas também desconfiava, como quem reconhece a força de uma tempestade mas nunca deixa de procurar um abrigo seguro. E naquele momento, ele sabia que era preciso estar ainda mais atento ao que estaria por vir.
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