"Eu vi meu mestre sucumbir perante a ordem Sarafan e ter seu coração arrancado. Assim como vi a profecia se tornar realidade diante dos meus olhos, por meio de um criatura que mesmo após séculos não consigo explicar. Vi a raça vampiresca ser quase exterminada e voltar aos tempos de glória, mas ao mesmo tempo desgraçando essa terra e todos que vivem nela." Vorador.

A leste de Nosgoth, nas montanhas além da cidade de Utchenhein, a Cabala se instalou próximo às ruínas do local onde Janos Audron fez seu retiro no passado.

Diferente de quando foi formado, o grupo de vampiros não tem mais um ideal em comum e seu líder Vorador já não cumpre mais esse papel, apesar de continuar junto ao grupo.

Se existe algo que une a Cabala nos dias atuais é a discordância do modo como Kain e seu império traçaram o rumo de Nosgoth. Mas porque Vorador não ofereceu resistência a Kain e mais importante ainda, porque o imperador não decidiu punir os que não estão de acordo com suas regras? Ambos abandonaram qualquer tipo de ideal, como soldados que voltam da guerra e já não tem propósito. O mundo realmente está melhor depois de suas ações? Essas são as reflexões que há muitos anos o assombram.

No acampamento da Cabala os vampiros gerados por Vorador e alguns desertores do império acostumaram a viver com poucos recursos e a saciar a sua sede por meio de humanos de cidades próximas não muito populosas. Porém com o passar dos anos as muitas mudanças em seus integrantes foram também mudando o modo como pensavam e agiam e a ideia de uma nova resistência, agora ao Império de Kain, foi ganhando força.

— Precisamos nos mexer e fazer alguma coisa — cochichou Fergrand, um vampiro jovem, antes um excelente arqueiro humano, que mesmo ganhando habilidades por se tornar vampiro não abandonou sua arma.

Estavam com ele outro vampiro e uma vampira, dentro de uma das barracas do acampamento.

— Eu concordo, mas sabe que todos tem medo de Vorador e ele nunca aceitará nada que não seja sair desse lugar — disse Ihia, a vampira que apesar de pequena em estatura possui lâminas (e muita habilidade de usá-las) que ninguém gostaria de enfrentar.

— Eu sei, Ihia! Nós temos que de alguma forma força-lo a agir — Fergrand estendeu a mão e mostrou um pedaço de pano, que parecia fazer parte de um estandarte. O símbolo era de um dos Clãs do império e eles não sabiam exatamente de qual. A cor vermelha do tecido apenas evidênciava que era de um comboio de membros do império que estava próximo do acampamento da Cabala e talvez com um plano bem executado daria a Vorador a motivação que ele precisava.

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Muros altos com colunas detalhadas e grandes hastes com estandartes vermelhos tremulando com a força do ar frio de Nosgoth formavam a imagem da entrada do Clã de Raziel. Seu território era o mais beneficiado por estar próximo do Santuário dos Clãs e assim bem próximo do imperador.

O primogênito de Kain era também o mais forte dos seus Tenentes e aos poucos se mostrou ser mais inteligente também, pois seu clã prosperou com larga vantagem podendo até ser considerado uma espécie de nova capital de Nosgoth. Ali se abrigaram não só Razielins mas os mais fortes e influentes de todo o império, muitos vindo de outros clãs.

— Raziel, que honra finalmente conhecê-lo — disse fazendo referência ao entrar no salão.

— Você é Kastha, a nova serva pessoal do mestre Kain — Raziel estava curvado para um cálice de porcelana com sangue até metade de sua capacidade e levantou a cabeça dirigindo sua atenção para Kastha — para uma Turelim você até que é muito bela — foi se aproximando dela — Não quero acreditar que meu irmão tenha escolhido você para esse papel com propósitos próprios.

— Eu servi bem o Senhor Turel por muitos anos e quando foi solicitado pelo Mestre Kain ele de pronto me deu a honra dessa nobre missão — Raziel se aproximou ainda mais e começou a rodear a serva, que mesmo com sua experiência, não poderia evitar os impactos da presença de Raziel. Quem não o conhecia pessoalmente ouvia histórias sobre pessoas hipnotizadas por ele apenas pelo olhar e quem o conhecera não conseguia ao menos descrever a sensação da experiência.

— Ainda me restam dúvidas sobre a imparcialidade dessa escolha — encostou seu rosto no pescoço de Khasta e ela estremeceu por um momento com uma sensação de medo e atração ao mesmo tempo — mas você não está aqui para me dar explicações — se afastando dela e saindo do salão, Raziel proporcionou outra sensação, o alívio.

— Sim, Senhor. Lord Kain ordenou que lhe trouxesse notícias e também deu instruções para uma missão — Raziel continuou andando pelo corredor enquanto ela o seguia.

— Me reuniria com ele daqui alguns dias. Se foi preciso tal urgência então são notícias ruins.

— Creio que sim, Senhor. Sobre o ataque a Catedral dos humanos — Raziel logo resmungou pois se fosse de sua vontade essas incursões de Kain nunca teriam acontecido. Para ele o império já era grande o bastante e até demais na sua concepção.

— Dumah e Melchiah já retornaram? Tão rápido? Então são boas notícias.

— Senhor, seu irmão Melchiah sim retornou, mas apenas ele — descendo as escadas que ficavam em uma colina, sem muros e muito menos teto, era possível vizualizar a Catedral de muito longe, mas mesmo assim ainda era possível observá-la o constatar o símbolo que ela representava. Sua existência significava que os humanos ainda tinham alguma esperança e Kain e seu instinto sabia disso mais do que qualquer um. Quando ordenado a Raziel para que liderasse o ataque a Catedral ele se recusou e argumentou que os riscos eram muito altos para algo que não os traria nenhum benefício substancial. Seu ato de desobediência raramente passaria impune por Kain se não fosse ele um de seus melhores agentes com êxitos seguidos em suas investidas.

— O que aconteceu com Dumah?

— Ele foi capturado pelos humanos. Pelo que sabemos ele não foi morto pois eles tem intenção de negociar — Raziel ficou surpreso.

— Negociar? Os mesmos seres que juraram exterminar até o último vampiro de Nosgoth? Que mantém estatuas de seus heróis Sarafans até hoje, os mesmos que quase extinguiram a raça dos vampiros. Que ironia.

— Lord Kain pensa igual. Suas ordens foram bem claras, ele quer todos os humanos, não só naquela catedral mas nos territórios próximos mortos, nem mesmo que tenham a chance de se juntar a nós. Extermínio foi a palavra que ele usou — e sem dizer mais nenhuma palavra, Raziel voltou a observar a Catedral...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.