Legacy | Bucky Barnes ︎
41 XLI
SERENA ENCARAVA A TRAVE COMO SE A PRÓPRIA VIDA dependesse daquilo.
O peito subia e descia descontroladamente, as pernas tremiam e gotas de suor escorriam livremente por seu rosto e corpo. Estava treinando havia o quê... três, quatro horas seguidas? Não parecia nada. E, no que dependesse dela, passaria o resto da vida entocada naquele estúdio.
Pelo menos ali, não precisava pensar em mais nada além do seu solo.
Com um pequeno impulso do trampolim, subiu na trave e começou a série.
Tinha voltado a treinar, havia apenas duas semanas. Era de se esperar que seu desempenho não fosse o mesmo de antes do estalo, mas até que não estava tão ruim assim.
Claro, não tinha o mesmo polimento ou delicadeza de antes. Mas a evolução era notável: apesar dos músculos levemente travados, estava conseguindo completar o seu solo antigo com — quase — a mesma perfeição de 2018, salvo uma ou outra adaptação.
Ela deslizou pela trave em passos elegantes, alternando entre dança e ginástica com a meticulosidade e sutileza que tornava aquela série única. Dela.
E Sorriu.
Serena tinha construído aquele solo, movimento por movimento, durante anos, até chegar naquela versão.
Era seu trabalho. Seu orgulho.
Continuou dançando e saltando até que as últimas notas da canção reverberassem pelo estúdio.
Quando deu o último salto, pousou os pés no chão e fechou os olhos.
Seu coração batia rápido.
Sentia-se bem. Confiante. Quase contente.
Quase.
Então, respirou fundo.
Uma. Duas. Três vezes.
Foi quando ouviu o som de aplausos. Apenas duas palmas, mas o suficiente para despertá-la do estado de torpor.
— Bravo — disse uma voz do outro lado do estúdio. — Vejo que continua afiada, menina.
Serena endireitou a postura e franziu o rosto.
— Senador Orlov — cumprimentou, caminhando em sua direção. — Eu estenderia a mão, mas estou suada demais para isso, senhor.
O senador pareceu achar graça, mas recolheu a mão que estava prestes a estender mesmo assim.
— Um passarinho me contou que tem usado o estúdio diariamente — disse ele, fitando-a de cima abaixo como se aprovasse o que via. — Está confortável? Anda precisando de alguma coisa?
— É perfeito — respondeu, com um sorriso — espero não estar abusando de sua boa-vontade.
Ele levantou uma sobrancelha.
— E por que estaria?
— Bem, estou usando seu lindo e intocado estúdio para treinar por horas e já faz duas semanas que venho aqui — diariamente. Não precisou dizer.
Ela forçou um sorriso. É, estava abusando.
— É temporário — achou melhor esclarecer. — Apenas enquanto estou de... férias.
"Férias" era um belo floreio para a situação.
A verdade era que Erika continuava distante — sequer estava no museu da última vez que aparecera por lá. Mesmo assim, Serena tinha esperanças de que quando enfim se encontrassem, conseguiria o emprego de volta.
Por ora, evitava pensar muito a respeito.
Além disso, ficar em casa...
Arg, aquele estúdio era o melhor lugar para ela no momento.
— Ninguém estava usando essa sala, menina — esclareceu o senador, abanando as mãos. — E, se a tranquiliza, é de meu interesse que nossas estruturas estejam em pleno funcionamento. A última coisa de que preciso no período pré-eleitoral são rumores e fofocas quanto a desperdício de dinheiro dos contribuintes.
Ótimo, pensou Serena franzindo o rosto. Agora estava sendo usada de bode expiatório pelo senador.
O senador, provavelmente notando a resignação dela, deu-lhe um olhar indulgente.
— Estou apenas brincando, é claro. Temos um programa sólido com atletas de alto rendimento do país todo. Tenho certeza de que percebeu que nossas quadras estão sempre lotadas.
Era verdade. O lugar vivia abarrotado de gente.
Serena então esticou os lábios. Não diria que estava sorrindo, mas era bom saber que a iniciativa do senador estava dando certo. Lugares como aquele centro poliesportivo eram muito importantes para a comunidade.
— Que bom que aprecia nosso programa — continuou o senador — porque é justamente o que vim discutir.
Foi involuntário, mas uma careta se formou no rosto de Serena.
— Achei que o tivesse deixado a par de minhas intenções, senhor — ela respondeu. — Gosto do estúdio e de treinar aqui, mas não mudei de ideia e pretendo continuar trabalhando com Erika no museu — quando ela der o ar da graça, quase completou.
O Senador Orlov então abriu um sorriso insidioso.
— Sabia que diria isso — disse, estendendo uma pasta na direção dela. — Só que, desta vez, trouxe uma proposta interessante e que beneficiará a nós dois.
Com certo ceticismo, Serena pegou a pasta azul com o logo do GRC das mãos dele e correu os olhos em uma das folhas.
Leu. Releu.
Então, fechou a pasta e encarou o senador.
— Não entendo, senhor — anunciou.
— É um contrato — ele explicou, como se Serena fosse uma criança. — Quero que faça parte da minha equipe.
— Eu já disse que...
O homem não a deixou terminar.
— Não é uma bolsa esportiva, menina — enfatizou. — O que estou oferecendo é uma oportunidade única.
Ela arfou.
— Eu não...
— Seu receio é quanto a estabilidade financeira, certo? — Orlov a interrompeu. — Enquanto trabalhar para mim, não terá de se preocupar com nada disso.
— Quer que eu trabalhe para você? — Serena repetiu. — Como... atleta?
— Tecnicamente, a vaga é para nutrólogo — ele explicou. — Você cursava medicina, não é? O centro poliesportivo possui uma ala médica e precisamos de alguns residentes. Uma atleta na equipe é justamente a propaganda que preciso para expandir o projeto.
Serena abriu a boca para perguntar de onde ele tirara aquela informação, mas lembrou que Orlov fazia parte do comitê de reintegração de bolsas da NYU. Fazia sentido que tivesse acesso àquele tipo de informação, percebeu.
Mesmo assim...
— Olha, como eu disse antes, senhor, não estou mais vinculada a universidade.
— Detalhes.
Um detalhe bem relevante, Serena quase respondeu. Mas ficou em silêncio.
— É um projeto experimental — o senador insistiu — a ideia é conciliar as horas de trabalho com os treinos. E, certamente, haverá a possibilidade de competir oficialmente, caso haja oportunidade para tal.
Competir oficialmente...
Serena piscou.
Ele sorriu ainda mais ao notar que ganhara a curiosidade dela.
— Vou explicar de outra forma, menina. Se aceitar, vai trabalhar para mim e receberá um salário fixo, sem incertezas ou cortes repentinos.
Aquilo era... uau.
— Por quê? — O que você ganha com isso? Quase emendou.
Uma pausa. O senador desviou o olhar, como se estivesse sopesando a pergunta. Então:
— Durante meu último mandato, fizemos várias leis de incentivo ao esporte. Este centro poliesportivo, por exemplo, é um dos frutos de esforços conjuntos com o GRC — disse ele, apontando ao redor. — Atualmente, temos mais de cinquenta funcionários entre jogadores de basquete, lutadores, enxadristas e até nadadores. Todos são ex-bolsistas que sumiram no estalo, assim como você. Se estiver com alguma dúvida, pode conversar com qualquer um deles.
Serena levou a mão ao colo, sentindo o peso da ausência do colar de Isabel.
O que diria a ela naquela situação?
— É uma proposta generosa, senhor, mas...
— Antes de negar, sugiro que se atente ao salário e aos benefícios — ele sugeriu, com uma piscadela. — O GRC está comprometido em reintegrar à sociedade todos aqueles que sumiram no estalo.
Serena ficou muda enquanto olhava para o contrato mais uma vez.
Era perfeito. Menos horas de trabalho semanais. Ficava perto do apartamento — portanto, nada de metrô. Teria mais tempo para se dedicar aos treinos. Além disso, o contrato garantia consultas médicas gratuitas, um refeitório local e, Santo Deus, estaria fazendo o que realmente gostava.
Era bom. Muito bom.
Quase bom demais para ser verdade.
— Não espero que me responda imediatamente — o Senador Orlov observou enquanto ela encavara o papel como se fosse uma bomba prestes a explodir — pense com calma na proposta e procure o pessoal do RH quando se decidir.
Ele então tocou em seu ombro, apertando de leve.
Seu olhar era tenro, como se ele realmente estivesse ansioso para vê-la como parte da equipe. Serena, contudo, deu-lhe um olhar austero.
— Posso fazer uma pergunta, senhor?
— O que quer saber?
— Por que tanto esforço?
Não fazia sentido que insistisse tanto em uma zero à esquerda como ela, especialmente depois de Serena negar a ajuda dele.
— Há centenas de outros atletas capacitados por aí em busca de uma oportunidade — reiterou. — Por que eu?
Ele fez uma pausa, mas não levou muito tempo até que erguesse um lábio para cima.
— Como disse antes, menina: você é talentosa. E dedicada. — O Senador Orlov explicou. — Eu a vi treinando antes, e sei o que anda fazendo. Há muito tempo busco por um talento como o seu.
A mão dele ainda segurava seu ombro enquanto a encarava de um jeito pragmático, com aqueles olhos verdes penetrantes.
— E, não pense que vou deixá-la escapar tão fácil desta vez — completou. — Vai descobrir que posso ser muito persuasivo.
Serena abriu a boca, mas um tintilar vindo do paletó dele a deteve de continuar falando. O senador então tirou o telefone do bolso e ergueu uma sobrancelha ao olhar para a tela.
— Perdão, preciso atender essa ligação — disse ele ao se afastar — espero que faça a escolha certa.
Feito isso, Orlov deu as costas e saiu falando no telefone, mas Serena não ouviu nada do que ele ciciou, ao invés, estava concentrada na pasta ainda em suas mãos, no contrato de trabalho e suas cláusulas.
Não entendia muito sobre aquelas coisas, mas parecia razoável. Então, em toda a sua infinita curiosidade, Serena espiou o final do documento, onde estava o salário que receberia e se espantou.
Puta merda, eram muitos zeros.
Aquilo era loucura. Se aceitasse, todos os seus problemas financeiros seriam resolvidos.
James poderia escolher a ração que quisesse do mercado e, de quebra, teria à disposição quantos sachês de cordeiro aguentasse comer.
Serena pagaria as contas da casa, assinaria serviços de streaming o suficiente para entretê-la nos próximos mil anos e, mais que isso, quitaria todas as dívidas e, com o dinheiro que sobrasse... ela piscou.
Estava divagando.
Não. Não tinha decidido nada ainda.
Precisava de ar. Precisava de espaço, e a julgar pela forma que as pernas tremiam, já tinha treinado por tempo demais para um único dia.
O relógio exibia quatro e meia. Não era a hora que a surpreendia, mas o fato de que haviam se passado tanto tempo desde que tinha adentrado no estúdio.
Com um suspiro resignado, Serena pegou a bolsa e marchou em direção ao banheiro.
Tinha muito em que pensar.
✧❄✧
— Obrigada por aceitar me encontrar fora do escritório, Amanda — Serena murmurou — sei que estou abusando e que direito trabalhista não é sua área, mas é a única advogada que conheço.
— Besteira — Íris respondeu pela noiva — fui eu quem pediu a Amanda para que viesse.
Serena acenou, dispersa.
Não estava em seus planos importunar Amanda e Íris com seus problemas — a bem da verdade, ainda não estava convencida de tinham que voltado a normalidade — , mas não tinha a quem recorrer. O contrato a assombrava e parecia burrice recusar sem ao menos pedir uma segunda opinião.
A voz de Amanda a trouxe de volta para a conversa.
— Não me importo em ajudar uma velha amiga de Íris, Serena — tranquilizou a advogada enquanto segurava um bagel coberto de gergelim — além disso, as amigas de Íris são minhas amigas também.
— Estava no pacote. Sem direito a devolução. — Íris emendou, indicando o anel em seu dedo anelar.
Serena deu uma risadinha.
A amiga então deu um selinho pudico em Amanda, que corou e colocou o bagel de volta na mesa.
— Bem... preciso de tempo para analisar todas as cláusulas a fundo, Serena — tossiu Amanda, recobrando a compostura — mas posso adiantar que é um contrato muito vantajoso para você a longo prazo.
Ao lado da noiva, Íris espiava os papéis sob os dedos longos e delicados da outra mão de Amanda enquanto segurava um copo contendo uma quantidade preocupante de cafeína.
— Está brincando? Esse contrato é perfeito — resmungou Íris — isso aí tem plano de saúde. Eu não tenho plano de saúde.
Serena, que tinha pedido chá matcha e uma salada de frutas, franziu o rosto.
— Sua empresa não cobre plano de saúde? Achei que os funcionários das empresas Stark fossem bem pagos.
Íris fez uma pausa e bebericou o café. Depois de engolir, projetou os lábios para cima em um beicinho.
— O salário é ótimo, é verdade — disse. — Mas eu trocaria meu gympass por uma boa terapeuta sem pensar duas vezes.
— O que quero dizer — tornou Amanda, ignorando as lamúrias da noiva — é que isso vai além de uma bolsa esportiva. Pelo que consta aqui, você basicamente vai poder treinar como atleta, enquanto desempenha algumas funções no centro poliesportivo como nutróloga residente — ela baixou o papel e encarou Serena — essa é a sua formação, não é?
— Não consegui terminar o internato — Serena admitiu, com um suspiro resignado — e o estalo impediu a entrega dos últimos cinco créditos. Tecnicamente, não posso começar uma residência.
— Isso pode ser facilmente resolvido — Amanda observou, gesticulando — posso conversar com o jurídico da NYU e pedir a reintegração da sua vaga. Cinco créditos são menos de seis meses de aulas e, com o novo salário, pode arcar com as despesas das mensalidades sem pesar tanto no seu orçamento.
— Medicina é cara demais —contrapôs Serena. — Mesmo que o salário de Orlov seja bom, não tenho reserva alguma de dinheiro para me manter — acabaria sendo despejada de casa, não precisou completar.
Talvez não tivesse sido uma boa ideia. Estava se enchendo de esperanças e...
— Posso conversar com Verity do financeiro — Íris imediatamente ofertou. — Ela acabou de conseguir um financiamento para cobrir os custos da pós-graduação. Não é o ideal, mas pode funcionar.
Serena piscou.
— Eu... não tinha pensado nisso.
— Juros de financiamento estudantil podem ser diminuídos — Amanda complementou — tenho certeza de que podemos encontrar uma boa proposta.
Serena abriu a boca.
— Estou mandando uma mensagem para ela agora mesmo — Íris disparou.
A advogada então deu um sorriso e pegou na mão da noiva.
— Isso seria ótimo, amor.
Feito isso, as duas trocaram um olhar conspiratório e começaram a elaborar planos e procurar por pessoas que poderiam ajudar Serena, como se fossem duas generais traçando planos de guerra.
Serena arfou. Não entendia direito o que acabara de acontecer ali, mas era grata as duas.
Amanda e Íris agiam como uma unidade, duas partes de uma super pessoa. Elas se entendiam tão bem que nem precisavam de palavras para conversar, uma troca de olhares bastava. Nunca tinha visto um casal tão bem entrosado na vida.
Elas pareciam... felizes. Apaixonadas.
Serena piscou outra vez.
— Amiga, o que foi? — disse Íris, franzindo o rosto — você está chorando.
Ela tocou no rosto e percebeu que as bochechas estavam úmidas.
— Não é nada — garantiu, limpando as lágrimas.
— Ei — Íris insistiu, olhando para a amiga — vai dar tudo certo. Estamos aqui para apoiar você.
Serena aquiesceu, se forçando a engolir o bolo que subira em sua garganta.
— Serena — Amanda emendou — sei que nos conhecemos há pouco tempo, mas aqui vai um conselho como sua advogada: aceite a proposta do senador. Não acho que surgirão outras oportunidades como essa em um futuro próximo — ou distante, não precisou completar.
Serena ergueu uma sobrancelha.
— Não me lembro de tê-la nomeado como minha advogada.
— Tarde demais — Íris cantarolou — aceitou ser minha melhor amiga em 2014. Amanda e seus serviços jurídicos não solicitados estão incluídos no pacote. Como eu disse antes: sem devolução.
A advogada revirou os olhos e deu um sorriso afável para a noiva. Mas até que tinha razão. Ambas tinham. Serena estava sendo cabeça-dura e isso acabaria custando a oportunidade de sua vida.
Não tinha motivos para ficar sentada esperando a boa-vontade de Erika quando uma oportunidade muito melhor era praticamente jogada em seu colo.
Quase havia desistido de tudo uma vez.
Queria mesmo cometer o mesmo erro outra vez?
— Amanda — disse Serena, espetando o garfinho em um dos morangos cobertos por iogurte com granola — tem certeza de que, caso assine esse contrato, não venderei a alma para um dementador?
As mulheres se entreolharam e sorriram.
— Se estiver — Amanda respondeu, jocosa — ao menos pode se lamentar com um diploma na parede.
Um avanço, sem dúvidas.
Serena então acenou com a cabeça e olhou para a área externa da cafeteria que ficava perto do centro poliesportivo. Entardecia e a cidade estava pintada em belos tons de rosa e laranja.
Ela se desligou do mundo ao redor e se concentrou na salada frutas, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo.
Foi quando um arrepio percorreu a espinha dela. Uma sensação estranha e esmagadora de que havia algo de errado ali. Era como se alguém a observasse.
Perscrutou ao redor.
Para a cafeteria vazia; para o casal de amigas, completamente alheias às preocupações de Serena; para a rua, onde as pessoas disparavam em todas as direções; para os prédios que se erguiam até onde os olhos podiam alcançar. Mas não encontrou nada.
Todas as pessoas do Brooklyn pareciam estar vivendo as próprias vidas e, então... ela viu.
— Bucky? — o nome do sargento soou como um impropério em sua boca.
Mas era ele quem estava parado do outro lado da rua e tinha um olhar consternado.Ela franziu o rosto. Aquilo era real?
— Disse alguma coisa, Serena? — Inquiriu Íris.
Serena fechou os olhos e respirou fundo. Se manteve assim por mais ou menos cinco segundos.
Inspirou. Expirou. Inspirou outra vez.
Quando se permitiu abrir os olhos novamente, Bucky já não estava mais ali.
— Não é nada, Íris — ciciou.
E voltou a comer.
Estava imaginando coisas.
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