127

A mesa de xadrez estava disposta num canto reservado do salão da mansão, o tabuleiro de madeira escura refletindo o brilho suave das luzes que começavam a enfraquecer com a chegada do crepúsculo. Gustavo, sentado em sua cadeira de rodas motorizada, movia as peças com lentidão calculada, seus dedos enrugados e hábeis se estendendo além da mesa para tocar as peças brancas com a destreza de quem já jogara milhares de partidas. O oponente daquela noite era um dos empregados, sempre à disposição para acompanhá-lo nos jogos de mesa. O jovem, com a expressão focada, esperava pela próxima jogada.

Do lado de Gustavo, o pequeno cão maltês, Jôjo, circulava a mesa, farejando curiosamente o ambiente, como se as peças do xadrez também fossem alvos de seu olfato aguçado. De vez em quando, o nariz úmido de Jôjo roçava os dedos expostos de Gustavo, que apenas sorria com a distração temporária.

Lá fora, a noite caía com uma rapidez inquietante. As sombras, como dedos compridos, invadiam o salão, cobrindo os móveis de veludo e os retratos antigos nas paredes. O crepitar das luzes parecia um sussurro de despedida do sol, que desaparecia rápido no horizonte, deixando o ambiente mais denso e carregado de mistério e antecipação.

Gustavo, imerso na partida, estava alheio a tudo isso. Seus olhos estavam fixos no tabuleiro, onde, com um leve movimento, ele deslocou sua torre.

— Xeque — disse com uma voz baixa, mas firme, inclinando-se levemente para frente, satisfeito com a jogada.

A partida foi interrompida pela chegada do mordomo, que entrou no salão com passos rápidos e discretos, como se estivesse interrompendo algo de grande importância.

— Senhor Gustavo — chamou o mordomo com o respeito característico, sua voz carregada de urgência —, dois carros acabaram de chegar à entrada da mansão.

Gustavo ergueu o olhar, franzindo o cenho. Dois carros? O pensamento atravessou sua mente: Enrico. Seu filho viera visitá-lo na sua chegada a Monte dos Reis, praticamente forçado pela obrigação, e Gustavo sabia que isso não era uma constante. Enrico sempre aparecia com uma atitude fria, apenas suportando a visita por consideração ao pai. Mas por que agora? E por que dois carros? Algo parecia deslocado, e a inquietação crescente no ambiente parecia pressagiar algo mais.

Ele acenou para o empregado interromper a partida e, com um gesto fluido, manobrou a cadeira de rodas motorizada em direção ao pátio. Jôjo o seguiu de perto, farejando os rastros deixados no chão, sua cauda abanando lentamente como se sentisse a mudança no clima.

Quando Gustavo alcançou a entrada, a noite já havia se estabelecido completamente. Os faróis dos carros pretos iluminavam a fachada da mansão, projetando sombras inquietas nas paredes de pedra. O vento leve fazia as folhas das árvores sussurrarem em um tom de melancolia. Alguns rapazes desceram dos carros. Um deles, o mais jovem, aproximou-se com pressa, parecendo ansioso e nervoso.

— Essa é a mansão de Gustavo? — perguntou o rapaz, com um tom direto e sem cerimônia.

Gustavo assentiu, o olhar desconfiado.

— Sim, sou eu. Quem está me procurando?

O rapaz respirou fundo, trocando um olhar rápido com os outros homens, antes de responder:

— Foi Eliane, a herdeira dos Tarantino. Ela nos mandou até aqui porque a filha do seu filho desapareceu de Monte dos Reis. — O rapaz parou, medindo as palavras, observando a reação de Gustavo, que o encarava agora com olhos arregalados. — Ela disse que era para o senhor entrar em contato com o seu filho, se ele não quiser arrumar mais problemas. Que entre em contato com Eliane.

Gustavo ficou paralisado por um momento. A cadeira de rodas, imóvel, parecia refletir sua confusão. A neta desaparecida? Em Monte dos Reis? O que diabos estava acontecendo? Ele mal sabia que Gigi estava por lá, muito menos envolvida em algo que precisasse da intervenção de Eliane e de homens em carros pretos. A tensão e o choque eram palpáveis, e o ambiente ao redor parecia se fechar, tornando a mansão um palco para uma crise que Gustavo nunca esperaria enfrentar.

128

Enrico estava no salão de estudo, imerso na quietude que antecedia seu habitual ritual de ouvir rádio e ler trechos da Bíblia. Seus pensamentos vagavam entre as preocupações cotidianas e a serenidade momentânea que tentava cultivar. A tranquilidade do final da tarde o envolvia como um manto, mas ele mal sabia que o desenrolar dos próximos minutos mudaria completamente a atmosfera de sua noite.

O mordomo entrou com passos leves, sua figura esguia movendo-se com a precisão e o cuidado de quem conhecia bem o protocolo da casa. Sem uma palavra, o homem fez um gesto discreto, indicando que Enrico deveria atender uma ligação urgente. O coração de Enrico acelerou ao ver o semblante do mordomo; raramente ele interrompia seu patrão por qualquer coisa que não fosse grave. Aquele chamado parecia pressagiar algo importante.

Sem demora, Enrico se levantou e seguiu para a sala onde o telefone já o aguardava. À medida que se aproximava, sua mente começou a repassar os eventos recentes, especialmente os que envolviam Gigi. Ele ainda estava processando o fato de ela estar em Monte dos Reis, cercada pela influência perigosa de Eliane, mas não imaginava o que aquela ligação traria de revelador.

Assim que pegou o telefone, Enrico ficou imóvel por um momento, aguardando a conexão. A respiração pesada no outro lado da linha foi a primeira coisa que ele percebeu, antes de ouvir a voz familiar.

— Oi, Enrico. — A voz de Gustavo estava fraca, carregada de um cansaço que Enrico reconheceu de outras conversas com seu pai. Porém, desta vez, havia algo a mais. Um peso. Uma preocupação tangível.

Enrico tentou manter a calma. Sua relação com Gustavo, embora pautada no respeito, sempre fora delicada. Ele respirou fundo e respondeu, tentando disfarçar sua própria ansiedade.

— Oi, pai. Estou bem. O que houve? — Apesar de suas palavras tranquilizadoras, havia uma urgência latente em sua voz.

Do outro lado da linha, Gustavo parecia hesitar por um momento. Enrico imaginou que o pai talvez estivesse organizando seus pensamentos, buscando a melhor maneira de expor o que tinha a dizer. Quando finalmente falou, sua voz carregava um misto de cansaço e frustração.

— Eu não sabia que a minha neta estava em Monte dos Reis. Você não me contou nada sobre isso. — A voz de Gustavo, embora calma, soava acusatória. Enrico sabia que seu pai não lidava bem com omissões.

Enrico esfregou a testa, uma sensação de culpa misturando-se à apreensão que já sentia. Ele hesitou por um momento, tentando encontrar uma justificativa plausível. Sabia que deveria ter informado Gustavo, mas tantas coisas estavam acontecendo que ele simplesmente não conseguiu priorizar aquela conversa.

— Como o senhor soube disso? — Sua voz, um tanto trêmula, revelava a tensão que ele tentava esconder.

Gustavo, do outro lado da linha, fez uma breve pausa antes de responder. Quando falou novamente, o tom era carregado de uma gravidade que fez o estômago de Enrico revirar.

— Você conhece Eliane? Foi ela que me enviou uns rapazes para procurar por mim. Eles disseram que a sua filha sumiu de Monte dos Reis. — A menção de Eliane fez o coração de Enrico pular no peito. Aquela mulher parecia sempre estar um passo à frente, manipulando os eventos à sua maneira.

Eliane. Ele sabia que algo estava errado desde que Gigi foi levada para lá. Ela sempre foi uma peça-chave nos jogos de poder, uma mulher de intenções ocultas e ambições perigosas. Agora, descobrir que Gustavo havia sido arrastado para aquela confusão deixava Enrico ainda mais nervoso. Ele sentiu a garganta secar enquanto tentava processar o impacto daquela revelação.

— Ela sumiu? — Enrico quase sussurrou a pergunta. Seu corpo ficou tenso, como se o peso da situação estivesse pressionando cada fibra de seu ser. A simples ideia de que Gigi estava desaparecida em Monte dos Reis, sob a influência de Eliane, o deixava em pânico.

— Sim, parece que sim. Eliane queria que você entrasse em contato com ela. Isso é sério, Enrico. — O tom de Gustavo era enfático, sua paciência evidentemente esgotada. Ele não estava apenas frustrado com o filho por não ter lhe contado antes, mas também temia pelas implicações da situação.

Enrico ficou paralisado por um momento. Sua mente corria em círculos, tentando entender como tudo havia saído de controle tão rapidamente. O desaparecimento de Gigi era um pesadelo que ele não tinha antecipado. Ele sempre soube que Eliane não era confiável, mas jamais esperava que ela fosse capaz de manipular a situação a esse ponto.

Gustavo, percebendo a hesitação de Enrico, decidiu pressionar ainda mais.

— Enrico, o que está acontecendo? Por que você não me contou sobre a situação da sua filha? O que está se passando? — A voz do pai, que geralmente era moderada, agora transbordava uma preocupação que ele raramente demonstrava.

Enrico respirou fundo, mas suas palavras saíram vacilantes, enquanto ele tentava desesperadamente encontrar uma explicação que fizesse sentido. A verdade era que ele não tinha respostas suficientes — apenas um emaranhado de perguntas e suspeitas que cresciam a cada minuto.

— Pai, eu... Eu não sei todos os detalhes. Só soube agora que Gigi desapareceu. Preciso investigar mais e entender o que está acontecendo. — Sua voz carregava um tom de desespero que ele tentava desesperadamente controlar. Enrico sabia que, com Gustavo, não adiantava mostrar fragilidade. Seu pai sempre fora um homem rígido, que exigia respostas e soluções imediatas. Mas, naquele momento, o pânico parecia incontrolável.

Do outro lado da linha, Gustavo respirou fundo, a frustração pesando cada vez mais em suas palavras.

— Então, faça isso imediatamente. Encontre respostas e não deixe nada sem esclarecimento. Esse problema precisa ser resolvido agora. — A voz de Gustavo estava impaciente, como se ele soubesse que a situação era mais grave do que Enrico conseguia entender naquele momento.

Enrico permaneceu imóvel por alguns segundos, segurando o telefone com força, seus dedos pálidos de tensão. Ao ouvir o “clique” final da ligação, ele abaixou o telefone lentamente, mas o peso das palavras do pai parecia ter dobrado sobre seus ombros, afundando-o ainda mais no caos crescente que agora envolvia sua vida. O som abafado de sua respiração pesada parecia ecoar pelo silêncio da sala, e ele sentiu seu coração bater tão forte que parecia reverberar pelo chão.

Sua mente girava em círculos. Eliane, Gustavo, Gigi... Como tudo tinha desmoronado tão rápido? Ele tentou conectar os pontos, mas quanto mais tentava, mais os detalhes fugiam de sua compreensão. O desaparecimento de Gigi era uma novidade para ele, mas o envolvimento de Eliane indicava que isso estava muito além do que parecia ser. Ela tinha poder, recursos, e principalmente motivações ocultas que ele ainda não conseguia entender completamente. Eliane nunca fora uma mulher simples, sempre havia segundas intenções em cada movimento que fazia.

A raiva começou a tomar conta de Enrico. Ele sabia que Eliane tinha algo a ver com o que estava acontecendo, e isso o irritava profundamente. Ela não se contentaria em apenas observar. Se Gigi estava em perigo, ele precisava agir rapidamente. Havia algo de muito errado em tudo aquilo, e ele não podia perder mais tempo.

Ele caminhou em direção à janela do salão, abrindo as cortinas com um gesto brusco. O céu já estava escurecendo, e as luzes da cidade começavam a acender, mas para Enrico, o mundo parecia cada vez mais sombrio. O que Gustavo não sabia era que os problemas com Gigi eram apenas a ponta do iceberg. Enrico estava envolvido em uma rede de intrigas e perigos que ia muito além do que qualquer um poderia imaginar.

Enquanto observava a paisagem, ele tentou pensar em seu próximo passo. Quem poderia ajudá-lo? Quem saberia onde Gigi estava? Ele sabia que precisava de aliados, mas também sabia que confiar em qualquer pessoa agora poderia ser perigoso. O nome de Eliane continuava a martelar em sua mente. Por que ela havia contatado Gustavo? Qual era o verdadeiro motivo por trás disso?

A inquietação transformava-se em algo mais profundo. Não era apenas medo pelo paradeiro de Gigi, mas a terrível sensação de que Eliane estava armando algo muito maior. Talvez seu plano envolvesse Gigi de uma maneira que ele ainda não conseguia prever, e o simples fato de sua filha estar em Monte dos Reis, ao alcance de Eliane, já era um alerta vermelho.

Ele se virou da janela e andou rapidamente até o salão de estudo onde seu celular repousava na escrivaninha. Precisava tomar decisões e rápido. O desaparecimento de Gigi não podia ser tratado como uma simples fuga ou algo temporário; havia algo muito mais grave à espreita. Ele discou um número rapidamente e, após alguns toques, uma voz familiar atendeu.

— Ettore, sou eu, Enrico. — Sua voz soava urgente, quase sem fôlego. — Preciso que você me encontre na minha casa o mais rápido possível.

Ettore, sempre leal, não hesitou.

— Estou a caminho. Chego em 30 minutos.

Ele desligou a ligação e soltou um suspiro pesado, enquanto a realidade da situação o atingia novamente. Enrico sabia que a ajuda de Ettore seria crucial. Talvez ele soubesse de algo que ele não sabia, algo que pudesse ajudá-lo a rastrear os passos de sua filha.

Enrico passou a mão pelos cabelos, sentindo o suor frio na nuca. A pressão sobre ele aumentava a cada segundo, e a necessidade de agir era urgente. Ele olhou para o relógio na parede — o tempo estava correndo, e Gigi poderia estar em perigo a cada minuto que passava.

Quando Ettore chegasse, ele precisaria traçar um plano. Mas, acima de tudo, ele precisava de respostas. Precisava enfrentar Eliane, descobrir o que ela sabia, e tirar Gigi de qualquer situação em que estivesse presa. O silêncio do salão, que antes parecia reconfortante, agora parecia sufocante. Ele sabia que a noite seria longa e cheia de decisões difíceis.

Seus olhos voltaram a se fixar na janela, agora completamente escura. A quietude da noite o envolvia, mas por dentro, Enrico sabia que o verdadeiro caos estava apenas começando.

129

A noite havia caído silenciosa sobre a mansão, e o quarto de Eliane estava envolto em sombras suaves, apenas quebradas pela luz branda de uma lâmpada de cabeceira. O ambiente estava carregado de uma tensão palpável. Pasini, que acabara de chegar em casa, estava de pé perto da janela, seu olhar preocupado fixo no exterior escuro. O peso das últimas horas e a decisão precipitada de Eliane pesavam sobre ele, e o tom de sua voz carregava uma reprovação contida.

— Não era para você ter envolvido Gustavo dessa forma. Isso só complicou ainda mais a situação. — A voz de Pasini era grave, seu olhar fixo em Eliane com uma intensidade que sugeria sua frustração crescente.

Eliane, com o semblante fechado e um brilho de determinação nos olhos, virou-se para Pasini, sua frustração visível e a exasperação marcada em cada linha de seu rosto.

— Você não tinha chegado ainda. Eu precisava agir de alguma forma. Você não acha estranho que Gustavo tenha voltado para Monte dos Reis? Para mim, há algo de errado nisso. — Ela falava com uma convicção que tentava esconder a insegurança que sentia por não ter todas as respostas.

Pasini olhou para ela com uma expressão de desconfiança e questionamento, suas sobrancelhas franzidas em sinal de preocupação.

— Quem foi que lhe disse que Enrico esteve na mansão? — Perguntou ele, a voz misturando desconfiança com uma pitada de impaciência.

— Foi Kadu quem me contou. — Eliane respondeu, seu tom de voz misturando impaciência e firmeza. — Ele disse que viu Gigi saindo com Enrico.

Pasini balançou a cabeça, claramente desconfortável com a revelação. O seu olhar se tornava mais severo, como se estivesse considerando a possibilidade de uma nova camada de intriga.

— E por que devemos acreditar no que Kadu diz? Precisamos ter certeza antes de fazer qualquer movimento. — Ele argumentou, a voz carregada de ceticismo.

Eliane se aproximou de Pasini, seus olhos brilhando com uma mistura de determinação e frustração, a postura tensa.

— Eu confio no que ele viu. Precisamos agir com base no que temos, e até agora, o que sabemos é que algo está muito errado. — Sua voz era firme, mas a ansiedade estava evidente em seu olhar.

Pasini suspirou profundamente, sabendo que o enfrentamento era inevitável. A situação estava se tornando cada vez mais complexa, e as decisões apressadas de Eliane só adicionavam camadas de incerteza à trama já confusa que se desenrolava ao redor deles. O silêncio que se seguiu foi pesado, cada um mergulhado em seus próprios pensamentos. A tensão no quarto parecia densa, a sensação de estar à beira de um colapso iminente crescente.

Eliane desceu as escadas com passos firmes, o celular colado ao ouvido. Sua expressão estava dura e fria, os olhos fixos no aparelho, enquanto sua voz soava tensa, carregada de autoridade e irritação. As palavras que ela dirigia ao telefone eram cortantes, como se cada frase fosse um golpe na situação já complicada. Ela estava claramente frustrada e com pouca paciência para mais contratempos.

Pedrina, que estava dentro do salão próximo à sala com Rosalba, ouviu a voz agitada da mãe ao longe e decidiu se aproximar. A menina tentava lidar com a confusão e o desconforto da situação. Ela entrou na sala e encontrou Eliane ainda ao telefone, os olhos fixos em algum ponto distante, como se estivesse em seu próprio mundo.

— Mamãe? — Pedrina chamou com uma voz suave e insegura, os olhos marejados e a voz tremendo, apertando as mãozinhas nervosamente. Ela estava visivelmente ansiosa, esperando que a mãe ao menos lhe desse um pouco de atenção.

Eliane mal olhou para a filha, mas seu rosto endureceu ainda mais. Com um gesto brusco, ela desligou o telefone, claramente frustrada. O que havia sido uma tentativa desesperada de comunicação tornou-se um confronto direto.

— O que você quer agora, Pedrina? — perguntou Eliane com uma voz carregada de irritação, como se qualquer interrupção fosse um incômodo intolerável. — Estou ocupada com algo importante.

Pedrina, surpresa e magoada com a frieza da mãe, deu um pequeno passo para trás. Seus olhos começaram a se encher de lágrimas, e a pequena voz saiu abafada pela tristeza.

— Eu... só queria te contar uma coisa... — Pedrina disse baixinho, os olhos brilhando com a esperança de que a mãe a ouvisse, seus dedos pequenos apertando a barra do vestido.

— Não tenho tempo para essas coisas agora! — Eliane respondeu com impaciência, o tom de voz áspero e desdenhoso. — Vá brincar. Eu estou ocupada, depois você me conta.

As palavras de Eliane foram como um golpe cruel para a pequena Pedrina. Seu rostinho se contorceu de tristeza, e as lágrimas começaram a cair silenciosamente. Sem dizer mais nada, ela virou-se rapidamente e saiu correndo, soluçando.

Rosalba, que estava sentada no salão, observava a cena confusa com uma expressão desorientada, seus olhos perdidos devido ao Alzheimer. Ao ver Pedrina correndo, a mulher estendeu a mão em um gesto inconsciente de conforto, sua mente lutando para compreender o que estava acontecendo. Pedrina entrou apressada, o rosto molhado de lágrimas. Embora Rosalba tentasse oferecer algum tipo de consolo, a menina passou correndo, incapaz de suportar a dor de ser rejeitada de forma tão fria pela própria mãe.