A casa parecia mais silenciosa do que de costume naquela noite. Gigi, inquieta, decidiu se distrair na cozinha, preparando algo simples para o jantar enquanto aguardava a chegada de Helena. O som da porta se abrindo ecoou pela casa, mas ela continuou concentrada no preparo de um risoto de frango. A carne cozinhava lentamente na panela, soltando um aroma que, embora envolvente, parecia incompleto, quase como se algo estivesse fora do esperado.

Nunca se aventurara a cozinhar na casa do pai; sempre deixava que os empregados cuidassem das refeições. Quando muito, preparava algo rápido, como omeletes ou sanduíches, nos momentos em que a cozinha estava livre e Enrico não estava por perto. O receio constante de ser repreendida fazia com que ela se sentisse mais à vontade sozinha.

Helena entrou na cozinha pouco depois, deixando a bolsa na sala antes de seguir diretamente para Gigi. Com um olhar atento, ela se aproximou, mantendo a voz suave ao perguntar como a garota estava. O olhar de Helena passou da panela para Gigi, em um misto de curiosidade e cuidado.

— Está tentando um risoto? — perguntou Helena, inclinando-se ligeiramente para espiar o conteúdo da panela.

— Sim — respondeu Gigi, tentando parecer confiante, embora houvesse um leve tom de nervosismo em sua voz. — Peguei o que tinha na geladeira.

Helena cruzou os braços, observando o frango na panela, que parecia mal dourado. Ela permaneceu em silêncio por um instante antes de abrir um sorriso sutil, sem intenção de julgar, mas com uma certa dose de ternura.

— Você provou? — perguntou Helena, seu tom encorajador.

Gigi hesitou, desviando o olhar antes de balançar a cabeça.

— Ainda não.

— Está na hora de testar, então. Quer ajuda?

— Não precisa — respondeu Gigi rapidamente, com um tom leve, mas que não escondia o alívio pela companhia de Helena. — Só espero que esteja bom.

Helena sorriu, observando-a mexer na panela com a colher de madeira. O aroma do risoto começava a mudar, adquirindo uma nota mais rica e convidativa, graças às pequenas dicas que Helena deu ao longo do processo. Quando finalmente sentaram à mesa, o prato, agora bem temperado, exibia um tom dourado e um aroma acolhedor, aquecendo a cozinha.

Enquanto comiam, o silêncio inicial foi quebrado por Helena, que deixou o garfo repousar no prato.

— Seu pai ligou para mim hoje. — A frase saiu de forma cuidadosa, mas direta.

Gigi parou de mastigar, erguendo o olhar para Helena com um misto de surpresa e cautela. Era como se o nome do pai tivesse peso suficiente para alterar toda a atmosfera.

— Ele ligou várias vezes — continuou Helena, sem desviar os olhos. — Desde o dia em que você chegou, ele tenta entrar em contato.

O desconforto de Gigi era evidente. Os dedos seguravam o garfo com força, e ela desviava o olhar, como se quisesse fugir daquela conversa. Após um longo silêncio, respondeu, a voz quase fria:

— Ele não está ligando porque sente minha falta.

Helena inclinou a cabeça levemente, sem tirar os olhos da garota.

— Então, por que estaria?

As palavras de Gigi vieram rápidas, carregadas de mágoa.

— Alguém deve ter falado algo de mim. Talvez ele ache que estou em perigo ou... sei lá.

Helena deixou o silêncio pairar por um momento antes de responder:

— Não acredito que seja só isso. Ele se importa com você, mesmo que não saiba demonstrar.

A explosão emocional de Gigi foi quase imediata. Seus olhos se encheram de lágrimas, e sua voz saiu embargada, entrecortada pelo choro.

— Ele nunca foi um pai para mim! Eu era só... só alguém que ele precisava ter por perto!

Helena estendeu a mão, tocando a de Gigi com firmeza. O gesto simples parecia carregar mais significado do que qualquer palavra.

— Eu não quero que você se feche para algo que pode ser importante — disse Helena, sua voz baixa e reconfortante. — Se ele está tentando, talvez tenha algo que você ainda não entende.

Gigi balançou a cabeça, negando com veemência.

— Você não entende — murmurou, os olhos fixos no prato. — Ele não é quem diz ser. Eu sei disso. Ele esconde algo de mim, algo que ele nunca me contou.

Helena ficou em silêncio, a preocupação evidente em sua expressão. Mas, em vez de pressionar, decidiu oferecer o que podia: sua presença e apoio. Ela sabia que algumas feridas só podiam ser tratadas com tempo e paciência.

Enrico enganou bastante a menina. Helena sabia disso, Enrico também sentia isso no fundo da alma. No coração quebrantado, vinha-lhe o pensamento inevitável: já a havia perdido há muito tempo. Desde que aceitara deixá-la sair de Pormadre, desde que permitira que se afastasse, sem garantir que estaria protegida. A colocara num jogo perigoso, uma peça frágil, cercada pelos veteranos do jogo de poder astuto de Monte dos Reis. A culpa era dele. Totalmente dele.

E agora o pai estava envolvido, prestes a descobrir também o segredo.

Gustavo jamais aceitara mentiras, jamais perdoara traições. Se soubesse que a neta que nunca vira não era sua neta de verdade, que fora enganado pelo próprio filho, poderia ferir qualquer consideração que tivesse pela menina. Poderia descartá-la, ignorá-la, rejeitá-la sem remorso. Enrico não sabia se poderia evitar isso. Mas sabia que precisava tentar.

Na manhã seguinte, decidiu sair de Pormadre. Dispensou o chofer, preferiu ele mesmo dirigir. Ligou para Ettore enquanto acelerava pela estrada vazia. Informou, de maneira direta, que estava indo ver o pai e pediu que, caso soubesse de algo relevante, o avisasse.

Gustavo não estava nem aguardando receber visitas naquele horário em que tomava o banho de sol com o casal de cães maltês nos gramados de trás da mansão. Via os cães correndo no gramado, surgindo e reaparecendo nos túneis dos conjuntos bistrô do pátio. Reacendeu logo a dúvida quando chegaram lhe chamando para ver o filho que estava no salão.

Talvez fossem os rapazes que viera à sua mansão, retornando para mais uma ameaça ao filho. Gustavo se aproximou do salão, com aquela coragem que brotava do fundo do peito, decidido a enfrentar o que fosse necessário, qualquer palavra dura que viessem a lhe dizer, qualquer assunto que traziam. A cadeira de rodas motorizada veio zumbindo pelo corredor, como um sinal de que a quietude da casa estava prestes a ser quebrada. Enrico já se encontrava circulando pelo salão fechado, a mão esfregando a barba com um movimento pensativo, como se estivesse ponderando, a todo momento, se valeria a pena insistir no que já havia decidido. Mas foi só quando Gustavo entrou no salão que tudo pareceu tomar um rumo definitivo.

Enrico apertou as mãos, sacudiu para fora do bolso, levou um dedo à testa para se desviar um pouco do olhar surpreso do pai. Gustavo não iria entender que aquela visita pretendia ser breve, mas a verdade era que não deveria ser nada breve, Enrico teria muito que explicar.

— Acho que deveria ter ligado para informar que eu viria — disse, as palavras saindo com um tom de leve desconforto.

Gustavo respondeu, a voz firme, mas sem pressa de revelar o que pensava:

— As coisas não se resolvem com telefonemas.

Nunca Enrico falara tão sinceramente com o pai. Aquele tom, a dificuldade de manter o olhar fixo, não passavam despercebidos por Gustavo. Ele entendia que algo mais profundo estava ali, algo que não se resolvia com palavras vazias. Vincenzo era, sem dúvida, um nome que fazia o coração de Enrico bater diferente. Quase como se fosse irmão, mais velho, mas tão próximo. Dois anos de diferença, e sempre ao lado.

Enrico, sentindo o peso da confissão, falhou a voz ao dizer:

— Tudo tem a ver com Vincenzo.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou Gustavo, a voz grave, mais por necessidade de entender do que por impaciência.

Enrico respirou fundo, sentindo a pressão das palavras que precisava dizer.

— Há muito mais envolvido do que o senhor imagina. Tem coisas que o senhor precisa saber, coisas que... que mudaram tudo.

Enrico hesitou, olhando para o pai com um misto de culpa e necessidade de se libertar daquele peso. Ele sabia que, naquele momento, estava prestes a jogar no ar algo que poderia mudar tudo entre eles. Mas não havia como voltar atrás.

Gustavo franziu a testa, como se estivesse tentando pegar as palavras no ar, tentando lembrar de algo vago que não conseguia pegar com clareza. A mente, embora ágil, estava ainda confusa com a revelação.

— Eu me lembro de algo... um rumor, um sussurro, mas nunca levei a sério que Vincenzo tivesse um filho.

Enrico, sem perder tempo, confirmou com um olhar sério.

— Ele teve um filho. E... Vincenzo me pediu ajuda para sumir com a criança. Foi algo que ele não podia deixar que ninguém soubesse. Ele confiou em mim, pediu que eu a tirasse de Monte dos Reis, que a escondesse.

— Você... você escondeu uma criança? — Gustavo perguntou, a voz embargada. Ele não queria acreditar no que estava ouvindo, mas sabia que Enrico não falava sem saber o que dizia.

Enrico, sentindo o olhar de julgamento do pai, apertou as mãos, as palavras saindo como se fosse um fardo que ele não podia mais carregar sozinho.

— Eu não podia deixar a criança em Monte dos Reis. Vincenzo me pediu. Ele sabia que a vida da criança estava em risco, e... e eu a tirei de lá, como ele pediu. Mas não era só isso, havia mais coisas envolvidas, coisas que ele não podia deixar que se soubessem.

Gustavo balançou a cabeça, tentando organizar as ideias, ainda incapaz de compreender tudo aquilo. Havia algo ainda mais sombrio, algo que ele sentia sem conseguir enxergar. A investigação de Caius era um detalhe, mas se entrelaçava de maneira perigosa com o que estava sendo revelado. Ele olhou para Enrico, esperando que as palavras do filho conseguissem explicar algo, qualquer coisa, que aliviasse o peso do momento.

Enrico, ainda nervoso, com a testa franzida, continuou, sua voz agora um pouco mais baixa.

— Caius mandou procurarem por mim. Ele queria saber onde estava a criança.

Gustavo fechou os olhos por um instante. Enrico, mordendo o lábio, desviou o olhar para o chão. O peso da confissão lhe pesava como uma pedra, e ele sabia que precisava ser sincero, apesar de tudo.

— Não tive coragem de entregar a criança para outra pessoa. Eu... eu não consegui fazer o que Vincenzo pediu.

A voz de Enrico falhou por um momento, e ele baixou os olhos, como se estivesse tentando evitar encarar a dor de suas próprias palavras.

— Eu... escondi ela, mas não de qualquer jeito. — Enrico continuou, a voz embargada, como se cada palavra fosse uma confissão, um peso que se acumulava. — Não quero que o senhor seja mais alguém a me julgar por isso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.