Legado De Poder
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Foi assim que Eliane descobriu, por meio de Pasini, a desistência de Enrico para o sábado, sendo também uma surpresa a chegada de Gustavo, que havia deixado Monte dos Reis há tantos anos. Iniciando a semana seguinte com uma inquietação crescente, Eliane viu a situação se complicar ainda mais com o embate cada vez mais decisivo entre o marido e Nicolas. A frustração aumentava com o encontro com Enrico que não se concretizou, tornando todo o tempo investido na preparação e nos ensaios de oratória um esforço em vão diante do imprevisto inesperado.
Eliane estava exasperada. Sentia uma mistura de desapontamento e raiva fervilhando em seu peito, uma raiva que tinha suas raízes em anos de mágoa e ressentimento. Não era recente que Eliane não se dava bem com Enrico. A rivalidade foi imposta por ela sem que Enrico ao menos soubesse do que se tratava toda a indiferença que ela sentia ao ouvir o seu nome. Enrico era destratado sem razão aparente, mesmo quando era membro dos Rosa Azul, nunca teve qualquer aproximação com Eliane. Ignorava completamente esta paixão reprimida que ela alimentava em segredo, uma fantasia que havia criado sozinha.
Eliane alegava que era uma paixão reprimida, mesmo nunca tendo revelado os seus sentimentos. O pai, inicialmente, proibira qualquer envolvimento, considerando-o um amor proibido e indesejável. A culpa, segundo ela, recaía sobre Enrico e sua vida errada e imoral. A infelicidade que ainda carregava, ela atribuía a ele. Se o rapaz fosse de boa reputação, o pai certamente teria permitido o romance, mas, diante da má fama de Enrico, considerou prudente preservar a dignidade da filha mais velha, afastando-a dos envolvimentos de Enrico com a prostituição.
Ela sentiu o gosto amargo da frustração. As lembranças dos dias em que sonhava com um futuro diferente passavam por sua mente, fazendo com que a dor da perda de suas escolhas e oportunidades de vida se intensificasse. Foi por isso que ela permaneceu inconformada, com a raiva fervendo em seu peito. Sentia-se com todos os motivos para desferir sua ira contra Enrico, por anos de frustração. Ela ansiava por reencontrá-lo, resolvendo antigos conflitos e despejando sobre ele o rancor acumulado.
Desejava apontar o culpado pela perda de suas escolhas e oportunidades de vida. Eliane estava disposta a se vingar, custasse o que custasse, e esperava o momento certo para concretizar sua retaliação. Os dias passavam lentamente, cada minuto carregando a tensão e o desejo de finalmente enfrentar Enrico e exigir dele as explicações que jamais foram dadas. Ela precisava deste confronto para poder seguir em frente, para liberar o peso que carregava e talvez, finalmente, encontrar alguma paz.
Foi por isso que, ao saber que Enrico iria para Monte dos Reis, ela se encheu de esperança. Rapidamente, ela sugeriu ao marido que fosse resolver os negócios, aproveitando a ausência dele para seguir com seus planos. Ela tinha planejado tudo, pensando em aproveitar essa oportunidade para desferir seu golpe. Na sua mente, já vislumbrava o caos que poderia causar, não apenas abalando ainda mais a relação entre Enrico e a filha, mas também desestabilizando-o emocionalmente. Eliane queria que ele sentisse o mesmo desespero e a mesma impotência que ela sentira por anos.
Ela sabia que estava brincando com fogo, mas a raiva e a amargura eram combustíveis suficientes para alimentar suas ações. Se necessário, estava disposta a fazer uma besteira, a tomar medidas extremas para garantir que Enrico sofresse as consequências de suas ações passadas. O pensamento de estragar completamente a vida dele, mesmo que custasse sua própria paz, a fazia seguir em frente com o plano.
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Na mesma segunda-feira, Eliane ligou para Fiorella. Estava com um plano em mente e sabia que precisava de ajuda para fortalecer a posição de seu marido entre os aliados e conquistar novos apoios. Eliane ponderava a necessidade de conversar com Ettore, uma decisão que até mesmo surpreendeu a própria irmã. Ela sentia que essa conversa poderia ser crucial para garantir a influência e o engajamento necessários para enfrentar os desafios que se avizinhavam.
Fiorella saiu à procura de Ettore, aventurando-se para além dos limites da mansão. Encontrou-o afastado do átrio dos fundos, um pouco distante e à sombra dos ciprestes que emolduravam o cenário. Ao avistar a mulher a espreitá-lo, Ettore se aproximou.
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Ettore, com sua aparência transformada, revelava uma transformação notável. Seus cabelos, outrora escuros como a noite de verão, agora ostentavam um tom castanho claro, brilhando sob a luz do sol com um reflexo quase dourado. A mudança não se restringia apenas à cor; ele adotara também um corte de cabelo, com os lados e a parte de trás bem aparados e curtos, enquanto o topo permanecia ligeiramente mais longo, criando um contraste marcante. Ele havia adotado um cavanhaque discreto, com pelos ralos e esparsos que se estendiam pelo queixo e acima do lábio superior, conferindo-lhe um ar de desleixo que parecia cuidadosamente calculado (alguns desses pelos cresciam mais rapidamente, e, ao invés de apará-los como fazia antes, ele decidiu deixá-los desta vez). Era como se Ettore, com essa metamorfose, desejasse evocar um ar de desprendimento, um sinal sutil de que estava distanciado das convenções e da opulência que um dia lhe era familiar.
Ele avistou Fiorella estendendo a mão com o telefone, e ouviu seu sussurro, um murmúrio que parecia carregar o peso da ligação com sua irmã. A voz dela, baixa e quase secreta, misturava-se com o som do vento entre as árvores.
Aproximou o telefone do ouvido sem reação, ainda desconfiado pelo silêncio que pairava do outro lado da linha. Olhou para Fiorella, buscando alguma resposta nos olhos dela, enquanto o silêncio persistia, carregado de incertezas.
— Oi — murmurou Ettore, a voz baixa e discreta, contida pela presença de Fiorella ao lado. No entanto, seu coração batia forte, e o desejo de reagir de outra forma, talvez com mais firmeza ou até indignação, era evidente em seus olhos, que evitaram encarar diretamente Fiorella, revelando a tensão que sentia.
— Escute, vou ser breve com você. Você veio em outro dia à minha mansão supostamente para dar os parabéns a Gigi, não foi? Eu entendi o que aconteceu naquele dia.
Ettore percebeu o tom ligeiramente astuto na voz de Eliane. Ele respondeu, observando Fiorella se afastar, certificando-se de que estava com a privacidade necessária para ser rude com a irmã dela.
— Tá, e você só ligou para me dizer que já está sabendo do óbvio bem tarde?
— Também para que você saiba que estou atenta a cada movimento seu, estúpido.
Ettore não chegou a ouvir completamente a última palavra de Eliane. Com um gesto de desdém, afastou o telefone do ouvido, revirando os olhos com um misto de impaciência e cansaço.
— Quero saber quando é o aniversário de Gigi.
Ettore ergueu uma sobrancelha, o olhar atravessado por uma sombra de ceticismo e curiosidade. A indagação súbita sobre o aniversário de Gigi trouxe à tona um leve desconforto em seu íntimo, como se algo ali não estivesse completamente claro. A intensidade do interesse de Eliane fez surgir em Ettore uma cautela sutil, um pressentimento de que a pergunta carregava mais do que a aparente simplicidade de uma data comemorativa.
— E pra que? — Ele questionou, com um tom de voz moderado, mas carregado de desconfiança.
— Não é exatamente o seu papel ficar questionando minhas intenções. Você é pago para seguir ordens, não para fazer perguntas.
— É, mas eu não sou pago para fazer nenhum tipo de trabalho para você.
— Você só se atreve a falar assim porque está amparado pela minha irmã. Mas não se engane: não tardará muito para que eu faça você desaparecer de vez. E eu garanto que a sua ausência será bem notada.
Ettore afastou o telefone do ouvido, tentando diminuir o impacto da voz cortante de Eliane. Aquelas palavras afiadas, carregadas de uma ameaça iminente, pareciam ressoar com um eco persistente, mesmo à distância.
— Só vou revelar o que sei quando você me contar o que está planejando. Não adianta exigir respostas sem oferecer detalhes. — Ettore aproximou o telefone do ouvido novamente, o tom de sua voz misturando uma indiferença calculada com um leve desafio.
— Audacioso como sempre, não é? Não decidi conversar com você para me submeter às suas exigências. Se você quer saber o que estou planejando, terá que esperar até que eu considere apropriado compartilhar.
— Então, também vou achar apropriado esperar para compartilhar o que sei. Se você prefere jogar esse jogo de paciência, está feito.
— Passe o tempo que quiser esperando; isso não fará diferença para mim. Meu interesse em você é bem limitado.
— Não é em mim que você está interessada, mas em Gigi, não é?
— Desde quando você começou a se importar com quem eu estou interessada? Se Gigi é o que você acha que me motiva, deve ser porque você tem um talento especial para ver o que não existe. — Eliane parou de falar, um silêncio repentino que fez Ettore estranhar. A pausa, carregada de um significado que ele não conseguia decifrar, parecia prolongar-se eternamente.
— Estou planejando fazer uma festa de aniversário para a garota, sabia? — retomou Eliane, a voz carregada de um deboche sutil. — E eu queria apenas confirmar alguns detalhes com você. Nada mais do que isso.
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Não seria realmente uma surpresa se fosse apenas uma festa de aniversário. Eliane, astuta como sempre, já havia formulado os planos para beneficiar o marido. Desde o início, ela pensava em unir a suposta celebração com mais uma reunião entre os membros na Fortaleza de Prata, marcada para a noite de quinta-feira. Cada detalhe era minuciosamente calculado, e a festa era apenas a fachada para seus verdadeiros objetivos.
Manter a herdeira sob seu teto seria, sem dúvida, vantajoso. Gigi, na mansão de Eliane, representaria um trunfo valioso. Diante dos Rosa Azul, a presença da jovem ao lado de Eliane sugeria uma aliança tácita. Se ela estava com Eliane, na perspectiva dos demais, já se alinhava com seus interesses. A estratégia era clara: a garota, mesmo que inconsciente, seria uma peça fundamental no tabuleiro de intrigas e poder.
Para vencer outro Marquese, nada melhor do que contar com um Marquese, mesmo que a garota ainda permanecesse desinformada. Gigi, mesmo alheia aos jogos de poder que a envolviam, era de uma utilidade tremenda para a situação de Pasini. Seu sangue, seu nome, eram armas poderosas, e Eliane sabia exatamente como manejá-las. A presença da herdeira ao seu lado fortalecia sua posição e servia de símbolo para os que ainda vacilavam. A jovem, mesmo sem perceber, estava no centro de uma estratégia cuidadosamente arquitetada.
Eliane chamou as inseparáveis amigas Rizzo, enviou, com muito desgosto, o convite para Lorenzo, e incluiu Davide, embora ele tivesse se pronunciado sobre sua impossibilidade de comparecer devido aos compromissos com a transferência do pai para fora do país. Apenas os legítimos membros da Sociedade foram convidados, não um “turista enxerido” no meio da máfia de Monte dos Reis, como Eliane começou a se referir a Nicolas, que além de tudo era seu rival e, portanto, não havia motivo para convidá-lo.
Nos convites enviados, Eliane fez questão de especificar que se tratava de um “Jantar de Gala”, um evento que combinava a formalidade de um coquetel com a sofisticação de um jantar. Ela também deixou claro que haveria uma celebração especial: “Festa de Aniversário da Herdeira de Monte dos Reis”. A combinação de formalidade e celebração era uma jogada estratégica, uma oportunidade de mostrar poder e ao mesmo tempo consolidar alianças.
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Gigi, alheia a toda a conspiração tecida ao seu redor, não recebeu qualquer explicação sobre o evento que estava sendo cuidadosamente planejado. O convite, meticulosamente elaborado por Eliane, não chegou às mãos nem ao conhecer da jovem, que permanecia na penumbra da ignorância sobre as intenções da anfitriã. Gigi imaginava que seria apenas mais um evento social que Eliane desejava levá-la, sem suspeitar que além de ser uma celebração para os aliados de Pasini, também seria um aniversário disfarçado, um detalhe que Eliane intencionalmente omitiu.
Eliane, ciente da necessidade de manter a fachada, recorreu à sua habilidade de mentir com a sutileza de uma artista. Inventou uma história elaborada para justificar a ausência de Enrico e, ao mesmo tempo, manipular a situação a seu favor. Disse a Gigi que Enrico havia feito uma ligação para o marido dela, explicando que não poderia vir buscá-la no sábado como havia sido planejado. Como se não bastasse, Eliane contou que Enrico tinha revelado, em uma conversa telefonada, que o aniversário da jovem seria na quinta-feira seguinte. A manipulação não parou por aí; Eliane, para reforçar sua versão, afirmou que Enrico, aparentemente, tinha um motivo sério para não comparecer ao jantar ao qual a garota havia sido convidada, e de forma calculada omitiu o fato de que Gustavo havia chegado à cidade.
Eliane não sabia exatamente qual era a relação de Gigi com ele que, para todos os efeitos, era o suposto avô da jovem. Não tinha certeza se Gigi sentia algum afeto por Gustavo ou se a presença dele na cidade poderia mexer com seus sentimentos de maneira inesperada.
Temendo um potencial desenlace desfavorável e o impacto que isso poderia ter sobre seus planos, Eliane optou por não mencionar Gustavo. A presença dele poderia criar uma situação desconfortável e imprevista, além de abrir espaço para perguntas que ela não estava disposta a responder.
O teatro social que Eliane montou para o jantar de gala tornou-se um campo de batalha velado, onde o drama pessoal se entrelaçava com a ostentação de um evento de prestígio. Gigi, envolta em uma cortina de mistérios e meias-verdades, mal podia imaginar que cada detalhe do evento estava carregado de intenções subjacentes, que iam muito além da simples celebração de um aniversário.
No entanto, uma coisa era certa: se Enrico não tinha ido a Monte dos Reis, Gigi sabia que a intervenção de Helena estava por trás disso. Helena havia conseguido convencê-lo a desistir de buscar a garota, conforme o combinado. A jovem desconfiava que Helena inventara alguma desculpa convincente para afastá-lo, garantindo que a primeira parte do plano fosse executada com sucesso.
Agora, Gigi enfrentava o desafio de seguir com o próximo passo de sua estratégia: escapar da vigilância constante de Eliane e chegar à casa de Helena. A tensão estava palpável, cada movimento da jovem era monitorado com cuidado. Com o jantar de gala como palco de uma intriga oculta, Gigi precisava encontrar uma maneira de fugir sem levantar suspeitas, para enfim encontrar a proteção e a liberdade que tanto almejava.
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