Legacy | Bucky Barnes ︎
40 XL
— SIM, SENADOR, entendo que fui eu quem entregou o escudo para o museu e sei que concordamos que o museu era a melhor opção — disse Sam Wilson pelo telefone.
Em passos arrastados, caminhava de volta para o flat que alugara no Harlem. Engoliu um palavrão. Apesar de estar completamente em paz com a decisão de ter entregado escudo de Steve, lá estava ele, discutindo com o senador Orlov, um dos chefões do GRC, por telefone há mais de quarenta minutos, porque... não fazia ideia.
Obviamente, não o pegaria de volta.
No entanto, saber que quase fora roubado logo na primeira noite em Nova Iorque era um péssimo presságio.
Sam parou de andar e olhou para cima, onde a lua brilhava.
Precisava ter certeza de que o escudo ficaria em segurança. E, se o governo não fosse capaz de proteger o legado de Steve...
— Mas isso foi antes do assalto — acrescentou, ainda ao telefone.
Do outro lado da ligação, houve uma pausa. Algo sutil como um crispar de lábios, como se Sam estivesse tomando o precioso tempo daquele homem com um assunto irrelevante.
"Medidas foram tomadas", o senador respondeu. "Nossa inteligência aponta que foi um incidente isolado e sem relação alguma com organizações maiores, mas ainda não há certeza sobre o que será feito em seguida. De qualquer maneira, o escudo permanece em Washington até segunda ordem, senhor Wilson."
— Acho que você não está me entendendo, senador — Sam insistiu. — Foi uma tentativa de assalto que poderia ter acabado muito mal.
Pior ainda, na verdade. Uma pessoa tinha morrido, o que por si só era catastrófico, mas ele achou melhor não ressaltar aquilo.
— A situação mudou — ressaltou.
Sam ouviu uma risada chiada.
"Acha mesmo que pode simplesmente mudar de ideia e esperar que entreguemos o escudo de bom grado a vocês?" ironizou o senador. "Não é assim que as coisas funcionam por aqui. Sei que é difícil de acreditar, mas ainda temos protocolos e burocracias que nem mesmo os Vingadores podem passar por cima."
— Não estou tentando passar por cima de ninguém — Sam esclareceu, embora soubesse que ele o entendera muito bem na primeira vez. — Tudo que quero é...
"Até mais, Wilson. Lamento não poder ajudá-lo."
— Senador, espere...
Mas o Senador Orlov já tinha encerrado a ligação, maldito fosse.
Sam praguejou, enfiou o celular no bolso e voltou a caminhar.
Que Bucky nunca ouvisse aquilo saindo de sua boca, mas... ele tinha razão. Talvez entregar o escudo para o governo tivesse sido uma atitude impulsiva e idiota. Sabe Deus o que Orlov e o GRC fariam em seguida. E, sem Steve por perto...
Ah, Steve. O que ele teria feito em seu lugar?
Provavelmente nem teria entregado o maldito escudo para o governo para começo de conversa, concluiu. Sam suspirou. Àquela altura, era tarde demais para se queixar. A merda já tinha sido jogada no ventilador.
Por que Steve tinha feito aquilo com ele?
Jogar nas costas de Sam o peso gigantesco de seu legado e desaparecer universo afora, como se não fosse nada, como se o mundo ainda não precisasse dele. Steve Rogers — o verdadeiro Capitão América. Não ele.
Ele entrou no prédio e foi direto para o elevador. Talvez, ponderou, Steve estivesse cansado demais daquela merda e Sam tivesse sido o primeiro idiota que vira pela frente e... Não. Aquilo não era verdade e sabia disso.
Havia sim algum motivo para Steve acreditar que ele era a pessoa mais adequada para assumir o manto. Sam, contudo, não fazia ideia de qual.
E não seria naquela noite que descobriria.
A porta do elevador abriu e ele tirou as chaves do bolso, a outra mão apoiando a sacola de porcarias que tinha acabado de comprar na lojinha de conveniência do bairro: um saco de doritos, algumas cervejas e um jogo da NFL.
Era exatamente o que estava precisando, relaxar um pouco. Ele então abriu a porta e...
— Puta que pariu, Bucky — gritou Sam, com a mão no peito — por que você nunca acende a porcaria da lâmpada?
Bucky não disse nada.
Ao invés, continuou sentado na poltrona — a favorita de Sam — que ficava no canto mais escuro da porra da sala, encarando-o de um jeito assustador, como o grande imbecil que era.
Sam nem se deu ao trabalho de perguntar como diabos ele tinha invadido o apartamento dele — ou encontrado o apartamento dele, para começo de conversa — porque, sinceramente, não queria ter de lembrá-lo de que ainda estava em liberdade condicional e que seria muito difícil justificar a invasão para a polícia.
Ele então soltou outro palavrão, acendeu todas as quatro luzes — sala, cozinha, corredor e área externa respectivamente — e jogou o corpo no sofá de couro.
Estava atolado até o pescoço em problemas.
Além das inúmeras tentativas frustradas de contato com o pentágono, Sam precisava descobrir como andava a investigação de Joaquín Torres e, mais importante, tinha de voltar para Delacroix o quanto antes e ajudar Sarah com o conserto do barco da família.
Lidar com mais uma sessão de Bucky Barnes e "não deveria ter entregado o escudo para o governo, Sam" naquele instante seria demais para sua sanidade.
— O que foi desta vez? — ciciou o Falcão, olhando para o teto.
Quem respondeu, no entanto, não foi o sargento.
Um miado fino ecoou na sala e quando ergueu os olhos, Sam notou que dentro da jaqueta de Bucky havia uma bola de pelos brancos e olhos azuis elétricos encarando-o com a mesma intensidade de seu dono. A porcaria de um gato.
Era só o que faltava.
— Virou pai de pet? — Sam zombou — sempre achei que fosse do tipo que prefere cachorros. Lobos, talvez?
Bucky não disse nada, apenas continuou sentado naquele canto, sisudo, enquanto encarava Sam. Parecia até um encosto.
— Não estou julgando — esclareceu — animais de estimação são ótimos companheiros e é bom saber que está levando a terapia a sério. Mas isso não explica o porquê de ter invadido meu apartamento na calada da noite.
— Eu não invadi seu apartamento — Bucky murmurou — usei a chave reserva que fica escondida embaixo do tapete.
Sam franziu o rosto.
— Sua vizinha me mostrou — o maldito completou, com aquele sorriso enviesado idiota — foi muito atencioso da parte dela.
— Ela é casada — Sam anunciou com esgar — e o cara é um fuzileiro aposentado. Pode ter um braço de vibranium, grandão, mas duvido que seja a prova de balas.
Bucky contorceu o rosto em uma careta.
— Não estava flertando com aquela mulher.
Sam esticou os lábios.
A vizinha em questão era a senhora Kent e deveria ter aproximadamente oitenta e cinco anos e uma penca de shitzus.
— Tem certeza? — insistiu mesmo assim — ela é tão rabugenta quanto você.
— Vai se foder, Wilson.
Ele deu uma gargalhada.
Bucky se irritava tão fácil que era impossível não se aproveitar da situação.
— Sei que não veio até aqui pelas igrejas do bairro ou pela companhia — tornou Sam em um tom jocoso — o que aconteceu?
Bucky emudeceu outra vez, o olhar se perdendo em algum ponto entre a cozinha e a sala.
A risada morreu em sua garganta.
— Se veio até aqui só para me dar um sermão sobre o escudo — disse Sam — juro que vou jogá-lo pela janela.
Silêncio.
O gato se remexeu na jaqueta e Bucky acariciou as orelhas dele com a mão direita. O gesto era distante. Mecânico.
— Não é por isso que estou aqui, Sam — o sargento respondeu depois de um tempo, ainda olhando para a cozinha — preciso da sua ajuda em um... caso.
Sam piscou.
— Que tipo de caso?
— É uma longa história.
— Por favor não diga que está invadindo lugares atrás de criminosos — pediu — júri algum vai deixar isso passar.
Bucky ergueu um lábio para cima.
Sam não gostou nem um pouco daquilo.
— Bucky!
— Eu só preciso que você me ajude a descobrir a identidade de uma pessoa — disse ele, ignorando os protestos de Sam.
— Algum motivo em específico?
Ele não respondeu de cara. Claro que não.
Era de Bucky Barnes que estava falando. O idiota que achava o máximo explicar as coisas pela metade enquanto agia como se fosse o Batman, encolhido no canto da sala com aquela expressão frívola e cara feia.
— Não. Sim. Quero dizer... — Bucky torceu os lábios, como se não soubesse ao certo o que dizer. Foi quando Sam se deu conta de que o assunto era sério e, provavelmente, envolvia o Soldado Invernal — eu... eu fiz algo terrível, Sam.
Sam ergueu o corpo e encarou Bucky.
Ok, talvez a situação fosse realmente séria.
Conhecia aquele homem há aproximadamente dez anos. Tinha acompanhado boa parte dos altos e baixos da segunda vida de Bucky Barnes e o conhecia o suficiente para ver através das entrelinhas das encaradas dele.
Sabia como era a encarada assassina de Soldado Invernal; a encarada de fugitivo procurado; a encarada de quem estava prestes a matar todo mundo; aquela que dizia "eu te odeio, Sam" e, a sua favorita: "não deveria ter se livrado do escudo, Sam".
Mas aquela encarada vazia... Bucky estava transtornado.
— Parceiro — Sam murmurou no mesmo tom tenro que costumava usar durante a terapia de grupo com os veteranos — se quiser minha ajuda, precisa contar a história toda. Não consigo te ajudar se estiver no escuro e, antes que comece, não vou me envolver em outra empreitada contra o governo. Sarah me mataria.
Bucky inclinou a cabeça. Uma sombra de reação pelo menos.
— Não sabia que estava em um relacionamento.
— Sarah é minha irmã — Sam corrigiu — e eu perdi muitos anos de infância dos meus sobrinhos por causa dessas merdas. Não vou perder mais nada, Bucky. Eles precisam de mim.
Bucky endireitou os ombros e voltou a encará-lo, mas não cederia; estava sendo sincero quanto a parte de não virar um criminoso. Não se arrependia nem um pouco de ter ficado do lado de Steve da última vez — especialmente porque acreditava na causa — e faria tudo de novo se fosse preciso.
Mas renunciar a própria família havia sido... difícil.
Foram longos anos sem dar ou receber notícias à irmã caçula e quando finalmente conseguiu voltar até Delacroix, teve um choque de realidade ao descobrir que seus sobrinhos, tão pequenos e fofos, já estavam se tornando homens.
E Sarah... sua irmã estava com um fardo grande demais para aguentar sozinha. Era hora de Sam assumir seu papel de irmão mais velho.
O sargento grunhiu, trazendo Sam de volta para a conversa.
— Não estou pedindo que se torne um fugitivo da justiça por minha causa, Sam. Eu nunca quis isso.
— Eu sei, eu sei — e deu um suspiro combalido.
Estava sendo injusto com Bucky.
O sargento nunca pediu ajuda a Sam ou a Steve ou quis que eles se metessem na história complicada entre o Soldado Invernal e a família Stark. Além disso, toda a merda do tratado de Sokóvia teria acontecido com ou sem a interferência de Zemo. Bucky não passara de um bode expiatório naquela história.
Sam continuou falando:
— Só... me conte a história toda.
Bucky trincou o maxilar, ele estava muito mais tenso que o normal.
Alguma coisa grave havia acontecido, mas não se importava. Arrancaria a verdade dele nem que levasse a noite toda.
— Por favor — Sam completou.
Bucky grunhiu um palavrão e voltou a encarar, Sam, cedendo.
— Tudo começou em 2005 — disse ele enquanto massageava as têmporas, como se quisesse fazer o cérebro funcionar no tranco — o Soldado Invernal estava atrás de uma agente da S.H.I.E.L.D que tinha roubado um pacote importante da Hidra.
— Uma agente da S.H.I.E.L.D? — repetiu Sam. — É alguém que conhecemos?
Bucky ignorou a pergunta. Seu olhar, no entanto, anuviou.
— A missão era bem simples: matar aquela mulher, recuperar o tal pacote e trazê-lo de volta para a base. Bem o tipo de coisa que mandavam o soldado fazer.
Uma pausa.
Sam imediatamente entendeu onde Bucky pretendia chegar. Não disse nada, contudo.
O sargento então suspirou, ajustou a postura no sofá e continuou falando:
— A primeira parte foi fácil, era a especialidade do Soldado Invernal, ceifar vidas — Bucky disse aquilo como se não fosse nada, mas Sam viu a culpa escondida no olhar. — Só que houve um... imprevisto no meio da missão.
— Que tipo de imprevisto? — inquiriu Sam.
— O pacote não estava com ela.
O Falcão franziu o rosto.
— Como assim "o pacote não estava com ela?"
— De alguma forma, essa agente sabia que o Soldado Invernal estava vindo e o atraiu para uma armadilha em um hotel em Genebra — o sargento respondeu, as mãos ainda no rosto — ela sabia o que soldado fazia e do que era capaz. Sabia que era suicídio enfrentá-lo, mas o fez mesmo assim.
O Falcão sentiu um arrepio correndo na espinha.
— O que houve depois?
— Enquanto o Soldado Invernal estava atrás dela, o pacote, de algum jeito, despareceu — Bucky explicou — aquela agente se sacrificou para que a Hidra não pusesse as mãos nele.
— E por que está revirando esse assunto agora, Bucky? — Sam perguntou.
Não conseguia compreender o motivo pelo qual Bucky estava tão interessado naquele assassinato do Soldado Invernal em específico. Claro, era terrível, mas não havia sido um caso isolado, sequer tinha sido o mais insólito.
O que tinha a ganhar remoendo aquilo, além de mais dor e sofrimento?
— Porque — disse Bucky, a voz cortante — eu acabei de descobrir o que era o pacote e, se minha teoria estiver certa, essa história está longe de terminar.
Sam não disse nada, apenas fez um sinal para que continuasse falando.
Ele obedeceu:
— O que sabe sobre inumanos, Sam?
— Inu o quê? — ciciou Sam, a expressão confusa.
— Inumano — Bucky repetiu, como se fosse óbvio — não humano ou algo assim.
— São aprimorados? — Sam deduziu.
— Mais ou menos.
— Então, é outro tipo de super soldado? — Sam insistiu. — Algo parecido com Strange ou Wanda?
Bucky fez que não com a cabeça.
— Olha eu também não entendo direito que merda isso significa, mas, para encurtar a história: é um tipo de mutação genética rara que é ativada em circunstâncias muito, muito específicas.
Sam soltou um palavrão.
— Por favor — ele quase implorou — me diga que não é outra merda vinda do espaço.
Bucky não disse, mas não era como se precisasse. Claro que seria outra merda vinda do espaço. Ele então olhou para o fardo de cervejas geladas que estavam na sacola e o abriu.
— Como essa "mutação" é ativada? — perguntou, puxando uma garrafa e estendendo outra a Bucky, que negou.
— Através de cristais.
Sam sopesou a garrafa na mão, virou o lacre de uma vez só e disse:
— Como as joias do infinito?
Bucky fez que não.
Àquela altura, Sam não sabia dizer se aquilo era bom ou ruim. Ele deu uma longa golada na cerveja.
— E o que essa mutação faz? Cria um exército de mortos-vivos?— Disse aquilo em tom de zombaria, mas não parecia tão impossível assim, visto que já tinham enfrentado coisas tão absurdas quanto em um passado recente. — Vampiros, quem sabe?
— Eu não entendi essa parte direito — Bucky admitiu — mas é possível que sejam semelhantes a super soldados, só que... melhores. Mais poderosos e letais. O objetivo da Hidra era criar um exército desses... inumanos. Mas a agente quatro interveio antes que o plano fosse adiante.
Uma fagulha de compreensão atingiu Sam. Ele sorveu sua cerveja pela segunda vez e perguntou:
— Uma única mulher impediu que a Hidra fizesse um exército de super soldados espaciais, é o que está me dizendo?
Se ficasse em silêncio por tempo o bastante, sentiria as engrenagens de seu cérebro girando e girando enquanto criava cenários hipotéticos — e apocalípticos.
Até que:
— E o pacote em questão seriam esses cristais?
— Não — Bucky chiou — até onde eu sei, todos os cristais foram destruídos.
— Então o que...
— Durante os experimentos — Bucky o cortou — a Hidra conseguiu criar seu próprio inumano. Esse era o pacote que aquela agente estava protegendo: uma criança inumana, resgatada de um laboratório na Europa Oriental.
Sam quase se afogou com a cerveja e tossiu algumas vezes enquanto processava a informação.
Aquilo era uma merda gigantesca. Emergência nível Vingadores, se a Hidra estivesse mesmo envolvida.
— Recapitulando — chiou o Falcão, quando o ar voltou aos pulmões — a história toda envolvendo essa agente quatro, a Hidra e você aconteceu há quase vinte anos. E, agora temos esse "inumano" à solta por aí.
Sam fez uma pausa e encarou Bucky, como se esperasse o sargento o contradissesse. Mas como ele não o fez, ele continuou falando:
— Não sabemos ao certo os limites do que ele pode fazer. Isso significa que podemos estar lidando com qualquer coisa desde um super soldado como você e Steve, até uma nova versão dos gêmeos Maximoff. Tem mais alguma coisa que gostaria de acrescentar?
— Você resumiu bem a história — aprovou Bucky.
O Falcão soltou um palavrão.
— E está preocupado que esse inumano, um aprimorado forjado pela Hidra, possa ser uma bomba relógio?
Se fosse o caso, tinham de descobrir a identidade daquele inumano o quanto antes.
O mundo estava uma bagunça completa desde o estalo. Crises, guerras e conflitos e os Apátridas da investigação de Joaquín semeando o caos por aí. Se realmente havia uma criatura superpoderosa a solta pelo mundo, deveriam investigar o quanto antes — especialmente se a criatura em questão tinha relação com a Hidra.
Mas Bucky não parecia contente com o comentário de Sam.
— O quê? É claro que não — ele quase gritou e lançou um olhar ultrajado para Sam, que levou um susto com a reação explosiva.
Por um instante, temeu que Bucky pulasse em seu pescoço de tão enervado.
— Calma, só estou tentando entender sua linha de raciocínio, parceiro.
O sargento recuou e respirou fundo.
— Você entendeu tudo errado, Sam — grunhiu ele — Serena é incapaz de ferir alguém.
A forma como Bucky havia dito o nome da mulher, Sam conhecia aquele tom.
Não era um tom de amizade ou companheirismo, mas algo a mais. E, quando o encarou... em que merda você se enfiou desta vez, Bucky?
— Ela? O inumano é uma mulher? E você a conhece?
— Serena é minha vizinha — Bucky admitiu — eu nem sonhava que ela poderia ser uma aprimorada ou algo do tipo até...
A voz dele morreu.
— Até? — Sam incentivou.
Bucky mexeu o braço esquerdo. Um estrépito das engrenagens de vibranium ecoou pela sala; a gata no colo dele se remexeu, como se tivesse notado a inquietação de seu tutor.
— Hoje — respondeu entredentes — vi no pescoço dela um medalhão idêntico ao que a agente quatro usava na noite em que o Soldado Invernal a matou — a voz combalida de Bucky partiu o coração de Sam — Serena disse que era uma "herança de família".
A expressão do Falcão suavizou. Então a agente era parente da inumana?
Mãe? Tia? Irmã? Não importava, a bem da verdade.
Bucky desviou o olhar.
— Sinto muito por isso, parceiro — consolou Sam.
Pobre Bucky, não era de se admirar que estivesse tão transtornado.
Descobrir que a vizinha era mais um dos efeitos colaterais do Soldado Invernal... não conseguiria se imaginar no lugar dele dando a notícia.
Mas o sargento não esboçou reação quando disse:
— Não sinta.
— Ainda não entendo onde eu entro nessa história — tornou Sam, o rosto franzido — se já sabe onde a inumana está e que não é nenhuma ameaça ao mundo, por que não deixa isso de lado?
— Não posso — ele disse, a voz cortante outra vez.
— Por que não?
Bucky não disse nada.
E Sam era quase capaz de ouvir as engrenagens daquele cérebro de robô girando.
— Bucky?
— Tem uma ponta solta nessa história — o sargento sibilou — e, enquanto não descobrirmos quem é essa pessoa e como está agindo, mais inocentes correm perigo.
Sam rangeu os dentes e olhou para Bucky, como se perguntasse "é a Hidra outra vez?" mas os olhos azuis dele estavam perdidos e isso bastou para que entendesse o recado. Bucky não fazia ideia e era isso que o atormentava tanto.
Bem isso e fato de ele ter... céus, o sargento não era um homem de sorte.
— Agora que sabe a história toda — Bucky entoou — vai me ajudar ou não?
Ele não disse nada a princípio. Ao invés, olhou para a cerveja em sua mão; para o saco de doritos; a televisão; depois para Bucky e suspirou.
O jogo da NFL teria de esperar um pouco.
— Por onde começamos? — Perguntou Sam ao se levantar.
Teriam muito trabalho pela frente.
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