"Que escolha um Rei faria? Sem a interferência de um deus devorador de almas e uma raça de demônios, agora aprisionados para sempre em outra dimensão, meu trabalho enfim estaria acabado. Mas a sombra de minhas próprias escolhas ainda me assombrava, não como um simples humano assassinado a procura de vingança, muito menos como o Guardião do Equilíbrio a manter pilares em ruínas que já não representam nada. Ainda precisaria decidir se lutaria contra o meu próprio eu ou acabaria com o império que durou milênios. Que escolha um Rei faria?" Kain.

532 D.C

— Senhor. Há alguém aqui que deseja falar com o senhor — a jovem vampira de pele cinza e vestes vermelhas, um tecido de seda que forma um vestido preso apenas por um ornamento de metal com o símbolo de Kain. Apesar disso, não foi ela transformada por ele e sim por um de seus seis filhos, Turel. Apenas eles tiveram a honra de se tornar vampiros pelo imperador, ato que o fez para transformá-los em seus Generais.

— Não irei receber ninguém agora — disse Kain, sentado em seu trono, envolto pelos pilares em ruinas — a não ser que seja Dumah, com novidades sobre o ataque à Catedral. Kain se referia a uma investida em que ordenou seu General mais forte, Dumah, a acabar com uma das armas mais fortes dos humanos contra os vampiros, a Catedral, lugar onde uma ceita religiosa movia exércitos de resistência ao Império de Kain.

— Mas senhor... Ele me mostrou isso e disse que o senhor entenderia — a serva mostrou um algo que impressionou Kain e ele fez o sinal para que o indivíduo entrasse.

Dois guardas turelins protegiam a entrada e um deles abriu o grande portão. Kain olhava ainda espantado ele entrar, com um manto que não revelava sua identidade e mesmo assim ordenou que a serva e os guardas saíssem para falar a sós com o inesperado visitante.

LoK

Dumah possuía não só o exército mais forte mas também o mais numeroso e só fosse por sua vontade, apenas isso já bastaria para realizar o ataque à Catedral. Porém seu mestre ordenou que o exército de Melchiah o auxiliasse. Esse foi o último a ser transformado e por isso recebeu a menor parte do poder de Kain, o que o limitava até mesmo a aumentar seu exército.

— Escutem com atenção — bradou Dumah ao seu exército que se instalou em uma colina, próximo da catedral, de onde se podia vê-la envolta por muros altos — não quero ver resto nenhum de humanos nesse lugar! A ordem do Mestre Kain é de que tudo seja destruído, especialmente esta carne podre e frágil que o habita! — Melchiah observou seu irmão dizer de forma firme e convicta uma meia verdade, pois Kain ordenou sim a destruição da Catedral, mas ordenou também que os humanos fossem transformados para aumentar o seu exército.

— Dumah — interrompeu o irmão e disse baixo para o exército não escutar — eu desejo usar estes humanos como forma de melhorar o meu clã.

— Cale a boca! Você me interrompe em meio ao meu discurso, se não fosse por nosso mestre nem vivo você estaria — ao chegar perto do irmão, com seu porte gigantesco e sem dizer mais nada Dumah o fez desistir de questioná-lo, pelo menos não o faria nesse momento.

A Catedral era bem fortificada e nunca se soube de alguém que conseguiu entrar que não fosse humano. Com o exército posicionado, o comandante ordenou o ataque e seus subordinados ergueram estruturas de madeira que permitiam a escala boa altos muros da fortificação.

— Melcahins, ataquem os portões! — Melchiah ordenou e os seus usaram um tronco gigante para tentar derrubar um portão pequeno que antecedia a entrada principal da Catedral. Depois de duas investidas o portão parecia começar a ceder, mas um clarão vindo do alto chamou a atenção de seu líder e sem tempo de reação, estacas grandes com fogo caíram sobre a tropa. O fogo e as próprias estacas mataram muitos dos aliados de Melchiah e o restante se afastou, dispersando seu exército, para a comemoração de muitos soldados humanos que estavam no alto do muro — voltem aqui, estamos quase derrubando o portão, voltem agora! — gritos em vão não adiantaram e ele não teve alternativa e também recuou.

Do outro lado, tentando escalar os muros, Dumah e seu exército estavam cada vez mais próximos do objetivo. Também eram atacados por estacas e flechas de fogo, mas a maioria dos que estavam escalando possuíam escudos que aparentavam não ser inflamáveis. Com apenas algumas baixas no caminho, os dumahins se aproximavam cada vez mais do alto do grande muro.

— Estamos quase lá, Mestre — se aproximou de Dumah um vampiro tão grande quanto ele, mas não um dumahin. Era Magnus, um vampiro que lutou ao lado de Kain hà muitos séculos, mesmo antes dele recuperar o trono do Senhor Sarafan.

— Já lhe disse para não me chamar assim, Magnus! — disse o comandante, preparando seu martelo para entrar na catedral e usá-lo para matar quantos humanos pudesse — O único Mestre e Senhor de Nosgoth é Kain e sei muito bem que você é quem mais ele confia no momento. Não deseja perder esse posto, não é?

— O Mestre Kain já fez e viu mais do que todos nós juntos, mesmo assim ele decidiu poupar a minha vida quando lutei contra ele. Eu lhe devo tudo que sou e no momento o que posso fazer para retribuir é ajudar a conquistar esse lugar — Dumah riu baixo e colocou seu elmo.

— Você e sua habilidade vão ser de grande ajuda nessa batalha — os humanos no alto da muralha começaram a fugir vendo a aproximação iminente dos dumahins. Ao alcançarem o alto do muro, arqueiros posicionados atacavam das torres próximas. Foi então que Magnus usou sua habilidade de telecinese para expulsá-los das torres. Com isso muitos dumahins conseguiram entrar ilesos e assim abrir os portões da catedral, abrindo caminho para a invasão.

LoK

Kain, acompanhado do visitante, foi até a Tumba dos Sarafans. Adentrando a câmara, observou os nomes de seus Tenentes e refletiu sobre suas ações.

— Aqui poderemos conversar sem que ninguém descubra. Sua história é mesmo incrível. Quão surpreendente é o destino, a linha que nos conecta a um fim inevitável — Kain tocou na Tumba de Raziel — como posso entender que tudo aquilo que passei foi obra de algo muito além de uma vingança.

— Não existe propósito para Hyldens e Vampiros continuarem vívos, mas eles permaneceram por milênios em Nosgoth.

— Você me disse que Mobius me contará essa história daqui a muitos séculos. Então o que o fez antecipar tanto assim o que já é inevitável? — Kain levanta e o encara.

— Porque por mais que nós tenhamos restaurado o equilíbrio, Nosgoth ainda terá que sofrer por milênios uma era de trevas que irá disimar todo o império — Kain mostrou preocupação e no seu rosto se percebia uma certa fúria. Mesmo após toda a luta travada durante séculos ele ainda não havia conquistado o direito de manter seu império.

— E como pretende mudar isso sem interferir demais no tempo a ponto de causar um terrível paradoxo? — Apesar de estar eras distante do dispositivo de Mobius que o levaria ao passado muito tempo depois, Kain já havia experimentado a viagem no tempo quando foi impedir Willian, o justo de se tornar o Nemesys.

— Não precisamos mudar completamente o futuro, mas sim manter o equilíbrio. E a única forma de fazer isso é nos aproximando dos humanos, restabelecer o Círculo dos Nove, com novos Guardiões, vampiros e humanos.

Aquilo que acabou de ouvir parecia algo impensável para aquele que não aceitou o sacrifício e deixou que os pilares caíssem. Mas se a possibilidade existisse e ele pudesse fazer isso, então ele tentaria. Ao menos tentaria.

LoK

No Santuário dos Clãs, Kain se sentou no seu Trono e o visitante encapuzado ficou ao seu lado, enquanto ele olhava para frente, refletindo sobre mais uma difícil escolha que teria que fazer.

— Você ainda não acredita no que eu lhe disse não é — Kain não respondeu — eu posso lhe mostrar como pequenos detalhes mudam todo um caminho, uma linha no entranhado do espaço-tempo.

Kain continuou a ignorá-lo mas não podia deixar de escutar.

— Daqui a alguns instantes Dumah e Melchiah entrariam por aquela porta com a glória de terem tomado a Catedral, que depois desse feito ficaria conhecida como Catedral Silenciada, mas... — Kain então passou a prestar mais atenção no que ele dizia.

Antes que ele continuasse, adentrou o salão Melchiah muito machucado e se ajoelhou perante seu mestre.

— Senhor, lhe peço perdão — Kain observou preocupado, se levantou e foi até ele.

— Diga logo o que aconteceu — Com medo e ainda com movimentos limitados, Melchiah disse:

— Fomos surpreendidos pelos arqueiros que tinham armadilhas com fogo e...

— E o quê? — Kain pegou o filho e o ergueu bem alto apenas com a força do braço.

— Capturaram Dumah — nessa hora Kain ficou ainda mais furioso e soltou Melchiah no chão que ali ficou, sem ousar se mexer.

— Já começou. O paradoxo — o encapuzado se aproximou por trás de Kain e apoiou a mão, de aparência vampiresca, no seu ombro — nessa batalha Magnus seria crucial com sua habilidade de telecinese.

— Quem é Magnus? — perguntou Melchiah — Kain sabia quem era Magnus, um vampiro que lutou no seu exército a vários séculos e ele havia o matado quando recuperava seu trono do Senhor Sarafan.

— Não vê que é inevitável? Pequenas mudanças no passado alteram muito do futuro, mas pode ser também a oportunidade de finalmente trazer o equilíbrio para Nosgoth — o indivíduo tirou o capuz. Era o próprio Kain, mas não o atual, líder do império e sim o que veio de milênios do futuro para cumprir seu destino.