Legado De Poder
23 114—117
Notas iniciais
114
Gigi passara dias a fio tentando dobrar a resistência de Helena. Insistia, com a segurança que só a juventude tem, que nada de mau poderia lhe acontecer. Garantia, com a convicção de quem desconhece o perigo, que seu pai jamais saberia de sua fuga. Mas Helena, sempre atenta às entrelinhas da vida, hesitava. A voz da mulher, carregada de receios, revelava mais do que suas palavras; uma preocupação sombria a acompanhava, um medo silencioso que Gigi, na sua ânsia de liberdade, não podia compreender.
A jovem, sem saber, caminhava por uma trilha de sombras, onde segredos antigos aguardavam o momento de emergir. O plano de desaparecimento, meticulosamente pensado para não deixar vestígios, trazia consigo um risco invisível, um perigo que se escondia nas dobras do tempo e na teia de mentiras que a envolvia. Helena temia as consequências dessa decisão, pressentindo que o destino cobraria seu preço.
Enquanto isso, nas esferas do poder, Eliane assumia, com a mesma determinação de sempre, as responsabilidades do marido, que ainda se ocupava com as reformas dos seus empreendimentos. A reunião marcada para a tarde de quarta-feira prometia ser um marco decisivo, um encontro onde as alianças seriam seladas e as estratégias traçadas para garantir o sucesso na votação que se aproximava. Ali, sob o comando de Eliane, os rumos de muitas vidas seriam definidos, e o futuro, ainda envolto em mistérios, começaria a tomar forma.
115
Era quarta-feira, e Gigi desceu as escadas com a cautela de quem sonda um mistério. A mansão estava envolta em um silêncio que parecia ressoar mais alto do que o barulho do cotidiano. Aproveitando a tranquilidade, ela verificou se Eliane realmente havia saído da mansão.
No pátio, a luz do sol a envolveu com um calor suave. Gigi levantou a mão para proteger os olhos e, com o olhar atento, percorreu o jardim com um sentimento de expectativa e alívio. A ausência de pessoas era um alívio momentâneo, e ela se deparava com um cenário calmo, onde só o sussurro das folhas e o canto ocasional de um pássaro preenchiam o espaço.
Ela seguiu em direção ao pátio de trás da mansão, os passos leves, mas determinados. O ar carregava um cheiro doce de flores e terra úmida, e Gigi respirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado. Ao longe, avistou Kadu conversando com o homem da manutenção dos jardins, as palavras dos dois se perdendo na distância, abafadas pelo som suave do vento nas folhas.
Kadu notou a presença dela se aproximando e, sem pressa, se despediu do jardineiro, caminhando em direção a Gigi. Quando seus olhos se encontraram, o silêncio se instalou entre eles, carregado de significados não ditos. Os dois ficaram ali, apenas se olhando, como se tentassem captar a essência um do outro naquele momento.
Finalmente, Gigi quebrou o silêncio, a voz firme, mas com uma leve tremura.
— Estou pronta.
Kadu soltou um suspiro, pesado e preocupado, refletindo o peso do que estava prestes a acontecer. Com o coração apertado, ele caminhou até a frente da mansão, onde preparou o carro com gestos automáticos, mas a mente distante. Enquanto ajeitava o volante, sentia uma angústia crescente, um nó que se apertava em sua garganta. Gigi finalmente conseguira o que tanto desejava, convencera a mãe.
Ele não queria que ela fosse embora. A ideia de vê-la desaparecer daquela casa, como um vulto que se apaga na noite, era insuportável. Para ele, havia outras maneiras de resolver qualquer problema, qualquer dilema que ela enfrentasse. Não precisava ser assim, com uma fuga às escondidas, num dia em que Eliane, a sombra sempre vigilante, estava fora da mansão. Justo no dia em que o sol parecia brilhar com uma força incomum, como se soubesse que algo importante estava prestes a acontecer.
Kadu sentia que Gigi, na sua juventude e teimosia, estava prestes a cometer um erro, e ele, impotente, não conseguia encontrar as palavras certas para dissuadi-la. Talvez, pensava ele, tudo pudesse ser diferente se ela lhe desse uma chance, se ao menos tentasse confiar nele, ao invés de seguir esse caminho de incertezas. Mas o carro estava pronto, e ele sabia que, uma vez que ela tomasse aquela decisão, não haveria mais volta. A realidade de tudo isso pesava sobre seus ombros, tornando cada suspiro mais pesado que o anterior.
Kadu observou Gigi se aproximando do pátio, as malas pesadas nas mãos pequenas. Seus passos decididos contrastavam com a leveza da juventude que carregava no olhar. Ele, sentindo o peso da decisão prestes a ser tomada, se ofereceu para ajudar, pegando as malas com uma facilidade que não condizia com a dificuldade que sentia no peito. Em silêncio, colocou-as no porta-malas, cada gesto mecânico escondendo a turbulência de pensamentos que o assombrava.
Ele olhou para Gigi, a preocupação estampada em seu rosto, e perguntou:
— Você viu a filha de Eliane lá dentro?
Gigi balançou a cabeça, um sinal de negação.
— Não vi ninguém pela mansão — respondeu, a voz sem emoção, como se estivesse apenas cumprindo uma formalidade.
Kadu assentiu, tentando esconder o alívio que a resposta dela lhe trouxe.
— É melhor irmos antes que a menina apareça — disse ele, o tom carregado de uma urgência silenciosa. — Ela é um problema também, igualzinha à mãe.
Com um gesto cuidadoso, abriu a porta para Gigi. Ela entrou no carro, o olhar fixo em algum ponto distante, sem hesitar. Kadu fechou a porta suavemente, como se estivesse selando um destino que já não podia mais ser alterado.
Subiu ao volante, sentindo o peso da responsabilidade em cada músculo tenso, e ligou o carro. Sem trocar mais palavras, os dois partiram, deixando para trás a mansão e tudo que ela representava, numa estrada que, ele sabia, não teria volta.
116
Pedrina saiu do quarto, segurando firme as suas duas bonecas preferidas, Marieta e Clarinha, uma em cada braço. Seus passos leves mal faziam barulho no assoalho de madeira, e sua mente já estava mergulhada na reunião importante que iria realizar. Chegando ao escritório do primeiro andar, aquele lugar grande e silencioso, com móveis luxuosos, se transformava em um palácio de brincadeiras na imaginação de Pedrina.
Ela colocou Marieta e Clarinha em suas respectivas poltronas, uma de frente para a outra, como se fossem grandes damas de uma sociedade secreta. Pedrina, com seu vestidinho cor-de-rosa, subiu na poltrona central, que ficava entre as duas bonecas, e as observou com um olhar sério, imitando o que via os adultos fazerem.
— Bom dia, senhoras! — começou ela, com uma vozinha fofa e cerimoniosa. — Hoje temos uma reunião muito importante!
As bonecas, claro, não responderam, mas Pedrina continuou com toda a seriedade que uma menina de seis anos podia ter. Levantou-se da poltrona, caminhando pelo escritório com a mesma segurança que via em sua mãe. Andou até a escrivaninha, pegou uma caneta dourada, alguns papéis brancos e voltou para a sua “mesa de reunião”.
— Vamos falar sobre as roupinhas novas que a mamãe vai fazer pra vocês — disse, enquanto rabiscava algumas linhas nas folhas, fazendo círculos e desenhos abstratos. — Marieta, você vai ganhar um vestidinho azul com bolinhas, igual ao meu. E você, Clarinha, vai ficar com um lacinho novo no cabelo. Eu já decidi, tá bom? Não precisa discutir!
Ela parou de escrever por um momento e olhou para as bonecas, que a observavam com seus olhinhos de vidro, inexpressivos, mas na imaginação de Pedrina, estavam tão atentas quanto ela.
— Agora, a gente precisa decidir quem vai cuidar da nossa casinha quando eu for na escola — continuou, caminhando novamente pelo escritório, como se fosse uma pessoa de negócios muito importante. — Eu acho que vai ser você, Marieta, porque você é mais velha e cuida bem de todo mundo. Clarinha, você pode ajudar, mas tem que escutar a Marieta, viu? Não quero ninguém brigando!
Pedrina, satisfeita com sua decisão, colocou a caneta de volta na escrivaninha, cruzou os braços e olhou para as bonecas com um ar de autoridade.
— E agora, senhoras, nossa reunião está encerrada. Vamos tomar chá na cozinha? — perguntou com um sorriso largo, imaginando que as bonecas responderiam com entusiasmo.
Ela as pegou no colo novamente, desceu da poltrona, e saiu do escritório em direção à cozinha, onde serviria um chá de mentirinha, mas cheio de carinho e doçura, como todas as suas brincadeiras.
O sol entrava pelas janelas do andar de cima, iluminando o caminho de Pedrina, e na sua imaginação, as bonecas a seguiam, conversando animadamente sobre as novidades, enquanto ela, com o coração leve, fazia planos para a próxima brincadeira.
Pedrina, ainda mergulhada na doçura de sua brincadeira, desceu as escadas com cuidado, segurando Marieta e Clarinha nos braços, suas companheiras inseparáveis. Seus passos pequenos ecoavam levemente pela mansão silenciosa. Ao chegar à sala, caminhou em direção à cozinha, onde prepararia o chá para as suas convidadas especiais.
De repente, um som diferente, distante, capturou sua atenção. Era o ronco de um motor, o som de um carro se aproximando pela estrada de cascalho que levava à mansão. Pedrina parou de repente, interrompendo a conversa que mantinha com as bonecas, e seu coraçãozinho bateu mais rápido. Ela pensou logo na mãe, talvez estivesse voltando mais cedo, o que sempre era uma surpresa boa. Com esse pensamento, os olhos dela se encheram de expectativa.
— Esperem aqui, meninas! — sussurrou, quase como se as bonecas pudessem obedecer.
Num impulso, deixou Marieta e Clarinha na mesinha ao lado e saiu correndo em direção à entrada, os pés ágeis e leves como os de um passarinho. Ao alcançar a grande porta de madeira, espiou pela janela, o nariz encostado no vidro frio. Seu olhar curioso procurou pela estrada até que, finalmente, avistou o carro. Mas, ao contrário do que esperava, ele não estava chegando; o carro estava saindo.
Pedrina franziu a testa, observando com atenção enquanto o veículo se afastava da mansão, levantando uma nuvem de poeira fina no ar. Era um carro preto, grande, mas não era o da mãe. A pequena menina, desapontada, soltou um suspiro suave e ficou ali por mais alguns segundos, tentando adivinhar quem teria ido embora.
Depois de alguns momentos, voltou a se lembrar das bonecas na sala e, com a mesma pressa de antes, correu de volta para elas. Apesar do mistério daquele carro partindo, Pedrina logo se esqueceu do ocorrido, voltando ao mundo encantado de sua brincadeira, onde Marieta e Clarinha a esperavam para o chá que havia prometido.
117
Kadu manteve os olhos fixos na estrada, o carro avançando com firmeza pelo caminho sinuoso. O motor ronronava suavemente, acompanhando o ritmo das árvores que passavam como sombras fugidias pelas janelas. O silêncio dentro do carro era quase palpável, pesado, preenchido apenas pelo som dos pneus deslizando sobre o asfalto e o leve zumbido do ar-condicionado que mantinha os vidros fechados.
Gigi, sentada ao lado dele no banco da frente, estava perdida em seus próprios pensamentos. O olhar dela se prendia à paisagem que se desenrolava do outro lado do vidro, como se procurasse encontrar algo nas colinas distantes ou nas árvores que balançavam ao vento. Seus dedos finos tamborilavam levemente no colo, uma inquietação quase imperceptível, mas constante.
Kadu a observava de relance, a expressão dela tão distante quanto o horizonte que ambos encaravam. Ele queria falar, dizer alguma coisa que pudesse aliviar o peso daquele momento, mas as palavras não vinham. Então, depois de alguns minutos, ele finalmente quebrou o silêncio, a voz suave, mas carregada de uma preocupação velada:
— Você já avisou sua mãe que está indo? — perguntou, sem tirar os olhos da estrada à frente.
Gigi demorou um instante antes de responder, como se a pergunta a puxasse de volta para a realidade.
— Não, ela está trabalhando — respondeu, sem desviar o olhar da janela. — Mas ela deixou a chave escondida atrás da casa.
A resposta dela foi dita de forma simples, mas Kadu sentiu a leve tensão nas palavras. Ele sabia que, apesar da aparente tranquilidade, havia muito mais naquela viagem do que simples casualidade. Kadu assentiu, embora soubesse que ela não o estivesse olhando. Ele se concentrou na estrada, tentando afastar a sensação de que estavam se afastando de algo irreversível, algo que, uma vez deixado para trás, nunca mais poderia ser recuperado.
Kadu seguia pelo caminho, guiando o carro com segurança pelas estradas que o levavam cada vez mais longe de Monte dos Reis. A viagem avançava, e a mudança na paisagem era perceptível. A visão ampla e luxuosa da praia, com suas casas de veraneio e o brilho constante do mar ao fundo, começava a desaparecer. Aos poucos, a estrada o conduzia para longe daquela opulência e o introduzia a uma simplicidade que carregava um certo charme próprio.
Ao entrar em Portofino, Kadu notou as diferenças sutis que caracterizavam a cidadezinha. As ruas eram estreitas, calçadas com pedras irregulares que ecoavam os passos de quem passava. Não havia edifícios altos ou construções grandiosas, mas um conjunto harmonioso de casas simples, pintadas em cores que pareciam desbotadas pelo sol e pelo tempo. As fachadas ostentavam pequenas varandas decoradas com plantas trepadeiras, que cresciam livremente, emoldurando portas e janelas com um toque de vida.
Portofino tinha um ritmo diferente, mais lento, quase como se o tempo ali corresse de maneira distinta. As pessoas caminhavam com calma, cumprimentando-se de longe com acenos gentis, e o comércio local, feito de pequenas lojas e mercados, refletia a rotina tranquila de seus habitantes. Kadu podia sentir a mudança no ar, uma brisa suave que trazia o cheiro de maresia misturado ao aroma de café fresco que saía de uma padaria na esquina.
Ele seguiu pelo endereço que Gigi havia lhe dado, até que o carro finalmente parou diante de uma casa que parecia se encaixar perfeitamente naquele cenário. A residência, situada em um bairro calmo e agradável, era simples, mas encantadora. A casa, pintada em um tom suave de amarelo pastel, refletia uma luz acolhedora, quase como se convidasse quem passasse a entrar e se sentir em casa.
A fachada era modesta, sem ostentação, mas havia um cuidado nos detalhes que a tornava especial. Uma pequena varanda coberta com um telhado de telhas vermelhas abrigava uma cadeira de balanço antiga, que parecia já ter acolhido muitos momentos de tranquilidade. Vasos de plantas, arranjados com carinho, enfeitavam a entrada, e uma porta de madeira, pintada de branco, dava um toque final de aconchego ao lugar. Era uma casa térrea, sem andares, mas sua simplicidade escondia um charme que só poderia ser encontrado em lugares onde o essencial era mais valorizado que o excesso.
Kadu respirou fundo, sentindo-se estranho ao perceber como aquele lugar contrastava com tudo o que ele conhecia em Monte dos Reis. Mas havia algo ali que o acalmava, talvez a sensação de que, naquele canto do mundo, a vida poderia ser mais leve, menos complicada. Ele olhou para Gigi, que também observava a casa com um olhar que misturava curiosidade e uma espécie de paz que ela talvez não soubesse que procurava.
— Chegamos — disse ele, desligando o motor e abrindo a porta para ajudá-la a descer.
O ar ali parecia diferente, carregado de promessas de uma nova vida, simples e despretensiosa, mas cheia de possibilidades que ainda estavam por vir.
Gigi caminhou lentamente para os fundos da casa, os passos cuidadosos sobre o chão de pedras. A manhã ainda estava fresca, e o ar carregava o leve cheiro de flores que cresciam ao redor da casa. As mãos trêmulas procuravam no local exato que Helena havia mencionado na mensagem. Sob um pequeno vaso de plantas, ela encontrou a chave, ainda coberta por um pouco de terra, como se o simples objeto escondesse segredos maiores do que deveria.
Enquanto isso, Kadu, com movimentos mecânicos, retirava as malas do porta-malas do carro. Ele as carregou até a varanda da casa, colocando-as com cuidado ao lado da porta. O olhar dele se voltou para Gigi, que reapareceu com a chave na mão, um pouco trêmula, como se aquele pequeno pedaço de metal carregasse todo o peso da decisão que havia tomado. Ele a observou em silêncio, sentindo que, naquele instante, algo importante estava para acontecer. Um momento de incerteza pairava entre os dois.
Kadu respirou fundo e quebrou o silêncio com uma pergunta que sabia que precisaria ser feita:
— E se Eliane perguntar por você, o que devo dizer? — As palavras saíram com um tom de preocupação, a voz quase sussurrada, como se qualquer som mais alto pudesse trazer consequências indesejadas.
Gigi ficou pensativa por um instante, seus olhos perdidos em algum ponto além da casa. A pergunta de Kadu a trouxe de volta à realidade, e ela sabia que, dali em diante, suas respostas teriam que ser definitivas, sem espaço para arrependimentos. Depois de uma pausa que pareceu durar mais do que deveria, ela finalmente falou, mas as palavras saíram de maneira confusa, como se ainda estivesse tentando organizar os pensamentos:
— Diga que foi meu pai que me buscou — ela começou, a voz firme no início, mas com uma leve hesitação ao final, como se ainda duvidasse da própria escolha.
Kadu tentou dizer algo, talvez para questionar ou sugerir outra opção, mas Gigi o interrompeu, sua voz agora um pouco mais decidida, quase como se quisesse convencer a si mesma:
— Ele ia me buscar de qualquer forma. Eliane vai entender, vai... saber que não tinha mais jeito. — A confusão em suas palavras era evidente, mas Gigi não recuou. Ela sabia que não podia mais voltar atrás, e queria deixar claro que essa era sua decisão.
Ela olhou para Kadu, o rosto sério, mas com uma tristeza mal disfarçada nos olhos. Sabia que estava pedindo muito dele, mas não havia mais o que fazer.
— E, por favor... — ela continuou, agora em um tom quase implorativo —, não diga a ninguém onde estou.
Kadu assentiu lentamente, compreendendo o peso daquela promessa. Ele sabia que, ao concordar, estava aceitando mais do que simplesmente guardar um segredo; estava se comprometendo a proteger Gigi de um futuro incerto, algo que ele não tinha certeza se conseguiria, mas que, por ela, estava disposto a tentar.
Kadu, com um olhar que misturava preocupação e afeto, falou com uma voz que tentava esconder a insegurança:
— Não se esqueça de mim, tá? Mesmo que as coisas estejam complicadas... não quero que você pense que me esqueci de você. — Ele hesitou, procurando as palavras certas, um pouco desconfortável com a emoção que começava a transbordar.
Gigi olhou para ele, um leve sorriso nos lábios, tentando manter a voz firme apesar da emoção que começava a crescer dentro dela:
— Eu não vou me esquecer de você. Se algum dia quiser me ver, já sabe onde estou. E minha mãe é legal, vai te receber bem. — Havia um tom de sinceridade e uma esperança que refletia o vínculo especial que tinham.
Kadu, um pouco emocionado, pediu:
— Posso te dar um abraço?
Gigi acenou com a cabeça, e os dois se abraçaram. O calor do abraço transmitia um sentimento profundo e doloroso, como se Kadu quisesse, naquele momento, abrir seu coração e dizer tudo o que sentia. O abraço era um misto de despedida e de desejo de proteção, um gesto que falava mais do que qualquer palavra poderia expressar. A sensação era de que, embora não fosse a última vez que se vissem, aquele momento de proximidade tinha uma urgência e um significado que pareciam tão intensos quanto a possibilidade de um adeus.
Quando finalmente se soltaram, Kadu deixou as mãos de Gigi lentamente, como se cada dedo estivesse relutante em se separar. Com um último olhar, ele retornou ao carro, e o motor roncou suavemente enquanto ele se preparava para partir.
Gigi ficou na entrada da casa, observando Kadu se afastar até que o carro desapareceu na curva da estrada. Com um suspiro profundo, ela entrou na casa, sentindo o peso da nova etapa que começava a se desenrolar diante dela. A casa estava silenciosa, mas agora havia uma sensação de novo começo e uma esperança tímida de que, apesar das mudanças, tudo ainda poderia dar certo.
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