Legado De Poder
4 19—21
19
Era apenas um segredo que Giane havia ouvido na noite anterior. Quando a empregada retornou, percebeu que não era nada de muito importante, mas ainda associou os sussurros na sala de estudo a uma conversa de Enrico. Entendeu que era um pedido para a santa sobre alguém, mas não conseguiu ouvir claramente devido à voz fanhosa e à oração falhada. Enrico era um pai muito sensível, que podia chorar com frequência por qualquer coisa que lhe provocasse pena; era um homem bastante envolvido com os sentimentos. Talvez Enrico ainda estivesse ressentido pelo que ocorreu na noite passada, já que ela não o havia visto na sala de estudo. Após as orações matinais, costumava ocupar-se na sala, jogando xadrez com sua “dupla invisível”, folheando livros e contemplando o sol pela janela. Movimentava-se para cima e para baixo, usando isso como um exercício físico, mas, no fim das contas, passava o dia ocioso dentro de casa. Era difícil para ele fazer amigos, e Giane era igualmente reservada.
Ela costumava ler um livro pela manhã e descia mais cedo para verificar a disposição da sala de estudo, deixando a porta entreaberta para que Enrico soubesse que o local já estava em uso. Isso era sempre assim, sem interrupções. Às vezes, através da fresta, via alguém passando, mas ninguém parava para bater na porta e pedir para compartilhar o cômodo. Giane interrompeu a leitura quando ouviu uma batida na porta.
— Posso entrar?
Era comum Enrico pedir permissão para entrar nos cômodos da própria casa. Tinha a convicção de que poderia ganhar um pouco de consideração da filha mostrando respeito e não impondo ordens. Nem foi necessário responder com um sim ou um não; ele já estava escolhendo um assento no braço do sofá chesterfield.
— Preciso conversar com você.
Provavelmente era algo sério. Giane notou a timidez de Enrico quando ele começou a esfregar as palmas das mãos e apalpar os dedos, um comportamento típico quando o assunto envolvia a garota.
Enquanto marcava a página com os dedos, ela observou sua cabeça se inclinando, como se ele tivesse desistido de falar de imediato.
— Se lembra quando eu falei da sua mãe?
Enrico olhou para a garota, raspando a unha na capa do livro.
— Faz tempo.
Foi difícil para ele compreender a voz baixa e quase desanimada da filha. Apertou as mãos com indecisão, tentando começar pelo mais simples.
— Eu nunca fui casado com ela.
Enrico não teve coragem de encarar a garota nos olhos e manteve a cabeça baixa, demonstrando arrependimento. Da mesma forma, Giane não levantou o rosto, escondendo-o por trás das madeixas escuras que caíam de um lado do ombro.
— Eu nunca tive a chance de conhecer bem a sua mãe.
Enrico conseguia perceber quando a garota tentava disfarçar o choro, mesmo ao esconder-se por trás das mechas. Era um hábito que ela tinha desde criança.
— Também nunca tive uma vida muito certa.
Ele pareceu indeciso ao ver a garota mexendo o braço, enquanto ela fechava completamente o livro, passando a palma no rosto. Enrico abaixou a cabeça, cedendo novamente ao receio; não tinha como continuar com o engano. Não seria justo fazer a garota chorar sem motivo.
Apertou as mãos com firmeza, buscando transmitir maior convicção.
— Eu não queria perder você, mas é necessário te dizer a verdade.
A verdade seria o melhor para todos. Não haveria necessidade de enganar sobre o passado – a mãe desconhecida, o pai falecido e Enrico, que era parte de uma máfia. Enrico sabia que dizer a verdade significaria ser perdoado, também pela santa. Era um ato de redenção para si mesmo, pois, por tanto tempo, iludiu uma inocente, fazendo-se passar por pai, embora nunca estivesse verdadeiramente presente. No início da fé, foi assim: a carne, ainda acostumada à cobiça de Monte dos Reis, falhava constantemente. Difícil ouvir um sermão quando a mente está relembrando das fraquezas. Nunca fora realmente um homem correto, apesar da boa conduta demonstrada, dos bons modos e da aparência impecável daqueles tempos — que ainda permaneciam apesar do semblante mais humilde e barato. Fraquejou muito ao considerar voltar para Monte dos Reis, deixar a menina de vez na catedral e esquecer o acordo com o amigo. Os efeitos da conversão foram profundos; a vida de fé não era para qualquer um, exigia renúncia aos pecados e às mentiras, que Enrico jamais poderia renegar. Pelo contrário, ele precisava da mentira para viver, precisava ser conivente com o pecado por causa do amigo. Isso não era salvação.
Perdeu o contato com a menina muito cedo, embora desde os primeiros meses já demonstrasse ser descuidado. Sempre arrumava alguém para alimentá-la, acalentá-la e fazer o que fosse preciso para acalmá-la quando chorava. Nunca pensou em ter filhos e sabia como enganar bem aqueles que o questionavam sobre uma família, inventando rapidamente que o trauma da traição do pai foi a causa de sua aversão à paternidade. A menina cresceu considerando os outros como pai e mãe; contava tudo o que precisava a um e a outro. O pai nunca foi capaz de ouvi-la, e, na verdade, nunca a amou de verdade.
Enrico bem que suspeitou dos pensamentos da garota e tentou se aproximar de forma inútil, recebendo apenas sua frieza. Não era mais o mesmo homem; sabia reconhecer que nunca tinha feito nada para conquistar a admiração da garota, nem mesmo fora um bom pai. A redenção não o livrou das consequências. E pouco o livraria deste momento; Deus era justo também com os que tinham sido pequeninos.
Não demorou para Enrico voltar ao silêncio, abaixando a cabeça, sem ter mais o que dizer na sala vazia.
20
Em conformidade com as ordens de Lorenzo, Ettore partiu cedo em direção ao monte Maravista. O local recebeu esse nome devido à beleza da encosta banhada pelo mar cristalino. Era uma área movimentada, frequentada por pescadores e turistas, mas isso apenas nos bons tempos. Tudo mudou quando os Rosa Azul começaram a utilizar o monte para suas reuniões, erguendo um castelo na encosta, o qual se tornou o local dos frequentes encontros da Sociedade.
Conforme as informações divulgadas na cidade, a máfia de Monte dos Reis era única. As investigações revelaram que alguns dos membros capturados tinham ligações entre si. A mídia passou a se referir à máfia como Sociedade, embora ainda não conhecesse seu verdadeiro nome. Ao conhecerem o nome atribuído à máfia pela cidade, os Rosa Azul decidiram adotá-lo entre si.
Rocca d’Argento, mais conhecida como Fortaleza de Prata, justificava o nome com as reuniões frequentes durante a noite. A lua se erguia sobre o monte, brilhante e prateada, uma posse dos Rosa Azul. Mas não era apenas a luz da lua que decorava a Fortaleza de Prata. À primeira vista, durante o dia, parecia uma construção clássica, com guarda-corpos de ferro fundido e toldos fixos sobre as janelas. A escadaria se dividia em três, levando ao pátio elevado da entrada, adornado por enormes vasos com buxos. Nos jardins, buxos e azaleias formavam círculos e espirais, iluminados à noite pelos balizadores, criando uma atmosfera encantadora.
Encostado na balaustrada, Ettore avistou alguém se aproximando antes mesmo de alcançar o pátio. Já conhecia o rapaz e não gostava dele. Kadu era o informante de Eliane, conhecido por todos, mas raramente confiado para tarefas importantes. Ettore não disfarçou o desagrado ao vê-lo.
— O que está fazendo aqui?
— O mesmo que você. Recebi ordens.
Não era difícil perceber que Kadu estava ali a mando de Eliane. O rapaz, sempre astuto, mantinha uma aparência simpática de propósito, tentando ganhar a confiança de todos, mas Ettore não se deixava enganar. Ele preferia a franqueza à falsa mansidão.
— Eu tenho uma patroa ciumenta. — A boca larga e sorridente do rapaz incomodou Ettore.
— Tem ciúmes mais pelo dinheiro. Acho que a maioria se enganou sobre quem é realmente o diabo de Monte dos Reis.
Ettore se afastou da balaustrada ao sentir o tremor no bolso. Ao atender a ligação, percebeu que algo havia acontecido em Pormadre.
21
Foi o mordomo quem avisou sobre a saída da garota. Ele não forneceu muitos detalhes, apenas mencionou que ela tinha a intenção de ir para algum lugar. Conhecia muito pouco a cidade e geralmente saía apenas acompanhada. Nas poucas vezes em que saía de carro, notava que as ruas do bairro estavam vazias, com muitos casarões aparentemente abandonados há algum tempo. No entanto, a peculiaridade do lugar era compensada pelo aroma das laranjeiras e limoeiros que adornavam a rua. Frutos maduros às vezes caíam dos galhos, descendo pela ladeira, enquanto as folhas se acumulavam para serem queimadas no final da tarde. Era um bairro simples, com ruas estreitas e uma convivência tranquila.
Parecia ser um bom lugar para a menina; inicialmente, aparentava ser apenas um bairro com poucos moradores, mas Enrico não confiava nas ruelas, imaginando quem poderia estar à espreita naquele momento.
— Isso é culpa sua — disse Enrico, finalmente conseguindo falar com Lorenzo depois de muita insistência na ligação. — Se algo acontecer com ela...
— Vai usar a palavra de Deus contra mim? — interrompeu Lorenzo.
Enrico mordeu a língua, percebendo o peso de suas palavras. Um convertido não fazia justiça com as próprias mãos; ele esperava pelo tempo de Deus.
— Já foram procurar sua filha. Pense melhor antes de falar; Monte dos Reis ainda precisa dela.
Debater com Lorenzo não seria produtivo, especialmente com o tom da conversa se tornando cada vez mais agressivo. Enrico optou por encerrar a ligação abruptamente, sem se despedir. Sem perder tempo, ele ligou para Ettore, que decidiu seguir direto para a cidade. Antes disso, Enrico lhe forneceu a localização da catedral, onde suspeitavam que a moça pudesse estar escondida.
Desde a entrada, Ettore sentiu um calafrio subir pela espinha; afinal, um homem como ele não se sentia à vontade em um lugar tão cheio de fé. Ao se aproximar do altar, o desconforto aumentou com as imagens no teto, onde o céu ilustrado parecia excessivamente ornamentado com detalhes de ouro fino. O aroma do sândalo, carregado pelo incensário, misturava-se com o ambiente, enquanto a caldeirinha da água benta e os candelabros próximos à cruz da procissão completavam a cena.
O rapaz não pôde evitar rir ao imaginar Enrico no meio de uma procissão, prestando homenagens à Virgem Maria e erguendo uma vela nas mãos. Era o tipo de coisa que Enrico faria, e ainda tentaria convencer os outros a seguirem seu exemplo. Ele estava sempre tentando converter Ettore, falando incessantemente sobre a Bíblia, recitando versículos com fervor, e até se humilhando para que o rapaz acreditasse em Deus. Ettore, no entanto, nunca levava essas conversas a sério, embora prestasse atenção por respeito. Sabia que Enrico não tinha muitos amigos e, quando encontrava alguém disposto a conversar, revelava o bom coração que tinha.
Dava para perceber que Enrico era uma pessoa diferente daquela que o rapaz conhecera; Deus e a santa eram as coisas mais sagradas para ele. Mas onde estava o Deus bom de Enrico quando ele havia ficado desamparado? Ettore descobriu o significado de família de forma caótica: nunca conheceu o pai e quase sempre evitava falar sobre a mãe. A dúvida sobre sua paternidade pairava sobre sua vida. Mais tarde, soube que a família do pai desprezava sua mãe e insinuava que Ettore fosse filho de outro homem.
A situação, no entanto, era diferente do caso de Vincenzo. O pai de Ettore, pertencente a uma família religiosa, estava noivo quando se envolveu com sua mãe. Ele a enganou, ocultando seu estado civil e o fato de frequentar uma igreja. A gravidez complicou tudo. O pai de Ettore negou a paternidade, apoiando as acusações de sua família. Ofereceu dinheiro, mesmo sem condições, para evitar um escândalo com a família da noiva. Quando não conseguiram chegar a um acordo, a família do pai pressionou com ameaças por um longo tempo.
A avó foi a principal presença na vida de Ettore. Sua mãe, tendo arrumado um trabalho distante, aparecia apenas nos finais de semana. Com o tempo, essas visitas se tornaram menos frequentes, e a avó começou a suspeitar de um novo relacionamento. A verdade era que o homem em questão tinha recursos financeiros, e, com medo de perdê-lo, a mãe de Ettore ocultou a existência do filho. Mesmo assim, ela dizia que qualquer dinheiro que conseguisse seria para o garoto.
Quando cresceu, Ettore compreendeu a rejeição da mãe e começou a dar razão à família de seu pai, que considerava sua mãe sem valor. Ela havia preferido trocar o filho por alguém que mal conhecia. Pressionado pelos tios, que não aceitavam que a avó cuidasse dele, Ettore resolveu sair de casa o mais rápido possível. Em uma viagem ao Paraguai, arrumou uma namorada e a trouxe para a Itália, onde alugou um sobrado. No entanto, a relação não durou muito.
Após perder o emprego, Ettore acabou vivendo na rua, até que recebeu a ajuda de Enrico. Eventualmente, ele decidiu ir embora de vez para Monte dos Reis.
Acreditar em Deus era, para ele, como usar uma muleta—algo que os fracos precisavam para justificar sua inércia e falta de vontade de agir. Qualquer um poderia se considerar Deus, na visão dele.
Depois de sair da catedral, o rapaz fez outra ligação para Enrico.
— Ela não está aqui.
— Volte à noite, vai ter a festa de quermesse.
De fato, haveria uma festa na cidade. Bandeirinhas coloridas se estendiam até os dois rios principais, e balões vermelhos, pendurados nas pontes, subiam ao céu quando soltos. Barracas temáticas estavam dispostas ao longo das ruas, enquanto mesas de piquenique decoradas com regadores cheios de orquídeas, girassóis, e lavandas contribuíam para o ambiente. Luzes de corda, além dos postes de iluminação simples, envoltos em fitas, criavam uma atmosfera festiva.
Ettore duvidava que conseguiria reconhecer a garota no meio da multidão. Ele voltou à praça à noite, onde a festa já estava lotada. Ficou ao lado de uma pipoqueira, observando as pessoas ao redor.
— Não faz sentido ela estar por aqui — murmurou para si mesmo.
Ettore se afastou da pipoqueira para ouvir melhor o que Enrico estava dizendo pelo telefone, tapando um ouvido ao perceber o estalar dos fogos.
— Volte para a ponte — disse Enrico.
— Ela sabe onde fica a ponte?
— Passávamos por lá depois da missa.
Ninguém se parecia com a garota que Ettore havia visto correndo no jardim, nem na praça, nem na ponte. Ele retornou à catedral, que agora estava ainda mais cheia de fiéis, mas mesmo assim não a encontrou. Contornou a parte de trás da catedral e permaneceu por um tempo nas escadarias, até que o celular vibrou, tirando-o dos pensamentos.
— Não a encontrei. Vou falar com alguém da igreja e pedir que, caso encontrem alguma menina perdida procurando abrigo, entrem em contato comigo.
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