130

Ettore chegou à mansão de Enrico, sentindo a tensão no ar, uma sensação opressiva como se a noite estivesse carregada de uma tempestade iminente, apesar do céu claro lá fora. O coração acelerado, a urgência da chamada o fez atravessar a cidade com um aperto no peito. Enrico andava de um lado para o outro, sua inquietação palpável, como um animal enjaulado. Aquele homem, que sempre foi o epitome do controle, estava agora à beira de um colapso, os ombros curvados, os olhos fixos no chão. O peso do mundo parecia estar sobre ele, esmagando sua postura, sua confiança.

Enrico parou abruptamente. Os olhos dele, antes perdidos em um abismo de angústia, agora focaram em Ettore, e Ettore viu a dor transformando aquele homem quase irreconhecível. A dor estava em cada linha do rosto de Enrico, em cada movimento desajeitado.

— Não tenho ideia de onde ela está. Meu pai... — Enrico parou, engolindo em seco, o esforço de falar quase visível. — Eliane enviou homens até a mansão dele para me dar o recado. Ela quer que eu entre em contato.

O silêncio entre eles era denso, uma nuvem de chuva que parecia prestes a desabar sobre eles. A mente de Ettore voou para Helena, a única pessoa em quem Gigi confiava completamente. Talvez ela soubesse algo.

— E Helena? Você já tentou falar com ela? — A urgência na voz de Ettore era um reflexo da sua necessidade desesperada de respostas, de qualquer pista que pudesse iluminar o caminho em meio ao caos.

Enrico hesitou, seus olhos se fixando em um ponto indefinido, uma confusão palpável em seu olhar.

— Não... — A voz dele vacilou, como se a ideia de Helena, a mãe de criação, estivesse lutando para fazer sentido em meio à desordem. — Ela nunca faria algo assim comigo.

Ettore observou, o ceticismo crescendo. Não se tratava de trair Enrico, mas Helena poderia ter informações que ninguém mais tinha.

— Mesmo assim, vale a pena tentar — insistiu Ettore, cruzando os braços. Sua voz desafiava a lógica de Enrico, desafiava a desesperança.

Enrico pegou o celular, suas mãos trêmulas e hesitantes. Cada toque na tela parecia um esforço monumental. O telefone tocou, e o som parecia se arrastar no ar, uma repetição interminável, cada toque amplificando a angústia crescente de Enrico. O silêncio que se seguiu quando Enrico desligou era um eco de desespero, o botão pressionado quase com força demais. Ele respirou fundo, fechando os olhos, lutando para manter o controle.

— Deve estar no trabalho ainda... — disse Enrico, a frase uma tentativa de desculpa, uma tentativa de racionalizar o que parecia irracional. O nervosismo na voz de Enrico era palpável, cada palavra carregada de medo e incerteza.

— Pode ser... — Ettore murmurou, mas o tom cético era uma sombra da própria dúvida. — Mas liga de novo mais tarde. Se Helena souber de algo... não podemos perder tempo.

O silêncio se reinstalou entre eles, pesado e sufocante. Enrico, com os olhos perdidos, parecia cada vez mais esmagado pela ausência de sua filha, e Ettore, com o olhar fixo no amigo, sentia a profundidade da crise iminente. A noite continuava, densa e opressiva, como se o desaparecimento de Gigi fosse apenas o início de algo maior e mais sombrio, algo que ninguém estava verdadeiramente preparado para enfrentar.

131

Nem mesmo Helena, que lutara com todas as forças para desviar Gigi de seus próprios caminhos, estava pronta para as consequências das escolhas da jovem.

Com o corpo cansado e a mente ainda ocupada com os afazeres do dia, Helena saiu do trabalho. A noite já havia caído, e a rua à sua frente era simples, comum como tantas outras da cidade, mas naquela hora tinha um encanto especial. Os postes de luz lançavam uma claridade amarelada sobre as calçadas, iluminando as folhas caídas das árvores que se espalhavam pelo chão, como pequenos sussurros do vento. O céu, negro e sem estrelas visíveis, parecia acolher a rotina calma daquele pedaço da cidade.

Ela caminhava devagar, os passos ritmados no compasso da rua tranquila, onde as pessoas, como ela, voltavam para casa após um dia de trabalho. Mulheres com sacolas de mercado, homens de paletó mais surrado do que novo, jovens conversando em voz alta enquanto seguiam para seus destinos. As vidas comuns se misturavam nas esquinas, sem pressa, sem alarde, apenas o movimento cotidiano de uma cidade que respirava em paz.

Os sapatos de Helena batiam suavemente contra a calçada de pedras irregulares. Às vezes, uma pedra levantada lhe causava um pequeno incômodo, mas não o suficiente para quebrar o ritmo da caminhada. Ela conhecia aquele caminho como conhecia as linhas das mãos, já tinha passado tantas vezes por ali, sob o mesmo céu noturno. As casas alinhadas ao longo da rua, com suas fachadas simples, traziam a familiaridade de sempre. Janelas abertas, cortinas dançando ao vento, e o cheiro de comida começava a se espalhar, anunciando os jantares que logo estariam nas mesas.

Ela pensava em Gigi, em como a garota devia estar à sua espera, talvez já impaciente. Helena prometera trazer algo para jantarem juntas. Havia uma pizzaria na esquina, e era para lá que se dirigia. O cheiro de massa e queijo derretido já lhe chegava às narinas antes mesmo de avistar o letreiro modesto. Era um lugar frequentado por gente do bairro, operários, estudantes, todos atraídos pelo preço acessível e pelo calor reconfortante que o forno de lenha exalava.

O caminho até lá não era longo, mas naquela noite parecia que cada passo a levava mais fundo nas lembranças. As ruas sempre lhe traziam isso, fragmentos de uma vida passada, como se as pedras no chão guardassem histórias que se misturavam às suas. Ao longe, um casal de idosos caminhava lado a lado, os ombros quase se tocando, e Helena, por um momento, sentiu o peso de sua própria solidão.

Ela chegou à pizzaria e entrou.

Com a caixa de pizza nas mãos, Helena seguiu seu caminho de volta para casa. A rua onde morava, agora mergulhada na escuridão da noite, parecia mais silenciosa e deserta. As luzes dos postes eram poucas e fracas, lançando sombras longas e distorcidas que pareciam dançar nas paredes das casas. O som distante de uma bicicleta, guiada por um jovem com ares de pressa, cortava o silêncio esporádico, mas logo se perdia na vastidão da calma noturna.

O vento soprava com um frescor cortante, e Helena sentia o frio se infiltrando através da camiseta fina que usava. Seus braços começaram a tremer ligeiramente, e ela apertava a pizza contra o peito na tentativa de aquecer um pouco suas mãos congeladas. O ar noturno parecia mais denso, como se a cidade estivesse em um sono profundo, sem se importar com a brisa fria que envolvia cada esquina.

Ao se aproximar da entrada de sua casa, Helena encontrou a chave com dedos que se moviam com dificuldade. O frio a fazia apressar o gesto, e ao inserir a chave na fechadura, ela girou-a com rapidez quase desesperada. O clique da porta sendo destrancada ecoou no silêncio, e Helena empurrou-a com uma pressa visível, como se esperasse que o calor e o conforto a recebessem de braços abertos.

Ao atravessar o limiar da casa, o contraste era imediato. O calor acolhedor do interior envolveu-a como um abraço cálido. A luz suave das lâmpadas internas, amarelada e relaxante, parecia abraçar cada canto da sala, espantando o frio que havia a acompanhado do lado de fora. Helena suspirou aliviada, permitindo que o calor se infiltra-se lentamente em seus músculos, que ainda tremiam com a lembrança da frieza. Ela se dirigiu para a cozinha, onde o cheiro da pizza, agora misturado ao aroma familiar de sua casa, enchia o ar e prometia um conforto bem-vindo.

Helena sentiu uma sensação estranha de vazio ao adentrar sua casa, mesmo com as luzes da sala acesas, como se a ausência de Gigi criasse uma sombra invisível que pairava sobre os cômodos. O silêncio estava impregnado na atmosfera, profundo e pesado, como se o próprio espaço estivesse segurando a respiração.

Com a pizza agora deixada sobre a mesa da cozinha, Helena dirigiu-se ao próprio quarto que havia preparado com tanto carinho para Gigi. A colcha amarela com bolinhas brancas estava perfeitamente estendida, e a presença de Gigi, embora esperada, parecia estranhamente ausente. Helena parou na porta, ouvindo o silêncio absoluto que emoldurava o quarto. O cheiro familiar das flores do lençol misturava-se com a fragrância suave de sabonete, criando um contraste sutil com a frieza que ainda sentia.

Com cuidado, Helena empurrou a porta devagar, o som leve da dobradiça interrompendo o silêncio com um murmúrio quase imperceptível. Seus olhos, já acostumados com a luz suave da sala, ajustaram-se ao tom mais sombrio do quarto. Ela viu Gigi deitada na cama, com as costas voltadas para a porta. A jovem estava mergulhada em um sono profundo, os ombros levemente elevados sob a colcha amarela, que parecia brincar com a luz tênue que penetrava pela fresta da porta.

Helena entrou com passos leves, cada movimento calculado para não perturbar o sono tranquilo de Gigi. Observou a jovem com um olhar de ternura e preocupação, o rosto suavizado pela paz do descanso. A luz do quarto dançava suavemente nas feições de Gigi, projetando um brilho quase celestial sobre ela.

Sentindo a intensidade do amor e da proteção que sempre ofereceu a Gigi, Helena se aproximou lentamente e ajustou a colcha que estava um pouco deslocada, cobrindo-a melhor. O calor da casa e o conforto da cama proporcionavam a Gigi um refúgio tranquilo, que Helena sabia ser o que ela precisava. Com um último olhar de carinho, Helena se afastou, fechando a porta com suavidade. Deixou Gigi em sua calma e pacífica solidão, um espaço onde a tranquilidade contrastava com a inquietação que ainda pulsava em seu coração. À medida que se dirigia para a sala, o leve peso nos ombros parecia aliviar, embora uma leve inquietação permanecesse.

132

Na sala escura, o ambiente estava imerso na luz tênue da televisão, que projetava sombras vacilantes nas paredes. O som baixo do programa que passava na tela preenchia o silêncio da noite, acompanhando o eco distante da frieza que se insinuava pelas frestas da janela. Sobre a mesa de centro, o prato com restos da pizza e os talheres dispostos de maneira quase displicente contrastavam com os guardanapos amassados ao lado.

Envolta em um lençol fino, que curiosamente retinha um calor acolhedor, Helena se aconchegava no sofá, sentindo o cansaço do dia pesar sobre seus ossos. As pernas encolhidas sob o tecido, os olhos semicerrados, acompanhavam as imagens na TV sem realmente vê-las. A sala, embora escura, não parecia ameaçadora, mas sim um refúgio contra o frio lá de fora. O leve tremor dos braços que antes sentira na rua agora estava longe, dissipado pelo calor do interior da casa e pelo aconchego do sofá.

O silêncio quase absoluto da casa parecia absorver qualquer som exterior, tornando aquele momento um respiro de paz. No entanto, Helena sentia algo no ar, uma inquietação silenciosa que latejava no fundo da mente. Talvez fosse a preocupação com Gigi, que dormia no quarto ao lado. Talvez fosse a solidão que, vez ou outra, se instalava, mesmo nos momentos mais tranquilos. O brilho da TV continuava a projetar luzes e sombras, enquanto os pensamentos vagavam lentamente, embalados pela suave sensação de calor e pela calma momentânea que aquela noite trazia.

Helena, deitada no sofá, já quase no torpor do sono, percebeu o leve deslizar dos pés descalços sobre o piso liso de madeira. Um movimento sutil, um som abafado, como um sussurro da casa, trouxe de volta a sua atenção para a sala. Seus olhos, pesados de cansaço, se abriram devagar, ajustando-se à penumbra iluminada apenas pela televisão. Lá, na entrada da sala, estava Gigi, com o corpo meio encolhido, vestida com um moletom largo que quase a engolia.

Os olhos de Gigi ainda carregavam o peso do sono, semi-abertos, confusos, como se sua mente estivesse a meio caminho entre o sonho e a realidade. Seus cabelos, levemente bagunçados, caíam desordenados sobre os ombros, e o rosto, com a expressão perdida, revelava a fragilidade de quem havia sido arrancada do descanso sem entender ao certo o motivo.

Helena se ergueu um pouco no sofá, apoiando-se nos cotovelos, o lençol escorregando para o chão em um gesto descuidado. Olhou para Gigi com ternura, uma mistura de preocupação e afeto, como uma mãe que observa a filha depois de um longo pesadelo.

— O que houve, minha menina? — murmurou Helena, a voz carregada de doçura, quase um canto, enquanto estendia uma mão em direção a Gigi.

A jovem não respondeu de imediato, piscando devagar, como se ainda estivesse tentando afastar o véu dos sonhos. Caminhou, então, devagar até o sofá, os pés silenciosos no chão frio, e se aninhou ao lado de Helena, sem dizer uma palavra, como se aquele simples gesto de aproximação fosse suficiente para afastar qualquer inquietação que o sono lhe tivesse causado.

Helena a olhou com carinho, ajeitando o lençol para cobrir um pouco mais Gigi, que se aninhava ao seu lado com aquele jeito de criança perdida no sono. A sala, quase em penumbra, respirava o silêncio da noite, quebrado apenas pelo murmúrio baixo da televisão. Com a voz mansa e o olhar que carregava o cansaço de anos, Helena disse, quase num sussurro:

— Tem pizza na geladeira, se quiser. É só esquentar no microondas.

Gigi piscou devagar, ainda despertando, e sua voz saiu baixa, um fio rouco, como se o sono ainda estivesse em sua garganta:

— Faz tempo que você chegou?

Helena sorriu de leve, acariciando o braço da menina com um gesto automático, quase maternal.

— Não muito. Entrei no quarto, te vi dormindo... — disse com uma voz suave, quase um carinho nas palavras. — Peguei só umas coisas e vim pro sofá.

Gigi ficou em silêncio por um instante, os olhos ainda pesados, piscando devagar enquanto a luz da televisão parecia mais um borrão de cores do que qualquer imagem clara. O silêncio entre as duas era acolhedor, não havia necessidade de palavras. Depois de alguns segundos, ela se afastou de Helena, levantando-se devagar, num movimento meio hesitante, mas certo, indicando com o gesto que iria à cozinha comer.

Helena a observou de soslaio, vendo a garota caminhar lentamente em direção à entrada da sala. Com um suspiro leve, ela também se levantou, os pés descalços tocando o piso liso e frio de madeira, e seguiu Gigi em direção à cozinha, sem dizer nada, apenas respeitando o ritmo tranquilo daquela noite.

Helena, já acostumada com o escuro da casa, estendeu a mão e ligou o interruptor, fazendo a luz branca da cozinha acender com um estalo seco. Gigi franziu o rosto de imediato, os olhos espremidos, tentando se ajustar à claridade repentina. O ambiente ainda lhe parecia embaçado, como se os últimos resquícios de sono insistissem em cobrir-lhe a visão.

A cozinha era simples, sem luxo, mas acolhedora. A mesa bancada de madeira estava posicionada em frente ao balcão da pia. Os poucos utensílios, organizados com esmero, repousavam no escorredor ao lado da pia.

Gigi caminhou até a bancada, sem pressa. Puxou uma das banquetas, o rangido leve dos pés de madeira ressoando no chão. Quando se sentou, sentiu os pés descalços tocarem o tapete cromático baixo que ficava sob as banquetas, um tecido simples que dava um toque de cor à cozinha. Ela se acomodou ali, o corpo ainda levemente encolhido, mas começando a despertar por completo.

Enquanto Gigi se acomodava na bancada, Helena se dirigiu à geladeira com uma familiaridade que a fazia se mover quase com uma graça inconsciente. A porta da geladeira se abriu com um estalo suave, revelando o interior simples e ordenado. Helena pegou a caixa de pizza, que ainda conservava o calor. Com cuidado, ela retirou duas fatias e as colocou em um prato de porcelana simples, com uma leve decoração azul ao longo das bordas.

Dirigindo-se ao microondas, Helena depositou o prato no interior do aparelho, girou o botão para ajustar o tempo e acionou o aparelho. O zumbido característico começou a preencher a cozinha, misturando-se com o suave tilintar de utensílios e o sussurro da ventilação. Enquanto esperava, Helena virou-se para Gigi, que estava começando a despertar por completo.

— E então, como foi lá na cidade, em Monte dos Reis? — perguntou Helena, sua voz suave e cheia de interesse. Ela tentou infundir uma dose de leveza na pergunta, para que Gigi se sentisse à vontade para falar, mesmo enquanto o cheiro da pizza começava a encher o ambiente com uma sensação de aconchego.

Gigi desviou os olhos ainda marejados, tentando organizar as ideias que se entrelaçavam na mente embotada pelo sono. Com um suspiro que parecia carregar o peso do dia, ela respondeu com um tom que ainda carregava vestígios de sono.

— Foi normal — disse Gigi, com um olhar que tentava se desprender das sombras do cansaço.

Nesse instante, o microondas emitiu um bip sonoro, anunciando o término do tempo. Helena virou-se rapidamente, seus movimentos ágeis e habituais, e abriu a porta do aparelho com uma precisão prática. O prato com as duas fatias de pizza estava quente e liberava uma fina camada de vapor que se espalhava pela cozinha, misturando-se com os aromas que preenchiam o ambiente.

Helena retirou o prato com cuidado, usando um pano para não se queimar, e o colocou sobre a bancada ao lado de Gigi. A pizza estava coberta com uma camada dourada de queijo, e o vapor ainda fazia a superfície brilhar suavemente sob a luz branca da cozinha.

Helena voltou para a sala, onde a televisão continuava sua transmissão monótona, lançando um brilho esmaecido sobre o ambiente. Ela se inclinou para baixo e retirou o celular debaixo de uma almofada, que estava afundada no sofá, e pressionou o botão para verificar se havia alguma notificação. O display iluminou seu rosto por um instante.

Com o celular em mãos, Helena retornou à cozinha e se acomodou na banqueta ao lado de Gigi, o móvel balançando suavemente com seu peso. Ela olhou para Gigi, que estava começando a saborear as fatias de pizza, e disse, com um tom que misturava a casualidade de uma conversa diária com uma pitada de seriedade:

— O seu pai ligou para mim. — Helena fez uma pausa breve, observando a reação de Gigi. — Eu não atendi.

Gigi ergueu os olhos, a surpresa atravessando seu semblante ainda entorpecido pelo sono. A notícia fez com que ela parasse por um momento, a pizza na mão, enquanto a mente começava a processar a nova informação.

— Ele começou a me ligar no trabalho — disse Helena, com a expressão preocupada. — Alguém soube que você veio para cá?

A voz de Helena carregava um tom de ansiedade, misturado com a preocupação de uma mãe que sentia uma responsabilidade profunda.

Gigi hesitou, os pensamentos se movendo lentamente enquanto tentava organizar a resposta. Com um olhar ainda meio atordoado, ela respondeu, um pouco sem jeito:

— Só um amigo meu... que me trouxe aqui.

Helena ergueu uma sobrancelha, sua expressão mostrando um misto de curiosidade e dúvida. A menção do “amigo” parecia incomodar um pouco, como se um enigma fosse lançado sobre quem poderia ser essa pessoa. A preocupação em seu olhar era clara, uma interrogação não dita pairando no ar.

— Que amigo? — perguntou Helena, a voz carregada de um interesse cauteloso.

Gigi, notando a reação de Helena, sentiu a necessidade de esclarecer.

— Um colega que eu conheci. Ele só me trouxe e foi embora depois — explicou, tentando oferecer um pouco mais de contexto, mas sem muita convicção.

O rosto de Helena suavizou um pouco, mas a sombra da inquietação ainda permanecia. Ela estava tentada a questionar mais sobre esse “amigo”, mas o cansaço e a necessidade de manter a calma a fizeram guardar essas perguntas para um momento mais apropriado. Ela olhou para Gigi, que agora parecia mais alerta, e fez um esforço para disfarçar a tensão que sentia.

Gigi, embora ainda um pouco atordoada, levou o pedaço de pizza a boca , tentando se envolver na simplicidade do momento. Helena se ajustou ao lado dela, e a refeição, que deveria ser um conforto simples, parecia agora carregar o peso de uma situação muito mais complexa e angustiante.

133

Eliane também sentia a angústia tomar conta. A mesma sensação de peso e desconforto parecia pairar sobre ela. Estava no quarto, ainda tentando processar os acontecimentos que, aos poucos, se misturavam com o cansaço da mente. Ao seu lado, Pasini estava sentado na poltrona de couro, com o semblante sério e cansado. Tinha trazido algumas bolachas para beliscar, já que nem ele nem Eliane haviam jantado direito. Agora, enquanto mastigava lentamente, sentia o aperto no estômago, a forma rígida da calça parecendo sufocá-lo.

— Não sei se isso vai me fazer bem — murmurou ele, sem tirar os olhos da janela, como se esperasse que o horizonte lhe trouxesse alguma resposta.

Eliane não respondeu de imediato. Seu olhar estava fixo no teto, como se tentasse encontrar nele algum sentido para o caos que a cercava. Sabia que algo estava para acontecer, algo maior que qualquer bolacha ou qualquer conversa.

Eliane se levantou de repente, como quem sacode a apatia de um corpo exausto. Os pés tocaram o chão com leveza, mas a mente carregava um peso que nem mesmo o silêncio do quarto podia amenizar.

— Para onde você vai? — perguntou Pasini, interrompendo o som suave de seus passos. Ele a observava com um olhar curioso, embora houvesse no fundo dele uma preocupação oculta.

— Vou mandar fazerem um chá para eu dormir — respondeu ela sem olhar para trás, a voz baixa, quase arrastada, como se o simples ato de falar exigisse mais esforço do que ela podia dispor naquele momento.

Pasini pensou em sugerir que ela pegasse algo para comer. As bolachas estavam acabando no pote, e ele sentia o estômago protestar, mas as palavras ficaram presas na garganta. O olhar cansado de Eliane e o tom ausente a fizeram parecer inalcançável. Ele suspirou, levantou-se devagar, ainda mastigando a última bolacha, e decidiu segui-la escada abaixo.

Na cozinha, uma empregada se movimentava em silêncio. Eliane entrou descalça, o frio do azulejo subindo dos pés para o corpo, mas ela não se incomodou. Havia uma estranha tranquilidade no contraste entre o ambiente frio e o turbilhão de pensamentos que girava em sua mente.

Ela pediu o chá, sem muita cerimônia, os olhos perdidos em algum ponto além da cozinha. A empregada acenou com a cabeça, já se movendo em direção à chaleira.

Pasini, inquieto, começou a abrir os armários, suas mãos grandes percorrendo os puxadores de madeira escura. Estavam todos alinhados, as prateleiras impecáveis, mas ele procurava algo específico. Talvez um lanche. Talvez algo que preenchesse o vazio incômodo que sentia, aquele que nem as bolachas puderam amenizar. O barulho dos armários se abrindo ecoava pelo cômodo, interrompido apenas pelo estalar suave da chaleira no fogo.

— E o jantar guardado? — perguntou ele à empregada, enquanto abria a geladeira. O brilho forte da luz interna iluminou as bandejas, ainda fechadas e organizadas, uma visão de comida esquecida.

Eliane, encostada na ilha central da cozinha, observava a cena com uma calma estranha, quase distante. Os olhos seguiam os movimentos do marido que vasculhava as bandejas, mas sua mente estava em outro lugar, longe dali.

— Pedrina e Luca já jantaram? — Eliane perguntou, cruzando os braços sem olhar diretamente para a empregada.

A empregada respondeu com uma leve hesitação, contando que havia levado a refeição de Luca até o quarto, e para Pedrina também, mas que a menina estava um pouco quieta. Não tinha certeza se ela havia comido de fato, já que Pedrina parecia distante, como se algo estivesse incomodando-a.

Eliane assimilou a informação em silêncio, enquanto Pasini, agora segurando uma das bandejas, levantou o olhar e perguntou:

— O que ela tem?

Eliane suspirou, como quem já antecipava a resposta.

— Eu gritei com ela, — disse, a voz carregando uma leve culpa. — Provavelmente, está zangada.

Pasini assentiu, mas ficou em silêncio, continuando a mexer nas bandejas com a mão ligeira de quem conhece os próprios gestos de cor. Pegou um prato e, sem muito critério, foi montando-o com pedaços de carne e alguns legumes que encontrou. Levou o prato até o microondas, apertou os botões, e o som do aparelho começou a preencher o silêncio da cozinha.

Eliane, por sua vez, ainda sentindo o frio do azulejo nos pés descalços, decidiu que não aguentaria mais ficar ali. Sem uma palavra, virou-se e saiu da cozinha, os passos ecoando pelo corredor enquanto esperava que o chá ficasse pronto. Subiu as escadas devagar, como se cada degrau fosse uma tentativa de afastar o desconforto que a perseguia.

Quando chegou ao topo, sem pensar muito, resolveu ir ao quarto de Pedrina. Algo na inquietação da menina a puxava naquela direção, como se fosse necessário acalmar o que havia agitado antes.

Eliane abriu a porta do quarto sem fazer ruído, entrando com cuidado, como quem sabe que o silêncio é parte da própria presença. A luz suave do abajur iluminava o espaço, e seus olhos imediatamente encontraram os de Pedrina. A menina estava sentada no grande tapete de lã rosa, no centro do quarto, as pernas cruzadas, o olhar fixo, profundo, como se já soubesse da visita.

Eliane varreu o quarto com um olhar rápido e viu o prato intocado na mesinha redonda ao lado do tapete, o cheiro da comida ainda leve no ar. Ela deu um passo à frente e perguntou, com voz baixa:

— Você não vai comer?

Pedrina ficou sem jeito diante da pergunta da mãe. Estava desconcertada, o desconforto visível nos pequenos movimentos que fazia com as mãos, como se buscasse uma resposta. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, ouviu os passos do pai se aproximando. Pasini apareceu na porta ao lado de Eliane, sua presença robusta preenchendo o espaço de forma tranquilizadora. Sem perder tempo, ele se aproximou de Pedrina, perguntando suavemente como ela estava, enquanto se abaixava e a tomava nos braços.

Pedrina, ainda mais sem graça, deu um leve gesto, como se tentasse esconder o embaraço. Sua carinha triste refletia o turbilhão de sentimentos. Ela lançou um olhar rápido para Eliane, que permanecia na porta, observando. Mas logo, sem conseguir se conter, começou a chorar. O choro veio silencioso no início, enquanto virava o rosto, como se tentasse esconder as lágrimas. Quando as primeiras lágrimas caíram, ela encostou a cabeça no ombro do pai, e o choro se intensificou, soluços quebrando o silêncio do quarto.

Eliane entrou no quarto e se aproximou de Pedrina, que ainda chorava nos braços de Pasini. Com um movimento cuidadoso, Eliane retirou a menina dos braços do pai. Pedrina hesitou por um momento, mas logo se acomodou no abraço da mãe, o rosto ainda molhado de lágrimas.

Pasini percebeu que o momento era íntimo e decidiu sair. Murmurou que ia verificar a comida que havia esquentado e deixou o quarto. A porta se fechou suavemente atrás dele, deixando Eliane sozinha com Pedrina.

Eliane sentou-se na beirada da cama, segurando Pedrina com cuidado. O quarto mergulhou em um silêncio profundo, quebrado apenas pelo choro suave da menina. Eliane balançava Pedrina gentilmente e acariciava seu cabelo, tentando acalmá-la enquanto refletia sobre como lidar com a situação.

— Eu não vou mais gritar com você — disse com voz suave.

Pedrina, lentamente, começou a se acalmar. Seus soluços diminuíram e o choro se transformou em um leve tremor. Eliane observou a transformação com um alívio silencioso e, ao perceber que a menina estava começando a se acalmar, inclinou-se um pouco mais, ainda mantendo a voz calma.

— O que você estava querendo me dizer? — Eliane, com a voz suave, perguntou a Pedrina sobre o que a menina estava tentando dizer mais cedo antes de tudo ter começado a desmoronar.

Pedrina ficou em silêncio, enquanto Eliane, com um olhar de expectativa, aguardava uma resposta. Eliane estava considerando reformular a pergunta, mas a menina se afastou um pouco do seu abraço, ainda sem falar.

Eliane perguntou a Pedrina se o problema tinha a ver com seu irmão, observando a menina balançar a cabeça negativamente. Então, questionou sobre a avó, mas Pedrina também negou com a cabeça. Quando Eliane mencionou Kadu, Pedrina permaneceu em silêncio, sem fazer nenhum movimento que confirmasse ou negasse a pergunta.

— Ele fez alguma coisa com você? — Eliane perguntou, a voz carregada de preocupação.

Pedrina, com o rosto ainda molhado de lágrimas, respondeu:

— Ele é mentiroso.

Eliane olhou para Pedrina com um misto de curiosidade e preocupação. — Ele mentiu para você? — perguntou, sua voz suave e um pouco trêmula, como se buscasse confirmar o que já temia.

Pedrina balançou a cabeça lentamente, um gesto que demonstrava sua confusão e desânimo. Com a voz pequena e sincera, ela respondeu: — Ele mentiu pra senhora.