Legado De Poder
28 134—140
Notas iniciais
134
Rumores sobre o desaparecimento da herdeira já se espalhavam por Monte dos Reis. Nicolas foi o primeiro a saber, através de Davide. Nicolas, então, havia ligado para informar Davide sobre a intenção de se reunir com alguns membros na Fortaleza de Prata. Ele já estava começando a entrar nesse mundo de responsabilidades e a se adaptar às regras do jogo. Davide acabou mencionando a filha de Vincenzo, que, por sinal, era parente de Nicolas. No entanto, este não fez comentários sobre a família durante a conversa. Não importava se ele tinha uma parente na cidade ou não; Nicolas sempre costumava manter o coração frio.
Mesmo assim, Nicolas perguntou mais sobre a garota. Davide começou a explicar o que tinha ouvido de Lorenzo, mas nem ele entendia por que a trouxeram para Monte dos Reis, já que ela não tinha consciência da organização. Nem sequer sabia quem era seu pai biológico. Davide detalhou tudo o que sabia, tentando preencher as lacunas.
Em certo momento, Nicolas chegou a questionar se a garota poderia ser um empecilho para ele. No entanto, com todas as revelações de Davide, acabou se conformando com a ideia de que ela não passava de uma garota sem muita importância. Parentes, para ele, costumavam ser irrelevantes, mas, de algum modo, ele ansiava que ela estivesse bem — e, principalmente, distante de Monte dos Reis. Para ele, bastava que houvesse apenas uma pessoa da família naquela cidade: ele mesmo.
Enquanto, para Nicolas, a distância da garota poderia ser um descanso, para Kadu era totalmente desesperador. Ele já estava se acostumando com a presença de Gigi na mansão de Eliane, mesmo que ele não fosse de vê-la muito. A simples ideia de não tê-la por perto deixava-o inquieto, e a ausência dela pesava mais a cada dia.
Ela tinha mencionado que ele poderia visitá-la na casa da mãe, e Kadu ainda se lembrava perfeitamente do caminho. Guardava esse segredo como uma carta na manga, mas sabia que não seria seguro visitá-la agora. Os últimos dias na mansão de Eliane estavam longe de serem tranquilos. Ele começou a ver Eliane com menos frequência, mas, mesmo assim, sentia que ela sempre estava sondando, observando à distância.
Kadu imaginou que naquela manhã o silêncio do pátio de trás da mansão poderia lhe trazer um pouco de paz. O vento soprava suave, e o sol iluminava as nuvens de forma quase mágica. Nos jardins, ninguém estava aparando o gramado ou verificando a irrigação automática das tulípas. Tudo parecia perfeito para evocar as lembranças de Gigi. Sem que ele se desse conta, um sorriso discreto surgia em seu rosto, enquanto o coração estremecia com uma paixão que ele não podia mais negar.
Perdido em seus próprios pensamentos, Kadu se manteve alheio a tudo ao redor, como se o ambiente ao seu redor desaparecesse, cedendo espaço apenas para as lembranças de Gigi. Ele não notou quando uma presença silenciosa se aproximou, movendo-se como uma sombra às suas costas. Apenas depois de alguns momentos, algo em seu instinto o fez perceber. Mesmo sem uma palavra pronunciada, Kadu percebeu a presença de Eliane.
Ultimamente, Eliane vinha agindo de maneira diferente, falando pouco com Kadu e evitando sua presença. Antes, ela o procurava com frequência, até mesmo para questões menores. Kadu se perguntava se a mudança estava relacionada à fuga de Gigi, mas não via motivos claros para isso. Se Eliane soubesse, ele teria sofrido as consequências imediatamente. Ele sabia que Eliane não tolerava traições e não deixava passar batido, agindo por impulso e com uma crueldade exacerbada quando tomada pela raiva.
Ele se virou e se afastou do parapeito. Foi então que percebeu um rapaz ao lado de Eliane. Consideravelmente mais jovem que Kadu, o rapaz tinha uma expressão fechada e séria, que indicava uma inclinação para o silêncio. Kadu observou-o com curiosidade, desviando o olhar ocasionalmente, e notou os trajes escuros que contrastavam com a sobriedade dele. A presença da patroa ao lado daquele jovem lhe parecia bastante estranha.
Kadu sentiu a presença de Eliane particularmente desagradável naquele momento. A forma como ela se aproximava, com o olhar completamente fixo nele, parecia sugerir que ela já sabia o que ele havia feito. Era como se ela pudesse ler seus pensamentos, lembrando-o do dia em que ajudou Gigi a sair da mansão. O silêncio dela parecia ser uma forma silenciosa de vingança.
Ele notou Eliane chamando-o mais uma vez. Com um gesto brusco, saiu de seus pensamentos e fez um esforço para aparentar que havia compreendido suas palavras.
— Kadu, você está me ouvindo? — perguntou Eliane, um pouco impaciente, com um resquício de dureza na voz mal disfarçada. — Eu queria te apresentar Stefano. Ele ficará encarregado de obter mais informações sobre Gigi.
Kadu olhou para o rapaz com um certo receio. Stefano, com seu cabelo escuro e franja, parecia ser mais um recrutado por Eliane para trabalhar com ela. Apesar de sua aparência jovem, ele já exibia feições que sugeriam uma considerável experiência.
— Eu espero que você se dê bem com ele. Ele também precisará passar algum tempo na mansão.
Kadu assistiu à maneira como Eliane terminou de falar, notando um leve desgosto em sua expressão. A forma como ela se dirigiu a ele transmitia uma tensão que Kadu não conseguia decifrar completamente, mas que, para ele, parecia estar profundamente ligada à saída de Gigi.
Tudo parecia estranho para ele. Por que Eliane recrutaria alguém para obter informações sobre Gigi? Afinal, ele sempre fora o seu missionário particular, capaz de cumprir essa tarefa sozinho, mesmo que fosse necessário mentir sobre o que sabia. Não compreendia por que agora alguém teria que dividir esse trabalho com ele. Além disso, a estranheza que Eliane demonstrava ultimamente em relação a ele o deixava perplexo, sem entender o motivo por trás de seu comportamento incomum.
Deixar-se dominar pelas emoções diante das situações sempre foi um ponto fraco para Kadu. Foi particularmente desconcertante para ele perceber Eliane se aproximando mais, com uma fúria disfarçada nos olhos. Era uma expressão que só alguém muito perspicaz saberia transmitir, e isso o fez sentir um frio na espinha.
— Você parecia ser muito amigo de Gigi. Não vê-la mais aqui deve estar sendo muito difícil para você.
Apenas um balançar de cabeça foi tudo o que Kadu conseguiu expressar. A gentileza forçada de Eliane o deixou cético; ela unia as mãos baixas, como se tentasse demonstrar uma piedade que claramente não possuía. O gesto parecia uma encenação, destoando completamente da verdadeira natureza dela.
— Você ficará sabendo quando Stefano souber de novidades.
135
Não havia nenhuma novidade para Ettore saber na mansão de Enrico; pelo contrário, ele já chegou lá imaginando que Enrico não estava muito bem. Enrico disse que foi o pai quem lhe deu a notícia sobre Gigi. Eliane havia mandado procurarem Gustavo na mansão justamente para provocar Enrico. Ela tinha suas desavenças com ele, assim como com todos, e Ettore acreditava que era apenas isso. Ele não sabia que toda a raiva e o que Eliane estaria disposta a fazer se devia a uma paixão não só desconhecida, mas também não correspondida por Enrico.
Aliás, Ettore nem sabia muito sobre como Enrico era nos tempos em que ainda estava ativo entre os Rosa Azul. Ele sabia que Enrico havia assumido a família da mãe, mas desconhecia os outros segredos. No entendimento de Ettore, Enrico no máximo deveria ter sido um capô conhecido e bem cauteloso. Enrico nunca falava muito sobre os tempos passados e evitava revelar detalhes, pois o linguajar direto e cru de Ettore sobre criminosos o incomodava demais. Enrico nunca se via como um criminoso, mesmo quando se lembrava de seu passado. Ele nunca se comparou a um criminoso, apesar de ter sido envolvido em atividades da máfia, como a administração de um bordel, o que carregava uma má reputação facilmente. Nada disso ele tinha coragem de compartilhar com Ettore; era uma vida passada, uma versão de si mesmo que considerava falecida.
— Ela envolveu até o meu pai. Você entende o que isso significa?
— Sim, entendo sim. Que você já está antecipando uma desgraça que nem aconteceu. — Ettore sempre considerou Enrico como um homem neurótico, do tipo que bastava qualquer coisa dar errada para que ele acreditasse que o mundo inteiro estava conspirando contra ele.
— Eu vou acabar tendo que contar tudo para o meu pai. Vou ter que dizer que Gigi não é a minha filha, mas de Vincenzo.
— Ele nem precisa ficar sabendo disso. — Ettore cruzou os braços e soltou um suspiro de frustração, observando Enrico andar de um lado para o outro no salão de estudo com um ritmo frenético.
— E como eu irei explicar sobre ela ter estado em Monte dos Reis? — Enrico se virou repentinamente, com a respiração rápida e visivelmente agitada devido à tensão.
— Dizendo a mesma mentira que você disse para ela. Olha, é só você tentar ser mais inteligente e as coisas irão dá certo.
— Eu não quero mais viver mentindo. — Enrico esfregou o rosto com as mãos, parando por um momento no centro do salão. — Era apenas um segredo que eu deveria saber.
— Claro, porque você é sempre o último a saber das coisas, não é? — respondeu Ettore com um sorriso irônico, cruzando os braços.
— É fácil você ficar dizendo isso, você não tem filhos. — Enrico falou com a voz carregada de frustração, enquanto apertava as mãos, tentando manter a calma.
— E nem família.
Ettore deu de ombros, soltando a frase com frieza, enquanto lançava um olhar indiferente para Enrico.
A tensão se instalou imediatamente, deixando tanto Enrico quanto Ettore em silêncio. Enrico permaneceu calado, já consciente do impacto de suas palavras. Ettore, por sua vez, não se deixava abalar por esse tipo de assunto; para ele, era uma tolice. No entanto, naquele instante específico, ele não pôde deixar de sentir um desconforto sutil, como se algo não estivesse certo.
Ettore ouviu os passos inquietos de Enrico pelo salão, o som das pegadas ecoando como um lamento de preocupação, cada passo um reflexo da tempestade que se instalava em seu interior. Enrico, com as mãos passando pelo cabelo de forma nervosa, parecia buscar nas madeixas uma solução para o dilema que o afligia. Ettore, por sua vez, observava os movimentos repetitivos do homem à sua frente com um certo tédio, um desgaste de quem já vira aquele teatro antes. Era sempre a mesma cena, e ele sabia que nenhum conselho brotaria das palavras para acalmar a inquietação de Enrico. Sentia-se como um espectador em um drama que não era seu, impotente e sem o que fazer.
O silêncio pesou no ar como uma nuvem carregada, até que, em um lampejo, uma ideia iluminou a mente de Ettore. Ele sentiu um estalo, como se uma luz se acendesse na escuridão de suas reflexões.
— Acho que posso descobrir algo sobre sua filha — anunciou, permitindo que a expectativa se espalhasse entre eles, antes de observar a reação de Enrico.
Aquelas palavras tiveram um impacto instantâneo. Enrico parou de andar, os olhos fixos em Ettore, uma centelha de esperança misturada com uma curiosidade intensa refletida em seu olhar. O peso da tensão entre eles parecia se alterar, como se a sala tivesse se aquecido com a possibilidade.
Ettore, por um momento, evitou a profundidade do olhar de Enrico, sua mente organizada em pensamentos e estratégias. Uma expressão pensativa cruzou seu rosto, como um barco à deriva buscando um porto seguro. Finalmente, decidiu romper o silêncio.
— Existe alguém em Monte dos Reis que era muito próximo a ela — disse ele, escolhendo cuidadosamente as palavras, como se cada sílaba fosse uma chave para um mistério a ser desvendado.
Aquelas palavras pareciam ser a única luz na escuridão que envolvia Enrico. A confiança que ele depositava em Ettore era palpável, como um fio invisível que os unia. Sabia que o rapaz, com seu jeito ágil e astuto, encontraria uma solução para qualquer dilema, mesmo os mais intrincados. No entanto, Ettore sabia que o desafio não seria simples. A vida de Enrico era um labirinto de problemas, e o caminho para a descoberta do paradeiro de Gigi se apresentava repleto de obstáculos.
Além disso, havia Kadu, a sombra que pairava sobre a relação da jovem. Ettore não conseguia evitar um resfriar no ânimo ao pensar nele. Kadu era o tipo de pessoa que se exibia, sempre descolado demais, como se a atenção fosse seu oxigênio. Para Ettore, a presença de Kadu era mais um peso do que um alívio, alguém que não desejava ter por perto. As artimanhas e o comportamento superficiais do rapaz não se alinhavam com a profundidade e a sinceridade que Ettore buscava em suas relações.
Ettore já tinha apelidado Kadu por conta desse jeito exibido, sempre grudado em Eliane como um filhote de cachorro, lambendo as mãos da dona, tentando demonstrar uma fidelidade cega e servil, que não convencia a quem conhecia a peça. Vivia à sombra dela, bajulando, fazendo pequenos favores, cumprindo caprichos que pareciam coisa de menino tentando agradar uma mulher difícil, uma mulher terrível. Eliane, com seus olhos frios e seu coração endurecido, sabia usar esse tipo de gente como quem usa um utensílio — sem afeto, sem laços verdadeiros.
Ettore tinha plena certeza: se alguém sabia onde Gigi estava, esse alguém era Kadu. Não tinha como negar que os dois eram quase inseparáveis, uma amizade sólida. Ettore viu de longe o tipo de vínculo que os dois tinham, algo especial, quase familiar. Era evidente que Kadu sabia de tudo, sabia onde Gigi se escondia, mas como arrancar essa informação dele? Não era tão simples quanto aparecer e perguntar.
Se fosse só uma questão de antipatia, de não se dar com o rapaz, Ettore já teria resolvido o assunto há muito tempo. Bastaria ir até ele, talvez trocar algumas palavras secas, uma pressão aqui e ali. Mas a situação era mais complicada. Para chegar até Kadu, teria que passar pela muralha que era a mansão de Eliane. E ali, ele já sabia, não tinha mais espaço, não era bem-vindo. Desde o último encontro, as portas lhe haviam sido fechadas, como se Ettore fosse agora um estranho, um intruso em terras antes familiares.
Para descobrir a verdade que Kadu escondia, Ettore sabia que não podia agir sozinho. Precisava de uma ajuda, um auxílio que lhe desse acesso ao rapaz de um jeito que ele não pudesse recusar. Foi então que o nome de Gualtiero lhe veio à mente. Gualtiero, aquele sujeito meio áspero, mas que sempre estava cercado de gente, os tipos de rapazes que faziam o serviço sujo sem piscar, que transitavam entre as sombras da cidade sem levantar suspeitas. Era ele quem comandava uma espécie de exército informal, um grupo de recrutas que tinha o hábito de circular por todos os cantos, conhecendo cada detalhe, cada nome, cada segredo.
Ettore, ao sair da mansão de Enrico, deixou o pensamento tomar forma. Se alguém tinha o número de Kadu, esse alguém estava entre os homens de Gualtiero. Era quase certo. Um desses rapazes certamente teria cruzado com Kadu em algum momento, talvez até feito algum serviço com ele, ou ao menos sabia onde ele costumava morar. Ettore não tinha dúvida: era preciso pedir ajuda a Gualtiero. O plano começou a se desenhar em sua cabeça, simples, mas eficaz. E, no fundo, ele sabia que não seria difícil convencê-lo. Afinal, Gualtiero sempre foi um homem de favores, desde que o preço fosse justo.
Dentro do carro estacionado na estrada, de frente para a imensidão do mar, Ettore recostou-se no banco, o olhar fixo nas ondas que se desfaziam na areia. O mar, vasto e interminável, parecia um reflexo da confusão em sua mente. Sabia que, para avançar, precisava de um empurrão, de alguém que abrisse as portas certas. Com um suspiro, tirou o celular do bolso e discou o número de Gualtiero. O tom de chamada ecoou por alguns instantes até que uma voz grave e cansada atendeu do outro lado.
Gualtiero parecia já saber quem era, o tom de familiaridade se misturava com uma leve indiferença, como se esperasse por algo que não lhe surpreendia.
— Sou eu. — Ettore olhou fixamente para o horizonte. — Estou precisando da sua ajuda.
Do outro lado da linha, o silêncio se arrastou por alguns segundos. Gualtiero sempre gostava de pesar as palavras antes de responder, como quem calcula os riscos antes de mergulhar em águas desconhecidas.
Ettore inclinou-se um pouco para frente, os dedos tamborilando no volante. A voz firme, mas com o cuidado de quem sabe que está pedindo um favor que pode custar caro.
— Preciso resolver um problema com Kadu, mas você sabe que eu não me dou muito bem com ele. Pensei que algum dos seus rapazes pudesse ter o contato dele. Alguém que possa me ajudar a chegar até ele, sem levantar poeira.
Outro silêncio. Ettore podia quase ver Gualtiero do outro lado, provavelmente deitado em alguma cama, os olhos semicerrados, ponderando a proposta. Mesmo sendo um grande amigo, Gualtiero não era de favores fáceis, mas também não recusava bons negócios.
— Kadu, hein? — A voz veio mais baixa, quase pensativa. — É, conheço uns que andaram cruzando com ele. Mas, Ettore, você sabe... — Gualtiero fez uma pausa, saboreando as palavras. — Favores como esse têm um preço.
Ettore sorriu, mesmo que do outro lado da linha Gualtiero não pudesse ver. Sabia que esse momento chegaria.
— O preço, você me diz. Fazemos como sempre, eu cubro.
Gualtiero riu, um som curto e seco.
— Certo. Vou ver o que posso fazer. Te ligo em breve.
E a linha se calou. Ettore olhou de novo para o mar. Estava feito. Agora era esperar que Gualtiero cumprisse sua parte do acordo.
136
O acordo de Eliane com Stefano já não parecia ser apenas uma estratégia para descobrir onde Gigi estava. Kadu começava a perceber que o objetivo de Stefano na mansão era outro: vigiar cada um de seus passos. A desconfiança crescia em sua mente, alimentada pelo fato de que Stefano aparecera de repente, sem nenhuma justificativa sólida. Kadu sabia que traição para Eliane sempre tinha um preço, e ainda que não houvesse sinais evidentes de que estava sendo punido — não foi trancado em um porão ou brutalmente agredido por capangas, como poderia ter acontecido —, havia algo errado.
Ele não podia provar, mas a chegada de Stefano era suspeita demais para ser coincidência. As peças se encaixavam lentamente em sua cabeça: Eliane, com sua aparência calculadamente gentil, poderia estar escondendo sua verdadeira raiva, esperando pacientemente para ver até onde ele levaria a mentira. Stefano, então, não estava ali para procurar por Gigi, mas para observar Kadu. Parecia óbvio que ele era o espião particular de Eliane, e isso explicaria o motivo de sua presença repentina e discreta na mansão.
Ainda assim, uma dúvida o atormentava. Como Eliane poderia ter descoberto que ele ajudara Gigi a sair da mansão? Isso não fazia sentido, pensava Kadu, tentando afastar a paranoia que o consumia. Talvez fosse apenas sua mente o traindo, influenciada pelo medo e pela presença esmagadora de Eliane, sempre controladora. Ou talvez fosse a tensão crescente que o levava a imaginar cenários cada vez mais sombrios.
Mas ele sabia que o risco era real. Kadu já tinha combinado com Gigi o momento exato para tirá-la da mansão, em um horário cuidadosamente escolhido, quando Eliane e os outros estariam ausentes. O plano parecia perfeito, mas a insegurança o corroía por dentro. O que ele não sabia era quem poderia ter visto ou suspeitado de algo. Talvez houvesse uma peça no tabuleiro que ele ainda não havia notado, uma sombra que rondava seus passos, à espreita, esperando que ele cometesse o menor deslize.
O sol forte batia no rosto de Kadu, aquecendo sua pele enquanto ele permanecia nos arredores da mansão, perdido em pensamentos. O calor parecia sufocá-lo, mas não mais do que o peso da desconfiança que sentia. De repente, o celular vibrou em seu bolso, interrompendo sua linha de raciocínio. Ele sentiu o aparelho contra o jeans, tirando-o rapidamente para ver quem era.
No visor, um número desconhecido apareceu. Kadu franziu o cenho, hesitou por um segundo, mas atendeu a ligação com uma voz arrastada.
Kadu sentiu o peso do nome ao reconhecer a voz grave de Ettore do outro lado da linha. Ettore. O sujeito que sempre parecia estar em seu caminho, como uma sombra que se recusava a sumir. Não era de hoje que Ettore vinha com sua postura dura, a voz seca e direta, como se sempre tivesse algo a resolver, algum problema que precisava descarregar em alguém, e esse alguém quase sempre era Kadu. O jovem, acostumado a esse tipo de incômodo, ergueu os olhos com um suspiro, o rosto fechado em uma expressão de desprezo contido. Não queria saber o que Ettore queria dessa vez, mas já estava pronto para o aborrecimento.
Ettore vivia cercado por problemas, mas Kadu, sinceramente, não estava nem aí. Para ele, Ettore não passava de alguém com um complexo de perseguição, um sujeito que, talvez por algum motivo que Kadu nunca soube ou se importou em entender, sentia uma necessidade constante de implicar com ele. Talvez fosse inveja, quem sabe? Sempre que se cruzavam, parecia haver uma tensão mal explicada, um olhar enviesado que Kadu percebia, mas nunca se importava em questionar.
Para Kadu, Ettore era apenas mais um obstáculo irritante no meio do caminho, um problema menor que ele se acostumara a driblar sem muito esforço. Não importava o que Ettore pensava ou queria, ele não tinha importância. Kadu continuava sua vida, suas preocupações eram outras, e Ettore podia se afogar em sua própria amargura. O fato era que qualquer contato entre os dois trazia à tona uma antiga rixa, talvez alimentada por algo que Ettore jamais admitiria em voz alta, e que Kadu estava cansado de tentar entender.
Com a ligação, aquela sensação de desconforto familiar tomou conta dele, mas, no fundo, ele já sabia que não precisava se preocupar. Não importava o que Ettore tivesse a dizer; Kadu lidaria com isso como sempre fazia: com indiferença, como se Ettore fosse apenas mais uma pedra no caminho, fácil de ser chutada para longe.
— Preciso falar contigo — disse Ettore, sem rodeios, o tom frio como de costume.
Kadu suspirou, irritado com a atitude impessoal de Ettore. — Não estou com muito tempo pra conversa agora, se é isso que você quer.
— Isso não é conversa, Kadu — Ettore cortou, mantendo o tom firme. — É sobre Gigi.
Kadu ficou em silêncio por um momento, sentindo o sangue esquentar em suas veias ao ouvir o nome de Gigi. Sabia que Ettore nunca falava nada sem um propósito claro.
— O que você sabe? — Kadu perguntou, tentando não demonstrar a inquietação que sentia.
— Eu sei que você ajudou ela a sair da mansão de Eliane. — A frase de Ettore saiu com a precisão de um golpe, como se estivesse testando as reações de Kadu.
Kadu apertou o celular na mão, olhando ao redor para se certificar de que ninguém estava por perto.
— E daí? — Kadu respondeu, a voz mais baixa agora, quase um sussurro. — Se você me ligou pra me acusar, pode esquecer. Eu não tenho nada a ver com isso.
— Não estou ligando pra te acusar. Estou ligando porque preciso da sua ajuda. E se você souber de algo, é melhor me contar agora. A situação está pior do que você imagina.
— Ajuda? — Kadu bufou, incrédulo. — Desde quando você precisa de mim?
— Desde que isso deixou de ser só sobre a Gigi — Ettore respondeu, a voz ficando ainda mais grave, quase como um sussurro de advertência. — Eliane mandou irem atrás de gente que não tem nada a ver com essa história. O avô de Gigi já está com a saúde fraca, não merece se meter em problema.
Kadu sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. O avô de Gigi? Isso já passava de qualquer limite. Ele não conhecia Gustavo, nem tinha ouvido falar de Enrico antes de entrar na máfia. O máximo que sabia era sobre as famílias antigas dos Caruso e dos Giordano. Era quase uma regra entre os que viviam à sombra do crime conhecer um pouco sobre os membros passados, suas histórias e rivalidades.
— Ela está levando isso longe demais — continuou Ettore, com a calma de quem vê a tempestade se aproximando. — O problema dela com o pai de Gigi não devia ter nada a ver com o velho. Mas, pra Eliane, qualquer coisa vale, desde que consiga o que quer.
Kadu apertou o celular com mais força, como se pudesse aliviar a tensão que subia pelo corpo. O nome da patroa sempre o deixava em alerta, e agora parecia que a situação estava mais suja do que jamais imaginou. Ettore sabia jogar com as palavras, e o que ele dizia parecia fazer todo o sentido.
— Eu já disse o que tinha a dizer. Não adianta ficar insistindo. — Kadu respondeu, tentando esconder a inquietação na voz.
Ettore resmungou, quase bufando de irritação.
O silêncio se instalou por um momento, um intervalo carregado de tensão. Kadu respirou fundo, sentindo o peso da conversa. A irritação de Ettore estava mais palpável do que nunca, e Kadu tentava reunir as palavras certas, mas tudo que conseguia era um nó na garganta.
— Eu sei que você gosta dela — Ettore disse de repente, a voz mais suave, mas ainda firme.
Kadu engoliu em seco, a menção de Gigi fazendo seu coração acelerar. As mãos estavam frias, e a ansiedade se espalhou pelo corpo como uma corrente elétrica. Como Ettore poderia perceber isso? Ele estava se sentindo exposto, vulnerável.
— Não… não é isso — Kadu tentou se defender, mas sua voz soou hesitante, e ele sabia que era inútil negar.
— Ah, é bem nítido perceber isso — Ettore insistiu, a voz arrastada, quase como se também estivesse sentindo o peso do que diziam.
Kadu fechou os olhos, tentando abafar a confusão que se formava em sua mente. Ettore tinha razão, e isso o incomodava. Ele não queria sentir aquilo, não queria que a conexão com Gigi fosse algo mais do que uma amizade. Mas a verdade estava ali, escancarada, e ele não podia fugir dela.
Kadu sentiu o suor brotar na testa, o calor do sol queimando-lhe o rosto enquanto olhava em volta, nervoso. A cada segundo, a sensação de estar sendo observado crescia. Aquele lugar, antes tão familiar, agora parecia cheio de sombras, mesmo sob a luz do dia. Kadu tentava manter o controle, mas o medo estava presente, e cada palavra que saía de sua boca parecia carregada por ele. Disse que não podia conversar pessoalmente, uma decisão que pesava mais por conta da presença de alguém vigiando seus movimentos. A dureza na sua voz era clara, mas havia também um traço de inquietação.
Ettore, por outro lado, tentava encontrar espaço para falar, talvez buscando insistir em um encontro, mas antes que pudesse formar uma frase completa, Kadu já o interrompia. Ele sabia o que Ettore tentaria dizer e tratou de se adiantar, querendo deixar claro que o problema não era entre eles. Não, o problema ia além disso. A verdadeira questão era Eliane, a mulher que colocara alguém para vigiar seus passos. Kadu, com o olhar inquieto, sentia-se acuado. Sabia que qualquer movimento errado poderia ser fatal, e a sombra invisível de Eliane parecia sempre estar presente.
O medo de Eliane, a desconfiança em relação a Stefano, o peso de tudo isso apertando seu peito. Kadu sabia que estava jogando um jogo perigoso, e a sensação de estar cercado por armadilhas invisíveis apenas aumentava seu nervosismo.
137
O nervosismo ainda parecia estar no ar, uma presença invisível que acompanhava Ettore desde o momento em que saíra daquela conversa tensa com Kadu. Ele sabia que Enrico não ia se aguentar por muito tempo. O celular, que estava silencioso no banco do passageiro, logo começaria a vibrar. E foi justamente no meio da estrada, com o mar à direita e o céu começando a ganhar tons alaranjados à esquerda, que o telefone tocou, a tela piscando com o nome de Enrico.
Ettore suspirou, já adivinhando o que vinha. Enrico era assim, nunca esperava. A ansiedade o corroía por dentro, uma chama que não se apagava, sempre queimando, sempre perguntando.
Com uma mão no volante, ele olhou de canto para o celular, o nome ainda piscando. Não podia evitar. O carro deslizava devagar pela estrada, o vento trazendo o cheiro do mar pela janela entreaberta. Ettore pegou o aparelho, uma pitada de irritação já subindo na garganta.
— Oi — atendeu, a voz firme, mas sem pressa, como se já soubesse o que o outro ia perguntar.
A voz do outro lado era apressada, cheia da mesma ansiedade que Ettore tanto conhecia. Era como uma faca afiada que cortava cada palavra, sem tempo para descanso.
Ettore respirou fundo, mantendo os olhos na estrada à frente, o mar parecendo um borrão de azul à medida que ele avançava.
— Não há muito o que dizer ainda — respondeu, seco, mas sem querer provocar. Sabia que qualquer palavra errada poderia acender de vez o pavio curto de Enrico. — Não é tão simples quanto você acha, mas qualquer notícia que eu souber te aviso.
Do outro lado, o silêncio veio pesado. Ettore podia quase imaginar o rosto de Enrico, as sobrancelhas franzidas, a mão passando pelo cabelo, o mesmo gesto repetitivo de sempre. O nervosismo estava ali, e Ettore sabia que Enrico iria continuar perguntando, ligando, exigindo respostas antes da hora certa. Era só uma questão de tempo.
Ettore deixou o tempo correr até que o sol começasse a descer lentamente no horizonte, pintando o céu com as cores de fim de tarde. Seguiu o caminho que Kadu lhe indicara, com a cautela de quem não queria chamar atenção, cada quilômetro uma pequena vitória no silêncio da estrada. Quando chegou, a luz do sol já se esvaía, mas o crepúsculo ainda iluminava o ambiente. A cidade parecia adormecida, as ruas desertas, apenas o vento soprando e as sombras das árvores se movendo devagar. As casas ao redor estavam mergulhadas num silêncio tranquilo, como se a vida tivesse dado uma pausa temporária.
A iluminação da rua era fraca, lançava um tom amarelado sobre o calçamento irregular, fazendo a casa à sua frente parecer ainda mais velha. O amarelo pastel das paredes se mesclava ao crepúsculo, e o telhado vermelho mal se distinguia contra o céu em tons de rosa e laranja. Ettore parou o carro a uma distância calculada, perto o suficiente para observar, longe o bastante para não ser notado de imediato.
A casa estava fechada, como esperado, mas a luz externa permanecia acesa, lançando um brilho solitário sobre a porta de madeira. Ele sabia que Helena apareceria ali. Não havia outra opção. E Ettore sabia que precisava ficar ali, custasse o que custasse, mesmo que isso significasse esperar até que a luz do sol sumisse completamente. Não era apenas uma visita, era uma missão de sobrevivência.
Ele acendeu o farol baixo do carro por um instante, depois o apagou. Aquele pedaço de rua era agora seu domínio. As mãos no volante estavam firmes, mas o olhar de Ettore passeava pela casa com uma intensidade fria, esperando qualquer sinal de movimento. Por um momento, pensou no que faria se alguém o visse ali, se tivesse que improvisar uma desculpa. Mas a verdade é que, em Portofino, poucos questionavam o que não lhes dizia respeito.
Ettore se recostou no banco do carro, os olhos ainda fixos na entrada da casa, o corpo em alerta. Não podia errar agora.
138
Não podia ser agora, não dessa maneira, uma injustiça dessas com Enrico, uma traição que ele não queria acreditar. Helena, aquela que ele confiava, aquela que praticamente fez parte da sua família, fazendo isso? Foi Ettore quem havia sugerido que Helena talvez soubesse de algo, que Gigi poderia ter confidenciado algo a ela. Mas Enrico se recusava a aceitar. Não Helena. Ela jamais esconderia sua filha dele, jamais acobertaria Gigi dessa forma já conhecendo o homem que ele era. Ettore o chamava de neurótico, mas Enrico acreditava que o amor por sua filha o justificava.
Aquela manha fora uma tortura. Enrico havia ligado para Helena várias vezes, as mensagens se amontoavam no celular dela, com ele esperando, ansioso, que ela respondesse algo concreto. No entanto, as respostas nunca vinham, nem sequer as mensagens eram respondidas. A angústia só aumentava. Para Enrico, era impossível acreditar que Helena, com todo o carinho que sempre demonstrou, fosse capaz de uma coisa dessas. Acobertar Gigi numa situação tão confusa, numa loucura dessas? E por quê? Que propósito Gigi teria em fazer isso, em se afastar assim?
O silêncio de Helena era ensurdecedor. Enrico sentia o peso de cada segundo sem resposta como uma lâmina sobre sua pele, o medo crescendo. Na mente dele, mil perguntas surgiam. O que estava acontecendo? Gigi estava segura? Helena estava realmente envolvida? Ele não conseguia entender como tudo desmoronara tão rápido, e por que Gigi, sua própria filha, o afastaria dessa maneira.
Helena, desde o começo, carregava no peito um turbilhão de dúvidas. Quando Gigi apareceu, ela hesitou. Não foi uma decisão simples aceitar a menina em sua casa, mesmo sabendo do peso que aquele gesto carregava. Os perigos que rondavam Gigi, ainda que ela mesma estivesse alheia a tantos deles, não eram desconhecidos para Helena. E isso a fez estremecer. Sabia que ao abrir as portas para Gigi, estaria também fechando outras, principalmente para Enrico. Mas como poderia recusar? O que seria da menina? E, acima de tudo, como poderia encarar a própria consciência se a tivesse mandado embora?
A decisão não foi tomada sem receio. Helena jamais confiou plenamente que tudo acabaria bem. Havia uma angústia constante, uma sensação de que as coisas desmoronariam a qualquer momento. Gigi, tão jovem, tão perdida, estava na sua casa, e isso, para Helena, era como caminhar sobre o fio da navalha. Ela estava, afinal, ocultando a verdade de Enrico, enganando-o em algo tão fundamental. E por mais que soubesse que Enrico, com todo seu amor, merecesse aquele desespero, sentisse na pele o desdém que ele próprio fizera Gigi sofrer, Helena sabia que aquilo era errado.
Mas, mesmo assim, ela tinha aceitado. Não por falta de consciência, mas por um impulso maternal que gritava mais alto. Helena não podia se perdoar por isso, por estar presa entre duas lealdades que pareciam irreconciliáveis. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, a verdade emergiria, e com ela, viria um mar de consequências.
As consequências já se abatiam sobre Enrico como um peso inevitável, o destino cobrando sua conta. Ele não tinha dúvidas: aquilo era castigo. Sentia, em cada fibra de seu corpo, que recebia mais uma punição da Santa, a quem tantas vezes implorara em vão. Não conseguia escapar das lembranças, dos erros do passado, da infância da filha, e agora a amarga realidade o perseguia sem descanso. A cada pensamento, a certeza de que merecia essa punição eterna cravava-se mais fundo. Havia traído, magoado e, de certo modo, abandonado Gigi nos momentos em que ela mais precisava. O que mais lhe restava, senão sofrer?
Enrico estava mergulhado em suas preocupações, afogado em um mar de culpa, quando o toque estridente do telefone ecoou pela sala, rompendo o silêncio como uma faca que corta o ar denso. Ele se sobressaltou, saindo do salão de estudo com passos pesados e apressados. O som vinha do aparelho antigo, no canto da sala, um daqueles que pareciam existir apenas para trazer más notícias.
Ele hesitou por um breve segundo antes de atender, com o coração batendo como um tambor de guerra. Quem poderia ser agora, no meio daquela confusão que envolvia a filha desaparecida, Helena evasiva, e um Ettore que parecia sempre saber mais do que dizia?
Com a mão trêmula, pegou o telefone e, por um momento, o som frio do aparelho o transportou de volta ao presente, arrancando-o de sua autopiedade.
Lorenzo era mais outro que já havia sabido da saída de Gigi de Monte dos Reis. As notícias corriam com uma velocidade impressionante naquele círculo, onde os boatos se espalhavam como fogo em mato seco. Enrico mal havia respirado desde que o nome da filha começou a circular entre os conhecidos, e agora lá estava Lorenzo, fazendo perguntas, tentando soar interessado.
Quando Lorenzo perguntou como ele estava, Enrico soube imediatamente que era por causa de Gigi. Não era difícil de perceber. Lorenzo, ultimamente, andava estranhamente gentil, com uma empatia fora do comum, quase ensaiada. Era como se ele, de fato, quisesse entender o que Enrico estava passando, ou talvez estivesse realmente preocupado pelo fato de ninguém ter notícias da garota. Mas algo no tom dele... algo soava como se fosse mais um daqueles que só queriam estar próximos para assistir à queda de perto.
— Estou bem — respondeu Enrico, seco, tentando manter a máscara de calma, enquanto por dentro o turbilhão de emoções continuava a girar.
— Sinto muito que esteja passando por isso — disse Lorenzo, com um ar sério, quase solene, como se compartilhasse do fardo que Enrico carregava. — Se precisar de qualquer coisa, estou à disposição.
Aquela oferta de ajuda soava vazia, como tantas outras que Enrico já ouvira antes. Ele sabia que Lorenzo era o tipo de pessoa que, por trás das palavras de conforto, estava esperando o momento de dar o próximo passo, de se posicionar de alguma maneira. A gentileza era apenas uma estratégia, um jogo para ele. A preocupação demonstrada parecia até genuína, mas Enrico não se deixava enganar com facilidade. Ouvira isso muitas vezes, de muitas bocas, e sabia que as palavras nem sempre carregavam as intenções que aparentavam.
— Agradeço, mas estou resolvendo — respondeu, mais uma vez curto, tentando encerrar o assunto ali. Não queria abrir mais portas do que já estavam abertas.
Lorenzo ficou em silêncio por alguns segundos, como se esperasse algo mais, talvez uma confissão, um desabafo. Mas Enrico permaneceu firme, seus olhos fixos em algum ponto distante da sala, recusando-se a entregar qualquer fraqueza.
— Bem — Lorenzo continuou, um tanto sem jeito —, de qualquer forma, saiba que estou por aqui.
Com isso, o homem se despediu, deixando no ar uma sensação de que, de alguma forma, aquela conversa breve carregava um peso maior do que aparentava. Para Enrico, era mais um lembrete de que as consequências do seu passado o perseguiriam, e que, no fundo, mesmo as pessoas que se diziam preocupadas poderiam estar ali apenas para ver até onde ele aguentaria sem desabar.
139
Aguentando mais trabalho. Era assim que se resumia atualmente a rotina de Natália. A mansão dos Bellini, imponente, agora estava em uma correria incessante. Não havia sossego, não havia pausa. Tudo por conta da viagem de Davide, que se preparava para transferir o pai a Washington, onde faria o tratamento com o cunhado. Natália, como sempre, fora incumbida de cuidar dos preparativos e empacotar os pertences da casa, algo que ela já fazia sem questionar. Era o seu papel, o que sempre soubera.
Naquele fim de tarde, empacotava pequenos vasos de porcelana da sala, embrulhando-os cuidadosamente em folhas de jornal. O som dos passos apressados e das vozes abafadas dos carregadores enchiam os corredores, enquanto homens fortes removiam móveis menores e caixas se amontoavam em pilhas desordenadas. Natália sabia que o avô estava para viajar, mas agora parecia que até o tio mudara de ideia, decidindo sair da mansão também. A movimentação só aumentava, trazendo um caos organizado que a cansava mais a cada hora.
No quarto, o cenário não era diferente. O espaço que antes exalava conforto e detalhes refinados agora parecia vazio, sem alma. Os lençóis claros com laços delicados, cuidadosamente montados sobre a cama, foram retirados por Natália. Não havia mais a necessidade de mostrar perfeição. Ela guardou os lençóis com um toque de nostalgia, como quem guarda memórias. Empacotou o máximo de perfumes da penteadeira, cada frasco com um cuidado especial, sabendo que talvez levasse tempo até que aquele quarto voltasse a ser o que era.
As decorações do espelho de chão, aquelas pequenas joias que transformavam o quarto num refúgio, foram retiradas uma a uma. As cortinas pesadas ainda pendiam sobre as janelas, mas o sol não parecia entrar da mesma forma. Era como se a casa toda estivesse em transição, como se todos os que ali viviam já tivessem se despedido, ainda que seus corpos permanecessem.
Natália não sabia para onde iriam, para onde o destino a empurraria, mas algo dentro dela se retorcia com a ideia de Washington. Se essa fosse a vontade do tio, ela sabia que teria pouco poder de decisão. Mas Washington? Não queria nem ouvir falar. Seu coração estava enraizado em Monte dos Reis, não apenas pelas memórias, mas por Luca. Por causa das cartas que ele mandava com uma regularidade habitual, seu tio já começava a desconfiar. A cada carta recebida, um suspiro de alívio, seguido pela tensão de ser descoberta. Davide não era tolo e a espreitava com olhos curiosos.
Luca, como sempre, impetuoso e apaixonado, recentemente tinha voltado a se instalar na mansão dos primos. De lá, como se o tempo estivesse prestes a se esgotar, enviou outra carta, mais uma linha na trama perigosa que estavam tecendo. Ele perguntava, insistente: estaria ela disposta a seguir com o plano, a deixar tudo para trás e fugir de Monte dos Reis? Parecia tão fácil nas palavras dele, mais uma loucura para desaparecer no vento, mais uma jovem a sumir da cidade sem deixar rastro. Mas Natália, entre embrulhar vasos e desviar dos olhos vigilantes de Davide, sentia o peso das decisões que precisaria tomar.
A pressão de Luca era constante, e ela o entendia. Ele queria que ela se decidisse, que fugisse com ele e deixasse toda aquela vida para trás. Mas o tempo parecia escapar pelos seus dedos, e ela estava mergulhada na correria da casa, sem espaço para respirar, muito menos para planejar uma fuga ousada. A cada dia, sentia as rédeas de Davide apertarem mais, seu controle absoluto sobre a casa e sobre ela. O homem era como uma sombra que pairava por onde fosse, interrompendo seus pensamentos, trazendo-a de volta à realidade com suas ordens ríspidas e precisas.
— Natália, isso precisa estar pronto para amanhã! — Davide gritava, enquanto ela empacotava o que restava de suas lembranças.
No meio daquela correria, esquecia-se de si mesma. Planejar seus sonhos? Fugir com Luca? Tudo parecia uma fantasia impossível. A cada passo, uma nova ordem, uma nova distração. Não tinha tempo para pensar, para decidir. Deixava algo perdido aqui, outra coisa esquecida ali, enquanto a mansão, aos poucos, ia se esvaziando, assim como sua vontade de seguir os passos do tio.
Natália estava sentada na cama, sem nem se dar conta de como fora parar ali. Seus olhos perdidos se fixavam no chão de madeira, mas sua mente vagava longe, enredada nos próprios pensamentos.
Foi nesse estado, entre o real e o abstrato, que uma presença entrou no quarto. Natália não percebeu de imediato, mergulhada no transe de seus devaneios. Seu corpo pesava, como se fosse parte da própria mobília da mansão, imóvel e silencioso. Seus dedos brincavam com um lenço de seda que encontrara perdido entre as roupas, sem direção, sem propósito.
Uma voz, baixa e grave, cortou o véu dos seus pensamentos. No início, era apenas um som indistinto, um eco que reverberava ao fundo, quase como o vento do final do crepúsculo que sussurrava pelas janelas entreabertas. Ela ainda estava longe, tão dentro de si mesma que demorou um instante para perceber que alguém estava ali, no mesmo espaço, quebrando o silêncio. Aos poucos, a névoa em sua mente começou a se dissipar, e então ela reconheceu a voz de Davide.
— Natália? — chamou ele, e era como se aquela palavra, carregada de uma familiaridade antiga, fosse a âncora que a trazia de volta à realidade.
Ela piscou algumas vezes, sentindo o corpo responder de novo à gravidade da terra. Sentada na beirada da cama, como uma figura de mármore esculpida, voltou a respirar fundo, tomando consciência do quarto à sua volta, da luz acesa, da presença de Davide ao lado da porta. A vida voltava aos poucos a habitar seu corpo, trazendo com ela a urgência daquelas pequenas ações que havia esquecido no meio de suas reflexões.
Natália se levantou, os pés descalços tocando o chão frio, e foi até a penteadeira onde a caixa com seus perfumes ainda estava aberta. Com mãos rápidas e quase mecânicas, começou a fechá-la. Os frascos, tão delicados e frágeis, haviam sido guardados com desleixo momentos antes, quando ela ainda estava distraída. Era preciso colocá-los de volta em seus lugares, arrumar tudo, como se aquilo fosse uma maneira de manter algum controle sobre o caos que se instalava em sua vida.
Davide observava em silêncio, os olhos atentos ao movimento dela, mas sem dizer mais nada. Sabia que não era o momento de interromper seus gestos, tão calculados, tão íntimos.
Sem dizer nada, virou-se e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si com cuidado, sem pressa, como quem reconhece que a presença é um peso desnecessário naquele momento. Enquanto descia as escadas em direção ao salão, seus pensamentos eram contraditórios. Queria falar com Natália, sim, mas preferia dar espaço. Sabia que ela precisava de tempo para resolver as próprias coisas, tomar as próprias decisões, ainda que ele próprio não conseguisse entender completamente o que se passava na cabeça da sobrinha.
Davide não acreditava que a estava impedindo de ter privacidade. Pelo contrário, achava que fazia o necessário, o certo, aquilo que um homem na sua posição deveria fazer. Afinal, estava criando a filha de sua irmã, e, para ele, isso significava muito. Considerava Natália quase como uma filha, embora nunca tivesse parado para pensar muito nisso. Ele, que nunca tivera tempo, nem disposição, nem planejamento para construir uma família própria, aceitara aquela responsabilidade sem pestanejar. Agora, com mais de quarenta e dois anos, era o responsável por uma jovem que já não era mais criança, mas que ele, em sua maneira rígida de ser, ainda via como uma menina a ser educada e protegida.
Era um homem exigente, sempre fora. Os anos não lhe haviam trazido a suavidade que alguns esperavam, e Natália sabia bem disso. Desde cedo, ela aprendera a lidar com as duras exigências do tio, com as limitações que ele impunha. Não era fácil. Davide era de uma época em que as mulheres deviam ser criadas em casa, educadas sob o olhar atento dos homens da família. Não imaginava outra realidade para Natália. Para ele, ela deveria estar sempre sob a sua supervisão, saindo apenas quando acompanhada por ele. Talvez fosse esse rigor, essa inflexibilidade, que explicasse por que Davide nunca se casara. Nenhuma mulher havia aguentado as suas exigências, as suas regras. Viver sob as condições dele era como viver numa gaiola dourada: tudo parecia em ordem, mas a liberdade era limitada.
Davide desceu as escadas em passos firmes, determinado a resolver os últimos detalhes da mudança. Ao entrar no salão, o eco de seus passos ressoava nas paredes, misturando-se ao aroma de móveis de madeira polida e o leve cheiro de poeira. Ele já havia mandado retirar algumas peças menores, mas o grande tapete de veludo geométrico permanecia em pé no canto da parede, aguardando o momento de ser transportado.
Enquanto Davide organizava os últimos detalhes, seu celular tocou, cortando o silêncio do salão. Ele se dirigiu até o cômodo ao lado, onde as caixas estavam empilhadas, e atendeu a chamada de Lorenzo.
A voz do amigo logo surgiu, questionando como estavam os preparativos para a viagem do pai. Davide, ainda cercado por itens que precisava arrumar, respirou fundo antes de responder. Ele compartilhou que tudo estava quase pronto, mas havia um clima de ansiedade no ar, com pequenas coisas ainda pendentes.
Enquanto ouvia Lorenzo falar, Davide aproveitou a oportunidade para perguntar:
— E a filha de Vincenzo? Já souberam de alguma notícia?
Do outro lado, Lorenzo suspirou antes de responder:
— Ainda nada. Liguei para Enrico, mas ele também não me disse muito. Acho que não queria conversar, pelo jeito que respondeu.
Davide franziu o cenho, preocupado, mas ficou em silêncio por um momento, processando a informação.
— Ele parecia estranho? — perguntou, tentando entender o comportamento de Enrico.
— Um pouco — Lorenzo admitiu. — Respondeu rápido, como se quisesse encerrar logo a conversa.
Davide ficou em silêncio, passando os dedos pela testa, pensativo.
— Como foi que Enrico cuidou da menina? Não entendi como ele fez isso.
Lorenzo respirou fundo antes de responder, tentando montar o quebra-cabeça na cabeça de Davide.
— Alguém deve ter ajudado ele com isso. Você não se lembra que o pai de Enrico saiu de Monte dos Reis e ele ficou com alguns empregados do pai? — Lorenzo explicou. — Provavelmente, alguém que trabalhou para o pai de Enrico cuidou da menina.
Davide franziu o cenho, ponderando a informação.
— Então foi uma mulher? — ele perguntou, a dúvida clara em sua voz.
— Provavelmente — respondeu Lorenzo, com firmeza. — Se não fosse uma mulher cuidando tão bem da menina, a essa altura ela já não estaria mais com Enrico.
140
À medida que o anoitecer se aproximava, as lojas de Portofino começaram a fechar suas portas, uma a uma. O comércio ia apagando suas luzes, deixando as ruas de calçadão cada vez mais vazias. Poucas pessoas ainda caminhavam por ali, encolhidas em seus casacos, protegendo-se da noite fria que chegava. A brisa gelada que soprava do mar atravessava as ruas, fazendo o ar parecer mais cortante.
Helena puxou as mangas do casaco, tentando esconder as mãos do vento, que já começava a morder sua pele. Seus passos ecoavam solitários na rua vazia, o som reverberando nas paredes das casas antigas. Ela caminhava apressada, o olhar atento à frente, evitando desviar para os becos sombrios ou para as vitrines fechadas.
A rua, deserta, só exibia um único carro estacionado um pouco distante da casa de Helena. Ela lançou um olhar rápido, notando a presença do veículo, mas logo desviou, focando-se no que realmente importava: chegar logo em casa.
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