Legado De Poder
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14
Parece que o desaparecimento da criança estava de acordo com o plano de Vincenzo. Ao saber que seu amigo se aposentaria da máfia, Vincenzo escolheu a única solução disponível: entregar o bebê para que Enrico procurasse uma família adequada. Enrico até tentou encontrar um lar para a menina, considerando os serviços de adoção da igreja. No entanto, deixar a criança viver apenas com doações não parecia ser uma opção honesta, dada a grande estima por Vincenzo. Profundamente tocado, Enrico começou a sentir um chamado à redenção, o que o levou a considerar cuidar da criança. Optou por deixar Monte dos Reis e preservar o segredo do amigo, iniciando uma nova vida em Pormadre.
Ettore parecia não estar totalmente convencido da história explicada por Enrico, que era questionável em conversas sérias, especialmente quando se tratava de Vincenzo. Ele já tinha ouvido falar do capô dos Marquese algumas vezes. Vincenzo tinha uma paixão peculiar pelo jazz tocado na cidade e dizia que o jazz lá era divertido. Foi numa noite animada que Vincenzo acabou conhecendo a mãe de Gigi.
Embora observadores notassem que Vincenzo, apesar de seus olhos verde oliva, raramente demonstrava furor, ele era um homem pacífico, habilidoso em conversas e dedicado ao constante treinamento do raciocínio; um lobo em pele de cordeiro.
Retomando o foco na estrada, Ettore seguiu de volta a Monte dos Reis, sentindo-se mais indeciso e incomodado. Considerava desnecessário manter segredos sobre quem havia falecido. Enrico não estava revelando toda a verdade, e alguns já sabiam sobre a criança bastarda de Vincenzo. Além disso, o acordo exclusivo com Enrico para a criança, que muitos já conheciam, não parecia muito convincente.
Deliberadamente, parou junto à ponte, enquanto o carro atrás o ultrapassava, emitindo apitos irritados. Descobrir a verdade por trás do segredo de Vincenzo seria uma tarefa desafiadora.
15
Enquanto isso, Eliane rapidamente retornou à mansão dos Messina. Villa Serenità estava posicionada em um relevo gramado, ao longo do caminho do Planalto das Bambinas, o monte arejado reservado para as reuniões das senhoras importantes dos Rosa Azul. A mansão, conhecida pelos labirintos de arbustos e pelos imensos jardins de tulipas, era anteriormente apenas o lar dos Messina.
No início, a herança do Palácio Aurora, antiga residência dos Tarantino, causou discórdia entre as duas irmãs. Após a perda do pai devido a uma doença respiratória, Eliane considerou vender a mansão devido à sua parte maior na herança. Aproveitando-se da posição de Pasini na máfia, a residência foi penhorada, apesar dos protestos inúteis da irmã. Fiorella tentou persuadir Caius a competir pela mansão, mas a influência limitada do marido na Sociedade não teve peso. No final, o Palácio Aurora contribuiu para o aumento da fortuna dos Messina, e Eliane se mudou para Villa Serenità, deixando a irmã na miséria.
Ao longo dos anos, as personalidades se inverteram. Fiorella, que costumava ser a dor de cabeça do pai, envolvia-se em namoricos e mostrava-se tola demais. Eliane, ao contrário, era mais culta e reservada, necessitando dos incentivos do pai para considerar um casamento. Não conversava muito, o que levou o pai a apostar mais em Fiorella para se casar primeiro. Fiorella destacava-se como a filha favorita do senhor Tarantino e era vista como a solução para a união dos Tarantino com outro clã influente. Vincenzo chegou a ser idealizado como pretendente, mas Fiorella acabou se interessando por Caius, um candidato que o pai não aprovou. Caius era mais ativo na cidade normal, morando com a mãe, e o velho Tarantino não ficou satisfeito com a escolha.
Descontente com a escolha da caçula, Eliane finalmente despertou uma paixão. Ela encontrou um pretendente mais bem-sucedido do que o pobre coitado de sua irmã. O pai chegou a conhecer o rapaz, que era formado, rico e cheio de responsabilidades, embora também tivesse seus defeitos. No entanto, o pai não achou nenhum dos pretendentes ideal para ser genro. A situação entre as irmãs era difícil; Fiorella desaprovava as atitudes do pai, enquanto Eliane acreditava que a irmã poderia ser mais favorecida na aceitação dele.
Em uma reunião dos Rosa Azul, Fiorella se enfureceu com as conversas de Eliane com Vincenzo. Dançaram a valsa clássica a pedido de Vincenzo e nem trocaram de mesa após o fim da dança. O pai cogitou o novo genro, mas Eliane não tinha interesse em Vincenzo. Ela pensava ainda no rapaz indesejável para o pai, mas acabou escolhendo um noivo ideal para os gostos dele e deu uma chance para Pasini. O velho Tarantino ficou extremamente feliz, como se tivesse conquistado um prêmio de loteria.
Fiorella não se conformou com o casamento apressado da irmã e suspeitou de uma trama oculta de Pasini. A cerimônia foi realizada rapidamente em um dos palacetes de Vincenzo com poucos convidados, e o velho Tarantino se orgulhou da influência de uma de suas filhas casada com um capô; poucas conseguiam alcançar tão alto de primeira.
Fiorella também teve um casamento discreto, mas sem as mesmas honrarias. O velho Tarantino aceitou Caius facilmente na família, talvez influenciado pela piora da doença que exigia descanso. Após a morte do pai e a disputa pela posse da mansão, a morte de Vincenzo deixou brechas para o sucessor. Caius foi encontrado como o líder perfeito, transformando os Castelli nos novos donos do império. Fiorella se viu vencida pela irmã.
Ao avistar a empregada, Eliane compreendeu que a bandeja com os remédios e a xícara de água estavam sendo levados para o salão aberto, onde dividia espaço com a sogra, Rosalba, que sofria de Alzheimer. Comentários negativos sobre a relação entre Eliane e Rosalba eram comuns; Eliane parecia sempre planejar maneiras de se livrar da sogra, embora a tratasse bem na frente do marido.
Eliane entrou no salão e percebeu a recusa da sogra em tomar o remédio. A empregada descurvou as costas quando a patroa entrou, levantando a palma como um “basta”.
— Não vou mandar servir o seu chá da tarde — disse Eliane, apoiando-se um pouco nos ombros da sogra para alcançar-lhe o ouvido.
— Eu nunca tomei chá da tarde.
Percebendo mais um lapso da sogra, Eliane revirou os olhos, pegou a xícara com água e o comprimido no guardanapo. Enquanto a sogra questionava sobre a finalidade do remédio, o barulho na escada fez Eliane desdobrar os joelhos rapidamente.
Ela flagrou a menina pendurando uma perna no corrimão e forçou a voz grave para repreender. Pedrina, a filha mais nova do casal, com apenas seis anos, já sabia falar o básico do francês, ensinado pelo pai, e era uma boa ajudante na cozinha. Apesar de ser a preferida da mãe, Pedrina gostava mais de ficar com a tia Fiorella. Durante as visitas à tia, Pedrina era uma grande ajudante na cozinha, vestia aventais e soprava os excessos de farinha das formas. Passava um bom tempo com a tia e esperava um elogio do ‘homem bonito’ da tia.
Embora Fiorella nunca tenha desejado ter filhos, Caius achava bom que a sobrinha aparecesse, já que ele saía bastante de Monte dos Reis e Fiorella não tinha amigos na cidade. Eliane até permitia que a menina fosse cedida para a irmã. Pasini muitas vezes levava a filha quando ia às reuniões com Caius e só retornava no final da tarde para buscá-la. Após os desentendimentos entre as irmãs aumentarem, Eliane proibiu a filha de visitar a tia, criando uma ruptura entre os Tarantino.
A menina, agora mais em casa, começou a perturbar constantemente o juízo da mãe. Eliane frequentemente usava palavras desagradáveis para repreender a menina.
— Ela tá doente?
A menina observou Eliane passando a xícara de água para a avó. Pegou o chapéu matinê da mesa e rodopiou o acessório entre as mãos. Eliane encontrou outra razão para se expressar.
— Estou sentindo falta de Pasini.
Na primeira vista para os jardins de tulipas, Eliane encontrou o rapaz vagando de um lado para o outro. Acenou com a mão, fazendo-o se aproximar da escadaria.
Para se inteirar das informações, Eliane confiava em Kadu, o missionário que trabalhava particularmente para ela. Kadu acatava os comandos da patroa a todo instante e sabia informar sobre o que acontecia, quem entrava e saía da mansão. Jovem e bem vestido, Kadu esbanjava olhos de um azul elétrico e cabelos loiros ondulados nos ombros.
— Foi bem depois que ele saiu — informou Kadu, enquanto a patroa cruzava os braços e mantinha o olhar distante. — Ele ainda mencionou que recebeu uma ligação dos parentes dizendo que seu filho chegará hoje à noite.
16
Ninguém esperava que a chuva pudesse chegar mais cedo pela tarde em Pormadre. Da janela do quarto, Giane espiou a queda d’água, fechou a cortina e voltou a sentir as cócegas leves na palma fechada. Recolheu uma lagarta do jardim, pensando em deixá-la no viveiro da cômoda do quarto. Antes disso, hospedou uma barata d’água perto de outro viveiro na prateleira, que, por enquanto, estava ocupado por uma aranha lobo. Giane era fascinada por insetos desde a infância. Tinha o hábito de escavar solos, levantar pedras, afastar as minhocas com o toque dos dedos. No entanto, nutria um grande receio pelas formigas, que morriam à sua passagem; esse foi seu pior medo por muito tempo.
Enrico não comentava sobre os gostos da filha, acreditando que a relação entre eles melhoraria se ele permitisse que ela vivesse com mais liberdade. Dava tudo sem a garota pedir ou precisar, mostrando-se disponível de todas as formas, mas ela apenas reagia com mais acanhamento. Com frequência, ele acabava descobrindo coisas pelos próprios funcionários, como foi o caso da aranha lobo. A menina estava conversando com o jardineiro, pedindo que reservasse o inseto caso o encontrasse. Enrico soube e deu a aranha de presente no dia do aniversário. Pelo menos não foi esquecido ou deixado de lado, como muitas das coisas dadas.
Não viviam um relacionamento bom; se era sufocante para a garota, para Enrico era ainda pior. Tentava se reaproximar da filha que nem era dele, enganando-a ainda mais; sabia que, no fundo, não estava sendo honesto e nem um pouco santo. Cada tentativa de aproximar-se dela parecia afundá-lo ainda mais em sua própria culpa. Ele sabia que estava apenas adiando o inevitável confronto com a verdade, e isso o deixava ainda mais amargurado. Nunca se viu explicando a verdade para a garota; sabia que seria incompetente demais caso chegasse a esse momento.
Enrico estava no salão de estudo quando respondeu ao telefone com um traço de raiva na voz.
— Não era o que você esperava.
Lorenzo permaneceu em silêncio durante a ligação, e então Enrico retomou a fala.
— Já pode esquecer esse assunto.
— Ela ainda pertence aos Marquese de qualquer forma. Precisando, vai ter que colaborar.
Enrico respirou fundo, sentindo a frustração subir.
— Eu já disse o que tinha a dizer. Ela não vai para Monte dos Reis.
— Isso não é algo que você decide. A Sociedade têm um acordo para ocultar a identidade de Caius. Alguém precisaria substituí-lo em Monte dos Reis durante o tempo em que a investigação ocorresse na cidade. — A voz de Lorenzo continuou sobressaindo à tentativa de resposta de Enrico.
— Eu quero falar com Caius. — Enrico interrompeu, sua voz firme.
— Caius não está na cidade.
— Então me passe o número dele. — Enrico insistiu, com a paciência se esgotando.
— Você sabe que não funciona assim. — Lorenzo respondeu, a voz carregada de cautela. — O paradeiro de Caius é confidencial. Mesmo para você.
— Confidencial? — Enrico elevou o tom, a raiva começando a transparecer. — Ele pediu para procurarem o filho de Vincenzo. E agora, a Sociedade precisa de alguém para substituí-lo. O que ele realmente pretende fazendo isso? Eu preciso saber!
— Caius tem seus motivos. Ele sabe o que está fazendo. Isso faz parte de um plano maior. — Lorenzo tentou apaziguar.
— Plano maior? — Enrico replicou com amargura. — Você realmente espera que eu confie cegamente nisso?
— É para o bem de todos. — Lorenzo insistiu. — Não adianta ir atrás de Caius. Ele tem tudo sob controle, e logo você entenderá.
Enrico apertou os olhos, sentindo a frustração crescer.
— Isso tudo afeta a mim e à minha família diretamente.
— Lembre-se de que a “família” que você menciona não é realmente a sua. A filha em questão é de Vincenzo, não sua.
— Não se trata apenas de quem ela é biologicamente. Há uma diferença entre ser pai e apenas ter um vínculo sanguíneo. Eu tenho um dever com ela, e isso vai além da minha conexão com Vincenzo.
Enrico, cada vez mais indignado, manifestou sua frustração com intensidade. Ele enfatizou que, se Caius estava arriscando tudo para trazer a filha de Vincenzo para Monte dos Reis, ele precisava entender o verdadeiro motivo e as implicações disso para todos. Enrico considerou a situação absurda, observando que Caius estava agindo com desrespeito e ignorando o impacto que isso teria na vida da filha de Vincenzo. Para ele, Caius estava tratando o caso como se não houvesse consequências pessoais, desconsiderando o efeito real sobre a jovem. Enrico deixou claro que a situação não podia continuar assim e que ele precisava saber exatamente o que estava acontecendo.
— Ninguém disse que a vinda da garota para Monte dos Reis significaria necessariamente afetá-la de forma negativa. — Lorenzo respondeu a Enrico com um tom que misturava desdém e indiferença. — A situação é complexa, mas não é nossa intenção causar danos diretos a ela.
— Então, os danos devem ser causados a mim, e não a ela. Se o que está em jogo é minha responsabilidade, então que seja. Mas não posso aceitar que minha filha seja usada como uma peça em um jogo de poder, enquanto eu sou deixado de fora das decisões que a afetam diretamente. Se os riscos são inevitáveis, então eu exijo ser parte da solução, não apenas do problema. — Enrico, visivelmente irritado, respondeu com veemência.
— Ninguém disse que precisa haver danos para qualquer um de vocês. Talvez você esteja se antecipando a problemas que nem sequer existem. Ou será que está com medo de que ela descubra alguma coisa em Monte dos Reis? Talvez, a verdade?
Enrico apertou o telefone com força, sentindo a tensão aumentar.
— Não é o medo de que ela descubra algo que me preocupa, mas sim o que vocês estão dispostos a fazer para que ela descubra.
Lorenzo soltou uma risada curta e fria do outro lado da linha.
— Você sempre foi dramático. — disse Lorenzo, interrompendo o que Enrico estava prestes a responder. — Se você está tão preocupado com a verdade, talvez seja mais simples contar a ela o que está acontecendo.
Enrico, frustrado, respondeu com um tom de raiva contida:
— Não é tão simples assim.
Lorenzo, com um tom de indiferença, respondeu:
— Ela vai acabar descobrindo a verdade de qualquer jeito.
Enrico, frustrado, sentia a raiva ferver sob a superfície. Ele sabia que Lorenzo estava certo em parte, mas a situação não era tão simples. A verdade, se revelada de maneira abrupta, poderia destruir tudo o que ele havia construído para proteger sua filha. Mais do que o peso das palavras, era o medo de vê-la desmoronar diante de uma realidade que ele sempre tentou esconder. Enrico temia profundamente que, ao descobrir toda a verdade, ela deixasse de vê-lo como pai, perdendo o pouco respeito que ainda tinha por ele, e isso era algo que ele não estava preparado para enfrentar.
— E já que estamos falando sobre dizer a verdade a garota, talvez seja prudente você começar a sugerir que ela saia da cidade por um tempo. Isso pode evitar que ela se aproxime demais de toda essa confusão. — Lorenzo completou.
Enrico apertou o punho, sentindo a raiva e a impotência se misturarem. Sabia que Lorenzo estava certo sobre a necessidade de substituir Caius, mas não podia aceitar. Não quando tudo o que ele mais queria era proteger Giane, mesmo que isso significasse continuar com suas mentiras.
17
Ao chegar em casa, Pasini foi sincero com Eliane sobre sua visita à mansão Trofeo, a pedido de Lorenzo. Resumiu a conversa com Ettore sobre o herdeiro de Vincenzo, mas o interesse de Eliane se aguçou quando ouviu o carro apitar na entrada da mansão. Ainda estava anoitecendo quando Gianluca, conhecido pelo apelido Luca, chegou. Ele se parecia mais com a mãe, herdando a altura e a pele clara dos Tarantino. Embora sua compleição lembrasse a da mãe, seus cabelos e olhos escuros vinham do pai. Entre suas muitas qualidades, destacavam-se o escotismo e a fluência em línguas. Luca aprendera espanhol sozinho, através de livros, além de falar bem francês, língua que o pai dominava.
Amava o ar livre e gostava de passar, de vez em quando, algum tempo na casa dos primos da família Messina. Eliane, por vezes, proibia essas visitas, tanto por Luca ser menor de idade quanto pela reputação duvidosa dos primos. Com apenas dezesseis anos, Luca já sonhava com o dia em que se libertaria das restrições impostas pela mãe.
Ao entrar no hall, Luca foi recebido pela poodle Nonna. Eliane, que não permitia a cadela dentro de casa, havia mandado construir um palacete com rampa na área externa, onde Nonna estava solta para receber a refeição.
— Luca voltou — anunciou Pedrina, correndo para avisar a avó no salão fechado. Luca mal teve tempo de evitar o beliscão da mãe na bochecha.
— Quero saber se você saiu da cidade escondido nesses três dias.
Pasini desceu as escadas, apalpando sua barriga volumosa, enquanto serviam amaretti na sala de estar do primeiro andar. Ele conversava com a esposa enquanto ajudavam Luca a levar as malas para o quarto. Pedrina subiu descalça logo atrás. Pasini se retirou, chamando a cadela para a área externa com um estalo dos dedos.
18
Do outro lado da cidade, parecia que a chuva havia cessado. Com a luz azul do abajur ao lado da cama, Giane observava a sombra da aranha se movendo dentro do viveiro na prateleira. Ela se afastou da cama ao ouvir uma batida na porta. Era hora do jantar, e Giane tinha a obrigação de se sentar à mesa, uma ordem imposta por Enrico, que exigia a reunião familiar durante as refeições.
Ela se aproximou da sala de jantar, unindo as mãos e prestando atenção ao som dos talheres, ao menos o tilintar deles. Não encontrou Enrico na mesa; o prato estava coberto com um tampão. Enrico não costumava se atrasar para as refeições; geralmente se sentava na extremidade da mesa como um patriarca.
Giane remexeu o prato antes que Enrico chegasse. Não percebeu imediatamente a sombra entrando na sala, sob a luz do lustre de cristal candelabro. Enrico gostava de harmonizar a decoração com um tom ocre mais suave. Ele apreciava decorações clássicas, mas também dava espaço para as preferências da filha. Recentemente, ele havia substituído alguns móveis da mansão por peças mais claras. As imagens e quadros dos santos permaneciam no hall da sala de jantar, enquanto o tapete longo havia sido trocado por um quadrado. Modernizou as luminárias, mantendo a luz suave e retirando as velas grossas do balcão. Mesmo sem visitas programadas, a mesa estava posta com um vaso transbordando de girassóis.
Para Giane, os pequenos ajustes não faziam diferença na escuridão da casa, na aparência envelhecida da mansão e em Enrico. Ela via a mansão mais como um cemitério, onde os dois habitantes pareciam mortos-vivos. Ela percebia que os esforços de Enrico para melhorar a relação não eram eficazes, parecendo uma tentativa covarde de resolver os problemas através dos desejos e interesses dela. Sentia-se uma prisioneira, com o “fiscal” a visitando na cela, desculpando-se de forma tola pelos esmurros que ainda persistiam no dia seguinte.
Giane notou que Enrico se acomodou na cadeira, recolhendo os talheres com má vontade. Ele escondia o rosto com uma das mãos e estava incomumente silencioso. Quando Giane terminou de comer, teve receio de sair da mesa antes de Enrico, temendo ser repreendida. No entanto, ele mal percebeu quando ela se afastou da mesa, ainda com uma mão cobrindo o rosto. Ele desprezou os talheres e colocou as mãos na cabeça ao ficar sozinho na sala de jantar. Giane ouviu um suspiro pesado e, ao ver que ele parecia não estar bem, decidiu sair rapidamente. Ela conseguiu alcançar o início da escada, onde Enrico a encontrou com um pé no degrau.
Foi uma interação simples de “boa noite”, mas Giane notou que os olhos dele estavam mais sensíveis, com os cílios inferiores levemente avermelhados. Ela espiou a curva que ele seguiu e imaginou que ele iria para a sala de estudo. Era incomum ele estar com marcas nos olhos. Giane pensou em chamar alguém para interrompê-lo.
Bateram na porta da sala de estudo, mas Enrico afirmou que estava tudo bem. Ele não queria conversar com ninguém e entrou no cômodo, desejando desabafar diante de uma das imagens da Virgem. Enrico sabia que, se Giane fosse para Monte dos Reis, ela acabaria descobrindo a verdade de qualquer forma. Por isso, sentia a necessidade de revelar a verdade para ela, mas lutava contra o medo e a vergonha de enfrentar essa realidade. Prostrando-se de joelhos, ele orava em voz alta, com as portas fechadas. Giane, que estava escondida atrás da porta, ouviu murmúrios abafados de Enrico para a santa.
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