BUCKY SABIA QUE NÃO DEVERIA ESTAR ALI. Ficar tão próximo era perigoso demais. Poderia acabar perdendo o controle e ir atrás dela, o que estragaria tudo — como quase tinha acontecido naquele exato instante.

Estava tão entretido com o rosto, as expressões e a presença de Serena que, por um breve momento, se esquecera completamente do motivo pelo qual precisava ficar escondido e, por muito pouco, controlou o ímpeto de ir atrás dela.

Então, sem se preocupar com quem estaria olhando, Bucky se postou até o primeiro beco que encontrou e se escondeu atrás das lixeiras. Não saberia dizer se ela tinha se dado conta ou não de sua presença, tampouco correria o risco de descobrir.

O coração do sargento palpitava, e ele tentava controlá-lo. Mesmo ali, ainda era capaz de vê-la. O rosto. A boca. Os olhos.

Aqueles olhos...

— Isso é algum fetiche esquisito de stalker? — entoou uma voz logo acima dele.

Bucky virou o rosto e torceu o nariz.

— Vai se foder, Sam — grunhiu ele ao passo em que se esgueirava até a parte mais escura e afastada do beco.

Não poderia chamar a atenção para si mesmo, não quando seu objetivo era ser discreto.

Sam Wilson, que desconhecia o significado daquela palavra, recolheu as malditas asas de metal para dentro da mochila que ficava acoplada em seu traje de Falcão — ainda a dois metros do chão — e aterrissou ao lado de Bucky com um baque surdo.

— Se não for — tornou ele enquanto dava uma série de comandos para redwing, seu drone de estimação igualmente espalhafatoso — recomendo que seja mais sutil da próxima vez ou vai acabar preso por importunação.

— Você é nojento — disse Bucky, enervado — não estou stalkeando, estou vigiando. É diferente.

O Falcão encarou Bucky com aquele olhar cáustico de quem sabia seus piores segredos e respondeu:

— Não foi o que pareceu do meu ponto de vista.

— O que você está fazendo aqui? — grunhiu o sargento, optando por mudar de assunto antes que fizesse Sam engolir o maldito drone que pairava entre os dois.

— Estava prestes a te fazer a mesma pergunta.

Bucky alternou o olhar entre a rua e Sam.

— Eu estava de passagem.

Pura mentira.

Sam tinha razão — embora preferisse a morte a admitir aquilo.

O que estava fazendo era esquisito para cacete e, naquele ritmo, realmente acabaria preso.

A bem da verdade, fazia dias que Bucky seguia Serena como se fosse sua sombra. Olhando-a de longe, enquanto se corroía por dentro.

E o que mais poderia fazer por ela?

Não tinha avançado muito na investigação — em nada, na verdade — até então e o sargento era covarde demais para olhar nos olhos dela e confessar as atrocidades cometidas pelo Soldado Invernal.

— Você ao menos tentou falar com ela? — a voz de Sam o trouxe de volta para aquele beco imundo. — Quer dizer, eu até entendo que é muita coisa para assimilar de uma vez só, mas você não pode continuar desse jeito, parceiro. É bizarro.

Bucky olhou para a rua outra vez.

De onde estavam, já não dava mais para ver a cafeteria, mas sabia que Serena ainda estava na mesa.

Mesmo daquela distância, conseguia ouvir o som de risadas sopradas ao vento das mulheres que a acompanhavam e de sua voz vez ou outra. E, talvez estivesse louco, mas jurava que conseguiria sentir o aroma de ameixas do perfume dela, caso estivesse concentrado o bastante, mesmo com o cheiro de lixo e urina impregnado nas narinas.

Serena. Sentia tanta falta daquela coisinha. De suas piadinhas sem graça. Do sorriso mordaz. Da forma altiva que o encarava. Do cheiro. Até mesmo das batidas elétricas de seu coração fazia uma falta tremenda em sua vida.

Cada instante longe de seu apartamento, longe dela, estava matando-o por dentro.

O que ela tinha feito com ele? Como era possível que uma única pessoa trouxesse tantos sentimentos à tona?

Bucky tinha passado as últimas madrugadas em claro sem tirá-la da cabeça. Sempre que fechava os olhos, a memória agridoce do calor de sua pele, de sua boca e deles deitados em sua cama aparecia para assombrá-lo de novo e de novo. Seu inferno e seu paraíso.

E, como o masoquista que era, usava esse tempo para imaginar como teria sido uma vida com ela. Uma vida tranquila — ou tão tranquila quanto possível para alguém como ele. Uma vida de verdade e que poderia ter sido muito boa... se o Soldado Invernal não tivesse fodido com tudo.

— Como espera que eu dê a notícia, Sam? — Bucky respondeu, frustrado. — O que faria de diferente se estivesse em meu lugar?

Sam ponderou por um instante.

— Bem, para início de conversa, eu não ficaria perseguindo a mulher feito uma assombração — ironizou ele depois de alguns momentos. — Mas, se está atrás de ideias... por que não a sequestra em uma ópera?

Bucky massageou a ponte do nariz.

Que Deus lhe desse paciência para lidar com aquele imbecil.

— Pode usar uma máscara no rosto para que ela não o reconheça — completou.

O tom de voz do Falcão era tão incisivo que mal parecia uma anedota elaborada para debochar de Bucky.

— E depois eu a levo para onde? — chiou o sargento — uma lagoa subterrânea?

Sam então riu, o maldito.

— Já acabou com as suas piadas de Fantasma da Ópera?

— Você tem que ser sincero, Bucky — ele tornou, repentinamente recobrando a seriedade. — Ela merece saber a verdade.

Bucky suspirou.

Odiava quando Sam tinha razão — especialmente quando usava aquele tom complacente ou o olhava como se tivesse a sabedoria de um monge —, mas era inegável que estava adiando o inadiável. Cedo ou tarde teria de encarar Serena outra vez e confessar tudo. Ela tinha o direito de saber a própria história.

O que faria depois não cabia a ele decidir. Se ela não o perdoasse, se ficasse com medo e nojo dele... bem, era compreensível.

— Eu sei, eu sei — Bucky então cedeu. — Está aqui só para jogar na minha cara que sou um cretino miserável ou quer me expulsar de vez do seu apartamento?

Sam tinha voltado a dar ordens para o maldito drone que tintilava baixinho na cabeça dele, mas ergueu uma sobrancelha quando disse:

— Embora odeie sua cara feia me assombrando pelas manhãs, Alpine é um amor. Jamais me perdoaria caso a botasse para dormir debaixo da Brooklyn Bridge por culpa do dono babaca.

Bucky bufou.

Aquela bolinha de pelos traidora tinha se esgueirado para o quarto de Sam Wilson logo na primeira noite. Ao que parecia, a cama king size do Falcão era muito mais confortável do que o colo dele.

— Não é por isso que estou aqui — Sam completou, erguendo os olhos. — Acabei de sair do Museu de Arte Metropolitana de Nova Iorque.

Os ombros do sargento tensionaram.

— O que fazia naquele museu?

— Investigando as circunstâncias daquele assalto — Sam respondeu.

Bucky apertou os olhos.

— Por quê? — insistiu. — Achei que estivesse investigando a identidade da agente quatro.

Logo depois de iniciarem as investigações, Sam e Bucky concordaram que o primeiro passo para preencher as lacunas deixadas após o assassinato de Igor Vronsky seria descobrir a identidade da agente IV, o ponto de convergência entre o cientista e Serena.

E Bucky... ele queria saber mais sobre aquela mulher.

Queria entender suas motivações e sua relação com Serena. Não ficaria em paz consigo mesmo enquanto não o fizesse.

— Posso fazer duas coisas ao mesmo tempo — Sam respondeu, indiferente.

— Sam...

O Falcão ergueu uma sobrancelha.

— Parceiro, sei que não concorda com a minha decisão e que não quer ouvir nada relacionado ao escudo, mas... tem alguma coisa errada nessa história.

— Tem razão — o sargento devolveu. — Não quero saber de nada relacionado ao escudo. Você o entregou e agora pertence ao governo. Fim da história. Vamos focar na agente quatro.

Bucky já estava até o pescoço atolado em merdas para lidar. Se pensasse muito a respeito daquele assalto, do fato de Sam ter entregado o escudo de bandeja para o governo e de tudo que acontecera com Serena naquela noite, por conta disso, enlouqueceria.

— Bucky — Sam ergueu os olhos e encarou o sargento — você queria que eu descobrisse a identidade da agente quatro, não queria? Pois bem, é exatamente o que estou fazendo. — Uma pausa, e: — fiz com que redwing esmiuçasse trinta anos da base de dados da S.H.I.E.L.D. Quer saber o que encontramos?

Ele não respondeu. Não tinha por que o fazer.

Sam continuou falando:

— Em todo aquele conjunto infinito de informações, não há nenhum registro que comprove a existência de uma agente quatro. Nada. — Outra pausa. Sam fez uma série de comandos para a pulseira que controlava redwing, que apitou em resposta. — Mas, encontrei um obituário de uma agente morta em combate em 2005. Sem nome ou detalhes sobre a missão, apenas a sigla "I.V".

O cérebro de Bucky começou a trabalhar.

Não era incomum o uso de algarismos romanos em documentos oficiais, especialmente em se tratando das credenciais de agentes de campo. Mas a ausência de registros sobre aquela mulher... porque a S.H.I.E.L.D esconderia a existência da agente IV?

Pelo olhar enviesado, Sam deveria ter chegado a mesma conclusão.

— Acha que é a nossa agente quatro? — Bucky, perguntou.

— Tem um palpite melhor?

O sargento fez que não com a cabeça.

Coincidência ou não, era o melhor que tinham no momento.

— Descobriu mais alguma coisa?

— Essa é a parte interessante — soltou Sam, ainda olhando para o pulso — no obituário, consta a assinatura de uma mulher chamada Erika Jones.

Sam então esticou o braço e mostrou através da tela de seu relógio um arquivo com uma foto de Erika, décadas mais jovem.

— Agente Erika Jones — Sam anunciou. — Líder da divisão de arquivologia da S.H.I.E.L.D.

O sargento sentiu o sangue gelar.

— Ela avaliava peças históricas. Obras de Arte. Pedras preciosas... — prosseguiu o Falcão — investigava as origens, descobria se poderiam ser de interesse da S.H.I.E.L.D.

— E que interesse a S.H.I.E.L.D teria em peças de museu? — Bucky perguntou.

— Quer meu palpite? — Sam resmungou. — Acho que ela tentava descobrir se tinham potencial bélico. Poucos sabem disso, mas há muita tralha alienígena guardada em museus.

Bucky concordou, mas o que incomodava não era o fato de a chefe de Serena ter sido da S.H.I.E.L.D e sim sua relação com a agente IV.

Erika Jones e agente IV, juntas.

Puta merda.

Quanto mais remexia, mais aquela história se complicava.

— Então — disse Bucky — você foi atrás de Erika, não pela relação com a S.H.I.E.L.D, mas porque acha que, de algum jeito, o escudo poderia interessá-la?

— Sim. Não. — O Falcão hesitou. — Sendo sincero, não tenho certeza alguma quanto a isso, mas sinto que deveríamos investigar mesmo assim.

— O que conseguiu com Erika, afinal? — Bucky perguntou, impaciente.

— Esse é o problema. Eu não a encontrei — Sam revelou. — Estou pensando em... alternativas.

Bucky apertou os olhos.

— Que alternativas?

Sam não respondeu. Ao invés, virou o rosto na direção da rua.

— Valente... — Ele murmurou, tão baixo que se não fosse pela audição aguçada nem teria ouvido — ela estava no museu durante o assalto e convivia com Erika Jones. Pode saber de alguma coisa que não sabemos. Porque não aproveita que estamos aqui e...

Um crepitar do braço de vibranium do sargento fez uma luz de redwing oscilar. Um alerta.

—Não a envolva nisso— não a arraste para nossas merdas, era o que queria dizer de verdade.

Sam suspirou.

— Bucky, ouça.

— Nem. Uma. Palavra — desta vez, a voz mais parecia um rosnado — vamos atrás de Erika e arrancar dela o que sabe. Não temos motivos para envolver Serena nessa história.

— Não dá.

Os feixes dourados do braço mecânico de Bucky, como se sentissem a tensão, reluziram. Os olhos cravaram nos do Falcão. Sam, no entanto, não se intimidou e o encarou de volta.

— Por quê? — o sargento ciciou.

— Por quê, Bucky — Sam respondeu, sustentando o olhar — Erika Jones está desaparecida há quase três semanas.

O sangue nas veias de Bucky congelou.

✧❄✧

Qual o seu propósito?

Enquanto caminhava de volta para casa, Serena seguia encarando a pasta azul, sopesando a proposta do senador Orlov. Leu e releu as linhas e entrelinhas do contrato, como se temesse que as palavras ali impressas pudessem magicamente desaparecer. Suspirou.

Era informação demais para seu cérebro assimilar, sim. Mas... quem estava tentando enganar? Aquela deveria ser sua última chance de voltar a fazer o que amava. Jamais teria outra oportunidade como aquela. Nunca.

Levando em conta os parâmetros e a rotina de um atleta de alto rendimento, Serena não era tão jovem assim. Quanto mais tempo se passasse, menor seria a probabilidade de voltar ao tatame. Graças ao estalo tinha perdido quase um ano — quase seis, na verdade. Nem atletas acidentados se afastavam por tanto tempo.

E, sendo sincera, ela já tinha se decidido.

Repousou uma das mãos sob o peito e suspirou pela segunda vez. Independentemente de qual plano estivesse, esperava que Isabel entendesse sua escolha.

Serena então pegou o celular e encarou o contato de Erika Jones brilhando na tela. De nada adiantaria ligar. O telefone corporativo ficava no museu e a supervisora nunca atendia depois das seis. A bem da verdade, nas últimas semanas, nem mesmo dentro do horário comercial conseguira contatá-la.

Teria de fazer aquilo presencialmente, percebeu.

Guardou o celular e continuou caminhando.

A escuridão tinha caído pelas ruas do Brooklyn quando alcançou o quarteirão do Cornélia, embora a vida continuasse fluindo com os barulhos de carros e o mar de pessoas caminhando em direção à estação de metrô mais próxima.

Ao chegar no prédio, Serena atravessou a escadaria em passos arrastados. Subiu degrau a degrau ouvindo o ranger da madeira com seu peso, protelando a chegada ao apartamento o máximo que podia.

Primeiro andar. Segundo andar. Terceiro andar...

Quando alcançou o quarto andar e avistou o tapete com estampa de gatinhos que jazia em frente à sua porta de carvalho envelhecido, parou. Sabia que àquela altura James já aguardava ansioso pelo jantar, mas não entrou. Em vez disso, tirou de sua bolsa uma chave e destrancou a porta que ficava do outro lado do corredor.

A porta do apartamento dele.

Era besteira, ela sabia, mas no instante em que os dedos alcançaram a maçaneta fez uma oração silenciosa, implorando para que seu sargento estivesse ali; encarando-a de cara emburrada e chamando-a de "coisinha" enquanto Alpine passava por entre suas pernas.

Só que Bucky Barnes não estava ali.

O que a cumprimentou, no lugar, foi o vazio gélido e o breu daquele apartamento fantasma. Na sala, não havia nada além de uma televisão velha e o lobo de pelúcia que tinha dado de presente a ele.

Serena então jogou a bolsa no chão, frustrada. Era mesmo uma miragem.

Que ideia idiota, achar que Bucky ficaria parado do outro lado da rua encarando-a daquele jeito.

Bucky. Deus, gostaria de poder ficar com raiva dele; queria odiá-lo por simplesmente desaparecer por todo aquele tempo feito um babaca sem responsabilidade afetiva. Mas... não conseguia, estava preocupada com o sumiço daquele imbecil. Preocupada porque sabia que algo tinha acontecido.

Algo muito, muito grave.

Naquela noite, pouco antes de Bucky ficar daquele jeito, Serena olhara dentro daqueles estúpidos olhos azuis dele e viu: horror. Medo. Dor. Sentiu a angústia dele enquanto o abraçava e murmurava que tudo ficaria bem. Tão forte ao ponto de doer nela.

Nunca na vida havia se sentido tão impotente quanto naquele instante. Ele estava sofrendo e ela não podia fazer nada a respeito. Nada.

E, quando acordou na manhã seguinte, enrolada em um cobertor impregnado com o aroma de cedro e se deu conta de que estava sozinha... aquilo poderia tê-la matado. Serena grunhiu.

No apartamento, não encontrou sinal algum de sua presença — ou Alpine — nem nada pudesse revelar para onde tinham ido. Nem um maldito bilhete. Se não fosse pelas roupas deixadas para trás e o cheiro dele impregnado por toda a parte, Serena teria concluído que os últimos meses não passavam de um delírio de sua cabeça.

Desesperada, Serena saiu perguntando por ele pelo prédio todo, mas ninguém o tinha visto. Nem o síndico, o porteiro, o Senhor Nakajima ou qualquer outro vizinho. Deus, mesmo as câmeras de vigilância do prédio foram incapazes de flagrá-lo se esgueirando para fora do Cornélia. Malditas habilidades estúpidas de super-herói.

Aquilo, obviamente, a deixara possessa.

Porra, havia dito que o amava e que estaria ao seu lado, por que o idiota tinha sumido daquele jeito? Por que tinha optado por fugir ao invés de conversar abertamente com ela?

Seria vergonha? Medo? Algum tipo de orgulho estúpido de macho?

Arg, não importava. O mataria, sem dúvidas. Por ter sido tão babaca, por preocupá-la tanto.

Mas... precisava encontrá-lo antes.

Serena correu os olhos pela sala. Não havia nada além de uma estante com uma televisão velha e... ela viu.

Talvez a raiva cega tivesse feito com que ignorasse aquele pequeno detalhe antes, mas do lado esquerdo do televisor jazia o medalhão de Isabel, quase escondido por causa do lobinho de pelúcia que assomava a joia. Apertou os olhos. Não se lembrava de tê-la deixado ali.

Ela avançou, se arrastando em passos letárgicos até o móvel. Em seguida, pegou o medalhão e o apertou contra o peito, mais que nunca desejando a presença de Isabel, de seus conselhos.

Provavelmente, ponderou, a avó a mandaria dar tempo ao tempo.

Diria que Bucky precisava de espaço para processar o que estava sentindo e estaria certa. No entanto, a avó também poderia aconselhá-la a chutar a maldita bunda perfeita dele e estaria igualmente certa. Serena sorriu com o pensamento. Em se tratando de Isabel, ambas eram opções viáveis.

Então, suspirou, tentando controlar as batidas do coração.

Aquilo não era um romance juvenil, era a vida real. E na vida real, Bucky não era um mocinho perfeito. Não. Ele era uma pessoa complicada, com traumas terríveis e que não seriam magicamente curados por Serena.

Era de se esperar que as coisas não dariam certo de uma hora para outra. Se realmente desejava um futuro com ele, precisaria ser paciente.

E, se mesmo assim, Bucky não a quisesse... bem, doeria no começo, mas sobreviveria.

Ela sempre sobrevivia.

Quando olhou novamente para a estante, um pouco mais calma, percebeu que, além do medalhão, havia também um caderno. Um caderno pequeno, de capa vermelha e couro desgastado.

Ela o pegou.

No começo, não entendeu sobre o que aquilo se tratava, mas logo se deu conta de que era um bloco de anotações dele, a julgar pela caligrafia rústica. Só que... não eram anotações, percebeu ao olhar melhor.

Aquilo era uma lista gigantesca de nomes organizados em ordem alfabética. Alguns estavam riscados, outros não.

Serena olhou e olhou, mas nada daquela lista parecia familiar.

Por que Bucky tinha uma lista de nomes de pessoas ali? O que aquilo significava?

Ela leu e releu o papel até que...

̶I̶.̶ ̶V̶r̶o̶n̶s̶k̶y̶

Sentiu o corpo estremecendo. O nome praticamente saltara em seus olhos.

Vronsky... Igor Vronsky...

A garganta trancou.

✧❄✧

Tudo que conseguia se lembrar era do branco do quarto. E da dor.

Sentada naquele canto, abraçando as próprias pernas finas e pálidas demais, ela se perguntava quando aquilo terminaria... se um dia aquilo terminaria.

A porta de madeira então rangeu e passos lânguidos ecoaram por todo o cômodo — não que houvesse muito espaço para o som se dispersar, a bem da verdade — espreitando em sua direção.

E, como se pudesse afastar aquela presença assustadora, ela se abraçou com ainda mais força.

— Devotchka. — Menina. Uma voz rouca e grave a chamou.

Ela não ergueu o rosto. As pernas tremiam.

— Devotchka — repetiu a voz. Um aviso e uma ordem.

Mas ela se manteve firme. Não queria olhar para aquele rosto odioso.

Um passo em sua direção. Depois, outro. Ela tremeu de novo. Sabia o que viria a seguir. Ele estava parado bem na sua frente.

Pora. —Está na hora, ele entoou ao se agachar. — Ne zastavlyay menya taschit' tebyá. — Não me force a arrastá-la, completou.

Mas ela não queria se mover.

Odiava aquele quarto branco, pequeno e sufocante, mas não queria sair. Porque sabia o que a aguardava no andar de cima, sabia que o lado de fora era ainda pior.

Os braços pequenos e cheios de marcas arroxeadas ainda doíam depois dos últimos exames.

— Yesli budesh' pa-pkhóromu, nikto ne prichinit tebé vreda. — Se for boazinha, ninguém vai te machucar, emendou ele.

—Vy vsegda eto govoríte, i eto vsegda lozh'. — O senhor sempre diz isso. E é sempre uma mentira, a voz infantil da menina respondeu, em um fio.

O homem não disse nada por um instante. Uma quietude sufocante preencheu a sala.

— Kakova tvoya tsel'? — ele perguntou depois de um tempo. A voz rouca e imponente.

Qual o seu propósito?

A menina sentiu o corpo inteiro retesando, mas não respondeu.

— Kakova tvoya tsel', Devotchka? — o homem repetiu.

Qual o seu propósito, menina?

As palavras dele ecoavam dentro de seu cérebro. Aquilo machucava. Machucava muito.

— Ty znayesh', chto soprotivlyatsya khuzhe.— Sabe que resistir é pior, completou ele, entediado. — Govori skoreye, devotchka.

Diga logo, menina. Não um pedido. Uma exigência. Uma ordem.

— Sluzhit' — ela então cuspiu — gospodin.

Servir, senhor. Era a única resposta possível. Não podia contrariá-lo.

Desde muito nova fora ensinada a responder daquele jeito, como um cachorrinho. Calma. Complacente. Obediente.

Uma boa menina.

E se não o fizesse... haveria consequências.

— A chto ty delayesh', kogda ya davayu prikazy? — Emendou o homem.

O que você faz quando eu dou as ordens?

O que deveria fazer? O que ela era para aquelas pessoas?

A menina balbuciou palavras incompreensíveis. Ainda encolhida. Ainda com medo. Não tinha ousado erguer o rosto, mas sabia que ele estava sorrindo.

O sorriso de um monstro.

— Khvatit bryuzzhat— pare de resmungar, disse ele.

Não era um grito. Ele não precisava gritar para aterrorizá-la.

A menina sentiu a garganta fechando. Ela sabia a resposta certa, mas não queria dizer as palavras.

— Skazhi uzhe. —Diga de uma vez, chiou o homem, impaciente.

Então, a menina sentiu uma mão fria puxando os cabelos para trás, forçando-a a erguer o rosto, mas não queria olhar nos olhos dele. Ao invés, se forçou a encarar o crachá pendurado no jaleco branco, onde o nome Igor Vronsky via-se elegantemente estampado em cirílico, com a indicação de que era a cientista-chefe.

O responsável por aquele lugar. Responsável por ela.

— Skazat' — diga.

Ele puxou os cabelos dela para trás com mais força ainda.

— Ya podchinyayus' — ela cuspiu, trêmula. – Ya podchinyayus'.

Eu obedeço.

Obedecer e servir. Aquele era seu propósito dentro daquele lugar.

— Molodets, devotchka. — Boa menina, disse ele, soltando-a. — Poydyom, u nas mnogo raboty pered nami.

Venha, temos muito trabalho pela frente, era o que aquele homem queria dizer enquanto caminhava até a porta.

Não era um pedido e sim uma ordem.

Não havia outra opção senão segui-lo.

✧❄✧

Serena arfou algumas vezes, afastando a memória.

Igor Vronsky. Aquele demônio estava morto, tinha visto aquilo no noticiário, semanas antes. Morto em uma explosão nas docas.

Não se permitia pensar muito no maldito rosto dele, em tudo que aquele homem tinha feito e do certamente continuou fazendo por todos aqueles anos.

Balançou a cabeça. Aquela história estava completamente acabada. Vronsky estava morto, incapaz de alcançá-la ou feri-la outra vez.

Serena deveria estar feliz, afinal, nunca mais veria aquele homem detestável.

Mas... porque o nome dele estava no caderno de Bucky, riscado em vermelho ainda por cima? O que significava tudo aquilo?

Ela apertou os lábios.

Seria possível que Bucky estivesse por trás daquela explosão? Que fosse o responsável pela morte de Vronsky?

Parando para pensar, até que fazia sentido.

Não tinha refletido sobre aquilo até então, mas por qual outro motivo ele estaria nas docas no exato momento da explosão? Era coincidência demais, conveniente demais.

E, considerando o passado dele, não era difícil imaginar um cenário onde o cientista tenha coagido o Soldado Invernal a fazer alguma atrocidade ao ponto de despertar a ira de Bucky.

Então, Serena pensou, se Bucky tinha matado Vronsky, será que os outros nomes riscados....

Ela pestanejou.

Sabia que o sargento tinha o costume de ficar fora até tarde — muitas vezes voltando para o apartamento apenas no dia seguinte, sujo e arranhado como se tivesse acabado de voltar de uma briga de bar. Olhou para o caderno de novo.

E se aquilo fosse uma lista de acerto de contas? De vingança?

Serena não permitiu que o pensamento se assentasse.

Bucky não era daquele jeito. Não acreditava nem por um instante que ele seria capaz de sair por aí matando pessoas a sangue frio — por mais vis que fossem.

Com um aperto no peito, ela voltou a olhar para o caderno, tentando ligar os pontos, buscando por qualquer coisa que dissesse que estava errada; que ele não estava dando uma de John Wick na calada da noite.

Bucky não era um assassino.

Bucky não era um assassino.

Bucky não era um assassino.

Não era um palpite. Ela simplesmente sabia.

Sabia por que enxergava aquilo em seus olhares doloridos; na forma em como os pesadelos o assombravam e em tudo que viveram juntos nos últimos meses. Ele não era um herói convencional, é claro, mas seu sargento estava tentando ser uma pessoa melhor. Ela sentia aquilo no âmago. Mas...

E se ele a tivesse manipulado por todos aqueles meses?

Se fosse o caso... então, tudo que tinham vivido naquele tempo fora mera ilusão?

Serena arfou. Ele tinha avisado. Desde o começo, ele tinha avisado que não deveria se envolver com ele. Será que estava sendo uma tonta ingênua? Será que tinha perdido todo o bom-senso?

Não, porra. Bucky era... Bucky.

E Serena sabia que havia bondade dentro dele.

Seus olhos voltaram para o caderno.

— Vamos lá, sargento — ela murmurou — prove que estou errada.

Olhou e olhou, mas tudo que encontrou foi uma lista de coisas aleatórias como comida, filmes — nada que fizesse sentido para ela — e... mais nomes.

Uma lista interminável — muitos riscados em vermelho-sangue — até que, na última folha, como se fosse uma pequena nota de rodapé, ela viu.

Era impossível não o fazer, não quando avistara o próprio nome escrito com tanta força que manchava a folha de trás, com um risco embaixo para enfatizar.

̶*̶M̶e̶n̶i̶n̶a̶ ̶I̶n̶u̶m̶a̶n̶a̶ ̶

SERENA VALENTE

O caderno então escapou de suas mãos.

Não, não, não.

Bucky... merda.

Bucky sabia.

Sabia o que ela era.



Notas finais
Olá! Bom antes de mais nada, peço perdão pelo sumiço no sabádo. Houve um pequeno imprevisto que me impediu de postar (e eu nunca consigo programar por aqui). Aproveitando, a partir de agora como vocês devem ter notado, a história começa a se encamnhar para o desfecho. E, sinceramente, estou bastante ansiosa com isso. A percepção de vocês ajuda bastante. O que estão achando? Tem algum comentário a fazer? Eu sou muito aberta para conversas (minha querida leitora, May Castro sabe bem disso) e gosto muito ver o ponto de vista de vocês. Bom, por enquanto é isso, Beijão e até mais!