Legado De Poder
16 75—81
Notas iniciais
75
Enquanto os convidados começavam a chegar à Fortaleza de Prata, Eliane já se encontrava no salão dos convidados, varrendo o ambiente com os olhos. O aroma sutil de flores frescas misturado com o cheiro convidativo de aperitivos recém-preparados preenchia o ar. Ela havia deixado o marido no lounge, ocupado em pôr os assuntos em dia com os conhecidos e fazer uma boa apresentação. O marido começava a atuar como substituto de Caius, interagindo calorosamente com os membros. Ele estendia os braços para recebê-los, seguindo as instruções da esposa, sentindo-se imbuído do valor do respeito, da autoridade e da obrigação.
Eliane confiava que o marido se sairia muito bem nas relações. A música suave ao fundo e o som dos risos discretos dos convidados formavam uma trilha sonora agradável enquanto ela se afastava para um salão do primeiro andar em busca de Davide. No entanto, a surpresa indevida de Lorenzo no ambiente foi a primeira que ela encontrou. Ele estava junto à ampla janela adornada com cortinas de veludo vermelho, e a luz suave das velas dos castiçais refletia em seu rosto, criando um jogo de sombras.
— Não é uma surpresa ver você aqui.
Ela se aproximou, sentindo a textura macia do tapete sob os saltos.
— E para mim, é sempre uma surpresa agradável ver você. — Lorenzo lançou um olhar tedioso para os lados, como se procurasse algo mais interessante do que a conversa com Eliane. O brilho dos cristais dos lustres no meio do salão, embora tênue, realçava a frieza em seus olhos.
— Por que não vai lá ver como o seu marido está se saindo com o novo cargo? — provocou Lorenzo, com um sorriso sarcástico, enquanto seus olhos percorriam o salão. — Ele pode estar precisando de você para saber o que vai falar.
— Caius explicou algumas coisas. E sabe de uma coisa? — Ela pausou, deixando a provocação no ar por um momento antes de prosseguir. — Você consegue ser ainda mais desgraçado do que ele.
— Resolveu fazer as pazes com ele?
— A situação de Caius é um problema para todo mundo. Mas eu não esqueço que você foi a mente brilhante que fez ele errar com a minha irmã.
Lorenzo cruzou os braços, exibindo um relógio de caixa de ouro branco em seu pulso, e balançou a cabeça levemente, como se estivesse prestes a interromper.
— Não estou com muita disposição para conversar com você agora.
— Talvez isso seja apenas paixão reprimida, quem sabe por quem?
— Está tão obcecada por mim a ponto de se apaixonar?
— Não distorça as coisas. Eu não faço mais parte do seu tipo. Mas lembre-se que eu tirei aquela moça (Gigi) da sua casa também para evitar isso.
Eliane desceu para o salão dos convidados, recolheu uma taça de champanhe servida por um garçom e foi verificar se o marido ainda estava no lounge. O colar longo de pérolas balançava de acordo com seus passos sinuosos no salto. Ela viu Pasini levando um aperitivo de mão pequeno à boca, enquanto ajustava o terno marinho e o abotoava.
Pasini sentiu uma mão tocar seu braço com mais intimidade e já suspeitou que seria a mulher.
— Você viu Davide por aqui?
— Já falei com muita gente, mas ainda não tive a chance de conversar com ele.
— Nicolas está supondo que temos todo o tempo do mundo. — Eliane abaixou a voz no ouvido de Pasini quando um grupo de conhecidos passou perto deles.
Enquanto Eliane caminhava ao lado de Pasini, alguém se aproximou para falar com ele. Percebendo a interrupção, Eliane soltou delicadamente o braço dele para que pudesse cumprimentar quem quer que fosse que o abordasse.
Ela observou as interações de Pasini com os outros convidados, notando o leve movimento de seus lábios quando ele sorria em resposta aos cumprimentos dirigidos a eles.
76
A atmosfera era bem diferente na mansão de Eliane. A noite envolvia a casa em um manto de silêncio e a iluminação suave da lua projetava sombras suaves pelas janelas. Kadu foi incumbido, a mando de Eliane, de continuar na mansão enquanto ela estivesse na Fortaleza de Prata. O rapaz estava ao redor da mansão, atento a qualquer movimentação. Seus olhos constantemente se dirigiam à janela do quarto do primeiro andar, na lateral do átrio, onde a luz que antes estava acesa agora estava apagada, deixando o ambiente envolto em penumbra.
Gigi estava sozinha na mesa de jantar. Tinham chamado ela no quarto para ir até lá. Ela terminou a refeição sem pressa e viu levarem uma bandeja com uma xícara para uma das salas após o arco, onde a sogra de Eliane ainda estava acordada.
Enquanto Kadu fixava o olhar além da escuridão que envolvia a mansão, viu novamente a luz do quarto se acender. A moça tinha voltado para o cômodo.
À medida que a noite avançava, a filha de Eliane, ainda acordada, percorria os andares da mansão com um dos vestidos de dormir e o cabelo em um coque folgado. A menina gostava de subir e descer as escadas da sala, aproveitando para fazer travessuras quando a mãe não estava por perto. Kadu costumava chamar a menina de Pequena Eliane, notando muitas semelhanças entre mãe e filha. Além de ser fofoqueira, Pedrina também gostava de dar ordens ao rapaz; quando ele negava, era ameaçado de ser “deletado” para a mãe.
Kadu se afastou, dirigindo-se lentamente para o início das escadas. Seus passos eram deliberadamente vagarosos, e as mãos estavam enfiadas nos bolsos da calça, denotando uma aparente falta de disposição. Bastou um breve instante para que ele reconhecesse a sombra da menina cruzando no outro lado do pátio.
Ele não a chamou inicialmente. Seguiu atrás, suspeitando que a garota pudesse estar incomodando a cadela poodle, praticamente esquecida do lado de fora, mantida presa numa casa moderna gigante. Eliane nunca admitia praticar maus tratos, argumentando que a casa da cadela era equipada com tudo o que ela precisava, tornando desnecessário permitir que o animal circulasse pela mansão.
A cadela foi um presente da família do marido de Eliane, escolhida dentre uma ninhada de cinco filhotes poodles. Desde o início, Eliane era meio receosa com a cadela ainda filhote, cedendo-lhe um espaço na casa porque ainda era pequena. No entanto, à medida que o animal crescia, Eliane tratou logo de mandar construir um casarão com rampa nos jardins, precavendo-se para evitar que a casa se transformasse em um rabugem.
Kadu perguntou por que a menina estava do lado de fora, e a resposta veio até com propósito.
— Estou cuidando da casa!
— Mas do lado de fora é onde eu cuido. A sua mãe me disse isso.
— Mas eu vim ajudar você!
Kadu estendeu a mão, chamando-a para voltarem à entrada mais iluminada da mansão. Nos jardins em frente, as luzes dos balizadores lançavam um brilho suave entre os arbustos de tulipas, destacando ainda mais a iluminação da entrada. O céu noturno estava salpicado de estrelas, mas a lua escondia-se tímida atrás de nuvens escuras. Uma brisa fria soprou, fazendo as folhas das árvores sussurrarem e trazendo um arrepio que percorreu a espinha de ambos. Kadu ajeitou a camisa preta de mangas longas, sentindo o tecido fino contra a pele, enquanto a menina tremia levemente, unindo os braços e mãos numa tentativa de conter o frio.
— Que tal assim, você cuida lá de dentro e eu cuido do lado de fora. Parece uma brincadeira legal, não acha?
— Podemos ser uma equipe, né?
— Exatamente, uma super equipe! E tem como você fazer um favor para mim lá dentro?
A menina irrompeu na mansão, correndo pelo corredor até o hall dos quartos de hóspedes, onde passou a mão pelas maçanetas das portas. Enquanto isso, Gigi permanecia com a luz do quarto acesa, absorta nas páginas de um livro, examinando meticulosamente cada imagem. De repente, a menina abriu a porta do quarto com força, anunciando:
“Tem alguém lá fora querendo falar com você!”
A moça saiu do quarto, inicialmente desconfiada, mas logo sentiu um lampejo de otimismo, imaginando que poderia ser o conhecido do pai vindo buscá-la na mansão àquela hora da noite. Estava pronta para ir embora, com as malas arrumadas. Porém, ao chegar à entrada da mansão, não avistou nenhum carro. Cruzou os braços para se proteger do frio, ainda investigando o jardim à sua volta.
Poderia ter sido engano ou apenas uma brincadeira da menina. Ela já estava virando para retornar quando uma voz urgente pediu para ela esperar.
Kadu olhou para a garota por um instante, transmitindo um longo silêncio através do azul elétrico de seus olhos.
— Fui eu que mandei a menina te chamar. Eu... eu não sabia bem como falar com você direto.
O momento de silêncio não estava ajudando a melhorar a situação. Gigi olhou para ele, ainda incômoda, segurando o próprio braço com timidez.
— Eu pensei que a gente poderia conversar um pouco. — Kadu passou a mão pela cabeça, visivelmente inquieto.
A garota se aproximou em passos lentos e inseguros até se encostar no balaústre, notando também que o rapaz se posicionava ao seu lado.
— A gente se viu só naquele dia.
Ele deu um sorriso sincero ao recordar da tarde no monte em que a encontrou. Apesar de ainda tenso, seus lábios grossos e largos mantiveram o sorriso até ele desviar o olhar, sem ver muito efeito na reação da garota.
— Eu lembro da nossa conversa. — Apesar de Gigi ter abaixado os olhos, ela percebeu que o rapaz virou novamente a cabeça. Esticou a manga do moletom para proteger a mão do frio. — Você não é muito de conversar. Você já disse isso.
— É. Que bom que você lembra. — Kadu deu um riso torto, pensando que talvez aquilo pudesse ter sido uma indireta.
— Eu também sou assim.
77
Em retorno ao buffet dos Rosa Azul, Davide finalmente apareceu no salão, seguido por Lorenzo, que também havia descido do primeiro andar. Tudo seguia normal pelo evento, ao contrário da movimentação que surgiu depois do lado de fora. Teve gente que parou para ver o carro desconhecido estacionando.
Chegou na Fortaleza de Prata uma figura envolta em mistério, seu caminhar tranquilo e confiante chamava atenção já na entrada. Seus movimentos eram calculados, como quem conhece bem o ambiente, mas sua identidade permanecia oculta, despertando curiosidade entre os presentes. Seguiu assim com todo mistério até o salão, onde já haviam avisado a Davide, conforme ele havia combinado com a patrulha de fora do castelo.
Eliane viu Davide saindo do salão. Ela espiou Lorenzo, lançando um olhar que sugeria que algo estava acontecendo, os dois se comunicaram silenciosamente, mesmo estando ele mais afastado. Nicolas chegou à Fortaleza de Prata. Era esperado que Davide fosse recebê-lo. Eliane tentou logo alertar ao ouvido do marido, segurando discretamente o braço de Pasini, mantendo uma boa imagem de anfitriã temporária dos Rosa Azul.
Os dois homens apareceram no salão com uma presença firme e boa postura. Nicolas foi imediatamente reconhecido pela sua altura impressionante. Vestia um cardigã preto sobre uma camisa também escura de gola alta, dando-lhe um ar sofisticado e discreto. Com o cabelo escuro penteado para cima de maneira moderna, seus olhos de tom verde oliva característicos da família se destacavam. Quando ele levantou a mão para cumprimentar alguém que já conhecia, notava-se a aliança de prata em seu dedo.
Eliane continuou a observar aquela intimidade sem grandes interações dele, mantendo em cada cumprimento uma expressão fria em seu rosto alongado.
Eles se aproximaram ainda mais, e Lorenzo se afastou da escada, seguindo na direção em que Eliane e seu marido estavam.
— Não esperem que ele venha cumprimentá-los. Ele não é do tipo que faz cerimônia.
Eliane deu uma olhada de soslaio em direção à voz de Lorenzo, que veio de trás dela e do marido.
— Há algo que devemos saber? Você é aliado dele, afinal.
— Eu sei do que estou falando.
Pasini sugeriu à mulher que eles fossem cumprimentar Nicolas, ao menos demonstrando respeito e compromisso com a posição que agora estava assumindo. Era mais do que justo que ele tomasse a iniciativa de se aproximar.
Eliane seguiu o marido com desconfiança. Não foi o comentário de Lorenzo que a deixou desconfiada; antes disso, Nicolas já demonstrava não ser uma pessoa agradável. Estando diante do Marquese, no momento em que Pasini estendeu a mão para o cumprimento, o gesto ficou vago no ar, sem ser retribuído. Davide percebeu também a indiferença de Nicolas e prontamente apresentou Pasini. Com um tom formal, explicou que Pasini estava temporariamente no lugar de Caius, mas ainda concorria para a votação.
Eliane se intrometeu, dizendo: “Ou seja, se meu marido ganhar, ele continuará à frente dos Rosa Azul.” Ela havia recolhido a mão do marido quando foi recusada de ser apertada. Pasini levou a mão à boca, desconfortável, quando a mulher se intrometeu falando. Ele sabia que ela não aceitaria o desaforo.
— Isso é algo que devemos ter em mente, não é mesmo? — Eliane sorriu um sorriso forçado para aqueles que estavam próximos dela e do marido.
Davide também introduziu a mulher, mencionando que ela era da família dos Tarantino. Nicolas continuou sendo discreto, trocando olhares com a mulher enquanto deixava a voz de Davide em segundo plano.
“Eu entendi como são as coisas por aqui. Ela deixa bem claro quem é desde o início.” — Nicolas falou, com a intenção de que Eliane escutasse.
— E o que exatamente você entendeu de mim? — Eliane lançou um olhar direto a Nicolas com uma calma calculada.
— Que você não faz questão de esconder suas intenções nem seu poder aqui.
— Todos aqui sabem a importância de serem transparentes. É a nossa tradição.
— Se essa transparência for a educação de vocês, espero ao menos me sentir bem aqui.
Após o diálogo, Nicolas se afastou, acompanhando Davide pelo salão. Eliane consentiu com um gesto de cabeça em despedida, controlando seu olhar fulminante. Lorenzo aproveitou para sussurrar atrás do casal: “Eu avisei, ele nem olhou na minha cara quando fui visitá-lo na mansão. Já chegou convencido.”
— Talvez ele tenha visto algo que não gostou.
Lorenzo olhou para Eliane com uma expressão meio sem graça, arqueando uma sobrancelha. Sua reação deixou claro que a tentativa de humor não havia caído bem. Pasini lançou um olhar para a mulher, indicando que estaria se afastando. Eliane permaneceu a sós, prosseguindo a conversa com Lorenzo.
— Você fica estranho quando está deprimido. Onde está a sua mulher?
Lorenzo passou a mão na barba loura. Uma expressão de desânimo e impaciência cruzou seu rosto, difícil de decifrar exatamente o que estava sentindo.
— Não me diga que já está passando pelo processo de divórcio?
— Cuidar da minha vida não vai resolver os seus problemas. — Lorenzo indicou com a cabeça na direção onde Nicolas estava.
Eliane virou discretamente o rosto para observar a saudação de Nicolas com um grupo. Ele ainda mantinha a frieza no rosto e indiferença nos gestos para aqueles que ele considerava inferiores — exatamente aquilo que ela conjecturara sobre o desprezo que ele demonstrara pelo marido dela.
— Parece que ele também está causando problemas para você, não é? Imagino que isso pode afetar a sua aliança com ele, se você não for muito interesseiro. — Eliane deu uma risada fraca, deixando escapar o ar da risada. — O seu problema foi ter se metido comigo, tentado se aproveitar de uma situação que ninguém mandou você resolver. (Eliane estava falando ainda da filha de Vincenzo que Caius sugeriu procurar, mas Lorenzo se atreveu a usar a ideia para benefício próprio.)
— A vida que o seu marido leva do seu lado deve ser muito monótona. Você sempre fala as mesmas coisas para ele?
Eliane fez uma expressão no rosto, com os lábios voltados para baixo, tentando dizer algo.
— Tanto para mim quanto para você, ele (Nicolas) é um grande problema.
— Eu não tenho uma boa reputação para me redimir com você.
Eliane percebeu a voz suavemente rouca de Lorenzo ficando mais nítida. Ela notou que ele estava mais próximo, quase encostando nos seus ombros quase nus pelas alças finas do vestido escuro.
— Não seja tão convencido. Não estou insinuando que pretendo tê-lo como aliado.
— Eu entendi. Mas, de qualquer forma, com tudo o que vimos dele até agora, sabemos que, em algum momento, alguém precisará dar um jeito nele.
78
Enquanto Lorenzo indicava que estavam considerando tramar algo contra Nicolas, a noite já não estava sendo a mesma na mansão de Eliane. Nuvens densas e escuras estavam rapidamente cobrindo o céu, obscurecendo as estrelas. A brisa, mais forte e persistente, soprava repetidamente, fazendo barulho nas árvores menores. Kadu estava em silêncio, ainda encostado no balaústre que se sentia gelado sob seus braços cobertos pela camisa longa. Gigi soltou os braços, sentindo-se já cansada da posição em que estava, enquanto o frio começava a incomodá-la.
— Olha, me diz uma coisa, aquele rapaz é seu parente? Parece que ele te conhece bem.
Gigi fez uma pausa, lembrando-se de quem ele estava falando. Era Ettore.
— Ele é conhecido do meu pai.
— Entendi. — Kadu respondeu com um tom mais suave, revelando pouco mais do que um aceno compreensivo.
— Ele deve dar notícias suas para ele.
Com um olhar hesitante, Gigi dirigiu-se na direção do rapaz. Kadu levou alguns segundos para retribuir a atenção.
— Estou querendo voltar para o quarto.
Kadu acreditou que fosse o frio que já estava incomodando ela. Ele percebeu quando ela apertou bastante as mãos enquanto ainda estava encostada no balaústre. Consentiu de forma tímida, trocando um “boa noite”. Ele não tinha mais que insistir em conversar, já estava sabendo o suficiente sobre a moça. Tinha ainda em mente o dia em que a patroa pediu para ficar atento às notícias sobre o herdeiro de Vincenzo. Eliane nunca deu explicação sobre a visita inesperada da garota, apenas alertava que ele não deveria falar demais, caso contrário, o mercado negro aguardaria os seus únicos olhos de azul elétrico.
Qualquer pessoa perspicaz entenderia facilmente essa surpresa em Monte dos Reis. Primeiro foi o evento do baile, com tantos conhecidos que ele já se acostumara com o tempo. O relance para o rosto desconhecido com máscara trouxe imediatamente suspeitas. Em seguida, encontrou na mansão da patroa uma visitante bem vigiada e controlada para que ninguém se aproximasse.
Monte dos Reis guardava seus segredos, mistérios que ninguém ainda conhecia, assim como os dele. Kadu nasceu e cresceu na cidade normal, inimiga de Monte dos Reis. Antes, morava com o irmão e sonhava em se tornar um professor de dança. A vida se resumia apenas entre os dois. O irmão ainda estudava e Kadu tinha um emprego fixo, mas, no tempo livre, dava aulas de dança moderna. Ele aspirava também ter a própria escola de dança e chegou a juntar, com esforço, uma boa quantia para alugar um cômodo pequeno e reformá-lo para dar aulas no início.
Com as despesas ficando apertadas e o dinheiro constantemente sumindo, Kadu começou a suspeitar dos problemas do irmão. Envolvido com más influências, o irmão entrou no mundo sem voltas das drogas. Acostumou-se a roubar às escondidas até que, um dia, descobriu a maior quantidade de dinheiro guardada para o sonho de Kadu.
O irmão enfrentava problemas com drogas, e o dinheiro que Kadu havia juntado para abrir a escola de dança foi usado para quitar a dívida. Pelo menos, seria suficiente para isso. Mesmo com a dívida paga, o irmão foi assassinado. Kadu procurou auxílio junto às autoridades policiais da cidade, mas eles pouco fizeram a respeito.
Já ciente dos rumores sobre o lado perverso da polícia, Kadu sabia que a força policial era dividida e envolvida com as criminalidades. Na cidade normal, essa divisão era um segredo aberto: ninguém conversava seriamente sobre o assunto, e nenhuma autoridade tomava providências quando surgiam rumores de envolvimento com máfias e o submundo do crime. A criminalidade nunca cessava, e a impunidade era uma constante. Assassinos e outros criminosos raramente eram presos; frequentemente, eram libertados sem uma punição justa. A justiça era inexistente, e a cidade estava sob o controle de um grupo que, com seus acordos e negociações secretas, mantinha um domínio obscuro sobre a população.
As suposições sempre recaíam sobre a máfia conhecida de Monte dos Reis. Eram eles os inimigos da cidade normal, frequentemente acusados dos crimes que ocorriam e constantemente noticiados pelos jornais. Kadu acreditava que uma das duas coisas acabou matando seu irmão: ou a máfia de Monte dos Reis, ou a polícia tirana da cidade, que não cumpria sua função para aqueles que deveria proteger. Um desses lados continha a verdade e a culpa pela morte do irmão, apesar de ele já estar com os dias contados no caminho que havia escolhido seguir.
Para descobrir a verdade, Kadu mudou-se para Monte dos Reis, interessado em entender melhor a dinâmica da cidade. Logo ficou a par da influência da máfia predominante na região. Ele conseguiu emprego facilmente como garçom em um restaurante local. Durante uma de suas jornadas de trabalho, notou a presença de um cliente de notável elegância e postura. Pelos comentários de colegas, soube tratar-se de um indivíduo refinado e aparentemente abastado. A habilidade do rapaz em se vestir bem e sua postura não passaram despercebidas, o que contribuiu para sua boa aceitação ao servir a mesa de um dos parentes do marido de Eliane, conhecido por testar os que ele considerava dignos de servir para outros favores. O homem usava charadas para avaliar o conhecimento e as habilidades dos candidatos. Era um caçador de talentos para recrutamento. Logo percebeu no rapaz uma boa impressão e um talento natural para desvendar seus enigmas e a enganação. Precisava de alguém assim para atuar na cidade e iniciou uma interação com Kadu baseada em desafios intelectuais.
Eliane, nesse período, considerava a possibilidade de contratar alguém exclusivamente para trabalhar para ela. Ela desejava manter-se informada sobre os assuntos sem depender do marido, sabendo bem de suas infidelidades desde o início do casamento, descobertas logo após a lua de mel. Durante uma reunião reservada entre os membros influentes dos Rosa Azul, Pasini teve que se ausentar brevemente. Ao retornar, planejava explicar que foi coagido a participar de uma orgia organizada pelo tio de Lorenzo em um dos próprios cassinos.
A rivalidade com Lorenzo não era recente; vinha desde muito antes. O tio dele não exercia boa influência. Foi Melina quem contou tudo a Eliane, amigas desde a adolescência. Melina resumiu as palavras do pai. As reuniões nos cassinos tinham espetáculos absurdos, coisas que o pai de Melina desaprovava e insistia em contar à esposa, detalhes que ela ainda conseguia suportar ouvir. O pai de Melina nem tinha ido. Eliane suspeitou que Lorenzo tivesse visto o marido; ele e o tio eram cúmplices.
Pasini tentou desarmar a conversa, percebendo o silêncio e a insatisfação persistente da moça nos dias que se seguiram. Eliane não voltou ao normal; ela confrontou abertamente a falta de respeito, especialmente pelo nome do pai dela, ainda vivo. Se soubesse do escândalo semanas após o casamento da filha, ele teria corrigido o genro rapidamente. No entanto, Eliane manteve-se em silêncio, não conseguindo expressar suas mágoas nem mesmo para Pasini, e permaneceu ressentida até engravidar do filho. Pasini interpretou a indiferença como amor e rapidamente se arrependeu, sem saber que na verdade o ressentimento dela era por outra questão: suas dúvidas sobre Enrico e a noitada no cassino.
Eliane tinha seus motivos para contratar um espião particular. Kadu estava em fase experimental com o parente do marido, despertando interesse dela ao descobrir que ele era da cidade normal. Insistiu com o marido para contratá-lo, sem que ele soubesse que o jovem também seria seu investigador. Promoveu rapidamente o rapaz a um papel de missionário, assegurando sua exclusividade. Tratava-o como um filhote de estimação, fazendo com que Ettore zombasse dele chamando-o de ‘Filhotinho’ sempre que podia.
79
Na mansão, Kadu movia-se silenciosamente, enquanto na Fortaleza de Prata, Eliane e Davide já se encontravam no escritório do primeiro andar. Aproveitando a ausência do marido, Eliane decidiu ser franca e expor diretamente suas preocupações a Davide.
Davide estava retomando a conversa sobre Nicolas.
— Ele mandou que déssemos um fim nos jardins de rosas azuis da mansão de Vincenzo. Ele comentou que o odor estava lhe incomodando.
Os jardins de rosas azuis na mansão de Vincenzo era mais do que uma simples característica decorativa. Era uma herança dos Marquese, um símbolo de união discreto e com finesse entre as famílias, e uma tradição perpétua, representando o início dos Rosa Azul, formados pelos acordos das três famílias fundadoras. Essa história tinha profundas raízes na Sociedade, transcendendo a vontade de qualquer novo líder ou a situação atual entre os membros.
— Parece que Nicolas está determinado a impor sua vontade aqui.
— Não me surpreende que você desconheça essa determinação dele. Afinal, foi você quem o trouxe para Monte dos Reis.
Davide afastou a cadeira da escrivaninha, preparando-se para se levantar, mas desistiu no último momento. Observando-o da poltrona, de costas para a porta, Eliane deduziu que aquele movimento indicava certo desconforto.
— Eu já expliquei. A situação em que vocês estavam me permitiu escolher ele como uma prioridade.
— Mas eu não quero ser prejudicada pelas grandes ilusões de Lorenzo.
— Eu não penso em concorrer pelos votos de ninguém. Na verdade, estou lidando com problemas para resolver a transferência do meu pai para fazer o tratamento com meu cunhado fora do país.
— E você iria acompanhar o seu pai fora do país?
Davide ficou pensativo por um momento, abaixando os olhos para a escrivaninha. Seus dedos traçaram levemente a borda de um porta-canetas de madeira esculpido à mão, enquanto ponderava sobre suas palavras.
— Pretendo me dedicar mais a cuidar da família, especialmente neste momento.
Com Tommaso fora do país, Davide provavelmente estava se referindo à sobrinha. Eliane pensou por um momento e fez uma torção discreta na boca. Ela ainda estava contrariada com o filho pela discussão que tiveram por causa da moça antes dele ir passar uns dias na mansão dos primos.
Já que o assunto se desviou para os familiares, Eliane achou prudente perguntar.
— Você já soube o que aconteceu com Caius?
— Ouvi dizer que ele teve alguns problemas. Deve ser uma situação difícil para a sua irmã.
— Acho que ela deveria estar mais acostumada com essas situações. Já passou por algo parecido quando descobriu o caso.
Não parecia ser intencional a conversa dela. Davide olhou involuntariamente para Eliane; talvez ela estivesse tentando provocar alguma reação de alguma forma. Eliane esboçou um sorriso fechado, tentando amenizar a conversa. Em seguida, levantou-se para sair da sala e voltou para o salão, segurando o marido pelo braço assim que o encontrou.
— Quero ir embora. Não tenho mais nada para fazer aqui.
Pasini informou que precisaria esperar um pouco mais antes de sair do evento. Acrescentou que, ao sair, ainda teria que passar na mansão de Caius para obter notícias sobre a irmã de Eliane e se inteirar da situação deste homem.
Davide desceu do escritório, e Eliane o observou, concluindo que ele provavelmente estava indo se reunir com Nicolas. Após o marido subir as escadas, Eliane se retirou para o salão dos convidados. Sentou-se em uma mesa, exibindo uma expressão desconfortável diante de todo o ambiente. Com a mente distraída, ela não notou a aproximação de alguém até ser surpreendida pela chegada. Eliane levantou os olhos e, ao perceber de quem se tratava, fez uma expressão de indiferença, como se a presença não a afetasse em nada.
— Você já pensou no que eu falei?
Eliane percebeu a cadeira sendo puxada ao seu lado, enquanto Lorenzo ajustava o blazer marinho nos cotovelos.
— Já estou fazendo isso. Afinal, matar mais um Marquese não é algo que eu faria, não é? — Lorenzo apoiou o braço na cadeira de Eliane, seu olhar um tanto suspeitoso refletindo sobre o que ela havia dito. — Eu me lembro quando você sugeriu que meu pai tinha matado Vincenzo. Usou chantagem para tentar me intimidar com as suas mentiras. Você merece qualquer humilhação e desprezo que Nicolas possa lhe dar.
— Não estava tentando te intimidar. Eu disse aquilo porque acredito que Nicolas precisa ser vigiado de perto.
— Poupe suas explicações. Não estou interessada. Sei que você vai usar isso contra mim depois e vai fazer parecer que foi minha família que assassinou Vincenzo.
— Você está tão preocupada com uma besteira que eu disse. Se você está tão certa de que seu pai não fez nada contra Vincenzo, então não deveria estar tão obcecada com isso.
Sentados à mesa, aparentando calma e decência, Lorenzo e Eliane mantiveram-se comportados, como se não estivessem discutindo. Para quem passasse próximo, parecia que estavam apenas observando o ambiente e os conhecidos que iam e voltavam com taças de champanhe borbulhante, conhaque âmbar e licor de cores vibrantes.
— Sempre é bom manter os dois olhos bem abertos para você. Quem garante que você não combinou tudo isso com Nicolas? Fingiu ter sido ignorado por ele apenas para se aproximar de mim agora. — Eliane ouviu Lorenzo afirmar que não iria mais se dirigir a ela verbalmente. — Então, por que não completa esse favor e sai da minha mesa também?
Dando um aceno de cabeça ao se levantar, Lorenzo disse: “Se precisar de uma entidade demoníaca para lhe fazer companhia, vou deixar você mesma procurar uma.”
80
Embora estivesse se sentindo ainda incomodada depois da conversa com Lorenzo e do buffet, Eliane decidiu acompanhar o marido até a mansão de sua irmã.
Durante o dia, Fiorella já havia mantido extensas conversas com Caius. Quando ele telefonava da cidade normal, era habitual utilizar um celular especialmente arranjado, uma medida necessária inclusive para se comunicar com Monte dos Reis, onde a discrição era essencial. Até onde Fiorella havia relatado da conversa com o marido, ele estava aguardando a audiência.
Pasini compreendia melhor esses assuntos, então seguiu acompanhando Fiorella até outro salão, caminhando em frente e conversando baixinho, até chegarem ao novo ambiente.
Na lareira, o fogo ardia vigorosamente, enquanto um lustre branco resplandecente no centro do teto refletia sua luz suave sobre as paredes e móveis de tonalidades claras.
Enquanto Eliane aguardava, seus olhos vagaram pelo salão. Um vaso de porcelana fina sobre uma mesa próxima recebeu seu olhar, enquanto seus dedos batiam de leve na superfície macia de uma almofada. Breve, uma escultura de cristal capturou sua atenção, embora seus olhos parecessem procurar por algo mais. Ao levantar o olhar, os quadros sutilmente emoldurados nas paredes não conseguiram deter sua impaciência, seu olhar passando por eles rapidamente em busca de uma distração.
Subitamente, os passos discretos de seu marido e de sua irmã interromperam a sua contemplação. Quando retornaram, ambos se separaram: a irmã de Eliane sentou-se na poltrona, enquanto seu marido seguiu para o hall de entrada.
Eliane deu as costas para a poltrona onde sua irmã estava sentada, já tentando evitar qualquer conversa, mas não conseguiu escapar. Fiorella, surpreendentemente, perguntou:
— E a menina? Como ela está se saindo?
— De qual menina você está falando?
— Da sua filha.
— Ela já não fala muito de você. — Eliane raspou as unhas tingidas de vinho na testa e, em seguida, virou a cabeça para encarar a irmã, que permanecia em silêncio.
Nenhuma palavra mais foi trocada entre as duas. Eliane ocasionalmente direcionava seu olhar na direção que o marido havia seguido, consciente da demora. Após um momento, ele retornou, dizendo poucas palavras para Fiorella e chamando a esposa para irem embora.
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Na escadaria, trocaram-se as despedidas, enquanto Fiorella aguardava até que o carro partisse. Ela estava um tanto incomodada por ter chamado o cunhado para conversar com alguém que o aguardava atrás da mansão. Estava ciente de que durante o trajeto, sua irmã poderia questionar o marido, e não tinha certeza se ele seria capaz de não contar a Eliane o que havia acontecido.
Fiorella caminhou até a parte de trás da mansão com os braços unidos. Ao chegar lá, viu o rapaz de costas, com a jaqueta pendendo levemente de um ombro.
— Você explicou tudo para ele? — Fiorella observou enquanto Ettore balançava a cabeça, ainda aparentando receio quando a encarou.
— Não tenho certeza se ele vai dizer a verdade para ela, mas ele precisa estar na mansão no sábado. Enrico disse que ia buscar a garota e não vai passar deste dia. Ele já está decidido.
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