Legado De Poder
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22
No dia seguinte, foi realizada uma reunião na Fortaleza de Prata para discutir o desaparecimento da herdeira. Era necessário estabelecer novos planos, pois Caius ainda não retornaria a Monte dos Reis. Na noite anterior, ele havia informado Fiorella, e sua esposa logo suspeitou que algo ruim estava acontecendo na cidade. Fiorella se recusou a comparecer à reunião. Não era surpresa, dado o seu coração mole. Ela se privava de viver por causa de Caius, que, além de estar envolvido nas investigações da morte da mãe, também poderia estar procurando pela amante.
Eliane, ao contrário da irmã, tinha uma visão mais realista. Caius teve uma amante na cidade, a quem ele enriqueceu com presentes, apenas para ser abandonado por ela, deixando-o com o coração partido. O cunhado era tolo e cínico, exibindo covinhas ao rir. Foi ele quem decidiu, junto com Fiorella, que não teriam filhos, embora soubesse que esse não era o desejo dela, apesar de ela afirmar que a decisão foi do casal.
Caius sempre tinha uma explicação para tudo. Quando questionado sobre a decisão de não ter filhos, ele dizia que era para proteger a esposa, evitando que ela se tornasse conhecida na cidade e não a envolvendo nos problemas que pudessem surgir. Eliane não conseguia sentir raiva total da irmã; chegou a se compadecer pela traição quando percebeu a distância que se formou entre o casal no início. Ela chegou a ameaçar Caius em um dos salões do palácio, sendo desavergonhada ao expressar seu desejo de má sorte para o cunhado.
— Não deveria confiar tanto nas ideias de Caius.
Lorenzo compreendeu a indireta de Eliane, que estava sentada com as pernas cruzadas na poltrona, escondendo um sorriso quando o marido a olhou. Ela havia sido instruída a não causar problemas; Pasini costumava falar manso com a esposa, evitando ser repreendido.
— Eu já disse que o nome dos Marquese não era para você. — Pasini bateu no braço da poltrona, chamando a esposa pelo nome.
— Você estava querendo que tudo desse errado de propósito. — Lorenzo, de pé ao lado da mesa com os braços cruzados, estava convencido das intenções de Eliane.
— Você escolheu o caminho errado ao confiar nas ideias do seu amigo.
— Isso não importa. Vamos realizar uma votação para que você decida os votos de todos.
— Certamente, eu não falharia como você.
— Tenho pena do seu marido.
— E eu da sua esposa.
O eco da palma de Pasini ressoou pelo salão, enquanto o vento que entrava pela janela aberta balançava a cortina de voal. Pasini então sugeriu, com um tom de autoridade, que avançassem para o plano da votação.
— Ainda há membros fora do país. — ressaltou Lorenzo.
A risada de Eliane soou levemente debochada.
— Você dá a solução e desanima.
— A garota ainda pode ser encontrada.
— Continue perdendo tempo. Deixe a Sociedade ser perseguida pela culpa do seu amigo.
O bico do salto vermelho de Eliane se esticou para frente enquanto ela ajustava o vestido escuro e se remexia na poltrona.
— Está na hora de reunir os Rosa Azul, mas também não podemos descartar a possibilidade de encontrar a herdeira.
Eliane percebeu o olhar furtivo do marido, mesmo em meio ao silêncio que permeava o ambiente. Seu coração acelerou quando o celular de Lorenzo começou a tocar. Os gestos de Lorenzo ao atender o telefone não passaram despercebidos por ela, que sentiu um pressentimento angustiante no ar. A surpresa foi ainda maior quando Lorenzo anunciou, através das palavras, que Enrico havia chegado em Monte dos Reis.
23
Enrico nem parecia mais conhecer Monte dos Reis. Percebeu o clima distinto assim que chegou à mansão Trofeo. A ventania, que secava seus olhos, o incomodava; afinal, nunca gostou da área litorânea. Não parecia uma visita por consideração ao antigo parceiro; na verdade, nada em Monte dos Reis merecia ser lembrado. A cidade guardava muitos resquícios de seu passado sombrio; Enrico sabia que retornar àquele lugar não seria fácil.
Deixaram Enrico na sala de estudo no térreo. A porta se abriu novamente, e a mulher entrou mais uma vez.
Patrícia, a Sra. Valentini, era mais nova que Lorenzo. Antes, vivia em outra cidade e trabalhava como professora. Chegou tímida e decidida a não se envolver nas ilegalidades, mas reconsiderou ao receber, na primeira oportunidade, joias compradas com dinheiro sujo. Monte dos Reis era a terra do dinheiro fácil, algo que até Enrico sabia.
Patrícia visitava frequentemente a mãe, sempre com a autorização do marido. Lorenzo fingia não se importar com os dias que ela passava fora da cidade, recorrendo à psicologia reversa para garantir que não retornasse tão cedo. Em casa, Patrícia esforçava-se para ser uma boa anfitriã, buscando a opinião de todos e tentando se igualar às outras senhoras.
Enrico estranhou que Patrícia não dissesse nada ao entrar na sala. Ela já havia oferecido algo para beber e comer, mas ele recusara, e parecia que agora ela estava tentando fazer o mesmo.
— Eu vim apenas conversar com seu marido — disse ele.
Ela informou que o marido estava na Fortaleza de Prata e que poderia demorar a voltar. A sugestão do chá surgiu novamente.
— Vou esperar ele retornar. Preciso conversar pessoalmente com ele. Ele não está atendendo minhas ligações.
Patrícia se convenceu e saiu da sala, lançando um último sorriso de recepção. Enquanto se afastava, imaginou que o homem precisava tratar de assuntos mais discretos com o marido, talvez pensando em algum empréstimo de dinheiro.
Enrico não parecia em nada com alguém ligado à máfia. Desde que se mudou para Pormadre, ele já não era o mesmo. Patrícia julgou isso pelas vestes, notando que as roupas não eram caras ou de alta qualidade. A jaqueta marrom-café era de couro sintético, e a calça jeans, simples. O anel de prata parecia ser a única peça mais valiosa nele. Enrico gostava de se manter simples e praticava a humildade de coração, acreditando que valia mais a pena colecionar tesouros no céu.
Nos tempos da máfia, era completamente diferente: esbanjava riqueza com Lamborghini e chofer, trajando smokings finos. O brilho discreto no pulso deixava claro que seu relógio era de ouro. Com um rosto que chamava atenção, a aparência era tudo naqueles dias.
Retornar a Monte dos Reis não seria fácil. Ele sabia que seria um gatilho irresistível para reviver seus erros passados, mas estava disposto a fazer esse sacrifício para encontrar a filha. Esse era o verdadeiro motivo de sua visita à mansão. Conversar com Lorenzo não estava sendo fácil; ele ignorava quase todas as tentativas de contato de Enrico. E, no fundo, Enrico sabia que era culpa de Lorenzo que ele havia perdido a filha.
24
Não seria tão fácil encontrar a herdeira. Pasini seguiu viagem para a mansão Villa Serenità, repensando a reunião. Ele trocou algumas palavras com a esposa, mas Eliane mal deu atenção. Virou a cabeça para a janela do Mercedes, querendo evitar as conversas longas do marido. Precisava de um momento em silêncio para acalmar a confusão que sentia. Não foi agradável saber da chegada de Enrico a Monte dos Reis. Antes, evitava lembrar dos antigos tempos em respeito ao pai falecido, mas agora não conseguia evitar o pensamento de que tudo havia sido culpa dele.
Eliane espiou o marido esticando o pescoço para a janela, como se estivesse vendo algo do lado de fora. Não era o marido que desejava; sabia que o pai nunca teria uma opinião contrária ao rapaz que ela amava. Decidiu se casar com Pasini para satisfazer o pai. Ao menos, ele não era um homem ruim: fazia o que ela pedia, a mantinha a par dos negócios dos Messina, e ajudava nos contrabandos de tecidos dela. Mas o amor que sentia por ele não era sincero.
Era difícil lembrar de Enrico, especialmente da recusa do pai quando soube que ele era o rapaz que interessava à filha. Enrico, já bem-sucedido, formado em engenharia e com uma aparência atraente, dificilmente passaria despercebido. O velho Tarantino sabia que o rapaz se envolvia nos negócios da família da mãe, os Giordano, que eram uma família próspera, sem uma especialidade única, mas envolvida em várias atividades. No entanto, o rapaz tinha seus negócios ocultos. Mantinha a boa aparência de propósito, exalava boas fragrâncias e encenava uma inocência no rosto que servia para fragilizar suas vítimas. Um genro assim, Tarantino jamais aceitaria.
Tarantino amava suas duas filhas, e por isso, disse um “não” firme desde o início. Sabia que os índices de prostituição em Monte dos Reis estavam crescendo e que Enrico era um dos principais responsáveis. Ele escolhia mulheres para trabalhar no mercado do prazer, determinava preços, companhias, e gerenciava o negócio como um cafetão. Era um homem repugnante. Até das mais jovens ele se aproveitava, exigindo ser o primeiro a tirar-lhes a pureza. Quando não era consentido, ele prometia o céu e a terra, envolvendo-se até em compromissos falsos. As garotas eram levadas para fora do país, perdiam a virgindade, apenas para depois enriquecer o patrão.
O pai não tinha culpa em negar a aproximação da filha com o rapaz. Ele apenas zelava pela reputação dela, sabendo que casos assim, quando ligados à máfia, muitas vezes terminavam em morte como vingança do traído. O velho Tarantino não poderia permitir que todo o império que construíra fosse destruído. Fiorella era demasiadamente tola, mas Eliane sabia como oferecer mais segurança ao pai. Esperta demais, ela agia sempre com razão e protegia os membros da família. Fiorella talvez pudesse formar uma união com algum nome forte entre os Tarantino, mas Eliane garantiria que a fortuna e o legado fossem perpetuados.
Pasini apontou pela janela para a esposa, indicando o estabelecimento onde deveriam ir.
— Não quero conversar. — Eliane ignorou o novo restaurante que o marido apontava.
— Ainda pensativa sobre o que foi discutido na reunião?
— E se for? — O chofer lançou um olhar discreto para a patroa através do retrovisor, sem que Eliane percebesse. — Tudo está errado em Monte dos Reis.
Pasini apertou a mão de Eliane, tentando transmitir conforto, mas ela rapidamente ignorou o gesto.
— O que você tem? — perguntou ele.
— Deixei a nossa filha com a sua mãe.
25
Lorenzo chegou rapidamente à mansão Trofeo, onde a esposa o recebeu adiantando que a visita estava aguardando na sala de estudo. Jamais esperava se reencontrar com Enrico; aliás, nos tempos em que Vincenzo ainda estava vivo, eles mantinham uma boa relação. Lorenzo costumava ceder alguns cassinos para os encontros dos amigos, e as noites eram reservadas apenas para os mais íntimos. Discutiam negócios, trocavam instruções e até conheciam os detalhes das atividades secretas de Enrico. Na máfia, havia de tudo. Lorenzo nunca foi muito apegado à fidelidade, tinha bastante conhecimento sobre mulheres, e Enrico se encaixou perfeitamente nesse círculo desde o início. Não foi por acaso que Caius apareceu com uma amante na cidade. Ele mantinha uma relação próxima com Lorenzo devido à hierarquia da Sociedade. Após assumir a liderança da família dos Marquese, Lorenzo revelou-se como um verdadeiro abutre interesseiro.
Apoiou o amigo ao saber do caso na cidade, incentivando-o a mimar a jovem e a demonstrar que era um provedor. Uma mulher jovem não resistia aos encantos de um homem mais velho, mas era crucial saber o momento certo de se afastar; o homem esperto deveria desaparecer primeiro. Caius sofreu, como já dizia a cunhada; ele foi um tolo. Ignorou o conselho do amigo e, empolgado com o amor proibido e ousado, acabou expondo o caso à esposa e, pior ainda, à víbora da cunhada. Lorenzo também não escapava das acusações de Eliane; ele sabia que, se estivesse presente em seus pensamentos, ela desejaria vê-lo morto. Ele provocava a mulher na mesma medida.
Com Fiorella, as coisas eram diferentes. Ela sabia conversar sem atacar de imediato, sendo uma mulher mais culta e reservada que dependia bastante do marido para se socializar. Lorenzo imaginou que a traição de Caius tinha uma justificativa, pois ele recebia da amante o que não tinha com a esposa. Fiorella era excessivamente tímida e provavelmente preferia um relacionamento discreto, ocupando-se mais de cuidar do marido em casa após suas viagens cansativas.
Após a traição do marido, a relação com Lorenzo mudou drasticamente. Fiorella evitava qualquer troca de palavras e mal olhava nos olhos dele, o que fez com que Lorenzo passasse a desconfiar de Eliane. Esta, por sua vez, sem hesitar, colocou veneno na cabeça da irmã, que não tardou a expressar sua desaprovação. Embora Eliane falasse mal da irmã, secretamente protegia o nome dela após a traição. Chegou até a planejar um sequestro e um espancamento do cunhado como prova de lealdade à irmã, mas nunca concretizou o plano devido ao seu coração sensível.
Enrico não estava a par da confusão recente. Ele deixou Monte dos Reis antes de Caius assumir o comando da máfia, embora ainda estivesse na cidade quando Vincenzo faleceu. Eram tempos que Enrico preferia evitar lembrar. Lorenzo imaginava que a conversa seria breve, pois os assuntos costumavam se estender quando Enrico morava na cidade.
Lorenzo entrou na sala e viu Enrico de costas na poltrona. Era evidente que ele não era mais o mesmo homem. Enrico mal conseguiu apertar a mão do conhecido e só se sentou após receber a ordem de Lorenzo.
— Pensei que te encontraria mais irreconhecível — disse Lorenzo, estimulando Enrico antes de entrar no assunto. — O que fez você vir tão cedo atrás de mim? Não é saudade de Monte dos Reis.
— Preciso saber como ficará a situação da minha filha.
Lorenzo remexeu na tampa da caneta sobre a escrivaninha, procurando uma resposta adequada.
— Só depende de Deus para que ela apareça. — Percebendo que Enrico estava prestes a responder, Lorenzo adiantou-se, com mais ímpeto na voz. — Eu já fiz o que tinha que fazer, deixei que o rapaz fosse atrás dela.
— E isso é o suficiente? Saber que uma família foi destruída é o suficiente para você?
— Pelo que eu sei, só moram você e ela. Nem chega a ser uma família de verdade.
Enrico passou a mão pela barba, pelo queixo, sem saber o que dizer a princípio.
— O que você foi fazer na Fortaleza de Prata? — Enrico perguntou diretamente, sem rodeios. — Falou da minha filha?
Lorenzo tentou disfarçar com uma resposta curta:
— Nem todos estavam presentes. Apenas expliquei o ocorrido aos que já sabiam.
— Você é sempre assim — Enrico comentou, a voz começando a se elevar.
— Não tenho culpa se você enganou a garota a vida inteira — Lorenzo retrucou, com um tom de frieza.
— Nada disso teria acontecido se você não tivesse insistido — Enrico replicou, sentindo o coração palpitar.
Ele respirou fundo, percebendo que a má índole da cidade estava em todo lugar. Não guardaria rancor, especialmente por causa de Lorenzo.
— Quero a minha filha de volta — Enrico exigiu, a voz firme.
— Agora que você se converteu, deveria rezar mais. Quem sabe o céu resolve atender seu pedido antes do que espera — disse Lorenzo, deixando transparecer o sarcasmo na voz.
— Quero falar com Caius — Enrico disse, tentando manter a calma. — Prefiro resolver isso diretamente com ele.
Lorenzo riu baixinho, balançando a cabeça.
— Caius não está disponível para conversas agora. Mas se estivesse, duvido que as suas palavras mudariam alguma coisa.
— Isso quem decide é ele, não você — Enrico retrucou, firme. — Começo a achar estranho que você esteja tão relutante em me deixar resolver isso diretamente com ele.
Lorenzo estreitou os olhos, mas manteve o tom casual.
— Não há nada de estranho nisso. Só estou poupando o tempo de todos. Caius tem coisas mais importantes para tratar do que revirar o passado com você. — Lorenzo disse, cruzando os braços. — Aliás, foi ele quem me encarregou de procurar o herdeiro.
— O que ele encarregou a você a fazer não me interessa, mas sobre a minha filha, eu já avisei — Enrico respondeu, com uma firmeza crescente.
Lorenzo não disfarçou a rigidez no rosto, enquanto via Enrico se levantar da poltrona, ainda o encarando intensamente.
— Está me ameaçando? — Lorenzo provocou, com um sorriso cínico.
Enrico não se intimidou e decidiu deixar o aviso ainda mais claro.
— Não é uma ameaça. Apenas informo que Ettore não vai mais trabalhar para você. Ele não foi recrutado para lhe fazer favores. Confio mais nele para encontrar a minha filha.
26
Ligaram para Ettore da catedral. As informações eram vagas, mas mencionaram que avistaram alguém que correspondia à descrição da garota que ele procurava e que ele havia descrito na noite anterior. Sem perder tempo, Ettore se apressou em ir à catedral, sem avisar a Enrico, que estava ocupado e havia saído cedo naquela manhã.
Ao chegar, seus olhos foram atraídos por uma jovem sentada em um dos bancos dos fundos da igreja. Ela parecia abatida, com a cabeça apoiada no encosto do banco à sua frente. Os longos cabelos lisos e escuros caíam sobre seus ombros, e uma franja reta escondia parte de seu rosto, dificultando a identificação imediata. O vestido branco que ela usava, coberto de pequenas flores, chegava até os joelhos, sugerindo uma simplicidade e recato típicos de alguém criado sob rígida proteção familiar.
Sentindo a urgência da situação, Ettore deu meia-volta e saiu da igreja discretamente, evitando chamar atenção. Assim que cruzou as portas da catedral, puxou o telefone do bolso e discou rapidamente, sabendo que precisava informar a Enrico o mais rápido possível.
Ettore percebeu que Enrico não estava muito bem ao atender o telefone.
— Estou voltando para a cidade. O que aconteceu?
— Recebi uma ligação da catedral e vim pra cá. Você se lembra qual roupa sua filha estava usando?
Ettore retornou ao interior da igreja e espiou a garota novamente, enquanto escutava atentamente o que Enrico dizia. Após desligar o telefone, ele decidiu que não poderia esperar mais. Com passos firmes e controlados, aproximou-se da jovem. Sentando-se no banco ao seu lado, Ettore procurou se posicionar de maneira a não a assustar. Ele a observou com atenção, notando cada detalhe que confirmava suas suspeitas.
— Você sempre gosta de lugares silenciosos?
A jovem levantou a cabeça lentamente, surpresa e desconfiada ao ouvir a voz. Ettore a observou, esperando que ela percebesse o interesse genuíno em sua voz.
— Tem gente que ainda espera te ver em casa — ele disse com suavidade.
Ela desviou os olhos, inquieta, como se tentasse esconder o peso dessas palavras. Antes que pudesse responder, Ettore continuou:
— Eu sei que você correu de mim no jardim.
Ela o encarou, surpresa. A memória da fuga parecia clara na mente dela, e a menção disso a fez sentir-se exposta. Ettore, percebendo a reação, não recuou.
— Ele te mandou vir atrás de mim? — A voz dela era firme, mas havia um leve tremor que Ettore notou.
— Me pediu pra eu te levar para casa — ele respondeu, tentando manter o tom suave.
Ela hesitou por um momento, e então, com um olhar perdido, murmurou:
— Eu não tenho casa.
O silêncio que seguiu parecia se arrastar por uma eternidade, enquanto os olhos de Gigi se perdiam em um ponto distante, como se buscassem algo que não podiam encontrar.
— Eu não sei o que aconteceu entre vocês — Ettore começou com calma, mantendo um tom neutro e respeitoso. — Mas se você tem algum problema com ele, seria melhor resolver diretamente com ele.
Gigi manteve a cabeça baixa, a expressão indecifrável. Quando Ettore fez sua sugestão, ela apenas murmurou sem levantar os olhos.
— Não há espaço para resolver nada.
Ettore a observou atentamente e, com um tom ponderado, fez uma pergunta que parecia refletir a complexidade da situação.
— Fugir de casa é realmente a melhor solução? Não há uma maneira de enfrentar o que está acontecendo? Ele pode não ser a melhor pessoa, mas é a única em quem alguém pode realmente contar.
Ettore sabia que devia muito a Enrico. Ele deixou de viver na rua após receber ajuda dele. No início, no entanto, mal suportava a presença de Enrico. Aceitou a comida por falta de opção e devido ao desconforto no estômago.
Enrico costumava fazer algumas obras de caridade pela cidade. Certa vez, encontrou Ettore em um beco com outros desabrigados e ofereceu-lhes comida e a palavra de Deus. Ettore ignorou a mensagem religiosa e devorou o sanduíche. Enrico aproveitou o momento de saciedade do jovem para conversar com ele. Ettore não queria voltar para a casa da avó, pois os tios não o aceitavam, restando-lhe apenas a vida nas ruas. Enrico não insistiu em mudar a opinião do rapaz sobre os parentes.
Soubera que Caius estava precisando de alguém para cuidar dos assuntos dos Marquese. Caius ligou para Enrico, buscando alguém de confiança, já que ele havia sido muito amigo de Vincenzo e tinha grande apreço pela família. Enrico indicou Ettore, levou-o para a mansão, onde ele se arrumou e tomou um banho antes de partir para Monte dos Reis. Mesmo sem nenhum membro ativo na cidade, Ettore permaneceu até hoje cuidando da família Marquese.
A moça não disse nada. Escondeu o rosto atrás das mechas de cabelo, esforçando-se para não revelar o fungar do nariz.
— Você deveria se esforçar para ver que ele é realmente diferente do que você pensa. — Ettore fez uma pausa, observando o impacto de suas palavras. Seu olhar era sério, mas carregado de compreensão. Ele sabia que mudar a perspectiva de alguém não era fácil, especialmente quando as emoções estavam à flor da pele.
Gigi continuou com a cabeça abaixada, sem levantar o olhar para Ettore. Suas palavras saíram como um sussurro, carregadas de um desânimo silencioso.
— Eu não quero falar com ele.
— Não precisa ser hoje, nem amanhã, mas quando você estiver pronta.
Enrico ainda não havia chegado em Pormadre quando Ettore chegou primeiro à mansão. A jovem, cansada e emocionalmente exausta, subiu diretamente para o quarto, sem trocar uma palavra com Ettore. O rapaz conversou brevemente com o mordomo, explorou os cômodos iniciais da mansão e esperou pacientemente. O som da buzina do carro anunciou a chegada de Enrico.
Assim que Enrico entrou, atravessou o átrio com passos apressados para encontrar Ettore.
— Onde ela está? — perguntou Enrico, a preocupação evidente em sua voz.
— No quarto. Acho que ela não vai querer conversar com você hoje — respondeu Ettore, tentando manter a calma.
— Estive em Monte dos Reis — Enrico revelou, seu tom revelando uma carga de frustração.
Enrico pediu a Ettore que permanecesse um pouco mais e explicou que detalharia tudo após o jantar. Ele também solicitou que a refeição de Gigi fosse servida no quarto, onde ela permanecia trancada.
— Disse a Lorenzo que você não trabalhava mais para ele — Enrico mencionou, sua voz traindo um tom de indignação.
Ettore largou a taça na mesa, sentindo a tensão aumentar, especialmente ao considerar que Lorenzo pudesse atribuir a decisão a ele.
— Você não foi para Monte dos Reis para obedecer aos Valentini. Caius te deu uma obrigação — Enrico respondeu, tentando esclarecer a situação.
— Ele vai realmente levar isso a sério, mesmo que você não seja um Rosa Azul? — questionou Ettore, com uma ponta de ceticismo.
— Lorenzo está mandando demais em Monte dos Reis.
Enrico largou os talheres no prato, seu silêncio respondendo mais do que qualquer palavra poderia. Ettore, percebendo a intensidade da situação, interrompeu a refeição e seguiu Enrico até a sala.
— Não estou entendendo o que está acontecendo — Ettore falou, sua voz carregada de confusão e inquietação.
— Não está acontecendo nada — Enrico garantiu, mas a seriedade em seu olhar indicava o contrário. Ele se voltou para Ettore e fez um pedido firme e carregado de significado pessoal. — Se ela decidir ir para Monte dos Reis, apenas me prometa que vai me informar tudo sobre ela.
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