Notas iniciais
Queridos leitores, Finalmente chegamos a um momento crucial em Legado de Poder. A partir de agora, a trama mergulha em uma série de conflitos e desafios que vão desde questões emocionais profundas até cenas intensas de ação. Este é o ponto em que a história realmente explode e a tensão começa a escalar. Preparem-se, pois as coisas vão descer ladeira abaixo de uma maneira que vocês nunca imaginaram. A aventura está prestes a atingir novos picos, e eu mal posso esperar para compartilhar cada reviravolta com vocês. Vamos juntos nessa jornada emocionante! Espero que vocês gostem tanto quanto eu gostei de escrever.

108

O evento seguia, envolto em uma atmosfera de elegância e superficialidade. Gigi permanecia na mesa, o corpo imóvel, mas a mente em turbilhão. O sorriso que tentava esboçar se perdia na expressão vazia, como se o brilho da noite não conseguisse alcançar os cantos mais sombrios de seu pensamento. O olhar fixo em algum ponto além, ignorava o burburinho ao seu redor. Kadu havia saído, talvez impelido pela necessidade de resolver algo para Eliane ou, quem sabe, acompanhar de perto seus movimentos sempre estratégicos. Eliane, sempre a anfitriã diligente, havia se ausentado, provavelmente em busca dos convidados ou do marido, espalhando sua presença controladora por onde passava.

A mesa, agora quase vazia, lembrava o início da noite, com o Sr. Tarcísio ainda concentrado nas idas e vindas das pessoas, seus olhos pequenos e curiosos seguindo cada movimento, cada expressão, como quem tenta decifrar os segredos de todos. Luca, ao lado, parecia estar em outro lugar, a mente longe daquele salão de aparências. Mas Pedrina... Ah, Pedrina! A menina começava a agitar as mãos, levando-as até a cabeça em um gesto inquieto, remexendo-se na cadeira como um pássaro preso, ansiando por ação, por fazer algo que quebrasse a monotonia que se abatia sobre a mesa. Olhava de um lado para o outro, os olhos ansiosos buscando um escape, uma distração, qualquer coisa que a tirasse daquele marasmo.

Gigi sentia tudo isso como um peso a mais sobre seus ombros já cansados. O movimento das pessoas ao redor parecia amplificar seu próprio desassossego, como se a festa fosse uma dança de máscaras e ela, a única sem disfarce, estivesse exposta e vulnerável.

O pensamento no que havia acontecido no escritório voltou com força, martelando na sua mente. Aquilo não era surpresa, era exatamente o que ela imaginava. Eliane, com sua falsa cordialidade, sua máscara social impecável, nunca lhe inspirara confiança. Gigi sabia, no fundo, que havia algo de podre em tudo aquilo. As palavras de Eliane ainda ecoavam, carregadas de uma amargura velada, um ressentimento que Gigi sempre sentiu, mas nunca soube de onde vinha.

E, então, havia seu pai. A figura que deveria ser seu porto seguro, mas que para ela era um símbolo de opressão. A ideia de voltar para casa a enchia de um terror surdo, como se estivesse diante de uma prisão onde a porta havia sido apenas momentaneamente aberta, para logo se fechar de novo. Ali, na casa de Eliane, Gigi se sentia sufocada, mas em casa... em casa, seria pior. Ela sabia que o inferno a esperava lá. Voltar significava retomar uma rotina forçada, um ciclo vicioso de submissão e silêncio ao lado de um homem que moldara sua vida com mentiras para que ela se encaixasse nos padrões que ele considerava aceitáveis.

Mas sair dali era necessário, disso ela não tinha dúvida. Especialmente depois dessa noite, depois das palavras ditas, do veneno escorrendo nas conversas. No entanto, para onde ir? Fugir de Eliane, do pai, fugir de todos os que impunham suas expectativas sobre ela, como se ela fosse uma peça no tabuleiro deles. Gigi queria se livrar do fardo, mas parecia que onde quer que ela fosse, o peso continuaria a persegui-la. Estava perdida, e a angústia que a consumia era como uma sombra que se agarrava a ela, sem trégua, sem descanso. O que fazer? Como escapar dessa teia que a prendia por todos os lados?

A resposta parecia lhe escapar, e a cada momento, a sensação de estar encurralada só aumentava. Ela precisava sair, mas para onde, se tudo ao redor era escuridão? A ideia de continuar ali era insuportável, mas o retorno para casa... era um tormento que ela não sabia se podia enfrentar novamente. Entre um inferno e outro, a única certeza que tinha era a do desespero que a consumia, um grito sufocado que se perdia no meio das vozes e risos ao seu redor.

Gigi começou a olhar ao redor, tentando focar em qualquer coisa que a distraísse daquele turbilhão que sentia por dentro. Seus olhos, porém, começaram a arder, um prenúncio de lágrimas que ela sabia que não poderia derramar ali. Levantou a cabeça com um movimento quase automático, como se estivesse apenas admirando os lustres que pendiam do teto, brilhantes e impassíveis, numa tentativa desesperada de conter o que estava prestes a transbordar. Os cristais reluziam na luz suave, dançando com as sombras, enquanto ela forçava um controle que lhe parecia cada vez mais difícil de manter.

Depois de um instante, que pareceu uma eternidade, Gigi voltou a olhar para o salão. Seus olhos se moveram lentamente, de um lado para o outro, mais para evitar que as lágrimas escorressem do que por real interesse em observar o que acontecia ao seu redor. Não era momento para desabar novamente, e ela sabia disso. Se Eliane, com seus olhos vigilantes e suas intenções veladas, a visse chorando, tudo o que havia acontecido no escritório poderia se repetir ali mesmo, no salão, diante de todos. Ela não podia se permitir essa fraqueza, não ali, não agora.

O peso da angústia ainda estava lá, firme e implacável, mas Gigi tentava se agarrar a qualquer coisa que pudesse mantê-la de pé. O ruído das conversas, o tilintar dos copos, o murmúrio de risadas distantes... tudo parecia tão distante, como se ela estivesse atrás de uma cortina, assistindo a uma peça na qual não tinha lugar. E, no entanto, a ameaça estava ali, ao seu redor, na figura invisível de Eliane, que poderia estar à espreita em algum canto, observando cada movimento seu.

Gigi respirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado, consciente de que qualquer demonstração de fragilidade poderia ser usada contra ela. Manteve a cabeça erguida, os olhos ainda vagando pelo salão, como se estivesse em busca de uma saída, uma rota de fuga para longe de tudo aquilo. Sabia que precisava ser forte, mesmo que tudo dentro dela quisesse ceder, mas naquele momento, a força parecia uma miragem, algo que ela só podia fingir possuir.

Gigi, tentando desesperadamente encontrar algum ponto de apoio no caos que a cercava, pensou em procurar Kadu pelo salão. Talvez ele pudesse lhe oferecer alguma segurança, uma saída para aquela situação sufocante. Virou-se na cadeira, os olhos varrendo o salão, buscando sua figura familiar. Procurou perto da porta do salão, onde ele poderia estar, mas não o encontrou. O vazio que isso gerou em seu peito fez com que sua inquietação aumentasse.

Enquanto seus olhos percorriam o ambiente, quase por acaso, ela se pegou fixando o olhar em uma figura próxima à porta. Foi um encontro inesperado, como se algo além de sua própria vontade a tivesse levado até ali, quase magneticamente. Num instante, ela o viu. Ele estava ali, misturado às sombras, observando o salão com uma calma que contrastava com o turbilhão dentro dela.

O mundo ao redor parecia esmaecer, enquanto os olhos de Gigi se prendiam àquela figura. Ela não sabia ao certo o que a atraía, se era a serenidade que ele emanava ou algo mais profundo, uma conexão silenciosa que ela ainda não compreendia. Ele não fazia nada para chamar atenção, não se destacava entre os demais, e, no entanto, havia algo nele agora que a prendia, que fazia com que não conseguisse desviar o olhar.

Por um momento, tudo mais se dissipou. A angústia, o medo, a tensão... tudo pareceu ficar suspenso, enquanto ela e aquela presença enigmática trocavam um olhar que parecia conter mais do que palavras jamais poderiam expressar. Ela se deu conta de que estava presa, não pela situação ao seu redor, mas por algo mais íntimo e profundo, algo que despertava dentro dela e que ela ainda não sabia nomear.

109

Ettore, ainda de onde estava, percebeu o momento em que Gigi virou a cabeça, desviando o olhar repentinamente, como se tentasse se afastar do que acabara de encontrar. Ele até estranhou o gesto, uma reação que parecia revelar mais do que ela talvez quisesse demonstrar. O que se passava dentro daquela jovem tão claramente perturbada? A forma como ela havia retornado ao salão, escoltada por aquela comitiva que pouco colaborava em revelar os detalhes reais, ainda o intrigava.

Com a precisão de um caçador à procura de pistas, Ettore continuou a observar o movimento ao redor. Seus olhos passavam pela mesa onde Gigi estava, capturando detalhes que geralmente escapavam à percepção comum. O salão se desdobrava em um desfile de rostos sorridentes e mulheres que cochichavam entre si, todas adornadas com joias cintilantes que piscavam sob as luzes dos lustres. Cada convidado parecia desempenhar seu papel com uma formalidade quase ritualística, como se a festa fosse um grande teatro e todos fossem obrigados a atuar à perfeição.

Enquanto Ettore estudava a cena, seu olhar se deteve em uma figura que se aproximava da mesa onde Gigi estava. O indivíduo, envolto em uma aura de confiança, movia-se com a graça de alguém acostumado a ser notado. Não era difícil distingui-lo, mesmo à distância.

À medida que a figura se aproximava, Ettore focou ainda mais, sua curiosidade aguçada. Finalmente, quando a pessoa estava suficientemente perto da mesa, os traços começaram a se definir com clareza. Era, de fato, Kadu, com sua postura imponente.

Ettore manteve os olhos fixos em Kadu, observando cada movimento com a atenção de quem lê entre as linhas. Kadu se aproximou de Gigi com uma confiança silenciosa, inclinando-se ligeiramente para murmurar algo em seu ouvido. O corpo de Gigi, antes rígido como uma estátua, cedeu ao sussurro, e ela respondeu no mesmo tom, sua boca se movendo de forma quase imperceptível.

Mantendo-se inabalável, Ettore apertou ligeiramente os lábios, com um músculo em sua mandíbula se contraindo de forma quase imperceptível. O olhar que ele lançou sobre os dois não era ostensivo, mas havia um toque predatório na maneira como seus olhos escureceram, capturando cada detalhe da interação.

Quando Gigi e Kadu se levantaram da mesa, Ettore manteve-se imóvel, mas seus olhos, tão atentos quanto um gato na espreita, não os deixaram escapar. Ele registrava cada nuance, cada gesto, como quem coleta pistas de um mistério ainda não resolvido.

110

Subindo as escadas atrás de Kadu, Gigi sentia seus passos hesitantes contrastarem com a segurança que ele demonstrava. Ela havia pedido para conversar com ele, na esperança de aliviar o peso no peito, mas, à medida que avançavam, a dúvida começava a se instalar.

— Para onde estamos indo? — perguntou ela, a voz quase sussurrada, como se temesse quebrar o silêncio que os envolvia.

Kadu virou-se ligeiramente, um meio sorriso nos lábios, os olhos brilhando com um mistério que ela não conseguia decifrar.

— Você vai gostar. — respondeu ele, com um tom que deixava entrever mais do que suas palavras revelavam.

Kadu prosseguia segurando firmemente a mão de Gigi, conduzindo-a com uma confiança que só aumentava sua curiosidade. Ela fazia um esforço para acompanhar o ritmo, seus saltos ecoando levemente a cada degrau, enquanto as mãos delicadas levantavam as bordas do vestido de seda turquesa, que flutuava atrás dela como um rastro de luz. A cada passo, o tecido suave parecia deslizar sobre sua pele, misturando-se ao frio que percorria sua espinha, um pressentimento que, embora sutil, não podia ser ignorado.

Kadu não olhava para trás, mas a pressão cálida de sua mão transmitia uma segurança quase desconcertante, como se ele estivesse certo de que ela o seguiria, independentemente de onde aquele caminho os levasse.

Ao saírem da escadaria, Gigi foi envolvida por um ar frio e inesperado. Sentiu a pele se arrepiar sob o tecido fino da seda turquesa. O barulho abafado do salão, que ainda ecoava em sua mente, havia desaparecido por completo, substituído por um silêncio quase inquietante. À medida que seus olhos se acostumavam à escuridão, ela percebeu que estavam ao ar livre, no topo da mansão, longe de qualquer cômodo familiar do primeiro andar.

O céu acima era um manto negro salpicado de estrelas, e o vento leve soprava, fazendo os cabelos presos de Gigi dançarem suavemente atrás das costas. Ela podia ver o contorno dos guarda-corpos de ferro que cercavam o espaço, oferecendo pouca proteção contra a vastidão ao redor. O ambiente era diferente de tudo que havia experimentado naquela noite, uma pausa brusca da opulência iluminada e dos sussurros abafados de dentro. Agora, só restava a noite, crua e silenciosa, com suas promessas e mistérios.

Kadu soltou sua mão, mas permaneceu próximo, observando enquanto ela absorvia o novo cenário. Gigi sentia que estavam em um território diferente, tanto físico quanto emocionalmente, onde os jogos e as máscaras do salão pareciam ter sido deixados para trás. Ela olhou ao redor, buscando algum ponto de referência, mas encontrou apenas o vazio, a vastidão do céu e o suspiro constante do vento.

Gigi olhou para Kadu, os olhos arregalados, em uma mistura de questionamento e expectativa. O vento frio acariciava seu rosto, mas o que a fazia estremecer era a incerteza. Seu olhar buscava em Kadu alguma explicação, um entendimento sobre onde exatamente estavam e por que ele a havia levado até ali. Era como se, através daquele olhar, ela tentasse extrair dele as palavras que ainda não haviam sido ditas, ansiando por uma resposta que dissipasse o mistério ao redor.

Gigi aproximou-se do guarda-corpos de ferro, o metal frio contra suas mãos enquanto ela inclinava o corpo ligeiramente para frente, espiando o pátio abaixo. Lá embaixo, algumas figuras se moviam na penumbra, rapazes que trocavam risadas abafadas e palavras soltas, embalados pelo calor de uma noite que já ia avançada. O som das vozes chegava até ela como um murmúrio distante, como se fizesse parte de um mundo que, naquele momento, parecia tão remoto quanto os sonhos de menina que há muito ela deixara para trás.

Kadu se aproximou, o calor de sua presença uma sombra reconfortante às suas costas. Mas Gigi estava alheia, presa à vastidão que se estendia à sua frente. Ergueu o olhar para o horizonte, e Monte dos Reis surgiu diante dela como uma tapeçaria de luzes e sombras, um labirinto de ruas e avenidas cintilantes. As luzes da cidade se espalhavam como estrelas caídas, cada ponto luminoso uma promessa, um segredo, uma vida em ebulição. Era uma visão arrebatadora, um contraste feroz com o silêncio e a solidão que ela sentia dentro de si.

As colinas ao redor da cidade se recortavam contra o céu escuro, criando uma moldura quase mística para o brilho que pulsava no coração de Monte dos Reis. As torres e igrejas se erguiam como sentinelas antigas, enquanto os bairros mais modestos eram um mar de luzes vacilantes, onde a vida seguia seu curso de forma menos glamorosa, mas não menos intensa. Gigi podia quase sentir o pulsar da cidade, como um ser vivo que, mesmo à distância, parecia querer envolvê-la em seus braços luminosos, oferecer-lhe um refúgio ou talvez um novo começo.

Era difícil não se perder na beleza silenciosa daquela noite, onde cada luz parecia contar uma história, onde cada sombra sugeria mistérios ainda não desvendados. E ali, diante daquela imensidão, Gigi sentiu-se pequena, mas ao mesmo tempo estranhamente conectada a tudo aquilo, como se a cidade, com todo o seu esplendor e decadência, refletisse algo do que ela própria era — uma alma em busca de respostas, uma vida à espera de um sentido.

Kadu inclinou-se para mais perto, a respiração quente contrastando com o frio da noite, e sussurrou ao ouvido de Gigi, apontando para o horizonte onde o mar se fundia com o céu. “Olha, ali está o mar,” disse ele, a voz suave, mas carregada de intenções. Ela seguiu o gesto com os olhos, e a vastidão escura do oceano a fez prender a respiração. Não era apenas o mar que a tocava, era a imensidão dele, a promessa de algo além, que fez seu coração bater mais rápido, com uma força que ela mal conseguia compreender.

Uma onda de emoção percorreu seu corpo, uma sensação de que algo estava prestes a ser revelado, algo que sempre estivera ali, mas que ela nunca havia realmente visto. O coração, agora acelerado, parecia estar em sintonia com as luzes da cidade, como se cada pulsação fosse um eco daquele mundo abaixo, uma ligação profunda que a fazia sentir parte daquela grandiosa tapeçaria de luz e escuridão. Ela voltou a olhar para a cidade, e de repente, a familiaridade da visão tornou-se quase opressora.

As luzes de Monte dos Reis não eram mais apenas pontos brilhantes ao longe. Havia um magnetismo ali, uma força que parecia atraí-la, enredando-a em sua teia de mistérios e promessas não cumpridas. Algo ali a chamava, como se a cidade estivesse sussurrando seu nome, como se dissesse que ali, naquele labirinto de ruas, no brilho distante das luzes e nas sombras que espreitavam, houvesse algo que lhe pertencia — algo que era dela por direito.

De certa forma, era verdade. Gigi era, sem saber, herdeira daquela grandiosa cidade. O sangue que corria em suas veias a conectava àquela terra, àquele mar, àquelas colinas. Tudo aquilo era parte de um legado que ela ainda não conhecia, mas que, de maneira sutil, começava a se revelar. Era como se Monte dos Reis fosse mais que uma simples cidade para ela; era um destino, um chamado que, cedo ou tarde, ela teria que atender. E naquele instante, envolta pela vastidão da noite, com o mar ao longe e a cidade abaixo, Gigi sentiu que, finalmente, começava a entender.

111

Depois de algum tempo em silêncio, apenas os sons distantes da cidade e o murmúrio do mar preenchendo o ar ao redor, Kadu finalmente quebrou o silêncio. Começou com um assunto banal, algo sobre as constelações que brilhavam acima, contando histórias antigas que pareciam saídas de livros de aventuras que ele devia ter lido na infância. Gigi ouvia, mas a mente estava longe, perdida no emaranhado de pensamentos que a cidade e o mar haviam despertado.

Kadu, percebendo que ela não estava muito interessada nas estrelas, mudou de assunto de repente, como quem se lembra de algo importante no meio de uma conversa qualquer. “Você gosta de dançar?” perguntou ele, um sorriso travesso surgindo no canto dos lábios. Gigi, que ainda estava absorta na paisagem, demorou um momento para processar a pergunta.

“Eu... não sei,” respondeu, um pouco hesitante, mas com curiosidade. A dança não era algo em que ela pensava com frequência, e a pergunta pareceu surgir do nada, desconectada do contexto. Mas Kadu parecia saber exatamente o que estava fazendo. Ele se virou para ela, com um brilho nos olhos que sugeria que havia mais naquela pergunta do que aparentava.

“Eu costumava ser professor de dança,” revelou ele, com um tom casual, como se estivesse mencionando algo corriqueiro, mas havia um certo orgulho em sua voz. “Ensinei a muitos jovens na cidade. Dança de salão, principalmente. As pessoas me procuravam para aprender a se mover com graça, a se comunicar com o corpo... É uma arte, você sabe?”

Gigi, agora completamente desconcertada, lançou-lhe um olhar curioso. “Professor de dança? Nunca imaginei...”

Ele riu suavemente. “Há muito mais em mim do que parece, Gigi. A dança, para mim, é mais do que movimento. É uma forma de expressar o que está aqui dentro,” disse ele, batendo de leve no peito. “Uma maneira de se conectar com os outros, de contar uma história sem palavras.”

Ela o observava com cautela, ainda achando tudo aquilo um pouco estranho, mas havia algo na maneira como ele falava que a intrigava, uma paixão que ela não conseguia ignorar.

“Quer tentar?” perguntou ele de repente, estendendo a mão para ela. “Não há ninguém aqui. Só nós dois e as estrelas. Que tal uma dança sob o céu de Monte dos Reis?”

Gigi franziu a testa, confusa. A ideia parecia sem noção, fora de lugar naquele contexto, e ela quase recusou imediatamente. Mas havia algo no olhar dele, algo desafiador e ao mesmo tempo acolhedor, que a fez hesitar.

“Eu... dançar aqui? Agora?” Ela olhou ao redor, como se esperasse que alguém surgisse para dizer que aquilo era uma piada.

“Por que não?” Kadu insistiu, a mão ainda estendida. “Não há momento melhor do que agora. E quem sabe, talvez você descubra algo novo sobre si mesma.”

A estranheza da proposta a fazia querer rir, mas ao mesmo tempo, algo dentro dela queria aceitar, queria ver aonde aquilo a levaria. Havia algo ali, na noite, na cidade abaixo, no mar distante, que a fazia sentir que talvez, apenas talvez, aquela dança tivesse um significado maior do que ela podia entender naquele momento.

Os primeiros passos foram hesitantes. Gigi, ainda tímida, olhava para os próprios pés, tentando acompanhar o ritmo que Kadu impunha com a naturalidade de quem já nasceu dançando. Ele, por outro lado, parecia flutuar, conduzindo-a pelo espaço com a leveza e o molejo característico de um verdadeiro mestre da dança.

Enquanto os dois giravam suavemente sob o céu estrelado, Kadu começou a improvisar a melodia da valsa com a própria boca, cantarolando de forma quase infantil, mas cheia de graça. Gigi, que ainda estava se acostumando ao movimento, não pôde evitar um sorriso. O som daquela melodia improvisada, a leveza dos pés de Kadu, e as caretas que ele fazia para acompanhá-la tornaram tudo aquilo tão absurdo e encantador que ela começou a rir, uma risada que crescia de dentro, como se cada nota desafinada e cada giro desajeitado a desarmasse completamente.

De repente, a risada dela escapou de tal maneira que seus ombros sacudiram, e sem conseguir se conter, ela encostou a cabeça no peito dele, buscando apoio. Kadu sentiu o calor do riso dela vibrar contra seu corpo, e por um instante, parou de cantarolar, parou de dançar. O momento o envolveu de uma maneira inesperada, sentindo a cabeça dela repousar tão próxima ao seu coração, que as batidas pareciam ter se acelerado, como se quisessem alcançar aquela proximidade.

Um frio percorreu suas mãos, e antes que pudesse pensar, ele a abraçou. O gesto foi suave, quase inconsciente, mas cheio de uma ternura que o tomou de surpresa. Os braços dele a envolviam como se temessem que, ao soltar, ela desaparecesse, e Gigi, sentindo aquele calor inesperado, fechou os olhos, permitindo-se ser envolvida por aquele abraço.

Os risos diminuíram, substituídos por uma sensação de conforto, de pertencimento. Ali, no meio do nada e ao mesmo tempo no centro de tudo, os dois ficaram parados, abraçados, como se o mundo ao redor tivesse parado de girar. Kadu sentia as batidas de seu coração se misturarem com as dela, e algo dentro dele, algo profundo e antigo, se acendeu. Era como se, naquele simples abraço, ele tivesse encontrado uma verdade que nem sabia estar procurando. E Gigi, sentindo o calor daquele abraço, começou a entender que havia algo ali, algo que transcendia a dança, a noite, e as palavras.

Era um sentimento que preenchia o silêncio entre eles, um misto de desejo e proteção, um impulso de cuidar, de proteger aquele instante como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Os dois permaneceram assim, presos naquele momento, como se estivessem dançando uma valsa muito mais íntima e profunda, uma que se desenrolava no ritmo compassado dos corações e não dos pés.

Gigi afastou-se lentamente do abraço, como quem se desvencilha de um casulo aconchegante, mas necessário de abandonar. Seus olhos encontraram os de Kadu por um instante, refletindo uma mistura de urgência e vulnerabilidade.

— Preciso conversar com você — murmurou, enquanto dava passos lentos em direção ao guarda-corpo de ferro, seus dedos deslizando pelo metal frio. A noite ao redor parecia conter o fôlego, esperando por suas palavras. Ele a seguiu em silêncio, sentindo que algo pesado e importante estava prestes a ser revelado.

Ela fixou o olhar nas luzes distantes da cidade, uma constelação de pontos brilhantes que pareciam pulsar com vida própria. A voz de Gigi quebrou o silêncio, baixa, quase como se falasse consigo mesma.

— Eu quero sair daqui. — disse, ainda olhando para a vastidão iluminada. Kadu ficou paralisado por um momento, sem saber como reagir. Aquelas palavras não eram o que ele esperava, e uma confusão de sentimentos o atingiu de repente.

— Sair? — ele finalmente perguntou, um leve tremor na voz. — Mas... por quê? É por causa do que aconteceu esta noite?

Antes que pudesse completar a frase, Gigi o interrompeu, balançando a cabeça com um suspiro pesado.

— Não... Eu já estava pensando nisso antes. — Ela desviou o olhar para o céu, como se buscasse nas estrelas alguma resposta para suas próprias dúvidas. — Meu pai tentou me buscar na casa de Eliane... mas eu não quis ir com ele. — Gigi fez uma pausa, sua voz enfraquecida pelas lembranças dolorosas. — Dei um jeito para que ele desistisse de vir.

Ela se calou, o rosto emoldurado pela tristeza que a envolvia. Pensar no pai era como mergulhar num poço de melancolia, onde cada pensamento a afundava mais na solidão. A memória dele era um peso em seu coração, uma dor que a sufocava lentamente, tirando-lhe o fôlego e a vontade de continuar.

Kadu observava em silêncio, incapaz de encontrar as palavras certas. Aquele lado sombrio de Gigi, tão distante da menina risonha que ele conhecia, o deixava sem chão. Mas, mesmo sem saber o que dizer, ele tentou sugerir algo que pudesse ajudá-la.

— Talvez seja melhor você conversar com Eliane, tentar resolver isso de outra maneira. — sugeriu ele, meio sem convicção. — Talvez ainda haja algo que possa ser feito...

Mas Gigi balançou a cabeça mais uma vez, recusando a ideia.

— Não, Kadu. Eu não quero mais ficar aqui. Esta cidade, estas pessoas... não me fazem bem. — Sua voz era firme, mas carregada de uma tristeza profunda. — Eu não sou deste mundo, não pertenço a este lugar.

Ela voltou a olhar para as luzes da cidade, como se dissesse adeus a um lugar que nunca realmente foi seu.

— Quero ir para a casa da minha mãe.

As palavras saíram com uma certeza que surpreendeu até a própria Gigi. Kadu a olhou, o desapontamento dançando em seus olhos. Ele sentia a perda iminente de algo que nem ele próprio compreendia totalmente, mas que sabia ser importante.

— Preciso que me ajude a sair daqui. — pediu ela, sua voz agora apenas um sussurro, quase como se temesse que o vento levasse suas palavras.

Kadu sentiu um aperto no peito, sabendo que aquela decisão dela poderia mudar tudo. Ele a observou por um instante, o peso do pedido dela recaindo sobre seus ombros, mas ainda assim, um olhar de compreensão surgiu em seus olhos. Gigi não pertencia àquele lugar, ele entendia isso agora. E, por mais que doesse, sabia que a ajudaria a encontrar seu caminho.

112

Ettore subia as escadas com passos firmes e silenciosos, o peso da noite se fechando ao redor dele como um manto. A escuridão do topo da mansão o envolveu quando ele alcançou a área externa, onde o céu noturno parecia estender-se infinitamente, apenas interrompido pelas poucas estrelas que brilhavam com intensidade. A ausência de teto acima e as sombras que se alongavam sob os seus pés o fizeram hesitar por um breve momento, mas ele logo retomou o passo, seus olhos percorrendo o espaço.

Ele olhou para os lados, tentando captar qualquer movimento, qualquer som que revelasse a presença de alguém. O vento frio roçava seu rosto, trazendo consigo o cheiro distante do mar, e ele sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Ettore então parou, seus olhos finalmente encontrando a figura de Kadu e Gigi, encostados no guarda-corpos de ferro.

Os dois viraram-se para ele imediatamente, como se sua presença tivesse sido anunciada por algum sinal invisível. Ettore sentiu o peso de seus olhares sobre si, e por um instante, o mundo pareceu se comprimir naquele pequeno espaço entre eles, onde os segredos e as intenções não ditas pendiam no ar, carregados de tensão.

Ettore, ainda na penumbra, notou Gigi inclinar-se levemente para Kadu, sussurrando algo que ele não pôde ouvir. A proximidade entre eles acendeu um desconforto profundo em seu peito, mas ele manteve a expressão neutra, apenas seus olhos denunciando a inquietação. Sem desviar o olhar de Kadu, Ettore quebrou o silêncio, sua voz ressoando firme na noite.

— O que vocês estão fazendo aqui?

Kadu, pego de surpresa pela pergunta direta, endireitou-se, mas não se deixou abalar. Ele respondeu de forma curta e simples, quase despreocupada, como se a presença deles ali não fosse nada fora do comum.

— Apenas conversando.

Ettore apertou os lábios, sua desconfiança claramente não satisfeita pela resposta vaga. Ele deu um passo à frente, seus olhos ainda cravados em Kadu, ignorando Gigi por um momento.

— É melhor você descer. Eliane está andando pelo salão, e você sabe como ela é.

A tensão no ar se adensou ainda mais, e Ettore manteve sua posição, esperando para ver como Kadu reagiria àquela súbita ordem disfarçada de conselho. Ele sabia que a presença de Eliane tornava a situação mais delicada, e queria assegurar-se de que Kadu não fizesse nada que pudesse complicar ainda mais as coisas.

Kadu lançou um olhar estranho para Ettore, uma mistura de desdém e dúvida, como se a presença do outro fosse uma interrupção incômoda. Em seguida, seu olhar se voltou para Gigi, mas não disse nada. Apenas saiu, os braços soltos, os passos pesados, como quem já não queria estar ali. Quando ele passou por Ettore, este virou a cabeça para acompanhá-lo com o olhar, a expressão dura, analisando cada movimento até que Kadu desaparecesse pelas escadas.

Ettore voltou sua atenção para Gigi. Quando teve a certeza de que estavam sozinhos na área externa, a escuridão e o silêncio da noite amplificando a intimidade do momento, ele se aproximou, seu olhar mais intenso agora que estavam a sós.

— O que você estava fazendo com ele aqui? — A voz de Ettore era grave, um tom que insinuava mais do que simples curiosidade.

Gigi, ainda virada para o guarda-corpos, não o encarou de imediato. Ela respirou fundo antes de responder, tentando manter a calma.

— Estávamos apenas conversando, como ele disse.

Ettore deu mais um passo na direção dela, e nesse movimento notou como Gigi segurava o próprio braço, os dedos finos apertando a pele de leve, quase como um gesto automático, uma tentativa de se proteger ou encontrar um ponto de apoio. Sua postura, que antes era altiva, agora parecia retraída, como se algo nela estivesse mudando sob o peso daquele encontro.

Ele inclinou-se ligeiramente, falando mais baixo, mas sem perder a firmeza na voz.

— Você não deveria ficar sozinha com estranhos.

Ela finalmente virou-se para ele, os olhos brilhando com um misto de surpresa e desafio.

— Você também é um estranho — retrucou, a voz carregada de uma emoção contida.

Ettore não recuou. Em vez disso, seu olhar ficou ainda mais sério, e ele replicou com uma voz firme, quase protetora.

— Eu sou um estranho que você conheceu antes dele. Sou amigo do seu pai. Se quisesse, poderia até dizer que sou como um irmão para você.

O silêncio entre os dois se alongou, cada palavra dita reverberando no ar frio da noite. Ettore viu a confusão nos olhos de Gigi, mas também percebeu a tensão nos ombros dela, o leve tremor nas mãos que agora desciam do braço para segurar a barra do vestido. Ele sabia que aquelas palavras tinham deixado uma marca, mas não sabia ainda se para o bem ou para o mal.

113

Ettore continuava a falar, a voz grave ecoando na noite, mas as palavras dele se perdiam no vazio, como um sermão que não conseguia encontrar seu destino. Gigi ouvia, mas não estava interessada no sentido daquelas palavras. Algo dentro dela tinha se desconectado da conversa. Em vez disso, sua atenção foi se voltando para ele, para o homem à sua frente, como se de repente tudo nele se clareasse, cada detalhe ganhando uma nova importância.

Ela estava tão próxima do rosto dele que podia ver as pequenas marcas do tempo na pele, mas o que mais a capturou foram os olhos de Ettore. Pela primeira vez, ela notou que eram de um castanho claro, uma cor que parecia brilhar à luz fraca da lua. E, sem perceber, seus próprios olhos se derreteram por aquilo, perdendo-se naqueles tons que agora a fascinavam. Ela não sabia se ele notava, e, na verdade, não se importava. Era como se aquele instante tivesse suspendido o tempo, deixando-os ali, presos numa observação silenciosa.

Ele continuava a falar, algo sobre como poderia dizer que era irmão dela, e essa palavra — irmão — caiu pesada em sua mente. Havia algo de profundamente desconfortável, quase errado, nessa palavra. Incomodava-a de um jeito que ela não conseguia entender, mas sentia dentro de si, como um eco perturbador que reverberava em algum canto oculto do coração. A proximidade dele, o olhar profundo, e aquela palavra se misturavam, criando uma confusão de sentimentos que ela não sabia como nomear.

Mas havia algo mais que a perturbava. Ettore não era mais o mesmo rapaz que ela tinha visto pela primeira vez. O homem que estava ali, tão perto dela agora, parecia diferente, transformado de alguma forma. Havia uma intensidade nele, uma maturidade que antes não existia. Era como se os traços suaves que antes carregava tivessem se endurecido, se moldado por experiências que ela não conhecia. E essa mudança, esse Ettore diferente, mexia com ela de um jeito inesperado.

De repente, as palavras dele atravessaram a barreira da sua distração, e ela o ouviu claramente. Ettore lhe entregou um pequeno papel, dobrado de maneira cuidadosa. Quando ela o abriu, viu o número de telefone escrito ali.

— Seu pai pediu para eu te dar isso — ele disse, a voz agora baixa, quase íntima. — Se precisar falar alguma coisa, pode ligar para mim.

Ela olhou para o papel, os números dançando diante dos seus olhos, mas sem realmente se fixarem em sua mente. Em seguida, ergueu os olhos e viu Ettore se afastando, os passos dele soando firmes contra o chão de pedra da área externa. Mas antes de desaparecer completamente na escuridão, ele parou, virou-se, e, por um breve instante, ela o viu abrir um sorriso. Um sorriso tão inesperado e bonito que fez algo dentro dela tremer.

— Parabéns — disse ele, a voz carregando um calor inesperado.

Gigi ficou encantada, os olhos brilhando e um sorriso radiante surgindo em seus lábios. Aquele sorriso de Ettore, tão sincero e inesperado, a deixou confusa e ao mesmo tempo tocada. Ela ficou ali, parada, olhando para o papel em sua mão, o coração ainda batendo descompassado.

Ettore começou a descer as escadas, seus passos firmes e ritmados, mas em um instante ele voltou, a expressão um tanto quanto curiosa.

— Você vai descer? — perguntou ele, a voz carregando um tom de expectativa.

Gigi, ainda com o sorriso nos lábios e o olhar um pouco sonhador, assentiu com um gesto sutil. Ela se afastou do guarda-corpo e seguiu Ettore, acompanhando-o pelas escadas que desciam para o salão.