121

A tarde despencava lentamente sobre a mansão Villa Serenità, e o calor do dia começava a ceder, dando lugar a uma brisa leve que entrava pelas janelas entreabertas. A mansão, com seus grandes corredores, parecia mais silenciosa do que o normal. Tudo estava em ordem: cada móvel em seu lugar, cada quadro em sua moldura, como se a vida ali dentro seguisse seu curso habitual. Mas o silêncio, naquele dia, escondia algo perturbador.

Foi a empregada quem primeiro notou a ausência de Gigi. Tinha se tornado costumeiro para ela subir ao quarto da moça nos últimos dias, levando algum lanche ou simplesmente perguntando se desejava que trouxessem algo para comer. Gigi, tão reclusa desde que chegara àquela casa, raramente saía do quarto, preferindo a solidão e o confinamento às grandes e opulentas salas da mansão.

Naquela tarde, a empregada subira as escadas como de costume, o som de seus passos abafado pelo tapete grosso que cobria o chão. Bateu na porta, chamando suavemente por Gigi, mas o silêncio foi sua única resposta. Estranhando a falta de resposta, ela abriu a porta, como já fizera tantas vezes antes. O quarto estava ali, igual a todos os dias: a cama arrumada, o ar pesado de clausura, mas Gigi não estava.

A empregada deu alguns passos dentro do quarto, olhando ao redor, procurando algum sinal de que a garota pudesse estar em outro canto, talvez no banheiro ou sentada junto à janela, mas não havia sinal dela. No canto do quarto, onde Gigi costumava manter suas malas arrumadas, agora havia apenas um espaço vazio, como se o conteúdo tivesse desaparecido. A visão das malas ausentes deixou o coração da empregada apertado de preocupação. Gigi nunca deixava suas coisas desarrumadas; sempre mantinha suas malas cuidadosamente organizadas, como se cada item fosse um elo com a sua segurança.

Tentou não se desesperar. Desceu as escadas e procurou por Gigi em outros cômodos — na biblioteca, no jardim, até mesmo na cozinha — mas foi em vão. Ninguém a tinha visto. A angústia começou a crescer dentro dela, e, quando Eliane finalmente chegou à mansão, a empregada estava à beira das lágrimas, incapaz de esconder a gravidade da situação.

Eliane entrou, carregando ainda o peso dos problemas que trazia de fora, mas logo notou a expressão aflita da mulher que a aguardava no corredor. Sem saber exatamente o que esperar, ela parou para ouvir o relato. O rosto da empregada, pálido de preocupação, fez seu coração gelar. A mulher explicou, com voz trêmula, como havia subido ao quarto de Gigi e o encontrara vazio. Contou sobre as malas desaparecidas e o silêncio inquietante que pairava no ar.

Eliane, que sempre mantivera um controle firme sobre seus sentimentos, sentiu o chão vacilar sob seus pés. O ambiente ao redor parecia mais sombrio de repente, com a luz do fim de tarde projetando sombras que pareciam se alongar e se mover. Não havia sinais de arrombamento, nenhum indício de violência, mas o simples fato de Gigi ter desaparecido sem deixar rastros era um golpe que ela não estava preparada para receber. Tudo indicava que a menina tinha saído por vontade própria, mas para onde? E por quê? Essas perguntas martelavam na cabeça de Eliane, que, sem mostrar a extensão de seu pavor, sabia que cada minuto perdido era crucial.

A notícia se espalhou pela mansão como um veneno lento, atingindo cada empregado, cada canto, trazendo uma tensão silenciosa que impregnava o ar. A ausência de Gigi, aquela menina tão calada, de olhar distante, que parecia carregar o peso do mundo nos ombros frágeis, tornou-se o centro das atenções, um enigma que ninguém ali estava preparado para resolver. E Eliane, que sempre soubera manipular as situações a seu favor, agora se via diante de um abismo, sem saber ao certo como impedir que tudo desmoronasse ao seu redor.

122

Pasini estava sentado no bar de seu restaurante, um local que ele havia imaginado com cuidado, pensando em cada detalhe, em cada cor, em cada móvel que compunha aquele ambiente. As paredes eram adornadas com um vermelho profundo, uma cor que inspirava tanto força quanto paixão. O contraste vinha das cadeiras de couro negro e mesas de madeira escura, dando ao lugar um ar de sofisticação e seriedade. As luzes amarelas, suaves e difusas, eram estrategicamente colocadas nas paredes através de apliques modernos, banhando o ambiente com uma iluminação que convidava à calma e à introspecção. Nos cantos, esculturas abstratas de metal brilhavam sutilmente, reforçando o toque contemporâneo do restaurante, enquanto vasos com plantas exóticas quebravam a rigidez com um pouco de natureza cuidadosamente controlada.

Naquela tarde, Pasini havia decidido se envolver pessoalmente nas mudanças que estavam em andamento no restaurante. A infiltração na cozinha havia se tornado um problema recorrente, e ele não podia mais adiar a reforma necessária. Enquanto isso, uma equipe de funcionários, liderada por um especialista em impermeabilização, estava trabalhando arduamente para resolver o problema.

Pasini, por outro lado, estava no bar, observando o movimento ao seu redor enquanto revisava os esboços das reformas e os custos envolvidos. Um copo de whisky descansava em sua mão, os cubos de gelo tilintando suavemente a cada movimento. Ele estava concentrado, mas uma leve preocupação lhe atravessava a mente. Era como se algo estivesse à espreita, fora do seu controle.

Manter um restaurante em funcionamento exigia mais do que apenas gerenciar as operações diárias; era preciso se adaptar, inovar e, por vezes, se envolver diretamente nas questões mais práticas. Ele sabia disso muito bem, mas hoje, sentia um incômodo maior, uma inquietação que ele não conseguia explicar.

O som de seu celular vibrando sobre o balcão quebrou sua concentração. Ele olhou para a tela e viu o nome de Eliane. Seu coração acelerou um pouco. Ela raramente ligava sem motivo, e as poucas vezes que ligava, geralmente significavam problemas.

Ele levou o celular ao ouvido, o tom de sua voz tentando manter a calma que seu coração já não sentia.

— Alô? — atendeu ele, com um tom tranquilo, mas os dedos apertando o copo de whisky traíam sua apreensão.

Do outro lado, a voz de Eliane soou tensa, quase nervosa.

— Você vai demorar muito? — perguntou ela, sem esconder a impaciência.

Pasini suspirou, sentindo a tensão aumentar. Ela nunca era impaciente sem razão, o que só confirmava que algo estava fora do comum.

— Preciso terminar algumas coisas por aqui. A reforma está em andamento, e quero garantir que tudo saia conforme o planejado.

Eliane não disfarçou a irritação na voz.

— É melhor você vir depressa para casa — repetiu ela, dessa vez com uma urgência que fez um frio percorrer-lhe a espinha. Ele sentiu o estômago revirar, seu olhar se fixando no gelo que derretia lentamente no copo. Algo estava realmente errado, e ele não podia mais ignorar essa sensação.

O som do tráfego nas ruas era constante, típico do meio da tarde, quando o sol ainda brilhava alto, mas já começava a dar sinais de que o dia estava avançando. As sombras lá fora ainda eram curtas, mas começavam a se esticar lentamente, enquanto a luz fraca do sol filtrava-se pelas janelas do restaurante. Pasini sabia que o restaurante podia esperar, mas o que quer que estivesse acontecendo com Eliane, não podia.

123

O quarto de Luca era um refúgio de calmaria, um pequeno santuário onde o menino encontrava paz no meio da tempestade que parecia reger o mundo lá fora. As paredes, de um azul delicado, quase tocando o céu, eram banhadas pela luz suave que entrava pelas janelas, filtrada por cortinas de tecido leve. O branco da mobília contrastava com a madeira clara do chão, onde as sombras dançavam de maneira preguiçosa. Tudo ali convidava à tranquilidade; os livros dispostos com cuidado sobre a mesinha de cabeceira, a cama feita com esmero e, no centro, a escrivaninha de madeira clara, que testemunhava o fluir das palavras de Luca em suas horas de inspiração.

Era nesse espaço sereno, envolto pelo calor aconchegante de um abajur amarelo, que ele escrevia suas poesias. O vento lá fora brincava com as árvores, um murmúrio suave que embalava seus pensamentos, enquanto a caneta deslizava pelo papel com a leveza de quem transforma sentimentos em versos. Era seu refúgio do caos, um mundo que ele podia controlar, ao contrário do que acontecia lá fora.

O barulho da porta se abrindo com violência quebrou a harmonia do quarto como um trovão inesperado. Luca levantou a cabeça de súbito, os olhos arregalados, encarando a figura imponente de sua mãe, Eliane, que atravessava o limiar com passos decididos. Seu rosto, sempre tão firme, trazia agora a sombra de uma irritação mal disfarçada, que parecia incendiar o ambiente. Os saltos finos não silenciavam sua pressa; cada passo era um golpe surdo no assoalho.

Ela se aproximou da escrivaninha com o olhar duro, varrendo os papéis ali dispostos como se fossem provas de uma afronta. Luca sentiu o peso do desprezo dela recaindo sobre suas poesias, aquelas palavras que para ele significavam tanto, mas que para Eliane não passavam de devaneios inúteis.

— O que você está fazendo aqui, trancado nesse quarto, escrevendo essas bobagens? — disparou Eliane, a voz afiada como uma lâmina. — Enquanto o mundo está desmoronando lá fora, você se esconde atrás de poesia? Isso é o que você chama de ajudar?

Ela se deteve diante dele, os olhos faiscando, o corpo emanando uma autoridade que não admitia contrariedade. O silêncio que antes preenchia o quarto foi engolido pela presença dela, como se o próprio ar tivesse sido sugado para fora da janela. Luca, sem entender, continuou parado, sentindo o calor das palavras dela o sufocando.

— Você precisa de ação, não de sonhos escritos em papel! — A voz dela subiu, ríspida, carregada de uma urgência que ele não compreendia totalmente.

Luca piscou, confuso, tentando buscar alguma lógica no ataque repentino. O choque da entrada dela já tinha desfeito a calma do quarto, mas ele não conseguia entender o porquê da agressividade. A mãe sempre fora dura, sempre cobrava mais do que ele achava que podia dar, mas dessa vez o rancor parecia vir de algo maior, de um acontecimento que ele desconhecia.

Ainda atordoado, ele levantou os olhos para ela, sem saber ao certo o que dizer, buscando nas feições rígidas dela alguma pista que lhe desse um norte.

— O que aconteceu? — Ele perguntou, a voz baixa, cautelosa, quase temendo a resposta.

Eliane lançou-lhe um olhar impiedoso, as palavras afiadas antes mesmo de ele terminar a frase.

— Se você fosse mais atento, já saberia o que aconteceu! Se tivesse um mínimo de interesse pela sua própria família, não estaria trancado aqui nesse quarto, isolado, escrevendo essas bobagens! — A voz dela, firme, carregava um tom de desgosto que ele conhecia bem, mas que, naquele momento, soava como um golpe ainda mais cruel.

Luca sentiu um frio correr pela espinha. Algo estava errado, muito errado. E pela expressão da mãe, ele deveria saber o que era. Aquele desprezo nas palavras dela era mais profundo do que o usual. Ele tentou se justificar, formar as palavras em sua mente, mas Eliane o interrompeu antes que ele pudesse articular qualquer coisa.

— Gigi desapareceu! — Ela disparou, a voz agora tingida com um desespero que Luca raramente ouvira. — Sumiu! Ela desapareceu da mansão, e você estava aqui, preso nesse mundo fantasioso que não leva a nada! Se estivesse mais presente, se prestasse atenção, talvez pudesse ter notado algo!

O coração de Luca quase parou. Gigi? Desaparecida? As palavras da mãe atingiram-no como um soco, tirando o ar de seus pulmões. Sua mente se encheu de perguntas, mas nenhuma delas parecia fazer sentido. Quando? Como? Por quê?

Eliane, sem paciência para as hesitações dele, continuou:

— Não adianta você tentar falar! Você não puxou nada de mim, nada! — Ela disse, a voz agora carregada de uma amargura que beirava o ódio. — Essa sua fuga da realidade, essa sua falta de interesse... Você herdou do seu pai! Sempre distante, sempre alheio ao que realmente importa!

Ela deu um passo à frente, o dedo em riste, como se o acusasse de algo muito maior do que ele podia compreender.

— Você é o meu maior problema! — A voz dela cortou o ar como uma navalha, deixando um silêncio pesado entre os dois. — Que tipo de filho mais velho é esse, que não se interessa pelos problemas da própria família?

Luca sentiu a indignação começar a borbulhar dentro dele. Não era justo. Ele não sabia. Como poderia? Mas a ferocidade nas palavras dela o imobilizava, tornando cada tentativa de defesa inútil. Quando tentou, sua voz saiu fraca:

— Mas... — Ele começou, mas foi interrompido de novo, antes que pudesse sequer tentar uma explicação.

— Não me venha com “mas”! — Eliane cortou, ríspida, os olhos faiscando de raiva. — Eu não preciso de mais desculpas. Preciso de alguém que se importe, que assuma as responsabilidades como deve. E você não faz ideia do que significa estar presente quando mais precisamos.

O quarto, que antes era um refúgio de paz, agora parecia apertado, sufocante. Luca olhou para as páginas de poesia sobre a mesa, palavras que agora pareciam tão pequenas e insignificantes diante do caos que se desenrolava lá fora. Ele queria se defender, queria explicar que não era culpa dele, mas as palavras morreram em sua garganta.

Eliane o encarava, e naquele momento, ele percebeu que, para ela, ele havia falhado de maneira irreparável.

124

Eliane atravessou a porta do quarto de Gigi como uma tempestade prestes a romper. O silêncio no ambiente era quase palpável, como se cada objeto ali conspirasse para esconder a verdade que ela já intuía. Seus olhos, agitados, percorreram o espaço: a cama perfeitamente arrumada, os móveis alinhados com precisão, como se o quarto esperasse pelo retorno de sua dona. Mas Gigi não estava ali. Tudo parecia em ordem, exceto pelo vazio avassalador.

Eliane respirou fundo, apertando os lábios. Sua mente já formulava insultos como facas afiadas: “Imbecil, ingrata... Estúpida garota, acha que pode fugir de mim?” Ela sentiu a raiva fervilhar, crescente, em cada fibra de seu corpo. Cada segundo que passava apenas alimentava o incêndio que queimava dentro dela.

Sem mais esperar, deu meia-volta, descendo as escadas com passos rápidos, os saltos batendo com força no chão de madeira polida. A raiva a impulsionava, o controle que tanto prezava escapando de suas mãos, como areia entre os dedos.

Na sala, a quietude do final da tarde contrastava violentamente com o caos interno de Eliane. O sol, já baixo, projetava sombras longas no chão, e ali, parada no meio da sala, estava Pedrina. A menina, sempre tão observadora, olhou para a mãe com grandes olhos, como se quisesse dizer algo. Talvez ela soubesse de alguma coisa. Mas Eliane não estava disposta a ouvir. Sem sequer erguer o olhar na direção da filha, cortou o ar com a voz fria e definitiva.

— Agora não, vai pro seu quarto — ordenou, a voz como um chicote. Não havia espaço para protestos.

Pedrina hesitou por um breve momento, seus pequenos pés ainda ancorados no chão, enquanto a mãe passava por ela como um furacão. A menina abriu a boca para falar, mas Eliane já estava com o telefone na mão, os dedos voando para discar o número do marido. O ressentimento e a fúria fervilhavam nela, prontos para transbordar.

Quando o telefone finalmente conectou, Eliane explodiu.

— Já está vindo para casa ou não? — As palavras saíram como tiros, rápidas e impiedosas. — Não posso resolver tudo sozinha, você sabe disso!

Ela andava de um lado para o outro, como se o movimento pudesse ajudar a controlar a tempestade que crescia dentro dela. O coração batia acelerado, e cada passo reverberava pelo chão, como o eco de sua frustração.

Lá de cima, Luca escutava a conversa se intensificar. O tom elevado da mãe era um sinal claro de que algo grave tinha acontecido. Ele desceu as escadas com cautela, cada degrau rangendo sob o peso da sua apreensão, enquanto tentava montar o quebra-cabeça que se desenrolava à sua frente.

— Claro que não! — Eliane continuava, agora com a voz ainda mais alta, quase gritante. — Você não está vendo? Tudo aqui está desmoronando, e você continua fora, cuidando dos seus negócios como se nada estivesse acontecendo!

Aquela raiva já se acumulava há dias, e agora ela usava o desaparecimento de Gigi como catalisador para despejar tudo o que sentia sobre o marido. Luca, ao chegar ao final da escada, parou, sentindo o peso esmagador daquela atmosfera. Ele observava, sem entender direito o que estava acontecendo, mas ciente de que algo muito errado estava em curso.

— E eu aqui, sozinha, cuidando de tudo! — gritou ela novamente. — Gigi, Luca, essa casa... Você acha que é fácil? Acha que eu posso fazer tudo isso sem você?

A cada palavra, o tom de Eliane se tornava mais ácido. O ressentimento em sua voz era algo que Luca não tinha como ignorar. Ela estava sobrecarregada, e ele, na sua confusão, tentava encontrar um ponto de fuga naquela cena, algo que pudesse explicar por que Gigi havia sumido e por que sua mãe estava tão furiosa.

Sem pausar, Eliane desligou o telefone bruscamente, apenas para discar outro número logo em seguida.

— Já resolveu ou não? — perguntou, sem introdução. A impaciência em sua voz era evidente. — Não tenho tempo a perder, isso precisa ser resolvido agora!

Enquanto Luca observava, uma mistura de medo e frustração tomava conta de si. Ele nunca se sentira tão inútil, tão desconectado de sua própria família. As palavras da mãe sobre Gigi, sobre ele, tudo girava em sua mente como uma tempestade crescente.

E lá estava ele, no meio do furacão, tentando entender o caos ao seu redor.

125

Eliane saiu da sala como quem carrega o peso do mundo nas costas, os saltos ecoando pelo corredor longo da mansão. A raiva ainda queimava em sua pele, o coração batendo forte contra o peito, mas o que a corroía ainda mais era o vazio crescente em sua alma. Gigi era a peça central de seus planos, o elo que ela precisava manter firme para que tudo funcionasse. E agora, parecia que tudo estava desmoronando. ”Perdi Gigi... perdi tudo.” O pensamento martelava sua mente, alimentando um desespero que se misturava com a raiva.

Empurrou a porta com força, saindo para o pátio amplo que se estendia atrás da casa. O sol já começava a baixar no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e vermelho. Mas Eliane não tinha olhos para a beleza daquele fim de tarde. Tudo o que sentia era o aperto sufocante da possível perda de Gigi — e, com ela, seus planos. Ela queria respostas.

Caminhou a passos largos até a parte de trás da mansão, onde sabia que encontraria Kadu. Ele estava ali, de pé, encostado numa parede, olhando para o vazio, como se o calor do dia o tivesse consumido. Assim que a viu, Kadu se endireitou, os olhos arregalados como se estivesse vendo um fantasma.

— Kadu! — Eliane gritou antes mesmo de chegar perto. — Você viu alguém chegando aqui na mansão hoje?

Kadu deu um pulo com o grito da patroa, os nervos à flor da pele. Ele sempre ficava assim perto de Eliane, mas agora ela parecia ainda mais à beira de uma explosão. Ele começou a gaguejar, as palavras saindo emboladas da boca como se lutassem para se organizar.

— E-eu... eu não... quer dizer, vi, mas não sei se...

Eliane bufou, impaciente, cortando o ar com a mão.

— Para com isso! Não gagueje! — ordenou ela, os olhos faiscando de raiva. — Você sabe que isso me deixa mais nervosa ainda.

Kadu baixou os olhos, tentando achar as palavras certas.

— É que... a senhora está nervosa com todo mundo lá dentro — começou ele, hesitante, dando de ombros. — Eu só pensei que... talvez fosse descontar alguma coisa em mim também... sem motivo.

Eliane o olhou de cima a baixo, os lábios se apertando numa linha fina, sua paciência quase no fim.

— Eu nunca fiz nada com você — rebateu ela, o tom ríspido, mas controlado. — Nunca, mesmo ameaçando. Então pare com essa bobagem e responda logo.

Ela se aproximou mais, quase encurralando Kadu contra a parede.

— Você viu ou não alguém chegando? Porque, pelo menos, Gigi você deve ter visto saindo. Você estava aqui o tempo todo, não estava?

Kadu engoliu em seco, os olhos inquietos, como quem busca uma saída.

— Vi... vi, sim. — Ele hesitou por um segundo antes de continuar, a voz baixa, como se estivesse pisando em terreno perigoso. — Foi o pai dela... que veio buscar.

Eliane ficou imóvel por um instante, as palavras de Kadu penetrando lentamente como um veneno. ”Enrico?” Não podia ser. Mas logo a raiva tomou conta de novo. Ele tinha voltado. Ele estava, de novo, interferindo.

— Tem certeza? — perguntou ela, os olhos fixos em Kadu como duas lâminas afiadas. — E você viu Gigi saindo com ele?

Kadu assentiu rapidamente, nervoso, mas tentando se manter firme.

— Eles saíram juntos. Acho que... talvez ela tenha falado com ele pra ir embora. Não vi ela forçada nem nada... parecia que foi por vontade própria.

Eliane apertou os punhos, o coração apertado pelo peso da traição. Tudo estava indo por água abaixo. Gigi era a chave, e agora, se ela tivesse ido embora com Enrico, os planos estavam destruídos. O futuro que ela imaginou, o controle, a manipulação... tudo se desfazia diante dela.

Ficou parada, respirando fundo, tentando controlar a tempestade que fervia dentro de si. ”Enrico... claro que tinha que ser ele.”

Sem dizer mais nada, virou as costas e deixou Kadu ali, com a alma em frangalhos, perdido entre o dever e o medo de uma patroa que, mesmo sem nunca ter feito nada, sempre parecia prestes a destruir quem ousasse cruzar seu caminho.

126

Eliane entrou de volta na mansão com o mesmo ímpeto furioso de quem não tem tempo a perder, os saltos ecoando nas paredes. O calor do pátio ainda parecia grudado em sua pele, mas nada queimava mais do que a inquietação que fervia em sua cabeça. Gigi era uma peça crucial em seus planos meticulosamente elaborados, e a perda dela significava que tudo estava à beira do colapso. “Se ela se foi, todos os meus esforços podem ter sido em vão.”

Sem nem olhar para os lados, foi direto à sala, onde uma empregada arrumava as almofadas do sofá. Eliane estava prestes a soltar sua insatisfação, mas antes que pudesse abrir a boca, sentiu o olhar de Pedrina, que estava de pé ao lado, observando com a inquietude típica de uma criança que busca se fazer notar.

— Kadu viu Gigi saindo com o pai dela — disse Eliane, com a voz cortante, mais para si mesma do que para a empregada, como se estivesse costurando os fatos em sua mente e tentando entender o que havia acontecido.

Antes que mais uma palavra fosse dita, a pequena Pedrina deu um passo à frente, erguendo o queixo com a ousadia infantil que lhe era característica.

— Isso é mentira, mãe — disse ela, firme, mas com a voz doce, como se quisesse oferecer à mãe uma verdade que ela parecia ignorar.

Eliane mal teve tempo de reagir. Luca, que estava próximo, veio de imediato, pegando a irmã pelo braço com força, quase arrastando-a de volta.

— Cuidado com o que diz — murmurou ele entre os dentes, tentando manter a calma, mas claramente aborrecido. — Você pode acabar prejudicando alguém.

Pedrina sacudiu o braço, se libertando do irmão, com o rosto franzido de raiva, olhando para ele como se fosse o próprio inimigo.

— Não é mentira! — insistiu ela, sem abaixar a cabeça. — Gigi saiu com ele! Eu vi!

O silêncio que se seguiu foi breve, mas pesado. Luca, visivelmente frustrado, explodiu.

— Você é uma mentirosa! — gritou ele, os olhos faiscando de indignação. — Você não sabe de nada!

Pedrina cruzou os braços, o rosto vermelho de fúria. Ela odiava quando o irmão mais velho a chamava de mentirosa, como se suas palavras não tivessem valor. Fez menção de correr para perto da mãe, buscando a proteção que sabia que não viria, mas ainda assim insistindo em se fazer notar.

— Mãe! — chamou ela, quase num grito, tentando roubar a atenção de Eliane.

Mas Eliane não lhe deu ouvidos. Ergueu o celular com um movimento brusco, já discando um número enquanto caminhava pela sala com passos largos e firmes. A voz de Eliane, alta e carregada de impaciência, preencheu o ambiente.

— Preciso que você resolva um problema para mim. Urgente. — A voz de Eliane tinha um tom que não permitia discussão, impositiva como uma ordem militar.

Luca, ainda segurando o braço de Pedrina, olhou para a mãe de soslaio, a confusão nublando seus pensamentos. Ele não sabia o que estava acontecendo, mas o ambiente ao redor parecia pulsar com um desconforto crescente, uma tensão que só aumentava conforme as palavras ríspidas de Eliane ecoavam pela sala.

Pedrina se desvencilhou dele novamente, os olhos cheios de lágrimas de raiva, e correu para um canto, onde ficou parada, ainda esperando, ainda ansiando por atenção. Ela sentia que sua própria voz estava sendo abafada pela raiva e frustração de Eliane.

Mas a mansão, com toda sua grandiosidade, agora parecia pequena demais para conter a inquietação de Eliane. As paredes que antes representavam estabilidade agora pareciam sufocantes, como se estivessem prestes a desabar sob o peso do caos emocional que se instalava.