Legacy | Bucky Barnes ︎
39 XXXIX
Apartamento de Bucky Barnes,
Edifício Cornélia,
Brooklyn, NYC,
2024
— BUCKY — SERENA CHAMOU NO PARECIA A MILÉSIMA VEZ. — Por favor, me diga como posso te ajudar.
O sargento, no entanto, estava distante, sequer piscava. Seu coração batia muito rápido e estava hiperventilando.
Serena não sabia o que fazer.
Não entendia o tinha despertado aquela crise, tampouco se importava sabia como ajudá-lo, mas precisava fazer alguma coisa a respeito.
Suas mãos envolveram o rosto pálido e efervescente, os olhos azuis desfocados como se ele estivesse a quilômetros de distância dali. Então, em um ato de puro desespero, continuou a orientá-lo com os exercícios de meditação.
Inspirou. Expirou. Inspirou.
Bucky não deu nenhum sinal de que estava voltando ao planeta terra, mas, aos poucos, a respiração se acalmou.
Sua pele, no entanto, ardia em brasa.
Sentiu a presença de Alpine ao redor deles, como se quisesse entender o que estava acontecendo. A gata farejou a camiseta dela e se deitou, formando um enorme borrão branco no chão, os olhos felinos cravados em Bucky.
Ele não notou a chegada dela.
Seu olhar desfocado continuava fixo no medalhão de Isabel, como se o colar fosse amaldiçoado.
Serena arrancou o medalhão e lançou para o outro lado da sala em um tintilar alto o suficiente para fazer com que Alpine erguesse o pescoço — muito embora tivesse perdido o interesse logo em seguida, voltando a encarar Bucky.
— Vamos para o quarto — ordenou ela em um fiapo de voz — agora.
Não era um pedido educado, o arrastaria até o cômodo, se fosse necessário. Para o inferno com aquela palhaçada de "eu não gosto de dormir na cama", pensou. Ele precisava de conforto e descanso.
Felizmente, Bucky estava tão disperso que atendeu a súplica sem pestanejar e, com um aceno de cabeça letárgico, ergueu o corpo devagar. Serena — com uma força que não possuía — enlaçou os braços finos na cintura dele, guiando-o até o no fim do corredor, depois o ajeitou na cama de casal, com dois travesseiros sobre a cabeça.
Ele estava coberto de suor e a pele ardia em brasa.
— Tire camiseta e o avental — ela pediu — estão molhados.
O sargento obedeceu. Mecanicamente, mas obedeceu.
Soltou um palavrão. Não sabia se a febre de um super soldado poderia ser comparada a febre de um humano comum, mas tinha certeza de que ibuprofeno algum daria conta daquilo; a pele dele fervia em níveis alarmantes.
Em passos desajeitados, Serena foi até a cozinha e depois para o banheiro, enchendo um refratário com água fria. Congelante. Em seguida, pegou duas toalhas de rosto que encontrou nas gavetas e voltou até o quarto.
— Espero que isso ajude — sussurrou ela, colocando a primeira toalha umedecida sobre a testa, enquanto passava a segunda sobre o dorso dele, removendo o suor.
Feito isso, Serena umedeceu a primeira toalha da testa de novo e correu uma das mãos no rosto dele. Continuava quente, mas em uma temperatura menos alarmante.
Ela respirou fundo e colocou a outra mão no próprio peito, e torceu o nariz, se lembrando do próprio estágio de nudez. Arg, não poderia ficar daquele jeito enquanto cuidava dele, percebeu.
Atrás dela, havia uma das camisetas gigantescas de Bucky apoiadas em uma cadeira de madeira velha. Serena não pensou duas vezes: pegou a peça e vestiu. Parecia um vestido, mas era o melhor que conseguiria no momento.
A camiseta era preta, confortável, tinha o cheiro do perfume dele e...
— Serena... eu... eu...
Ela balançou a cabeça e foi na direção dele.
— Descanse, sargento — declarou, tocando no rosto dele diligentemente e ajeitou os travesseiros outra vez— estarei aqui quando acordar.
Ela olhou para o armário.
Tinha visto um cobertor ali da última vez, mas a julgar pela temperatura do corpo dele, seria uma péssima ideia cobri-lo. Ao invés, Serena abriu a janela e deixou que o ar fresco da noite adentrasse no quarto.
Quando voltou, ele ainda ciciava o nome dela, murmurando pedidos arrastados de desculpas. Ela suspirou.
Como se ele tivesse culpa de alguma coisa.
Serena então desligou as lâmpadas da sala e cozinha, guiando-se apenas pela luz dos postes da rua — que insistiam em transpor as janelas — no caminho de volta para o quarto e se sentou no canto oposto da cama.
Com cuidado, tocou em uma mecha do cabelo dele, afastando-o para trás. Ele piscou algumas vezes, os olhos enfim voltando a focar o rosto dela e... fechou.
Estava exausto.
— Você não está sozinho, Bucky — Serena disse baixinho, embora soubesse que a consciência dele estava longe dali — eu estou aqui. Eu... — ela deixou a frase morrer na garganta.
A bem da verdade, não havia muito que pudesse ser feito. Ela não seria capaz de curá-lo e o máximo que podia fazer por ele era continuar ao seu lado.
Frustrante pra cacete, pensou.
Serena continuou ali acariciando o cabelo dele até que a compressa improvisada secasse, torcendo para que respiração dele regularizasse de uma vez. E, quando o fez, tirou a toalha seca devagar e recuou. Era melhor deixá-lo descansar um pouco.
Pela manhã conversariam com calma.
Mas antes que saísse da cama, aquele braço rígido de vibranium a envolveu pela cintura, impedindo-a de se mover.
Os olhos dele então abriram.
Um pouco, só um pouquinho. O bastante para que Serena visse a súplica escondida neles.
— Precisa de alguma coisa? — ela murmurou.
— Não vá — não sabia dizer se aquilo era um pedido sincero ou delírio febril — por favor.
Fosse como fosse, Serena ergueu um lábio para cima.
— Não vou a lugar nenhum, Bucky.
Ele aquiesceu e a puxou para o lado dele.
Seus braços enormes a envolveram de uma forma protetora contra o próprio peito, como se temesse que ela fugisse caso a soltasse por um instante que fosse.
— Eu... amo você, Serena — ele balbuciou contra o ouvido dela — por favor, não me odeie.
Ela quis dizer que jamais o odiaria por causa daquilo, que não estava frustrada e que não havia motivo para se envergonhar, mas ele continuava sussurrando aquelas palavras, como uma súplica.
Seu coração partiu ao vê-lo daquele jeito.
Serena aninhou a cabeça em seu peito, sentindo as batidas aceleradas do coração dele. O apertou forte e permitiu que Bucky se sentisse seguro em seus braços. Acolhido. Amado.
Hesitante, ela correu os dedos por uma mechinha do cabelo curto dele.
Os olhos de Bucky se fecharam lentamente, mas as palavras continuaram a sair de sua boca por um tempo, enquanto ela acariciava seu cabelo como quem dizia "vai ficar tudo bem", "estou aqui".
E quando as palavras do sargento esvaíram e sua respiração se tornou profunda e estável, Serena murmurou:
— Amo você também Bucky.
✧❄✧
Na primeira vez em que Bucky acordou sentindo o perfume inebriante e o calor da pele de Serena em seus braços, se lembrava de ter pensado em como seria fácil se acostumar com aquilo.
Ele abriu os olhos lentamente e se deu conta de que o Bucky do passado não poderia estar mais certo em suas suposições.
Sob a luz fraca que vinha do lado de fora do apartamento, viu a silhueta delicada de Serena adormecida ressoando enquanto fazia seu peito e braço esquerdo de travesseiro, uma das mãos repousada no topo da cabeça dele. Era uma posição desajeitada e nada confortável, mas ela tinha de algum jeito, conseguido dormir profundamente mesmo assim.
Não sabia dizer que horas eram. Mais de meia noite, a julgar pela falta de carros circulando pela avenida que cortava o apartamento.
Ele encarou o teto.
Serena tinha cuidado dele outra vez. O tinha levado para cama, o acalmado e até dera um jeito de abaixar sua febre.
Ela não tinha por que ter feito aquilo.
A febre era algo relativamente comum para um super soldado.
Sempre que o corpo estava à beira do colapso, Bucky sentia febres terríveis, mas sabia que seria questão de horas até que se recuperasse completamente.
Mesmo assim, ela havia feito aquilo. Porque o amava.
Mas Bucky era um filho da puta que não merecia aquele amor. Não merecia nada dela além de seu desprezo.
E, de tantas pessoas no mundo... por que logo Serena? Como explicaria aquilo a ela? Como seria capaz de olhar no fundo daquele lindo par de olhos vívidos e dizer que...
Herança de família. A voz dela reverberou, doce.
A agente IV era parente dela, que ironia cruel do destino.
Não havia como Bucky decifrar o vínculo entre as duas, não depois de ouvir Serena dizer que era órfã. Talvez, pensou, ela estivesse mentindo sobre a própria origem. Ou, pior ainda, mentiram para ela. E mais provável, pensando bem.
Ele apertou os olhos e começou a fazer as contas.
Considerando a região onde — supostamente — havia nascido, o fato de ser uma menina e a idade, Serena poderia muito bem ter sido uma das crianças que haviam sido roubadas de suas famílias na infância pela sala vermelha, entregues àquele sistema cruel. Estremeceu.
Bucky era familiar com aquela divisão e com as Viúvas-negras, tinha treinado várias delas pessoalmente no auge da guerra fria. Sabia como agiam, que eram aliciadas e forjadas desde muito novas para se tornarem assassinas letais a serviço da sala vermelha.
Também sabia que Dreykov, o maldito líder da organização, fazia parte do círculo íntimo de uma penca de líderes da Hidra.
Não era difícil imaginar um cenário onde DreykoveVronskytrabalhavam juntos. Talvez, estivessem juntos naquela história desde o começo e...
Não, aquilo não era possível.
O trabalho que Vronsky estava fazendo naquele laboratório no mar negro não combinava em nada com os protocolos de Dreykov.
Além disso, com a queda da União Soviética e a dissolução da KGB, a Hidra deixou a Sala Vermelha e Dreykov de lado — o próprio Soldado Invernal sendo dispensado como tutor e jogado de volta para as missões sangrentas.
Então, pela idade, era pouco provável que Serena tivesse sido um projeto de Viúva-negra.
Bucky ponderou. Final da década de noventa. Quase uma década depois do assassinato de Howard Stark e o projeto fracassado de super soldados da Hidra. Pelo que tinha entendido, o laboratório de Vronsky deveria ser um sucessor daquele projeto falho.
Ele respirou pesadamente.
Aquele projeto com o soro de Stark tinha falhado porque, em teoria, o soro de super soldado amplificava tudo, inclusive a crueldade. Os soldados daquela leva — mercenários e assassinos — tinham se tornados sádicos e incontroláveis até para os parâmetros da Hidra.
O projeto de Vronsky, no entanto, usava outro tipo de abordagem.
Inumano, um outro tipo de mutação. Um novo tipo de soldado. E, ao contrário de assassinos e mercenários, uma criança poderia ser moldada à imagem da Hidra e... puta merda.
Seu cérebro estava trabalhando em um ritmo desenfreado.
Teorias completamente insanas se formavam ao mesmo tempo em que as descartava. A única certeza que tinha, no entanto, era sobre o fato de Serena ser a menina inumana de Vronsky.
Mas isso o levava a outros pontos: quem exatamente havia sido a agente IV morta pelo Soldado Invernal?
Uma mãe tentando desesperadamente salvar a filha sequestrada? Irmã? Tia? Uma agente dupla? Uma viúva-negra?
Ele pensou e pensou.
Até que...
As respostas que está procurando estão aí dentro, James.
Bucky piscou.
Tinha se esquecido completamente daquele detalhe. A mulher.
A mulher que estava no telhado, a mesma que tinha destruído o galpão das docas. Outra ponta solta.
Quem era ela?
Quem queria proteger?
Ele olhou para a esquerda.
Serena ainda dormia profundamente em seus braços. Bucky se remexeu na cama. O ruído de um miado ecoou de suas pernas. Alpine também estava ali, os olhos de gato encarando-o com curiosidade.
Ele esticou os lábios.
Gravou a cena em sua mente antes de se mover: os três — incluindo a gata — deitados na cama. Alpine entre os dois. O coração de Serena. A respiração dela enquanto dormia. O cheiro....
Bucky sentiu o coração esmigalhando outra vez.
Serena estava tão embalada no sono que não fez mais que torcer o nariz quando Bucky tirou a cabeça dela de seu braço rígido de metal, ajeitando o corpo pequeno de uma forma que ficasse mais confortável na cama dele, em seguida.
Naquele instante, uma brisa fria e repentina entrou no quarto fazendo com que ela se encolhesse. A janela estava aberta.
Então Bucky se levantou e, sem emitir som algum, fechou o vidro e as cortinas. Ainda em silêncio, abriu o armário, pegou um cobertor e o ajeitou por cima dela com ternura.
Com o armário aberto, Bucky tirou sua jaqueta, uma camiseta, as luvas, o primeiro par de calças que viu pela frente e calçou as botas de forma desajeitada.
Tinha que sair do apartamento naquele exato momento ou não conseguiria fazer aquilo.
Devagar, fechou a porta do quarto e foi andando até a sala.
No chão, encontrou o maldito medalhão da agente, jogado perto da parede. Bucky pegou a joia como se estivesse amaldiçoada e a depositou na estante, onde jazia o lobo de Serena, um presente.
Encarou a pelúcia com ternura.
Só que debaixo de pelúcia havia... aquele caderno.
O caderno com aquela lista interminável de nomes e... ele ergueu a sobrancelha.
Na primeira folha do caderno, em uma caligrafia elegante, estava uma penca de coisas aleatórias que iam desde comida tailandesa, cantores como Marvin Gaye e filmes. Tudo aquilo escrito por Steve em seus primeiros anos no século vinte e um. O último presente do amigo para Bucky, como um pedido para que seguisse em frente.
E, embaixo da lista dele, havia um espaço em branco preenchido pelo próprio Bucky durante as últimas semanas; uma lista de filmes e séries de Star Wars, Rocky, competições de ginástica artística, a banda Queen... e tudo aquilo havia sido incluído por causa de Serena.
Um sorriso involuntário surgiu em seus lábios. Ela era a responsável por aquilo, por fazê-lo se lembrar de como era ter uma vida.
Só que nada daquilo importava mais.
As lembranças insólitas ressoavam, a culpa o consumia lentamente por dentro.
Ele então folheou até o outro lado do caderno. A nota de rodapé feita há poucos dias praticamente pulou na sua cara.
*Menina Inumana
O sargento torceu o nariz, riscou aquilo e fez uma retificação.
̶*̶M̶e̶n̶i̶n̶a̶ ̶I̶n̶u̶m̶a̶n̶a̶ ̶ ̶
SERENA VALENTE
Aquela era primeira pessoa de sua lista com quem tinha de se redimir e começaria naquele mesmo instante.
Bucky olhou para o corredor.
Serena definitivamente o odiaria, mas era necessário.
E estava a meio caminho da porta, quando o miado fino de Alpine chamou a atenção dele.
A gata o encarou, como se soubesse o que ele estava prestes a fazer.
— É só até que eu consiga resolver essa bagunça, ok?
Alpine emitiu um miado acusatório.
Será que gatos farejavam mentiras ou algo do tipo?
Não, aquilo seria ridículo. Ele deu um passo para trás, sabia que Serena cuidaria bem dela. Mas Alpine, maldita fosse, o seguiu. Bucky soltou um palavrão.
— Tudo, bem — cedeu — pode vir comigo.
E com a gata enfiada dentro da jaqueta, Bucky fugiu do apartamento e de Serena, como o covarde que era.
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